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quarta-feira, 31 de julho de 2013

Mercado de trabalho ainda não está preparado para pais participativos

Heloísa Noronha
Do UOL, em São Paulo

As mulheres estão trabalhando mais do que nunca –muitas até bem mais do que os homens, se considerarmos que boa parte dos cuidados com a organização doméstica e os filhos ainda cai exclusivamente sobre os ombros femininos.

Por conta dessa rotina atribulada, mas também porque não são poucos os que desejam ter uma participação mais ativa nos assuntos relativos à própria família, muitos homens têm se assumido tarefas e programas incomuns aos colegas das gerações anteriores. Exemplos: reuniões com professores, festinhas, consultas médicas e outros compromissos relativos à vida dos filhos.

Dependendo da função, do nível de responsabilidade, do local de trabalho ou da carga horária da mulher, é o homem quem, no meio da tarde, precisa sair correndo para buscar a criança que se machucou ou está ardendo em febre na creche. Nada mais normal, já que a divisão de contas e, consequentemente, de tarefas e obrigações entre um casal é a realidade de muitos lares.

"De uns vinte anos para cá, está acontecendo uma mudança de comportamento nos homens. Eles perderam o poder de serem os únicos provedores da casa e começaram a assumir um novo papel dentro do contexto familiar, tendo que aprender a lidar com situações que não eram de sua responsabilidade", afirma Viviane Mourão, diretora da empresa Meta&Vida Desenvolvimento em RH.

Essa nova realidade começa a se refletir na vida profissional, algo há muito tempo peculiar às mulheres. Em um ambiente conservador, é difícil para um homem dizer para o chefe: "Preciso ir, minha filha está passando mal" ou "amanhã vou chegar mais tarde porque tenho reunião na escola do meu filho". Porém, o homem precisa aprender a negociar e assumir uma parte da tradicional segunda jornada da mulher que é mãe.

Segundo Vitor Morgensztern, professor na área de pessoas, gestão e relacionamentos do MBA da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing) de São Paulo, cada empresa tem uma cultura organizacional implícita a ser seguida. Mas, se o funcionário tiver certeza de sua competência e seu profissionalismo, por que não questioná-la quando uma necessidade pessoal tiver de se sobrepor ao trabalho?

"É necessário desenvolver a coragem e dizer ao chefe o que quer, quebrando o paradigma de que quem cuida dos filhos é a mulher", diz Vitor. Para o especialista, as duas partes do casal devem ter uma clara escala de valores que os ajudem a decidir se devem ir à primeira apresentação de teatro da criança, por exemplo, ou à reunião com um importante cliente. A convicção de suas escolhas, sem negligenciar as responsabilidades, certamente ajudará a argumentação na negociação.

Sensibilidade e empatia
Vitor Morgensztern explica que não existem empresas preparadas ou despreparadas para lidar com as questões pessoais de seus colaboradores e as novas configurações e necessidades familiares. O que existem são pessoas mais ou menos preparadas, e por isso ele acredita que a mudança deve mesmo partir dos próprios funcionários.

Uma das tendências de comportamento que deve permear as relações profissionais nos próximos anos são as chamadas "soft skills", expressão que reflete a capacidade de se relacionar com o outro, de ouvir, falar, aconselhar, perdoar. De ter sensibilidade para as situações do cotidiano, do escritório, da vida.

Para Maria de Lurdes Zamora Damião, professora e psicopedagoga da Fecap (Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado), de São Paulo, a sensibilidade é o principal valor a ser construído e até mesmo dar novo significado às relações de trabalho. "Quando o profissional mostra-se humano, empático e envolvido com os colegas, colaboradores ou pares, essa disponibilidade possibilita construir parcerias e relacionamentos produtivos", afirma.

Na opinião de Ylana Miller, sócia-diretora da Yluminarh e professora de gestão de carreiras da faculdade Ibmec, no Rio de Janeiro, o exercício de conciliar a vida profissional com a pessoal pode ser tornar um diferencial na carreira masculina, principalmente para aqueles que desejam galgar posições de comando. "Chefes que valorizam a qualidade de vida demonstram empatia e interesse genuíno pelas pessoas, além de influenciá-las positivamente. Ao partilharem emoções constroem relações mais verdadeiras e profundas", declara. 

Peso do estigma
Em curto prazo, no entanto, Ylana afirma que o ambiente corporativo ainda não é receptivo nem maduro para lidar com as necessidades de seus colaboradores que têm filhos (e que ajudam a criá-los). "Culturalmente se associam às mulheres os papéis de mães e protetoras. É algo natural vê-las ocupar suas agendas profissionais com atividades relacionadas à família. Homens ainda são minoria em eventos familiares que acontecem durante o horário de trabalho e, em geral, têm vergonha de se expor", diz.

Para Daniela do Lago, coaching e professora dos cursos de MBA da FGV (Fundação Getúlio Vargas), de São Paulo, o assunto envolve um paradoxo. Apesar de ser tido como algo natural e até previsível uma mulher deixar o escritório para resolver um assunto de família, sua atitude pode ser encarada como falta de compromisso pelos colegas. "Já o homem que encerra o expediente mais cedo para buscar o filho é visto como uma exceção digna de admiração. As pessoas na empresa imediatamente o consideram um excelente pai, um exemplo de marido, um ótimo funcionário", diz Daniela.

É bom frisar que os elogios são ocasionais. "Os homens que se ausentam do trabalho para cuidar de assuntos pessoais, ainda que emergenciais relacionados à família, mulher ou filhos, ainda são estigmatizados por seus chefes e, muitas vezes, pelos próprios colegas –que podem, amanhã, precisar passar exatamente pela mesma situação", explica Verônica Rodrigues da Conceição, docente do Executive MBA da BSP (Business School São Paulo). Ela declara que existem louváveis casos de empresas vanguardistas, que pregam e preparam a liderança para praticar uma política de igualdade entre homens e mulheres e até a estimulam. Porém, por enquanto, esses casos ainda são raros. 

As novas gerações devem possibilitar a efetivação de uma nova ordem –na sociedade e no ambiente de trabalho– em que os valores humanos sejam mais apreciados, aceitos e praticados, e em que os homens possam, naturalmente, escolher e realizar tarefas e participar de atividades que, antes, seriam automaticamente designadas às mulheres.

"A realidade está mudando, pois a individualidade dos profissionais está cada vez mais em evidência, e as questões pessoais fazem cada vez mais parte do universo corporativo. Dessa forma, acredito que ainda muitas barreiras precisam ser quebradas não só por parte dos homens, mas também das mulheres, para que essa realidade seja encarada de forma mais saudável e com menos preconceito dentro do ambiente profissional", afirma Fernanda Schröder Gonçalves, coordenadora do departamento de Carreiras do Ibmec de Minas Gerais.

