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terça-feira, 2 de agosto de 2016

Prostituição infantil com vistas para o Parque Olímpico


Polícia Civil do Rio lança operação para prender quadrilha que explorava sexualmente adolescentes em apartamento de luxo


Rio de Janeiro 


A proposta pode parecer um sonho para qualquer jovem querendo ser famosa. A “Bolsa de Estudos Completa para modelos e candidatas a miss” inclui moradia em um apartamento de luxo com vistas para o Parque Olímpico, alimentação balanceada completa, serviço de limpeza e lavanderia, motorista particular em carro de luxo, ensaios fotográficos, academia, festas, viagens e até massagens. Tão bom, quanto suspeito. Os benefícios eram anunciados num site (sonhosdemodelo.com), que prometia investir nas carreiras de jovens, entre 14 e 21 anos, com talento e “desejo ardente de ser modelo, atriz, ou cantora”. A realidade, porém, era bem outra.
Uma investigação da Polícia Civil do Rio de Janeiro descobriu que atrás das promessas há uma quadrilha de exploração sexual de menores. Graças ao site e outros anúncios em redes sociais, os chefes da gangue, Márcio Garcia, de 33 anos, e Jonathan Alves, de 24, conseguiam atrair adolescentes para se prostituírem. A dupla mantinha alugados há um ano três apartamentos em um condomínio de luxo na Barra de Tijuca, de frente para o Parque Olímpico. "Tudo aponta que a intenção deles era aproveitar o aumento da demanda por causa da Olimpíada", explica a delegada responsável do caso, Cristiana Bento.
Um dos apartamentos servia de residência a pelo menos quatro adolescentes. Decorado com paredes rosas e desenhos de Hello Kitty e das Meninas Superpoderosas, era monitorado por câmeras 24 horas. Elas nunca saíam de casa sozinhas, submetidas a uma espécie de cárcere privado, segundo apurou a polícia com os vizinhos, que vinham reclamando há tempos do barulho das festas do grupo. No mesmo prédio, mas numa cobertura de luxo, com jacuzzi no terraço, morava Marcio, o líder da quadrilha, um homem obcecado com os próprios músculos, amante das armas, e que se define no Instagram como um “empresário entre Miami e Rio”. No terceiro apartamento residia Jonathan, o gerente e homem dos recados de Márcio. Jonathan exibia enormes relógios e cordões de ouro e brincava, nas redes sociais, entre carros de luxo: “Todos os dias de manhã essa indecisão! Nunca sei com qual eu vou!”
Quando os agentes bateram na porta dos apartamentos nesta quinta-feira não tinha mais ninguém. Entre os objetos apreendidos havia lingerie, testes de HIV, de sífilis, pílulas do dia seguinte, algemas, preservativos e um monte de anabolizantes. As investigações apontam o possível vínculo da gangue com o tráfico internacional de drogas e revelam o alto padrão de vida dos líderes, que ostentavam nas suas contas das redes sociais seus músculos, suas viagens, e carros. Ambos, foragidos e com mandados de prisão decretado, tinham namoradas menores de idade.

