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terça-feira, 4 de abril de 2017

“Fugi e fiquei viva, minha filha enfrentou e morreu”

por Andrea Dip | 3 de abril de 2017

Em entrevista à Pública, Sônia narra a história de violência que marcou sua vida e a de sua filha, Eliza Samudio, vítima de feminicídio – um crime que mata uma mulher a cada 90 minutos no Brasil

Quando dona Sônia entra na sala, minha garganta dá um nó. A semelhança entre ela e a filha é impressionante. Por vezes, durante nossas conversas, tenho a sensação de que é a própria Eliza Samudio, mais velha, quem relembra a barbárie a que foi submetida por ter tido “a audácia” de engravidar de um encontro sexual casual com um jogador de futebol famoso.
Mas não é só fisicamente que Sônia e Eliza se parecem. Também as histórias de violências sofridas por mãe e filha se encontram em muitos momentos. “A diferença é que eu fugi e fiquei viva e a minha filha enfrentou e morreu”, diz Sônia, tentando secar as lágrimas que teimam em cair, quase sete anos depois do assassinato da filha.
Na época, o crime ganhou muita atenção da mídia e da sociedade, um tanto por causa das personagens – um jogador de futebol famoso, goleiro titular do Flamengo, uma modelo, fã de futebol que havia participado de filmes adultos, um amigo obcecado, um ex-policial sanguinário, ex-esposas e namoradas – e outro tanto pela crueldade do crime: sequestro, assassinato a sangue-frio e ocultação do corpo, provavelmente esquartejado e jogado aos cães do executor, segundo o depoimento de Jorge Luiz Rosa, primo de Bruno e principal testemunha do caso. A opinião pública se dividiu entre os que achavam que Eliza não passava de uma “Maria chuteira”, uma atriz de filmes pornôs que só queria se aproveitar da fama e do dinheiro do “talentoso jogador” e, portanto, “merecia” morrer; e os que viram em Bruno um “monstro”, um “assassino de sangue-frio”, alguém à margem da sociedade. Não se tocou na palavra exata para descrever o crime: feminicídio. É esse o nome do assassinato de mulheres em contextos marcados por desigualdade de gênero, considerado crime hediondo no Brasil desde 2015. Por dia no país acontece um feminicídio a cada 90 minutos, 5 espancamentos de mulheres a cada 2 minutos e 179 relatos de agressão. Esses dados estão compilados, com definições, informações e análises importantes, no livro Feminicídio #invisibilidademata, lançado no último dia 30 pelo Instituto Patrícia Galvão em parceria com a Fundação Rosa Luxemburgo.
Segundo Sônia, o sonho de Eliza desde criança era ser modelo (Foto: José Cícero da Silva/Agência Pública)
Quando Bruno foi solto por uma liminar concedida no habeas corpus 139612 pelo ministro do STF Marco Aurélio –, dona Sônia assistiu estarrecida às cenas do assassino de sua filha posando para fotos com fãs e dando entrevistas sorridentes a repórteres que evitavam perguntas desagradáveis. O assunto era futebol: ele havia sido contratado pelo time de futebol Boa Esporte Clube, de Minas Gerais (que está pagando um alto preço pela aquisição). Nenhuma pergunta sobre o crime que levou a filha dessa mulher pequena e magra que desde então tem perdido peso, noites de sono e até a concentração para fazer os doces e salgados que vende para complementar a renda da família: “Eu emagreci 27 quilos na época [desaparecimento e morte de Eliza], mas consegui recuperar 16 com tratamento. Essa semana emagreci mais três. Volta tudo, não estou conseguindo dormir nem trabalhar”, conta.
Enquanto vemos fotos antigas no sofá da casa de sua comadre, ela diz também temer por sua vida e a do neto. Conta que recebe ligações no meio da madrugada, vindas de números desconhecidos, e vê carros estranhos passeando por seu bairro. Lembra que na época do julgamento recebia ligações dizendo que um rolo compressor iria passar sobre sua cabeça, que era para ela desistir do processo, pra não medir forças. “Mas minha maior preocupação hoje é com o Bruninho”, diz, referindo-se ao filho de Eliza e Bruno, que ironicamente herdou o nome do pai.
Sônia cuida do neto desde a morte da filha, tentando protegê-lo da própria história para salvar sua infância. Por segurança, nossos dois encontros ocorreram longe do menino e de sua casa. “Quando ele [Bruno] diz que 300 anos em prisão perpétua não vai trazer a vítima de volta, minha filha é essa vítima, assassinada, dada aos cães. Eu não pude enterrar seu corpo, não sei se isso vai me ser dado um dia, se a Justiça vai conseguir fazer eles falarem o que fizeram com o corpo da minha filha. Mas meu neto vai ter que viver com essa dúvida também? Se pra mim é difícil, imagino pra ele. Porque na vida dele existe um peso a mais: foi o pai que matou a mãe. Eu tento proteger sua inocência e sua infância, mostro foto da mãe, digo que ela virou uma estrela no céu, em casa a gente não liga a televisão, ele tem contato com poucas pessoas. Mas em algum ponto ele vai saber o que aconteceu e eu temo por esse momento.”
Isso tudo a mãe de Eliza tem dito à imprensa. O que ela raramente conta é que, assim como aconteceu à filha, seu companheiro também queria que ela abortasse de Eliza. Foi contra Bruno que a filha registrou um boletim de ocorrência no dia 13 de outubro de 2009 dizendo que, além de sofrer ameaças, confinamento e agressão – comprovada em exame de corpo de delito –, ele a obrigou a engolir vários comprimidos para abortar. Eliza pediu medida protetiva para ela, sua família e amigos e gravou esse vídeo assustador em que praticamente anuncia sua morte, incluindo nomes de alguns de seus futuros algozes. Nem a mãe nem ela tiveram ajuda efetiva do Estado, da polícia ou da Justiça.
À esquerda, o boletim de ocorrência registrado por Eliza; à direita, o laudo do exame de corpo de delito a que foi submetida (Foto: Agência Pública)
O pedido de medida cautelar de Eliza foi negado pela juíza titular Ana Paula Delduque Migueis Laviola de Freitas. Segundo essa reportagem do jornal O Globo, a juíza disse que Eliza, por não manter nenhum tipo de relação afetiva, familiar ou doméstica com o jogador, não podia se beneficiar das medidas protetivas nem “tentar punir o agressor”, “sob pena de banalizar a finalidade da Lei Maria da Penha”. A denúncia de Eliza ficou parada na Justiça, assim como o processo com o pedido de alimentos gravídicos e posteriormente de pensão para o filho. A contestação de Bruno à ação de alimentos movida por Eliza diz coisas como “a autora já vinha tentando manter relações com atletas de futebol profissionais há muito tempo provavelmente com objetivos financeiros”; “a autora manteve relação sexual com o réu na primeira vez em que se conheceram […], o que pode revelar sua conduta nada reservada. Se assim fez com o réu provavelmente faz e fazia com outros homens”; “na época dos fatos narrados na inicial, ao contrário do que expôs na inicial, a autora trabalhava em filmes pornográficos de baixíssimo nível”. Também diz no documento que a denúncia a respeito da tentativa de aborto é “mirabolante” e que “o réu acredita que a autora possa ter ingerido tais comprimidos por ter certeza que o filho que espera não é dele”.
Trecho da contestação da defesa de Bruno à ação movida por Eliza (Foto: Agência Pública)
Como a filha, dona Sônia poderia ter entrado para a estatística caso não tivesse fugido de seu agressor de Foz do Iguaçu para o Mato Grosso do Sul. “A imprensa, as pessoas e até mesmo o próprio Bruno me julgam muito, dizendo que eu não criei a minha filha e que eu choro lágrimas de crocodilo na frente das câmeras, mas ninguém sabe da minha história, ninguém sabe o que eu passei. O pai da Eliza era violento, eu fugi dele pra não morrer” diz. Ela conta que foi morar com Luiz Carlos Samudio ainda muito jovem, aos 17 anos, e que, além da insistência pelo aborto que ela não fez, as agressões continuaram até que, quando Eliza tinha por volta de 4 anos, não aguentou mais e fugiu, pensando em arrumar um trabalho, se estabelecer e então buscar a filha pra viver com ela. Durante esse tempo, pediu a familiares para que cuidassem da menina e ia vê-la escondida sempre que podia, com medo do ex-marido. “Quando eu já estava melhor, fui pegar a Eliza pra morar definitivamente comigo. O pai dela, então, me disse que me entregaria ela, mas me entregaria aos pedaços.” Nessa hora, dona Sônia não consegue mais conter o choro. “É difícil pra uma mãe, sabe? Fazer uma escolha dessas.” A amiga que a recebeu no Mato Grosso do Sul, cujo nome vamos preservar, diz: “Se você soubesse o jeito que ela chegou aqui… Machucada, com medo, mal falava”.
Para Eliza, a infância também não foi fácil. Seu pai, com quem morou a maior parte da vida, está foragido da Justiça desde que sua prisão provisória foi expedida em 12 de maio de 2011, em processo que responde por abuso sexual contra a filha caçula, na época com 10 anos. A condenação, por oito anos de prisão em regime fechado, ocorreu em 2005, foi contestada e teve recurso negado pelo Tribunal de Justiça do Paraná. Dona Sônia suspeita que Eliza também possa ter sofrido abuso do pai, já que a filha pediu para se mudar para a casa dela no Mato Grosso do Sul quando tinha 14 anos sem dar muitas explicações e sem querer falar com o pai. Mas aos 16, diante da insistência de Luiz Carlos e das promessas de que faria um book e a colocaria em contato com agências – o sonho de Eliza desde menina era ser modelo –, ela acabou voltando para Foz do Iguaçu e depois fugiu para São Paulo, sozinha, aos 18 anos, sem que nenhum dos dois soubesse de seu paradeiro por quase um ano.
Sônia mostrou à reportagem diversas fotos antigas. Nesta, Eliza aparece carregando o filho (Foto: José Cícero da Silva/Agência Pública)















