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segunda-feira, 28 de outubro de 2013

‘Mulher, Viver sem Violência’ chega ao Amazonas, nesta 4ª feira, para levar mais serviços públicos a brasileiras da floresta


28/10 - ‘Mulher, Viver sem Violência’ chega ao Amazonas, nesta 4ª feira, para levar mais serviços públicos a brasileiras da floresta
Doados pela SPM, ônibus levam direitos e acesso à Lei Maria da Penha para lugares remotos Foto: Divulgação SPM
Estado é a 12ª unidade federativa a formalizar adesão à iniciativa do governo federal, em seguimento a Bahia, Distrito Federal, Espírito Santo, Maranhão, Minas Gerais, Paraíba, Paraná, Rio Grande do Sul, Roraima, São Paulo e Sergipe. Programa tem investimento total de R$ 305 milhões. Em ato com a ministra Eleonora, Amazonas receberá unidades móveis para atender mulheres do campo e da floresta; capital terá Casa da Mulher da Brasileira

Clique aqui para ver as fotos das unidades móveis (alta resolução)

Estado com menos acesso à Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180, da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República (SPM-PR), no primeiro semestre deste ano, o Amazonas traz como desafio para o enfrentamento à violência de gênero o alcance às mulheres que vivem em áreas remotas: povoados da floresta, aldeias, margens dos rios, núcleos rurais, assentamentos e comunidades extrativistas. Com a missão de levar direitos a brasileiras, onde quer que estejam, o programa ‘Mulher, Viver sem Violência’ começará a ser desenvolvido no Amazonas, a partir desta quarta-feira (30/10), quando da assinatura de termo de adesão da iniciativa do governo federal.

O documento será firmado pela ministra Eleonora Menicucci, da SPM; pelo governador em exercício, José Melo de Oliveira (PROS-AM); pelo prefeito de Manaus, Arthur Virgílio (PSDB-AM); pelo defensor público-geral do Estado do Amazonas, José Ricardo Vieira Trindade; pelo procurador-geral de Justiça do Amazonas, Francisco Santiago da Cruz; e pelo presidente em exercício do Tribunal de Justiça, desembargador Rafael Romano. A solenidade ocorrerá, Às 9h30, no Palácio Rio Negro, em Manaus. Estarão presentes na cerimônia, a senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM), procuradora Especial da Mulher do Senado Federal; a secretária nacional de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres, Aparecida Gonçalves; a chefe de Gabinete da SPM, Linda Goulart; a coordenadora Estadual dos Serviços de Atenção em Defesa dos Direitos da Mulher, Andreza Lopes, entre outras autoridades.

Com a adesão do Amazonas, sobe para 12 a quantidade de unidades federativas envolvidas com o ‘Mulher, Viver sem Violência’: Bahia, Distrito Federal, Espírito Santo, Maranhão, Minas Gerais, Paraíba, Paraná, Roraima, Rio Grande do Sul, São Paulo e Sergipe.

Em conjunto com o Pacto Nacional de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres, o programa fortalece a rede de serviços públicos em estados, capitais, municípios-polo, fronteiras secas, campo e floresta. Tem seis eixos estratégicos: construção, reforma predial, equipagem e manutenção da Casa da Mulher Brasileira – uma por capital; transformação da Central de Atendimento à Mulher- Ligue 180 em disque-denúncia; organização dos serviços na saúde e na coleta de vestígios de crimes sexuais, em parceria com os ministérios da Saúde e da Justiça;  criação de seis centros de atendimento em fronteiras secas para enfrentar o tráfico de mulheres; campanhas continuadas de comunicação para prevenção da violência; e unidades móveis para o acolhimento de mulheres rurais. 

Campo e floresta – Na solenidade, a ministra Eleonora assinará termo de doação de duas unidades móveis para mulheres em situação de violência no campo e na floresta. Com custo unitário de R$ 550 mil, os ônibus estão preparados para circularem em áreas rurais. Têm instalações acessíveis para pessoas com deficiência. Possuem duas salas de atendimento, netbooks com roteador e pontos de internet, impressoras multifuncionais (para digitalização de documentos e fotocópias), geradores de energia, ar condicionado, projetor externo para telão, toldo, 50 cadeiras, copa e banheiro. 

Além da doação dos veículos, a SPM arcará, pelo período de um ano, com despesas de manutenção (pneus rodantes, combustível do veículo, gerador, óleos, aditivos e kits). Os veículos já foram entregues para: Bahia, Distrito Federal, Espírito Santo, Goiás, Maranhão, Minas Gerais, Paraíba, Rio Grande do Sul, Roraima e Sergipe.

Cronograma e demais itinerários pelas áreas rurais do Amazonas estão sendo organizados pelo governo estadual e pelo Fórum Estadual de Mulheres do Campo e da Floresta, contando com o apoio da SPM, do Fórum Nacional e da coordenação da Marcha das Margaridas. 

Violência no AM – De janeiro a junho deste ano, o estado teve 1.427 registros no Ligue 180, sendo 682 provenientes da capital. Somente dez dos 62 municípios foram atendidos, o que corresponde a 16% de cobertura. Amazonas e Manaus foram ocuparam a 27ª posição dentre as unidades federativas e capitais em acesso ao 180. São explicações gerais, a distância dos municípios e a dificuldade de busca de informação sobre direitos e Lei Maria da Penha.

Segundo o Mapa de Homicídios de Mulheres, de 2012, o Amazonas é o 23º colocado em número de assassinatos de mulheres. Manaus é a 20ª no ranking por capital e o município de Coari é um dos 100 municípios com maiores registros de homicídios femininos por taxa da população feminina.

A rede de atendimento às mulheres em situação de violência é composta por 17 serviços: 11 delegacias especializadas, dois centros de referência, uma casa-abrigo, um juizado de violência doméstica e familiar, uma vara adaptada e uma defensoria/núcleo.

