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domingo, 30 de setembro de 2012


Distúrbios psíquicos surgidos na adolescência são os mais graves

Mudanças de humor e reações bruscas podem confundir os pais, escondendo sintomas de males como a depressão
De acordo com estudos acadêmicos, a prevalência de doenças psiquiátricas na faixa etária da infância e da adolescência gira em torno de 10% a 15%, e quanto mais cedo os distúrbios se manifestam, mais graves elas são, afirma o psiquiatra e professor adjunto da Unifesp Rodrigo Bressan. Por isso, os pais precisam ficar atentos ao comportamento dos filhos: a alteração do modo de agir tão comum em adolescentes pode nem sempre ser algo tão normal como se pensa.

Reabilitação
Diagnóstico precoce favorece tratamento
O tempo de recuperação para quem sofre de problemas psiquiátricos depende muito do diagnóstico precoce. Por isso, é importante que a família perceba a doença o mais cedo possível. “Quanto antes, mais rápida é a reabilitação do paciente”, declara o psiquiatra João Luiz Martins, da Unidade Intermediária de Crise e Apoio à Vida.
Conforme o psiquiatra e conselheiro fiscal da Sociedade Paranaense de Psiquiatria Marco Antônio Bessa, dependendo do tipo de transtorno e do tratamento, é possível que chegar à cura. “Depressão e ansiedade, por exemplo, se diagnosticadas precocemente e tratadas corretamente, costumam ter resultados bons. Mas, se não tratadas ou tratadas de forma incorreta, o risco de cronificar é muito grande.” Segundo Bessa, um dos grandes empecilhos que dificultam o tratamento adequado é a própria resistência da família em aceitar a situação e procurar um especialista.
Transtornos mentais causam envelhecimento
Distúrbios mentais como a esquizofrenia e o transtorno bipolar, se não tratados corretamente, podem aumentar a chance de a pessoa ter alguns tipos de câncer, problemas cardiovasculares, acidente vascular cerebral (AVC), envelhecimento precoce e diminuição da expectativa de vida. Com base nisso, pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) estão envolvidos em um projeto que, desde 2009, acompanha um grupo de adolescentes com alto risco de desenvolver tais problemas. O objetivo é descobrir a hora certa de agir antes que os transtornos se manifestem intensamente, evitando, assim, situações graves no futuro.
Para isso, a pesquisa está em busca de uma metodologia eficaz para essa prevenção. De acordo com o psiquiatra Rodrigo Bressan, professor adjunto da Unifesp e um dos pesquisadores do projeto, além da utilização de estratégias psicoterápicas, como a redução do consumo de drogas e álcool, a intenção é fazer uso de substâncias neuroprotetoras, que poderiam blindar as células do cérebro e diminuir o risco de manifestação dessas doenças.
Toxinas
Clarissa Gama, profes­so­­ra de psiquiatria na Uni­versidade Federal do Rio Gran­­de do Sul e integrante do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Translacional em Medicina (INCT-TM), ressalta que, além de afetarem a aprendizagem, quando não tratados, os distúrbios são responsáveis por alterar a fisiologia do organismo devido às substâncias tóxicas que liberam durante o surto. “É uma exposição muito grande a processos que aceleram a liberação de tóxicos e, por isso, quem sofre com esses transtornos tem uma expectativa de vida menor e pode desenvolver câncer, problemas do coração e hipertensão”, relata.
Conforme o psiquiatra e conselheiro fiscal da Sociedade Paranaense de Psiquiatria (SPP) Marco Antônio Bessa, situações exageradas de irritabilidade, isolamento social, afastamento da família e amigos são possíveis sintomas de que alguma coisa não vai bem e de que o adolescente está precisando de ajuda. “Se esses sintomas acabam impactando outras áreas, o isolamento ou a agressividade se tornam comuns, é momento de se preocupar”, diz.
Foi o que aconteceu com Vitor*. Quando tinha 17 anos, a mãe, a assistente social Maria*, notou que o isolamento do menino não era comum. Aos poucos, o que seria apenas uma característica da personalidade dele se tornou uma justificativa para que Maria procurasse um especialista, que logo diagnosticou a depressão.
Após oito meses de tratamento com antidepressivos, Vitor se sentiu melhor e resolveu deixar de lado os remédios. Algum tempo depois veio a reação que a família não esperava. Em uma manhã, o adolescente levantou confuso, nervoso e agitado e, com um soco, esmiuçou o vidro da janela do seu quarto. “O soco no vidro foi a primeira reação dele. Depois disso, fui procurar ajuda psiquiátrica, e o médico identificou na hora que meu filho estava com transtorno obsessivo compulsivo e também com sintomas de esquizofrenia. Procurei ajuda imediatamente, logo depois do soco, porque sabia que aquilo não era normal”, relatou a mãe.
Hereditariedade
O soco de Vitor tem ex­pli­cação. De acordo com o psiquiatra da Unidade In­termediária de Crise e Apoio à Vida João Luiz Martins, na maioria dos casos, pessoas com distúrbios mentais não têm consciência de suas reações nos momentos de crise, pois não conseguem perceber que não respeitam limites. Para ele, além de fatores ambientais, como morte dos pais, crises na família, bullying e estresse, o histórico familiar prevalece muito no desenvolvimento de um distúrbio. “Adolescentes com transtorno, muitas vezes, têm casos na família de alguma pessoa com patologia psiquiátrica, depressão, e isso com certeza contribui para que esse adolescente venha a ter um problema também.”
Segundo a psiquiatra e integrante do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Trans­lacional em Medicina Clarissa Gama, filhos de pessoas com esquizofrenia têm 15 vezes mais chances de desenvolver a mesma doença do que os que não têm nenhum caso na família. Vitor pode servir de exemplo para explicar a influência genética na manifestação de problemas mentais, já que Maria sofreu de depressão quando era mais jovem. “Eu tive problemas, sofri de depressão. De uma certa forma, isso me ajudou com o Vitor porque conheço psiquiatras e não tenho preconceito contra os tratamentos. Muita gente acha que quem procura psiquiatra é louco, mas eu sei que não. Já passei por isso e não tive medo de buscar ajuda para o meu filho”, relatou a mãe.

