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quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Escravidão foi berço do tráfico para exploração sexual, diz especialista


Livro traça panorama sobre delito presente em todos os continentes e que atrai um número cada vez maior de brasileiras

tráfico de pessoas
Combate deveria envolver políticas públicas e sociais
com foco em educação, trabalho e moradia
Não foi apenas a segregação racial, a desigualdade social entre brancos e negros e o preconceito que a escravidão herdou ao Brasil. Dentre as mazelas do período escravocrata, o tráfico de pessoas para a exploração sexual é produto direto do nefasto comércio praticado no País.
De acordo com a especialista em direito penal Thaís Camargo Rodrigues, embora o primeiro intuito do tráfico de negros para o Brasil não fosse a exploração sexual, muitas escravas foram obrigadas por seus senhores a se prostituir. “Mesmo após abolida a escravidão, era possível encontrar ex-escravas negras na prostituição. Aos poucos, porém, foram sendo substituídas pelas europeias, escravas de outros senhores”, explica a autora do livro Tráfico Internacional de Pessoas para Exploração Sexual (Editora Saraiva). “Hoje vemos desde meninas vendidas no nordeste do País para serem exploradas sexualmente em grandes capitais ou locais de garimpo a jovens pobres (meninas e travestis) traficadas para a Europa, Estados Unidos, Japão, Israel, Venezuela, Suriname.”
No livro, que surgiu de sua dissertação de mestrado em direito penal, defendida em 2012 na USP, ela explica que o tráfico de pessoas, seja para exploração sexual, trabalho escravo ou venda de órgãos, é um delito presente em todos os continentes e suscita a necessidade de uma vigilância internacional, uma vez que envolve graves violações de direitos humanos.
Segundo dados fornecidos em 2010 pelo UNODC (Escritório das Nações Unidas Contra Drogas e Crime), a movimentação financeira envolvida no delito de tráfico de pessoas com fim de exploração sexual para a Europa alcança 3 bilhões de dólares anuais. O número de novas vítimas chega a 70 mil por ano.
Das vítimas traficadas para a Europa Ocidental e Central, 84% são destinadas à exploração sexual. A maior parte é proveniente do Leste Europeu, devido aos problemas políticos e sociais que atingem a região. Mas, ela lembra, “das vítimas com origem na América do Sul, é cada vez maior o número de brasileiras, incluindo transexuais, provenientes principalmente das regiões mais pobres do País”. Portugal, Espanha, Itália e França são os principais países de destinos das brasileiras, que também são encontradas nos Países Baixos, na Alemanha, na Áustria e na Suíça.
A autora observa, ainda, que o século XX trouxe uma espécie de inversão dos fluxos migratórios. “Se no início do século a preocupação era com as escravas brancas, as europeias trazidas para a prostituição nas capitais sul-americanas como Rio de Janeiro e Buenos Aires, desde o final do século XX o que se vê são os países pobres e subdesenvolvidos como fornecedores de pessoas para a exploração sexual em nações ricas, especialmente para o mercado euro-ocidental”, explicou.
Leis. O Brasil, apesar de ter adotado um sistema na política criminal brasileira baseado na “abolição” - que não pune a prostituta, mas sim quem a trafica ou explora -, tem uma legislação insuficiente no combate ao tráfico de pessoas para exploração sexual, de acordo com a autora.
“O Código Penal possui lacunas, e os delitos referentes ao tráfico se apresentam sem sistematização ou proporcionalidade de penas. Mas não podemos pensar apenas em Direito Penal”, alerta. “Sem a cooperação internacional e a implementação efetiva de uma política interna de enfrentamento ao tráfico de pessoas, que adote um trabalho em rede, incluindo entidades estatais e a sociedade civil, não haverá a prevenção ao crime, a punição dos traficantes e exploradores e a proteção e assistência às vítimas.”
Além da estratégia de prevenção no campo legal, seria necessário também incremento de políticas públicas e sociais com foco em pontos fundamentais, como educação, trabalho e moradia.
“Lembremos que, dentre as causas, estão a pobreza, a falta de acesso à educação, de emprego ou de oportunidades, a discriminação de gênero, étnica ou de religião, as crises humanitárias, os conflitos bélicos, os desastres naturais, a globalização, o consumismo”, analisa. “Os países ou locais de origem são, em regra, locais miseráveis, onde há total ausência do Estado (saúde, educação, trabalho), como América Latina, Leste Europeu, África, Leste Asiático.”

Cascavel seleciona famílias para acolher crianças e adolescentes

A Comarca de Cascavel, distante 64 km de Fortaleza, selecionará famílias para receber crianças e adolescentes em situação de acolhimento institucional. Poderão participar casais, mulheres ou homens solteiros, com idade entre 25 e 55 anos. O processo seletivo foi determinado pela juíza Ana Kayrena da Silva Freitas, titular da 1ª Vara. O cadastro será feito entre os dias 1º e 31 de outubro.

Para fazer a inscrição, é necessário ter disponibilidade afetiva; estar em boas condições de saúde física e mental; não possuir antecedentes criminais; e ter situação financeira e convivência familiar estáveis, livre de pessoas dependentes de substâncias químicas.

Na inscrição, é preciso apresentar documentos pessoais (RG e CPF), comprovante de residência e de rendimentos, certidão negativa de antecedentes criminais, além de atestado de saúde física e mental. Ficarão a cargo da equipe técnica do Serviço de Acolhimento do fórum as tarefas de selecionar, capacitar e acompanhar os interessados.

Os selecionados irão fazer parte do programa Família Acolhedora. A iniciativa consiste em cadastrar e capacitar famílias da comunidade para receber, durante período determinado, crianças, adolescentes ou grupos de irmãos em situação de risco pessoal e social.

Quem acolhe assume o papel de parceiro no atendimento e na preparação para o retorno à família biológica ou substituta. Para auxiliar no trabalho, será concedido ajuda de custo de um salário mínimo mensal. Cada família acolhe uma criança ou adolescente por vez. Quando se tratar de grupo de irmãos, o número poderá ser ampliado.

