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sábado, 9 de junho de 2012

O Estado e a mulher que aborta

Essa é a mais emocional das questões políticas e morais que o Brasil enfrenta. É possível chegar a um consenso?

Cristiane Segatto

Em 2007, o médico José Gomes Temporão assumiu o Ministério da Saúde com uma demonstração de audácia. Foi a primeira autoridade a defender publicamente um plebiscito sobre a legalização do aborto. Apostei que duraria pouco no cargo. Felizmente, perdi a aposta. Seria lamentável se, em pleno século XXI, um ministro fosse obrigado a deixar o posto por estimular a discussão em torno de uma das principais causas de mortalidade materna no país.

O ministro não perdeu o cargo, mas o assunto se perdeu. Bem ao estilo brasileiro, a verdade inconveniente, difícil, impopular foi evitada. Não era um tema agradável, principalmente quando uma eleição presidencial se aproximava. Azar das milhares de mulheres que, a cada ano, sofrem graves consequências ou morrem em decorrência de abortos clandestinos. Quase todas são pobres, sem acesso a clínicas confortáveis, anestesia, assepsia e outros cuidados médicos e psicológicos reservados às mulheres de classe média-alta que decidem abortar.

Nesta semana, o assunto voltou a ser notícia. O Ministério da Saúde discute a adoção de medidas para proteger a saúde das mulheres que abortam clandestinamente. A ideia é reproduzir no Brasil um modelo aplicado no Uruguai desde 2004. Em tese, funcionaria assim: se uma paciente chegar a uma unidade de saúde dizendo que pretende abortar, os médicos devem submetê-la a exames e explicar os riscos envolvidos num aborto clandestino. E também falar sobre a possibilidade de levar a gestação adiante e, ao final, entregar o bebê para adoção.

Caso a mulher esteja decidida a interromper a gravidez, o dever do médico seria perguntar como ela pretende abortar. E explicar que alguns métodos são altamente arriscados. É o caso, por exemplo, da introdução no útero de arame ou madeira por meio de uma sonda de borracha – um artifício tosco, mas bastante difundido nas periferias brasileiras.

O instrumento é colocado no útero por enfermeiras ou pessoas sem nenhuma formação na área de saúde. A mulher é instruída a voltar para casa e retirá-lo depois de 24 horas. Quando começar a sangrar, deve procurar um hospital público dizendo que sofreu um aborto espontâneo. Muitas mulheres sofrem infecção, hemorragia, perdem o útero ou morrem. O Ministério da Saúde quer evitar que barbaridades como essa continuem acontecendo. 

Segundo a proposta em discussão, os médicos passariam a orientar as mulheres decididas a tomar o  remédio. Explicariam como usá-lo e qual é a dose ideal, de forma a reduzir o risco de complicações. É possível que o governo crie uma cartilha para orientar os profissionais sobre o que fazer quando atendem uma paciente antes ou depois do aborto clandestino.Outro ponto em discussão é o uso do misoprostol (Cytotec), remédio contra úlceras gástricas que, como efeito colateral, pode provocar sangramento e aborto. Ele é considerado o método abortivo mais usado no país. Apesar de ter venda restrita, é facilmente adquirido, de forma ilegal, pela internet. Se usado incorretamente, pode provocar hemorragia e levar à morte.

Se o plano do Ministério da Saúde for levado adiante, o embate com os grupos religiosos no Congresso será inevitável. Virão à tona os mesmos argumentos usados quando o debate gira em torno da legalização do aborto. Quem é contra argumenta que todos têm direito à vida (não só a mulher) e que a vida começa no momento da concepção. Defende também que o governo invista em planejamento familiar em vez de acolher a mulher que pretende abortar.

O outro lado sustenta que a liberdade de escolha da mulher é um direito inviolável. Afirma também que a vida só deve ser protegida pelo Estado a partir da formação do sistema neurológico do feto (por volta das 18 semanas). E, sobretudo, que o aborto é uma questão de saúde pública.

A cada ano, cerca de 220 mil mulheres procuram o SUS para fazer raspagens do revestimento uterino, um procedimento chamado de curetagem, necessário depois de abortos. O Ministério da Saúde gasta cerca de R$ 35 milhões por ano com a internação de mulheres que sofreram complicações por causa de abortos ilegais.

É preciso olhar a realidade pela perspectiva dessas mulheres e dos profissionais de saúde que, todos os dias, são confrontados com as consequências da clandestinidade do aborto. Fingir que os danos sofridos por essas mulheres não existem é omissão de socorro. Algo incompatível com a função dos médicos e com o juramento que fizeram ao receber o diploma. Médico não é delegado. Médico não é juiz. Sua obrigação é reduzir o sofrimento da cidadã que o procura – e não prejulgá-la, escorraçá-la, abandoná-la.

O aborto é um fenômeno social que não vai deixar de existir apenas porque é proibido. Tal qual o uso de drogas. Do ponto de vista da saúde pública, cabe ao Estado encontrar formas de reduzir os danos sofridos por quem o pratica.