* Nomes fictícios

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Sexo e drogas mancham o Passeio Público

Prostituição e consumo de entorpecentes se tornaram tão comuns no parque mais antigo de Curitiba que nem a polícia se incomoda mais

Mais antigo parque e primeiro zoológico da cidade, o Passeio Público está presente na memória afetiva de gerações de curitibanos em seus 116 anos de tradição. Mas a importância histórica do espaço destoa de sua realidade: hoje, o parque é ponto de tolerância para prostituição e consumo de drogas, principalmente no período do começo da noite até o fechamento dos portões, às 20 horas. A presença de um módulo policial, dentro do Passeio desde 1997, e a sede da Guarda Municipal logo ali, do lado de fora das grades do parque, não inibem essas atividades.

A reportagem esteve por duas noites seguidas no local, encontrando rotinas muito semelhantes. Há uma linha imaginária dividindo o parque: ao longo de seu perímetro, muitas pessoas prosseguem durante a noite fazendo exercícios; caminhar para o interior, no entanto, ganha ares de aventura. Todos os frequentadores mais assíduos da pista de corrida sabem que o banheiro é ponto para negócios de drogas e prostituição, e o evitam.
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Uma prisão em 30 dias
Procurada pela reportagem, a Polícia Militar (PM) não se manifestou sobre uma possível conivência com o consumo de drogas e a prostituição no interior do Passeio Público, tampouco sobre as declarações dadas pelos PMs ouvidos pela Gazeta do Povo. O capitão Luiz Fernando, comandante da 1ª Companhia do 12º Batalhão da Polícia Militar (PM), responsável pela segurança no centro de Curitiba, informou apenas, via assessoria de imprensa, que houve uma prisão em flagrante no Passeio Público nos últimos 30 dias. A detenção ocorreu durante abordagem feita pela PM. A 1ª Companhia fica dentro do Passeio Público, mas realiza operações preventivas em toda a região central, tendo efetuado 43 prisões no mesmo período por roubo, furto e tráfico de drogas.
Frequentadores dizem evitar o parque perto do horário de fechamento
A analista de recursos humanos Joceli Bertoja gosta de fazer exercícios no Passeio Público pela proximidade de sua casa. Ela afirma que às vezes se assusta ao ver o “pessoal fumando”, mas desenvolveu uma técnica simples para evitar transtornos. “Quando sinto alguma coisa estranha, saio de perto”, diz. O profissional de saúde Igor Menezes afirma que só sente desconforto no parque perto do horário de fechamento, pois o número de usuários de drogas cresce. Menezes diz que há sensação de segurança perto do módulo da PM, mas só viu uma vez os policiais fora de seu posto, numa revista. “Foi bom ver gente de terno e gravata, teoricamente não ‘revistável’, sendo checada”, diz.
Já a advogada Renata Fonseca vai ao Passeio Público todos os dias para correr, mas busca sair sempre antes do sol se pôr. “À noite, é muito intimidador. Os policiais ficam no posto, mas a gente não vê rondas”, diz.
Curiosamente, a maioria dos esportistas noturnos declarou à reportagem não se sentir insegura ou incomodada, apesar de todos já terem visto evidências de prostituição e consumo de drogas. O clima de “eu aqui, eles lá” foi assimilado pelos frequentadores, que seguem correndo e buscam ignorar o que se dá para dentro do parque. Nenhum dos entrevistados afirmou já ter sido roubado no local.
Esse processo de acostumar-se com os hábitos internos do Passeio chegou à própria Polícia Militar. Sem se identificar, a reportagem perguntou a um policial se os exercícios noturnos não eram perigosos, tendo em vista a presença evidente de usuários de entorpecentes. A resposta veio com naturalidade: “Ah, eles são praticamente patrimônio do Passeio Público. Mas pode andar tranquilo, não fazem nada, não temos problemas de roubo”. Ouvindo a conversa, um colega policial complementou espontaneamente: “Eles quase moram aqui dentro. Tem muita prostituição também, mas não há perigo”.
Senha
A partir do entardecer, o simples ato de contemplar alguma das aves nas gaiolas do parque é visto como senha. Invariavelmente, em segundos aparecerá alguma mulher com uma proposta do tipo “quer um programinha?”.
Também é fácil notar vários homens sozinhos, fixos em determinados pontos do interior do parque. A impressão do que se convencionou chamar de “atitude suspeita” é reforçada quando se percebe um processo repetitivo: alguém aborda o homem solitário, os dois saem caminhando para um local afastado, e logo o primeiro volta fixo a seu ponto.
Sem rondas
Não se nota nenhum homem da PM andando no interior do Passeio Público – pelo menos não uniformizado. Até onde se vê, os agentes permanecem em seu posto, eventualmente saindo em viaturas para atender algum chamado externo.
Um agente da Guarda Municipal afirmou que constantemente tem de entrar no Passeio Público para fazer apreensão de entorpecentes – “principalmente maconha” –, porque a PM não costuma se ocupar de denúncias sobre drogas no parque. Segundo o agente, a polícia tem por hábito encaminhar os denunciantes à Guarda, aproveitando a proximidade da sede, na Rua Presidente Faria.

Revitalização do espaço está engavetada

A última reforma do Passeio Público aconteceu em 2009, quando o local ganhou um complexo veterinário e um sistema de filtragem da água dos lagos. No mesmo ano, o Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc) elaborou um projeto de revitalização total do parque, admitindo que “a crescente sensação de falta de segurança que afeta os moradores das grandes cidades vem afastando antigos e tradicionais usuários do Passeio”. A ideia, no entanto, permanece engavetada.
Um resumo do projeto ainda está disponível para consulta no site do Ippuc. O texto prevê a criação de um Museu de História Natural dentro do Passeio, além de novas plantas, uma casa de chás, uma praça de concertos, um jardim temático contando a história do Paraná e uma cancha polivalente, entre outras reformas.
O Ippuc infomou que esse projeto está desatualizado e passa atualmente por uma revisão. Não há previsão para que a revitalização seja efetivada, tanto por falta de recursos quanto por ainda não ter havido diálogo com o Patrimônio Histórico, que precisa aprovar qualquer alteração no Passeio Público.

