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sábado, 2 de abril de 2016

#SalaSocial: Como ‘saiaços’ se tornaram arma para debater igualdade de gênero nas escolas

Arquivo pessoal
Image captionProfessor Vitor Pelegrini usa saia durante desfile cívico de estudantes em Campinas

  • 1 abril 2016
No ano passado, o professor Vitor Pelegrin, 30, participou de um desfile de 7 de Setembro usando um adereço que o distinguia dos demais homens presentes: uma saia. Segundo ele, a escolha do vestuário provocou recentemente seu afastamento da escola municipal Caic Zeferino Vaz, em Campinas (a 93 km de São Paulo).
A prefeitura, por outro lado, afirma que o afastamento de Pelegrin, há duas semanas, ocorreu porque ele queria discutir sua atuação no desfile, em vez de planejar o ano letivo com os outros professores.
Na ocasião, Pelegrin e outra professora entraram no desfile dos estudantes com uma faixa de protesto para pedir igualdade de gênero: "Já raiou a liberdade", dizia uma das frases estampadas. A Secretaria Municipal da Educação informou que a ação começou a ser investigada após pais e professores reclamarem do ato não programado.
É um entre diversos casos de “saiaços” que têm fomentado o debate sobre vestuário, liberdade de manifestação e igualdade de gênero em escolas. O afastamento de Pelegrin, no dia 18 de março, desencadeou uma série de manifestações, e os alunos passaram a discutir o assunto nas redes sociais e expressar suas opiniões.
Houve desde quem criticasse o professor - alegando desrespeito às regras da escola ou exibicionismo da parte de Pelegrin - até quem aderisse ao protesto, fotografando-se de saia em sinal de apoio, com a hashtag #SaiaSemPreconceito.

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Image captionPessoas se manifestam no Twitter contra afastamento do professor que usou saia em desfile em Campinas; muitos também criticaram sua atitude nas redes sociais

“Ele (professor) estava protestando contra a homofobia usando uma saia e levando cartazes. Em nenhum momento eu e meus companheiros nos sentimos humilhados ou envergonhados, pelo contrário, ficamos muito felizes e orgulhosos”, disse um estudante em relato no Facebook.
Pelegrin afirmou que a sua intenção era fazer um protesto contra o sexismo. "A investigação do desfile recaiu só sobre mim. A nossa única intenção era fazer um desfile com valores próprios, com performances de hip-hop e baião. As meninas também tiveram espaço para reivindicar, por exemplo, o direito de jogar futebol, e uma igualdade de gênero em geral nas escolas", afirmou o professor à BBC Brasil.
Alguns alunos de Pelegrin escreveram cartas de repúdio ao afastamento, e uma petição em defesa do professor juntou mais de 4 mil assinaturas.

Espaço adequado

A secretária municipal de Educação, Solange Pelicer, disse à BBC Brasil que o afastamento do professor não tem motivação política.
Ela afirmou que Pelegrin estava prejudicando a pauta e o planejamento escolar deste ano. “Ele queria discutir o processo disciplinar dele e não aceitou que isso fosse feito no espaço adequado”, disse.
"Ele e a outra professora entraram pela lateral do desfile, com faixas de protesto, e deram sinal para os alunos vestirem uma camiseta de manifestação. Tudo sem autorização ou aviso prévio”, disse Pelicer.

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Image captionEstudante escreve depoimento em apoio a professor afastado de escola de Campinas

Saiaços semelhantes já ocorreram em outras escolas brasileiras e de outros países. Em 2013, o colégio Bandeirantes, um dos mais tradicionais de São Paulo, foi alvo de um protesto feito por cerca de 50 alunos após dois estudantes serem repreendidos por usar saia.
Um deles tinha usado a roupa numa festa junina interna e o outro vestia saia num dia comum de aula, mas foi barrado e teve de voltar para casa.

Padrão de roupas

Para Rosana Schwartz, socióloga e historiadora da Universidade Mackenzie, os "saiaços" são uma forma de jovens desafiarem tanto os “padrões conservadores de roupa” quanto a própria indústria da moda.
Enquanto vai na esteira dos debates sobre igualdade de gênero nas redes sociais, a polêmica também joga holofotes sobre barreiras sociais masculinas, opina Schwartz.
“A mulher hoje já tem mais liberdade para usar roupas consideradas masculinas. É normal uma mulher de camisa ou um terninho, e isso até dá um status de poder. Já o homem, quando usa uma saia, ainda é visto como sem masculinidade e desqualificado”, diz.
A consultora de moda Paula Martins lembra, também, que existe um crescente movimento de “não gênero” entre jovens.
“Eles estão se sentindo livres para se expressar não como uma figura feminina ou masculina, mas como uma pessoa. A moda já assimilou isso como uma demanda a ser explorada”, afirmou. “E não é porque uma menina se veste como os homens que ela é necessariamente homossexual. Ela pode querer apenas demonstrar que é livre.”
Martins ressalta, porém, que parte dos colégios ainda exige um código de vestimenta tradicional para criar um padrão entre os estudantes, facilitar o controle e a organização da escola.