A discussão é urgente e mais que bem-vinda. Há argumentos respeitáveis de ambos os lados. Será que algum dia o debate poderá ocorrer em alto nível – sem as baixarias e as distorções habituais? Uma reflexão sobre o assunto foi feita pelos médicos Aníbal Faúndes e José Barzelatto no livro O drama do aborto: em busca de um consenso (Editora Komedi). Reproduzo aqui um trecho:

As pessoas razoáveis têm diferentes crenças e pontos de vista acerca do que é certo e do que é errado. Dessa forma, aceitar a existência de um “pluralismo razoável” parece ser um requisito para as sociedades democráticas. Além disso, pessoas razoáveis, com diferentes visões gerais, podem identificar e expandir algumas ideias e valores comuns.

Identificar esse consenso básico que orienta a vida em sociedade, não interfere na liberdade dos indivíduos nem é obstáculo para que cada grupo diferente de pessoas mantenha a sua própria visão de moralidade e guie suas ações pessoais por essa visão.

Um “consenso básico”, entretanto, lhes permite aceitar que outras pessoas possam atuar diferentemente, dentro de limites razoáveis, seguindo sua própria visão global do que é certo e do que é errado.

Os autores propõe nove pontos para orientar o diálogo e levar a sociedade a um consenso. Um breve resumo:

1) O aborto inseguro é uma tragédia para a saúde pública. Uma tragédia que poderia ser evitada.

2) O respeito pelas pessoas é um princípio ético básico aceito pela maioria. É um dos fundamentos da democracia. Inclui a liberdade de crença religiosa e o respeito pelas diferentes crenças. As sociedades que pretendem definir um consenso prático sobre aborto devem incluir diferentes sistemas de valores e diferentes perspectivas religiosas, entendendo que nenhuma religião pode impor seus valores sobre aqueles que não professam essa fé.

3) As mulheres são seres humanos com os mesmos direitos que os homens, incluindo seu direito a decidir livre e responsavelmente acerca de sua sexualidade.

4) Educação em saúde sexual e reprodutiva sem preconceitos não leva a atividade sexual indiscriminada, mas promove uma conduta sexual mais responsável e reduz as gravidezes não desejadas e os abortos.

5) Acesso fácil a métodos contraceptivos efetivos, por meio de serviços de boa qualidade, não promove promiscuidade e é um dos meios mais eficazes de reduzir os abortos.

6) Não é raro que as mulheres provoquem um aborto por falta de apoio familiar e social. As sociedades devem desenvolver ações efetivas de apoio às mulheres grávidas que desejam realizar a função exclusivamente feminina de levar a gravidez até o termo permitindo a continuidade da espécie humana.

7) Fazer com que o aborto seja um crime, e penalizar a mulher que aborta não reduz o número de abortos, mas leva a um grande aumento do sofrimento humano e à morte, dando espaço a um mercado de abortos clandestinos e inseguros. As leis que tratam deste assunto devem obedecer a limites socialmente aceitáveis.

8) Quando uma mulher preenche as condições necessárias para obter um aborto de acordo com a lei de seu país, ela deve ter fácil acesso a serviços de aborto seguro.

9) A maior parte das mulheres tem gravidezes não desejadas e abortos provocados como resultado da incapacidade da sociedade de proteger seus direitos. O aborto é uma decisão tomada como última alternativa. A sociedade deve assegurar que as mulheres que sofrem complicações de aborto legal ou ilegal sejam tratadas com todo o respeito e recebam atendimento da mesma qualidade que qualquer outra pessoa que procure ajuda médica nos serviços de saúde.

Alguns desses raciocínios parecem óbvios. A realidade tem mostrado que, infelizmente, ainda não são.

E você? Acha que é possível que a sociedade brasileira chegue a um consenso sobre o aborto? Queremos ouvir sua opinião.

