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quinta-feira, 3 de março de 2016

Veteranos do Instituto de Geociências dão fim ao trote violento

A Comissão de Recepção dos Bixos do Instituto de Geociências (IGc) da USP, formada apenas por alunos da unidade, alterou o formato de trote que existia desde a década de 70 para receber os calouros de 2016, mudando práticas consideradas abusivas

por  em 
Em 1999, a USP foi palco de um dos seus casos mais emblemáticos de trote violento: a morte do estudante Edison Chi Hsueh, calouro de medicina, que foi jogado em uma piscina olímpica por seus veteranos mesmo após ter afirmado que não sabia nadar. No mesmo ano, Governo de São Paulo sancionou a lei 10.454/99, que proíbe os trotes considerados violentos nas universidades estaduais, e, em setembro de 2015, a lei 15.892/15 estendeu a proibição para todos os níveis de ensino.
Ainda assim, as denúncias por parte de calouros que passavam por situações abusivas durante a recepção continuaram. No IGc, até 2016, não foi diferente. Práticas que incitavam a violência física e psicológica eram transmitidas entre as gerações de veteranos, formando uma cultura de tradição no rito de passagem.
Confira no vídeo abaixo:

Tradição questionada

A aluna Ana Luísa Magalhães, do curso de Geologia, integra a Comissão de Recepção de 2016. De acordo com ela, o descontentamento geral dos alunos de segundo ano com o trote levou à proposta de acabar com a cultura das práticas abusivas no instituto. “Nossa sala se juntou com a comissão antiga para falar dos problemas que tivemos na recepção. Então a gente percebeu que a maioria das pessoas de lá não tinha gostado de alguma coisa que aconteceu”, conta a estudante. “Foi ai que pensamos: tem um problema sério nesse trote.”
A aluna informa que o Centro Acadêmico do instituto tem um arquivo com as fichas que relatam os trotes de todos os anos desde 1973. A comissão deste ano estudou esse arquivo e percebeu que algumas práticas existem desde a época da ditadura. “Os apelidos, que são uma tradição muito antiga aqui, começaram porque os estudantes de geologia eram muito ativos contra a ditadura militar, e isso dificultava a identificação dos nomes originais deles”, conta Arthur Lima, também aluno de geologia e membro da Comissão de Recepção.
O professor Paulo Boggiani, que atualmente faz parte do corpo docente do IGc, foi aluno do instituto na década de 80. Ele conta que quando era calouro, o trote muito violento, justamente por conta da tradição de combate à ditadura. “Eles [os veteranos] faziam essa opressão para mostrar o que o governo militar fazia. Funcionava, nós tivemos várias lideranças que surgiram”, lembra.
O professor também afirma que, apesar da recepção ser integralmente organizada pelos alunos, o instituto ainda faz o monitoramento dos trotes através de uma ficha que é preenchida anonimamente pelos calouros. “Esta semana está correndo muito bem, está tudo tranquilo, e tenho sérias expectativas de que não vamos identificar nenhuma reclamação”, afirma Boggiani.
Ana Luísa afirma que desconstruir essa cultura de trote abusivo não foi fácil e que muitos veteranos antigos não concordaram com a mudança. Ainda assim, a estudante afirma que a comissão conseguiu se organizar e permanecer firme em relação à sua posição. “As comissões dos anos anteriores não tinham essa organização, e então era mais difícil falar que a gente ia mudar. Eu acho que a pressão de cima, dos veteranos, é o que mantinha isso”, avalia Ana Luísa.
O professor Boggiani concorda. Para ele, com a atual democracia, esse modelo de trote não se justifica mais. “Agora, felizmente, o grupo de alunos envolvido com a recepção viu a necessidade de tornar algo mais integrativo”, comenta. “Pela primeira vez aqui no Instituto de Geociências, o trote definitivamente acabou”.
Leticia Fuentes/Jornal da USP

Consulado da Mulher abre ‘Seleção para Empreendedoras’ de São Paulo

Por Redação da Envolverde* 
Por  25/02/2016

Estão abertas as inscrições para a Seleção de Empreendedoras do Instituto Consulado da Mulher, ação social da marca Consul, que tem por objetivo incentivar e viabilizar a geração de renda de mulheres em situação de vulnerabilidade social, a partir do investimento no empreendedorismo feminino.

De 22 de fevereiro a 22 de março, mulheres com idade a partir de 16 anos, residentes em São Paulo (nas regiões de Paraisópolis, Subprefeitura da Vila Prudente 2, Subprefeitura do M’Boi Mirim, Subprefeitura de Santo Amaro e Centro de Referência de Assistência Social Ipiranga), que saibam produzir e já tenham comercializado artigos na área de alimentação  podem acessar o site www.consuladodamulher.org.br, preencher o formulário de inscrição e enviá-lo por e-mail ou via Correios conforme endereços indicado abaixo:

Envio por e-mail
Envio via Correios (postagem limite até 22 de março)
São Paulo – contato Kelly Silva – (11) 3566- 1483
Rua Olympia Semeraro, 675 – Jd. Santa Emília – São Paulo – CEP  04183-090

Durante o processo seletivo, as mulheres receberão formações básicas em temas ligados ao empreendedorismo e gestão de negócios, assim como apoio para construir um planejamento estratégico, que deverá ser apresentado à uma banca especializada.

Além disso, as selecionadas contarão com assessoria do Consulado da Mulher por dois anos, momento em que receberão treinamentos em Gestão Administrativa, Financeira, Vendas, Marketing, Gestão da Produção, Recursos Humanos, Sustentabilidade e Gênero, seguindo uma metodologia certificada pela UNESCO, KMPG e Fundação Banco do Brasil.

Mais informações: www.consuladodamulher.org.br

Sobre o Consulado da Mulher:
O Consulado da Mulher é a Consul transformando os sonhos em realidade. Incentivamos e viabilizamos geração de renda para melhorar a qualidade de vida das pessoas, investindo no empreendedorismo feminino. As mulheres, que fazem de conquistas pessoais transformações em cadeia, conseguem impactar as suas comunidades e não deixam ninguém de fora dessa história. Em nossos 13 anos de atuação, são mais de 33 mil pessoas beneficiadas por todo o Brasil. A gente faz história! (#Envolverde)

* Com informações da Assessoria do Consulado Mulher.  

Hackathon Campinas reúne desenvolvedores em prol da cidadania

Evento estimula a criação de apps e soluções tecnológicas para a população; serão distribuídos R$ 12 mil em prêmios às equipes que criarem as melhores aplicações.