Agentes voluntários - A titular da 1ª Vara da comarca também determinou a abertura de processo seletivo para 10 agentes de proteção da infância e da juventude de Cascavel. A atividade é voluntária, sem remuneração. As inscrições serão realizadas no mesmo período do Programa Famílias Acolhedoras.

O candidato deverá ter idade superior a 21 anos, idoneidade moral, comprovar exercício regular de trabalho e ter concluído o ensino fundamental. Ficará a cargo da assistente social do fórum receber e processar os requerimentos de inscrição. Depois, os candidatos serão submetidos à entrevista com juiz da comarca, etapa que terá a participação do Ministério Público. O agente deve, entre suas principais funções, auxiliar na fiscalização de locais públicos com risco de consumo de álcool por menores de idade e de eventos impróprios para crianças e adolescentes.

Documentos necessários – Para se candidatar, é necessário apresentar curriculum vitae; certidão de nascimento ou casamento; carteira profissional; comprovante de residência e de conclusão do ensino fundamental; certidão de antecedentes criminais expedida pela comarca, bem como folha de antecedentes criminais processada por órgão da Secretaria Estadual de Segurança Pública; cópias da identidade, do título de eleitor e comprovante de quitação com a Justiça Eleitoral; atestado de idoneidade moral; e duas fotos 3x4 recentes.

Os editais com os detalhes dos processos seletivos (Programa Famílias Acolhedoras e Agentes de Proteção) foram publicados no Diário da Justiça Eletrônico do 20 de setembro.

Fonte: TJCE

Caminhada em Campinas em protesto aos feminicídios


terça-feira, 1 de outubro de 2013

As tranças da maturidade.

Por Renata Neder

Quando estive na Tanzânia pela primeira vez, vi muitos meninos e meninas uniformizados indo ou voltando do colégio e uma coisa me chamou a atenção. Reparei que quase todas as meninas tinham o cabelo bem curtinho. Nada de tranças, penteados, apliques. Curtinho mesmo. Achei muito curioso, só poderia ser algum costume muito forte ou mesmo regra das escolas. Resolvi perguntar.
Na ocasião, Ene, uma colega de trabalho da Nigéria, me disse então que o cabelo curtinho é regra na maior parte das escolas lá e em muitos outros países africanos. Disse que não concorda com essa regra e que suas filhas só estudaram em colégios onde elas pudessem ter o cabelo que quisessem.
  (Foto: Divulgação)
Um outro colega, Suleiman, do Quênia, me deu mais explicações: "As meninas nessa idade não sabem cuidar dos cabelos, e isso só daria mais trabalho para as mães. Então, elas só podem ter cabelos mais compridos quando elas mesmas souberem e puderem cuidar. Dá trabalho cuidar dos cabelos, e elas não devem se distrair com isso nessa idade". 
A explicação me fez lembrar de um livro muito lindo que dei de presente há bastante tempo para a minha irmã Nina. O livro se chama "As tranças de Bintou" e conta a história de uma menina que não está nem um pouco satisfeita com o fato de não poder ter lindas tranças nos cabelos como a sua irmã mais velha. Bintou não podia ter tranças porque ainda era uma menina, e menina não deve se preocupar com essas coisas, com vaidade. Tranças são só para mulheres. O livro fala, no fundo, desse rito de passagem.
Sempre presenteei a Nina com livros relacionados à cultura africana e afro-brasileira. Quando ela era pequena, e me deixava pentear seus cabelos cacheados, fazia birotes, trancinhas, tererês e penteados diferentes que valorizavam seu cabelo. Com a história de Bintou, queria apenas ler para ela uma história sensível que valoriza os cabelos negros.
Foi apenas muitos anos depois, em visita à Tanzânia ao ouvir as explicações sobre o cabelo curto das meninas, que atentei para o outro ponto abordado no livro: a vaidade.
Por um lado, é verdade que hoje a estética é uma preocupação muitas vezes excessiva na nossa sociedade. Adolescentes e meninas, cada vez mais novas, concentram muita energia (tempo e recursos) para atender a um determinado modelo de “visual”, quando talvez devessem estar brincando, praticando algum esporte, lendo um livro ou vendo um filme.
Mas, por outro lado, o cabelo, especialmente para nós mulheres, é parte da identidade, reflete quem somos. É quase uma forma de expressão. Entendo que as meninas ainda estão em formação. Mas afinal, quando será que estamos realmente formados na vida? Formação é um processo de vida inteira. E o cabelo, como forma de expressão, deveria também refletir essa busca, esse processo de transformação e formação.
Quando olho para trás, me lembro de quantos cabelos diferentes já usei: aquela franjinha arrepiada com gel ridícula dos anos 80, cabelo curtinho ou longuíssimo, metade raspado e metade pintado de rosa-choque, e por aí vai. Cada um refletia um momento importante. Nunca fui reprimida por ninguém, nem família, nem escola, nem amigos. Verdade que alguns cabelos chamaram atenção e geraram certo desgosto, mas sempre tive a liberdade de usar meu cabelo para me expressar. Não acho que gostaria de ter que usar sempre o mesmo cabelo, qualquer que fosse ele, até estar devidamente "formada" para poder ter essa liberdade de escolha.
No mais, fica a dica do livro "As tranças de Bintou", da editora Cosac & Naify, da autora franco-senegalesa Sylviane Diouf. 
perfil Renata Neder - blog da Ruth (Foto: ÉPOCA)

As relações que nunca acabam.

Em histórias de amor e sexo, os finais são surpreendentes e imprevisíveis.

Por Mônica El Bayeh

  (Foto: Mariana Bastos)

(Foto: Mariana Bastos)

Você tinha o outro como certo e garantido. Quando vê a pessoa está indo embora de mala na mão. E agora? Desacompanhada, carente vai fazer o que? Começar tudo de novo? Como? Com quem? Será que vale a pena?

Um outro parceiro pode ser interessante? Sim, uma possibilidade que se abre. Como todo brinquedo novo, tem seu brilho. Vem bonito, bem embalado, pronto para impressionar. Mas a trabalheira da fase de montagem. A inexperiência de manipular aquele novo equipamento. A necessidade de ficar verificando as instruções. Pode se tornar um pouco cansativo e quebrar o clima animado da brincadeira.