Trafico de Pessoas Entrevista Dr. Rinaldo Barros TJGO

Vídeo da Campanha contra o tráfico de Pessoas

quinta-feira, 7 de junho de 2012


CPMI investiga situação de violência contra as mulheres em Alagoas
Comissão Parlamentar Mista de Inquérito realizou audiência pública nesta sexta na ALE. Alagoas é o 2º estado onde mais se matam mulheres no país
Presidente e relatora da CPMI vieram investigar
situação alarmante em Alagoas
Dia três de agosto de dois mil e onze. A professora Caludenice Oliveira Pimentel, de 49 anos, foi agredida e morta em um incêndio em sua própria casa provocado por seu companheiro, o policial militar José Cabral do Nascimento. Dez dias antes, a professora procurou a Delegacia Regional de Arapiraca, cidade onde residia, para denunciar as constantes ameaças de morte que sofria do próprio marido. Uma guarnição da PM chegou a ir ao local, mas nada fora feito. Naquela noite de agosto, Claudenice foi assassinada depois que o militar espalhou gasolina na casa e ateou fogo.
Alagoas, segundo dados do Instituto Sangari/Ministério da Justiça, é o segundo do país em que mais se matam mulheres, ficando atrás apenas do estado do Espírito Santo. Enquanto a média nacional é de 4.4 homicídios para grupo de 100 mil mulheres, o Estado tem mais que o dobro da média, 8.3 mortes por ano. Só em 2011, 142 mulheres foram mortas. Em 2008 esse número não passava de 86. Os dados mostram também a interiorização da violência. Enquanto Arapiraca ocupa o 4ª lugar do ranking nacional, a capital Maceió fica com o 14º lugar.
Os casos de femicídio no Estado chamaram a atenção da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do Congresso Nacional, que nesta quinta-feira (31) desembarcou em Maceió para recolher dados para o relatório que deverá ser finalizado em 180 dias. A CPMI faz levantamento das questões sociais, de políticas públicas e quais ações estão sendo feitas para o enfrentamento da violência contra a mulher no País. Ainda na quinta-feira, as componentes da comissão, a senadora Ana Rita (PT-SP) e relatora da CPMI, e a deputada Jô Moares (PCdoB –MG), presidente da mesma, flagraram um dos motivos que impedem muitas mulheres de serem ajudadas em casos de violência.
Na entrada do plenário, cruzes com no...
Elas visitaram uma das unidades específicas em Maceió, a Delegacia da Mulher que fica no Centro. Ao chegarem se depararam com a irmã de uma vítima que tinha procurado a polícia para denunciar seu cunhado. Porém, a delegacia estava fechada por causa do regime de plantões. Como havia funcionado no dia anterior, na quinta-feira estava fechada por falta de contingente. “Chegamos à delegacia e nos deparamos com aquela situação. Havia uma delegada no local, mas ela só estava lá porque iria nos encontrar. Pedimos que ela registrasse a denúncia”, relatou a senadora Ana Rita, informando ainda que a CPMI solicitou ao Governo do Estado o fim do regime de plantões nas delegacias da Mulher, o que será prontamente atendido.
“Os dados de Alagoas nos assustam. É uma taxa inaceitável de violência contra as mulheres e deve ser prioridade do poder público e da própria sociedade combatê-la. Temos em todo o país mulheres com mortes anunciadas, que já procuraram apoio do poder público e que não encontraram no momento certo, na hora certa”, declarou a senadora, alertando que além do medo de denunciar o agressor, as mulheres enfrentam obstáculos daqueles que deveriam estar prontos para darem auxílio em momentos de vulnerabilidade.
Na audiência pública realizada nesta sexta-feira (01) na Assembleia Legislativa de Alagoas (ALE), a composição da mesa e dos presentes chamou a atenção. Dos deputados estaduais da Casa, apenas o deputado Judson Cabral (PT) esteve presente à audiência, que teve a participação das parlamentares Flávia Cavalcante (PMDB) e Patrícia Sampaio (PT). Do Legislativo municipal, apenas a vereadora Tereza Nelma (PSDB) participou. Além da ausência dos políticos homens, a maioria dos presentes eram mulheres ligadas aos movimentos , como a Marcha Mundial de Mulheres e a ONG Maria Mariá.
Presidida pela deputada Jô Moraes, a audiência “sabatinou” os principais órgãos do poder público acerca das ações que estão sendo postas em prática em Alagoas para o combate à violência contra a mulher. O primeiro a prestar esclarecimentos à CPMI foi o secretário de Estado da Defesa Social, o coronel Dário César. Em entrevista ao Primeira Edição, o secretário disse se preocupar com os números alarmantes de mulheres assassinadas e que o Governo está trabalhando para remediar isso.
“Nós temos algumas ações direcionadas para o grupo feminino. Além das delegacias especializadas em Maceió e em Arapiraca, estamos reformando três unidades em Maragogi, São Miguel dos Campos e Delmiro Gouveia para abrigar o Núcleo de Atendimento à Mulher. Nós temos hoje no Estado 30 casos de agressores presos com base na Lei Maria da Penha, isso tem sido um parceiro no combate a casos de violência da mulher”, revelou.
Ao responder às perguntas feitas pela relatora da CPMI, Dário César explicou como está o andamento das ações do Pacto Nacional de Enfrentamento à Violência Contra a Mulher, assinado em 2010, ano que Alagoas recebeu da Secretaria de Políticas para as Mulheres do Governo Federal R$ 10 milhões para serem investidos na causa. Segundo o secretário, os agentes estão sendo capacitados para atender esses casos específicos, através da Secretaria de Estado da Mulher, da Cidadania e dos Direitos Humanos.
“Alagoas é um Estado machista, coronelista e isso reflete no enfrentamento da violência contra a mulher. Nossos policiais estão sendo capacitados para lidar com essas situações”, disse. Ainda segundo o coronel o novo plano de segurança pública que está sendo elaborado entre o Governo junto ao Ministério da Justiça haverá um capítulo que tratará apenas dos casos de violência contra as mulheres de Alagoas, que compõem 51% da população total.
Segundo dados apresentados pela Secretaria de Estado da Mulher, da Cidadania e dos Direitos Humanos à CPMI, até o ano que vem mais de 1.200 profissionais passarão por capacitações para atender casos específicos através dos Centros de Referência que serão criados pelo Governo de Alagoas no interior.
Representantes da Defensoria Pública e do Ministério Público Estadual também foram ouvidos. Os dados colhidos em Alagoas farão parte do relatório final da CPMI.


