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domingo, 2 de agosto de 2015

Netflix lança mini-documentário feminista baseado em "Sense8"

O vídeo é dirigido por João Wainer e conta com a participação de Clara Averbuck.
Escrito por  Lucas Castilho

 Editado por Stefanie Silveira

 Atualizado em 28/07/2015

Ei, já assistiu "Sense8"? A série de ficção científica acaba de ser renovada para a segunda temporada pelo Netflix e pode-se dizer que ganhou uma legião de fãs. Dirigida pelos irmãos Wachowski (os mesmos de "Matrix"), ela chama atenção muito mais pelo seu lado humano - e como apresenta as relações humanas - do que pela trama fantástica de pessoas que conseguem se conectar pelo poder da mente.

Temas como preconceito, transexualidade, sexismo e direitos das mulheres não ficam de fora dos 12 episódios disponíveis na plataforma de streamining. E pensando em aprofundar esse universo de temas do seriado, o Netflix criou o projeto voltado ao público brasileiro chamado "Sense8 Decoded".

Dirigida por João Wainer, a série de pequenos documentários procura provocar diálogos, com o auxílio de especialistas, sobre as discussões levantadas no programa de TV. O MdeMulher teve acesso com exclusividade ao vídeo que trata sobre feminismo. A escritora e blogueira Clara Averbuck é a entrevistada. Confira!



Tatiana Moura, socióloga: ‘Queremos promover masculinidades não violentas’ (O Globo – 21/07/2015)

Eduardo Vanini

Pesquisadora do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra e diretora da ONG Promundo, portuguesa vive entre o Rio e o exterior
“Nasci em Coimbra, em Portugal. Em 2005, vim fazer pesquisa para a minha tese de Doutorado, no Rio de Janeiro. Foram seis meses que já viraram uma década. Continuo no Rio, dividindo meu tempo entre Brasil e outros países. Sou mãe da Gabi, de 7 anos, que me move cotidianamente na busca por igualdade”

Iniciativa busca sensibilizar empresas para que apoiem funcionárias que amamentam