Crise do euro afeta mercado do sexo

Percalços da economia europeia reduzem fluxo de pornoturistas na costa brasileira. Expectativa é de que a Copa reaqueça o setor

A crise econômica na Europa está afetando o mercado do sexo no Brasil. As queixas se repetem ao longo dos calçadões à beira-mar no Rio de Janeiro, Recife, em Fortaleza, Salvador e Natal. Nessas cidades com histórico de turismo sexual, a Copa de 2014 tornou-se a aposta de reaquecimento do mercado do sexo. “Se o turista que vier para a Copa gostar do que vir, ele vai voltar”, diz esperançosa uma garota de programa que faz pista na Praia de Iracema, em Fortaleza.
“Ultimamente, rapaz, de dois anos para cá, tá bem fraco. Acho que é por causa da crise. Vinha mais italiano, espanhol. Lá tá na crise também, né? A não ser aquele rico mesmo, mas rico não vem pra cá”, queixa-se um vendedor ambulante de Natal. “Caiu bastante o movimento de estrangeiro. Tem, mas não como antes”, destaca. “Nos anos 2005, por aí, dava muito norueguês, sueco. Aí era mais família mesmo. Já os italianos, espanhóis, era mais putaria mesmo”, conclui o ambulante.
Sexo virtual
Sites promovem turismo sexual e redes sociais facilitam os contatos
A exploração sexual vem ganhando novos contornos com a configuração e organização de novas redes que se articulam para se expandir. Novas tecnologias como a internet possibilitam contato rápido e eficiente, permitindo a formação de um amplo e complexo mercado que, como tantos outros, possui uma versão lícita e outra ilícita. Por meio das redes sociais, o turista sexual chega com as informações de que necessita. “Os gringos dão uma olhada em alguns sites de garotas e já vêm com os contatos. Aí, ligam para um taxista buscar a garota e levar para o hotel”, diz um taxista de Fortaleza.
O governo brasileiro tem rastreado sites que promovem o país como destino de turismo sexual. Duas mil páginas que associavam o país à pornografia e à prostituição tiveram de alterar ou remover o conteúdo após notificadas. Algumas divulgavam “pacotes de viagens” no Brasil que incluíam oferta de “duas garotas por noite”, enquanto outras ofereciam fotos ou encontros com menores de idade. A maioria se apropriava da marca do Ministério do Turismo e de programas como o “Turismo Sustentável & Infância” e o “Viaja Mais Melhor Idade”.
Dois terços das páginas estavam hospedadas nos Estados Unidos, embora este não seja necessariamente o país de residência dos responsáveis pelos sites. Apenas uma entre 10 páginas notificadas estavam em computadores brasileiros. Essas páginas afetam negativamente a imagem do país, que neste ano investirá R$ 183 milhões em propagandas e iniciativas para associar o Brasil a conceitos como diversidade cultural, atrativos naturais, praias e culinária.
Serviço
O projeto que deu origem a esta reportagem, iniciada no domingo e que segue até amanhã, foi vencedor da Categoria Temática Especial do 6º Concurso Tim Lopes de Jornalismo investigativo, realizado pela Andi e Childhood Brasil (Instituto WCF), com apoio do Unicef, da OIT, Fenaj e Abraji.
Só italianos
“Italianos, principalmente, 70% vêm atrás de mulher. Vêm só por causa de mulher”, diz um dono de pousada em Ponta Negra, a praia mais badalada de Natal. “Mês de agosto é férias na Europa. Tinha muito estrangeiro, agora não tá vindo porque o euro tá fraco, quer dizer, ele é mais caro que o real, mas o real fortaleceu”, avalia. “Quando o euro era R$ 3,80 [diferença entre as moedas], enchia de estrangeiro aqui. Enchia mesmo. O pessoal que vem aqui é tudo assalariado. Padeiro, marceneiro, pedreiro”, diz. “Tinha um que varria rua na Holanda.”