Por Redação da Envolverde*
01/03/2016
Hackathon Campinas, promovido pela Informática Municípios Associados (IMA), Prefeitura Municipal de Campinas e Sensedia acontece nos dias 5 e 6 de março na sede da IMA em Campinas. Os participantes poderão usar a base de dados relacionados à Prefeitura da cidade para criar aplicativos e soluções tecnológicas úteis para os cidadãos. Como incentivo à participação, serão distribuídos um total de R$ 12 mil em prêmios para as equipes que desenvolverem as melhores aplicações durante a maratona de programação.
A equipe responsável pela criação da melhor solução, receberá R$ 6 mil em vale presentes distribuídos igualmente entre os quatro integrantes do grupo (R$ 1,5 mil para cada um). A segunda equipe receberá R$ 4 mil e a terceira, R$ 2 mil, também em vale presentes a serem divididos entre os participantes de cada time.
Foram selecionados 48 participantes por meio de critérios como conhecimento de diferentes tecnologias e histórico profissional. A premiação será oferecida pelos patrocinadores do evento, que também é apoiado pelo Núcleo SoftexCampinas, Sanasa e Sebrae.
Hackathon começará no dia 5, às 8h00, na sede do IMA, à Rua Bernardo de Sousa Campos, 42 – Praça Dom Barreto – Ponte Preta. Os participantes serão divididos em 12 equipes, cada uma composta por três desenvolvedores e um designer. Durante o evento, um time técnico e de negócios estará disponível para auxiliar os desenvolvedores e, ao final, uma banca com cinco integrantes escolherá a equipe vencedora.
Outras informações podem ser obtidas no site:http://www.ima.sp.gov.br/hackathon.
Saiba mais
Hackathon Campinas tem o objetivo de criar projetos de softwares e soluções tecnológicas para a Administração Pública e os cidadãos.  “A IMA cuida de toda a infraestrutura digital de Campinas, incluindo os sistemas de gestão urbana, financeiro, saúde e atendimento como o 156”, explica Fábio Pagani, presidente da organização. Segundo ele, a expectativa é que o hackathon traga boas ideias que possam ser implementadas posteriormente. “O evento faz parte das iniciativas de estímulo à inovação e empreendedorismo em Campinas”, conta.
“A maratona de programação resultará em produtos que colaborem para a reinvenção do governo, proporcionem maior visibilidade e transparência dos dados públicos, bem como benefícios aos cidadãos”, afirma Fábio Luiz, coordenador de sistemas na IMA. Serão 24 horas de programação, já que o evento se encerra somente no dia 6, a partir das 9 horas, com a demonstração dos apps. Uma banca composta por cinco pessoas irá selecionar e premiar os criadores dos melhores apps. Além disso, segundo Kleber Bacili, CEOda Sensedia, os participantes terão apoio do time técnico e de pessoas da área de negócios que poderão falar mais sobre a origem e o uso desses dados.
A iniciativa de realizar o hackathon partiu tanto da IMA quanto da Secretaria Municipal de Gestão e Controle da Prefeitura Municipal de Campinas (PMC). De acordo com Thiago Sampaio Milani, diretor de controle preventivo e Igor Nogueira de Camargo, coordenador de prevenção e orientação da Secretaria, as expectativas da Prefeitura são muito positivas em relação ao evento, uma vez que será uma oportunidade para tratar de dados abertos governamentais contando com a sociedade na construção de apps inteligentes e soluções. “O hackathon será um grande aliado da lei de acesso à informação e é muito importante envolver a população neste evento”, afirma Milani.
Enquanto a IMA está atuando para disponibilizar os dados técnicos da Prefeitura de Campinas, a Sensedia constrói as APIs e oferece sua plataforma, API Suite, para gerenciamento das mesmas. “Os participantes poderão utilizar informações municipais relevantes para o desenvolvimento dos apps. Os dados serão disponibilizados antes do início do evento, acompanhados de documentações que os contextualizem e detalhem”, ressalta Fábio Luiz.
Segundo Fábio Rosato, gerente de consultoria da Sensedia e responsável pelo projeto, o foco do hackathon é a criação de uma rede colaborativa de usuários que poderão contribuir para uma cidade mais inteligente. “Campinas tem um ambiente propício à inovação e tem tudo para ser posicionada como uma cidade digital. E quanto mais usuários estiverem conectados, melhor será a eficiência da rede”, conta Fábio Rosato. Assim como no hackathon da ONG Transparência Brasil, realizado pela Sensedia em 2014, um dos objetivos deste projeto é incentivar a inovação aberta, trazendo soluções mais criativas para a população a partir de dados da Prefeitura Municipal.
Sobre a IMA
Fundada em 1976, a Informática de Municípios Associados S/A (IMA) é uma empresa de economia mista que tem como principal acionista a Prefeitura Municipal de Campinas (PMC). A IMA presta serviços nas áreas de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) e é responsável pelo desenvolvimento, manutenção e evolução de todos os sistemas que atendem à PMC. Além disso, possui um moderno datacenter e estrutura de telecomunicações que oferecem suporte a todo o ambiente, com altos índices de segurança e disponibilidade.
Os principais clientes da IMA são prefeituras, entretanto várias de suas soluções atendem aos demais níveis da administração pública direta e indireta.
Sobre a Sensedia
Considerada a maior referência em API (Application Programming Interface) e SOA (arquitetura orientada a serviços) no Brasil, a Sensedia tem sede em Campinas (SP), e escritórios em São Paulo (SP), Rio de Janeiro (RJ) e Filadélfia (EUA). Alguns dos clientes são: Abril, Bradesco, Bradesco Seguros, Catho, Cielo, Rede, Cnova, Estácio, GVT, Ipiranga, Itaú, Novartis, Porto Seguro, Sem Parar, Serasa Experian, Tecban, TIM, Vale e Vivo. (#Envolverde)
* Com informações do IMA, Prefeitura de Campinas e Sensedia. 

Brasil vira referência em aleitamento materno. Palmas para os "mamaços"

O ministro da Saúde, Marcelo Castro, recebeu hoje uma placa da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), em reconhecimento aos avanços

CRISTIANE SEGATTO
02/03/2016

Em meio a notícias de falhas na assistência às mães de bebês nascidos com microcefalia relacionada ao vírus zika, o ministro da saúde, Marcelo Castro, recebeu hoje uma placa da Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), em reconhecimento aos avanços do Brasil em aleitamento materno.

A homenagem é baseada nos resultados de um estudo da revista científica britânica The Lancet, que comparou dados de  153 países. Em 1974, as crianças brasileiras eram amamentadas por 2,5 meses em média. Em 2006, esse número havia subido para 14 meses. Em 1986, apenas 2% das crianças de até seis meses recebiam apenas leite materno. Em 2006, essa taxa havia saltado para 39%.

As brasileiras são as maiores doadoras de leite humano. Dos 292 bancos de leite existentes no mundo, 72,9% estão no Brasil. Essas unidades beneficiaram, entre 2008 e 2014, 88,5% (cerca de 11 milhões) de todas as mulheres assistidas no planeta e contaram com o apoio de 93,2% das doadoras de leite (1,1 milhão de brasileiras).

As mulheres brasileiras foram responsáveis por 89,2% da coleta dos 1,1 milhão de litros de leite doados e beneficiaram 79,1% de todos os recém-nascidos atendidos nesses espaços. 

As ações governamentais têm seus méritos, mas as verdadeiras responsáveis por esses avanços são as mulheres. É inadmissível que, ainda hoje, mães sejam constrangidas ao amamentar em público e precisem organizar “mamaços” para garantir um direito que só traz benefícios à saúde e à economia do país.

Saiba por que no áudio de 2 minutos.



Época

quarta-feira, 2 de março de 2016

Palestra: A Mulher através do Tempo


Violência Oculta

Contém Violência
# 62
TEXTO Giuliana Bergamo

Numa noite de domingo, em uma pensão da Vila Leopoldina, zona oeste de São Paulo, Elenilson deu um tiro no braço de Adeildo. O Ministério Público considerou "fútil" o motivo: na quinta-feira anterior o agredido negou comida por três vezes ao agressor diante de outros dois moradores, embora estivesse à mostra, sobre um móvel, um saco de farinha. Não é exatamente banal a fome e a humilhação pública de Elenilson, nem a pobreza de Adeildo, sem dinheiro para pagar o aluguel de uma casa para morar com a mulher. Essa violência está oculta em todos cantos: nos lares, nas escolas, nos escritórios, no trânsito. Só damos bola para ela quando se transforma em crime e vira notícia.