Quem não se comunica, se trumbica: você sabe se expressar bem?

Marina Oliveira e Rita Trevisan
Do Uol, em São Paulo
Ser objetivo é a principal dica para ser bem compreendido. Além disso, é importante investir na capacidade de perceber e ouvir as pessoas
Thinkstock
Ser objetivo é a principal dica para ser bem compreendido.
Além disso, é importante investir na capacidade de perceber e ouvir as pessoas
Vivemos em plena era da informação. O que não significa que nos comunicamos mais nem melhor. "Se partirmos da etimologia da palavra, comunicar seria tornar comum, compartilhar. E isso é algo que nem sempre alcançamos nos nossos relacionamentos", diz João José Azevedo Curvello, doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo e responsável pelo programa de mestrado em Comunicação da Universidade Católica de Brasília. 

Para o especialista, embora a tecnologia tenha permitido reduzir distâncias físicas e afetivas, ela também trouxe novos obstáculos à comunicação. "Em alguns casos, a tecnologia e o excesso de informações contribuem para um maior isolamento", diz Curvello, que passa a descrever o "absenteísmo presente", fenômeno em que pessoas, embora fisicamente presentes, ficam absortas seus telefones ou tablets e parecem mentalmente desconectadas umas das outras e do ambiente.

A boa comunicação pressupõe um cenário absolutamente inverso e tem como objetivo primordial conectar os indivíduos, permitir o entendimento e o aprendizado mútuos. "A mensagem precisa chegar ao outro e ser compreendida. Ao interlocutor, não basta ouvir, ele tem que atribuir sentido ao que ouviu, para poder participar da conversa", explica Curvello.

Parece simples, mas não é. E um dos maiores desafios de quem deseja passar um recado, independentemente do conteúdo, é ser objetivo. "Nas culturas latinas, temos o hábito de primeiro argumentar para só depois dizer o que realmente importa. É exatamente o oposto do que observamos nas culturas anglo-saxônicas, por exemplo. Perdemos muito tempo nos preâmbulos e isso pode atrapalhar a comunicação, tornando a mensagem confusa", observa o especialista.

Porém, para dizer de forma clara e simples o que se deseja, sem enrolação, é preciso saber exatamente os resultados que se pretende alcançar com determinado diálogo, antes mesmo de iniciá-lo. 

Também é essencial perceber o outro, saber ver e ouvir. É isso o que permite organizar um discurso assertivo. "É preciso considerar quem está do outro lado e estabelecer uma ponte de contato com ele", diz Reinaldo Polito, professor de Competência Verbo-Gestual no curso de pós-graduação da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo. Polito explica que é comum pessoas com pouco conhecimento causarem uma impressão melhor do que outras que possuem muita informação, mas não sabem como expressá-la. "O fundamental é conseguir chegar no nível de entendimento do outro", afirma.

Encontrar o equilíbrio entre o momento de falar e o de calar é, seguramente, um outro grande desafio . "Algumas pessoas são agressivas demais e cometem erros como o de interromper o interlocutor antes de deixá-lo concluir a sua linha de pensamento. Outros são muito passivos e não conseguem expor seus argumentos de forma incisiva", observa Eduardo Ferraz, consultor em Gestão de Pessoas.

Sucesso exige dedicação e persistência
Para encontrar o meio termo e usar a palavra para aproximar e reter a atenção das pessoas é preciso dedicar-se. E, muito embora alguns já nasçam com o dom da comunicação, é perfeitamente possível desenvolvê-lo. Eunice Mendes, comunicadora e coautora do livro "Falar Bem É fácil" (Editora AGWM), diz que a comunicação deve ser aprimorada dia a dia, em todos os diálogos que estabelecemos. Segundo ela, uma boa maneira de saber se suas habilidades de comunicação estão OK é perguntar para as pessoas com quem você fala todo dia -pedir um feedback mesmo. 

Em geral, entretanto, deve-se ter cuidado com o tom de voz, a pronúncia correta das palavras, o uso de vocabulário adequado e a velocidade com que se expressa as ideias. Igualmente importante é construir uma fala concisa, com argumentos consistentes, evitando gírias ou vícios de linguagem. Quem presta atenção a esses detalhes tem muito mais facilidade de se relacionar, à medida que consegue expressar exatamente o que sente, suas necessidades e desejos. 

Além disso, é importante investir na capacidade de perceber e ouvir as pessoas. Assim, também ficará mais fácil compreender quais os anseios de quem está do outro lado. "A boa comunicação nos aproxima das pessoas, nos conecta e ainda contribui para diminuir muito os conflitos da convivência", garante Eunice.

A comunicadora acrescenta que no campo profissional também sai ganhando quem tem o que dizer e sabe como compartilhar seus pontos de vista. "Hoje mais do que nunca as organizações buscam profissionais que sejam competentes tecnicamente, mas que também tenham habilidades de comunicação e expressão", afirma. Eunice ressalta que as pessoas terão que trabalhar em equipe e liderar utilizando a inteligência emocional. "Em outras palavras, é por meio do diálogo que eles deverão criar um ambiente positivo, aliado à produtividade", finaliza. 

A neurose obsessiva

POR LUCIANA SADDI

A neurose obsessiva foi isolada dos diversos sintomas psiquiátricos por Sigmund Freud, entre 1894 e 1895. Foi por ele compreendida como um quadro psiquiátrico autônomo e independente, da família das psiconeuroses. Portanto, originada no mundo mental, pelo psiquismo. Caracteriza-se por ideias estranhas e incontroláveis que atormentam incessantemente o sujeito e por constante luta contra esses mesmos pensamentos. Também se apresenta pela compulsão a realizar atos indesejáveis, rituais esconjuratórios e por um modo de pensar ruminante. Dúvidas e escrúpulos que levam a inibição do pensamento e da ação também fazem parte do quadro.

A neurose obsessiva se forma quando conflitos irremediáveis, recheados de afetos intensos e simultâneos de amor e ódio surgem e não se resolvem. Dá expressão à necessidade de controlar a vida pulsional, mas como é característico das formações sintomáticas, o tiro sai pela culatra e a defesa se torna adoecimento.

Os mecanismos de defesa mais evidentes nesta neurose são: o deslocamento de afetos para ideias distantes da que originou o conflito, o isolamento e a anulação.

Imagine que uma jovem sensível tenha assistido a uma discussão entre seu pai e sua avó. No calor do embate, ao defender a  avó,  a jovem tropeça e derruba a velha senhora,  que quebra a perna. A jovem fica horrorizada, jamais quis machucar a avó. Poucos dias depois intercala a palavra: “desculpa”, em todos os inícios de frase. Passado mais um tempo, lava as mãos incessantemente, logo depois de falar, “desculpa”.