Claro que sempre tem uns super dinâmicos, muito divertidos, de fácil manejo. Você não só rapidamente esquece tudo o que já teve. Como ainda lamenta o tempo perdido e retoma a alegria que havia sido apagada com o luto pelo antigo.

Fases de entressafra são recheadas de criaturas, por vezes chatas, vazias, complicadas, até bem desagradáveis. Quem já passou, sabe bem. É um susto atrás do outro. Aí você decide não descartar de todo o ex. A moda não é reciclar? Então!

Abrindo alguns precedentes, começa com umas ligações mais simpáticas, umas visitas eventuais, uns encontros mais calientes. Customiza o ex e o transforma no popular Peru Amigo. Uma espécie de gambiarra sexual. Alguém conhecido, mais à mão para ser utilizado até que se ache uma melhor opção. Pode ser um amigo, um ficante, um ex. Pode ser uma boa alternativa? Cada um sabe de si. É preciso avaliar bem.

A facilidade alegada no caso do Peru Amigo é a falta de cobranças, compromissos ou coisa que o valha. Precisam, chamam e se suprem. Simples assim, pelo menos na teoria. No caso de seu Peru Amigo ser um ex, pense bem. Ex-amores são mar agitado. Todo cuidado nunca é o bastante. Depois que o calor do momento esfriar, ele se vestir para ir embora, como você vai ficar?

Pode ser cortante ver seu ex-parceiro indo embora mais uma vez depois de um momento tão próximo e íntimo. E insuportável saber que ele está indo embora para os braços de outra pessoa. Você acha que aguenta? Vale mesmo a pena? Prefere arriscar? Se segurar a onda, vai fundo. Se não souber nadar, pense bem.

Parceiro antigo vem com a comodidade de ser alguém que já conhece seu corpo, seu jeito, a facilidade de já saber como encaixa e funciona. É como jogo muitas vezes jogado. Você conhece as regras. Já sabe as armas de que dispõe, onde e como funcionam. O que vence o inimigo e o que não faz muito efeito. Conhece os caminhos, os segredos. É confortável jogar com ele, vocês já tem macetes combinados. A vitória quase sempre é certa para a dupla. E não deixa de ser divertido. Pelo contrário, o que é familiar, descontrai, deixa as pessoas mais à vontade. Relaxado, tudo acaba sendo melhor.

Por essas e por outras, não é raro casais desfeitos continuarem se vendo. Ao contrário, muito mais comum do que se imagina. Só que agora, de acordo com uma nova ordem instaurada. Novas combinações. Inclusive a total falta delas. Sem compromissos, sem tantas cobranças. Deu vontade, ficam.

Não raro, a dor de ter perdido a pessoa, faz reavaliar valores e posturas. Ex-parceiro antes desvalorizado, meio empoeirado na prateleira, agora pode ser desejo de outro. Isso aguça olhares esquecidos. Afinal, se é interessante para outro, será que o descarte foi um erro de avaliação? O desejo do outro cria vontades adormecidas. Lei da oferta e procura. Reacende a possibilidade do desejo na relação. Assim costuma funcionar o desejo humano: eu desejo o desejo do outro.

O peso do compromisso desfeito proporciona uma diferença na relação. As obrigações diárias ficam mais diluídas. A distância dá chance de ter saudade. Com mais leveza a relação rejuvenesce. Agora afastados, mais aliviados, mais leves, começam a se olhar de uma outra forma. Separados, podem se ver diferentes. Não mais tudo junto e misturado. Vários casais reatam e seguem daí uma nova etapa.

Em se tratando de afetos, acho tudo muito relativo. Não há certos e errados. Há o que faz você se sentir bem. E o que faz você sofrer. O que te causa prazer, e o que te causa dor. Não pelo que é dito, e isso é importante. Não pelas palavras doces, promessas ou juras de amor. Palavras o vento leva.

É bom que você avalie pela forma como aquela pessoa te faz sentir quando você está junto dela. É a forma como você se sente que dá o tom da relação. E, principalmente, o estado no qual você permanece depois que ela se vai e de dois, só sobra você. Você fica em estado de graça ou de desespero? Tranquila e satisfeita ou vazia e angustiada?

Algumas pessoas insistem na relação com o ex movidas pela sensação de vingança. Roubou meu parceiro? Pois veja quem é a corna da vez. Essa é a resposta que pensam que estão enviando à atual parceira, aquela mulher...

A vingança pode ser emocionante e apimentar a relação? Talvez, algumas vezes. Mas, só queria entender uma coisa. O ex que te abandonou, agora é premiado com duas mulheres? É isso mesmo, ou meu raciocínio está confuso? Lucro puro!

Em histórias de amor e sexo, os finais são surpreendentes e imprevisíveis. Cada um é livre para construir o seu. O amor do outro é bom. Mas, o seu amor é o que vai te sustentar em pé quando o outro se for. Ele vai te dar forças para acordar a cada dia, te empurrar, te dizer: vai!

As pessoas que esperam que o amor venha do outro, são as mais carentes. As pessoas que se gostam, são as mais atraentes. De que lado você quer ficar?  

A queda

"Blue Jasmine" é uma história séria. Não ouvi um riso na plateia. Como rir da miséria dos outros?

RUTH DE AQUINO

Uma socialite linda, rica, charmosa e elegante, que abandonou os estudos de antropologia para casar-se com um especulador financeiro e jamais trabalhou, cai no abismo quando o marido é preso. Perde tudo, dos sapatos à sanidade. Perde as joias e a autoestima. A mansão com piscina, o Bentley e o Mercedes, as viagens, os amigos. Foge de Nova York com o que sobrou: as malas Vuitton e algumas roupas de grife. Em San Francisco, pede refúgio no apartamento modesto da irmã caçula, divorciada, mãe de dois filhos e caixa de supermercado. Uma irmã que, antes, ela desprezava por falta de classe e por se relacionar com “losers” – perdedores.