“Quando abri a pousada, em agosto quase não pegava casais. Em cada quarto tinha um italiano. Eles ficavam 25 dias. À noite, cada um trazia uma mulher”, conta o dono do estabelecimento, de 10 suítes. “No outro dia ele vinha com outra, no outro dia era outra, no outro dia era outra. Só sei que enchia a pousada. O cara ficava 20 e poucos dias. Eu não pegava casais, porque casais sabe como é que é, né?”, comenta, em meias palavras.
Os reflexos da crise europeia são sentidos também em outras cidades da costa Nordeste com histórico de turismo sexual. Em Fortaleza, um turista quis levar para a Itália o garoto de programa com quem passou os dias de estada na cidade. Cauê, que recém completou 18 anos, não aceitou a proposta do advogado italiano de 35 anos por causa da crise econômica na Europa. “Fiquei com medo”, admite o michê.
Rave e a filha Lua, que fazem programas sexuais com turistas estrangeiros na praia da Barra, em Salvador, passaram uma temporada no Rio de Janeiro acreditando que lá a profissão seria mais rentável. “O que a gente foi procurar em Copacabana a gente não encontrou”, explica Rave. Havia poucos turistas e muita concorrência. Ao longo do calçadão de Copacabana também são comuns as queixas de que a crise do euro reduziu o fluxo de pornoturistas.
Mãe conduz filha atrás de gringos
Lua tinha 6 anos quando começou a ver a mãe se pintar para sair à noite. Encantava-se vendo-a marcar os lábios em escarlate, o perfume invadir a atmosfera, o rubor artificial da bochecha. Nutria por ela tal admiração que toda a aglomeração dos vícios parecia-lhe a mais tenra virtude, embora não soubesse ainda distinguir uma coisa de outra. Idêntica consideração não teve pelo pai ao tomar ciência dos acontecimentos.
A mãe, Rave, entrou na prostituição aos 26 anos, abandonada pelo companheiro quando nasceu o quarto filho, uma menina que hoje conta 13 anos. “Ele me largou com cinco dias de parida”, recorda. Sentia-se presa a uma persistente desesperança, e outros fatores concorriam para empurrá-la às ruas. “A necessidade me obrigou a entrar nisso, e tô até hoje”. Começou fazendo pista nas esquinas de Salvador, até descobrir um meio mais lucrativo em praias e boates frequentadas por turistas estrangeiros.
“No verão, trabalho só com gringo, não quero saber de brasileiro”, esnoba. As mesmas amigas mostraram o caminho também à filha. “Comecei com 16”, diz Lua. “Mas não totalmente com 16. Começou a oficializar agora, com 18”, intercede a mãe. “Por ela ser menor de idade, muitas pessoas temiam. Quando pintava, não tinha opção e ela acabava indo”, explica.
Mundo melancólico
Lua até poderia ter-se deixado levar pelo glamour da noite e da vida sem regras, mas não foi o caso. Aceitou as condições como escape ao melancólico mundo da mãe, com a qual vivia dias economicamente instáveis. Pôs-se em sacrifício para salvar a si e à mãe ao aceitar as ruas como meio de vida. Compelida a deitar-se com homens pelos quais não sente qualquer consideração, consome as horas na vaga esperança de encontrar um gringo para se casar.
Rave esteve perto desse sonho. Conhece sete países, por meio da internet. “Um ano fiquei fixo na Alemanha e três anos em outros países. Tem mais ou menos uns dois anos que não viajo. Não sei, mas talvez eu faça a Suíça agora”. A esperança está num suíço que Rave conheceu há pouco no Rio de Janeiro, onde foi tentar a sorte num período de baixa temporada em Salvador.
“A gente ficou junto 15 dias. Foi um programa mesmo, um programa no qual eu ficava com ele todos os dias, e ele me pagando. Ele gostou de mim e falou: ‘Eu quero levar você pra Suíça’. Eu disse ‘tá bom’”. Na noite em que conversou com a reportagem, na orla da Barra, em Salvador, Rave aguardava contato do suíço que recém voltara ao seu país.