Para o inconsciente não existe o sem querer – por isso a moça falava desculpa e, ao mesmo tempo, lavava as mãos para se livrar da culpa. A ideia de ter sido agressiva foi isolada e a culpa assumida e anulada ao mesmo tempo. Ao interpretamos um complexo conjunto de sintomas, o modo de funcionar do psiquismo se evidencia.

Os psicanalistas hoje falam mais de estrutura mental obsessiva, do que de transtorno, o famoso TOC (transtorno obsessivo compulsivo).  Sabemos que a necessidade de ordem e limpeza constante, a dúvida sobre ter sido bom ou mal, a ambivalência dos impulsos, o ódio reprimido e as tentativas de controlar a realidade pelo pensamento, além de outros traços da personalidade, podem ser compreendidos pela tal estrutura mental obsessiva; que convenhamos se espalha na população em geral.

Não dormir brigado é uma das regras da D.R. produtiva; veja outras

Heloísa Noronha
Do UOL, em São Paulo

Uma das normas amorosas mais pertinentes e úteis à vida de um casal é não brigar na cama e, principalmente, não dormir irritado com quem ama. Além da qualidade do sono sofrer danos e no dia seguinte o mau humor dominar o café da manhã, acumular ressentimento vai, pouco a pouco, prejudicando a convivência e a relação. "Um casal deve tentar resolver as pequenas pendências de cada dia conforme elas vão aparecendo, sem deixar que os problemas e desentendimentos se acumulem, para não gerar mágoas", afirma a psicóloga Gisela Castanho.

O fato é que a rotina puxada tem levado muitos homens e mulheres, ao longo da semana, a se encontrarem somente no fim do dia para conversar. Muitos –em especial, aqueles com filhos– só conseguem mesmo achar tempo para falar sobre suas questões pouco antes de dormir, na cama, o que faz com que a famosa norma já citada esteja cada vez mais em decadência. Discutir a relação (a famosa D.R.), porém, não precisa necessariamente conduzir a uma noite de raiva e sono ruim. Basta tentar colocar em prática alguns conselhos para que o diálogo flua numa boa. 

1. Uma sugestão para não dormir brigado, o que só servirá para amplificar os problemas no dia seguinte pela falta de descanso, é combinar antecipadamente que precisam conversar e que, portanto, vão reservar uma hora para isso. "Vale fazer um esforço para chegar mais cedo em casa no dia combinado, para que tenham tempo para chegar a um entendimento", fala Gisela Castanho.

2. Tempo é fundamental para que as pessoas possam explicar suas razões e motivações. Para quem ouve, mesmo que as justificativas não pareçam razoáveis, em princípio, é aconselhável tentar se colocar no lugar do outro e buscar ver a situação com os olhos do parceiro. Essa tática trata-se de uma técnica de comunicação chamada Rapport, que consiste em trabalhar a capacidade de entrar no mundo de alguém para entendê-lo melhor. "Muita gente não está preparada para ouvir. Assim, sempre é bom acompanhar o que a pessoa diz para tentar conduzir a conversa, mesmo que isso seja difícil no começo", declara Rebeca Fischer, psicóloga e instrutora da SBPNL (Sociedade Brasileira de Programação Neurolinguística).

3. Uma discussão produtiva tem que ter espaço para que as pessoas possam falar como realmente se sentem, quais os sentimentos envolvidos na situação, sem a preocupação de quem é que vai ganhar a discussão. Às vezes, o casal concorda no conteúdo, mas disputa quem tem razão porque querem se sentir no poder. Uma frase típica desse tipo de situação: "Fui eu que disse isso primeiro, a ideia foi minha".

4. Um assunto pode levar vários dias sendo discutido por ser complexo, mas é fundamental dar o primeiro passo e ir resolvendo as coisas aos poucos. No dia seguinte, ambos podem pensar no que discutiram à noite e se prepararem melhor para conversarem de novo. É importante que os parceiros  se lembrem que estão discordando no assunto em pauta, mas isso não significa o fim do relacionamento ou o fim do amor. Encarar as diferenças com sinceridade e coragem fortalece a relação. Conversas profundas levam a novos acordos.

5. O melhor lugar para um casal estabelecer uma D.R. é onde haja privacidade, para que os dois possam expor seus sentimentos, limites e maneiras de ver um problema sem interrupções indesejáveis. Casais com filhos pequenos, por exemplo, devem buscar algum tipo de ajuda (avó, babá) para que consigam conversar em paz. 

6. Em um ou outro momento, no calor da discussão, não é raro que alguém altere a voz ou use palavras de baixo calão. Quem escuta deve manter a calma e evitar entrar na mesma vibração. "Avise que não está gostando do rumo da conversa, com frases do tipo 'por favor, tente não falar dessa forma comigo porque estou tentando me entender com você' ou 'quero conversar com você, mas peço que não levante a voz comigo, pois também acabarei falando mais alto, vamos nos alterar e nos magoar'. Falar sobre a forma como acontece a discussão pode ajudar a manter a conversa num nível saudável", afirma a psicóloga Gisela Castanho".

7. Os conflitos devem ser debatidos sem deixar que ressentimentos se acumulem, pois quando forem conversar é preciso não estar no limite e acabar perdendo a razão, por misturar diferentes assuntos. "Escolher dialogar sobre um assunto de cada vez pode ser a alternativa mais plausível para chegar a um consenso", diz Cristiane Moraes Pertusi, doutora em Psicologia do Desenvolvimento Humano pela USP (Universidade de São Paulo).

8. Agressividades e ofensas a características pessoais ou familiares do parceiro devem ser evitadas, pois fazem com que a discussão perca o sentido. Por isso, às vezes é melhor esperar os ânimos se acalmarem antes de tentar começar uma conversa que só gerará mais brigas. 

9. E quando a D.R. não leva a lugar algum? Ou, pior, só ajuda a acumular mais ressentimento? Nesses casos, o ideal é perceber o momento de parar. Às vezes, escolher uma outra forma de se comunicar pode ser mais eficaz, como escrever uma carta ou um e-mail, por exemplo.

10. Muitas vezes um tem muita facilidade de se expressar e o outro não. Aquele que não consegue falar deve avisar ao parceiro como ele se sente. Em alguns casos, um terapeuta de casal pode ajudar a intermediar a conversa e procurar que as duas pessoas possam ter espaço para falar dos problemas que as afligem.

Rotina de mãe de UTI tem lágrimas e aplausos

Barrigudos



No dia 21 de julho ganhei duas identidades: virei mãe do Matias e uma mãe de UTI. Eu quis muito ser mãe do Matias. Mas não desejaria nem ao meu pior inimigo que ele se tornasse uma mãe de UTI.