Adesão do Amazonas ao programa ‘Mulher, Viver sem Violência’
Data: 30 de outubro de 2013 (quarta-feira)
Horário: 9h30
Local: Palácio Rio Negro (Av. Sete de Setembro, s/nº) – Manaus/AM

Encontro Anual do Fórum dos OPM’s reúne, a partir desta 3ª feira, 330 gestoras públicas em Brasília

O Fórum Nacional de Organismos Governamentais de Políticas para as Mulheres (OPMs) deve fortalecer a interlocução entre os organismos, além de compartilhar e potencializar boas práticas


O Distrito Federal e mais 24 unidades da federação de todas as regiões do país têm inscrição confirmada na edição 2013 do Fórum Nacional de Organismos Governamentais de Políticas para as Mulheres (OPMs). São 330 gestoras públicas de OPMs municipais, estaduais e distrital reunidas entre 29 e 31 de outubro sob o tema central “Agendas transversais e políticas para as mulheres”. O evento é realizado pela Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República (SPM-PR).

A ministra Eleonora Menicucci, da SPM, gestora de OPM em nível federal, fará palestra no dia 31 de outubro sobre a importância dos organismos no fortalecimento e implementação das políticas governamentais para as mulheres, na perspectiva do reconhecimento das diversas realidades de órgãos em atuação no país.

O encontro objetiva fortalecer os OPMs frente às estratégias de desenvolvimento adotadas pelas unidades da federação, além de contribuir para potencializar a  inserção das políticas para as mulheres nos respectivos cenários de desenvolvimento sustentável, considerando os aspectos local e regional.

Os subtemas que vão dar base às discussões e compartilhamento de experiências entre as administradoras públicas são: “Políticas Públicas para as Mulheres: a Construção da Igualdade”; “Agendas Transversais do PPA 2012-2015 e Políticas para as Mulheres”; “Papel dos Organismos de Políticas para as Mulheres na elaboração de planos, programas e projetos com perspectiva de gênero” e “O que queremos ao elaborar projetos?”. Clique aqui e veja programação completa. 

Fórum Nacional de Organismos Governamentais de Políticas para as Mulheres (OPMs)
Data: 29 a 31 de outubro de 2013 (de terça à quinta-feira)
Horário: 14hs do dia 29 e 13h do dia 31
Local: San Marco Hotel – Brasília/DF

Hesitar antes de se casar é comum, mas pode ser sinal de problemas




  • Benedict Carey
    The New York Times News Service/Syndicate

    Valero Doval/The New York Times
    Suprimir dúvidas pode causar arrependimento e, no caso dos casamentos, divórcio
    Suprimir dúvidas pode causar arrependimento e, no caso dos casamentos, divórcio
Ele tinha carisma suficiente para fazer com que seus maus hábitos parecessem pequenos, mais peculiaridades do que defeitos. O hálito cheirando a cigarro; o peso extra na barriga; a indiferença a roupas e às aparências --certamente eram coisas menores, corrigíveis com o tempo.
Nos meses que antecederam o casamento, em 1988, mesmo o fato de que ele estava morando com a mãe aos 38 anos parecia de alguma forma explicável, se não ideal.
"Estava na cara", disse Jincey Huck, funcionária do tribunal estadual em St. Louis, sobre o seu primeiro marido, já falecido. "No fundo, eu sabia que estava cometendo um erro, mas queria me casar, queria ter filhos, tudo isso. Fiquei hesitante o tempo todo", disse Jincey, hoje com 51 anos.
Os psicólogos estudam o processo de tomada de decisões há mais de um século, tentando distinguir como os vieses, a emoção e a personalidade afetam grandes e pequenas escolhas. Eles estudaram pessoas que se divertem com jogos de simulação de investimentos. Após obter imagens do cérebro dos participantes enquanto tomavam decisões morais hipotéticas, os psicólogos compararam a precisão de juízos precipitados àquela verificada em momentos de longa deliberação, tentando avaliar o valor dos instintos subconscientes.
Contudo, é muito mais difícil simular em laboratório decisões arriscadas, difíceis de rever, que realmente mudam a vida de alguém, como, por exemplo, mudar-se para o outro lado do país, aceitar um novo emprego, comprar uma casa nova e até mesmo mudar de PC para Mac. A mesma dificuldade seria encontrada em uma tentativa de simular aquela é que talvez a mais importante de todas as decisões: completar o caminho até o altar ou se separar.
"Praticamente todas as decisões importantes da vida real exigem que a pessoa que tem de decidir lide com dez questões fundamentais, que eu chamo de cardeais", disse J. Frank Yates, professor de Marketing e Psicologia na faculdade de Administração da Universidade de Michigan. As pessoas só se sentem realmente confiantes, disse ele, quando começam a lidar com todas essas questões, incluindo os compromissos e a habilidade de tomar as medidas adequadas no momento oportuno.
A maioria das pessoas, é claro, não é especialista na ciência da decisão. Elas decidem com base em suas próprias crenças, caprichos e instinto.
Até que ponto podemos aprender, então, com os sentimentos instintivos --as hesitações, em particular-- quando há tantas possibilidades e tanta coisa em jogo? Um estudo publicado na mais recente edição da Revista de Psicologia Familiar oferece uma resposta: podemos aprender bastante, pelo menos quando se trata de casamento.
"Ter dúvidas antes do casamento não é apenas comum. É algo que prevê uma maior taxa de divórcio no caso das mulheres e mais insatisfação nos casamentos tanto para homens quanto para mulheres, em comparação a recém-casados que consagraram o matrimônio sem ter dúvidas", diz Justin A. Lavner, aluno do doutorado em Psicologia da Universidade da Califórnia, em Los Angeles.
O estudo, realizado com os coautores Benjamin R. Karney e Thomas N. Bradbury, da UCLA, é o primeiro a examinar a hesitação pré-matrimonial em um grupo de casais ao longo do tempo.
O fato de que a dúvida instintiva pode ser um presságio de problemas parece ser uma verdade autoevidente por definição. No entanto, a maioria das decisões importantes suscita alguma hesitação e nervosismo, e pesquisas sugerem que o que importa é a natureza e a fonte dessas dúvidas, não a sua simples existência. Muitas das dinâmicas psicológicas presentes nas tomadas de decisão pré-marital são semelhantes àquelas que fazem parte de qualquer decisão importante.
"O importante a notar é que a maioria das pessoas que se divorciam não tinham muita dúvida do que quer fazer em relação ao casamento inicialmente, mesmo que a hesitação possa aumentar essa probabilidade", diz Arthur Aron, psicólogo da Universidade Stony Brook. "Ao mesmo tempo, existem fatores --como desentendimentos com os pais da outra pessoa-- que podem parecer menos importantes, mas crescem de importância com o tempo: quando o casal tem filhos, por exemplo".
Várias distrações podem fazer com que seja difícil perceber essas armadilhas. Uma delas é a pressão externa criada por um casamento. "As pessoas se deixam levar pelo casamento e não dão atenção às hesitações, achando que o que estão sentindo é apenas nervosismo", disse Anne Milford, coautora, com Jennifer Gauvain, de "How Not to Marry the Wrong Guy" ("Como não se casar com o cara errado", em tradução literal, publicado pela Editora Random House em 2010), que entrevistou cerca de 200 mulheres que sentiram fortes dúvidas no altar.
"Na maioria das vezes, as mulheres disseram que sabiam que estavam cometendo um erro, mas casaram mesmo assim, muitas vezes porque não tinham ninguém que as ouvisse", disse Milford.
Dois outros elementos que embaçam a tomada de uma decisão são internos, menos conscientes, e podem agir um contra o outro.
Ambos são tipos de idealização. Em uma série de pesquisas, uma equipe liderada por Sandra Murray, da Universidade Estadual de Nova York em Buffalo, mostrou que namorados que iniciaram um relacionamento há pouco tempo têm uma forte tendência a idealizar um ao outro, assim como ocorreu com Jincey, que pensava coisas como "os amigos dele são até legais quando estão sóbrios" ou "ele fica deprimido principalmente porque é muito sensível".
As dúvidas não evaporam; elas são reprimidas e ressurgem mais tarde.
A outra é uma expectativa de felicidade suprema, que muitas pessoas têm.
"As pessoas acham que têm de encontrar alguém ideal, perfeito, sua alma gêmea, que vão amar com toda paixão para sempre e que vai fazê-las felizes pelo resto da vida", afirma Sonja Lyubomirsky, psicóloga da Universidade da Califórnia, em Riverside, e autora de "The Myths of Happiness" ("Os mitos da felicidade", em tradução literal, publicado pela Editora Penguin neste ano).
"É claro, tanto evidências científicas quanto anedóticas mostram que não é isso que normalmente ocorre", acrescenta ela, e esse tipo de pessoa pode facilmente ficar decepcionada.
Estar consciente de ambas essas distorções --e encontrar alguém de fora do frenesi do casamento com quem se possa conversar-- é uma forma de verificar se a hesitação indica um mau presságio.
Outra maneira, diz Yates, é simplesmente se sentar e escrever sobre as dúvidas. "Quando escrevemos sobre um problema de tomada de decisão, ao contrário do que ocorre quando simplesmente pensamos a respeito, ficamos mais confiantes na justeza da decisão que tomamos", ele diz por e-mail. Além disso, segundo têm sugerido os estudos de Yates, essa confiança passa a ficar bem situada.
"Eu realmente ignorei tudo, deixei tudo passar gradualmente", conta Jincey, que hoje está feliz em outro casamento. "O pior veio depois, pois eu sabia que tinha feito algo que eu sabia ser um erro na época".