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Image captionGrupo usa saia em protesto para pedir retorno de professor afastado em Campinas

"Muitas escolas também pretendem desta forma reduzir as desigualdades no ambiente escolar. Se não há uniforme, os estudantes podem ir com um tênis muito caro, por exemplo, e isso causar um desconforto para o professor”, diz a consultora de moda.
Mas existe dificuldade inerente, opina a consultora: “É natural que o estudante tente quebrar esses padrões e cause polêmica”.
“É muito difícil quebrar um paradigma tão antigo, mas já há um caminho traçado. Esse movimento vai ficar mais forte quando o número de pais que exigirem liberdade de roupas para seus filhos crescer e as escolas se adaptarem para não perder alunos. Eu acho que em 20 anos não vamos mais discutir isso.”

Outros casos

Em fevereiro deste ano, estudantes de um colégio da Califórnia (EUA) fizeram “saiaços” e protestos após jovens terem sido proibidos de usar saia, cabelo longo e brinco. Desde então, os alunos fazem protestos pela alteração do manual de conduta interno.
Em maio de 2013, universitários da USP fizeram um protesto contra comentários ofensivos recebidos por um estudante que foi à faculdade de saia. No chamado "saiaço", as mulheres foram vestidas de terno e os homens, de saia em quatro campi da universidade em todo o Estado.
No Reino Unido, um episódio semelhante ocorreu em 2011, quando o garoto Chris Whitehead, 12, do Village College, perto de Cambridge (sudoeste da Inglaterra), decidiu ir à escola de saia para protestar contra uma regra da direção do colégio que exigia meninos usassem apenas calça comprida.
O menino afirmou na época que o uniforme sugerido não combinava com o calor da região. Alguns amigos dele também aderiram ao protesto e o colégio prometeu reavaliar a restrição.
O colégio enviou uma carta de recomendação aos pais para dizer que permite o uso de saias, desde que os responsáveis "se responsabilizem pela segurança do estudante".

Brasileiros assinam campanha global da Unicef



01 de abril de 2016 

Histórias para crianças apresentam lugares imaginários com personagens fantásticos. Enquanto estes contos de fada podem trazer alegria para o público infantil, há algumas histórias que não foram feitas para crianças. Essa é a mensagem da Unicef em "Unfairy Tales", uma série de animações que narra as histórias verdadeiras de crianças sírias refugiadas e os horrores por trás de sua fuga.

"Malak and the Boat", que conta a história angustiante da menina de sete anos Malak e sua viagem pelo mar Mediterrâneo, foi o primeiro filme da série, lançado no início de fevereiro (relembre aqui).  Os outros dois filmes da série seguem a mesma linguagem delicada da animação para tratar de um assunto tão impactante. "Ivine and Pillow" e "Mustafa goes for a Walk" estão sendo veiculados no canal oficial da Unicef no YouTube.



A campanha, que anuncia uma iniciativa global da organização em torno do tema, leva assinatura dos brasileiros Rafael Rizuto e Eduardo Marques, da agência 180LA. Os filmes foram produzidos com a ajuda das Casas de animação Consulado, House of Colors (Adhemas Batista), Bubba e Gilles + Cecilie Studio, juntamente com Media Monks, que está produzindo um e-book interativo.

"Todo mundo parece saber o que está acontecendo na Síria. Mas, será que sabem o que está acontecendo com Malak, Ivine, Mustafa e as outras 8 milhões crianças afetadas pela guerra?", diz Eduardo Marques, diretor executivo de criação da Agência 180LA, que produziu a campanha. "Precisamos contar essas histórias e estimular as pessoas a repensarem isso.", diz o diretor executivo de criação da mesma agência Rafael Rizuto. "Considerando que o primeiro curta-metragem 'Malak and the Boat’ introduziram ‘Unfairy Tales’ para o mundo de uma forma mais fantasiosa, ‘Ivine and Pillow' leva a campanha para um outro nível. O filme retrata com detalhes devastadores o que é realmente ser uma criança nessa situação, mostrando mais uma vez que algumas histórias nunca foram feitas para o público infantil." conclui Rizuto.

Confira os filmes: 


4º Prêmio Consulado da Mulher de Empreendedorismo Feminino

O Consulado da Mulher, ação social da marca Consul, abriu inscrições para a quarta edição do Prêmio Consulado da Mulher de Empreendedorismo Feminino.

A ação visa identificar e fortalecer práticas exitosas de empreendedorismo feminino e geração de renda em todos os estados brasileiros.

A iniciativa concederá assessoria gratuita por 2 anos, eletrodomésticos Consul - conforme necessidade do projeto - e R$ 10.000,00 para uso exclusivo na infraestrutura do negócio.