Governo prepara cartilha para mulher que decide abortar

Ministério e especialistas começam a discutir orientações para que procedimento seja feito com segurança


LÍGIA FORMENTI / BRASÍLIA - O Estado de S.Paulo
O Ministério da Saúde e um grupo de especialistas se reúnem na segunda-feira para discutir um programa para aconselhamento de mulheres que decidiram abortar. Formada por médicos, antropólogos, juristas e cientistas sociais, a comissão vai sugerir a formulação de uma cartilha, com orientações para que o procedimento seja feito com segurança. O material deverá conter alertas sobre sintomas que podem sugerir complicações no procedimento, como febre e sangramento.
"A intenção é fecharmos o material de orientação em, no máximo, um mês", afirmou o coordenador do Grupo de Estudos sobre o Aborto da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Thomaz Gollop.
A rodada de discussão termina no fim do mês, em São Paulo. O formato final do programa será definido pelo ministério. A cartilha conteria, por exemplo, informações para mulher escolher o lugar do procedimento.
"Recomendações, por exemplo, para ela observar a higiene do local, a pessoa encarregada do procedimento. Em suma, a pessoa deve fugir dos serviços de fundo de quintal", disse Gollop.
O grupo foi convidado pela pasta para preparar um programa de redução de danos para aborto, a exemplo do que ocorre no Uruguai e na Cidade do México, para reduzir a morte de mulheres por complicações. No Uruguai, um grupo interdisciplinar faz o aconselhamento. Uma das opções é a oferta do misoprostol, remédio para tratamento de úlcera que é abortivo.
Gollop afirma o grupo não tem ainda um posicionamento sobre esse assunto. "Embora a prescrição seja bastante segura e tenha reduzido de forma significativa o número de complicações, a realidade do Brasil é outra. Temos várias dúvidas." No Brasil, o misoprostol é remédio de uso hospitalar.
Integrante do Movimento Católicas pelo Direito de Decidir, Rosângela Talib, admite a dificuldade: "Sem mudanças, seria o mesmo que encaminhar a paciente para o primeiro camelô da esquina."
"Não é um sistema para incentivar o aborto, mas aconselhar a mulher que já tomou sua decisão", afirma Rosângela. O aconselhamento, completa, é uma reivindicação antiga do movimento feminista.
Em nota, a pasta diz manter uma política para orientar profissionais no atendimento de intercorrências clínicas relacionada à gravidez e o processo precisa ser constantemente aprimorado.

Leymah Gbowee: "Ganhar o Nobel me afastou das pessoas"
Ela apanhou do marido, foi alcoólatra e viu os filhos passarem fome. Anos depois, criou uma rede de mulheres que ajudou a acabar com a guerra civil da Libéria, na África, derrubando o ditador Charles Taylor, condenado pelo Tribunal Especial de Serra Leoa (TESL) por crimes de guerra nesta quinta (26). Confira a entrevista exclusiva na qual Leymah Gbowee fala sobre o livro que lançará no Brasil, o Nobel da Paz que conquistou e a situação na Libéria
Por Marina Caruso, de Nova York

Na sede da Fundação Gbowee para a Paz, no Lower East Side, em Nova York, Leymah Gbowee despacha a portas fechadas. Da antessala, escuta-se o vozeirão aveludado da ativista que, em novembro, dividiu o prêmio Nobel da Paz com a presidenta da Libéria Ellen Johnson Sirleaf e a iemenita Tawakkul Karman. Uma menina negra de trancinhas coloridas e bumbum arrebitado por uma fralda descartável corre em direção à porta. É Jaydyn, 2 anos, a caçula dos seis filhos de Leymah. Vestido longo e turbante estampados, Leymah abre a porta, sorri e espalha lápis e papéis sulfite pelo chão. Depois, diz que a menina acompanhará “quietinha” a entrevista.
Aos 40 anos recém-completados, Leymah parece à vontade em sua elegância étnica. Tira as sandálias de dedo com as pontas pés e os repousa sobre a mesa, entre panfletos e livros que falam de paz. O assunto a interessa desde os 17 anos, quando viu a Libéria se transformar no país da carnificina. Na ocasião, o presidente fora deposto por guerrilheiros que ficaram no poder até 2003 e contribuíram para a morte de 250 mil habitantes e o estupro de 50% da população feminina. Os detalhes dessa luta estão no livro Mighty Be Our Powers: How Sisterhood, Prayer and Sex Changed a Nation at War (“Louvados sejam nossos poderes: como as mulheres, a oração e o sexo mudaram uma nação em guerra”), que chega este ano ao Brasil. Na obra, Leymah conta como chamou atenção da opinião pública com uma greve de sexo e revela a luta pessoal contra o alcoolismo e a violência doméstica. Aqui, fala sobre tudo isso e o desconforto que o Nobel causou entre suas colegas.

"Fugi grávida e passei por rebeldes
que decoravam as barricadas com cabeças
de jovens assassinados"

Marie Claire É verdade que uma jornalista internacional desistiu de entrevistá-la depois de você responder que não havia sido estuprada?
LG É. As pessoas têm um prazer sádico em contar histórias ruins. Gostam de perpetuar a imagem de que nós, africanas, somos vítimas, pobrezinhas. Não querem triunfos, só dramas. Os jornalistas são capazes de entrevistar mulheres que foram violentadas com canos de armas, sem divulgar como elas superaram isso. Uma colega minha foi estuprada com a ajuda de seus dois filhos pequenos. Os rebeldes os forçaram a segurar suas pernas enquanto a violentavam. Tiraram sua jaqueta, gozaram em cima dela e a deixaram caída num canto. Sabe o que essa mulher fez? Limpou a jaqueta, vestiu-a de volta e saiu de casa sem trocar uma palavra com os filhos porque tinha de buscar comida para eles. Essa parte da história os jornalistas não contam.