Segunda operação às vésperas dos Jogos

Esta é a segunda operação em menos de um mês que persegue a prostituição infantil voltada aos Jogos Olímpicos, que começam no Rio no dia 5 de agosto. Semanas atrás, três adolescentes foram resgatadas na orla da praia do Recreio, a 11 quilômetros do Parque Olímpico. Entre elas estava Carol*, de 17 anos, que considera-se uma “mulher independente” desde os 10. Parou de estudar na quinta série e não tem familiares para quem ligar nem muito menos pedir dinheiro. Na prostituição desde os 12 anos, costuma se exibir em vários pontos da cidade do Rio.
Luciana, de 17 anos, começou a se prostituir para se sustentar há cerca de um ano, quando foi expulsa de casa pela própria mãe ao denunciar que seu padrasto quis estuprá-la. A mãe da adolescente não acreditou e cortaram toda comunicação. Hoje Luciana se prostitui a 40 quilômetros da sua casa.
Maria chorou quando perguntada por que se prostitui.Tem 16 anos e transa com homens em troca de dinheiro desde os 15. Sua mãe, faxineira desempregada, sabe e a repreende, mas ela não obedece e todos os dias sai da sua casa em Duque de Caxias para transar a quilômetros dali, na região mais frequentada durante os Jogos.
A ação envolveu 90 agentes públicos, entre policiais, procuradores e serviços sociais da Prefeitura mas apenas atingiu a ponta do iceberg de uma rede composta por, pelo menos, 40 meninas exploradas sexualmente e que ainda tinham que pagar 50 reais pelo seu direito de ocupar a rua. A suspeita da polícia e do Ministério Público é que os abusos de menores estejam se multiplicando nas vésperas de um evento como a Olimpíada. “Fatalmente é esperado um aumento em razão dos Jogos, e estamos atuando com prioridade em todas as informações de prática criminosa de que tomamos conhecimento”, afirma a promotora de Justiça Ana Lúcia da Silva Melo que assegura que as denúncias vêm aumentando nos últimos meses.
Sem políticas específicas para resgatar crianças vítimas de exploração sexual, operações como essa enxugam gelo, lamentam as autoridades consultadas. Carol, Luciana e Maria reconheceram no mesmo dia que iriam voltar para a rua. Duas semanas depois da ação policial, a praia do Recreio voltava a ser cenário de bordel.
*Os nomes das adolescentes foram trocados para proteger sua intimidade

Crescimento do tráfico humano está relacionado ao aumento de fluxos migratórios



O professor José Renato de Campos Araújo, do Observatório de Políticas Públicas da EACH, avalia que o intenso deslocamento populacional contribui para o aumento dos delitos relacionados ao tráfico humano
01/08/2016

Acompanhe a entrevista concedida à repórter Marcia Avanza..


Foto: Ira Gelb/Visualhunt
Foto: Ira Gelb/Visualhunt

Ação da Interpol, em 25 países, salvou mais de 2.7 mil vítimas de tráfico humano este ano. Também realizou 134 prisões e desmantelou sete redes de crime organizado. A informação da Polícia Internacional foi divulgada às vésperas do Dia Mundial de Luta contra o Tráfico de Seres Humanos: 30 de julho. O professor José Renato de Campos Araújo, do Observatório de Políticas Públicas da EACH, analisa essa questão dentro do atual contexto de intensa migração internacional. Ele também comenta o impacto que isso causa no cenário político de diferentes países.

Por que tão poucas?


Você já deve ter ouvido expressões como “isso é coisa de menino, isso é coisa de menina”. Embora as mulheres tenham conquistado espaços importantes na sociedade nas últimas décadas, os estereótipos ainda contribuem para que elas tenham baixa participação nas ciências exatas, segundo a pesquisadora e diretora do Instituto de Física da UFRGS, Marcia Barbosa.
No mundo todo, o percentual da participação feminina nas ciências exatas é em torno de 30%. Argumentos como o do talento inato – que propõem que pessoas nasçam com determinadas habilidades – ainda geram polêmica. Durante uma conferência, em 2005, o então reitor da Universidade de Harvard, o economista Lawrence Summers, declarou que a reduzida participação das mulheres nas ciências se explicaria por uma inaptidão das meninas para tais áreas. A declaração sem respaldo científico rendeu a Summers sua destituição do cargo. Para Marcia Barbosa, esse argumento não se justifica: “O menino é estimulado a se sujar, a se desafiar; se uma menina aparece suja, ela é xingada, quer dizer, não tem nada de inato aí, e sim de muito treinamento”, diz.
Com a pesquisa Mulheres na Física: Por que tão poucas? Por que tão lentamente?, Marcia avaliou bolsistas de Produtividade em Pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) entre 2001 e 2011, nas áreas de Física e Medicina. O estudo evidencia que na Física há apenas 10% de mulheres no nível 2 – o mais básico –, e à medida que se sobe na carreira essa taxa diminui ainda mais. Mesmo no caso da Medicina, em que o percentual de mulheres chega a quase 40% no nível 2, esse fenômeno também ocorre, e cai para 20% no nível 1A, que é dado a pesquisadores mais experientes na classificação do CNPq. Para a professora, além dos estereótipos sexistas, o que explica esse decréscimo é a maneira como a carreira é desenhada: “É feita de homens para homens. Para um perfil de alguém que pode fazer mestrado e doutorado sem nenhuma interrupção, como seis meses para cuidar de um filho”, afirma.