Os históricos individuais, é preciso frisar, não justificam o crime. Só deixam claro que, antes de partir para a agressão física, essas pessoas foram vítimas em situações que costumam ser ignoradas pela sociedade. Pode não faltar comida ou dinheiro para a maioria, mas ninguém passa pela vida sem levar uns bons tabefes dela. O próprio nascimento, por exemplo, é considerado uma violência em si. "O medo e a criança nascem juntos", afirmou o médico francês Frédérick Leboyer, famoso por descrever práticas que tornam a chegada ao mundo menos dolorosa.

A questão é que, se os efeitos do nascimento são perceptíveis e inevitáveis, fechamos os olhos para muito da violência oculta na sequência da nossa vida. O que dizer do motorista que buzina para o pedestre que ousa atravessar a rua lentamente? Ou do moço que dá aquela aspirada na saliva entre os dentes quando uma beldade cruza o seu caminho? Até dentro de casa, o lugar onde deveríamos encontrar o maior aconchego, agredimos e somos agredidos o tempo todo. Momentos que entram para o álbum de família podem ser marcados por ressentimentos. Crianças brigam por um brinquedo, e adultos ensinam a elas que, se levou, tem que bater de volta. Mães ameaçam seus rebentos em troca de "bom comportamento" - "Já para o banho, menino, se não eu te arrebento!". Casais apelam para a chantagem psicológica em nome do matrimônio - "Você me destrói quando vai para o futebol e me deixa aqui sozinha". Situações como essas são corriqueiras e podem parecer irrelevantes se comparadas ao que assistimos todos os dias no noticiário policial (não seriam, por sinal, certos noticiários extremamente agressivos?). Mas elas são também consideradas atos de violência pelos especialistas no assunto.

O primeiro ponto é saber o que estamos chamando, aqui, de violência. Como explica o doutor em sociologia Herbert Rodrigues, pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da USP (Universidade de São Paulo): "Trata-se de um conceito que muda de acordo com o tempo e o lugar onde estamos". Não é preciso muito esforço para buscar um exemplo do que ele diz. Há poucos anos, dar palmadas nos filhos era um ato não só aceitável, como aconselhado por educadores. Hoje a atitude é considerada crime, assim como xingar ou humilhar a criança. Algo parecido aconteceu com os trotes universitários, com o bullying e até com a tolerância ao assédio moral no ambiente de trabalho.

Embora seja uma obra de ficção, a série de TV "Mad Men" funciona como um bom retrato das condições em que viviam os funcionários de uma agência de publicidade norte-americana nos anos 1960. Don Draper e os outros chefes do escritório não poupavam seus subalternos dos mais infames abusos. Principalmente as mulheres. É verdade que, hoje, os trabalhadores não vivem necessariamente em plena harmonia com a chefia. No entanto, as agressões, inclusive as verbais, podem ser denunciadas e resultar em processos trabalhistas.

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NA PORTA DE CASA
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Brigas de vizinhos são um clássico. Começam por um motivo simples (som alto, carro mal estacionado, reforma no condomínio) e podem até acabar em morte. Nossa história, aqui, tem desfechos diferentes

Podemos dividir o conceito de violência em dois grupos. No primeiro, está aquela que é visível e de fácil percepção: a física, em que há emprego de força contra alguém. No outro está a simbólica ou passiva: quando há sofrimento "mais de natureza emocional", como conta o fundador do M. K. Gandhi Institute for Nonviolence, Arun Gandhi, sobre um exercício que seu avô, o lendário líder indiano Mahatma Gandhi, realizou com ele na infância. Tal violência ocorre sempre que alguém é privado de suas necessidades, de seus direitos. Pode ser subdividida em diversas categorias. Uma delas é a violência de estado. Um exemplo: quando um cidadão é privado do seu direito ao acesso à saúde pública. Já o chute que o pastor da igreja Universal do Reino de Deus deu na imagem de Nossa Senhora, em 1995, é considerado um ato de violência cultural contra os católicos. E a proibição de algum festejo ou ritual típico também pode ser qualificada violência cultural. Em qualquer um dos casos, a agressão desencadeia sentimentos iguais ou muito semelhantes aos causados por um safanão: raiva, tristeza, medo, entre outros... E raramente para por aí.

Além de causar traumas, estresse e infelicidade, a violência simbólica costuma desencadear casos de agressões físicas. "A agressão física acaba sendo a saída que as pessoas encontram para resolver seus conflitos que carecem de mediação", diz o sociólogo Renan Theodoro de Oliveira, também pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência, da USP. Ele é autor da dissertação de mestrado defendida no início do ano e intitulada "Banalidades e brigas de bar: Estudo sobre conflitos interpessoais com desfechos fatais". Para o trabalho, Renan analisou trinta boletins de ocorrência (entre eles o registro do crime que abre este TAB) e concluiu: "Qualificar o motivo como 'banal' é desconsiderá-lo e, como consequência, silenciar os autores da história em questão".

A artista e perita criminal paraense Berna Reale tem uma opinião semelhante. Funcionária da perícia há seis anos, Berna conta que boa parte das ocorrências é resultado daquilo que ela e os colegas chamam de "cachimblema" (cachaça, chifre e problemas, em geral, familiares). Ou seja, conflitos interpessoais não resolvidos de forma pacífica. Ela já notou também que, muitas vezes, o local onde ocorre um crime fatal já foi visitado diversas vezes pelos peritos anteriormente. "A história vai se agravando, agravando, até que acaba em tapa, tiro e morte", diz. Por esse motivo, Berna propôs a criação de uma base de dados para esmiuçar casos de homicídio de mulheres. A ideia é que os peritos alimentem o sistema com informações detalhadas que permitam entender melhor o que leva ao assassinato.

A violência é um conceito que muda de acordo com o tempo e o lugar onde estamos
Herbert Rodrigues, sociólogo e pesquisador do Núcleo de Estudos Sobre a Violência da USP

Violento, eu?
Escolha a opção que mais tem a ver com o modo como você se comporta em cada uma das situações descritas a seguir. As respostas que ficarem verdes estão completamente alinhadas às técnicas de comunicação não violenta.

Como você descreveria esta cena a alguém:

A Vejo uma mãe que não sabe controlar o próprio filho. B Vejo uma típica criança da nova geração, que controla os próprios pais. C Vejo uma criança birrenta. D Vejo uma criança que precisa de algo, mas não sabe pedir de forma educada e, por isso, grita e esperneia. E Vejo uma criança chorando ao lado de uma mulher.
     
Fonte: Teste realizado com consultoria da coach e facilitadora de Comunicação Não Violenta Carolina Nalon, com base no livro escrito pelo americano Marshall Rosenberg Comunicação Não Violenta - Técnicas Para Aprimorar Relacionamentos Pessoais e Profissionais

Violência é um tema importante na vida de Berna Reale. Sua arte é pautada pelo assunto. Uma de suas obras mais famosas, "Quando Todos Calam", trata da vulnerabilidade do indivíduo quando o coletivo o ignora. Para realizar a performance, a artista ficou nua, com vísceras bovinas sobre o ventre, deitada em uma mesa à céu aberto na região do Mercado Ver o Peso, em Belém (PA), rodeada por urubus. "A ausência e o silêncio diante de uma agressão também são uma forma de violência", diz.