Literatura melhora percepção dos sentimentos alheios, diz estudo

The New York TimesPAM BELLUCK
DO "NEW YORK TIMES"

Digamos que você esteja se aprontando para um encontro romântico às cegas ou para uma entrevista de emprego. O que você deve fazer para se preparar? Além de tomar banho e se barbear, é claro, seria o caso de ler -mas não qualquer coisa. Algo de Tchekhov ou de Alice Munro ajudará você a navegar pelo novo território social e a interpretar emoções melhor do que com a ficção popular ou a não ficção.

Segundo um estudo recente, a ficção literária deixa mais espaço para a imaginação, estimulando os leitores a fazer inferências sobre os personagens e a serem sensíveis a complexidades e nuances emocionais.

"Por isso amo a ciência", disse Louise Erdrich, cujo romance "The Round House" foi usado na experiência. Os pesquisadores, segundo ela, "provaram como são verdadeiros os benefícios intangíveis da ficção literária".

Não é nova a ideia de que nossas leituras podem influenciar nossas habilidades sociais e emocionais. Pesquisas anteriores já haviam correlacionado vários tipos de leitura à empatia e à sensibilidade. Recentemente, cientistas usaram testes de percepção da inteligência emocional para estudar crianças com autismo.

Mas os especialistas dizem que a nova descoberta foi poderosa por ter sugerido um efeito direto e quantificável da literatura, mesmo quando lida por poucos minutos.

O estudo, publicado em 3 de outubro pela revista "Science", mostrou que após ler ficção literária, em vez de ficção popular ou não ficção séria, as pessoas tinham melhor desempenho em testes que mensuravam a empatia, a percepção social e a inteligência emocional -habilidades que vêm a calhar quando se tenta ler a linguagem corporal de alguém ou avaliar o que os outros podem estar pensando.

Nicholas Humphrey, professor emérito do Darwin College, da Universidade de Cambridge, que não se envolveu na pesquisa, disse que já era de se esperar que a leitura em geral tornasse as pessoas mais predispostas à empatia e à compreensão. "Mas separar a ficção literária e demonstrar que ela tem efeitos diferentes das outras formas de leitura é notável."

Os autores do estudo e outros psicólogos acadêmicos disseram que tais conclusões deveriam ser consideradas pelos educadores que concebem os currículos, especialmente aqueles que hoje se inclinam por tarefas de leitura de não ficção.

"Francamente, concordo com o estudo", disse Albert Wendland, que dirige um mestrado sobre ficção popular na Universidade Seton Hill, em Nova Jersey. "Ao fazer narrativas sensíveis e longas da vida das pessoas, esse tipo de ficção está literalmente se colocando na posição de outrem -vidas que poderiam ser mais difíceis, mais complexas, mais do que aquilo com que você poderia estar acostumado na ficção popular." Ele acrescentou: "Talvez a ficção popular seja uma forma de lidar mais com seu próprio ser, talvez com os próprios desejos e necessidades".

Na ficção popular, disse o doutorando David Comer Kidd, um dos pesquisadores do estudo, "realmente o autor está no controle, e o leitor tem um papel mais passivo". Na ficção literária, como nas obras de Dostoiévski, "não há uma voz única e abrangente", disse ele. "Cada personagem apresenta uma versão diferente da realidade, e elas não são necessariamente confiáveis. Você precisa participar como leitor dessa dialética, o que é realmente algo que você precisa fazer na vida real."