Semana Mundial do Aleitamento começa hoje e vai até 7 agosto e pretende visibilizar questões enfrentadas por mulheres que amamentam e trabalham fora de casa; Ministério da Saúde recomenda salas de apoio à amamentação em empresas
Começa hoje, 01 de agosto, a Semana Mundial do Aleitamento Materno, que vai até o dia 7 e tem como tema este ano mulheres que trabalham e amamentam. A iniciativa busca sensibilizar empresas sobre a importância da amamentação, pois a mulher que amamenta falta menos ao trabalho uma vez que seu filho adoece menos. Além disso, o bebê continua recebendo o leite materno, que possui anticorpos que previnem doenças.
Além destes benefícios, o aleitamento reduz os índices de obesidade infantil, de infecções digestivas e respiratórias e de alergias alimentares. Estudos mostram que o leite materno é capaz de reduzir em 13% as mortes por causas evitáveis em crianças menores de 5 anos. A amamentação também ajuda o útero a recuperar seu tamanho normal, diminuindo o risco de hemorragia e de anemia. As chances de se adquirir diabetes ou desenvolver câncer de mama e de ovário também diminuem significativamente para mulheres que amamentam.
A recomendação da Organização Mundial de Saúde (OMS) é que o aleitamento materno comece já na sala de parto e que seja exclusivo e em livre demanda (o bebê mama a quantidade que quer, quando quer)  até o 6º mês e se estenda até 2 anos ou mais. Segundo o pediatra Moises Chencinski, idealizador do movimento Eu Apoio Leite Materno e membro do Departamento de Aleitamento Materno da Sociedade de Pediatria de São Paulo, a estimativa brasileira de aleitamento materno exclusivo (quando o bebê é alimentado apenas com o leite da mãe) é de apenas 52 dias.
Volta ao trabalho
Pesquisa do Ministério da Saúde mostrou que 34% das mães de bebês com menos de um ano e que trabalham fora de casa não amamentam mais a criança. Já entre as mães que não trabalham fora, esse índice é menor, 19%.
De acordo com a legislação brasileira, a licença maternidade pode durar até seis meses mas, para a maioria das trabalhadores, é de quatro meses apenas. Muitas mulheres, ao voltarem ao trabalho, não conseguem continuar amamentando e acabam desistindo. A nutricionista Patrícia Queiroz explica que, com o desmame precoce, normalmente outro leite é introduzido. “É um leite que não tem os anticorpos, a vacina – como a gente chama, que vem do leite humano, que é uma substância viva”.
Ao retornar ao trabalho, para que a amamentação seja mantida pelo menos até o 6º mês de vida do bebê, a legislação (Artigo 396 da CLT) prevê ainda períodos de pausa no trabalho para que a mulher amamente ou retire leite para seu filho. São duas pausas, de meia hora cada uma, que não se confundem com os intervalos normais de repouso e alimentação. A mulher pode, inclusive, combinar com a chefia para chegar meia hora depois e sair meia hora antes do horário de trabalho ou ainda acumular os períodos e tirar uma hora por dia.
Para estimular a continuidade da amamentação ao voltar ao trabalho, o Ministério da Saúde e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) lançaram em 2010 uma nota técnica com orientações para as empresas instalarem salas de apoio à amamentação. As salas são espaços dentro da empresa onde a mulher pode, com conforto, privacidade e segurança, esvaziar as mamas, armazenando seu leite em frascos previamente esterilizados para, em outro momento, oferecê-lo ao seu filho. Esse leite é mantido em um freezer a uma temperatura controlada até o fim do dia. Cada recipiente é etiquetado e identificando o nome da mãe, a data e a hora da coleta. No fim do expediente, a mulher pode levar seu leite para casa para que seja oferecido ao filho ou pode ainda doá-lo a um Banco de Leite Humano.
O Grupo Boticário é uma das 120 empresas brasileiras reconhecidas pelo Programa Mulheres Trabalhadoras que Amamentam do Ministério da Saúde. Criado em 2011, exige que as empresas participantes atendam a três requisitos: licença maternidade de seis meses, creche no local de trabalho ou auxílio-creche e a instalação de sala de apoio à amamentação. Este espaço é de uso exclusivo das mulheres que retornam da licença maternidade.
“É um ambiente confortável, privativo e higienizado. Através de todas essas iniciativas nós conseguimos garantir o aleitamento materno pelo prazo recomendado pelo período de dois anos – que é recomendação do Ministério da Saúde. As mães também se tornam mais seguras em relação aos seus filhos porque elas podem coletar o leite de maneira tranquila, armazenar e levar para casa”, explica Luiz Antonio Setti Barbosa, médico e coordenador de Medicina e Qualidade de Vida do Grupo Boticário.
Dados divulgados pela Receita Federal, em 2012, indicavam que menos de 10% das empresas brasileiras haviam aderido ao programa Empresa Cidadã, que assegura a ampliação da licença-maternidade para 6 meses. Ou seja, grande parte das trabalhadoras brasileiras não pode permanecer com seus filhos durante o período de amamentação exclusiva. As empresas que aderirem ao Programa podem abater do imposto de renda o total da remuneração integral paga à funcionária no período adicional.
Mamaços
Como parte das comemorações da Semana Mundial de Aleitamento Materno, mamaços estão sendo organizados em diversas cidades do mundo. Os mamaços são manifestações para sensibilizar a sociedade sobre a importância do aleitamento materno natural. Estes eventos reúnem mulheres que estão amamentado em um mesmo local e horário para que amamentem pública e conjuntamente seus filhos. Eles surgiram a partir do incômodo de mulheres que se sentiam constrangidas ao amamentarem seus filhos em locais públicos.
Além dos mamaços, outra iniciativa também tem ganhado força são as brelfies. O termo mistura as palavras breast (mama, em inglês) e selfie e são, portanto, fotos feitas por mulheres que estão amamentando e que têm o objetivo de mostrar que o aleitamento é algo normal e natural.
O pediatra Moises Chencinski comenta que, em São Paulo, já há uma lei que multa estabelecimentos que constranjam mães que quiserem amamentar em público. “Culturalmente seios são associados a questões pornográficas e eróticas. Não consigo imaginar em que momento uma mãe amamentando seu filho pode provocar uma reação contrária, que não seja uma reação de apoio, amor e carinho”, ressalta. O médico conta que, no início do movimento das brelfies, as fotos eram retiradas das redes sociais.
A jornalista Raquel Godoi, hoje militante da causa, conta que teve muitas dificuldades para amamentar seu filho João, hoje com onze meses. “Há uma série de fatores sociais e familiares que, mesmo involuntariamente, desencorajam a mulher a amamentar seus filhos onde, quando e até o quanto quiser. Amamentar é um privilégio, mas nem sempre é fácil desfrutá-lo. Muitas mães sofrem inúmeras dificuldades e elas precisam ser acolhidas, respeitadas, orientadas e socorridas”, afirma.
“Quando o João estava com sete dias de vida eu tive um ferimento profundo [no seio], provocado pela pega errada (a maneira como a boca do bebê se encaixa na mama da mãe). Mesmo antes disso as dores eram desesperadoras. Eu amamentava chorando”. O drama de Raquel só chegou ao fim quando ela procurou orientação do Banco de Leite Humano do Hospital Materno Infantil de Brasília (HMIB).
Lá, ela recebeu tratamento, aprendeu a fazer massagens e ordenhar para evitar mastite (inflamação das mamas). Aprendeu também a corrigir a pega e a colocar o bebê para mamar em diferentes posições. “A luta foi imensa! Valeu a pena acreditar e procurar ajuda profissional. Superamos e hoje vivemos a alegria de um vínculo fortalecido”, comemora.
Confira a lista completa de locais de mamaços no país. 

#partidA, o partido das mulheres, quer levar o feminismo ao poder

26/07/2015

Movimento quer combater a baixa representação feminina nos legislativos e no governo do Brasil

Leandro Resende

Rio -   ‘Se passar essa emenda, em breve todos estarão fazendo cirurgia para mudar de sexo, porque vai ficar mais fácil se eleger para Câmara federal”, disse, em tom de galhofa, o deputado Delegado Edson Moreira (PTN-MG) durante a votação da cota de 15% para mulheres em cargos parlamentares, prevista na reforma política. A frase resume a dificuldade histórica para aumentar a representação feminina nas instituições políticas brasileiras. Mas é este cenário que um grupo de mulheres Brasil afora começa a discutir para tentar mudar: vem aí a #partidA,movimento e projeto de partido político que quer levar o feminismo para dentro do Congresso e do poder. 

Foto:  Arte O Dia

Desde maio, reuniões têm sido realizadas em diversas capitais do país para discutir uma “democracia feminista” que inclua outros segmentos pouco representados na política institucional, como “negros, homossexuais e indígenas”, como explica a filósofa Márcia Tiburi, uma das lideranças da #partidA. A coleta de assinaturas, necessária para a formação de um novo partido, só começará num outro momento. “Temos que reconstruir a política na esfera cotidiana, estamos nessa fase. Mas pensamos em eleição, em representação, em transformar o poder”. 

A presença de uma mulher na Presidência da República desde 2011 não mudou um cenário excludente. No Brasil, as mulheres conquistaram o direito ao voto na década de 30. Para se ter ideia, a bancada feminina corresponde a 9% dos 513 deputados da Câmara e 16% dos 81 senadores. Para a professora da UFRJ Susana de Castro, que participa da construção da #partidA no Rio, a ausência de mulheres da política é reflexo de fatores históricos e de uma tradição de exclusão da política brasileira. “Além disso, existe uma luta histórica do feminismo em fazer as mulheres reconhecerem que não são os homens, necessariamente, os seus representantes”, destacou ela. 