A burguesa histérica em queda livre que tenta se reinventar como alguém “mais consistente” é a atriz Cate Blanchett. Ela encarna a anti-heroína de Blue Jasmine, o filme mais recente de Woody Allen, com estreia no Brasil em outubro. Viciada em martíni, vodca e no ansiolítico Xanax, seu nome verdadeiro era Jeanette, mas ela não gostava do som. Por isso mudou para “Jasmine”, mais adequado a suas ambições de hostess da alta sociedade e líder de campanhas filantrópicas.

Assisti a Blue Jasmine na França, na semana passada. É um drama pessoal, que lembra Match point no enredo de amores, mentiras, intrigas e traições. A decadência de Jasmine faz refletir sobre o que interessa na vida. Thriller emocional, o filme tem tudo para agradar a multidões – roteiro, jazz, edição ágil, personagens reais e a atuação magistral de Cate Blanchett, num papel perturbador.

Fácil entender por que as plateias se identificam. A crise do capitalismo e o fim do sonho da abundância fizeram muita gente perder a confiança nos bancos e em investimentos mirabolantes. “Coincidiu com os traumas vividos por americanos. Ricos viraram classe média, a classe média empobreceu, e os pobres perderam o pouco que tinham”, disse Woody Allen. “Mas o contexto social não me interessa, eu me concentrei na aflição de Jasmine, na crise de identidade de uma mulher que acreditava ter tudo na vida.” Ele se diz surpreso com o sucesso. “Sempre espero um desastre. Na Europa, até entendo que o filme possa conquistar. Mas, nos Estados Unidos, os favoritos são os filmes-ca­tástrofes e as comédias familiares. Um filme sério decola automaticamente mal.”

Blue Jasmine é uma história séria. Não ouvi um riso na plateia. Como rir da miséria dos outros? Existe um certo sadismo na massa que vê um ricaço, honesto ou não, perder bilhões e a pose. Ricos são alvos de inveja. Eike Batista poderia dar um depoimento sobre a reação a suas perdas recentes. O filme de Woody Allen não trata de empresários ambiciosos além da conta. E sim de escroques que abusam da boa-fé de investidores. Como Bernard Madoff, preso e condenado a 150 anos de prisão nos Estados Unidos por fraudes bilionárias e por arruinar milhares que acreditaram nele. Madoff despertou ódio e rejeição, até na própria família. Seu filho Mark o denunciou e, um ano e meio após a condenação do pai, se suicidou.

No filme, o marido de Jasmine foi inspirado em Madoff. O roteiro de Woody Allen retrata a tragédia da perda do status, numa sociedade competitiva como a americana, em que “losers” e “winners” só se misturam por acidente. “Perdedor” é uma palavra que se repete no filme, do início ao fim, e vai mudando de significado.

“A elite me interessa”, afirma Woody Allen. Ele cresceu numa família judaica de classe média do Brooklyn. “Os ricos são divertidos. São bobos. O fato de ter instrução e dinheiro não impede que façam tremendas tolices ou sofram grandes tragédias.” Foi a mãe de Woody Allen que o ensinou a ter uma rígida disciplina. “Meu pai não ganhava o suficiente, e minha mãe tomava conta do dinheiro e da família. Ela sempre via o copo cheio em apenas um terço. Ensinou-me a trabalhar e a não desperdiçar tempo.”

Não dá para odiar Jasmine, mesmo quando ela é irritantemente arrogante e cruel com os outros. Talvez porque Cate Blanchett tenha dado à protagonista a humanidade do sofrimento. “Jasmine se deixou devorar pelos acontecimentos”, disse Cate. “Ela se debate no caos. Em vez de despertar ódio, comove as pessoas por estar totalmente desesperada.”

Blue Jasmine seduz porque explora sem piedade as complexidades do comportamento humano. Quando fala sozinha, Jasmine não se mostra apenas avariada da cabeça. Falar para si mesma, em público, é um recurso para se fazer ouvir, nem que seja para recordar a pessoa de antes – uma deusa da futilidade. As lembranças ditas em voz alta reforçam a solidão real e a angústia de quem vivia mimada pelo marido e pelas circunstâncias. De repente, a vida tira o tapete debaixo de seus pés, você se desequilibra e cai. Alguns conseguem se levantar, outros nunca mais. Jasmine faz o que pode e o que não pode, antes e depois da queda.