O estupro de crianças e adolescentes por pais e parentes próximos também não é raro. Levantamento do Ipea, feito com base nos dados de 2011 do Sistema de Informações de Agravo de Notificação do Ministério da Saúde (Sinan), mostrou que 70% das vítimas de estupro no Brasil são crianças e adolescentes. Segundo a mesma pesquisa, 24,1% dos agressores das crianças são os próprios pais ou padrastos, e 32,2%, amigos ou conhecidos da vítima.
Quando Eliza se envolveu com Bruno, dona Sônia não ficou sabendo. As duas se falavam apenas por telefone e a filha seguia sua vida morando na casa de amigas em São Paulo e, depois da gravidez, se dividia entre São Paulo e Rio de Janeiro, em hotéis pagos por Bruno, reivindicando os direitos do filho que carregava no ventre, em uma negociação conturbada. “Ela estava desempregada, queria proteger o filho. Diziam que ela era culpada da própria morte por ter feito as coisas, os filmes. Se a mulher arruma um amante é vagabunda, mereceu. Se o homem arruma amante é pegador”, diz dona Sônia.
Uma a cada três mulheres sofre violência de gênero
A médica e professora do departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP Ana Flávia d’Oliveira participou da pesquisa que deu base ao livro Feminicídio #invisibilidade mata. Ela falou à Pública sobre como as histórias de Eliza e Sônia se relacionam com a violência de gênero cotidiana.
Uma em três mulheres já sofreu ou ainda vai sofrer algum tipo de violência física ou sexual no mundo, 50% delas por parceiros. Por isso, a violência a que Eliza e sua mãe foram submetidas, infelizmente, não me surpreende. 30% da população é muita coisa. Dessa violência, a maior parte é grave – e o que a gente considera grave nas nossas pesquisas com a OMS é quando tem agressão física de soco em diante. Estrangulamento, ameaça com arma de fogo ou arma branca. E essa violência é preocupante tanto pela gravidade dos episódios quanto por sua continuidade; ela é cotidiana. Acho que nesse caso da Eliza especialmente, ficam evidenciados questões de gênero e o controle da sexualidade feminina. Porque a sexualidade feminina continua sendo legitimada apenas dentro de um casamento monogâmico e todas as formas de expressão que saiam desse padrão ainda são estigmatizadas pela sociedade. Isso se expressa claramente quando a juíza não deu para ela a medida protetiva pelo fato de não ter uma relação estável com o pai do filho, por exemplo. Acho que, quando mãe e filha são coagidas ao aborto, isso mostra a dificuldade que ainda temos em obter direitos sexuais e reprodutivos e como isso também está ligado com a violência. Temos ou homem que quer forçar a mulher a interromper a gravidez ou o que quer forçar a mulher a ter o filho, em uma sociedade em que o encargo da reprodução segue majoritariamente das mulheres. Uma mãe, por exemplo, que abandona um relacionamento abusivo e não consegue levar as crianças porque não é fácil, como foi o caso de Sônia, perde a legitimidade social sobre aquelas crianças. Um pai que abandona os filhos porque não quer mais é cobrado muito pouco ou nem é cobrado. Eu acho que de fato tratar esse crime como exceção e tratar esse sujeito como um monstro é uma tentativa de tirá-lo fora da sociedade, desumanizá-lo e não perceber que ele faz parte de nós e que, em graus maiores ou menores, essa violência acontece cotidianamente em uma parte enorme das famílias. A morte da Eliza diz o que pode acontecer com as mulheres que correm atrás dos seus direitos. Esses casos, quando se tornam públicos, surtem um efeito terrível! Eu atendo mulheres em situação de violência e elas dizem ‘mas não adianta ir pra Defensoria, ir pra delegacia. Você viu o que aconteceu com fulana?’. Toda a publicidade desse caso, cada caso em que a mulher morre por fugir de uma situação de violência ou em que tentou pedir pensão alimentícia calam muitas mulheres por medo. E não é um medo irracional. Mesmo o fato de ele ter sido solto é muito complexo. Se ela ganhava dinheiro com sexo ou não, como ela ganhava a vida ou com quantos homens ela dormiu não faz a menor diferença no seu direito a pensão e ao reconhecimento da paternidade. A única coisa que tiraria esses direitos seria se o filho não fosse dele. Como ela vivia a sexualidade é outro assunto. E ela não pode nem ser acusada de não ter ido atrás dos seus direitos porque fez B.O., pediu medida protetiva, pediu pensão alimentícia, acionou os mecanismos legais. Esse caso é de uma injustiça extrema e choca principalmente pelo que fizeram com o corpo, mas, quando fizeram aquela barbaridade, ela já estava morta. O que me choca é a decisão de matá-la, e a decisão de matar é a decisão cotidiana de um monte de homens! Alguns conseguem e outros não.”
Após registrar o B.O. em outubro de 2009, Eliza voltou para São Paulo. Não compareceria à audiência da ação de alimentos por estar com 39 semanas de gravidez, com medo e sem dinheiro para se locomover, como explica em e-mail enviado à sua advogada (confira abaixo).
E-mail que Eliza enviou à advogada explicando porque não havia comparecido à audiência (Foto: Agência Pública)
Alguns meses depois, em meados de julho de 2010, a imprensa falaria de seu sumiço e passaria a revelar os detalhes sórdidos de sua morte. Dona Sônia saberia da morte de Eliza pela televisão, em uma cena emblemática: seu ex-marido, aquele de quem fugiu e que ela achava que estava morto, segurava seu neto, que até então não conhecia, no colo. “Fiquei sabendo da morte da minha filha, do nascimento do meu neto, que meu ex-marido estava vivo e com o bebê tudo ao mesmo tempo. Fiquei sem chão”, lembra. Quando soube da morte da filha, Luiz Carlos, que até então ainda recorria do processo, se apresentou como familiar do bebê. “No último telefonema de Eliza, ela dizia que tinha uma coisa pra me contar e eu sempre brincava: ‘Ó tá chegando meu neto!’. Ela dizia: ‘Mãe, quando eu tiver um filho, eu mato e morro, mas não deixo meu filho pra trás’. Isso toda vida ela falou. Então, quando a Eliza sumiu, eu tinha certeza que ela estava morta.” Quando soube do neto, Sônia criou a coragem que nunca teve e pediu para a advogada entrar com o pedido de guarda de Bruninho. “Ele [Luiz Carlos] achava que eu nunca teria coragem de enfrentá-lo, mas eu tive. Antes eu não teria. Mas hoje estou mais forte. Fomos pra Foz do Iguaçu eu e a Dra. Maria Lúcia e entramos com o pedido. Quando o Bruninho chegou, eu fui por trás da pessoa que estava carregando ele e levantei assim o cobertor da carinha dele. Ele abriu um baita sorriso. Daí peguei ele no colo e ele se aninhou, esfregou a cabecinha em mim, foi um momento meu, sabe?”, lembra emocionada. “Meu neto poderia ter morrido três vezes. A primeira ainda no útero da mãe. A segunda quando levaram Eliza pra morte e iam matar ele também, mas ficaram com dó. E a terceira quando deixaram ele em Minas com desconhecidos. Quando a polícia o encontrou, ele estava sujo, com fome. Se não tivessem encontrado, será que ele estaria aqui?”, pergunta. Para o futuro, a mãe de Eliza diz que quer duas coisas: cuidar do neto em paz e um dia poder enterrar os restos mortais da filha. Se os assassinos de Eliza um dia confessarão o paradeiro do corpo não é possível dizer. Certo é que a violência, as torturas físicas e psicológicas, a condenação pela opinião pública e pela própria imprensa e, por fim, o assassinato brutal de Eliza Samudio não se deram apenas nesse caso.
Dona Sônia diz querer apenas duas coisas para o futuro: cuidar do neto em paz e enterrar os restos mortais da filha (Foto: José Cícero da Silva/Agência Pública)
