Lua esteve com a mãe no Rio, em Copacabana. A concorrência era grande, voltaram. Sobre a filha seguir seus passos, Rave não se importa. “Não era o que eu queria pra ela. Mas o que eu posso fazer, né? Tem que apoiar e ensinar o que aprendi”. Os primeiros programas da menina foram agenciados por taxistas e cafetões, depois pela própria mãe. “Os mesmo com quem ela saiu, eu saí também”, diz Rave.
“Em hotel eles [turistas] pedem muitas garotas. Se não conseguir no próprio hotel, eles vêm à Barra e conseguem por conta própria, chegam lá pagam a hospedagem da garota. Mas se for indicado, eles dão uma gorjetazinha e tudo certo.” Foi assim que Lua, aos 17 anos, ficou uma semana num hotel de luxo com um prefeito do interior da Bahia. “Se ele é o homem do pacote, vai ter problema? Não vai ter problema nenhum”, diz Rave.
“Juntas, a gente nunca fez. Agora, se o cliente quiser trocar, nós troca”, garante a mãe. “Tem muitos que pedem”, completa Lua. “Mas no dia que bater a loucura, vai ter que pagar um preço muito alto, porque eu vou meter uma cachaça na cabeça e no outro dia não vou lembrar de nada. Mas eu vou pedir um preço muito alto por esse fetiche”, adianta Rave. “Se for pra me beneficiar com isso eu vou me beneficiar, vou explorar sim, não penso duas vezes.”
Uma família de papel
Branca e Paloma não sabem ler nem escrever. A tragédia das irmãs pernambucanas recheia dois processos de seis volumes na 2ª Vara da Infância e Juventude de Recife. O clássico jurídico de 1,3 mil páginas por elas protagonizado relata a severidade das circunstâncias que as levaram a crescer ausentes de cuidados, forjando as condições que as puseram na sarjeta. A maturidade, que no mais das vezes é obra de uma vida inteira, cobrou precocemente as travessuras de infância. E a pátina do tempo reivindicou no corpo a idade que ainda não viveram.
A história de Branca e Paloma retrata um drama brasileiro, tão triste quanto recorrente. A família toda escapou ao radar do Estado, ainda que os sinais fossem aparentes. Pai e mãe analfabetos. Ele, alcoolista, foi preso pelo abuso sexual de Branca. A mãe, atestada com déficit cognitivo, consegue uns trocados lavando roupas. Os seis irmãos, entre 11 e 21 anos, tiveram alguma vivência de escola, mas não o aprendizado. A evasão escolar levou-os à perda do Bolsa Família.
Branca, uma das 80 meninas resgatadas das ruas pelo gestor da Gerência de Polícia da Criança e do Adolescente (GPCA), delegado Zanelli Gomes Alencar, era submetida à exploração sexual. Primeira a ser explorada, Paloma levou a irmã quatro anos mais nova. Foi dessa forma, infeliz e tardia, que a família veio a lume. Dos outros três irmãos, o menino de 15 anos já cumpriu pena em regime semi-aberto. O mais novo, de 10, exibe revolta e agressividade só vista em gente grande.
As irmãs entraram na rede de proteção à infância por meio do Conselho Tutelar e do Instituto de Ação Social e Cidadania. Branca contava 9 anos; Paloma, 13. Recolhidas sempre no mesmo local, acabavam voltando. Ao chegar à Vara da Infância e Juventude, já haviam passado por vários órgãos da rede de proteção, que fracassa não só porque tem pouca estrutura, mas porque não há diálogo entre suas partes. A prova dessa desarticulação está nas 1,3 mil páginas do processo da família, instaurado em 2010.
Em 2008, a família foi transferida pela prefeitura de uma favela na zona norte de Recife para um conjunto habitacional, quando as crianças já viviam nas ruas. Livrou-se do esgoto a céu aberto, não da influência do narcotráfico, que cooptou três dos seis filhos.
Com asma crônica, Branca deu entrada 14 vezes no mesmo hospital desde 2008, até ser recusada em 8 de fevereiro deste ano. Acionado, Zanelli pediu na Justiça a internação compulsória, e a menina passou a viver no hospital. Não fosse essa medida extrema, Branca seguiria o caminho da irmã, que recém completou 18 anos e escapou às investidas da rede de proteção. Vive nas ruas.