Os parceiros dos exibidos

Por trás de quem pira nas redes sociais sempre tem alguém se sentindo idiota

IVAN MARTINS

Tem gente que pira nas redes sociais. Você abre o Instagram e a pessoa está lá, se exibindo da forma mais escandalosa. Ah, como eu sou linda. Ah, como eu sou foda. Ah, meu deus, como eu sou feliz. No Facebook, ele publica fotos que deveriam ter sido deletadas, revela detalhes sobre a sua vida privada, se gaba de tantas coisas, e com tanta frequência, que faz a gente pensar que, na verdade, anda profundamente deprimido.
Não estou falando – vejam bem – de quem perde a mão de vez em quando e exagera na exposição de si mesmo. Isso acontece. A esta altura da sociedade do espetáculo, o mau gosto eventual tornou-se quase obrigatório. O problema com quem pira nas redes é que age sem pudor sistematicamente. É como o sujeito que bebeu demais toda vez que você o encontra. Ele é bêbado, né?
Com isso tudo estamos acostumados, porém. Os excessos nas redes sociais não são novidade. O que me fez escrever esta coluna foi a súbita percepção de que os superexibidos têm parceiros.
Cada vez que eles fazem um espetáculo de si mesmo sobra para quem está ao lado. O sujeito sobe uma foto da baladas às 3 da manhã e a namorada leva uma porrada quando abre o telefone, seis horas depois. Ou ela posta um comentário indiscreto logo cedo e ele passa o dia ouvindo ironias dos “amigos” comuns.
Parece inevitável que onde existe alguém obcecado em exibir-se haverá outro alguém juntando os caquinhos emocionais. Ninguém passa imune a esse tipo de streap tease.
Para quem não frequenta as redes sociais, esta conversa talvez pareça mi-mi-mi, mas juro que não é. O balanço entre público e privado tornou-se uma questão real para os casais. O que se mostra e o que não se mostra? Qual é o nosso combinado? Quando uma das partes tem compulsão de aparecer, fica mais difícil. Aí cabe a um conviver passivamente com a consequência dos excessos do outro – o que frequentemente é intolerável.
Uma pesquisa da Universidade do Missouri divulgada na internet sugere que quanto mais os casais usam o Facebook mais eles brigam. Em geral por causa de ciúme. Eu entendo perfeitamente.
Pouca gente lida bem com a documentação da vida dos parceiros. Antes, quando entravam num relacionamento sério, as pessoas tiravam da estante as fotos dos ex-namorados e colocavam a troca de email com eles numa pastinha escondida no computador. Agora existem as redes. Nelas estão as fotos dos três últimos namoros, assim como promessas de amor e os grunhidos sensuais trocados em cada um deles. Para todo mundo ver e compartilhar. 
Se isso não fosse constrangimento suficiente, ainda vem uma torrente diária de novas imagens, novos amigos, renovados e ardorosos elogios – “que gato”, “que linda”, “cada vez melhor”... Haja desapego.
Relacionamentos, da forma como eu vejo, são construções para dois. Eles têm um forte componente social – dependem de amigos, família, colegas - mas, fundamentalmente, triunfam ou fracassam na intimidade. Quando uma das partes resolve viver em público, a relação fica enormemente vulnerável. Emoções que caberiam melhor na mesa da cozinha ou no banco da frente do carro acabam sendo exibidas diante de todos, como acontece com os artistas. Poucos aguentam esse tipo de exposição.
Ao final, quem procura atrair demais a aprovação de estranhos provoca insegurança no parceiro. Sugere que não bastam a atenção nem o aconchego que ele oferece. Se tudo tem de ser dividido com todos, o que há de especial e único nesta relação aqui? É algo a se pensar. E algo a se proteger. O ruído de aprovação das redes sociais, por mais intenso que seja, não preenche a nossa solidão. Ela se resolve apenas com relações reais. Amigos reais. Família real. Amor de verdade, com carne, ossos e defeitos, protegido por uma grossa camada de intimidade e de silêncio.

Mulheres 'caçam' crianças em casas em Sumaré

Com desculpa de cadastro para campanha de vacinação, dupla busca informações sobre menores

Correio Popular
faleconosco@rac.com.br

Duas mulheres, que falam que trabalham no serviço de saúde da cidade, têm rodado pelas ruas do bairro Bom Retiro e região da Área Cura, de Sumaré, desde quarta--feira (25), para buscar informações de crianças menores de 3 anos, com a desculpa de cadastro para campanha de vacinação. Muitos moradores desconfiaram e buscaram informações na Unidade Básica de Saúde (UBS) do Parque Bandeirantes, que logo desmentiu a campanha nas ruas.

Silêncio na casa: o que as crianças estão fazendo?

Quando o filho não chama mais a toda hora, você se dá conta de que ele está crescendo e você finalmente começa a ganhar tempo