No ano passado, além de representar o Brasil na 56ª Bienal de Veneza, ela fez parte do 34º Panorama da Arte Brasileira, no MAM (Museu de Arte Moderna), em São Paulo. Para a exposição paulista, preparou uma instalação que remetia a uma pista de dança. No entanto, as luzes eram sirenes de viaturas e o som se misturava a gravações reais de rádios da polícia. Com sua arte, Berna também já tratou do assédio cotidiano contra mulheres, da corrupção, da pobreza e da polêmica entre religião e sexualidade. Todas formas de violência. Por ironia do destino, ela mesma agora é personagem de um episódio de agressão. No último dia 18, denunciou à imprensa e nas redes sociais a briga que teve com o diretor do Instituto de Criminalística de Belém, onde trabalha. A paraense conta que o chefe a colocou contra a parede e a ameaçou dizendo que iria mostrar como respeitá-lo.

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NO TRABALHO
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Em escritórios, a violência simbólica corre solta. Fortalecida pelo poder da chefia e pelo clima de competição, ela surge em forma de assédio moral, sexual e por aí vai. Mas não precisaria ser assim

Descrita na década de 1960 pelo americano Marshall Rosenberg, uma técnica chamada CNV (Comunicação Não Violenta) se propõe a ser uma espécie de antídoto para a violência passiva. Nos últimos anos, tem ganhado adeptos. As inquietações com o tema surgiram ainda na infância, quando Rosenberg mudou-se com a família para um bairro muito violento de Detroit, nos Estados Unidos. Duas semanas depois, uma briga por motivos raciais os obrigou a ficarem trancados durante três dias em casa. Enquanto isso, mais de quarenta pessoas foram mortas na região. Dali para frente, ele passou a observar o que motivava a violência e o que era capaz de manter um indivíduo pacífico. "Embora possamos não considerar 'violenta' a maneira como falamos, nossas palavras não raro induzem à mágoa e à dor, seja para os outros, seja para nós mesmos", escreveu em seu livro "Comunicação Não Violenta - Técnicas para Aprimorar Relacionamentos Pessoais e Profissionais".

Baseada na promoção da empatia, a CNV ensina a fazer uma faxina na forma como expressamos nossos sentimentos e pedimos o que precisamos aos outros. Ficam fora os julgamentos, a culpa e a vitimização (faça acima o quiz Violento, eu?). Para isso, Rosenberg descreveu quatro principais "passos": observar sem avaliar ou julgar; identificar os sentimentos envolvidos no conflito; assumir a responsabilidade pelos próprios sentimentos; e fazer pedidos de forma clara e objetiva. A ideia é que os envolvidos em um relacionamento problemático - ou, pelo menos, um deles - tente identificar quais são as necessidades de cada um e, então, lide com elas de forma honesta. É o que faz a namorada ao tentar entender por que o namorado se incomoda com seu batom vermelho, no vídeo No Amor (veja abaixo). Na mesma cena, o homem também se comporta de acordo com a CNV ao ser honesto e assumir que sente ciúme e insegurança.

Rosenberg dedicou sua vida à promoção da paz. Participou de importantes mediações de conflitos em áreas delicadas, como regiões da África e do Oriente Médio, e morreu no ano passado. Deixou um bom legado. Além de livros, no Youtube há vídeos de suas palestras e seminários. Neles, o norte-americano dá diversos exemplos de como a CNV pode mudar a forma como as pessoas se relacionam. Tem a história de uma mulher que não gostava de fazer o jantar para a família. "Detesto do fundo da alma", disse a moça, que encarava a tarefa como uma obrigação incontestável. Depois do seminário, anunciou à família que não era mais responsável pela cozinha. Três semanas depois, um dos filhos dela fez a seguinte afirmação a Rosenberg: "Graças a Deus! (...) Talvez ela finalmente pare de reclamar durante as refeições!".

A ausência e o silêncio diante de uma agressão também são uma forma de violência
Berna Reale, artista e perita criminal

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NO AMOR
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Por trás de abraços, carinhos e sexo, um relacionamento amoroso pode esconder muito lixo. Julgamento, submissão, ciúme, controle, raiva. Poderia ser diferente se os envolvidos conseguissem se comunicar melhor.

A comunicação não violenta, às vezes, soa auto-ajuda. Mas quem mergulha na empreitada de levar uma vida mais pacífica relata os benefícios. O carioca Allan Redlich Santos, 36, conta que a técnica mudou a forma como ele e a mulher se relacionam com a filha, hoje com 5 anos. Quando a menina era ainda um bebê, por volta dos dois anos, entrou numa fase comum às crianças da idade: a da birra. Negava-se a atender os pedidos dos pais ou a seguir uma rotina. O simples "Vamos tomar banho, filha?" era capaz de desencadear um caos, com choros, gritos, cansaço e muita, muita frustração.

"Vivíamos em um estado de tensão permanente. Eu chegava em casa e encontrava minha mulher destruída emocionalmente, muito culpada e sem saber como agir. Não chegamos a bater em nossa filha, mas acabávamos partindo para a ameaça, disputa e outras formas de violência que nunca aprovamos e acabavam sendo o último recurso para resolver o problema", afirma. Foi então que, na internet, eles descobriram a técnica desenvolvida por Rosenberg. Fizeram um treinamento e, aos poucos, passaram a aplicar a CNV dentro de casa. "Começamos a tentar identificar o que nossa filha estava sentindo nos momentos de conflito e, ao mesmo tempo, o que nós sentíamos." Hoje, diz, vivem em paz.

Policiais do Rio viram alunos de CNV

Embora os treinamentos sejam curtos, não é de uma hora para outra que se aprende a usar CNV com naturalidade. Antes de gravar as cenas para os vídeos que fazem parte deste TAB, os atores Luciana Caruso e Wagner Molina receberam uma rápida explicação sobre a técnica e os roteiros escritos em duas versões: na forma convencional (violenta) e na forma compassiva, essa com as instruções in loco da coach e facilitadora de CNV Carolina Nalon. A filmagem da primeira versão foi fácil. Já a segunda precisou ser repetida muitas vezes. "Isso não parece real. Ninguém fala assim", contaram os atores. É uma mostra de que não temos muitas referências de comunicação que não sejam pautadas pelo julgamento, culpa, ameaça...

A Polícia Militar do Rio de Janeiro resolveu enfrentar o desafio de praticar a CNV. Há quase um ano, policiais das UPP (Unidades de Polícia Pacificadora) estão recebendo instruções baseadas na técnica. "Policiais de UPP atuam em condições muito delicadas", diz a fonoaudióloga Mônica Azzaritti, responsável pelo treinamento. "Estão em áreas comandadas pelo crime, são hostilizados pela população diariamente e, ao mesmo tempo, têm de lidar com os cidadãos e seus problemas triviais." Por esse motivo, o coordenador da Polícia Pacificadora, Coronel Luis Claudio Laviano, encomendou um treinamento específico a Mônica.

Em duas horas, a especialista promete transformar os policiais em príncipes. Na prática, não funciona bem assim, claro. Mas é surpreendente como acabam receptivos à técnica. O primeiro desafio da fonoaudióloga é desarmar emocionalmente os policiais. Eles costumam chegar para o seminário cansados, estressados e com a tendência a achar tudo aquilo perda de tempo. "Por isso fiz adaptações para tornar o conteúdo mais próximo à realidade deles", afirma. Na aula aprendem que, antes do pé na porta e do dedo do gatilho, quase sempre dá para bater um papinho. Mônica ensina, por exemplo, a pedir - e não mandar - que um morador da comunidade abra a mochila para ser revistada. E mostra como é eficiente informar para os cidadãos abordados qual o objetivo da ação e por que estão ali. Os policiais aprendem, portanto, a importância da comunicação para a conquista de uma sociedade mais pacífica. Afinal, se tem alguém que não pode banalizar a violência - seja ela oculta ou não - é quem trabalha para contê-la.