O Prêmio selecionará 10 grupos de mulheres que atuem na área de alimentação e que sigam os seguintes critérios:
- Trabalho em Rede: ser coletivo ou funcionar em formato de rede (diversos indivíduos trabalhando conjuntamente);
- Protagonismo feminino: ter lideranças femininas e ser composto por, no mínimo, 70% de mulheres;
- Vulnerabilidade: ter pelo menos 70% do grupo com renda familiar per capita igual ou inferior a 1 salário mínimo mensal;
- Sustentabilidade: ter mínimo de 1 ano de existência, infraestrutura própria, perspectivas de formalização e de crescimento;
- Parceria: ser inscritos por uma entidade inscrita no Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica - CNPJ, sem fins lucrativos e que já atue junto ao grupo.

As inscrições são gratuitas e podem ser efetuadas pelo site http://consuladodamulher.org.br/inscricoes/até 10 de abril de 2016.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Para diretora romena Ana Lungu, ‘maiores questões da vida são individuais’

 DIEGO OLIVARES · MARÇO 28, 2016

Um indivíduo de 30 anos num relacionamento amoroso cujo futuro não parece promissor, uma carreira profissional incerta e pais que, mesmo vendo o filho já bem crescido, vivem no limite entre a superproteção e o autoritarismo. A descrição encaixaria em muita gente, de diferentes lugares do mundo, neste início do século XXI.

No caso, é o cotidiano de Cristiana (interpretada por Elena Popo), a protagonista de Autorretrato de Uma Filha Obediente, segundo longa da diretora romena Ana Lungu, que estreia nos cinemas após passagem pela Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.
Formada em psicologia, Ana coloca sua personagem em primeiro plano no filme. Assim, acompanhamos alguns dias na vida de Cristina em que nada muito grandioso acontece: ela começa a morar sozinha, pensa sobre ter filhos ou adotar um cachorro, encontra-se com amigos e com o homem casado com quem tem um caso.
“Para mim, a estrutura de roteiro em três atos simplifica a realidade para se ajustar mais fácil à fórmulas narrativas que eu tentei evitar”, explicou a cineasta, por email. Ao optar por um estilo naturalista, ela usa planos fixos e longos em suas cenas, num ritmo propositadamente lento, como a própria vida de sua heroína. A cineasta também escalou os próprios pais e amigos para formar o elenco, que conta apenas com Elena como atriz profissional.
Sem se apegar a análises sociais ou políticas, Ana Lungu mantém seu interesse na psiqué dos personagens que constrói, e também não está particularmente preocupada com a discussão sobre feminismo que vem crescendo no cinema mundial: “Acredito que as maiores questões da vida humana não são políticas nem sociais, mas individuais”.

De Bucareste, sua cidade natal, a diretora conversou com o TelaTela:
TelaTela – A personagem principal do filme é uma mulher de 30 anos que vive uma vida sem grandes aspirações, um relacionamento não muito romântico e ainda depende emocionalmente dos pais. Você sente que Cristiana representa uma geração?
Ana Lungu – O filme lida com o amadurecimento de Cristiana, a hora em que ela tem que sair de casa – o que, no caso dela, acontece ao contrário, já que são os pais que saem e deixam o apartamento para ela morar sozinha.
Enquanto na Europa ocidental a fase de separação dos pais acontece numa idade anterior, quando os filhos saem para fazer faculdade e a influência dos pais em suas vidas diminui, no leste europeu este processo é bem mais lento. O modelo dominante (pelo menos em minha geração) é o autoritário, no qual o filho só é elogiado se é bonzinho ou respeitoso. Cristiana é confrontada com esta maneira de construir relações, com a qual tenta romper, sem estar pronta para abrir mão das vantagens que ela traz.
Além de cineasta, você é também psicoanalista. Como isto ajuda quando você está construindo uma personagem?
Com relação ao roteiro, acredito que minha formação em psicologia faz com que eu seja mais interessada nas personagens do que na trama. Procuro por gestos pequenos e sinais de comportamento que contrariem impressões mais gerais. Em termos de atuação, me interesso por um estilo naturalista que elimine toda a dramatização. Por isso a maioria do elenco é formado por não profissionais. Acredito que estes acabam por se expor mais, devido a sua falta de experiência.
Este estilo naturalista é algo bem comum no cinema europeu, utilizado por diretores como os Irmãos Dardenne ou, para citar outro romeno, Cristian Mungiu. Quais aspectos desta narrativa você considera mais interessante?
A história não tem uma narrativa clássica: ela foca em incidentes comuns, dramas do cotidiano, não há eventos de mudança de vida. Para mim, a estrutura de roteiro em três atos simplifica a realidade para se ajustar mais fácil à fórmulas narrativas que eu tentei evitar. Os personagens – intelectuais, não muito retratados no cinema romeno contemporâneo – eram de importância vital para mim. Eles se autoanalisam, racionalizam e teorizam bastante.
Ana Lungu dirige a atriz principal do filme, Elena Popo (à esquerda)
Ana Lungu dirige a atriz principal do filme, Elena Popo (à esquerda)
Nos últimos anos, vemos cada vez mais realizadoras e críticos no mundo todo falando sobre feminismo e a forma com que as mulheres são representadas nas telas. Qual é a seu posicionamento neste assunto? É uma preocupação quando você faz um filme?
Honestamente, não é uma preocupação quando estou fazendo um filme. Mas não me oponho à interpretações feministas, porque acredito que as interpretações estão além das intenções dos diretores. Em termos de discriminação, na minha opinião, não há na Romênia discriminação com diretoras mulheres. Acredito que existam menos porque há menos mulheres interessadas em dirigir do que homens.
O que é compreensível, já que acredito que a direção é, de alguma forma, uma profissão “masculina”. Assim como, por exemplo, psicoterapeuta é uma profissão “feminina”. O que, é claro, não quer dizer que não pode haver terapeutas homens excelentes, às vezes até melhores, e vice-versa.
Aqui no Brasil há muitas mulheres lutando por mais reconhecimento no audiovisual, uma luta que nós, do próprio TelaTela, acompanhamos e encampamos. Qual é o motivo que faz você acreditar que a direção de cinema é uma profissão mais masculina?
Te respondo citando Robert Bresson (famoso cineasta francês, responsável por obras fundamentais, como Pickpocket), no livro Notas de um Cinematógrafo: “Cinematografia é uma arte militar. Prepare um filme como uma batalha”.
Para mim, a maior luta é conseguir financiamento, e então reconhecimento, por um filme que não tem uma mensagem política nem comercial, ou potencial popular. É cada vez mais difícil. Acredito que as maiores questões da vida humana não são políticas nem sociais, mas individuais.
O que você se lembra da sua passagem e das conversas com o público na Mostra de São Paulo?
Foi uma experiência maravilhosa. Me apaixonei pela cidade de São Paulo. A natureza, especialmente a vegetação, é tão diferente do país onde vivo que o sentimento foi um pouco como mágica para mim. Por outro lado, as pessoas me pareciam muito familiares. Acredito que o público entendeu muito bem os personagens e suas relações psicológicas. Espero que isso seja confirmado com o lançamento comercial.