Festa nos flats

Em cidades-sedes da Copa de 2014, pornoturistas estão recorrendo a flats, casas, motéis e apartamentos para fazer orgias com adolescentes

Como alternativa ao controle da hotelaria, turistas estrangeiros estão recorrendo a casas, flats, motéis e apartamentos em condomínios residenciais para fazer festas movidas a sexo e drogas com michês, adolescentes e prostitutas adultas. Recorrente em Fortaleza, a prática do aluguel de imóveis por temporada é comum também no Rio de Janeiro e em Natal. Na Avenida da Abolição, em Fortaleza, a duas quadras da praia, um flat costuma facilitar as coisas para os hóspedes em busca de sexo fácil, conforme constatou a equipe da Gazeta do Povo em dois dias hospedada no lugar.
Meninas vivem a ilusão de casar
“Onde tem turista, onde tem gringo, sempre vão as meninas. Porque sempre tem aquela ilusão de que o estrangeiro tem muito dinheiro, aí elas vão na ilusão de ganhar dinheiro”, diz um taxista de Fortaleza acostumado a transportar pornoturistas. Há um forte componente cultural dos dois lados: a menina vê o gringo como uma loteria e o gringo a vê como objeto sexual. Elas, na esperança de serem içadas do fosso de injustiças em que estão metidas, veem nessa furtiva aproximação a possibilidade de uma vida estável. Firmam um compromisso verbal sem garantia de que possam vir a ter algum direito.
Palpita dentro delas o desejo de se dar bem, a hipótese de uma vida melhor. Precoces, começam cedo a compreender o dinheiro como o eixo sobre o qual giram todas as coisas. Quanto mais teriam de esperar para, por outros meios, alcançar a vida igual da televisão? São jovens ainda, e, a depender das vias normais, pouco conseguiriam. Sem contar com o que poderia ser uma boa herança, precisam confiar no que conseguem por contra própria.
Casamento branco
Lua retrata o perfil dessas garotas sonhadoras. Intro­duzida aos 16 anos pela mãe no turismo sexual de Salvador, cresceu alimentando a ilusão de se casar com um gringo. Mas tem de ser um suíço ou um italiano, diz ela, hoje com 18 anos. “Essas meninas acham que só vão ganhar o reconhecimento se se casar. Mas não pode ser um marido qualquer. Tem de ser um homem branco; se for estrangeiro, melhor”, diz a advogada e especialista em direitos da infância Jalusa Silva de Arruda. Para ela, um reflexo da hipervalorização da pele branca.
Nessa longa espera, como que para destilar a solidão, e na tentativa de assimilar as frustrações, refugiam-se na bebida e outras drogas. O álcool e o crack obliteram a mente, num despiste aos dias lentos, cheios de ansiedade e temor. Vencidas pela inabilidade no trato de questões que poderiam tê-las colocado em melhor posição, seguem desoladas o desenrolar das frases sempre iguais dos clientes, cuja inflexão da voz revela homens já gastos em anos. A transição do tempo se faz lenta, cansativa, mas os dias chegam indiferentes às tragédias particulares, e vão acentuando um sutil traço calculista.
No avançar dos anos, já cordadas, desprovidas de ambição, contentam-se com a privação da desgraça sem aspirar à ventura. Acham até que não ser desgraçada é o mesmo que ser venturosa. E, se entre uma coisa e outra há um estado neutro, contentam-se com seu estado, ainda que propenda para a desgraça; contanto que não seja desgraça inteira, a sombra da ventura já basta. Basta porque nunca tomaram gosto do contrário, e conservar-se na ignorância da ventura é discreta providência. Consolam-se supondo que não ter merecimento para melhor sorte não é pecado seu, é culpa da natureza avara.