Bruno não é um monstro nem se aproxima da exceção, ao contrário do que seria muito mais confortável acreditar. Ou, como diz a psicanalista Maria Silvia Bolguese: “A modelo, o jogador de futebol, são lugares cristalizados na sociedade, quase clichês. E eles foram atores que não conseguiram escapar de um tipo de lógica que funciona muito na base da violência e da opressão. A história da Eliza e do Bruno é horrível socialmente também porque é a repetição de 1 milhão de histórias iguais, mas tem o desserviço de ser uma história pública que a sociedade não quer analisar de jeito nenhum. Vai-se tentando pôr para fora, à margem, fazendo deles outros, quando na verdade eles são caricaturas, ampliações. Esse caso é um tapa na cara da sociedade”.

Pública

Livro infantil 'Pode Pegar!' quebra estereótipos de gênero

Obra da autora e ilustradora Janaina Tokitaka conta a história de dois coelhinhos que não se importam com 'o que é para menino ou para menina'. O mais importante para eles é a liberdade para se divertir
por Xandra Stefanel, especial para RBA publicado 02/04/2017
livro
Janaina: 'Escrevi o livro com a esperança de que as crianças de hoje se tornem adultos livres, leves e felizes'
Era uma vez dois coelhinhos. Um usava uma saia, batom e sapatinho de salto. Outro, botas, calça e gravata. Um era um menino e outro era uma menina. Mas quem era menino e quem era menina? A resposta não é – ou não deveria ser! – óbvia. É o que mostra o livro que acaba de ser publicado pela Coleção Boitatá (Boitempo Editorial), Pode Pegar!, da escritora e ilustradora paulistana Janaina Tokitaka.
Supercolorida e leve, a obra aborda de forma sutil e encantadora os costumes culturais relacionados à identidade de gênero. O livro é voltado para crianças em fase de alfabetização e tem como protagonistas um coelhinho e uma coelhinha que não veem problema em trocar de roupa um com o outro já que a menina pode querer usar botas pra atravessar um riacho, um menino pode usar salto se quiser ou precisar ficar mais alto e todos podem usar calças para saltar pelas montanhas…

Com pouquíssimo texto, Janaina brinca com o tema, desconstroi os estereótipos de gênero e deixa no ar a pergunta: o que faz uma roupa ser “de menino” ou “de menina”? Para a autora, tratar de forma livre sobre as diferentes possibilidades que uma pessoa deve ter é fundamental para o desenvolvimento das crianças. “Acredito que os livros infantis possuem um papel muito importante na formação da identidade das crianças”, afirma Janaina