Uma mãe começa a ser de UTI quando vê seu filho na incubadora pela primeira vez. Não é fácil. O bebê está cheio de fios, com as mãos roxas por conta das picadas de agulha e com tubos que nem deixam a gente ver o rostinho dele.
Depois tem a primeira vez no banco de leite. Em geral, as mães estão de cadeira de rodas, recém-operadas, usam pijamas de flanela e os olhos estão vermelhos de tanto chorar. A primeira coisa que nos sugará não é a boquinha de um bebê, mas uma bomba elétrica. Algo nada charmoso.
No hospital onde estamos, as cinquenta mães com bebês na UTI possuem uma sala de apoio para elas. Lá temos tevê, oito poltronas, um banheiro, uma geladeirinha e armários. Aliás, quando ganhei a chave do meu armário é que percebi que a estadia do Matias não seria tão breve e eu tinha me tornado uma mãe de UTI.
Ser mãe é padecer numa sala de apoio. Ela pode ser algo apaziguador ou depressivo. Tudo depende do clima das mães que estão lá. Se todas tiveram progresso com seus bebês no dia, rola até piada. Se algum bebê piorou, o ar fica denso.
Passamos cerca de doze horas no hospital todos os dias. Uma das mães que encontrei por aqui tem até um bordão: “Isto é pior que um emprego”.
Falando em emprego, há vários chefes que telefonam ou mandam e-mails cobrando as mães sobre finalizações de trabalho, informações ou até mesmo reuniões. Geralmente os prematuros chegam de surpresa, o que não dá muito tempo para as mães se desligarem adequadamente do trabalho. Por outro lado, os chefes não têm ideia do que é a rotina de uma mãe de UTI. Foi engraçado presenciar algumas mandando seus superiores à *&%#@. A prioridade número um de uma mãe de UTI é o seu bebê.
As mulheres nesta situação contam os sucessos em pequenas medidas: quantos mililitros de leite o bebê passou a mamar e quantos gramas ganhou em peso.
Na UTI, nenhuma de nós sabe onde a outra mora, no que trabalha ou quantos dígitos há na sua conta bancária. Mas sabemos os detalhes dos partos e as informações de seus bebês, como peso, altura, procedimentos que fez, medicações que toma.
A maioria de nós não teve chá de bebê, não veio com mala de maternidade pronta, não tinha o enxoval completo, nem o quarto do bebê totalmente arrumado. E nada disso fez diferença. Os bebês não usam roupas na incubadora e não voltam conosco para casa.
Somos conhecidas pelo primeiro nome e como mãe de nossos filhos. Aqui sou “Maria-Rita-mãe-do-Matias”.
As mulheres nesta situação têm muito em comum e enfrentam um tsunami emocional diário. Não há um dia em que não se chore, seja de alegria ou tristeza.
O pior que pode acontecer é a perda de um bebê. Nesta hora, todas choramos. Pelo bebê que se foi, pela mãe e por medo que aconteça conosco.
Mas existe o momento da consagração, que é a ida do bebê para casa. Há até um ritual de celebração: os funcionários e as mãe de UTI fazem um corredor polonês e a mãe e seu bebê são aplaudidos enquanto saem. Mas não é um aplauso curto, um aplauso de parabéns. É um aplauso longuíssimo, misturado com muitas, muitas lágrimas. Parece algo tribal, como se toda a aldeia de mães festejasse a vitória daquele bebê e invocasse as próximas.
Não vejo a hora de isso acontecer comigo.

As crianças que não conseguem parar de comer

Denise Winterman
Foto: BBC
Países têm discutido cada vez mais os hábitos alimentares das crianças
A maioria das crianças gosta de comer. Mas, para algumas, um apetite insaciável faz com que elas sempre queiram mais - o que pode causar sérios problemas para os pais.
A dona de casa britânica Emily contou à BBC que um episódio em particular a fez compreender quão voraz era o apetite da filha, de apenas quatro anos de idade.
"De manhã cedo, ouvi o alarme da porta do freezer tocar. Desci para a cozinha e encontrei minha filha comendo bolinhos de batata congelados direto do pacote. Não temos mais esse tipo de comida em casa, simplesmente não podemos."
Emily (o nome é fictício) descreveu esse momento como "o fundo do poço", mas hoje já se conformou com a ideia de que a filha vai sempre ter vontade de comer o que quer que haja na casa.
"Me lembro de ver uma cenoura enorme no bolso da saia dela no primeiro dia da aula de teatro", contou. "Ela me disse que (a cenoura) era para o caso dela ficar com fome. É curioso e complicado ser mãe de uma criança que tem compulsão por comida."

Problema global

Os índices de obesidade infantil estão aumentando em todo o mundo. Segundo estimativas feitas pela Organização Mundial de Saúde (OMS) em 2010, o número de crianças obesas com menos de cinco anos de idade seria de cerca de 42 milhões. Dessas, 35 milhões estariam em países em desenvolvimento.
Só na África, o número de crianças com menos de cinco anos que têm peso acima do recomendado triplicou nas últimas duas décadas.
Em países ricos, como a Grã-Bretanha, os hábitos alimentares das crianças são presença constante na mídia. Recentemente, os jornais do país noticiaram que quadruplicou na última década o número de crianças e adolescentes atendidos em hospitais da Inglaterra e País de Gales com problemas de saúde associados à obesidade.
Especialistas apontam para alimentação ruim (por exemplo, ênfase em alimentos pobres em nutrientes e ricos em gordura e açúcar), baixos índices de amamentação e estilos de vida sedentários como as principais causas do problema.
Temendo que o caso de sua filha venha a contribuir para estatísticas alarmantes como essas, Emily busca maneiras de administrar o apetite voraz da filha.
E apetite, dizem os especialistas, é algo que varia de pessoa para pessoa.
"Somos programados para ser diferentes", disse o especialista em obesidade Stephen Bloom, do Imperial College, em Londres.
Bloom, que estuda os sistemas de controle do apetite no corpo humano, disse que, assim como somos diferentes na aparência, também somos internamente.