Serviço
O projeto que deu origem a esta reportagem, iniciada ontem e que segue até quinta-feira, foi vencedor da Categoria Temática Especial do 6º Concurso Tim Lopes de Jornalismo investigativo, realizado pela Andi e Childhood Brasil (Instituto WCF), com apoio do Unicef, da OIT, Fenaj e Abraji.
Neste flat, a Polícia Federal prendeu em 2011 o italiano Fran­­­­cesco Salzano, 38 anos. Pro­­­­cu­­rado pela Interpol, ele era membro da máfia da Camorra. Cinco anos antes, seis italianos haviam sido presos no lugar acusados de exploração sexual, tráfico de dro­­gas e uso de documentos falsos. Eles promoviam festas à noite num dos apartamentos do flat. Numa delas, adolescentes foram violentadas. Embora haja portaria com recepcionista, não há contro­le sobre a idade ou a iden­­tidade das acompanhantes dos hóspedes.
A mesma facilidade é encontrada em outros meios alternativos de hospedagem. Conhe­­cido pelos personagens da noite em Fortaleza, o edifício Porto de Iracema se sobressai entre os condomínios residenciais procurados pelos turistas que buscam privacidade para suas festas sexuais. “Ali é uma prostituição só”, diz um taxista que já levou muitos passageiros ao condomínio. “Um porteiro me falou que tem noite, alta estação, de entrar 150 garotas lá. Numa noite só!”, exclama.
Como estão em férias e não veem fiscalização, alguns extrapolam. “Como os gringos fazem muita baderna, já aconteceu de eles fazerem muita orgia na piscina, os moradores começaram a reclamar com a polícia, daí começou a aumentar um pouco a fiscalização”, observa o taxista. “Muito raro ter prisão porque geralmente a polícia não pode entrar. No máximo, a polícia pergunta o que aconteceu, aí fica o disse por não me disse.”
A maioria dos proprietários é de estrangeiros, que compram apartamentos e alugam por temporada. A maioria é de origem italiana, mas há ainda alemães e noruegueses. “Eles deixam na mão de agenciadores que alugam para outros gringos, o ano todo”, explica o taxista. A prática é mais frequente em agosto, dezembro e janeiro. O aluguel de curto prazo compensa para os turistas porque os hotéis cobram diária à parte da garota de programa e, ainda que nem todos, a maioria exige comprovação de que não se trata de menor de idade.
Desde os 14 anos, Cauê ­­­participa de festas em casas e apartamentos alugados por estrangeiros em Fortaleza. São dias de muita bebida, drogas e sexo. Vários turistas e garotos e garotas de programa compartilham o mesmo ambiente. A última festa foi há dois meses. Motéis de Fortaleza também são usados pelos pornoturistas para burlar o controle dos meios convencionais de hospedagem.
O michê Leonardo tinha 16 anos quando passou uma semana trancado num motel com turistas do Rio de Janeiro. “Fui na segunda-feira, retornei no sábado. Descansei em casa, minha mãe preocupada, querendo conversar. Eu disse que não tinha tempo”, relata. Acordou domingo à tarde, dor no corpo, febre alta, espirrando sangue. “Minha gripe parecia incurável, devido ao tempo que passei cheirando cocaína”.
No Rio de Janeiro, estrangeiros já chegam com as informações sobre um bar na orla de Copacabana onde podem encontrar garotas de programa. Por isso, procuram alugar apartamentos por temporada nas imediações. A reportagem seguiu um desses turistas até um edifício residencial a três quadras da orla, acompanhado de uma garota bastante jovem que recrutou nas imediações do bar.
Vítima em dobro