A diferença nas trajetórias individuais também afeta o surgimento de lideranças femininas, aponta Débora Thomé, cientista política e uma das líderes do ‘Bloco das Mulheres Rodadas’, que desfilou pela primeira vez neste ano no Rio. “Lideranças masculinas nascem no grêmio do colégio, vão para o movimento estudantil, um partido o chama. E a mulher que está ali ao lado dele só escuta para se casar e ter filhos”, pontuou.


Homens podem participar 

Segundo Márcia Tiburi, homens são bem-vindos nas reuniões da #partidA, desde que não compartilhem de “machismos e racismos”. “Existem feminismos que desconsideram a participação do homem na construção do movimento, mas nós queremos o diálogo. Iremos tratar da questão do sexo, idade, educação, cidade, governo, saúde, cultura, tudo isso é do nosso debate”, afirmou Tiburi. “A gente não quer mais direitos que os homens, queremos um mesmo patamar”, resumiu Débora Thomé. 

Desde maio, são realizadas reuniões em diversas capitais do país para discutir a criação do novo partido sob a ótica de uma “democracia feminista”
Foto:  Divulgação

O desafio é tirar a discussão da #partidA de um âmbito predominantemente acadêmico para outros segmentos da sociedade. Segundo as lideranças do movimento, cidades do interior têm espontaneamente aderido ao projeto de criação de uma legenda feminista. Mesmo assim, elas ressaltam que para a mulher, no geral, é difícil encontrar tempo hábil para fazer política. “Um monte de gente que está na Baixada Fluminense não pode vir conversar porque está trabalhando, tem filho pra cuidar. As mulheres não têm tempo para fazer política”, disse Tiburi.


Lei dos 30% é descumprida no país 

Por lei, as mulheres devem ser pelo menos 30% das candidaturas nos âmbitos municipal, estadual e federal. Estudo feito pela Secretaria da Políticas para as Mulheres, mostrou, porém, que a norma foi desrespeitada na maioria dos estados nas últimas eleições, em 2014. O número bruto de candidaturas aumentou de 2010 para 2014 (de 3.572 para 6.413), mas mesmo assim não se atingiu os 30%. 

Com a legislação, partidos não hesitam em colocar mulheres nas chapas apenas para tapar o buraco aberto pela obrigatoriedade dos 30%. Em junho, a Câmara rejeitou a Proposta de Emenda à Constituição que previa a criação de uma cota de 15% para as mulheres em todas as cadeiras parlamentares do país. A ideia inicial era de 30%, mas sem acordo, chegou-se ao número de 15%. Nem assim foi aprovado.

Submetida à mutilação genital feminina aos 4 anos de idade, guineense combate prática entre famílias africanas na Espanha


Fátima Djarra Sani trabalha desde 2008 em território espanhol para conscientizar famílias de imigrantes sobre os perigos da MGF: 'se nós mulheres africanas não nos levantarmos na luta contra a mutilação, ninguém vai fazê-lo por nós'
Jessica Lea/DFID / Flickr CC


Esther tinha 8 anos quando foi mutilada: 'agora que conheço as consequências, jamais cortaria minhas filhas', diz sua mãe, em Burkina Faso


O dia começou como uma festa. Fátima Djarra Sani, nativa de Guiné-Bissau, tinha quatro anos e sua madrasta anunciou que seria “um grande dia” para ela e para sua irmã Binta, de oito anos. Elas foram lavadas cuidadosamente, e uma comitiva de mulheres, vestidas com suas melhores roupas, dançavam e cantavam. Nesse dia, em um banheiro que não passava de um cubículo sujo de cimento, extirparam-lhe o clitóris e os pequenos lábios da vulva. Para os mais velhos era a celebração de uma tradição, “porém nós agora sabemos que a mutilação é uma questão de saúde, que não tem nada de positivo”, explica Djarra, autora de “Indomable” [“Indomável”, em tradução livre], recém-publicado na Espanha.
Quando uma editora lhe propôs contar em livro sua vida, a de sua família e as complexidades sociais que ainda legitimam a mutilação em cerca de 28 países africanos, de acordo com as Nações Unidas, Djarra admite que ficou em dúvida. “Nesse dia, eu pensei muito. É um problema que não é apenas meu. É também da minha família. Na África, a família é tudo.” Porém, apesar das reservas, a resposta foi sim. Fátima sorri antes de pronunciar o pensamento que deu o pontapé inicial ao livro: “Se nós mulheres africanas não nos levantarmos na luta contra a mutilação, ninguém vai fazê-lo por nós.”
Antes da publicação do livro, ela viajou a seu país para explicar o projeto para sua família. Lá muitos não sabiam a que ela se dedicava. “Limpando”, responde um parente à pergunta sobre sua ocupação na Espanha. Djarra lhes contou então que trabalha como mediadora na organização Médicos do Mundo em Navarra desde 2008, e que dia a dia “sensibiliza outras mulheres sobre a mutilação”, para que as famílias decidam não submeter suas filhas a esta experiência.
A mutilação genital começa entre gritos de dor e lágrimas – às vezes engolidas com esforço para aparentar ser “uma mulher forte”, conta Djarra –, porém não termina quando a ferida para de sangrar. A mutilação afeta no mundo 149 milhões de mulheres e meninas, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), e marca as mulheres para a vida toda: na sua vida sexual e também ao vivenciar a maternidade, quando podem surgir mais complicações no parto. “Infecções vaginais e urinárias recorrentes, quistos e infertilidade” são algumas das consequências da mutilação genital feminina, segundo a OMS.
No livro, Djarra relata a primeira vez que manteve relações sexuais como “uma experiência horripilante”. Foi uma relação consensual, porém marcada pela dor: sua vulva nunca chegou a se desenvolver normalmente. As perguntas que a assombraram quando era criança ao ver imagens de genitais no colégio e o restante das complicações que sofreu ao longo dos anos a fizeram separar a mutilação genital do carinho e do respeito que ela tem para com seus costumes e sua cultura. “A mutilação não me deu nada de bom”, afirma.
Djarra trabalha com as comunidades africanas em Navarra mediante sua própria experiência, com as perguntas e os temores que a atormentaram. “Quando você se questiona, as coisas começam a mudar. Por que me fizeram isso? Para que serviu isso? Quais os benefícios para minha saúde e minha vida sexual?”, pergunta. “Se você pensa nessas questões, nunca vai querer fazer isso na sua filha”.
“Quando comecei, era muito difícil falar sobre o assunto da mutilação. Via rostos que pareciam que iriam me comer”, conta. “Comecei a falar sobre saúde sexual, conhecer nossas partes íntimas. E aí sai o assunto da mutilação porque, quando colocamos imagens do aparelho genital feminino, há mulheres que começam a perguntar: ‘O que é isso?’. ‘O clitóris’. ‘E por que eu não o tenho?’ Então, às vezes, elas se abrem e contam: ‘Me cortaram’”, explica Djarra.
Em outras ocasiões, os muros que erguem a vergonha e o medo são muito altos. “Você tem medo de ser humilhada, que riam de você. Porém também é um medo de trair sua família, sua comunidade. É a educação que te deram. A cultura que você tem. É a sua identidade como mulher”. E esses muros, esses temores, também estão na Espanha. “O livro também está destinado aos espanhóis, porque eles pensam que a mutilação está longe, e não é assim. A imigração está aqui. As africanas estão aqui, e este é um problema de saúde mundial”, diz.
Jessica Lea/DFID / Flickr CC