MC Até os 17 anos você viveu numa Libéria diferente desta. Como era e o que mudou?
LG Era um país tranquilo até 1989. Famílias das 16 etnias se reuniam para papear. O Natal era celebrado (70 % da população é cristã e o restante é muçulmana ou cultua elementos da natureza). Aos domingos, os pais iam à igreja e exibiam orgulhosos os filhos, de sapatos pretos engraxados e meias coloridas. As meninas trançavam os cabelos umas das outras para ir à escola. E não se falava em gravidez na adolescência. As crianças não viam os mortos, eram proibidas de ir a funerais. De repente, a morte passou a estar por toda parte. A gente acordava e via um corpo na rua. O anormal virou normal e vice-versa.

MC De onde vem o ódio que deflagrou a guerra?
LG É muito antigo. A Libéria foi colonizada por escravos afro-americanos devolvidos pelos Estados Unidos, em 1822, com a desculpa de que lá teriam mais liberdade, direitos iguais, e foi o oposto. Escravos de outras nações africanas também foram enviados para a Libéria e criaram um grupo de elite que ficou no poder até 1980 (leia mais sobre a história da Libéria ao final da entrevista), quando as guerras civis começaram. Charles Talyor, o último ditador, perpetuou um ódio que já existia.

MC Como começou sua luta pessoal contra a violência?
LG Em 1996, os rebeldes de Taylor se aproximaram da minha casa. Meu marido estava fora e eu, grávida de cinco meses, fugi com os meus filhos, então com 2 e 3 anos. Passei por bloqueios de rebeldes de diferentes etnias que decoravam suas barricadas com cabeças de jovens recém-assassinados. Fui para a casa dos meus pais, num bairro mais distante. Éramos cinquenta parentes em apenas três quartos. Ali era mais seguro, porque meu pai conhecia gente que sabia do avanço dos rebeldes. Mas a comida não dava para todos e, uma vez, meu Joshua (o primogênito) disse: “Tenho tanta fome, mãe. Só queria um pedaço de bolo”. Eu não tinha nada para dar para ele, nem pão. Doeu demais ver que meus filhos só conheciam a vida na fome. Então, estudei para ser assistente social e trabalhei por dez anos com as crianças soldado (que matavam em troca de de comida e de um poder imaginário). Foi quando vi que apenas nós, mães, podíamos fazer algo para mudar a vida das crianças e montei a Women Peacebuilding Network, rede que uniu muçulmanas e cristãs na luta pela Paz.

MC Cristãs e muçulmanas não se estranharam?
LG Um dia sonhei que uma voz me dizia para reunir mulheres para rezar, pois juntas iríamos acabar com a guerra. Acordei, corri para a igreja luterana em que trabalhava como voluntária e contei para o pastor. Ele disse: “O sonho é seu. Você é quem deve honrá-lo”. Procurei, então, a presidente da organização das mulheres luteranas e passamos a nos reunir para rezar. Aos poucos, fomos chamando outras igrejas protestantes e a atenção das muçulmanas, que se engajaram na luta. Líamos trechos da Bíblia e do Corão que falavam da força transformadora das mulheres. Nesses livros, elas não ficavam só rezando, não. Iam à luta. E isso nos encorajou tanto que, em 2001, nos vestimos de branco e fomos fazer piquete num campo de futebol que ficava no trajeto diário do ditador Charles Taylor. No início, éramos vinte ou trinta mulheres protestando todos os dias. Em dois anos, viramos duas mil.

MC Qual a sua opinião sobre o posicionamento da presidenta da Libéria Ellen Johnson Sirleaf em relação ao homossexualismo? 
LG Na minha opinião, não deveria existir discriminação contra um indivíduo com base em sexo, raça, etnia ou sexualidade. Acredito que a África ainda não está madura para a discussão sobre casamento gay. No entanto, continua aceitando práticas culturais como a exploração sexual de meninas menores de idade, adultério e outros atos considerados errados enquanto condena atividades sexuais entre pessoas do mesmo sexo. 

"Deus me abençoou com filhos lindos e um belo trabalho.
Mas escolheu que eu não seria feliz no amor"

MC Como surgiu a ideia de fazer uma greve de sexo?
LG Estávamos exaustas depois de protestar um dia todo. Aí, Assatu­, uma muçulmana do grupo, disse: “Estamos fazendo de tudo para mudar a sociedade. Mas e os homens que são contra a guerra: por que não fazem coisa nenhuma?”. Pensei no que poderia atraí-los para as discussões de paz e Assatu disse: “Já sei, vamos fazer uma greve de sexo. Se os homens perderem o que mais gostam, vão fazer de tudo para recuperar, inclusive ajudar a parar a guerra (largando as armas, orando, negociando ou acolhendo as crianças órfãs, por exemplo). Nas comunidades rurais, deu mais certo. Elas convidaram os homens para irem à Igreja e disseram: “Vocês concordam em rezar e jejuar pela paz do nosso país?”. Eles disseram “siiiim”. E elas: “Mas o jejum só é verdadeiro se você abrir mão de todos os prazeres, não só da comida, certo?”. Eles disseram “siiiim”, e elas continuaram: “se o sexo é o principal deles, então vocês concordam em se abster do sexo se isso nos trouxer a paz?”. Como a nossa cultura é muito religiosa, os homens não conseguiram dizer não.