Emanuele Castano, professor de psicologia e outro autor do estudo, acrescentou que, em muitos casos, "a ficção popular parece mais focada na trama". "Os personagens podem ser intercambiáveis e geralmente mais estereotipados na forma como são descritos."

Em um teste, os pesquisadores da Nova Escola de Pesquisas Sociais, em Nova York, pediram a pessoas que haviam acabado de ler determinados trechos por poucos minutos que estudassem fotos de pares de olhos e encontrassem um adjetivo que melhor descrevesse a emoção demonstrada em cada fotografia.

Será que a mulher de olhar enevoado está perplexa ou duvidosa? E o homem de olhos semicerrados, estará desconfiado ou indeciso? Ela está interessada ou irritada, sedutora ou hostil? Será que ele está fantasiando ou se sentindo culpado, está dominante ou horrorizado? Ou estará chateado pelo fato de suas ações de uma empresa de tecnologia terem perdido meio por cento na Nasdaq num pregão noturno depois das últimas notícias sobre o Oriente Médio? (Estou brincando -essa última alternativa não estava no teste.)

Os pesquisadores concluíram que pessoas que leram ficção literária tiveram resultados melhores do que quem leu ficção popular ou não ficção.

Quem leu ficção popular cometeu tantos erros quanto quem não leu nada, descobriram eles.

Há muita coisa que o estudo não aborda: passar três meses lendo Charles Dickens ou Jane Austen produziria efeitos maiores ou menores, ou não teria influência? Será que os resultados se manteriam se a mesma pessoa lesse todos os tipos de material?

Seja como for, Erdrich, a romancista, disse que o estudo a fez se sentir "pessoalmente animada".

"Os escritores costumam ser solitários obsessivos, especialmente os literários. É legal que digam que o que escrevemos tem valor social", afirmou ela.

"No entanto, eu continuaria escrevendo mesmo que os romances fossem inúteis."

Igualdade nas tarefas de casa é ‘importante questão de direitos humanos’, afirma relatora da ONU

Manifestação contra o machismo e o sexismo em São Paulo este ano. Foto: ABr/Marcelo Camargo
Manifestação contra o machismo 
e o sexismo em São Paulo este ano. 
Foto: ABr/Marcelo Camargo
A relatora especial das Nações Unidas para a Pobreza Extrema, Magdalena Sepúlveda, afirmou que as tarefas domésticas têm de ser encaradas como uma responsabilidade social e coletiva, não podendo ser consideradas como trabalhos apenas de mulheres.
Para iniciar um debate em torno da questão, Magdalena Sepúlveda apela “para que os Estados considerem as tarefas domésticas que não são pagas como um grande desafio aos direitos humanos”.
Sepúlveda explicou que “trabalhos domésticos que não são pagos são o fundamento de todas as nossas sociedades, e crucial para o crescimento da economia e para o desenvolvimento social”.
No entanto, estes trabalhos majoritariamente atribuídos ao gênero feminino “têm sido muitas vezes neglicenciado ou tomado como garantido pelos gestores políticos”, disse.
A relatora afirmou que “isto acaba por ter um enorme impacto na pobreza que as mulheres enfrentam e no desfrute dos seus direitos”, uma vez que estas, tanto em países desenvolvidos como em desenvolvimento, trabalham muitas mais horas realizando este tipo de tarefas do que os homens. No fim, as recompensas e o reconhecimento que recebem por este tipo de trabalhos é muito insignificante.
“A fim de se atingir o verdadeiro empoderamento das mulheres, devemos assegurar que este tipo de tarefas é mais valorizado, apoiado e partilhado tanto pelos homens como pelo Estado”, defendeu Sepúlveda.

Artistas brasileiros dão cartão vermelho ao trabalho infantil

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) está relançando a campanha “Cartão Vermelho ao Trabalho Infantil”, que já conta com o apoio de diversos artistas de fama mundial como a atriz Cher, premiada com o Oscar. Artistas brasileiros de renome, como Wagner Moura, Camila Pitanga, Gilberto Miranda, Priscila Camargo, Osmar Prado, Bete Mendes e Dira Paes posaram para fotos e gravaram vídeos para a campanha.
A OIT lançou a primeira campanha do cartão vermelho em 2002 para sensibilizar a opinião pública sobre o trabalho infantil. Oito anos mais tarde, a II Conferência Global sobre Trabalho Infantil, que ocorreu em Haia, comprometeu-se com a eliminação das piores formas de trabalho infantil em 2016. Embora durante a última década o número de crianças que trabalham no mundo tenha se reduzido em um terço até chegar a 168 milhões, os progressos foram lentos. Os 152 países que participaram da III Conferência Global, realizada entre 8 e 10 de outubro em Brasília, renovaram seu compromisso para alcançar este objetivo.
Metade das crianças que trabalham está presa nas piores formas de trabalho infantil. Trabalham em campo, em minas ou em fábricas e podem ser vítimas de abuso sexual, exploradas pelo tráfico de drogas ou forçados a alistar-se em milícias ou exércitos.
Além de Cher, os atores Susan Sarandon, Tim Roth, Jon Tenney, Olivia Wilde, Jason Sudeikis e Rob Morrow apoiam a campanha. Também aderiram atletas dos Estados Unidos e das Filipinas. O Mundial de Futebol de 2014 e as Olímpiadas do Rio em 2016 serão grandes eventos de mobilização para a campanha.
A OIT é a agenda da ONU especializada no mundo do trabalho e tem o maior programa do mundo para a eliminação do trabalho infantil. Este programa contribuiu para liberar três milhões de crianças em todo o mundo.
Nos endereços abaixo podem ser vistas as participações dos artistas brasileiros na campanha:

http://www.oit.org.br/content/artistas-brasileiros-dao-cartao-vermelho-ao-trabalho-infantil

Candidatas transexuais do Enem dizem ter sofrido constrangimento

Aluna disse que teve que assinar formulário para candidatos sem RG.

Mercadante afirmou que MEC vai estudar se é possível mudar formulário.