Parteira fala sobre riscos durante o parto para mulheres mutiladas; em Burkina Faso, programa financiado pelo Reino Unido busca conscientizar famílias sobre mutilação genital


Fátima não guarda rancor de sua família porque considera fundamental entender o contexto em que é executada esta violação dos direitos das mulheres, condenada na Assembleia Geral das Nações Unidas em uma resolução em 2012. “Na minha família, todas as mulheres foram mutiladas. Haviam lhes ensinado que era algo puro, eram boas mulheres. Uma mulher que não é mutilada não pode participar dos rituais. Ela é uma mulher suja.”
A falta de informação e de educação protege essas condutas, motivo pelo qual Djarra decidiu dedicar sua vida a esta questão para que não haja desculpas no futuro. “Nossas famílias, nossas mães, nossas avós pensavam que era algo bom para nós mulheres, porém agora sabemos que não é. Temos que lutar para que entendam que é ruim para a saúde.”
A mutilação, conta, precisa ser entendida em um contexto de violência estrutural contra as mulheres. “É uma violação dos direitos humanos e violência de gênero. Porém lá (na Guiné-Bissau) é algo normal. Seu marido pode te bater e você vai para a casa dos seus pais e eles te dizem: ‘Volta para casa, é o seu marido’. É como se seu marido fosse seu dono”. Hoje em dia, diz ela, as coisas estão mudando pouco a pouco. “Não tanto quanto na Espanha, porém estão lutando a favor da igualdade. Se você grita com seu marido na rua, diante de todos, você vai chamar muita atenção; porém, em casa, você pode fazer isso, e a mulher pode ter o controle.”
Djarra acredita que, na luta contra a mutilação genital feminina, as leis são indispensáveis. Como a que proibiu a mutilação em seu país de origem em 2011 ou a proibição na Espanha que pune com detenção os pais que permitem que suas filhas sejam mutiladas. “Mas sem meios, sem sensibilização, não se pode erradicar a prática. Em Guiné-Bissau a lei proíbe a mutilação desde 2011, porém a continuam realizando na área rural onde não há quem faça cumprir a lei, já que não há meios suficientes para tal.”
Na Espanha, em Navarro e na Catalunha, também existem protocolos para evitar que as meninas sejam mutiladas quando viajam de férias para seus países de origem. Elas devem passar por exame médico antes e depois da visita a seu país, e seus pais levam um documento em que se informa à família que, se a menina voltar para a Espanha mutilada, seus pais irão para a cadeia. Pretende-se desta forma que os parentes não obriguem os pais a mutilar as crianças; em muitos casos, estes familiares dependem do dinheiro enviado da Espanha e a prisão dos parentes migrantes cortaria essa via de rendimentos.
Djarra destaca também a necessidade de envolver as comunidades religiosas, que muitas vezes servem de apoio para as mutilações. “Eu vou com respeito. Na comunidade africana, os homens sabem mais sobre o Corão do que as mulheres, porque têm mais oportunidades para estudá-lo. O que eu lhes digo é que não há nenhum versículo do Corão que diga que é preciso mutilar as mulheres. Se o imã entende isso, pode sensibilizar os homens que frequentam a mesquita.” Nesse sentido, ela destaca o fatwa – pronunciamento legal sobre uma questão específica emitido por um especialista na lei islâmica – assinado por 170 imãs contra a mutilação.
Djarra espera que, um dia, a tradição não proteja o que para ela é uma violação de direitos humanos. Ela diz que vive entre dois mundos, que se complementam e a enriquecem. Sua mãe só a registrou quando Guiné-Bissau obteve sua independência de Portugal, em 1973. Foi então que ela acrescentou seu sobrenome nativo, Djarra, ao nome de Fátima. Ela, como sua mãe, busca preservar as tradições, mas somente aquelas que merecem ser preservadas. “A mutilação, não”, diz ela.
Tradução: Mari-Jô Zilveti
Matéria original publicada no site do jornal espanhol El Diario.

sábado, 1 de agosto de 2015

Transtornos alimentares: uma questão de gênero e gordofobia

julho 21, 2015 

Para quem se imagina distante da anorexia e da bulimia, há grandes chances de que pelo menos alguma pessoa próxima, seja uma amiga ou uma pessoa da família, viva um drama com a comida

Por Jarid Arraes

Quando um programa de televisão decide abordar o problema dos transtornos alimentares, a reação da audiência geralmente é de choque. Muitos consideram a anorexia, a bulimia e outros transtornos alimentares coisas horríveis e incompreensíveis; são pessoas que se sentem impactadas pela imagem de corpos extremamente magros e se sensibilizam com os relatos tristes das jovens que comem quantidades enormes de alimentos para depois forçarem vômitos.