MC Quanto tempo essas mulheres ficaram sem transar?
LG Dois anos.

MC Você inclusive? Foi difícil?
LG Eu também, claro. Difícil era o que estávamos vivendo. Não se tem libido quando a morte está por todos os lados. Anunciar uma greve de sexo foi a maneira que encontramos de chamar atenção da opinião pública.

MC Não teve medo de haver um estupro coletivo?
LG Nas cidades mais urbanizadas, as mulheres já eram abusadas­ por seus maridos e por rebeldes. Durante uma guerra civil, os homens que não estão matando, e não estão morrendo, estão escondidos para sobreviver. E sabe ­como eles se escondem? Com a ajuda das mulheres, logo, eles nos deviam isso. Ou seja, os homens deviam suas vidas às mulheres.

MC O que fez de você uma mulher, assim, tão forte?
LG Meu pai, que trabalhava como técnico de rádio, era feminista. Foi capaz de abrir mão de uma tradição de homens de família para proteger as cinco filhas. Na África, é costume entre etnias muçulmanas ou cristãs que os pais submetam suas filhas à mutilação genital em rituais secretos, para ganhar o respeito da sociedade. Mesmo assim, ele foi contra. Com ele, aprendi a acreditar que a gente pode mudar as coisas. Com ele e com essa voz que sempre ouvi sussurrar “vai passar, vai passar”.

MC Que vozes são essas? As mesmas do sonho?
LG Sim, ouço desde garota, mas não sei de onde vêm e só comecei a dar atenção a elas aos 20 anos. Me lembro de ouvi-la quando engravidei do Joshua. No meu sonho, a voz me disse que eu esperava um garoto.

MC Qual foi o momento mais difícil da luta pela paz?
LG Se você fizer essa mesma pergunta a outras mulheres que lutam, vai ver que nenhuma é uma garotinha feliz. Tenho uma amiga que diz que é culpa do feminismo. “Vocês feministas nunca conseguem manter os homens por perto” (risos). É bem verdade e fui muito chacoteada por isso. Na África, para ser bem-sucedida, você tem de ter um casamento legal. Eu vivi com o Tunde, meu segundo marido, por quase dez anos (entre 1998 e 2008), mas ele não era divorciado no papel e fui hostilizada por isso. Virei motivo de piada na igreja. As pessoas cochichavam, falavam de mim pelas costas. Tinha dias em que eu acordava pensando “eu não mereço” e bebia, me deprimia. Pensei em desistir, mas fui acolhida por uma muçulmana que leu uma passagem do Corão sobre as imperfeições humanas. Diante do grupo, ela disse que quem não fosse capaz de conviver com a diversidade deveria se retirar da turma de orações. Mais da metade saiu.

MC Como suas colegas reagiram ao Nobel?
LG Meu círculo social encolheu. Fiquei desapontada com alguns amigos. A primeira foi uma amiga­ jornalista com troquei confidências por anos. Tinha­ acabado de saber do Nobel e, enquanto esperava um voo, liguei­ para ela para contar do prêmio e para saber como ela estava­, pois tinha saudade. Depois de uns minutos, vi que ela perguntava coisas técnicas e específicas do Nobel. Foi quando percebi que estava sendo entrevistada e desliguei. Hoje sei que preciso tomar cuidado com o que eu digo para não virar manchete. Dentro do nosso grupo de orações, a reação também foi complicada. Cheguei animada dizendo “nós ganhamos” e algumas disseram: “não, você ganhou”. Mas o dinheiro (500 mil dólares) foi revertido para a instituição. Prefiro olhar para as coisas boas­. O Nobel me ajudou a conseguir mais de cinquenta bolsas de estudo integral para meninas africanas que não tinham nem o direito de sonhar com isso.

"Apanhei por 
cinco anos do meu marido e ainda assim tive quatro filhos 
com ele"

MC E você? Questionou se merecia o prêmio?
LG Se Deus me escolheu, deve ter sua razão. Há mulheres mais espertas do que eu no grupo? Sem dúvida. São elas mais fortes do que eu? Sim. Mas se ele me escolheu, não posso me sentir culpada. Seria desfeita. Se aconteceu assim, é porque eu e as outras mulheres temos a aprender com isso. O mesmo vale para a nossa vida pessoal. Deus me abençoou com um trabalho incrível e seis filhos lindos. Mas escolheu que eu não seria feliz no amor.

MC Você está com James, o pai de Jaydyn, há quatro anos. Não é feliz com ele?
LG Sou. Essa é minha primeira relação tranquila. Mas nesse assunto todo cuidado é pouco. A sociedade nos julga, nos faz acreditar que cabe à mulher manter uma família perfeita. E que, mesmo apanhando, ela deve insistir nisso. Mas isso é mentira. A culpa pode não ser sua, mas do monstro com quem se casou. O homem que bate tem baixa autoestima e só consegue se sentir melhor diminuindo a mulher.