“O racismo é uma problemática branca”, diz Grada Kilomba

A artista interdisciplinar portuguesa aborda questões como gênero, memória e racismo
por Djamila Ribeiro — publicado 30/03/2016

Renata Martins
Grada Kilomba
"Como mulheres negras, feministas que descolonizam o pensamento, precisamos aprender a focar na energia certa"
A convite do Instituto Goethe, Grada Kilomba fez intervenções em São Paulo dentro do evento “Massa Revoltante". A escritora, performer e professora da Universidade Humboldt de Berlim realizou a palestra performance “Descolonizando o conhecimento”
Com origens nas ilhas São Tomé e Príncipe e Angola, a artista interdisciplinar portuguesa Grada Kilomba trabalha com os temas de gênero, raça, trauma e memória. Autora dePlantations Memories – Episodes of everyday racism, acaba de lançar sua mais nova obra chamada Performing Knowledge.
Particularmente, encontrá-la foi um momento especial porque Grada está nas referências bibliográficas da minha pesquisa de mestrado, e foi emocionante poder conhecê-la além de sua obra. Grada parece ocupar um lugar de sublimação, sua fala é otimista, acolhedora e seu trabalho, como ela mesma diz “dialoga com as vozes do futuro”. Leia trechos da entrevista a seguir:
CC: Como é possível descolonizar nosso pensamento numa sociedade que ainda não nos vê como sujeito?
GK: Parte do processo de descolonização é se fazer essas questões. É perguntar, às vezes é não ter a resposta, mas fazer novas perguntas. Quando eu trabalho, eu sou a favor de criar novas questões e não necessariamente de encontrar as respostas. Às vezes nós estamos à espera de fazer perguntas muito divinas que ninguém pode responder, fazemos perguntas que são muito absolutas a espera de uma receita, de um resposta absoluta. E isso é uma contradição do processo. Eu acho que o próprio processo de descolonização é fazer novas questões que nos ajudam a desmantelar o colonialismo.
Faz parte desse processo de descolonização aprender a fazer perguntas menores, que fragmentam. Eu acho isso muito importante. A população branca perguntou durante muito tempo se era racista. É de novo uma pergunta muito absoluta que tem uma resposta muito absoluta.
CC: Qual o papel do sujeito negro nisso?
GK: Somos pessoas diferentes, sujeitos diferentes. Há dias que me sinto forte, há dias em que sinto fraca, há dias em que não quero ver ninguém, há dias em que eu rio muito. Todo dia é diferente. Há dias em que eu faço piada, há dias em que eu choro. E isso faz parte desse processo de humanização porque o racismo não nos deixa ser humano.
O racismo nos coloca fora da condição humana e isso é muito violento. E muitas vezes nós achamos que alcançar essa humanidade se dá através da idealização. Se o racismo diz que eu não sei, eu vou dizer que sei ainda mais. E pra mim é muito importante desmistificar isso. Eu quero ser eu, não quero ser idealizada e nem inferiorizada. E eu, assim como todas as pessoas, quero dizer que há dias em que sei, e dias em que não sei. Às vezes eu choro e às vezes eu rio, às vezes eu quero e às vezes eu não quero. Quero ter essa liberdade humana de ser eu.
CC: Aqui no Brasil, durante muito tempo, se negou a existência do racismo, criou-se o mito da democracia racial, e por conta dessas construções muitas pessoas negras no não se vêem como negras. Como lidar com o racismo nessa situação?
GK: Eu nasci em Lisboa e só depois de um tempo fui morar em Berlim e em Lisboa também há toda essa hierarquização de termos como mulato, mestiço. E as pessoas usam o termo sem saber o que o termo quer dizer. São termos ligados a animais híbridos, de colocar referências do corpo negro como animal. São depreciativos. E é necessário fazer a historicidade desses termos porque muitas vezes as pessoas acham que são palavras positivas, é necessário descodificar.
Aqui temos um movimento muito assimilado, nós somos muito simpáticos, e o movimento negro que eu vivenciei na Alemanha foi muito bom pra mim porque as coisas são muito claras. Nós tivemos uma influência muito grande da maravilhosa escritora e feminista Audre Lorde, que viveu muitos anos em Berlim, o que ajudou muito uma geração anterior à minha a se auto definir, a deixar uma série de palavras para trás.