IlustraçãoRepresentatividade importa muito em qualquer fase da vida, mas na infância, esse momento construtivo e delicado, importa muito mais. É essencial que os livros libertem, apontem possibilidades para além das estabelecidas, como os estereótipos de gênero. Pode Pegar! diz que você têm direito de se apresentar como bem entender e para não ligar para quem diz o contrário. Escrevi esse livro com a esperança de que as crianças de hoje se tornem adultos mais livres, leves e felizes,”
A autora e ilustradora iniciou a carreira de escritora em 2010, aos 24 anos, e desde seu primeiro álbum ilustrado, Tem Um Monstro no Meu Jardim (Escrita Fina), publicou 40 outras obras para o público infantil e juvenil. Pode Pegar! já está à venda nas livrarias e no site da Boitempo Editorial, responsável pela Coleção Boitatá, selo infantil que tem o objetivo de promover reflexões sobre temas como política e de cidadania para crianças.
Pode Pegar!Pode Pegar!Autora: Janaina Tokitaka
Coleção: 
Boitatá
Editora: Boitempo Editorial
Páginas:
36
Ano:
2017
Faixa etária: leitura compartilhada – 0 a 4 anos / Leitura autônoma – a partir de 5 anos
Preço sugerido: R$ 39


Fonte: RBA

Temer reduz em mais da metade verbas para políticas públicas às mulheres

Para a socióloga Jacqueline Pitanguy, diretora da ONG Cépia, o momento político do Brasil tem prejudicado principalmente as mulheres
por Redação RBA publicado 02/04/2017
EBC
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Calor destinado ao atendimento à mulher em situação de violência passou de R$ 42,9 milhões para R$ 16,7 milhões
São Paulo – O governo de Michel Temer reduziu em 61%, em relação ao ano passado, a verba para atendimento à mulher em situação de violência. Com o corte, o valor destinado à assistência passou de R$ 42,9 milhões para R$ 16,7 milhões. 
Para a socióloga Jacqueline Pitanguy, diretora da ONG Cépia, o momento político do Brasil tem prejudicado principalmente as mulheres. "É extremamente preocupante o que está acontecendo, porque é um desmonte. Houve uma construção eficiente de uma política de combate à violência contra a mulher, com a Lei Maria da Penha. Então, sem orçamento para implementar as políticas, nós estamos voltando a um capítulo de retórica. Cortar a verba constitui um ato de violência contra as mulheres", critica a ativista em entrevista à repórter Laís Modelli, na Rádio Brasil Atual, reproduzida abaixo.
Também em março, mês internacional da mulher, o governo federal retirou verbas das políticas de incentivo de autonomia das mulheres com uma redução de 54% no orçamento. Apenas R$ 5,3 milhões estão disponíveis para o setor. Em 2016, R$ 11,5 milhões foram aplicados na política.
Segundo Jacqueline, as medidas políticas do governo Temer são um retrocesso nas conquistas obtidas pelas lutas dos movimentos feministas. "No Brasil, estamos encerrando um ciclo virtuoso de conquista de direitos da mulheres, que teve seu ápice na Constituição de 1988. Nos governos de Dilma e Lula, a Secretaria de Políticas para Mulheres construiu pactos de enfrentamento da violência de gênero, mas agora, com Temer, sofre um desmonte", afirma.
Ela afirma na entrevista que o desmonte é motivado pela forte presença de setores conservadores no governo. "Os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres e a posição dela na sociedade são os principais alvos dos ataques desses setores", diz.
Na reportagem, a advogada Leila Linhares, representante do Mecanismo de Acompanhamento da Implementação da Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher (Mesec), explica que todos os países membros do órgão avançaram nesse tipo de política pública, inclusive o Brasil. "Nos últimos dez anos, houve avanços na legislação e o Brasil cumpriu em larga medida, do ponto de vista legislativo, todas as recomendações. A gente observa que esses avanços estão retrocedendo."
Segundo Leila, verbas destinadas às políticas públicas para a população feminina foram responsáveis por abrir delegacias das mulheres, centros de apoio e diversas estruturas que ajudaram brasileiras em situação de violência. "Esses recursos possibilitaram um avanço, mas a gente vê que a cada dia esses órgãos perdem forçae os serviços estão sendo desativados."
Ouça:


RBA

Banco polêmico em metrô mexicano levanta debate sobre assédio no transporte público

Para fazer os homens pensarem sobre o assunto, o metrô da Cidade do México instalou um banco com um molde da genitália masculina

 02.04.2017 | POR REDAÇÃO MARIE CLAIRE

Para mostrar aos homens o quão desconfortável uma mulher se sente ao viajar em um vagão lotado, o metrô da Cidade do México decidiu criar um experimento bastante curioso. A empresa instalou o "Penis Seat" (banco do pênis) para que os passageiros pudessem pensar sobre o assédio sexual do qual a maioria das mexicanas são vítimas diariamente no transporte público.

O assento projetado com um molde tridimensional do tronco masculino e suas genitálias, foi colocado junto a uma placa onde se lia, "somente para homens". No vídeo recém-publicado, é possível notar o desconforto dos homens diante da situação e suas mais variadas reações de desgosto.
Um sinal no chão chamava a atenção para a gravidade da questão: "É chato viajar desta maneira, mas nada comparado à violência sexual que as mulheres sofrem em seus deslocamentos diários".
A motivação para a campanha veio de um estudo recente conduzido pelo governo mexicano, que revelou que 65% das mulheres já foram vítimas de assédio sexual no sistema de transporte público da cidade. Na lista das 15 maiores capitais do mundo onde as mulheres mais sofrem com este tipo de agressão, a Cidade do México aparece na segunda colocação.
Na mensagem final, o vídeo pede ainda que o público entenda que este é apenas um dos problemas enfrentados pelas mexicanas em seus trajetos diários: "nove em cada 10 já foram vítimas de algum tipo de violência sexual."

Marie Claire

Conheça o Transtorno Dissociativo de Identidade, a doença do protagonista do filme ‘Fragmentado’