Cansativo

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De manhã cedo, ouvi o alarme da porta do freezer tocar. Desci para a cozinha e encontrei minha filha comendo bolinhos de batata congelados direto do pacote. Não temos mais esse tipo de comida em casa, simplesmente não podemos"
Emily, mãe de uma menina de quatro anos
Em um extremo, estão as crianças que comem feito passarinhos, no outro, as que comem quase constantemente.
Apesar do que muitos dizem, comer demais não é sempre uma questão de mau hábito, disse outra mãe, Michelle (nome fictício), à BBC. Seu filho, de 11 anos, está sempre com fome e ela disse que é complicado e cansativo controlar a dieta dele.
"Você com frequência fica frustrado e bravo com seu filho por estar tão faminto o tempo todo, e eles também ficam frustrados e bravos com você. Mas não acho que seja culpa de ninguém. Não tem nada de errado com meu filho, nenhum quadro médico ou questões (emocionais) em relação a comida", diz.
"Ele sente fome genuína, não é gulodice. Não me culpo, já que faço tudo o que posso para que ele tenha uma dieta saudável. É cansativo, você sempre tem de ser organizado. E você tenta não fazer muito alarde, porque não quer que seu filho desenvolva transtornos alimentares".
"Ele não está obeso no momento porque controlo a dieta dele. Também estou tentando ensiná-lo sobre alimentação e sobre as consequências de se fazer escolhas ruins. Mas ele não vai morar sempre em casa comigo e me preocupo sobre o que vai acontecer no futuro".
Em situações como essa, o peso da criança sempre é uma preocupação para os pais. Emily comenta que a filha sempre foi maior do que os irmãos - e mais faminta.
"Ela mamava bem quando bebê e estava sempre no topo da escala em matéria de peso quando bebê, enquanto seu irmão mais velho é pequeno".
(A questão) "não é o que ela come - ela ficaria satisfeita em comer ervilhas enquanto outra criança comeria um biscoito. Sou firme e às vezes ela grita e reclama, mas ela já aprendeu o que pode comer. Ela simplesmente adora comida".
À medida que a criança fica mais velha, controlar sua dieta fica ainda mais difícil.
"Na primeira semana dela na escola, ela repetiu o prato todos os dias", disse Emily. "Então tive de optar por mandar o lanche de casa porque era a única forma de controlar a quantidade e o tipo de comida que ela come".

Culpa dos pais?

Cientistas vêm estudando formas de se controlar o apetite.
"Sabemos muito pouco, o apetite é uma coisa tão complexa", disse Sadaf Farooqi, professora de metabolismo e medicina da Universidade de Cambridge.
Ela comanda um grande estudo sobre obesidade e genética, em que médicos, enfermeiras, cientistas e pesquisadores trabalham juntos para tentar entender por que algumas pessoas engordam mais facilmente do que outras.
"O que sabemos é que há um fator genético, herdado (dos pais) para o apetite mas ele também é regulado pelo ambiente e comportamento, entre outras coisas".
"
Você com frequência fica frustrado e bravo com seu filho por estar tão faminto o tempo todo, e eles também ficam frustrados e bravos com você. Mas não acho que seja culpa de ninguém"
Michelle, mãe de um menino de 11 anos
Gostos pessoais também interferem. Os cientistas sabem, por exemplo, que a experiência do paladar varia de pessoa para pessoa e o que tem sabor delicioso para uns pode ser absolutamente desagradável para outros.
Profissionais que trabalham com nutrição infantil dizem que, com frequência, são procurados por pais preocupados com o que parece ser um apetite excessivo por parte dos filhos.
Muitos desses especialistas, no entanto, são da opinião de que a causa do problema seriam comportamentos inconscientes dos pais. Por exemplo, servir porções de adultos, em pratos de adultos, para as crianças.
Alguns aconselham deixar as crianças comerem o que quiserem - desde que seja saudável. Esse tipo de orientação se baseia em estudos que indicam que crianças naturalmente tendem a comer o necessário para saciar sua fome.
"Crianças geralmente não comem mais do que precisam", disse Tam Fry, porta-voz do National Obesity Forum, o Fórum Nacional da Obesidade na Grã-Bretanha.
"Se você deixa que as crianças façam suas próprias decisões, aprendem a regular sua alimentação. Se estão engordando, você aumenta a quantidade de exercício que estão fazendo. É uma questão de equilibrar a energia que entra e a energia que sai".
Mas alguns pais negam que estejam contribuindo para o problema e dizem que essas afirmações fazem com que se sintam isolados.
"Já me disseram isso antes", disse Michelle. "Em relação ao meu filho, eu simplesmente não concordo que seja o caso, ele é assim".
Qualquer que seja a opinião dos profissionais, os pais têm de adotar estratégias próprias para lidar com o problema.
"Conversei com meu marido. Criamos regras claras e as explicamos para a nossa filha", disse Emily. "Estamos conseguindo controlar a situação no momento, mas sabemos que conforme ela fica mais velha, haverá outros desafios".

Projeto de assistência às vítimas de violência doméstica em Mato Grosso é destaque no CNJ no ArO projeto Fonte de Água Viva, do Tribunal de Justiça de Mato Grosso, é destaque desta quarta-feira (31/7) do programa CNJ no Ar. O objetivo  é  acompanhar  vítimas de violência doméstica com assistência social, médica e jurídica.  Para falar sobre o assunto,  o  juiz titular da segunda vara especializada de violência doméstica e familiar contra a mulher do TJMT, Jeverson  Luiz Quinteiro.
Outro destaque de hoje é o programa remissão pela leitura na prisão, da Corregedoria Geral da Justiça de Mato Grosso. O corregedor-geral da Justiça do estado, Sebastião de Moraes Filho, dará mais detalhes.
Transmitido pela Rádio Justiça na frequência 104.7 FM, o programa CNJ no Ar é uma parceria entre o CNJ e a Rádio Justiça e vai ao ar de segunda a sexta-feira, a partir das 10 horas. O programa também pode ser acessado pelo site www.radiojustica.jus.br.

Agência CNJ de Notícias

Rotina no casamento




Sabemos que a rotina e a monotonia no casamento estão entre as principais causas de separações. Como impedir que a mesmice do casamento acabe com ele?

Eugenio Mussak

Edição 0084

Livra-se da monotonia e de ações tediosas ajuda a relação a permanecer forte
Ilustração: Marcelo Cipis

Vamos falar sério. Quando dá certo, o casamento é uma das melhores coisas que podem acontecer na vida de um homem. E de uma mulher, claro. O problema é dar certo. "Defina 'dar certo'", poderia dizer o leitor. Ok, você sabe que seu casamento deu certo se ele lhe fornece mais, muito mais, que a simples função tradicional de "constituir família". Essa é uma idéia histórica, ligada ao equilíbrio da sociedade e à continuidade da espécie humana, defendida pela Igreja e pelas tradições. Em pleno século 21, às favas com as tradições! O que queremos é a felicidade. E se isso vai colaborar com a sociedade e com a perpetuação da espécie, ótimo.

Então vamos concordar: seu casamento deu certo quando ele é fonte de felicidade, e ela emana da relação que você tem com sua mulher ou seu marido, e não da segurança, dos filhos, do patrimônio, das aparências. Casamento é uma relação, não uma instituição, e uma relação que vale a pena não é coisa de amadores. Se deu certo, ou você tem muita sorte ou fez uma opção pensada, adulta. É isso mesmo, o casamento, em primeiro lugar, depende da escolha certa da pessoa que vai viver ao seu lado, misturando a vida dela com a sua. E essa história de que os diferentes se atraem vale para a física, não para a psicologia. Não é necessário que os dois pensem sempre igual, concordem em tudo, mas é fundamental que tenham escalas de valores compatíveis, hábitos que não se choquem e, principalmente, projetos comuns.