Pode ser difícil para essas mesmas pessoas, no entanto, identificar e eliminar os comportamentos que estimulam e naturalizam hábitos alimentares problemáticos. Há muitas formas de se manifestar: seja por comentários censurando a quantidade de comida que uma amiga está comendo, avaliações não solicitadas sobre a aparência física de outras mulheres ou pela utilização de termos depreciativos contra pessoas gordas. Até mesmo dietas irresponsáveis, cheias de privações alimentares, podem ser problemáticas quando são repassadas como recurso para o emagrecimento.

O fato é que nossa cultura ensina o tempo inteiro que não comer é a melhor saída para se obter um corpo magro e supostamente perfeito; e mesmo que muita gente consiga resistir essa pressão, há uma espécie de punição para quem não possui o corpo enquadrado nos padrões. Além dos deboches, é difícil encontrar roupas que caibam e há problemas de acessibilidade: os direitos de sentar em uma cadeira ou mesmo utilizar um cinto de segurança, por exemplo, são comprometidos pela lógica de que as pessoas não deveriam ser gordas. Com tanta hostilidade, sobretudo nas cobranças para que mulheres se encaixem nos ideais de beleza, é fácil entender por que tantas jovens perdem suas vidas presas na anorexia e na bulimia.

De acordo com uma tese desenvolvida pela nutricionista Greisse Viero da Silva Leal, doutora em Ciências, área de concentração Nutrição em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública (FSP) da Universidade de São Paulo (USP), os índices de jovens vivendo com comportamentos de risco para transtornos alimentares é bastante preocupante. Em sua pesquisa, realizada com 1.167 adolescentes de escolas técnicas do Centro Paula Souza, na cidade de São Paulo, 12,2% dos jovens entrevistados tinha algum comportamento de risco, a maioria do gênero feminino. Práticas não saudáveis, como pular refeições, usar medicamentos ou fumar mais com o objetivo de perder peso eram utilizadas por 31,9% desses jovens.

Com índices tão altos, a triste realidade dos transtornos alimentares pode estar muito mais perto do que aparenta; para quem se imagina distante da anorexia e da bulimia, há grandes chances de que pelo menos alguma pessoa próxima, seja uma amiga ou uma pessoa da família, viva um drama com a comida.

A jornalista Marília Veloso conta que viveu ao longo de 17 anos com a bulimia, fantasiando que as pessoas lhe teriam mais apreço se fosse magra. “Fui uma criança e uma adolescente gorda, com uma família igualmente gorda. Porém, sempre fui muito cobrada para me encaixar nos padrões e, consequentemente, ser magra. Meu pai era o mais insistente e seus motivos variavam de ser feia por estar gorda a ‘nunca arrumar namorado’. Juntando isso com o fato de eu ter sido uma criança bastante ansiosa, quanto mais eu desejava emagrecer, mais eu comia”, introduz.

Veloso diz que o primeiro vômito forçado veio por ter se sentindo culpada após comer muito. Para ela, a sensação de alívio é o que mais lhe salta à mente. “Nos últimos anos, quase não precisava me esforçar para vomitar. Era só ter comido e ir ao banheiro. Ao longo do tempo, passei a reconhecer quais comidas eram mais fáceis e quais as mais difíceis de expelir. Nunca havia me dado conta de como isso regia meus hábitos alimentares até passar uma sessão inteira de terapia elencando esse ‘conhecimento’”, compartilha.

A estudante Janaína Barros também iniciou seus comportamentos bulímicos porque se sentia pressionada a emagrecer. “Eu era uma garotinha magra, mas fui engordando na adolescência após ser estuprada por um namorado que não admitia que eu não quisesse fazer sexo. Terminei o relacionamento, mas sofri muito com tudo e encontrei na comida o meu consolo. Só que esse ex-namorado estava sempre comentando com amigos em comum que era um alívio eu ter terminado, porque tinha ficado gorda e feia”, relata. “Meus parentes também me cobravam muito, como se eu ter engordado fosse a pior coisa que eu tinha feito contra mim mesma. Como eu precisava comer, por motivos óbvios, eu vi na internet que podia induzir o vômito”, afirma.

Depois de poucos meses, a estudante já tinha perdido mais de vinte quilos, mas nada era o suficiente para que ela deixasse de se enxergar com o mesmo corpo que tinha antes de emagrecer. “Eu olho no espelho e vejo um corpo gordo. Estou melhor nos últimos meses, principalmente porque comecei a falar sobre meu problema com outras mulheres, mas não sei se um dia eu vou conseguir ter uma relação normal com a comida”, lamenta Barros.

Para as mulheres que não encontram suporte e não têm acesso a informações que confrontam os transtornos alimentares, é realmente muito difícil conseguir vencê-los. A mídia, o entretenimento e até mesmo os profissionais da área da saúde vendem o tempo inteiro o corpo magro como o que é melhor, mais saudável e mais bonito. Numa sociedade gordofóbica como a nossa, o desafio é mostrar a essas mulheres que não tem nada de correto em forçar a magreza e os padrões de beleza.

Mesmo para aquelas que são feministas, como é o caso de Marília Veloso e Janaína Barros, o percurso não é simples. Embora saibam que os transtornos alimentares estão profundamente relacionados aos conceitos machistas e gordofóbicas da nossa cultura, todo avanço ainda é encarado com cautela. “Acho que a bulimia vai andar comigo para o resto da vida. Embora faça um ano, incríveis 12 meses, que eu não vomito, não há uma refeição que eu faça sem pensar no que eu estou comendo e de que forma isso vai me afetar. E isso muitas vezes é negativo, mas pode ser positivo também. São cada vez mais raros os ataques desenfreados; já sei reconhecer que a comida, independentemente da quantidade, não vai tapar nenhum buraco emocional”, afirma Veloso.