MC Como se pode ajudar?
LG Não julgando quem apanha. Quanto mais você julga, mais você empurra a pessoa para longe de você e para perto do agressor. Quando minha família soube­ que o Daniel me xingava e me batia, me condenou por continuar com ele. Isso só me aproximou mais dele. Em cinco anos e meio com Daniel, tive quatro filhos. Pensava: “preciso ter um bebê que as coisas vão melhorar”. Achava que transando com ele e colocando filhos seus no mundo ele ia parar de me bater. Imagine... Só parou quando consegui­ me desvencilhar daquilo, fui morar fora (Leymah fez especialização em psicologia pós-trauma na Universidade de Virginia, nos EUA) e deixei meus filhos com meus pais e minha irmã.

MC Foi nessa época que você começou a beber?
LG A bebida era uma forma de estancar a saudade que eu sentia dos meus filhos. Tive muita dificuldade de escrever sobre isso no livro, porque sei o quanto os expõe (há uma passagem em que ela diz “É duro admitir, mas me lembro de uma vez em que meus filhos contabilizaram as taças de vinho que eu havia tomado. Foram catorze, em uma noite só”). Outro dia Joshua, que como todo jovem toma seus goles, me disse que ia parar. Ele tem medo de ser o “filho da laureada, que bebe”.

MC Que tipo de mãe você é?
LG A melhor que a vida me permitiu. Tenho ao todo seis filhos. Do casamento com Daniel são: Joshua, 19, Amber, 18, Arthur 16 e Pudu, 14. Com Tunde adotei Ma Lou, que hoje tem 14, e com James tive Jaydyn, de 2. Olhando para trás, faria tudo de novo, inclusive casar com Daniel. Tive filhos lindos com ele e aprendi a ser forte. Se nossa relação tivesse dado certo, eu não estaria aqui hoje. Os abusos me fizeram muito mais forte, me fizeram estudar, trabalhar, mudar. Mas isso não pode servir de exemplo. Nenhuma mulher merece encontrar sua força passando pelo que eu passei.

MC Você já fez terapia?
LG Faço sempre. Deus é meu psicólogo invisível e a gente conversa sobre as minhas provações e as de crianças e mulheres africanas. Tenho três músicas especiais, para tocar no carro, enquanto dirijo e converso com ele. Uma delas é “The Rock”, da Whitney Houston. O carro é meu consultório e Deus meu psicólogo.


Frente parlamentar debaterá violência contra idosos

Arquivo/ Alexandra Martins
Vitor Paulo

Vitor Paulo: é preciso conscientizar a população sobre os direitos dos idosos.
A  Frente Parlamentar  em Apoio ao Idoso promoverá na terça-feira (12) o debate “Quem maltrata o idoso não fere apenas o corpo, mas apaga toda a sua história”. O evento será realizado em parceria com a Secretaria Especial do Idoso do Distrito Federal, em alusão ao Dia Mundial de Combate à Violência contra a Pessoa Idosa, comemorado em 15 de junho.
O presidente da frente parlamentar, deputado Vitor Paulo (PRB-RJ), disse que o debate servirá para conscientizar a população sobre o direitos da pessoa idosa e incentivar ações de combate à violência contra idosos.
O encontro será realizado às 15 horas, no auditório Freitas Nobre, da Câmara. Entre os convidados estão a presidente da Frente Parlamentar Mista de Promoção e Defesa dos Direitos da Pessoa Idosa, deputada Flávia Morais (PDT-GO); o secretário do Idoso do DF, Ricardo Quirino; e o presidente da Associação dos Aposentados, Pensionistas, Idosos da Previdência Social do DF e Entorno (Asaprev-DF), João Pimenta.
Conselho nacional do idoso
Na quinta-feira (14), a frente parlamentar promove, em parceria com a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, o seminário “Dez anos do Conselho Nacional dos Direitos do Idoso”. O evento vai discutir a situação dos idosos no Brasil e os avanços e desafios das políticas públicas sobre o envelhecimento.

Criado em 2002, o CNDI atua na elaboração de diretrizes sobre a Política Nacional do Idoso e no acompanhamento da efetivação do Estatuto do Idoso (Lei 10.741/03).
O seminário também terá os seguintes debates:
- “O panorama dos dez anos do CNDI: avanços e desafios”, com a presidente do CNDI, Karla Cristina Giacomini;
- “A realidade do envelhecimento no Brasil a partir dos dados demográficos do Ipea”, com o técnico do Ipea Heverton Ellery Araújo;
- “Práticas institucionais de cuidado e violência contra idosos”, com a socióloga Lourdes Maria Bandeira;
- “Papel do Conselho Nacional dos Direitos do Idoso e demais conselhos na elaboração de políticas públicas para o envelhecimento ativo”, com o professor Vicente de Paula Faleiros.

A ministra da Secretaria de Direitos Humanos, Maria do Rosário, também participará do evento.
O seminário será realizado a partir das 10 horas, no auditório Freitas Nobre. Os debates prosseguirão no turno da tarde, no Plenário 2.