Ana Carolina Moreno
Do G1, em São Paulo

A transexual Ana Luiza Cunha da Silva, de 17 anos, foi tratada como se tivesse perdido o RG no Enem (Foto: Arquivo pessoal/Ana Luiza Cunha da Silva)A transexual Ana Luiza Cunha foi tratada como setivesse perdido o RG no Enem(Foto: Arquivo pessoal/Ana Luiza Cunha da Silva)
Candidatas transexuais que fizeram a edição de 2013 do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) relataram que sofreram constrangimento na hora de apresentarem o documento de identidade aos fiscais das salas de prova no sábado (26). Como usam um nome social diferente do nome indicado no documento de identificação, duas estudantes transexuais disseram que só receberam o caderno de provas no primeiro dia depois de um longo processo de conferência de dados. Uma delas foi tratada como se houvesse perdido o documento de identidade.
Procurado pelo G1, o Ministério da Educação afirmou na tarde deste domingo (27) que os casos estão sendo verificados.
Em entrevista coletiva na noite deste domingo, o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, afirmou que ouvirá entidades representantes de transexuais para "ver se é necessário ter um procedimento especifico" e se os procedimentos de segurança permitem a alteração do formulário de inscrição do Enem.
"Nunca tivemos nenhum problema sobre essa questão. Transexuais, bissexuais, que façam exame. O grande objetivo do Enem é a inclusão, com total respeito à identidade e diversidade. Se esta questão, de fato, tiver uma demanda, sentaremos com a entidade que os representa e dialogaremos com eles para ver se é necessário ter um procedimento especifico. Se for possivel, respeitando a segurança, poderemos fazer [mudanças no formulário]", afirmou ele.
Retirada da sala
A estudante Ana Luiza Cunha de Silva, de 17 anos, afirmou que já estava sentada na carteira, com seu cartão de respostas do Enem, quando foi retirada da sala em que estava, em Fortaleza, e teve que passar por duas salas até ser liberada para fazer as provas de ciências humanas e ciências da natureza no sábado. Segundo ela, todo o processo durou entre 15 e 30 minutos, mas ela não chegou a perder tempo de prova porque chegou ao local do exame antes mesmo da abertura dos portões.
Ana Luiza, que adotou seu nome social aos 14 anos, conta que primeiramente foi levada à sala de uma subcoordenadora do Enem no seu local de provas. "Ela foi verificar a identidade, e perguntou por que não mudei meus documentos", explicou. A adolescente explicou que já procurou seu advogado para fazer o trâmite, mas que, segundo ele, no Brasil só é possível iniciar o processo de troca do nome civil após os 18 anos, que ela só vai completar em março de 2014.
Ela foi então encaminhada a outra fiscal do Enem, que, depois de conversar com ela, a fez preencher o formulário usado para identificar os candidatos que não estão com os documentos oficiais. "Ele me perguntou informações, o telefone fixo, o nome dos meus pais, e tive que assinar três vezes."
A situação, segundo Ana Luiza, não se repetiu no segundo dia de provas. "Hoje [domingo] eles inclusive me pediram desculpa por terem feito perder um pouco de tempo. As moças hoje todas foram super educadas comigo. O jeito que me trataram foi bem melhor. Acho que foi surpresa [para as fiscais] porque a foto estava muito diferente. Me trataram como se a identidade não fosse minha. Não vi nenhum tipo de defeito, mas acho que estavam de certa forma despreparados."
Beatriz Trindade, de 19 anos, sofreu constrangimento no primeiro dia do Enem por ser transexual (Foto: Arquivo Pessoal/Beatriz Marques Trindade)Beatriz Trindade, de 19 anos, diz ter sofridoconstrangimento no Enem por ser transexual(Foto: Arquivo Pessoal/Beatriz Marques Trindade)
Meia hora na porta da sala
Beatriz Marques Trindade Campos, de 19 anos, mora em Sete Lagoas (MG) e explicou ao G1 que fez o Enem pelo segundo ano consecutivo e que o comportamento dos fiscais foi o mesmo: no primeiro dia, surpresos com o fato de seu RG ter um nome masculino e uma foto com a qual ela não se parece mais, os fiscais a trataram com desconfiança e demoraram para liberar sua entrada à sala de provas. "Perguntaram se era eu mesma, coisas assim, mas no final deixaram entrar", contou ela. No segundo dia, como os fiscais são os mesmos, a entrada é automática.


Como o processo de conferência da identidade acontece em frente aos demais candidatos, Beatriz, que fazia a prova em uma sala cheia de homens, já que a alocação dos estudantes é feita em ordem alfabética, disse que ficou constrangidas com a situação à qual foi submetida durante todo o tempo que os três fiscais levaram para autorizar seu acesso ao Enem.
Beatriz também reclamou do fato de o formulário de inscrição do Enem não prever que candidatos e candidatas transexuais anotem o nome social pelo qual querem ser tratadas no processo de aplicação e correção do Enem. Na faculdade particular em que estuda direito, a jovem afirmou que usa seu nome social nas listas de presença e também nos demais trâmites.
Ela reconhece que o problema de inclusão e aceitação dos transexuais não é uma questão só do exame, mas de toda a sociedade brasileira, e que até a questão de se ter um nome civil e um social é apenas um "tapa-buraco" para a situação. "O que solucionaria de vez todos esses problemas é uma legislação específica para a troca de nome civil. Mas enquanto não acontece isso o MEC poderia ajudar, estar mais atento para isso."
Ana Luiza também disse que sentiu falta de uma opção para transexuais no formulário de inscrição do Enem. "Pensei em colocar [a opção] de deficiente, mas meu pai falou para não colocar nada", explicou ela. A mãe da adolescente, Cláudia Cunha da Silva, de 39 anos, disse que a família já vem estudando as medidas necessárias para que a filha não passe mais por esse tipo de situação, e que nesta segunda-feira (28) vai ao cartório para pegar informações sobre o processo de mudança de nome.
"A gente tem que passar por um processo grande de evolução", afirmou Cláudia. "Nesse caso não existe só ela, existem vários candidatos."

domingo, 27 de outubro de 2013

Não, mulheres sauditas, não dirijam

Cena do vídeo “No Woman, No Drive”. 
Crédito Reprodução
Há uma série de violações aos direitos humanos ao redor do mundo, e nos países de cultura árabe os exemplos são diversos. Lemos essas histórias todos os dias, nos jornais. Regimes massacrando populações com morteiros e armas químicas, homossexuais apedrejados, crianças impedidas de estudar. Não preciso fazer a lista.