ISABEL CLEMENTE

À medida que os filhos crescem, recuperamos parte do tempo dedicado a eles para nós. São conquistas muito sutis. O banho já não dura mais cinco minutos. Quem sabe sete. As refeições começam a sofrer menos interrupções e se rolar um “manhêeee, acabeiiiii“, como de praxe, você tem a opção de responder “se limpa aí vai", mesmo correndo o risco de encontrar torneira pingando e metro e meio de papel higiênico atravessando o chão do banheiro.
Com o avançar da idade das crianças, programas impensáveis começam a fazer sentido. Tem alegria maior para um pai torcedor do que levar o moleque ao jogo? Isso é um deleite que só o tempo, este velho sábio, traz. E quando rola uma festa do pijama justo na sexta à noite, dia para um programa adulto, mas não havia ninguém para olhar a gurizada? Bênção. Eu, infelizmente, ainda não usufrui dessa coincidência feliz porque a caçula é muito pequena para tanta liberdade. Corro o risco de termos que ir buscá-la de madrugada por causa de saudade. A minha saudade, aliás. A não ser que a festa do pijama seja na porta ao lado, mas isso aqui não é indireta para os vizinhos.
Mesmo sem festa do pijama que sirva para as duas filhas, sinto que minha liberdade retorna aos poucos para mim, como sobras de um banquete que não terminou.
Naquela tarde de domingo, tudo estava tranquilo em casa. Crianças brincavam juntas. O marido assistia ao jogo. O sol da Primavera entrava pela janela com o canto dos bem-te-vis. A cama desafiava meu cansaço: dormir ou ler?
Dormir seria ousadia demais. A Lei de Murphy no artigo sobre Mães Cansadas diz que, se você adormecer sem um plano de comum acordo com os integrantes da casa, a chance ser acordada nos primeiros dez minutos da soneca é altíssima. Mãe dormindo desperta necessidades adormecidas nos filhos. Melhor ler. É menos arriscado. Me recostei nas almofadas e senti como poucas vezes meu corpo se entregando ao colchão. Parei para apreciar ao longe o canto dos passarinhos e pensei em chamar as crianças para ouvir também.
"Não!", gritou minha consciência. "Que mania! Comece a ler".
"Mas eu estava apenas curtindo este momento", pensei, tentando me justificar.  
Não ouço as meninas. Estranho. O que estarão fazendo? Retomei a leitura. Parei sem concentração. Elas crescem, interagem e instantes como este, em que fico só com meus pensamentos, começam a acontecer com mais frequência. Mesmo raros, brindam certas tardes preguiçosas, quem diria. Não temos compromissos, hora, obrigações, nada. Estico os lábios num sorriso tímido de satisfação. Olho de novo pela janela. Os passarinhos continuam cantando. Devem estar felizes como eu. Leio. Minha mente foge, encantada com a harmonia e a quietude das crianças. Quando tudo é paz, a mente agita. Shhhhh. Tento em vão acalmá-la. Mas que estarão fazendo as crianças? Outro dia fizeram desenhos rupestres no chão da varanda com giz de cera e acharam o máximo ter que limpar depois. Estarão brincando com água e molhando o banheiro todo? Ameaço levantar mas minha consciência intervém novamente.
“Para com isso, você não precisa ir lá checar. Se você aparecer, é capaz de estragar tudo. Elas começarão a disputar sua atenção e já era o momento de ficar a sós consigo mesma. Anda, volte a ler“.
E assim, dessa batalha íntima entre resistir e me entregar à tentação de ver o que afinal de contas estava deixando as crianças tão quietas, vence a leitura. Onde eu estava mesmo? Melhor voltar ao início do capítulo para entender melhor o que estava sendo...
"Uóóóóóóóóó".  
Duas meninas entram correndo quarto adentro. A mais velha imitando a sirene de uma ambulância empurra a irmã - com cara de vítima - sentada no carrinho de boneca.
"Caramba", penso, "como essa geringonça de plástico ainda não quebrou?"
Não digo nada. Apenas observo a ambulância frear e estacionar diante do espelho.
"Uóóóóóó. Irrrrrrr".
(barulho de freio) 
 Pesco o seguinte trecho do diálogo que segue. 
"Meu Deus, Carol, isso parece grave!", anuncia a menina de 7 anos.
"É grave?" - pergunta a pequena de 4.
"Mamãaaaaaeeee", a criança grita, a um metro de mim.
"Hum?"
A dez centímetros de distância, a paramédica-mirim observa o lábio rachado e seco da irmã.
"Temos que botar um band-aid nisso!", propõe a socorrista na ambulância improvisada.
"Filha, não se coloca band-aid na boca", intercedo, antes que a ideia de jerico prospere.
"Mamãe, é grave?", pergunta Carol.
"Não é grave. É só um lábio rachado. Mas não é para botar band-aid, ok?", digo, dando a segunda opinião médica para o caso.
"Passa manteiga de cacau fingindo que é remédio", receito, enfim.
Os olhos da pequena se iluminam. Os da mais velha escurecem.
"Eu posso também?"
"Pode"
"Mas é manteiga..." - ela diz, quase miando.
"Não é manteiga de leite, é de cacau, e cacau você pode"
"Oba!" - ela responde, exultante com o tratamento liberado.
Depois elas pedem pra pegar algodão molhado e desistem do band-aid. Um curativo de mentira é feito e a ambulância vai embora com a paciente lambuzada de manteiga de cacau junto com sua enfermeira que, solidária, passou antes em si mesma o remédio receitado.
Uóóóóóóó.
O motivo que leva especialmente as mães a não saberem aproveitar seus raros momentos de quietude e solidão ainda são desconhecidos pela Ciência. Casos descritos são muitos. Uma amiga não via a hora de usufruir do primeiro fim de semana inteiro sem marido e os três filhos. A pressão era grande e vinha dos amigos, dos colegas de trabalho e da própria família. Aproveita, aproveita! Ela não só não soube o que fazer o dia todo sem os quatro como teve insônia e amanheceu um bagaço no dia que eles voltaram para casa. Outra amiga caiu doente na primeira semana de férias do filho com o pai, de quem é separada. Uma outra amiga, professora universitária, relata dificuldade semelhante quando viaja para um congresso a trabalho. Liga toda hora pra casa e não relaxa.
Desprender-se da rotina alegre, barulhenta e estafante em torno dos filhos é como um mergulho em profundidade. Não se pode começar a aventura já pensando em emergir. Nem se deve afundar sem um certo preparo. É útil saber o que se vai encontrar lá embaixo. Levamos um tempo para nos acostumar ao silêncio dos peixes, à falta de algazarra no fundo do mar, onde a luz do sol chega fraca. Da mesma forma, deveríamos retornar aos poucos à tona, esperando o corpo se acostumar com a expansão das demandas que, como o oxigênio sob pressão, estavam temporariamente comprimidas durante o mergulho na solidão inesperada.
Mergulhar rápido demais nessa paz ou dela sair de supetão provoca uma espécie de embolia nas ideias. Obstrui nossa capacidade de aproveitar. Dá tilt. Vai entender.

Número de famílias mantidas por mulheres cresce e assusta homens



  • Thiago Luiz e Pâmela estão casados há dois anos e o salário dela cobre a maior parte das despesas
    Thiago Luiz e Pâmela estão casados há dois anos e o salário dela cobre a maior parte das despesas
Thais Carvalho Diniz
Do UOL, em São Paulo

É cada vez mais comum encontrar famílias que têm na mulher seu principal provedor, seja por elas ganharem mais do que seus maridos ou por eles não terem nenhuma remuneração. Segundo especialistas entrevistados pelo UOL Comportamento, a tendência é que o sexo feminino assuma cada vez mais esse papel, o que pode assustar os homens, dependendo da forma como o casal enxerga essa transformação.

"A sociedade está caminhando para o equilíbrio dos papeis do casal. E o fato de a mulher ocupar um novo status deixa o lugar do homem no mundo abalado. Pode ser difícil para eles aceitarem, se adaptarem e se conformarem com essa nova situação, mas vamos caminhar para uma realidade cada vez mais igualitária", afirma Rogério Baptistini, sociólogo e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo.

De acordo com a amostra "Síntese de Indicadores Sociais" do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), em relação aos casais sem filhos, o índice de chefia feminina passou de 4,5% em 2001 para 18,3% em 2011; já entre os que têm filhos, subiu de 3,4% para 18,4%, no mesmo período. A Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio) aponta que 37,4% das famílias têm como pessoa de referência a mulher. Os números foram divulgados em 2012 e mostram um crescimento de mais do que quatro vezes nos últimos dez anos.

Para Baptistini, esses números são reflexos dos processos industriais e culturais que acontecem no mundo há mais de 60 anos.

"Toda a dinâmica da humanidade e os fenômenos culturais foram dissolvendo a família tradicional e favoreceram a mulher a assumir a linha de frente da família. Em alguns casos, para mulheres de classes mais baixas, esse papel se deu quase 'à força', com a ciência de seus valores e de serem o verdadeiro arrimo de família, por não terem em quem se apoiar e, muitas vezes, estarem sozinhas", diz.