É simples, mas não é fácil. Mesmo que todas essas condições sejam respeitadas, o casamento ainda tem lá seus inimigos, e não estou falando da inveja dos vizinhos, e sim dos capetinhas que se acomodam nos cantos da casa e que não são varridos com firmeza com a vassoura composta de piaçaba de sensibilidade e cabo de inteligência. O casamento precisa ser cuidado, polido, arrumado, temperado; senão murcha, mofa, sofre, escorre pelo ralo da indiferença e pelo esgoto da acomodação.

A rotina é, com imensa freqüência, acusada de ser a grande vilã. "Nosso casamento não resistiu à rotina"; "a monotonia acabou com o sonho", alegam os separados, como se a responsabilidade estivesse fora deles. A monotonia não bateu na porta e entrou sem ser convidada. Ela nasceu das vísceras da relação. É um câncer que não foi detectado a tempo ou não foi tratado com competência. Mas deixe eu ver se estou entendendo: rotina e monotonia são a mesma coisa?

Rotina e monotonia
Pois vamos começar esclarecendo que estou falando de duas coisas diferentes. Rotina é a repetição sistemática de uma conduta. Monotonia quer dizer que essa conduta é chata, sem sabor.

Rotina não é necessariamente ruim e, para algumas coisas, é até necessária. Para obter bons resultados no estudo, no trabalho e na ginástica, por exemplo, é necessário que as atividades sejam repetidas sistematicamente, pois é de sua constância e somatória que aparece o resultado. Eu, por exemplo, juro que gostaria de ter mais rotina em minha vida. Atualmente meu trabalho me obriga a viajar muito, variando imensamente meus dias, o que significa que minha vida não tem rotina nenhuma. E, acredite, eu me ressinto disso. Gostaria de poder escrever todos os dias; isso faria com que eu produzisse textos mais sofisticados. Adoraria poder praticar um esporte regularmente ou, pelo menos, poder freqüentar a academia três vezes por semana durante o ano todo. Isso teria um impacto positivo em minha saúde. E por aí vai. Há várias atividades rotineiras que não são monótonas, antes pelo contrário; tornam-se desgastantes exatamente porque são feitas esporadicamente, sem a regularidade necessária à boa prática.

Casamento também é assim. Estar casado com alguém é conviver diariamente com pequenas rotinas que podem ser maravilhosas. Ou não? Talvez a maneira como nós encaramos a rotina seja a chance de avaliar se temos ou não um bom casamento. Ou, pelo menos, se estamos precisando fazer alguns ajustes. Estar casado com alguém significa dormir com essa pessoa todas as noites e acordar ao lado dela todas as manhãs. Gostar disso significa ter um bom casamento.

A rotina de um bom casamento é composta por um imenso conjunto de minúcias adoráveis. Beijar as costas do outro antes de dormir; levantar primeiro de manhã para ir ao banheiro e deixar a escova dele já com pasta de dente em cima da pia; servir, um para o outro, a primeira xícara do dia de café com leite; secar a louça enquanto o outro lava; ligar do trabalho no meio da tarde... São rotinas, sim, mas são maravilhosas rotinas, quando nelas há o tempero adocicado do amor em oposição ao amargo sabor da obrigação.

Estar casado com alguém é dividir os momentos que se repetem e, por isso mesmo, se aprimoram. Já a monotonia, esta é a vilã não só do casamento, mas da própria vida. Ela mata a criatividade, afoga a alegria, sufoca as relações, amaldiçoa a felicidade. Monotonia significa manter o mesmo tom, mesmo tendo à disposição uma grande variedade de tantos outros. A palavra monotonia remete à metáfora auditiva, então vale a pena lembrar que o ouvido humano normal é capaz de perceber sons de freqüências entre 15 mil e 25 mil hertz, o que lhe permite passar ao cérebro uma quantidade imensa de sons - porque este precisa disso para conectar-se com o ambiente e compreendê-lo. Não é justo nem com a biologia nem com a psicologia, muito menos com a poesia, aprisionar alguém a poucos tons. A monotonia, via essa metáfora, é desumana e destrutiva.

Luz e a sombra
Voltando ao casamento, ele se alimenta da rotina, mas é envenenado pela monotonia. Repetir as ações é o único modo de aprimorá-las e chegar à excelência, no dizer de Aristóteles, que amava a sabedoria. Não gostar das ações que se repetem é o melhor meio de chegar às trevas, como queria Mefistófeles, que odiava a luz. Acompanhe esta história:

"Emma era uma bela e jovem mulher, inteligente, encantadora. Casou-se com Charles, médico recém-formado, com um futuro promissor. O casamento perfeito, diria qualquer um; pareciam ter sido feitos um para o outro. Mas Emma, não obstante amasse e respeitasse Charles, em nome de quebrar a rotina, resolve traí-lo. Como não se tivesse saciado, continuou a busca, colecionando amantes e aventuras até que isso a conduziu, junto com Charles e toda a família, à ruína moral, social e financeira".

Esse breve parágrafo é uma síntese pobre do livro Madame Bovary, de Gustave Flaubert, o escritor francês que, no século 19, provocou discussões acaloradas e foi alvo de um processo judicial por promover a imoralidade com sua obra. A acusação ajudou a colocar a obra de Flaubert entre as principais referências à complexidade da alma humana. Absolvido, acabou dedicando a obra ao promotor que o acusava, com a ironia inteligente que caracteriza seus textos.

Emma odiava a rotina monótona da vida pequeno-burguesa de esposa de médico em uma localidade do interior da França, mas, em vez de tentar melhorar sua vida, influenciando seu marido entediante com alegria e emoção, buscou aventuras fora do casamento. A partir desse expediente, não só não encontrou o que buscava como ainda acabou com o pouco que lhe restava. A virtude de Emma - sim, ela tem virtudes - é ser inconformada, mas seu engano é o foco de sua atenção. Ela não tenta mudar sua vida e sim construir uma vida paralela. Flaubert foi um escritor de obra pequena, mas reconhecido pela perfeição de seus escritos. Gastou cinco anos escrevendo Madame Bovary, e sempre dizia que estava à procura da mot juste, a palavra exata que servia para representar uma idéia. Se vivesse hoje, a mot juste para madame Bovary talvez fosse a de neurótica insaciável, daquelas que buscam o lenitivo para sua vida vazia em shoppings, motéis e bares. O tipo da pessoa que procura a solução onde o problema não está.