Contra a mera “tolerância” das diferenças

Renan Quinalha
“É preciso tolerar a diversidade”. Sempre que me defronto com esse tipo de colocação, aparentemente progressista e bem intencionada, fico indignado. Não, não é preciso tolerar.
“Tolerar”, segundo qualquer dicionário, significa algo como “suportar com indulgência”, ou seja, deixar passar com resignação, ainda que sem consentir expressamente com aquela conduta.
“Tolerar” o que é diferente consiste, antes de qualquer coisa, em atribuir a “quem tolera” um poder sobre “o que tolera”. Como se este dependesse do consentimento daquele para poder existir. “Quem tolera” acaba visto, ainda, como generoso e benevolente, por dar uma “permissão” como se fosse um favor ou um ato de bondade extrema.
Esse tipo de discurso, no fundo, nega o direito à existência autônoma do que é diferente dos padrões construídos socialmente. Mais: funciona como um expediente do desejo de estigmatizar o diferente e manter este às margens da cultura hegemônica, que traça a tênue linha divisória entre o normal e o anormal.
Tolerar não deve ser celebrada e buscada nem como ideal político e tampouco como virtude individual. Ainda que o argumento liberal enxergue, na tolerância, uma manifestação legítima e até necessária da igualdade moral básica entre os indivíduos, não é esse o seu sentido recorrente nos discursos da política.
renan_tolerância
Com efeito, ainda que a defesa liberal-igualitária da tolerância, diante de discussões controversas, postule que se trate de um respeito mútuo em um cenário de imparcialidade das instituições frente a concepções morais mais gerais, isso não pode funcionar em um mundo marcado por graves desigualdades estruturais.
Marcuse identificava dois tipos de tolerância: a passiva e a ativa. No primeiro caso, a tolerância é vista como uma resignação e uma omissão diante de uma sociedade marcadamente injusta em suas diversas dimensões. Por sua vez, no segundo caso, ele trata da tolerância enquanto uma disposição efetiva de construção de uma sociedade igualitária. Não é este, no entanto, o discurso mais recorrente da tolerância em nossos tempos.
Assim, quando alguém te disser que é preciso “tolerar” a liberdade das mulheres, os direitos das pessoas LGBT, a busca por melhores condições de vida das pessoas pobres, as reivindicações por igualdade material das pessoas negras, dentre outros segmentos vulneráveis, simplesmente não problematize esse discurso.
Admitir a existência do outro não significa aceitá-lo em sua particularidade como integrante da comunidade política. É preciso valorizar os laços mais profundos de reciprocidade e respeito pelas diferenças, o que só o reconhecimento, estágio superior da tolerância, pode ajudar a promover, como ensinou Axel Honneth.
Diversidade é um valor em si mesmo e não depende da concordância dos que ocupam posições de privilégios. Direitos e liberdades não se “toleram”. Devem ser respeitados e promovidos, por serem conquistas jurídicas e políticas antecedidas de muitas lutas.
O que não se pode tolerar é o discurso aparentemente “benevolente” e “generoso” – mas na verdade bem perverso – da “tolerância das diferenças”. Ninguém precisa da licença de ninguém pra existir.

Renan Quinalha

É advogado e militante de direitos humanos, com formação em Direito e em Ciências Sociais na Universidade de São Paulo (USP), onde defendeu o Mestrado em Sociologia do Direito e, atualmente, cursa o Doutorado em Relações Internacionais. É membro da diretoria do Grupo de Estudos sobre Internacionalização do Direito e Justiça de Transição (IDEJUST), do Conselho de Orientação Cultura do Memorial da Resistência e foi assessor da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo “Rubens Paiva”. Publicou o livro intitulado “Justiça de Transição: contornos do conceito” (Dobra/Expressão Popular, 2013) e, junto com James Green, organizou o livro “Ditadura e Homossexualidades” (EdUFSCar, 2014).

A chave do poder

Berenice Bento
Para Leilane Assunção
Um dia banal de aula. A professora chega ao campus universitário e vai até o setor administrativo da universidade. Pede a uma funcionária para abrir a sala de aula. Retira-se e fica esperando com seus estudantes diante da sala. O tempo passa, o calor aumenta. A professora dirige-se novamente para o setor. No meio do caminho, se encontra com a funcionária responsável e pergunta o porquê da demora. Não havia demora, mas intencionalidade. A funcionária lhe comunica que não irá abrir a sala porque não sabe se ela, a professora, era quem dizia ser. A presença dos estudantes não seria “uma prova” suficiente de que ela era professora?
Imagem da série Spiral Head, de Pavel Tchelitchew, 1950
Imagem da série Spiral Head, de Pavel Tchelitchew, 1950
Nenhum professor ou professora nesta instituição precisa mostrar a identidade para pegar a chave, tampouco necessita do testemunho dos estudantes. Sou professora desta instituição. Em mais de cinco anos ali lecionando, nunca nenhum funcionário me fez tal exigência. Para manter o clima de cordialidade no espaço universitário, imagina-se que ninguém irá mentir sobre o vínculo com a instituição.
Quando a funcionária diz que não entregará a chave, ela assume para si o poder de Estado. Decidiu, unilateralmente, quem poderá ter acesso ou não às salas. Nestas microrrelações, podemos notar que o Estado não está em um lugar distante, povoado de gente desconhecida, mas, aqui, nas interações banais do cotidiano, conforme proposto por Foucault. Não existe “o” poder, mas relações de poder materializadas em práticas que visam à obtenção de melhores posições. Procedimentos burocráticos, como, por exemplo, as chamadas escolares, a definição de mecanismos de controle para entrega da chave, os prontuários médicos, os processos jurídicos, revelam-nos a capilaridade do poder. O poder do Estado não está exclusivamente na Praça dos Três Poderes, em Brasília. Para o preso, é o dono da chave da cela, o carcereiro, quem tem o poder.
Quando a funcionária disse: não tenho certeza se você é quem diz que é, ela termina por instituir um lugar de poder que deslegitimava a existência da professora. Acontece que a professora em questão já vem de uma longa luta pelo reconhecimento. Ela conhece, em suas entranhas, o funcionamento das instituições sociais. Diferente do paralisado homem diante da lei, de Kafka, a professora Leilane Assunção entrou em espaços proibidos, negou o poder da lei em negar sua existência. Para se tornar uma professora doutora, ela, uma mulher trans, precisou arrombar muitas portas. Fechavam-na. Ela batia. Não respondia. Ela continuava a bater. O silêncio se fazia. Ela forçava a entrada. Como explicar que uma mulher trans tenha conseguido se tornar doutora e professora de uma universidade pública? O nome disso é resistência. São narrativas existenciais como essas que nos fornecem alimento para continuar nas disputas cotidianas.
Nesta mesma universidade, a professora Leilane teve que enfrentar a fúria de outro funcionário que lhe negou autorização para usar o banheiro feminino, ameaçando-lhe separar seu corpo de sua cabeça, caso ela continuasse a insistir naquele despropósito: fazer xixi no banheiro feminino. Nesta mesma universidade há uma norma que assegura o nome social para as pessoas trans. No entanto, por “problemas no sistema”, todos os semestres Leilane se vê exposta ao constrangimento de ter seu nome de batismo exibido nas páginas internas da universidade. Erro do sistema ou erro no sistema? Sem dúvida, o sistema erra reiteradamente para garantir o acerto fundamental: deixar tudo como está.
Naquela tarde de sol natalense, a dona das chaves lhe dizia que ela fosse para casa e não ousasse poluir o santificado (e bolorento) espaço acadêmico. Leilane não pertencia àquele lugar. Naquele dia não teve aula. Os alunos voltaram para casa. E ali se iniciava mais um momento de luta na vida da professora Leilane. Mais uma porta precisava ser aberta. Agora, ela não está sozinha. Somos muitas Leilanes.