“Ás vezes, eu tenho uma compulsão e até vou à padaria para comprar doces, com a intenção de comer tudo de uma vez. Mas muitas vezes, quando chego em casa, eu consigo me controlar e mesmo que eu coma tudo, não vou induzir o vômito. Penso que estou destruindo meu corpo, não tornando ele perfeito. Perfeito é o corpo saudável e a anorexia, a bulimia, não são sinais de saúde. Ser magra não é definitivamente um sinal de saúde”, explica Barros.

Para essas duas mulheres, a psicoterapia e o conhecimento que adquiriram a respeito do feminismo foram fatores muito importantes na luta contra os transtornos alimentares. A compreensão do que está por trás dos padrões de beleza, dos mecanismos misóginos e racistas que pregam o que é a beleza, assim como dos abusos de quem cobra o emagrecimento, foram passos importantes para que elas pudessem assumir controle sobre seus corpos – não de uma forma prejudicial e punitiva, mas com maior aceitação e equilíbrio.

“Estudar e entender sobre feminismo, estar em contato com esse universo e com mulheres conscientes de seu papel, o que é genuíno, o que é imposto, tem sido a grande virada”, diz Veloso. “Recentemente engordei quatro quilos. Não posso dizer que o ganho de peso não me afetou negativamente, mas hoje em dia tem uma fagulhinha lá dentro que me faz acreditar que nenhum número na balança pode me fazer mais ou menos feliz, mais ou menos feia, mais ou menos aceita, digna, correta, interessante, melhor…. Pode parecer pouco, mas tem ajudado a redefinir a posição de protagonismo que tenho em minha própria vida. Sinto-me mais forte e acolhida por essas mulheres que eu nem conheço!”, exclama.

Para que mais jovens consigam dar meia volta e afastar o sofrimento dos transtornos alimentares, precisamos, coletivamente e enquanto sociedade, repensar nossos valores e aquilo que ainda consideramos aceitável de ser ensinado e disseminado como verdadeiro. Tão importante quanto o acompanhamento de profissionais capacitados para lidar com a anorexia e a bulimia é a reflexão crítica e politizada a respeito do que é imposto contra as mulheres. Sem que o machismo seja genuinamente discutido, sem que a mídia seja cobrada pelas mentiras que propaga a respeito do corpo feminino, continuaremos fazendo mais vítimas.

Para explicar melhor a gravidade do problema, pesquisadores dinamarqueses e britânicos indicam que a taxa de mortalidade de pessoas com transtornos alimentares é extremamente elevada – e não apenas por complicações de saúde resultantes das privações alimentares ou pelos ferimentos causados pelos vômitos constantes. Muitas dessas pessoas morrem porque recorrem ao suicídio. Mais de 44 anos de estudos científicos foram analisados pelos pesquisadores, que resultaram no artigo “Mortality Rates in Patients With Anorexia Nervosa and Other Eating Disorders: A Meta-analysis of 36 Studies” (“Taxa de mortalidade em pacientes com anorexia nervosa e outros transtornos alimentares: uma meta-análise de 36 estudos”). O artigo em inglês pode ser lido na íntegra e gratuitamente no arquivo do JAMA Network.

“Me sinto agredida e prejudicada pelo que vejo nas revistas, na moda e na televisão. Através deles, meus familiares e amigos aprenderam que ser magra é bonito e ser gorda é feio. Lendo e assistindo essas porcarias, eu acreditei por muito tempo que só teria felicidade, sucesso e valor se eu fosse toda encaixadinha nesses conceitos de beleza, de magreza e saúde. Eles me adoeceram”, diz Barros com indignação. “Muita gente está envolvida no sofrimento de meninas anoréxicas e bulímicas como eu. Só que nem todas conseguem melhorar como eu melhorei. Quem mais conseguirá enxergar que possui responsabilidade nisso?”, provoca.

Site dá passo-a-passo de “como estuprar uma mulher”

Entre as “dicas” publicadas pela página, estão guias de “como estuprar uma mulher na escola”, “como estuprar mulheres em festas e baladas” e outro específico para mulheres homossexuais. “Estuprar lésbicas é uma questão de honra, glória e bem-estar social”, anuncia a postagem. Saiba como denunciar essa e outras manifestações de violência na internet

julho 27, 2015
Por Redação

A página Tio Astolfo tem provocado indignação ao defender o estupro e estimular várias outras formas de violência contra a mulher. Entre as “dicas” publicadas pelo site, estão guias de “como estuprar uma mulher na escola”, “como estuprar mulheres em festas e baladas” e um específico para mulheres homossexuais.

“Estuprar lésbicas é uma questão de honra, glória e bem-estar social”, anuncia a postagem.

Apesar do conteúdo criminoso, a página segue no ar há mais de um mês. O autor defende a iniciativa como uma maneira de “expor a realidade a uma sociedade corrompida e degenerada pelo esquerdismo”. Para denunciar essa e outras manifestações de discriminação e incitação à violência na rede, basta entrar no site da Polícia Federal e preencher as informações solicitadas.

A ONG Safernet também recebe esse tipo de queixa e encaminha para os órgãos responsáveis, assim como o projeto Humaniza Redes, criado pelo governo federal.

Cordel – Quem Tem Crespo é Rainha

Por Jarid Arraes
julho 31, 2015

Para quem não compreende
Me disponho a explicar
O problema do racismo
Que a tudo quer mudar
O cabelo é o primeiro
E também o derradeiro
Que o racismo quer barrar.

Nesse mundo de racismo
Tudo é padronizado
O cabelo é escorrido
Natural ou alisado
E o cabelo cacheado
Que acaba repudiado
Do padrão é rejeitado.