Mas, nesse rol de crimes, a proibição de mulheres assumirem o volante na Arábia Saudita parece especificamente interessante ao Ocidente. A história de muçulmanas proibidas de ir e vir, obrigadas a depender de guardiões masculinos, é uma das notícias que nos servem de lembrete de todos os avanços que ainda são precisos na península Arábica.

Tenho uma relação pessoal com essa história. Foi uma das primeiras reportagens que escrevi, em 2011, para a editoria internacional da Folha, quando consegui uma entrevista exclusiva com uma das mulheres que foram presas por desafiar a proibição ao volante no reino saudita. Também por me interessar pela história da península e pelos direitos humanos na região, costumo manter contato frequente com ativistas locais a respeito do tema.

Hoje, diversos deles publicaram em suas redes sociais o vídeo de um grupo de artistas fazendo uma sátira sagaz à questão do volante no país. Os sauditas Hisham Fageeh e Fahad Albutairi se uniram com o iraniano-saudita Alaa Wardi para gravar “No Woman, No Drive” (não, mulher, não dirija), uma sátira da canção “No Woman, No Cry” (não, mulher, não chore), de Bob Marley. O vídeo está disponível aqui.

A campanha, que se tornou viral em menos de um dia, inclui uma abordagem criativa e crítica que lembra os ocidentais de que as populações no Oriente Médio não apenas estão cientes de suas questões sociais, mas também reagem de maneiras variadas. Em um trecho da canção, Fageeh canta que os “ova-ovários estão seguros e bem”, parodiando o trecho “ob-observing the hypocrites” da canção original. Recentemente, um clérigo saudita havia dito que dirigir prejudicava os ovários das mulheres no reino saudita.

Confiram, é claro, a cobertura da Folha a respeito desta história. A notícia de manifestações a favor da liberação do volante está aqui. Enquanto isso, veja abaixo o vídeo, com legendas em árabe e em inglês, sobre “um dia em que as mulheres se sentavam no banco de trás”.



http://orientalissimo.blogfolha.uol.com.br/2013/10/27/nao-mulheres-sauditas-nao-dirijam/

O que podemos aprender com criança de cinco anos

por Ana Cássia Maturano

Não canso de me surpreender com as crianças e dos belos exemplos que elas nos dão. Muito se tem falado do consumismo exacerbado e de como estamos criando nossos filhos nesta ideia. Apesar dos pais se queixarem de que os pequenos pedem a todo o momento para comprarem coisas, o certo é que não nasceram assim. Adquirem, deixam de lado, para logo em seguida requisitarem outro produto.

Os adultos também têm agido desta maneira. Estão sempre comprando e procurando atender aos desejos das crianças. E tudo se transforma numa bola de neve, que parece nunca ter fim ou bastar. Talvez possamos aprender com os pequenos algumas coisas.
No Dia das Crianças, um garotinho de cinco anos, que ainda não tinha ganhado nada, foi levado pelos pais a uma grande loja de brinquedos. Assim que chegou, disse querer um jipe que custava mais de dois mil reais. Diante da negativa seguida de uma justificativa, sem stress algum, passou a olhar com atenção vários itens. Os pais ofereciam um ou outro que cabia no orçamento, até que triunfante disse ter achado o que queria: um baldinho com soldadinhos. Há tempos havia pedido para a mãe este brinquedo.
Como estava muito abaixo do orçamento previamente combinado, os pais pensaram em permitir-lhe que escolhesse mais alguma coisa, mas um deles desistiu da ideia. Afinal, o menino havia escolhido o que queria, parecia muito satisfeito e o combinado era apenas um brinquedo. Na cabeça dos pais, devido ao valor, era muito pouco aquilo. Puderam, no entanto, rapidamente não cair no engano de ensinarem o filho que o que vale num brinquedo é o quanto ele custa, não o que significa.
Mas este sábio garotinho, meses atrás, havia surpreendido sua mãe numa outra situação de compra. Diante de ele pedir muito que queria um brinquedo novo qualquer, ela o levou a uma loja de R$1,99. Depois de muito olhar os produtos e sem conseguir se decidir, justificou-se: “Mãe, eu já tenho tudo!” Com sua pouca idade, este menino conseguiu discriminar o que realmente precisava: Um brinquedo diferente e não simplesmente comprar algo. Ou, indo além, na ânsia de comprar ficou pedindo, mas ao constatar a realidade viu que não era necessário.
Quando me deparo com histórias assim, vejo o quanto o desejo de compra é maior nos pais, cujo comportamento acaba influenciando os filhos. Lembro-me de uma mãe que queria fazer a coleção dos cinco personagens de um desenho animado para a filha, que não tinha muito interesse nisso. E de outra que comia os vários lanches de uma rede de fast food para conseguir todos os brindes para sua pequena.
O que essas crianças aprenderam? Provavelmente que não basta ter um, é preciso ter todos. Ou seja, adquirir muito torna-se uma necessidade.
Quem sabe se ajudarmos os filhos a discriminarem o que realmente querem ou precisam, eles não se tornarão pessoas compulsivas em comprar. Como este garoto de cinco anos. Este exercício, no entanto, deve partir dos adultos, cujos exemplos têm um significado importante na conduta dos pequenos.
O protagonista dessas histórias tem brincado todos os dias com seus soldadinhos.

Macho man

Grosseria de um tea partier com a mulher sugere que a obsessão desses radicais contra os mais fracos oculta o medo da ascensão feminina

Lee Siegel
Sai fora. Vencido por um negro, Lonegan se irrita até com o afago da esposa - Reprodução
Reprodução
Sai fora. Vencido por um negro, Lonegan se irrita até com o afago da esposa
Pouco depois de o mundo inteiro assistir, com desprezo, ansiedade e fascínio, aos EUA oscilarem à beira de um calote de sua dívida, um gesto singelo no grande palco político talvez possa explicar a fanática disposição do Tea Party de humilhar o país que afirma amar.

Quase no mesmo momento em que Obama e os republicanos chegavam a um possível acordo sobre a dívida - desamarrando com isso o governo e salvando a economia -, o democrata Cory Booker, que é negro, derrotava o candidato do Tea Party, Steve Lonegan, na disputa por uma cadeira aberta para o Senado em New Jersey. Enquanto Lonegan fazia o pronunciamento de admissão da derrota, sua mulher pôs uma mão solidária em seu ombro. Lonegan afastou rudemente a mão.