Não, o problema não está na rotina, mas na monotonia. Ainda que haja forte conexão entre ambos, esses substantivos que se adjetivam com freqüência não são sinônimos. A rotina monótona difere da monotonia rotineira. A primeira precisa de atitude, a segunda de tratamento. Se a rotina, que é inexorável, está monótona, precisa de novos temperos. Se a monotonia já virou rotina, é possível que precise de novos ingredientes.

Não entendeu? Vou tentar de novo: se seu casamento está monótono apesar de ter componentes construtivos, que valem a pena, basta que algumas iniciativas sejam colocadas em prática. Que tal um motel depois de um show? Por que não mandar flores para sua mulher sem motivo algum, ou fazer uma massagem relaxante em seu marido-executivo-estressado em plena quarta-feira? Ou então preparar um romântico jantar a dois. Esses são exemplos de temperos, de especiarias que dão sabor e impedem a deterioração da relação. Amanhã a vida continua, mas parece que o sol está mais brilhante e o trânsito está fluindo melhor. Mas se o desencanto se instalou, e não há mais por que lutar, melhor que prolongar a agonia é ser honesto e enfrentar o trauma e a dor que sempre acompanham as grandes decisões, e partir para outra.

Dona Flor, personagem inesquecível de Jorge Amado, amava Vadinho pelo lirismo de sua vida, mas sofria com sua falta de responsabilidade. Morto Vadinho, a viúva sofre, chora, conforma-se e, passado um tempo, casa-se de novo. Dessa vez com Teodoro, farmacêutico respeitado, correto, estável, com quem ela conhece uma vida nova, segura, calma... mas monótona. Então o escritor baiano aponta para o final feliz. O espírito do Vadinho volta, e Flor, não resistindo aos encantos do falecido marido, torna-se sua amante. Eis que a morena conhece então a felicidade através de seus dois maridos. O que lhe dá monótona segurança e o que lhe fornece a aventura de uma vida de paixões.

Não, o autor de Dona Flor e Seus Dois Maridos não quer sugerir que você tenha dois maridos; ou duas mulheres. Ele apenas lembra que todos nós temos, convivendo dentro de nossos espíritos, Teodoro e Vadinho, Apolo e Dionísio, lógica e paixão, rotina e aventura. Basta abrir a porta certa no instante correto.


ONU lança campanha mundial para promover a igualdade LGBT


ONU lança campanha Livres e Iguais para educação pública mundial. Arte: ACNUDH e UNIC Rio
ONU lança campanha Livres e Iguais para educação pública mundial.
Arte: ACNUDH e UNIC Rio
O Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH) lançou esta sexta-feira (26) a campanha Livres e Iguais de educação pública global para promover a igualdade de lésbicas, gays, bissexuais e transexuais (LGBT).
Numa conferência de imprensa realizada na Cidade do Cabo, África do Sul, a Alta Comissária para os Direitos Humanos da ONU, Navi Pillay, acompanhada pelo arcebispo emérito Desmond Tutu e pelo Juiz Edwin Cameron do Tribunal Constitucional Sul-Africano anunciou o projeto que terá um ano de duração. A versão brasileira da campanha será lançada em outubro próximo.
“A Declaração Universal dos Direitos Humanos promete um mundo no qual todos nascem livres e iguais em dignidade e direitos – sem exceções, sem que ninguém seja deixado para trás”, disse a Alta Comissária Pillay. “No entanto, ainda é uma promessa vazia para muitos milhões de pessoas LGBT forçadas a enfrentar o ódio, a intolerância, a violência e a discriminação em uma base diária.”
“A mudança de atitudes nunca é fácil. Mas já aconteceu em relação a outras questões e está acontecendo já em muitas partes do mundo em relação a esta mesma questão. Ela começa com conversas muitas vezes difíceis”, disse Pillay. “E é isso que nós queremos fazer com esta campanha. “Livres e Iguais” vai inspirar milhões de conversas entre as pessoas em todo o mundo e em todo o espectro ideológico.”
A campanha tem como objetivo aumentar a conscientização sobre a violência e discriminação homofóbica e transfóbica, e incentivar um maior respeito pelos direitos das pessoas LGBT. Ao longo do próximo ano, será lançada uma série de conteúdos criativos na mesma linha conceitual de O Enigma, um vídeo divulgado pelo ACNUDH para o Dia Internacional Contra a Homofobia e Transfobia, e A história de uma mãe do Brasil, que é o primeiro de uma série de filmes com entrevistas aos familiares das pessoas LGBT em todo o mundo.
A história de uma mãe brasileira
O Enigma
A campanha surge na sequência de um relatório ACNUDH publicado em dezembro de 2011, que foi o primeiro relatóriooficial da ONU sobre a violência e discriminação contra pessoas LGBT. O relatório documentou abusos generalizados dos direitos humanos. Hoje, mais de 76 países ainda criminalizam relações homossexuais consensuais, enquanto em muitos outros a discriminação contra pessoas LGBT é generalizada – inclusive no local de trabalho, bem como nos setores da educação e saúde. A violência e a manifestação de ódio contra pessoas LGBT, incluindo agressão física, violência sexual e assassinato seletivo, foram registadas em todas as regiões do mundo.
A campanha vai se focar na necessidade de reformas legais e educação pública para combater a homofobia e transfobia.
Várias celebridades empenhadas em promover a igualdade deram o seu apoio a “Livres e Iguais”, tornando-se campeões da igualdade da ONU e ajudando a espalhar mensagens e materiais de campanha através das redes sociais. Entre esses incluem-se o artista pop Ricky Martin, a cantora Sul Africana Yvonne Chaka Chaka, a atriz de Bollywood Celina Jaitly e a cantora brasileira Daniela Mercury. Outros campeões da igualdade serão anunciados à medida que a campanha se desenrola.
Siga a campanha Livres e Iguais nas redes sociais:
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Twitter: http://www.twitter.com/free_equal
Saiba mais sobre a campanha Livre e Igual em www.unfe.org

FAO lança guia de capacitação sobre gênero e mudanças climáticas

Foto: FAO/I. Velez
Foto: FAO/I. Velez
Um novo guia de capacitação sobre gênero e mudanças climáticas oferece os recursos e ferramentas necessárias para realizar investigações com perspectivas de gênero sobre os impactos das mudanças climáticas. O documento lançado na sexta-feira (26) pela ONU explica como utilizar diversas ferramentas de investigação participativa para uma agricultura climaticamente inteligente e produtiva.
Criado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) – por meio do Programa de Mitigação das Mudanças Climáticas na Agricultura (MICCA) – e o Grupo Consultivo para a Investigação Agrícola Internacional (CGIAR, da sigla em inglês) – através de Programa de Investigação sobre Mudanças Climáticas, Agricultura e Segurança Alimentar (CCAFS) – para proporcionar uma compreensão mais clara dos conceitos relacionados às mudanças climáticas e ao gênero, o guia permite também que os usuários abordem a investigação sobre a adaptação à mudanças climáticas, os riscos que apresentam e sua mitigação.
A publicação também oferece orientação sobre as diferentes formas de apresentar os resultados da investigação para que possam ser analisados adequadamente.
O guia está disponível em espanhol, inglês e francês e inclui informação sobre igualdade de acesso a recursos e poder para a segurança alimentar frente às mudanças climáticas.