E ela vinda dos EUA, como mulher feminista, lésbica, falou muito sobre a importância de uma identidade política. Por isso que para esse evento do Goethe nós fizemos vários cartazes com a afirmação “branco não é uma cor”, porque branco não é uma cor, é uma afirmação política, assim como negro ou Black.
Representa uma história de privilégios, escravatura, colonialismo, uma realidade cotidiana. A mudança começa pela autodefinição e a importância disso. È necessário desmistificar essa hierarquia.
CC: O indivíduo branco não se racializa, geralmente se coloca como universal. Como fazer esse indivíduo perceber que ser branco é uma afirmação política?
GK: As pessoas brancas não se vêem como brancas, se vêem como pessoas. E é exatamente essa equação, “sou branca e por isso sou uma pessoa” e esse ser pessoa é a norma, que mantém a estrutura colonial e o racismo. E essa centralidade do homem branco não é marcada. E o que esses movimentos como o Critical Whitness e o que eu faço no meu trabalho, é justamente começar a marcar.
E o que quer dizer marcar? Quer dizer também falar sobre diferenças. Por exemplo, como pessoas negras, muitas vezes, somos referidos como diferentes. E eu coloco a questão: diferente de quem? Quem é diferente? Tu és diferente de mim ou eu sou diferente de ti? Pra dizer a verdade nós somos reciprocamente diferentes. Então a diferença vem de onde? Eu só me torno diferente se a pessoa branca se vê como ponto de referência, como a norma da qual eu difiro. Quando eu me coloco como a norma da qual os outros diferem de mim, aí os outros se tornam diferentes de mim. Então é preciso a desconstrução do que é diferença.
Outro mito que precisamos desconstruir é de que muitas vezes nos dizem que nós fomos discriminados, insultados, violentados porque nós somos diferentes. Esse é um mito que precisa acabar. Eu não sou discriminada porque eu sou diferente, eu me torno diferente através da discriminação. É no momento da discriminação que eu sou apontada como diferente. Desconstruir o racismo e descolonizar o conhecimento. Às vezes podem soar apenas como palavras, mas possuem uma construção teórica imensa.
CC: Por conta do aumento de pessoas negras nas universidades nos últimos anos, da própria internet, que com seus limites, permite que pessoas negras disputem narrativas, há uma reação forte por parte de algumas pessoas brancas de inverter o discurso e dizer que existe “racismo reverso”. Dizem que as pessoas negras são agressivas e não permitem o diálogo. Você vê isso como uma forma de querer barrar as narrativas das pessoas negras?
GK: Mais uma vez tem a ver com a desmistificação. Racismo tem a ver com poder, com privilégios. A população negra não tem poder historicamente. Racismo é uma problemática branca, portanto temos que começar pela desmistificação. Dentro de comunidades marginalizadas pode haver preconceito, isso é uma coisa, mas poder é a definição de racismo.
Por sermos vistos como diferentes e essa diferença ser considerada problemática, ficamos de fora das estruturas de poder, que é o racismo estrutural, institucional, acadêmico, do dia a dia, etc. Quando nós sabemos o que é o racismo, sabemos que independentemente dos conflitos entre as diferentes comunidades, não há racismo inverso. Quando um sistema está habituado a definir tudo, bloquear os espaços e as narrativas e nós, a partir de um processo de descolonização, começamos a adentrar esses espaços, começamos a narrar e trazer conhecimentos que nunca estiveram presentes nesses lugares, claro que isso é vivenciado como algo ameaçador.
Porque é necessário desistir de certos privilégios. Isso faz parte do processo que as pessoas precisam agüentar e eu não vejo isso como violência, eu vejo o racismo como uma grande violência.
É preciso não dar importância a essas vozes, precisamos focar nas nossas competências, no modo como estamos transformando as agendas e o discurso. O que me interessa são as pessoas que dialogam comigo, as outras vozes não me interessam. Como mulheres negras, feministas que descolonizam o pensamento, precisamos aprender a focar na energia certa.