Ali estava, em resumo, a causa da loucura destrutiva e autodestrutiva do Tea Party. Uma passagem de um ensaio de D. H. Lawrence me veio à lembrança: “O homem é um fenômeno sobre a face da Terra. Mas os fenômenos têm suas leis. Uma das leis do fenômeno chamado ser humano é que, se esse ser for mortalmente ferido em seu fundamento sexual, sua reação resultará finalmente em alguma forma de matança”.

Sentindo-se derrotado, emasculado por Booker, Lonegan claramente não conseguiu suportar a mão consoladora da mulher, que só aguçou seu sentimento de ter sido castrado. Permitam-me especular mais um pouco. Ser derrotado por um negro, sobre quem, ademais, correm rumores de ser gay, foi um golpe triplamente esmagador para Lonegan. Naquele momento, a força de uma mulher se tornou insuportável para ele. Lonegan, e milhões de homens como ele, foram mortalmente feridos em seu fundamento sexual.

Há muitas razões para a alienação e o ódio sentidos pelo Tea Party e seus simpatizantes. A economia do país está mudando num ritmo acelerado na medida em que empregos na indústria manufatureira e atividades de escritório obsoletas estão sendo substituídos por trabalhos relacionados à internet que tornam o trabalho manual ultrapassado, mas também requerem uma proficiência intelectual em áreas altamente técnicas e tecnológicas. A situação demográfica do país sofre igualmente uma rápida transformação. Dentro de alguns anos, os brancos serão minoria.

Mas a tendência mais fundamental, e, na experiência desses brancos de meia-idade que estão se tornando economicamente dispensáveis e politicamente impotentes, ainda mais desestabilizadora, é a ascensão das mulheres. 

A emancipação das mulheres começou nos anos 1970, mas somente agora entrou numa fase em que se tornou uma nova norma estrutural. Para todo lado que se olhe, elas estão em ascensão. Lideram corporações, comandam grandes jornais, sentam-se em cortes supremas, publicam romances importantes e livros de não ficção, são tema e autoras de um número crescente de filmes e programas de televisão. Mesmo que Hillary Clinton perca a corrida para a presidência em 2016, sua proeminência tornará a realidade de uma mulher presidente uma questão de anos nos EUA. E se ela perder, perderá por uma margem significativamente pequena.

Já é bastante difícil para muitos homens se sentirem subordinados a mulheres no local de trabalho e culturalmente. Para homens que foram humilhados e privados de poder pela economia, a ascensão das mulheres é insuportável. Contrariedades no âmbito de dinheiro e sexo são traumas básicos. 

A direita deste país diz que teme o paternalismo do governo grande, mas isso é impreciso. O que ela teme é o maternalismo do governo grande. Para homens feridos em seu fundamento sexual, a mais leve amostra de compaixão é uma ameaça à vida. Essa é a fonte do ódio conservador contra as reformas da saúde de Obama, apesar de essas reformas virem a salvar a vida de muitos desses conservadores. Essa é a fonte do amor da direita pelas armas, mesmo depois de eventos como o massacre de Newtown. Em algum lugar nas profundezas de seu subconsciente ferido essas pessoas devem sentir, mesmo que seu consciente se horrorize ante o pavor da violência, alguma satisfação por haver gente sofrendo mais do que elas. Essa ascensão das mulheres é a fonte de sua recusa em apoiar a ajuda federal a mães pobres, a crianças em idade escolar pobres, ao fraco e ao idoso. Qualquer tipo de ajuda do governo é como o toque terno, compassivo, maternal, da mulher de Lonegan. É um insulto intolerável, uma ajuda fatal.

Seria fácil manter distância e zombar desse pessoal por suas angústias e inseguranças, mas é desumano não se compadecer dele. Como pai de uma menina de 3 anos, eu sinto apenas felicidade e empolgação pelo fato de as mulheres estarem finalmente se emancipando. Outro dia, um menininho empurrou minha filha para o lado no playground - e ela pediu desculpas. Meu coração se apertou. Não quero viver numa sociedade em que as mulheres sejam encorajadas a pedir desculpas quando se sentem injustiçadas. Não duvido que, em razão dos avanços que as mulheres estão fazendo agora, minha filha, quando crescer, jamais venha a ter de se desculpar para qualquer homem que a trate indignamente.

E não sinto a menor compaixão pelos homens que continuam a maltratar mulheres em estratos da sociedade aos quais a emancipação feminina ainda não chegou. Enquanto juízas, advogadas, médicas, políticas, artistas, avançam a passos largos, garçonetes, faxineiras, secretárias e outras continuam sofrendo a ira vingativa de egos masculinos feridos. As mulheres educadas, afluentes, não deveriam se sentir triunfantes em sua nova posição na sociedade até que todas as mulheres estejam emancipadas e protegidas.

Mas há também muitos homens decentes que apoiam o Tea Party porque não veem outro lugar para onde se voltar. Eles foram realmente esquecidos pela cultura e pelos grupos sociais recém-estabelecidos. Aliás, o Tea Party em si, por ser tão desligado da realidade e tão disfuncional em suas demandas, está a poucos anos apenas da extinção. Se os americanos quiserem uma sociedade mais justa, terão de tentar ajudar esses homens abandonados a recuperar a saúde, sem fazer a menor concessão a sua doença. / Tradução de Celso Paciornik

Triste história de amor afegã

‘Wajma’ expõe as contradições de uma sociedade que busca uma modernidade atrelada ao peso do passado


Ubiratan Brasil - O Estado de S. Paulo

Cena de 'Wajma' - Reprodução
ReproduçãoCena de 'Wajma'
O que promete ser uma love story termina em uma quase tragédia – Wajma, de Barmak Akram, é o concorrente do Afeganistão na disputa do Oscar de melhor produção estrangeira do próximo ano. E pode despontar com grandes chances. Afinal, o longa se equilibra no contraste entre modernidade e tradição, que marca o país.

Wajma é uma jovem de classe média, que se prepara para entrar na faculdade de advocacia. Ela vive em Cabul, com a mãe, a avó e o irmão – o pai trabalha no interior do Afeganistão, à caça de minas explosivas ainda escondidas em diversos territórios. A ausência paterna facilita seu namoro escondido com Mustafa, rapaz que trabalha como garçom em um restaurante.