Entretanto, para muitos, o homem ainda deve ser o principal provedor do lar, e quando esse novo cenário se impõe, é preciso diálogo para evitar possíveis problemas e desconfortos no relacionamento.

"O problema passa a existir quando o casal não se adapta à situação que criaram e não entendem que aquilo pode ser momentâneo. A vida é dinâmica e, com o passar dos anos, as necessidades mudam e é preciso que o casal mude junto. Caso contrário, haverá uma inevitável distância entre eles", diz Patrícia Spada, psicóloga clínica e especialista em dinâmica familiar da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

Há dois anos juntos, Pâmela Crepaldi, 30, e Thiago Luiz, 33, enfrentaram a diferença salarial pendendo para o lado feminino desde o início. O casal se conheceu no trabalho, onde ela, terapeuta ocupacional e coordenadora de uma equipe de saúde, tinha um cargo superior ao dele, educador físico. Por conta disso, a questão salarial era explícita, o que não é visto como um problema para ela.

"Sempre conversamos abertamente sobre isso e, para mim, essa situação é tranquila. Vejo no meu marido uma pessoa muito batalhadora e que está lutando para conseguir melhorar cada vez mais seu espaço no mercado de trabalho. Ficaria muito incomodada e não aceitaria essa condição caso percebesse que ele está acomodado", declara.
  • Maria José Azeredo, 50, assumiu a família quando o marido Rogerio Azeredo, 51, entrou em depressão
A administradora Maria José Azeredo, 50, se viu à frente de sua família há mais de 15 anos,quando seu marido Rogerio Azeredo, 51, entrou em depressão devido ao fracasso da carreira musical.
"Aconteceu e fomos tocando. Em uma situação como essa, não para dá para sentar e decidir nada. É pegar ou largar. Eu optei por segurar minha família e nos adaptamos. Assumir a responsabilidade financeira de um lar não é fácil, mas não me sinto chefe de família, o chefe é ele. Continuo me sentindo uma mãe  [o casal tem duas filhas, Raphaela, de 24 anos, e Cecília, de 23] - e mulher que teve de assumir as rédeas da situação", conta.

Em ambos os casos, a diferença salarial não trouxe problemas ao relacionamento. Para a psicóloga Patrícia Spada, é preciso haver disposição e disponibilidade do casal para que prevaleça a parceria e não a rivalidade.

"Alguns têm vergonha da situação e não querem falar sobre isso, mas também têm dificuldade de sair dela –não se submetem a 'qualquer emprego', não querem ganhar 'ninharias', não pedem ajuda aos amigos e quando têm não aproveitam, e, dessa forma, se mantém sustentados", explica ela.

Foi exatamente essa situação que envolveu o casamento de Maria Stela*, 50, e o ex-marido, que ficaram juntos por mais de duas décadas e estão separados há quase um ano. Quando ele ficou desempregado pela primeira vez, encararam com naturalidade, afinal, como ela mesmo definiu, muitas famílias passam por isso. Os problemas começaram por conta da situação financeira e pelas repetidas vezes que ele ficou sem trabalho, segundo Maria.

"Cobrei dele mais atitude, dizendo que seria necessário ele trabalhar porque não estava dando conta sozinha financeiramente. Daí para frente, começaram as discussões. Sempre que falava para ele conseguir um emprego, se ofendia. Dizia que não sairia de casa para ganhar pouco. Acho que acabou se acomodando com a situação. Qualquer relacionamento para dar certo os dois devem ter os mesmos objetivos. Eu me sentia remando sozinha", conta.

O psicólogo social Caio Colombo, da FESPSP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo), diz que é importante tratar com naturalidade, diante dos filhos, o fato de ser a mãe a principal fonte de renda da casa, e diz que outros fatores emocionais devem ser colocados como prioridade para a família.

"Quem traz o dinheiro para casa não é importante. Pode ser a mãe, o pai ou os dois. O que realmente tem relevância é se todos se querem bem, se sustentam e constroem uma atmosfera de respeito no lar. No casal e na família, a lógica deve ser de cooperação e não de competição", diz.

Em entrevista concedida ao UOL, a jornalista e escritora norte-americana Liza Mundy diz que, segundo suas pesquisas, o número de lares mantidos por mulheres nos Estados Unidos superará o de sustentadas por homens na próxima geração, afetando até a vida sexual dos casais.

"Em alguns casos, a vida sexual dos casais se torna mais problemática quando a mulher é mais bem-sucedida do que o homem, mas a longo prazo acho que a independência financeira tornará a mulher mais segura sexualmente. Os casais, às vezes, precisam encontrar formas de restaurar o equilíbrio. Eles precisam encontrar modos diferentes dos homens se sentirem masculinos e as mulheres se sentirem femininas. Mas não é assim tão difícil", afirma.

Liza estuda as questões de gênero há mais de 20 anos e é autora de "Michelle, A Biography" (biografia da primeira-dama dos Estados Unidos, livro que entrou para a lista dos mais vendidos do "The New York Times").

* O sobrenome foi omitido para preservar a personagem
http://mulher.uol.com.br/comportamento/noticias/redacao/2013/09/30/numero-de-familias-mantidas-por-mulheres-cresce-e-assusta-homens.htm

Escolher a escola

Agora é a época em que muitos pais estão avaliando diversas escolas para transferir o filho no próximo ano; alguns farão isso por necessidade, outros por desgosto com a escola atual e outros ainda porque vão matricular a criança pela primeira vez em uma escola.

É neste momento, também, que a imprensa investe em reportagens sobre como escolher a melhor escola para o filho, quase sempre com dicas de métodos pedagógicos mais frequentemente praticados, com análise de diversos estilos de escola ou apontando critérios já bem conhecidos, como a colocação em rankings, por exemplo.