É preciso ter cuidado com o pensamento binário

Pensamentos pautados em conceitos binários são facilmente – e perigosamente – petrificantes
por Joanna Burigo — publicado 30/03/2016 

Binário de gênero
No binário de gênero existem – e existem apenas – a mulher/feminino e o homem/masculino
Um binário é qualquer coisa que tenha aspecto dual – quer dizer, que seja formada por dois elementos supostamente complementares, ou por duas faces presumivelmente opostas, ou ainda por duas partes hipoteticamente distintas.
Binários são maniqueístas. A expressão originalmente refere-se a um dualismo religioso cuja doutrina, em termos simples, consiste em afirmar a existência de um conflito entre o bem e o mal, mas que passou a significar qualquer visão de mundo que o divida em poderes opostos e incompatíveis.
Um dos piores resultados do maniqueísmo é a petrificação do pensamento, que ao fixar significado em apenas duas possibilidades, desconsidera a infinita variedade que compõe a humanidade.
Chamamos “binário de gênero” qualquer classificação das categorias de identidade “sexo” e “gênero” que se dê de duas formas distintas que, por sua vez, carregam poder de maneira desequilibrada. No binário de gênero existem – e existem apenas – a mulher/feminino e o homem/masculino.
Como sistema de gênero, o binário é tão popularmente aceito que chega a ser tomado como natural. A teoria de gênero, porém, compreende o binário como um construto social a ser questionado por pelo menos dois motivos: a desigualdade social, econômica e política entre mulheres e homens, e o fato de que identidades que se constituem fora do binário sejam rotineiramente compreendidas como problemáticas.
As consequências materiais para quem ousa não se encaixar no dualismo fixo proposto pelo binário de gênero podem ser violentas, e na maioria das vezes o são: vide os modos como mulheres masculinas ou homens femininos são socialmente hostilizados, e as taxas de mortalidade por assassinato que assombram a população transexual.
O binário de gênero insiste que homens são masculinos e mulheres são femininas, o que reduz significativamente as possibilidades de expressão para fora destas noções normativas de identidade.
Basta pensar nas pessoas que conhecemos para nos darmos conta de que ser homem não necessariamente significa ser masculino, bem como ser mulher não necessariamente traduz para ser feminina.
Na teoria de gênero tratamos feminilidades e masculinidades como conceitos que descrevem comportamentos e atitudes, tentando veementemente desatá-los de quaisquer essencialismos pautados na biologia.
Insistir que feminilidades somente podem ser aplicadas às mulheres e masculinidade somente aos homens é fundamentalmente capcioso. O emprego dos adjetivos “masculino” e “feminino” pode até ser útil – mas este binário, sozinho, não comporta a variedade de identidades que informam as diversas relações humanas.
Gayle Rubin é uma antropóloga cultural estadunidense conhecida por suas teorias acerca de gênero e sexualidade. Em seu mais famoso ensaio, O Tráfico de Mulheres: Notas Sobre a “Economia Política” do Sexo, ela discute o papel da mulher como commodity de transações familiares.
É também neste ensaio que Rubin cunha o "sistema sexo/gênero", conceito que serve para representar o conjunto de dispositivos que permitem que uma sociedade transforme sexualidade biológica em produto da atividade humana.
Partindo de autores que discutiram gênero e as relações sexuais como instituições econômicas (Marx e Engels), normas a serviço de convenções sociais (Lévi-Strauss), e fonte da construção subjetiva da psique (Freud e Lacan), Rubin afirma que estas análises não explicam adequadamente a subjugação feminina e oferece uma reinterpretação destas hipóteses, argumentando que a força de trabalho depende do trabalho doméstico feito pelas mulheres, geralmente sem recompensa financeira.
Ainda de acordo com Rubin, gênero é uma divisão cultural dos sexos imposta e sancionada pela sociedade, que beneficia homens em detrimento das mulheres. Para fundamentar a asserção, Rubin argumenta que fêmeas da espécie humana são transformadas na “commodity mulher” a fim de fomentar uma distinção dual de gênero que garanta, para um deles, acesso sexual e manutenção da linhagem e do patrimônio.
É por isso que, em última análise, Rubin fomenta a esperança de que caminhemos em direção a uma sociedade livre das noções rígidas do binário de gênero, na qual as diferenças sexuais passem a não constituir diferenças sociais com caráter hierárquico e consequências injustas.
O pensamento pós-moderno que precede e informa a teoria de gênero promove compreensões de mundo pautadas em pluralidades interpretativas em detrimento de formas totalizantes de organizar a sociedade.
O binário de gênero é totalizante por persistir na divisão da humanidade em apenas duas categorias. Já a teoria de gênero estimula o entendimento e a aceitação de identidades que não correspondam, apenas e integralmente, às noções essencialistas do binário.
O pensamento pós-moderno não rejeita a razão, como acusam seus detratores, mas sim a representação dogmática da razão como certeza atemporal. A teoria de gênero não rejeita a existência do feminino e do masculino, mas sim a representação dogmática do binário como única forma de categorizar pessoas.
O pensamento pós-moderno oferece uma compreensão de mundo que diz que as coisas não são menos reais por serem culturais ou linguísticas, mas sim sugere que não existe apenas uma realidade universal com a qual todas as culturas e linguagens possam ser equiparadas.
A teoria de gênero oferece uma compreensão de mundo que diz que as pessoas não são menos reais porque suas identidades complexas não cabem dentro de um binário fixo, e sugere a aceitação de realidades materiais que excedam a limitação da dualidade masculino/feminino.
O pensamento pós-moderno não acredita que tudo tenha exatamente o mesmo valor, mas sim que as formas como atribuímos valor devem ser perenemente questionadas. A teoria de gênero enxerga valor no feminino e no masculino, e pontua que as formas como o status quo atribui valor a cada um deles é injusta.
O pensamento pós-moderno e a teoria de gênero, assim, promovem a inclusão social, pois, para compreender ambos, é antes necessário aceitar a multiplicidade de identidades que compõem a grande diversidade humana.
Não existem apenas duas formas de entender gênero, assim como não existem apenas duas formas de compreender nada. E quanto maior o número de possibilidades acatadas como plausíveis, maior será nossa habilidade de viver com as diferenças.
Por isso é recomendável ter cuidado com os binários. Eles podem petrificar o pensamento.