Berenice Bento

Professora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e pesquisadora do CNPq, Berenice Bento possui graduação em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Goiás (1994), mestrado em Sociologia pela Universidade de Brasília (1998), doutorado em Sociologia pela Universidade de Brasília/Universitat de Barcelona (2003) e pós-doutorado pela CUNY/EUA (2014). Tem experiência na área de Sociologia e Antropologia, atuando principalmente nos seguintes temas: gênero, sexualidade, direitos humanos e estudosqueer. Foi editora da Revista Cronos/PPGCS (2011-2013), secretária-geral da Associação Brasileira de Estudos da Homocultura (ABEH, 2006-2008) e coordenadora da comissão de organização do I Seminário Internacional Desfazendo Gênero (2013). Além de publicar em periódicos nacionais e internacionais, é autora dos livros A reinvenção do corpo: gênero e sexualidade na experiência transexual (Garamond, 2006, 1a. ed./ EdUFRN, 2014, 2a. ed.), O que é transexualidade (Coleção Primeiros Passos/Brasiliense, 2012, 2ª. ed.) e Homem não tece dor: queixas e perplexidades masculinas (EdUFRN, 2013) e co-autora de Desfazendo gênero: subjetividade, cidadania, transfeminismo (EdUFRN, 2015), Desfazendo gênero: educação da diferença, masculinidades, feminismos e literatura (EdUFRN, 2015), Desfazendo gênero:  arte, desejo, processos de subjetivação (EdUFRN, 2015), Imagem & diversidade sexual (Nojosa Edições, 2004) e Retratos do Brasil homossexual: fronteiras, subjetividades e desejos(EDUSP/Imprensa Oficial-SP, 2010). Com extensa trajetória nos estudos de gênero, foi agraciada em 2011 com o Prêmio Nacional dos Direitos Humanos.

Educação para o machismo

Marcia Tiburi
Para Maria Luiza, Milena, Geórgia, Teodora e Maria Clara que sabem que a luta contra o preconceito sexista recém começou. 
Tenho ouvido várias histórias de garotas em idade escolar relatando o mesmo fato. Parece ter se tornado uma tendência generalizada a proibição do uso de certas peças de roupa nas escolas: shorts, minissaias, bermudas curtas e tudo o que possa “evidenciar” o corpo das meninas.
As jovens andam estarrecidas e se questionam sobre o absurdo dessas decisões. Várias vezes querem “manifestar”. Já perceberam o poder do ativismo. Pensam em “manifestar”, pois sua geração pegou o sentido da política enquanto coisa que se faz tomando as ruas. Essas jovens despertaram para o básico elemento da política já na infância. Vivem nos tempos de Malala Youzafzai e sabem muito bem quem ela é.
Sabem que o poder precisa da voz. E que é preciso dizer o que se pensa. Assim como é preciso expressar-se por meio da roupa que se usa.
Elas já sabem, e saberão cada vez mais que a roupa é política.
Foto do Coletivo Feminista de Cachoeira do Sul
Foto do Coletivo Feminista de Cachoeira do Sul
Além disso, as garotas proibidas de usar shorts – e peças do tipo – perceberam o machismo inerente à instituição escolar. Sabem que o machismo em nossa sociedade é estrutural. Perceberam que estão sendo tolhidas na sua expressão pessoal, e mais ainda, tem consciência da injustiça de gênero que sofrem.
Sabem que seus corpos estão sendo medidos pelos olhares dos meninos, que estão sendo marcados pelo critério da sexualidade. Elas sabem que a sexualidade dos meninos como “sujeitos” está sendo incentivada, enquanto elas estão sendo marcadas como “objetos”. Sabem que o olhar dos homens enquanto olhar de um “predador” sobre as mulheres está garantido. Mas sabem algo bem grave que até agora está mantido como uma espécie de segredo: é a instituição escolar que promove este olhar.
A instituição escolar, que teria o papel de esclarecer sobre questões conflituosas e ideológicas, proíbe que as meninas usem uma peça de roupa, ensinando que se escondam e sintam vergonha. Ensina também que sintam culpa, caso surja qualquer questão relativa aos gestos dos meninos em relação ao corpo feminino.
Ao mesmo tempo, as garotas sabem muito bem que os garotos estão sendo protegidos. E que elas estão sendo não só desprotegidas (sob a alegação de estarem sendo protegidas), mas desrespeitadas e aviltadas. Sabem que o direito de expressão e de conforto físico lhes é tirado, enquanto se dá aos garotos o direito do preconceito com todo o rol de atitudes simbólica e fisicamente violentas que dele surgem.
Ensina-se a um menino que ele tem o “direito” de olhar para o corpo de uma garota sem respeito, enquanto se ensina às meninas a terem vergonha de seu corpo e a se sentirem culpadas, mas também a aceitarem o preconceito sem questionar, coisa que elas não estão mais querendo. Ensina-se a elas que estariam sempre “provocando” o seu próprio algoz. Provocando o seu ofensor. Cinismo maior, impossível. E elas já perceberam isso.
É a este cinismo estrutural na cultura, levado a cabo pela instituição escolar que devemos chamar de Educação para o machismo.
Ela é ruim para as mulheres pela violência que provoca em todos os níveis (e por subestimar a inteligência e o lugar concreto das mulheres na vida pública da qual a escola é um laboratório). Mas é também ruim para os homens que são reduzidos a algo como “animais bestiais potencialmente violentos”, a “idiotas sem limites”, cuja violência e idiotice pode irromper a qualquer momento quando venham a deparar-se com um shorts pela frente.
Se levarmos a sério o que esta educação para o machismo nos pede, termos que tomar medidas drásticas. Se a escola fosse consequente com seus propósitos e atos, colocará os meninos em jaulas o mais cedo possível.
A coisa toda é tão autoritária que não é possível que continue vingando. A educação para o machismo é a educação para a violência que não quer se chamar de violência. Mas esta violência está cada vez mais visível. Essa educação para o machismo, que é educação para a violência, é também educação para a burrice, pois em vez de abrir os olhos, coloca tapumes na ideologia de gênero pensando que as meninas não vão perceber o que está acontecendo. Subestima a inteligência da população de meninas e de todos os que combatem o sexismo e o machismo.
Impressionante é que a instituição escolar que deveria promover a inteligência intelectual e moral, seja ela mesma tão burra. A burrice estrutural da instituição combina com a burrice machista. As duas se entrelaçam na estrutura de fundo das instituições que sempre descartam os indivíduos críticos. Na falta de argumentos respeitáveis a burrice é a vitória pela violência. O Estado achando que vai proibir professores de falar em gênero nas escolas desde a retirada da questão dos planos de educação é apenas a versão formal dessa violência toda…
Ninguém está livre dela. Mas tanto as vítimas quanto os que combatem a violência não estão nem um pouco acomodados.
As garotas não se deixam subalternizar e vitimar e, com a roupa que quiserem, vão à luta, sabendo que a luta política das mulheres é feminista, e que não tem fim.