Violência sexual na República Democrática do Congo cresce de forma alarmante, afirma ACNUR

Com o aumento da violência no leste da RDC, ACNUR alerta para risco que mulheres estão expostas. Foto: ACNUR /F. Noy
O conflito na província de Kivu do Norte na República Democrática do Congo levou a um aumento alarmante nos índices de estupro e violência contra mulheres e meninas na região, alertou a agência da ONU para refugiados nesta terça-feira (30).
“Nossas equipes de monitoramento de proteção registraram 705 casos de violência sexual na região desde janeiro, incluindo 619 casos de estupro”, disse um porta-voz do Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR). “Durante o mesmo período em 2012, nossa equipe havia registrado 108 casos. Os sobreviventes de violência sexual e violência baseada em gênero incluem 288 crianças e adolescentes e 43 homens”, acrescentou.
Somente neste mês, os combates entre o Exército e as Forças Aliadas Democráticas – um grupo rebelde baseado em Uganda -, deslocou cerca de 14 mil civis da província de Kivu do Norte. O ressurgimento da violência nas últimas semanas na região pode aumentar o perigo para as mulheres, disse o ACNUR.
Segundo a agência, a maioria dos casos de violência sexual é cometida por homens armados. Dos 705 casos notificados desde o início do ano, 434 foram perpetrados por pessoas armadas. Os números oficiais da ONU também mostram que o número de casos de violência sexual registrados em Kivu do Norte saltou de 4.689 em 2011 para 7.075 em 2012.
A agência da ONU para refugiados informou estar trabalhando em estreita colaboração com outras organizações humanitárias e autoridades locais para responder e fortalecer o monitoramento da violência sexual. O ACNUR ajudou a montar cursos ministrados por dezenas de policiais sobre como evitar a violência sexual e lidar com casos de estupro, além de treinar representantes de centros comunitários e pontos focais para identificar casos de violência sexual e encaminhar as vítimas para cuidados de saúde e apoio psicossocial.

Morte de crianças na Índia ressalta necessidade da eliminação de pesticidas perigosos, diz FAO

Pesticidas altamente perigosos
devem ser eliminados.
Foto: FAO/Asim Hafeez
O trágico incidente na Índia, em que 23 crianças morreram depois de comer uma refeição escolar contaminada, é um duro lembrete que os pesticidas altamente perigosos devem ser eliminados nos países em desenvolvimento, disse nesta terça-feira (30) a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO).
No dia 17 de julho, crianças na aldeia de Dharmasati Gandawa, no Estado de Bihar, morreram depois de comer a merenda escolar  feita com óleo de cozinha contaminado pelo pesticida monocrotofós. Esta substância é amplamente utilizada na Índia, apesar de ser descrita com “alta toxicidade aguda” pela FAO e pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
Em comunicado, a FAO salientou que a distribuição e uso de pesticidas altamente tóxicos em muitos países em desenvolvimento representa um risco grave para a saúde humana e ao meio ambiente, e medidas para proteger a população devem ser implementadas.
Em relação ao monocrotofós, muitos governos concluíram que a proibição é a única opção eficaz para prevenir danos às pessoas e ao meio ambiente. Este pesticida foi banido na Austrália, China, Estados Unidos, União Europeia e em muitos países da África, Ásia e América Latina.
“Há consenso de que produtos altamente perigosos não devem estar disponíveis para os pequenos agricultores que não têm o conhecimento, os pulverizadores, equipamentos de proteção e instalações de armazenamento adequadas para gerenciá-los”, disse a FAO.
A agência recomenda que os governos de países em desenvolvimento acelerem a retirada de pesticidas altamente perigosos de seus mercados e mudem para alternativas não químicas e menos tóxicas.

Só 19% dos países seguem diretrizes para comercialização de substitutos do leite materno, mostra OMS

Foto: OMS/SEARO/Anuradha Sarup
Foto: OMS/SEARO/Anuradha Sarup

A Organização Mundial da Saúde (OMS) pediu nesta terça-feira (30) que as mulheres recebam informações precisas e apoio sobre a importância da amamentação. De acordo com novo relatório da agência, que antecede a Semana Mundial da Amamentação, apenas um em cada cinco países implementam plenamente as diretrizes internacionais sobre a comercialização de substitutos do leite materno.
“Quase todas as mães são fisicamente capazes de amamentar e o farão se tiverem informações precisas e apoio”, disse a especialista em amamentação do Departamento de Nutrição para Saúde e Desenvolvimento da OMS, Carmen Casanovas. ”Mas, em muitos casos, as mulheres são desencorajadas a fazê-lo e induzidas a acreditar erroneamente  que estão dando a seus filhos um melhor começo de vida na compra de substitutos comerciais ao leite materno”, acrescentou.
Segundo a OMS, a amamentação “é a melhor fonte de nutrição” para crianças e uma das formas mais eficazes para garantir a saúde e sobrevivência de meninos e meninas. As pessoas que foram amamentadas quando bebês são menos propensas ao excesso de peso ou obesidade, diabetes e podem ter um melhor desempenho em testes de inteligência.
O documento afirma que apenas 37 países,  19% das nações pesquisadas, aprovaram leis que refletem todas as recomendações do Código Internacional de Comercialização de Substitutos do Leite Materno, de 1981.
O estudo da OMS ressalta que 69 países (35%) proíbem totalmente a publicidade de substitutos do leite materno; 62 países (31%) proíbem completamente amostras grátis ou suprimentos de baixo custo para os serviços de saúde; e 64 países (32%) proíbem completamente presentes de qualquer tipo de grandes fabricantes para profissionais de saúde.
Entre os pesquisados, 83 países (42%) requerem uma mensagem sobre a superioridade do aleitamento materno nos rótulos dos substitutos  e apenas 45 países (23%) dizem ter uma implementação de funcionamento e sistema de monitoramento.
O relatório mostra que as mães, muitas vezes, obtêm informações incorretas e tendenciosas, tanto diretamente – por meio da publicidade, alegações de saúde, kits de informação e por representantes de vendas – quanto indiretamente, através do sistema público de saúde.
A distribuição de “materiais educativos” sobre o aleitamento materno produzido pelos fabricantes de leite para bebês, por exemplo, tem impacto negativo sobre o aleitamento materno exclusivo, assim como a distribuição de amostras desse leite fabricado.