MARCEL HARTMANN - O ESTADO DE S. PAULO



Antigamente conhecido como ‘Transtorno de Dupla Personalidade’, o TDI não é bem como retratado no filme
Kevin (James McAvoy) é um homem com pelo menos 23 personalidades. Após sequestrar três adolescentes no estacionamento de um shopping, ele as mantém em cárcere privado em um porão de um subsolo. As personalidades fazem uma espécie de “rodízio” para tomar controle dele - algumas se associam em “gangue” e interagem, de forma amigável ou não, com as jovens.
Essa é a premissa do filme Fragmentado, do diretor, roteirista e produtor indiano M. Night Shyamalan - o mesmo responsável por Corpo Fechado, Sexto Sentido, A Vila e Sinais. A história que está nos cinemas retrata - com liberdade poética - o Transtorno Dissociativo de Identidade (TDI), conhecido por muitos como “dupla personalidade” (o nome não é mais usado atualmente, até porque podem ser mais de duas). 
“A ideia básica é que a pessoa passa por um trauma forte, muitas vezes na infância, de cunho sexual, físico ou psíquico. A partir daí, fragilizada, ela desenvolve uma defesa na qual cria uma personagem dela mesma”, explica Renato Antunes, professor de Psiquiatria e Psicologia Médica da Universidade de Brasília (UnB) e psiquiatra do Hospital Universitário de Brasília. É o que ocorre com Kevin, que cresceu com uma mãe rígida e agressiva e criou identidades para se refugiar da realidade complicada. 
No filme, Kevin incorpora, pelo menos, uma criança inocente, uma senhora com interesse em cultura hindu, um homossexual estilista e um adulto agressivo. De fato, pessoas com TDI têm identidades muito diferentes uma da outra. “Elas têm um jeito de pensar, sentir e se relacionar muito específico, personalidades diferentes e até sexo e sexualidade opostos”, diz Erlei Sassi Júnior, psiquiatra coordenador do Ambulatório Integrado de Transtornos de Personalidade e Impulso do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo. 
Não há regra, mas há casos em que as identidades sabem da existência das outras. “É como se fossem vizinhos morando no mesmo condomínio. Alguns podem não gostar dos outros e formar ‘gangues’ entre si, mas cada um tem características próprias”, diz Júnior. “Há relatos de uma identidade que fala mal da outra. Ela pode ter certa aversão à outra, achar que é fraca e mau caráter, e isso é verbalizado às vezes”, acrescenta. 
Entre os sintomas mais comuns, além do aparecimento de outras versões de si mesmo, são desmaios, pseudoconvulsão e, o mais comum, a amnésia - o indivíduo simplesmente esquece de suas ações no período em que o alter ego tomou o controle. É uma forma que a mente cria para proteger o ego (a parte da nossa mente ligada a razão e senso comuns) do mundo que, no passado, o machucou.
Exagero. Mas, como você pode imaginar, Shyamalan exagerou alguns aspectos da doença em Fragmentado. Não é como se pessoas com TDI fossem assassinas - e nenhuma identidade tem superpoderes, é claro. O que os relatos descritos na literatura apontam são pacientes cujas identidades adquirem sotaques diferentes ou falam apenas um idioma, desenvolvem asma, passam a necessitar de óculos de grau, desenvolvem maior ou menor sensibilidade à dor, adquirem outras idades, entre outros. 
Um caso famoso descrito na literatura remete ao século XVIII, quando aristocratas da França fugiram para Stuttgart, na Alemanha, no começo da Revolução Francesa. Uma jovem alemã de 20 anos ficou impressionada com a visão e passou a criar uma personalidade que imitava os modos de uma francesa, falando francês fluentemente e alemão com sotaque. Ao trocar para a personalidade alemã, a mulher não se lembrava de nada.
Entre o oito e o 80. Mas a questão é que você e Kevin têm, na verdade, mais em comum do que parece. Na verdade, todos nós temos várias identidades dentro de nós e as apresentamos, em situações variadas, ao mundo - em um momento somos filhos, em outros pais. Em alguns, chefes e, em outros, subordinados. Às vezes temos pensamentos bons e, em outros momentos, pensamentos ruins. Não há preto ou branco na nossa mente. Só que, apesar da variação, mantemos tudo dentro de um só alter ego. Já portadores de TDI, não - eles dividem as nuances em outras versões de si mesmo.
“Somos o que lembramos de nós mesmos. Nossas vivências nos fazem agregar uma série de informações dentro de uma caixa - e esta caixa é quem nós somos. Quem tem TDI fragmenta essa caixa de memórias em várias caixinhas”, explica de forma didática Antunes, do Hospital Universitário de Brasília. “Ao fazer isso, ela passa a ter outras identidades, cada uma com uma história de vida”, afirma. 
No filme, Kevin tem algumas versões perigosas de si mesmo - o suficiente para sequestrar três adolescentes. É um retrato, um pouco forçado, de pacientes que criam identidades mais agressivas para se sentirem preparadas para novos perigos. “Algumas pessoas desenvolvem isso para estarem prontas para lidarem com o mundo de forma diferente àquela que lidaram quando sofreram o abuso”, elucida Antunes, professor de psiquiatria da UnB.
Incidência e tratamento. A verdade é que a doença é extremamente rara. O E+ consultou três especialistas que trabalham em grandes hospitais brasileiros, mas nenhum tinha um relato de paciente com TDI. 
“Estudiosos têm uma ideia de que essa doença tem uma tendência cultural nos Estados Unidos. No Brasil, praticamente não se encontra. É um fenômeno estudado na psiquiatria transcultural”, diz o psiquiatra Erlei Sassi Júnior, do Hospital das Clínicas de São Paulo, enquanto faz referência ao ramo da psiquiatria que estuda como alguns transtornos psíquicos se manifestam de forma distinta em culturas diferentes. 
Além disso, o transtorno dissociativo de identidade também tem um diagnóstico bastante difícil. “Pela incidência ser muito baixa e não ser comum, ele não adquire grande importância nem aparece em grandes estudos, como é o caso da bipolaridade ou do transtorno do pânico”, diz Ricardo Riyoiti Uchida, psiquiatra na Santa Casa de São Paulo.
O tratamento, ele explica, envolve psicoterapia e o uso de remédios para controlar outros transtornos psiquiátricos que possam existir ao lado. “Com a psicoterapia, a ideia é você diminuir o número de crises e de entradas para outras personalidades”, diz Uchida, que também é professor da graduação e pós-graduação da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.

Estadão

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Segundo dia do ‘Elas por Elas’ reúne diferentes tipos de mulheres

Luiza Barros - O Globo

RIO - Famosas e anônimas, brancas e negras, jovens e idosas. Com os mais diferentes perfis, diferentes tipos de mulheres passaram pelo último dia do “Elas por Elas”, evento organizado pelo GLOBO, Editora Globo e Globo Condé Nast, no VillageMall, na Barra da Tijuca. Em comum, todas tiveram histórias de superação incríveis e muita esperança por um futuro em que a equidade de gênero seja uma realidade.

— Estou super feliz de estar aqui para esclarecer dúvidas. A palestra foi uma oportunidade de trocar informações. É preciso unir forças para esclarecer e empoderar as mulheres — disse a modelo e empresária Luiza Brunet, que participou da mesa sobre violência contra mulher, ao lado da cineasta Sandra Werneck, da promotora de Justiça Silvia Chakian e da escritora Clara Averbuck.

Uma das mesas mais comentadas foi a que contemplou os desafios das mulheres negras, vítimas de um duplo preconceito por parte da sociedade. A atriz Taís Araújo, a cantora Iza, a youtuber Nathalia Santos, do canal “Como assim cega?”, a ex-consulesa da França, em São Paulo, Alexandra Loras, e a ministra dos Direitos Humanos, Luislinda Dias de Valois, discutiram por diferentes ângulos a questão de raça e de gênero no Brasil. A jornalista e colunista do GLOBO Flávia Oliveira mediou o debate.

— Temos que enxergar que não precisamos mudar o mundo, e sim mudar de mundo. Estamos inseridos numa dinâmica errada, que vê somente pela perspectiva dos homens. Fiquei feliz de ver que o painel mais cheio era o das mulheres negras. O evento foi plural, necessário e transgressor. Não levamos só queixas, mas também ideias para nos reinventarmos — comentou a ex-consulesa francesa Alexandra Loras.

A ministra Luislinda Dias de Valois também ressaltou a contribuição dos debates do “Elas por Elas” para combater preconceitos.

— As mulheres negras são as que menos têm voz nesse país. A importância do evento é imensurável, porque o diálogo promove um momento de reflexão sobre o assunto — destacou.