Todo ano muitos pais recorrem a mim, na esperança de conseguir algumas pistas que os ajudem a fazer a melhor escolha possível. Todo esse empenho dos pais é compreensível: hoje, a sociedade considera a escola o instrumento mais importante no preparo dos mais novos para o futuro. Tenha ela ou não condições de honrar tal função, o fato é que os pais têm acreditado nisso e tentado, sempre que podem, fazer uma boa escolha.

Ano após ano, as questões que os pais me trazem são muito semelhantes e se repetem. Este ano, entretanto, tenho recebido algumas bem diferentes. Por exemplo: há pais que querem saber se é bom ou não a escola passar bastante lição para ser feita em casa e se o uso do uniforme escolar é um fato importante para os alunos, e até quando; há os que querem saber se o melhor é a escola fornecer lanche ou o aluno levar de casa e quanto tempo deve ter o intervalo do recreio e como ele deve ser.

Há, inclusive, pais que perguntam se crianças que frequentam os primeiros anos do ensino fundamental devem ser submetidas a provas e que querem saber o que significa, de fato, acompanhar a vida escolar do filho.

Surpreendentemente, não recebi nenhuma questão a respeito de métodos pedagógicos, de ranking, de espaço físico escolar, tampouco sobre material pedagógico. É: parece que os pais começam a pensar nos detalhes da educação escolar do filho, o que é uma boa notícia.

Primeiramente, é bom saber que não há resposta certa para nenhuma das questões que os pais consideram neste momento de escolha da escola para o filho. Mas tal escolha certamente irá refletir o que eles priorizam. E o positivo dessa mudança, que pode ser pequena mas que é significativa, é que os pais dão sinais de que não mais se ocupam com questões que outros dizem que eles devem se ocupar.

Agora, eles é que determinam o que é importante considerar. E, analisando as questões trazidas, os pais mostram que dão importância à convivência dos alunos na escola, que valorizam a cultura familiar e querem que ela seja respeitada.

Parece também que os pais não querem mais ver o filho ser massacrado pela exigência exagerada da escola em quantidade de conteúdos e avaliações e esperam que a instituição escolar saiba fundamentar de modo coerente suas práticas e as escolhas feitas.

Resta saber se as escolas irão se afetar com essa boa novidade porque são poucas as escolas que aceitam repensar seu modo tradicional de organização e trabalho educativo. Com tantas modificações que o mundo tem provocado, a escola parece ser uma das poucas instituições que permanece congelada no tempo.
rosely sayão
Rosely Sayão, psicóloga e consultora em educação, fala sobre as principais dificuldades vividas pela família e pela escola no ato de educar e dialoga sobre o dia-a-dia dessa relação. http://folha.com/no1349911

Cantinho do castigo

Eu tentei; eu juro que tentei, caro leitor, resistir à tentação de escrever a respeito do cantinho do castigo. Ah, como eu tentei. Mas o maldito cantinho me persegue.

Não há um dia em que, em uma busca de assuntos na internet, eu não me depare com artigos, blogs, reportagens com listas de recomendações aos pais para bem educar o filho, de acordo com a idade que ele tem, que não apresente a ideia do cantinho. Até mesmo de programas de televisão eu não consigo escapar: vira e mexe, lá está a história do cantinho.

Certamente todos conhecem essa estratégia chamada educativa, mas caso alguém tenha tido a sorte de nunca ter se deparado com ela, eu explico. Quando uma criança faz algo que não deveria ter feito, quando se descontrola, quando faz birra ou briga com o irmão, por exemplo, os pais -ou responsáveis, que podem até ser professores- devem levar a criança até um canto, de preferência longe do convívio familiar, e deixar a criança lá por um tempo.

E por quanto tempo a criança deve lá ficar? Ah, depende da idade dela, dizem os adeptos de tal estratégia. Pode ser, por exemplo, um minuto para cada ano que a criança tem, com pequenas variações. E você acredita, leitor, que já há banquinhos em forma de ampulheta, com areia dentro, que demora cinco minutos para passar de um lado ao outro? Então: a estratégia faz tanto sucesso entre os pais que já mobilizou até o mercado de produtos.

Conheço muitas mães que adoram o cantinho. Elas são entusiasmadas assim com a estratégia porque ela funciona, dizem. Sim, funciona. Por um tempo funciona, principalmente com crianças que têm menos de seis anos. As mais indefesas. Experimenta colocar um adolescente no cantinho!

Funciona da mesma maneira que funciona ensinar um cão a atender comandos como "senta" e "fica", por exemplo. Em outras palavras, adestramento, condicionamento, controle funcionam. Por um tempo, reafirmo.

E quando a estratégia do cantinho vem acompanhada da palavra "pensamento"? O tal "cantinho do pensamento" deve levar a criança a pensar na bobagem que fez. Refletir a respeito de seu mau comportamento. Como uma criança pequena pode ter uma atitude reflexiva?

Pensando bem, deve ser divertido para a criança imaginar a areia descendo e passando pelo fino buraquinho do banquinho sobre o qual está sentada. Deve ser bom também ter tempo para pensar no que quiser, imaginar, lembrar. É... o cantinho tem lá sua utilidade boa para a criança!

Em resumo, os ensinamentos nessa linha afirmam que quando a criança se comporta bem, os pais devem elogiar; quando não, levá-la para o cantinho. Na linguagem da psicologia comportamental, elogio é o reforço positivo -que visa aumentar a incidência de um comportamento- e o cantinho é o "time out", técnica que visa reduzir um comportamento indesejado.

As questões sobre as quais devemos refletir -nós, adultos, temos condição de fazer isso- é se essas estratégias educam e respeitam a criança. Minha resposta para ambas as questões é não. O cantinho do castigo, ou do pensamento, é uma punição. E sabemos que punição faz sofrer, mas não ensina nada. Adestra, condiciona, controla. Por um tempo.

Mas, e depois, quando o cantinho não for mais aplicável? O que os mais novos terão aprendido com o uso dele? Essa deve ser a nossa questão quando ficarmos tentados a usar o cantinho.
rosely sayão
Rosely Sayão, psicóloga e consultora em educação, fala sobre as principais dificuldades vividas pela família e pela escola no ato de educar e dialoga sobre o dia-a-dia dessa relação. http://folha.com/no1346395