Para minha amada morta e o choque da alteridade

Filme de Aly Muritiba trata de uma morte dupla: a da mulher e a do 'anjo do lar'. Uma morre com o corpo. A outra, quando seu desejo é descoberto
por Matheus Pichonelli — publicado 31/03/2016

Divulgação/Vitrine Filmes
Para minha amada morta
Cena de 'Para minha amada morta', de Aly Muritiba
Num futuro próximo, vamos nos lembrar deste período de distensões sociais não como efeitos de uma crise política ou econômica, ao menos no caso brasileiro. Lembraremos dessa década como uma época de precedentes perigosos em direção ao colapso da alteridade. Nesse período, a reafirmação do sujeito implica a reafirmação de valores em grupo, mas também a eliminação, física ou simbólica, de oponentes. Não basta reafirmar, por exemplo, uma opção política; é preciso defenestrar a opção do outro e sua representação.
Da sensação de descontrole do próprio destino à troca da liberdade por mais segurança em cidades que oprimem,dividem, alienam e desumanizam, há um terreno imenso a ser explorado em busca de respostas para a incorporação de símbolos de um estado irritadiço, agressivo e limitador em nossa linguagem e nosso cotidiano.
Um sintoma dessa violência é o esforço em enquadrar movimentos complexos, permeados por nuances e contradições, emcaixas de conceitos prontos. É o que chamamos de clichê, aquela maldita goma de mascar que quando gruda chega a sufocar os sujeitos e objetos da fala.
Nesse contexto, Para minha amada morta, filme do diretor estreante Aly Muritiba que em condições normais seria recebido sem grande entusiasmo, estreia no circuito comercial como uma espécie de representação deste sintoma. No drama, um fotógrafo que trabalha para a polícia, interpretado por Fernando Alves Pinto, tenta tocar a vida ao lado do filho após a morte da companheira.
Em casa, o protagonista desenvolve rituais para celebrar a amada morta, como se reforçasse em cada espaço e objeto deixado por ela um processo de canonização: os vestidos, os sapatos, os vídeos em VHS com a memória de uma pureza infantil.
Apesar da morte, uma interdição da natureza, tudo ali se desenvolve com uma relativa ordem: o luto, a tristeza, a razão de seguir em frente com o filho pequeno, a atenção sobre a criança, os cuidados com a casa, as homenagens póstumas, os espaços adequados para a saudade.
Tudo é desconstruído quando o pai descobre, em um dos vídeos deixados pela companheira, que ela teve um amante. É quando descobrimos que a amada morta era uma projeção. Uma espécie de anjo do lar, arquétipo descrito por Virginia Wolf como uma mulher “extremamente simpática, imensamente encantadora, totalmente altruísta”. 

Essa mulher, descreve a autora, é “excelente nas difíceis artes do convívio familiar. Sacrificava-se todos os dias. Se o almoço era frango, ela ficava com o pé; se havia ar encanado, era ali que ia se sentar – em suma, seu feitio era nunca ter opinião ou vontade própria, e preferia sempre concordar com as opiniões e vontades dos outros. E acima de tudo – nem preciso dizer – ela era pura. Sua pureza era tida como sua maior beleza – enrubescer era seu grande encanto”.