Marcia Tiburi é filósofa

Marcia Tiburi é graduada em filosofia e artes e mestre e doutora em filosofia. Publicou diversos livros de filosofia, entre eles “As Mulheres e a Filosofia” (Ed. Unisinos, 2002), Filosofia Cinza – a melancolia e o corpo nas dobras da escrita (Escritos, 2004); “Mulheres, Filosofia ou Coisas do Gênero” (EDUNISC, 2008), “Filosofia em Comum” (Ed. Record, 2008), “Filosofia Brincante” (Record, 2010), “Olho de Vidro” (Record 2011), “Filosofia Pop” (Ed. Bregantini, 2011) e Sociedade Fissurada (Record, 2013). Publicou também romances: Magnólia (2005), A Mulher de Costas (2006) e O Manto (2009), Era meu esse Rosto (Record, 2012). É autora ainda dos livros Diálogo/desenho, Diálogo/dança, Diálogo/Fotografia e Diálogo/Cinema (ed. SENAC-SP).
É professora do programa de pós-graduação em Educação, Arte e História da Cultura da Universidade Mackenzie e colunista da revista Cult.

terça-feira, 1 de março de 2016

Entrevista Jarid Arraes I Atena Haus



Publicado em 20 de jan de 2016

Jarid Arraes bateu um papo com a gente e falou sobre como publicou seu livro de forma independente, sobre ser pioneira em uma área e abrir caminhos, sobre a valorização das mulheres negras na história e na sociedade e muito mais!

Campus Party: Cobertura da participação feminina I Atena Haus

ATENA HAUS ENTREVISTA: CAMILA ACHUTTI

19 de fevereiro de 2016 
Vivian Vianna

Sabia que nos anos 70, 70% dos alunos na turma de Ciência da Computação da USP eram mulheres? E que depois da segunda guerra uma rede de mulheres criava sistemas para grandes empresas trocando fluxogramas por cartas, mas tinham que fingir que eram homens para serem contratadas? Quer saber como uma área onde as mulheres dominavam passou a ser considerada masculina?

Assiste aí a entrevista que fizemos com a musa Camila Achutti!



Atena Haus

ONU Mulheres promove pesquisa com homens brasileiros pela igualdade de gênero

Parceria com portal PapodeHomem e Grupo Boticário busca entender como homens podem participar do diálogo pelo empoderamento das mulheres

29.02.2016

Uma em cada três mulheres sofre violência de algum homem ao longo da vida. Entre as 500 maiores empresas do mundo, menos de 5% possuem CEOs mulheres. Dados como estes levaram a ONU Mulheres e o portal PapodeHomem, com viabilização do Grupo Boticário, a realizar uma pesquisa nacional para entender como os homens podem participar do diálogo pela igualdade de gênero.
Com lançamento no dia 1º de março, o levantamento quer identificar também como as mulheres percebem o papel dos homens na sua vida e na sociedade hoje, apontando as principais tensões culturais que geram sofrimento e desigualdade entre os gêneros. Realizada em dois módulos, a pesquisa começou com uma etapa qualitativa, que já passou por Recife, Rio de Janeiro e São Paulo, em busca de histórias inspiradoras – e também aprofundando o tema com especialistas e pessoas comuns. A segunda etapa, lançada agora, é quantitativa, de âmbito nacional.
O resultado da pesquisa quantitativa e as entrevistas farão parte de um documentário sobre o tema, que será divulgado mundialmente ainda este ano. O trabalho faz parte do movimento global ElesPorElas (HeForShe), lançada pela ONU Mulheres em 2014 por meio de um vídeo de grande popularidade com a atriz Emma Watson. Uma das propostas centrais é investigar como se formam, se sustentam e de que modo é possível enfrentar os estereótipos masculinos nocivos, que perpetuam a desigualdade de gênero.
Nadine Gasman, representante da ONU Mulheres Brasil, faz esse importante chamado: “Convidamos os homens brasileiros a participar dessa pesquisa inédita sobre masculinidade. Precisamos saber o que eles pensam sobre si mesmos, a relação que têm com as mulheres, a maneira como vivem o dia-a-dia e como enxergam a vida e a sociedade. Chegou a hora de os homens pensarem sobre o papel que eles têm na construção da igualdade de gênero, como propõe o movimento ElesPorElas, em que eles devem defender os direitos das mulheres para a fazer a mudança inclusiva que o mundo precisa”.
Guilherme Valadares, fundador e diretor de conteúdo do PapodeHomem, contextualiza que “assim como o machismo é prejudicial às mulheres e aos próprios homens, a igualdade de gênero é benéfica para todos. Envolver os homens nesse movimento, sempre respeitando o protagonismo das mulheres, se faz então necessário. Por isso é uma alegria imensa para nós articular e puxar esse projeto junto à ONU e tantos parceiros incríveis”. Já para Lia Azevedo, vice-presidente de Desenvolvimento Humano e Organizacional do Grupo Boticário, “a empresa se preocupa desde o início da sua história com a igualdade de gênero. Acreditamos que um mundo mais belo não é conquista deles ou delas, e sim de todos nós. É por isso que assinamos os WEPs, princípios de empoderamento feminino da ONU, e incentivamos a nossa rede colaborativa a assinar o ElesPorElas. E por isso nos interessa entender como o homem se percebe no mundo hoje e como trazê-lo para o debate sobre a igualdade. Viabilizar esta pesquisa promovida pela ONU e Papo de Homem ajudará a tornar isso possível”. A realização do estudo é liderada pela Questto | Nó Research, em conjunto com a Zooma e consultoria do sociólogo Gustavo Venturi. A direção do documentário está nas mãos da Monstro Filmes. O projeto como um todo conta com apoio especial da Heads Propaganda.
Sobre a ONU Mulheres e a campanha ElesPorElas - A ONU Mulheres é a nova liderança global em prol de mulheres e meninas. A sua criação, em 2010, foi aplaudida no mundo todo e proporciona a oportunidade histórica de um rápido progresso para as mulheres e as sociedades. Para a ONU Mulheres, as mulheres e meninas ao redor do mundo têm o direito a uma vida livre de discriminação, violência e pobreza e a igualdade de gênero é um requisito central para se alcançar o desenvolvimento. ElesPorElas é um movimento para a igualdade de gênero e o empoderamento das mulheres, cujo objetivo é engajar homens e meninos para novas relações de gênero sem atitudes e comportamentos machistas.
Sobre o PapodeHomem - O PapodeHomem é o maior portal independente de cultura masculina no Brasil. Criado em 2006 e mantido por uma comunidade de mais de 700 autores voluntários, desafia preconceitos, clichês e estereótipos. Acredita que a luta por um masculino mais lúcido com certeza passa por mais igualdade entre os gêneros. Para o PdH, é tempo de homens possíveis.
Sobre o Grupo Boticário - Constituído em 2010, o Grupo Boticário é uma referência internacional no varejo de beleza. Controla quatro unidades de negócio (O Boticário, Eudora, quem disse, berenice? e The Beauty Box), e é mantenedor da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza. Está presente em nove países e conta com uma força de trabalho composta por 7 mil colaboradores diretos que acreditam que beleza não é o que a gente sonha, imagina ou quer. Beleza é o que a gente faz.
Sobre a Questto | Nó Research - A Questto|Nó Research é a empresa de pesquisa do grupo Questto|Nó, referência em inovação e design centrado nas pessoas, com 23 anos de história e escritórios em São Paulo e Nova York. Acredita que a nossa relação com o mundo deve ser repensada: novos hábitos, novos objetos, novas formas de consumir e novas formas de viver. Por isso, estuda comportamento e cultura para inspirar e desenhar soluções que respondam às tensões da vida contemporânea.
Sobre a Monstro Filmes - A Monstro Filmes é uma produtora audiovisual com sede em São Paulo. É especializada em branded content e trabalha com grandes empresas e causas, produzindo séries documentais, clipes e vídeos publicitários. Acreditamos no potencial de mudança que boas histórias podem ter e estamos sempre à procura delas.
Sobre a Zooma Consumer Experience - A Zooma é uma empresa com foco em estudos do comportamento e pesquisa de mercado, com atuação em toda a América Latina. Desde 2003 realiza estudos exploratórios e quantitativos direcionados à análise de comportamento e tomada de decisão, comunicação, branding, estratégia, UX e concepção/formulação de produtos e serviços. Atende empresas e marcas nacionais e internacionais sempre acreditando que as pessoas são o ponto central e razão para a empresa existir. E é justamente por acreditar nisso, e também por acreditar em um país com igualdade entre os gêneros, que a Zooma envolveu-se ativamente neste projeto.
Sobre Gustavo Venturi - Professor do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Articula estudos sobre marcadores sociais da diferença (gênero e identidades sexuais, raça e etnias, classe social, juventude e velhice) com pesquisas sobre moralidade, tolerância, respeito à diversidade e direitos humanos. Coordenou o estudo nacional que resultou no volume Mulheres Brasileiras e Gênero nos Espaços Público e Privado – Uma década de mudanças na opinião pública [Venturi, G. & Godinho, Tatau (orgs.), Ed. FPA e Edições SESC SP, 2013].