Tem uma tal de escova
Que eu chamo “regressiva”
Que estica o cacheado
Na maior forma agressiva
E a peste custa caro
É por isso que eu falo
Que essa praga é invasiva.

As meninas vão crescendo
Aprendendo o que não presta
Vão achando dos cabelos
Uma ideia desonesta
Na torpe separação
Nessa branca enquadração
Asquerosa da mulesta.

Bem pequena a menininha
Já aprende a se odiar
Na tristeza, bem novinha
Seu cabelo quer alisar
Pois a vil sociedade
Só repete o disparate
Para o crespo machucar.

Esse tipo de veneno
É um mal muito profundo
Pois mutila a autoestima
Torna o ódio mais fecundo
E a menina a se odiar
Tudo nela quer mudar
Para se encaixar no mundo.

Quem não vê está dormente
Pois é grande a agressão
Colocar na chapa quente
Não se pode ser lição
Pois o ferro é violento
É um troço peçonhento
Contamina o coração.

Imagine que terrível
Só ouvir palavra hostil
O racismo não respeita
Nem o ser que é infantil
Pra criança já obriga
Uma ideia que castiga
Mas é forte no Brasil.

Falam que é cabelo ruim
Ou que é difícil cuidar
Falam mil barbaridades
Pra menina envergonhar
O racismo é opressor
É cruel, dominador
E só faz subjugar.

É por isso que devemos
Aprender a dizer não
Ao racismo alisado
Cara lisa fi do cão
Pois a nossa resistência
É mais pura sapiência
É nossa a revolução.

Eu começo por aqui
Dando minha opinião
Acho lindo esse cabelo
Bem armado, bem altão
Seja com cacho formado
Seja bem mais encrespado
Uma linda inspiração.

Coisa linda é o cabelo
Todo livre e natural
Coisa bela a cabeleira
Armada e fenomenal
Chama muita atenção
Pela sua afirmação
Com um profundo ideal.

Olha só, pura beleza
Esse cacho se mexendo
Como pé de fruta fresca
Pelo vento rebulendo
No gingado do balanço
É a música do avanço
A certeza vai crescendo.

Ensinando às crianças
Precisamos propagar
A beleza de ser negro
De o cabelo libertar
A menina empoderada
Dá inicio à alvorada
Para a todos encantar.

E aí vem mais novidade
Vem resgate do ancestral
Vem turbante colorido
Vem o lenço magistral
Linda a africanidade
Construindo a identidade
De uma gente atemporal.

Que beleza de turbantes
Em mil cores enrolados
Estampados e brilhantes
Os turbantes encantados
Ostentando essa cultura
Com toda a desenvoltura
São os panos enfeitados.

O cabelo que é bem crespo
Dá a forma ao seu turbante
Dá volume, corpo e dança
Bota um dorso deslumbrante
O formato é a beleza
Dessa negra natureza
Que se faz exuberante.

Como fosse a primavera
No seu crespo vai a flor
Perfumando essa cidade
Dando esse ponto de cor
E as flores gracejando
No cabelo vão brotando
Espalhando muito amor.

E o black muito power
Na altura é resistência
O sinal de uma certeza
Grande de resiliência
O volume vai garfando
E o poder vai aumentando
Com imensa eficiência.

Mas não ache que acabou
Inda tem mais opção
Pro cabelo que é liberto
Natural de imensidão
Veja a versatilidade
Que se mostra numa arte
Desse crespo furacão.

Se o desejo é variar
Você pode até trançar
Fazendo uma escultura
Que você deve mostrar
Pelas ruas da cidade
Na bonita intensidade
Dessas tranças desenhar.

E os dreads trabalhados
Com cuidado são nutridos
O cabelo é tão cheiroso
Tão bonito e aguerrido
Que delícia de opção
É o dread a emoção
Dessa gente tão querido.

O racista é muito burro
Acha que é superior
Mas não tem diversidade
Como o crespo demonstrou
O racismo é uma piada
Conversinha bem fiada
Em si mesmo se expirou.

Mas a gente negra forte
Não tem medo de enfrentar
Pois possui maior beleza
Para muito impressionar
Do cabelo e da raíz
Essa estética é feliz
Pronta pra africanizar.

Lindo é ver uma criança
Que tem black na cabeça
A menina que vaidosa
Com seu black prevaleça
Tão sincera a alegria
Poderosa essa energia
Para sempre permaneça.

O amor pelo seu crespo
É coroa pra reinar
Imponente a aparência
Negritude a ensinar
A beleza escurecida
De orgulho fortalecida
Feita para acalentar.

No cordel bem encrespado
Eu repasso a afirmação
Vou armando essa defesa
Do crespo a convicção
Nesse fio de autoestima
Minha raça legitima
E espalha essa emoção.

Não há nada de errado
Em ter o cabelo crespo
Pode ser bem enrolado
Ou um black de respeito
Pois em terra de chapinha
Quem tem crespo é rainha
Com exuberante jeito.

FIM

Um bar onde as mulheres não se escondem

hea, Stephanie e Mariela (da esq. à dir.) em seu bar Rumors, frequentado pelas lésbicas de Beirute. / NATALIA SANCHA

Num bairro cristão de Beirute sobrevive o único estabelecimento para lésbicas do país

NATALIA SANCHA Beirute 30 JUL 2015

Repetidos constantemente durante mais de um ano e meio, os rumores se tornaram realidade. Três jovens libaneses, duas lésbicas e uma heterossexual, finalmente conseguiram abrir as portas doRumors, muito mais do que um simples bar, e dar sequência a ele. Um duro golpe para aqueles que se empenharam em torpedear um projeto contrário à moral de uma sociedade por norma homofóbica. E um pequeno oásis de liberdade para um punhado de mulheres cada dia mais visíveis fora do mundo do lesbianismo árabe, que sobrevive tradicionalmente na privacidade doméstica.