Outros dois momentos em que a diversidade deu o tom do evento foram nas mesas sobre a inclusão na moda. As modelos Andreza Aguida, Eliane Medeiros e Fabiana Saba falaram sobre as suas experiências como mulheres que fogem ao padrão de beleza tradicional, enquanto a mesa “Transformação de valores” uniu especialistas e transexuais para abordar os desafios de quem encara a transição de gênero.

O último dia ainda teve direito a muita risada e emoção. Em uma das palestras mais descontraídas, a consultora de moda Costanza Pascolato e a artista plástica Marilu Beer falaram sobre suas trajetórias e como lidam com a idade. As duas arrancaram risadas do público com suas tiradas, ao mesmo tempo em que Costanza comoveu a plateia ao falar sobre as dificuldades que teve com as filhas quando resolveu se divorciar do marido nos anos 1960.

— Tudo isso aconteceu no anos 60. E só agora, este ano, que senti que as minhas filhas estão completamente comigo. Vou chorar agora — revelou Costanza.

Para a CEO das Edições Globo Condé Nast, Daniela Falcão, a emoção foi a tônica do “Elas por Elas” na sexta-feira e ontem.

— As palestrantes foram muito honestas, da Maya Gabeira falando sobre como ela se sentiu quando os homens criticaram a coragem dela à Constanza, sobre como foi difícil abdicar das filhas — afirmou Daniela, que também destacou a diversidade no evento. — Não tem ninguém que não tenha saído daqui sem aprender alguma coisa. Se você é da causa negra, aprendeu um pouco sobre transgênero. Se é uma pessoa focada em mulheres que querem ser CEO, aprendeu sobre violência doméstica. Para mim foi uma aula — avaliou.

O “Elas por Elas” teve patrocínio do VillageMall, parceria da Med-Rio e realização de O GLOBO, “Vogue”, “Glamour”, “Crescer”, “Galileu”, “Marie Claire”, “Época” e “Pequenas Empresas & Grandes Negócios”.


Extra

Elas por Elas 2017: o primeiro dia do evento

Encontro teve debates sobre a presença da mulher na ciência e na tecnologia e sobre as dificuldades de conciliação entre maternidade e mercado de trabalho

Por Crescer - 31/03/2017t
Elas por elas (Foto: Gianne Carvalho/ Editora Globo)






















Empoderamento feminino. A expressão está cada vez mais frequente em conversas e debates, sejam eles físicos ou virtuais. Ainda bem! Já passou da hora de a sociedade discutir de maneira mais ampla e profunda a presença e a importância da mulher em várias de suas esferas. E como valorização, infelizmente, não cai do céu, cabe a elas mesmas, às mulheres, reivindicarem seus direitos. O evento "Elas por Elas", que acontece nesta sexta-feira (31) e neste sábado (1º), no Village Mall, no Rio de Janeiro, reuniu figuras femininas de destaque para debater o assunto, em diferentes mesas.
No primeiro dia, a jornalista Glória Maria e a promotora pública do Estado de São Paulo, Gabriela Mansur, ficaram responsáveis pela abertura do evento. "Não existe nada mais poderoso do que colocar alguém no mundo. As mulheres precisam ser respeitadas para exercer o poder que elas já têm, que vem de dentro. Devemos transformar nossas fragilidades em força juntas", disse a jornalista. "Enquanto eu for promotora de Justiça, não vou permitir que uma mulher peça desculpas por ser mulher", afirmou Gabriela, em um discurso poderoso.
Depois, foi a vez da jornalista Flávia Durante, da youtuber Jout Jout, da escritora Nana Queiroz e da arquiteta Stephanie Ribeiro falarem sobre o feminismo na rede. "Queremos entender a diversidade e conversar", explicou Jout Jout.
Ciência é coisa de homem? E quanto ao esporte, à tecnologia e aos games? Mulheres importantes, inseridas nesses nichos, contaram o que passaram e o que ainda passam para chegar ao topo. A surfista Maya Gabeira, por exemplo, falou sobre o que sofreu por ser mulher depois de dois acidentes em que quase se afogou. "Surfistas conhecidos deram entrevistas em público duvidando da minha capacidade", disse. "Fiquei chateada, pois os homens que já tinham passado por situações parecidas foram tratados como herois e exaltados por terem desafiado seus limites".  
A situação das mães no ambiente de trabalho foi outro destaque do evento. Adriana Carvalho, da ONU Mulheres, Cinthia Dalpino, do Mãe at Work, e Florência Fuks, pediatra do Hospital Israelita Albert Einstein, discutiram sobre a dificuldade de conciliar a carreira com a criação dos filhos. Para Cintia, a opção de deixar o brinquedo para se dedicar à família não foi a maravilha que ela esperava. "Não conseguia nem ir ao parque com minha filha no meio da semana porque tinha vergonha de que vissem que eu não trabalhava", contou. "Sentia-me um fracasso porque meu conceito de sucesso era o profissional. Com o passar do tempo tenho aprendido a equilibrar as três Cinthias: a mulher, a profissional e a mãe"
A pediatra Florência Fuks também comentou sobre a culpa que assombra as mães ao tentarem conciliar as várias demandas da vida moderna. "A ausência da mãe em determinados momentos é importante não só pra que ela possa manter sua identidade e interesses além da maternidade, como para o desenvolvimento do filho", disse. "A consciência disso diminui o sentimento de culpa". Para ela, vale mais a qualidade dos momentos gastos com as crianças do que a quantidade.

Crescer

Aplicativo conta quantas vezes o homem interrompe a mulher

A publicitária Gal Barradas falou, no evento Elas por Elas, sobre o chamado Manterrupting

REDAÇÃO ÉPOCA
31/03/2017

A expressão americana Manterrupting é utilizada para designar as situações em que a mulher é interrompida de falar por um homem. Ganhou destaque na imprensa ano passado, depois do debate presidencial nos Estados Unidos em que a candidata Hilary Clinton foi interrompida 51 vezes por Donald Trump. Pensando em chamar a atenção para esse tipo de violência masculina, muito recorrente em qualquer país, a agência da publicidade BETC criou o aplicativo Woman Interrupted, que conta quantas vezes uma mulher é interrompida pelo homem durante uma conversa ou reunião. Nesta sexta-feira (31), a publicitária Gal Barradas, diretora da agência no Brasil, participou do evento Elas por Elas, onde explicou o funcionamento do aplicativo.

O Woman Interrupted pode ser baixado gratuitamente num aparelho celular. Ele é capaz de identificar a frequência dos timbres masculinos e femininos e contabiliza o número de interrupções quando acionado durante uma reunião ou conversa. O aplicativo não grava as conversas, apenas apresenta as estatísticas ao final. Segundo Gal Barradas, o objetivo é expor a recorrência da prática e conscientizar os homens sobre essa conduta, muitas vezes considerada normal. “Somos criados numa cultura machista. Muitas vezes fomos interrompidas de falar sem ter consciência de que é uma  forma de violência”, diz a publicitária.