Exploração sexual nem sempre é vista como crime contra a criança

Que pode dizer o cidadão sobre a exploração sexual de crianças e adolescentes? De que vértice se posiciona para observar e pensar o problema? Qual o seu lugar frente a temas que convocam o mais extremo e radical da desonra e do desumano? O mais cômodo para cada um – em geral o caminho preferido pela maioria – é dizer não ser a pessoa competente e tampouco mais adequada para explorar o problema, é dizer que não tem nada com isso e se calar. O caminho da prescindência, postulado por alguns e praticado por muitos, implica pensar que o cidadão não tem nada a dizer sobre questões que lhe dizem respeito.
A exploração sexual infanto-juvenil escapa aos olhos como crime ou violência, daí a escassez de denúncias. E assim a infância é duplamente vítima, do crime per si e de uma sociedade que se comporta como um Argos Panoptes cego de 100 olhos. “As denúncias são raras porque as pessoas acham que as meninas estão ali porque querem”, diz a conselheira tutelar de Natal Thaysa Rodrigues de Oliveira. A falta de preparo de quem recebe a denúncia, ou falta de compreensão do que seja turismo sexual, também mascara as estatísticas, ainda que não haja quem não saiba ser crime manter relações sexuais com criança e adolescente.
Um julgamento precipitado poderia lançar sobre elas uns quantos olhos de preconceito, como se ali estivesse a síntese do descarte humano. Dificulta também o fato de elas não se verem como vítimas, de não se sentirem exploradas. E os argumentos são de uma inocência que tornam mais difícil o trabalho de convencê-las do contrário. “Tia, ele não tá me usando, não. Ele paga, esse panaca”, disse uma menina de 14 anos à psicóloga da 2ª Vara da Infância e da Juventude de Recife, Danielle Maria de Souza Sátiro.