Para minha amada morta é um filme sobre uma morte dupla: a da mulher e a do anjo. Uma morre com o corpo, e leva com ela mistérios que ninguém em vida pode (ou tem direito) a revirar. A outra morre quando seu desejo é descoberto. Pior: um desejo sobre algo que não lhe foi outorgado desejar.
Em nossa cultura, a traição é o que de pior pode acontecer a um casamento. Nele perdoamos a falácia, a agressão verbal, o tédio, as chantagens e maldições. Mas uma traição, não. Ela é a desfeita de um trato assumido diante da comunidade a partir de noções sobre fidelidade, segredo, coerência, etc. Mas funciona de diferentes modos quando o peso histórico da relação é um para um homem e outro, para a mulher.
Durante anos, a religião e a medicina, referendadas pelo sistema jurídico, se limitavam a descrever a mulher como um ser não apenas dedicado aos afazeres do lar, mas incompatível com a vida pública.
A historiadora Margareth Rago, em seus estudos, cita a descrição, feita por um médico homem, de mulheres à semelhança de um pato para justificar essa inabilidade de andar com as próprias pernas e assumir responsabilidades historicamente dominadas pelos homens.
Ela lembra que, até pouco tempo atrás, homens públicos eram homens importantes – políticos, intelectuais, etc. Mulher pública era sinônimo de prostituta.
O anjo do lar, que nas palavras de Virginia Wolf não tem opinião ou vontade própria, é reduzido, assim, a um corpo. Um corpo sobre o qual o cônjuge, como sucessor do pai e antecessor do filho, projeta uma espécie de direito natural de uso e posse. Surgem daí todos os abusos e agressões, físicas ou psicológicas.
Essa determinação histórica começa a mudar quando uma série de direitos é reivindicada a partir da entrada daquele “corpo” no mercado de trabalho. (Para desgraça do companheiro,a amada morta do filme, que só conhecemos por uma imagem de VHS desfocada e por uma única fala, não era um anjo do lar, mas uma advogada dedicada e em contato com um mundo para além de suas obrigações com o marido, o filho, a casa). "Essa mulher era louca", dizem dela a certa altura do filme.
A traição do homem, nesse sentido, é, quase sempre, minimizada pelo reconhecimento de seu desejo. Esse desejo, por sua vez, é compreendido como um deslize – indesejável, mas não condenável; evitável, mas não desnecessário.
O peso da traição é maior quanto menor o reconhecimento do desejo – o que leva a discussão para um campo moral. A tormenta do personagem do filme não é, em si, o reconhecimento forçado de um desejo, mas a sensação de ver invadido algo que imaginava lhe pertencer. Para ele, nada pode ser mais invasivo do que saber que esse “terreno”, destituído de qualquer subjetividade, foi penetrado por alguém que não ele. A partir daí é desencadeado o processo de (in)compreensão que o leva à loucura. 
E é a partir daí que temos um espelho de um país conflagrado. Hoje, no Brasil, temos observado uma certa degeneração do debate público que, em vez de produzir respostas e consensos, escancara nossas desavenças. Pior: em reposta àquilo que condenamos, temos defendido posições condenáveis, numa espiral de reduções e violências típicas de mentes fascistas. Em outras palavras, temos visto o inferno, e o inferno, dizia Sartre, é sempre o outro.
No filme de Muritiba, o inferno é nosso duplo ao avesso. Para o fotógrafo da polícia,bandido bom é bandido morto: incapaz de levantar ou reagir, pode ser retratado por qualquer ângulo conforme o desejo do portador da lente. O mau bandido, por sua vez, é o bandido bom. O que sobrevive. O que se regenera. O que já não pode ser punido ou já o foi. E que, na brutalidade da própria existência, passa a condenar o que ele pratica à medida que o policial do filme passa a praticar o que ele condena.
Para compreender o algoz, numa dualidade de fundo entre o bronco da periferia e o bronco do centro da cidade, o protagonista deixa de ser o marido atencioso, o pai responsável, o sujeito injustiçado por uma suposta invasão – o encontro de um desejo que não reconhece com um sujeito a quem não é reconhecida a humanidade.
Fernando, o bom moço, passa a andar no meio-fio entre a investigação e a ilegalidade, a invasão e o sadismo, a racionalidade e a loucura, ao tentar compreender seu suposto algoz. E quanto menos o compreende, mais frágeis são as noções e riscos da empreitada.
A ideia de crime ou pecado não é regulada pela compaixão, que é, ou deveria ser, a base da alteridade de que nos falam a igreja e a lei, mas pela vingança. É essa vingança o elemento desestabilizador que destitui o direito à existência de quem precisa a todo custo ser invadido e ferido também, como se o campo afetivo fosse necessariamente uma briga por um território. Isso é reforçado pela ideia de pertencimento incutida no casamento, e consagrada pela distância de direitos entre quem ama e quem é amada.
Ao longo do filme, Fernando se afasta do sujeito sensível e dedicado apresentado nas primeiras cenas. Torna-se o avesso do “Bom Marido” de Dostoiévski, um potencial criminoso, no limite de uma tragédia, movido pela maldita honra.