A violência sutil contra as mulheres encontra outras formas de expressão na sociedade contemporânea. Nos Estados Unidos já foram criadas expressões como Bropriating (quando um homem se apropria da ideia de uma mulher e ganha os créditos por isso), Gaslighting (quando o homem leva a mulher a achar que enlouqueceu, e a duvidar de seu senso de realidade), e Mansplaining (quando um homem tenta explicar para uma mulher algo que seja óbvio, subestimando sua compreensão). Situações como essas estão sendo discutidas no evento Elas por Elas, que acontece nesta sexta-feira e sábado (1º) no Rio.

Por que (ainda) estou no Facebook

Ele me envia imagens dolorosas e me expõe diariamente às ideias de gente que me detesta. Isso não pode fazer bem

IVAN MARTINS
29/03/2017

Durante o Carnaval, recebi pelo Facebook a foto de uma ex-namorada beijando um cara num bloquinho. A história é antiga e não me diz respeito, mas, ainda assim, me incomodou. Eu tinha parado de seguir a moça para evitar esse tipo de informação indesejada, mas o simpático Zuckerberg decidiu agir por conta própria e me enviou a imagem postada por ela no Instagram. Obrigado pela sensibilidade, Mark.

Ao me queixar dessa invasão de privacidade a uma amiga, ouvi uma história pior: ela acabou de se separar, mudou seu status de relacionamento para solteira, mas o Facebook continua mandando lembretes para ela organizar a festa de aniversário do ex-marido. No dia anterior a nossa conversa, teve uma crise de choro pela manhã, ainda na cama, ao perceber essa intromissão dolorosa.

Trago essas histórias íntimas para enfatizar o seguinte: tanto os sentimentos dela quanto os meus foram manipulados por um software que tem acesso a nossas informações pessoais e as usa de forma insensível, com a finalidade de nos tornar emocionalmente dependentes da conexão digital.

Ao estimular e antecipar fofocas, o Facebook explora uma fraqueza humana: temos propensão psíquica a falar demais de nós mesmos e a desejar saber demais sobre a vida dos outros. Sem esses dois elementos negativos o Facebook não existiria. Por que dividir com centenas ou milhares de pessoas momentos de nossa intimidade? Por que gastar nosso tempo precioso espiando com olhos ávidos a intimidade dos outros? O algoritmo amplifica nossas patologias pessoais e as transforma em doença coletiva.

Contaminadas por uma onda que não para de crescer, as pessoas estão se esforçando para produzir comentários políticos cada vez mais agressivos. Quanto mais ofensivo e insultuoso, mais curtidas e compartilhamentos terá o post, e maiores as chances de que você e eu venhamos a ter contato com ele pelo Facebook. É assim que a espiral de intolerância se amplia e se propaga. Graças a ela, chegam a minha timeline coisas que frequentemente estragam meu dia.

(Há debates enriquecedores nas redes sociais e por elas circulam informações e pontos de vista que não teriam espaço em outros ambientes, evidentemente. Mas o que eu vejo e leio todos os dias me sugere que o Facebook serve à propaganda e à polarização, mais do que ao debate saudável das ideias).

Não quero saber o que as pessoas que amei estão fazendo na atual encarnação afetiva delas e nem deveria receber o lixo que gente de cabeça ruim insiste em compartilhar na internet. Pior: aquela caixinha aberta na tela do Facebook 24 horas por dia – “No que você está pensando” – me convida a virar eu mesmo um difusor de ódio, um fofoqueiro ou exibicionista, postando cada troca de roupa, cada prato de comida e cada cena de “felicidade” na praia ou na balada.

Isso não pode fazer bem à alma.

Temos pouco tempo livre, e usamos cada minuto disponível – mesmo o intervalo de um farol fechado – para espiar no celular o que outros ansiosos como nós estão dizendo, mostrando e compartilhando. Já não damos atenção integral ao ser humano sentado a nossa frente à mesa de jantar. Continuamos a navegar nas redes sociais diante dele porque estamos mais conectados às redes que ao mundo real.

Mark Zuckerberg disse outro dia que o tempo de conexão médio das pessoas no Facebook subiu de 40 minutos por dia em 2014 para 50 minutos diários em 2016. Muitos acharam esse número alarmante, eu achei pequeno. Minha experiência pessoal sugere que o tempo que as pessoas passam conectadas no Brasil é bem maior. Elas ficam no Facebook o dia todo: olhando, curtindo, postando e comentando a cada cinco minutos. O tempo que sobra para refletir ou ler um livro deve ter diminuído dramaticamente. Depois a gente se surpreende com a superficialidade reinante nas redes sociais e na vida pública. Não deveríamos.

Digo essas coisas com a autoridade de quem já se percebeu passando o dedo na tela do celular por duas horas seguidas, lendo e curtindo um post atrás do outro. É viciante, e tem algo de nauseante. A vida precisando ser feita, urgentemente, e o sujeito lá, congelado diante do espetáculo da rotina alheia – ou preso ao mosaico de ideias e opiniões contraditórias que passam incessantemente pela timeline. É uma experiência alienante, que nos afasta do essencial e de nós mesmos.

A escritora americana Jennifer Egan aconselhou as pessoas com ambição criativa a ficar longe da internet. Hoje eu entendo perfeitamente o que ela disse.

Como jornalista e observador social, não posso sair do Facebook. Nele estão informações que me ajudam a escrever e nele se concentra uma parcela importante de meus leitores e de meus amigos. É uma contradição inevitável e insolúvel, mas estou determinado a disciplinar minha relação com essa esfinge.

De agora em diante, serão duas entradas breves por dia, apenas para saber o que está rolando e ler o essencial. Talvez uma entrada baste. O tempo é a unidade mais preciosa da vida e eu não quero doar o meu – já escasso aos 56 anos – para uma empresa fazer dinheiro enquanto espalha angústia e confusão em nossa vida, pública e privada.

Schopenhauer - De como viver é sofrer (Parte I)

03/04/2017 por Luciene Félix
“O consolo mais eficaz em toda infelicidade, em todo sofrimento, é observar os outros, que são ainda mais infelizes do que nós.” Arthur Schopenhauer

Em seus escritos “Contribuições à doutrina do sofrimento do mundo”, o filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860) afirma que o sentido mais próximo e imediato de nossas vidas é a dor e o sofrimento, que – sem sentido e puramente acidental – é originária da necessidade essencial à vida.

Ele diz que tudo o que é desagradável e dolorido salta à vista. E isso porque somos dotados de uma espécie de aplicativo que detecta os aborrecimentos muito mais que os prazeres: “Nós não sentimos a saúde do nosso corpo, mas apenas o pequeno local onde o sapato nos aperta (...)”.

Geralmente, não temos por hábito reconhecermos que as coisas vão muito bem, obrigado, mas insistimos no que ainda falta, por mais insignificante que seja, se comparado com o todo. É nisto que se baseia o que Schopenhauer chama de “negatividade do bem-estar e da felicidade” em oposição à “positividade da dor”. Em noventa e nove elogios, uma única crítica é o que destacamos, pois, via de regra, consideramos as alegrias abaixo e as dores, bem acima de nossa expectativa.