Numa sociedade machista, crescemos ouvindo ‘as mulheres não podem’. Pois a eles dizemos que sim, nós podemos!
É na Beirute de 2015, em pleno bairro cristão de Ashrafie, onde cerca de trinta degraus de cimento levam um pedaço do Líbano a esse recôndito subsolo. “Tantos assumem e tão poucos sabem”, diz uma das pichações rabiscadas nas paredes do Rumors como se desse título ao quadro inusual protagonizado por duas mulheres se beijando abraçadas contra uma coluna. Atrás delas, uma jovem de minissaia tenta flertar com outra, cujos sorrisos nervosos incentivam a primeira a convidá-la a tomar uma bebida. O alarido das conversas de uma centena de mulheres e, tudo deve ser dito, de uma dúzia de homens, é interrompido quando um inesperado e musculoso michê – vestido apenas com uma cueca preta e uma máscara branca – começa uma suntuosa dança para o deleite das presentes.
Mariela, de 28 anos, sua namorada Rhea, de 27, e a amiga Stephanie, de 25, dividem o trabalho de marketing, contabilidade e administração do bar. Nos dias úteis, as três exercem essas mesmas profissões em outras empresas. Stephanie foge do esquema dos que consideram o Rumors um bar de lésbicas administrado por lésbicas. Ela é heterossexual e apoia uma comunidade que conheceu por intermédio de Mariela, sua melhor amiga desde a infância. As três possuem formação, recursos e falam línguas estrangeiras, o que lhes permitiria emigrar para a Europa. Mas elas se recusam. “Eu nasci aqui, quero ficar no meu país e fazer algo por ele”, diz Mariela enquanto serve algumas bebidas. “Queríamos abrir um espaço onde as mulheres pudessem se sentir bem, sem se esconder, enquanto desfrutam de um estabelecimento com serviços de qualidade. Nunca pensamos que seria lucrativo, quase o vemos como algo social”, admite gesticulando por trás do balcão.
A maioria das clientes não saiu do armário. No Rumors elas encontram uma zona de conforto, de ilusão de normalidade, onde não são esquadrinhadas nem julgadas e onde podem se sentir em casa, mas em público, e onde podem recuperar a autoestima que a aceitação social confere. Numa sociedade machista, crescemos ouvindo ‘as mulheres não podem’. Pois a eles dizemos que sim, nós podemos!”, grita Mariela. “Até a comunidade gay no Líbano está fodida. O que podemos esperar se os próprios homossexuais homens são machistas”, lamenta-se tarde da noite.
A numerosa clientela do Rumors, o único bar libanês para lésbicas desde o fechamento do Ob La Di, deixa claro que as homossexuais libanesas precisavam de uma arena pública. E que essas três jovens empreendedoras acertaram na mosca para dominar um nicho do mercado local. Há quatro anos, quando começou a guerra síria, se foram os turistas que mantinham viva a grande rede de bares libaneses, agora dependente da clientela local. “Abrimos as portas em 18 de novembro. Às oito da noite, as cadeiras ainda cheiravam a tinta. Esperávamos 60 ou 70 pessoas, mas vieram quase 400”, conclui sorrindo Mariela, que se refere àquela noite como um inferno logístico do qual conseguiram sair mais do que bem.

‘Milhões de crianças no mundo estão presas em guerras de adultos’, alerta UNICEF

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Uma menina Yazidi posando para a câmera. Os yazidis são uma minoria étnica no Iraque que sofreu perseguição no conflito do Iraque. Foto: UNICEF Iraque / Wathiq Khuzaie
Uma menina Yazidi posando para a câmera. Os yazidis são uma minoria étnica no Iraque que sofreu perseguição no conflito do Iraque. Foto: UNICEF Iraque / Wathiq Khuzaie
No 10º aniversário da resolução do Conselho de Segurança da ONU que estabeleceu um mecanismo de monitoramento e elaboração de relatórios sobre a utilização de crianças-soldado, diretor executivo do UNICEF pede mais responsabilização e fim da violência contra crianças.

Milhões de crianças em todo o mundo estão presas em guerras dos adultos, disse a chefe do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) na última sexta-feira (24), no 10º aniversário da resolução do Conselho de Segurança da ONU que estabeleceu um mecanismo de monitoramento e elaboração de relatórios sobre a utilização de crianças-soldado. Na ocasião, apelou firmemente pela responsabilização e medidas sólidas para acabar com todos os “horrores” que as crianças enfrentam.

O diretor executivo do UNICEF, Anthony Lake, disse que hoje milhões de crianças são deliberadamente mortas, feridas, estupradas, sequestradas. Suas escolas e casas estão sendo destruídas, sua alimentação, água e cuidados médicos têm sido negados. Dezenas de milhares são forçadas a se unir com forças e grupos armados. “Cada criança em um conflito que é morta ou forçada a matar, ou que testemunhou a brutalidade da guerra, é uma vítima”, disse ele.

“Há dez anos, o Conselho de Segurança da ONU aprovou a resolução 1612, para proteger melhor as crianças afetadas por conflitos. Hoje, estão sendo feitos grandes esforços para proteger as crianças em países em guerra”, declarou Lake, lembrando que no ano passado mais de 10 mil crianças foram libertadas de forças e grupos armados em todo o mundo, e receberam apoio para voltar para suas comunidades.

No entanto, advertiu, “a violência envolvendo crianças em conflito tomou um rumo sombrio’, destacando os relatório sobre o Iraque, Nigéria e Síria que revelaram que crianças são usadas como adultos e autores de extrema violência. Ele citou casos de crianças forçadas a observar e participar de execuções, incentivadas a acreditar que a violência é normal, expostas a brutalidade sem sentido, em total desrespeito à santidade de sua infância. “Deveríamos estar chocados com este sofrimento e que mais não está sendo feito para pôr fim a esses horrores e responsabilizar aos responsáveis”, concluiu.