Promotora: tráfico de pessoas está relacionado à corrupção de agentes públicos

Alexandra Martins
Seminário. Tema:
Andrea Studnicka integra o grupo de estudos sobre tráfico de pessoas da Universidade Católica de Brasília.
A promotora de Justiça Andrea Studnicka disse que o tráfico de pessoas está relacionado à corrupção de agentes públicos. Ao citar como exemplo a falsificação de documentos, ela sugeriu que o RG seja vinculado ao endereço das pessoas para facilitar as investigações desse tipo de crime.
Andrea Studnicka faz parte do grupo de estudos sobre tráfico de pessoas da Universidade Católica de Brasília (UCB), lançado durante seminário da Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado da Câmara, realizado nesta terça.
Exploração sexual 
O coordenador do seminário, deputado Mendonça Prado (DEM-SE), disse que tanto a comissão quanto a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre tráfico de pessoas devem buscar soluções para o problema: "O tráfico de pessoas é algo abominável, é degradante. Geralmente esse tráfico tem como fim a exploração sexual, o trabalho escravo; ou seja, outras consequências advêm desta situação que nós queremos combater com rigor e com leis mais eficientes"
O pesquisador Carlos Homero Vieira Nina também considera que o tráfico de pessoas está mais relacionado à exploração sexual e atinge pessoas em situação de pobreza e baixa escolaridade.
Alexandra Martins
Seminário. Tema:
Arinda Fernandes: é urgente votar a tipificação do crime organizado.
Mais cedo, o deputado José Augusto Maia (PTB-PE) defendeu a criação de um ministério da segurança pública para tratar destas questões com mais eficiência.
Tipificação de crimes 
A pesquisadora Chefe do Projeto de Pesquisa sobre Tráfico de Seres Humanos do Curso de Direito da UCB e procuradora de Justiça do Ministério Público do Distrito Federal, Arinda Fernandes, solicitou à Câmara dos Deputados que vote logo a tipificação do crime organizado e do terrorismo por considerar que a medida ajudará no combate ao tráfico de pessoas.
A professora da Universidade Estadual da Paraíba Thamara Medeiros disse que, no Mercosul, a Argentina tem a legislação mais avançada sobre a tipificação de crimes de tráfico para a exploração sexual, laboral, para a servidão e para a remoção de órgãos. Já Portugal penaliza também o cliente ou o consumidor do tráfico.


CPI aponta urgência em aprimorar a legislação contra o tráfico de pessoas

Beto Oliveira
Paulo Abrão Jr. (secretário nacional de justiça) e dep. Severino Ninho (presidente)
Abrão: a legislação não enquadra todas as condutas típicas do tráfico de pessoas.
A urgência em aprimorar a legislação contra o tráfico de pessoas foi apontada em audiência pública da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Tráfico de Pessoas.
O secretário nacional de Justiça, Paulo Abrão, explica que o Código Penal (Decreto-Lei 2.848/40) já prevê punição para a exploração sexual, mas esta é apenas uma das várias finalidades possíveis do tráfico de pessoas. O crime pode incluir ameaça, uso de força ou coerção, abuso de poder para finalidades como o trabalho escravo, a servidão para pagamento de dívida, o tráfico de órgãos e a adoção de crianças, segundo Paulo Abrão.
"Hoje a nossa legislação não enquadra todas as condutas típicas do tráfico de pessoas, o que, evidentemente, limita a ação dos organismos de repressão, do sistema de justiça e também, paralelamente, da política de prevenção e assistência às vítimas", explicou o secretário.
A necessidade de avanços na legislação ficou evidente com o episódio relatado pelo presidente da CPI, deputado Arnaldo Jordy (PPS-PA). Ele contou que um delegado da Polícia Federal não pôde agir diante de um flagrante porque o crime de aliciamento para exploração só pode ser caracterizado quando ocorre a exploração. "Temos que criar uma legislação mais holística sobre o tráfico humano, o tráfico de pessoas no ordenamento jurídico brasileiro, nas suas diversas modalidades e aspectos, para fazer frente a essas situações que são novas."
Protocolo de Palermo 
Para uma legislação contra esse tipo de crime, a vice-presidente do Movimento Contra o Tráfico de Pessoas, Cláudia Luna, explicou que o Brasil tem um norte: o tratado que estabelece o Protocolo de Palermo, ratificado pelo País em 2004. O instrumento garante a dignidade das pessoas em condições de tráfico, com direito a programas de inclusão socioeconômica estendida a suas famílias.
Desde 2003, está em tramitação na Câmara dos Deputados, na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania, projeto de lei (PL 2845/03) que estabelece normas para políticas públicas de prevenção e enfrentamento ao tráfico de seres humanos e regulamenta aspectos civis e penais.
A Política Nacional de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas foi implementada pelo governo em 2006. Dois anos depois surgiu o Plano Nacional de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas. Atualmente está em discussão a segunda edição do plano.
O desafio também é atualizar os dados sobre o tema. Os últimos dados sobre o tráfico de mulheres e crianças, por exemplo, são de 2003. Na época, a pesquisa foi usada como subsídio da CPI Mista da Exploração Sexual, que trabalhou entre 2003 e 2004.

Agência Câmara de Notícias