Ponderando sobre a negatividade do bem-estar e a positividade da dor, o filósofo salienta que “(…) a maioria dos sistemas metafísicos declaram o mal como algo negativo; enquanto é justamente positivo, o que em si mesmo se torna sensível; pelo contrário o bem, toda felicidade e satisfação, constitui o negativo, ou seja, a simples supressão do desejo e a eliminação de um tormento”.

Schopenhauer nos chama a atenção para o fato de que viver não é fácil: “Parecemos carneiros a brincar na relva, enquanto o açougueiro já está a escolher um ou outro com os olhos, pois em nossos bons tempos não sabemos que infelicidade, justamente agora, o destino nos prepara (..)”. De fato, doença, desemprego, empobrecimento, loucura, traição, abandono e morte, estão mesmo sempre à espreita.

A história comprova que os povos vivem em guerra e que, exceção, a paz é momentânea, passageira. Assim se dá com os indivíduos, sempre em luta constante: “Também contribui para o tormento de nossa existência, o impelir do tempo, impedindo-nos de tomar fôlego, perseguindo todos qual algoz de açoite.”.

No entanto, diz ele, se a pressão da necessidade, dificuldade, contrariedade e frustração das pretensões fossem afastadas da vida dos homens, sua petulância cresceria: “Cada um necessita sempre de um certo quantum de preocupação, ou dor, ou necessidade, como o navio de lastro para navegar de modo ereto e firme.”.

Realmente, trabalho, aflição, esforço e necessidade constituem durante toda a vida a sina da maioria das pessoas, porém –, ele indaga – se todos os desejos, apenas originados, já estivessem resolvidos, o que preencheria então a vida humana, com que se gastaria o tempo?

O filósofo imagina uma situação onde todas as vontades fossem satisfeitas (aves revoassem já assadas, brinca ele) e diz que isso não serviria de palco à espécie humana.

Sendo assim, “Em consequência da relembrada negatividade [no sentido de não se destacar] do bem-estar e do prazer, em contraste com a positividade [no sentido de se fazer notar] da dor, a felicidade de um determinado curso de vida não se estima segundo suas alegrias e prazeres, porém pela ausência dos sofrimentos, como sendo o positivo.”.

Considerando que a sorte dos animais parece ser mais suportável que a do homem, Schopenhauer parte para análise de ambas.

Por mais variadas que sejam as formas sob as quais a felicidade e a infelicidade do homem se apresentam e o estimulam à perseguição ou à fuga, a base material de tudo isto forma o prazer OU a dor corporal: “Esta base [material] é muito reduzida: constitui saúdealimentosproteção do frio e da umidade e satisfação sexual. OU então, a carência dessas coisas.”.

Sendo assim, quanto a prazeres físicos reais, o homem não possui mais necessidade do que o animal. A não ser quando seu sistema nervoso de potência superior amplia as sensações de prazer e/ou de dor: “Mas quão mais poderosas são as afecções nele [no homem] excitadas, comparadas às dos animais! Com que profundidade e intensidade superior é mobilizada sua sensibilidade! Para, por fim, atingir apenas um resultado idêntico: saúde, alimento, proteção, etc.”.

Nossas sensibilidades são mais profundas e intensas que as dos animais porque pensamos! E pensar (no passado, no ausente, no futuro) faz surgir, ou seja, dá existência a preocupação, temor, esperança e esses sentimentos atuam sobre nós com muito mais intensidade do que na simples realidade presente – seja prazerosa ou de sofrimento – na vida dos animais.

Ao animal falta a reflexão (memória, que resgata passado e previsão, que delineia futuro), que é o condensador das alegrias e dos sofrimentos. O animal vive o presente, daí a invejável despreocupação e tranquilidade dos animais, observa o autor.

Mediante a reflexão e o que a ela se prende, desenvolve-se no homem, à partir daqueles elementos do prazer e do sofrimento, um acréscimo da sensação de sua felicidade e infelicidade, que pode conduzir ao encantamento momentâneo ou à angústia mais profunda.

Se observarmos mais de perto, o curso do processo é o seguinte: nossas necessidades, originalmente supridas com apenas um pouco mais de dificuldades do que as dos animais, nós mesmos as ampliamos propositalmente, para assim aumentarmos nosso prazer, donde então, perseguimos as iguarias gastronômicas, o luxo nas vestes, bebidas alcoólicas, tabaco e tudo o mais.

Também por conta de sermos dotados da capacidade de refletir se acrescenta uma fonte a jorrar unicamente para nós, de prazer e, portanto também de sofrimentos que exige atenção desmesurada que é a ambição e o sentimento de honra E também a vergonha, o pudor.

Desses sentimentos surge a importância da nossa opinião sobre a opinião dos outros a nosso respeito [e pensar que nem havia a “régua” das redes sociais!”]: “Esta [opinião dos outros] torna-se, em figuras mil e frequentemente estranhas o fim de quase todas as suas pretensões além do prazer físico ou da dor.”.

Schopenhauer observa: “Embora possua a mais do que os animais ainda os prazeres intelectuais, a permitirem muitas graduações, da brincadeira mais ingênua, ou da conversação, até as realizações espirituais mais elevadas, em contrapartida, do lado dos sofrimentos, se situa o tédio (…), que no homem se configura em verdadeiro algoz, como se vê particularmente naquela multidão lastimável dos que constantemente se preocuparam somente em preencher seu bolso, mas nunca sua cabeça, e aos quais justamente sua abastança se transforma em castigo, ao entregá-los às mãos do tédio mortificante (…), pois, seguramente a necessidade e o tédio formam os dois polos da vida humana.”.

Além disso, diz ele, no homem se associa à satisfação sexual uma escolha obstinada, própria unicamente à ele, que (...) se constitui em fonte de longos sofrimentos e alegrias passageiras.

É admirável como mediante a adição do pensamento, de que carecem os animais, sobre a mesma estreita base [material] dos sofrimentos e das alegrias, de posse comum com o animal, se ergue o edifício tão alto e extenso da felicidade e da infelicidade humana, em relação a que sua disposição emocional está entregue a afecções, paixões e abalos tão intensos, que o cunho dos mesmos se torna legível em traços permanentes sobre seu rosto [traços fisionômicos]; enquanto no que é final e real, trata-se das mesmas coisas que também o animal logra [tem êxito], sobretudo com um dispêndio incomparavelmente menor de afecções e tormentos, afirma o filósofo.

Sob um viés realista, Schopenhauer aponta que “Em consequência de tudo isto, cresce muito mais no homem a medida da dor do que a do prazer, e se incrementa ainda de modo especial por ele saber efetivamente da morte, pois enquanto o animal foge dela [da morte] por instinto, sem propriamente conhecê-la, sem jamais verdadeiramente encará-la, como faz o homem, sempre tendo à sua frente este prospecto.” e isso, sem dúvida, não é de pouca monta. Prossigamos!