#ElesPorElas - Precisamos falar com os homens Uma jornada pela igualdade de gênero



Publicado em 29 de fev de 2016

Participem da pesquisa em: https://pt.surveymonkey.com/r/pesquisaelesporelas

A desigualdade de gênero é uma das violações mais persistentes de direitos humanos do nosso tempo. Ainda que estejamos caminhando para uma realidade mais igualitária entre homens e mulheres, ainda há muito a se construir.

No âmbito do movimento ElesPorElas (HeForShe), o documentário "Precisamos falar com os homens? Uma jornada pela igualdade de gênero" procurará aproximar os homens desse tema tão importante. O objetivo é mostrar que a igualdade de gênero é uma questão que afeta a todos e todas e que, portanto, é benéfica a homens e mulheres. Nele investigamos como se formam, se sustentam e de que modo podemos desconstruir os estereótipos de gênero nocivos, que perpetuam o nosso cenário atual.

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ElesPorElas é um movimento para a igualdade de gênero e o empoderamento das mulheres, cujo objetivo é engajar homens e meninos para novas relações de gênero sem atitudes e comportamentos machistas.

Ficha técnica:
Uma iniciativa: ONU mulheres e Papo de Homem
Viabilização: Grupo Boticário
Realização do documentário: Monstro Filmes e Questto | Nó Research
Direção audiovisual: Ian Leite e Luiza de Castro
Produção executiva: Papo de Homem
Concepção e implementação: Papo de Homem e Questto | Nó Research
Pesquisa qualitativa: Questto | Nó Research
Pesquisa quantitativa: Zooma 
Apoio especial: Heads
Apoio institucional: ONU, ElesPorElas, Organização Pan-Americana de Saúde, O Valente Não É Violento, UNA-SE Pelo Fim da Violência Contra as Mulheres.

Na volta às aulas, ONU Mulheres lança iniciativa educacional sobre igualdade e violência de gênero

Agência da ONU divulga currículo e planos de aulas para o ensino fundamental sobre igualdade de gênero e enfrentamento à violência contra as mulheres e meninas. Iniciativa “O Valente Não é Violento”, que atua pelo fim de estereótipos de gênero e comportamentos machistas, produz conteúdo pedagógico livre, para colaborar na formação de estudantes no Brasil. A oferta pública de materiais se integra ao Dia Laranja deste mês, celebrado a cada dia 25 no mundo inteiro, pela campanha do secretário-geral da ONU “UNA-SE pelo Fim da Violência contra as Mulheres”.

26/02/2016
Na volta às aulas, a ONU Mulheres divulga currículo e planos de aulas para o ensino fundamental sobre igualdade de gênero e enfrentamento à violência contra as mulheres e meninas
Para prevenir a violência decorrente do machismo nas escolas, a iniciativa “O Valente Não é Violento”, integrada à campanha do secretário-geral da ONU “UNA-SE pelo Fim da Violência contra as Mulheres”, traz um Currículo de Gênero para conscientizar meninos e meninas sobre o direito das mulheres de viver uma vida livre de violência.
As aulas abordam os seguintes temas: Sexo, gênero e poder; Violências e suas interfaces; Estereótipos de gênero e esportes; Estereótipos de gênero, raça/etnia e mídia; Estereótipos de gênero, carreiras e profissões: diferenças e desigualdades e Vulnerabilidades e Prevenção. O projeto foi financiado pelo União Europeia e revisado pela área de Projetos de Educação da UNESCO.
A campanha da ONU reconhece as instituições de ensino como contextos privilegiados para uma formação integral de meninos e meninas e para o exercício da cidadania, considerando seu papel central na promoção de mudanças sociais.
Para a elaboração do currículo, foram pesquisados marcos legais e políticos que apontam para a necessidade da inclusão de discussões acerca desses temas no espaço escolar e experiências de trabalho capitaneadas pelas políticas públicas e por organizações da sociedade civil.
O programa considera as diretrizes do Plano Nacional de Políticas para as Mulheres (PNPM 2013-2015), que apontam para a necessidade de promover a inserção de temas voltados para a igualdade de gênero e valorização das diversidades nos currículos, materiais didáticos e paradidáticos da educação básica.
O PNPM destaca, ainda entre os seus objetivos, a necessidade de “consolidar na política educacional as perspectivas de gênero, raça, etnia, orientação sexual, geracional, das pessoas com deficiência e o respeito à diversidade em todas as suas formas, de modo a garantir uma educação igualitária e cidadã”.
A ONU Mulheres vê a inclusão de discussões sobre as temáticas de gênero nos currículos necessária para a formação de professoras e professores do ensino médio, favorecendo análises e processos de reflexão sobre as desigualdades de gênero, étnico-racial, geracional, diversidade sexual, identidade de gênero e as violências.
Educadoras, educadores e organizações podem entrar em contato para saber mais sobre o currículo da ONU Mulheres pelo e-mail ovalentenaoeviolento@gmail.com
Na volta às aulas, a ONU Mulheres divulga currículo e planos de aulas para o ensino fundamental sobre igualdade de gênero e enfrentamento à violência contra as mulheres e meninas
Dia Laranja – A oferta pública do currículo e dos planos de aula acontece no contexto das atividades do Dia Laranja, celebrado mensalmente a cada 25 por proposição da campanha do secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, “UNA-SE pelo Fim da Violência contra as Mulheres”, como momento para ampliar a conscientização e agir pela eliminação da violência contra mulheres e meninas.
Sendo uma cor vibrante e otimista, o laranja representa um futuro livre de violência contra mulheres e meninas, convocando ativistas, governantes e membros das Nações Unidas a se mobilizar pelo tema da prevenção e eliminação da violência contra mulheres e meninas, não só uma vez ao ano, no 25 de novembro – Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres –, mas todos os meses.