Apesar de esclarecida, Wajma cede ao assédio do namorado e engravida. É o suficiente para seu mundo começar a se desintegrar. Nesse momento, o filme de Akram atinge a fronteira da tradição – até então, a vida moderna e seus costumes ditam a rotina de Wajma e sua família, mas, a notícia da perda da virgindade descortina a verdadeira realidade. O pai da moça retorna imediatamente para casa, a fim de reparar a desonra que ameaça a família.


Sua raiva é revelada em uma das cenas mais tensas do filme. Ele agride a filha com tapas e palavrões, não admitindo desculpas. E, a fim de esconder a vergonha, tranca a moça em quartinho, onde passa fome e frio.


A solução do pai está em procurar Mustafa e tentar convencê-lo a se casar com Wajma. O moço, entretanto, nega-se, dizendo desconfiar da virgindade da jovem, pois “ela nem sangrou”. Assim, não resta outra solução que não exilar a garota, onde terminará a gestação escondida e com possibilidade zero de retornar com a criança, que será direcionada para adoção.


Wajma desponta como uma fabula contemporânea sobre a moral, em que o sentimentalismo e o comportamento de risco tornam-se elementos secundários quando a honra da família está em jogo. A importância é tamanha que o pai de Wajma, ao procurar Mustafa, implora: “Minha vida está em suas mãos. Estou desonrado, temo pelo pior”.


O desespero é tamanho que o homem procura um promotor a fim de calcular a consequência que enfrentaria se mandasse assassinar o rapaz. Descobre que, como não conseguiu flagrar o momento da desonra, acabaria na cadeia caso planejasse a morte.


A fim de ressaltar a crueza da trama, Barmak Akram filmou com a câmera na mão, em estilo documental e enquadramentos furtivos. O resultado é um longa dolorosamente realista, no qual o subtítulo, Uma História de Amor Afegã, traduz com ironia a dualidade em que vive o Afeganistão moderno, dividido entre aceitar a influência ocidental e a base social ancorada em regras tradicionais.


Nesse sentido, o personagem Mustafá ganha relevo. Afinal, no início da história, ele age como um metrossexual, interessado em sua beleza e também em atrair Wajma para um relacionamento moderno. Quando percebe estar envolvido em um grande problema, ele recua e se protege na lei secular que garante ao homem privilégios em relação à mulher. Sua fraqueza revela uma fragilidade e também o grande desafio imposto a uma sociedade que ainda busca acertar sua identidade.

Nutrimos uma preocupação constante com a opinião alheia, mas será esta tão importante?

Nossa colunista Marcia de Luca fala sobre os valores pessoais e a aceitação de opiniões alheias

Marcia de Luca

Você já ouviu falar do conceito de sombra? Para entendê-lo, precisamos primeiro compreender a dualidade inerente à vida. Pense na luz e na sombra, no sagrado e no profano, no divino e no diabólico, no feminino e no masculino. Esses e tantos exemplos mais são como os dois lados de uma mesma moeda: inseparáveis.E o detalhe é que, em diferentes aspectos, todos nós possuímos sempre os dois lados -e precisamos aceitá-los sem ficar colando o rótulo de bom ou ruim em cada um deles.

Segundo o psicanalista suíço Carl Jung, porém, a tendência é ignorar nossas fraquezas e nossos defeitos, projetando-os nos outros. Muitas vezes não nos sentimos suficientemente legais e nossa autoestima lá embaixo nos traz mais insegurança ainda. Aí a saída pode ser transferir nossas deficiências. Assim, tentamos culpar as pessoas, acusando-as com base em nossas perspectivas.

Recorremos à projeção como uma arma poderosa de defesa. Ela é um mecanismo que nos protege contra a tão temida rejeição.E é por uma necessidade básica do nosso ego que nutrimos uma preocupação constante com a opinião alheia sobre nós mesmos. Mas será que ela é, de fato, tão importante? Acho que valiosa é a certeza de que estamos pensando e agindo dentro da nossa verdade - sim, porque a verdade é algo subjetivo e relativo.

Uma grande sacada é aprendermos que não precisamos ter sempre razão. Podemos simplesmente aceitar a opinião alheia mantendo a nossa integridade. Nas relações amorosas, no entanto, tendemos a criticar e a julgar no outro tudo aquilo que não aceitamos em nós mesmos. Esse comportamento recebe o nome de "espelho dos relacionamentos". Ou seja, o que você vê no parceiro nada mais é do que uma projeção de si. Quer dizer, ele passa a ser a sua sombra!

Ter consciência das próprias ações é o primeiro passo para mudar. Sugiro, então, que se empenhe em banir esse padrão nefasto, substituindo-o por um novo. Afinal, só conseguimos eliminar um hábito quando temos outro para colocar no lugar. Fácil? Nem tanto, embora seja bem possível. Basta ter uma intenção firme, muita disciplina para empreender um esforço moderado (nunca extremo!)e dar tempo ao tempo.É dessa forma que chegamos lá.

Para evoluirmos como seres humanos,é primordial aprendermos a nos aceitar exatamente como somos, sem tirar nem pôr. Portanto, de agora em diante, em vez de qualidades e defeitos, que tal enxergarmos apenas características? Somos o que somos. Simplificando, a sugestão é eliminar da sua vida a necessidade de julgar e criticar as pessoas. Para tanto, observe tudo que não gosta no outro e procure esses traços de personalidade dentro de você -e não se assuste se encontrar! Pesquise e se conheça mais. Repare que, em contrapartida, há uma empatia natural com pessoas que possuem as características que você mais aprecia em si mesma.

Para ajudar no processo, entenda também que cada um se comporta conforme o nível de evolução em que se encontra e devemos respeitar isso. Se você começar a agir dessa maneira, com altas doses de compreensão e até de compaixão, desencadeará ao seu redor um círculo virtuoso, beneficiando-se com a infalível lei do Universo de ação e reação. Quem é benevolente com todos, sem dúvida, receberá igual energia na imensa maioria das vezes.E aí o dia a dia fica muito mais fácil. Compromisso firmado? Então, vamos que vamos rumo ao bem-viver.

MARCIA DE LUCA é especialista em ioga, meditação e ayurveda e uma das idealizadoras do movimento Yoga pela Paz. Também assina a coluna "Viva melhor", na revista BONS FLUIDOS