“Eu achei que estava no lugar errado no primeiro dia de aula”

Marcia Barbosa foi a primeira e única mulher a coordenar o Comitê de Física e Astronomia do CNPq. Mas desde muito cedo se acostumou a estar em menor número: “Eu achei que estava no lugar errado no primeiro dia de aula. Em uma turma de 40, éramos apenas quatro mulheres; no final do curso, só eu me formei”. Essa percepção de isolamento foi o que motivou Marcia a desenvolver a pesquisa sobre gênero.
Foi apenas no ano 2000 que a União Internacional de Física reconheceu o problema. Assim, foram formados grupos de trabalho para analisar o tema. Durante as conferências, percebeu-se o baixo percentual de mulheres nos 75 países participantes – um obstáculo que contribui ainda mais para que as estudantes se afastem. “Uma menina que goste de ciência, mas que não enxerga nenhuma mulher de destaque, não vai para a ciência”, enfatiza Marcia. No entanto, a negação do preconceito ainda persiste, particularmente no Brasil. A pesquisadora diz que a apresentação dos dados obriga as pessoas a reconhecerem sua existência. Ela vai além: “Eu costumo perguntar às pessoas quando foi a última vez que sentiram medo. Os homens normalmente lembram-se de um episódio antigo, engraçado. As mulheres vão se lembrar de algo daquela manhã: às vezes atravessando o campus, estando num elevador com um estranho, ouvindo um comentário de um professor. Além de executarmos nossas tarefas, ainda convivemos com o medo”.

Visibilidade e políticas afirmativas

Para mudar esse cenário, os grupos de trabalho têm desempenhado papel fundamental localmente. No Brasil, foi conquistado o direito de licença maternidade para bolsistas de mestrado, doutorado e produtividade. A pesquisa realizada por Marcia ainda se mostra estável, mas, de acordo com ela, as políticas de afirmação não tiveram tempo suficiente para dar resultado. Para a professora, a mudança mais significativa tem sido a construção de espaços por parte das mulheres para discutir essas questões nos eventos.
No ano de 2006, o censo escolar apontou que 58% dos concluintes do ensino médio eram meninas. No ano seguinte, mais da metade dos ingressantes e 60% dos concluintes no ensino superior foram do sexo feminino. As mulheres constituem a maioria dos estudantes do ensino superior brasileiro, segundo dados do IBGE/Censo 2010. Ainda que elas sejam maioria, na universidade concentram-se em cursos como Letras e Enfermagem. Na UFRGS, iniciativas como o Meninas na Ciência, do Instituto de Física, visam à promoção da presença das mulheres nos campos da ciência e da tecnologia. O projeto tem realizado ações nas escolas para incentivar o interesse das meninas pela ciência.
Em 2013, a diretora do Instituto de Física recebeu o prêmio L’Oréal Unesco para mulheres em função de sua pesquisa sobre anomalias da água. Para Marcia, prêmios que visibilizem o trabalho das mulheres são importantes para despertar o interesse feminino pela ciência. Por outro lado, ela também acredita que toda instituição de ensino deveria ter uma secretaria específica para tratar de gênero e corrigir comportamentos que gerem preconceito. Afinal, lugar de mulher é onde ela quiser, inclusive na Física.

Startup Weekend Women Florianópolis Friday, August 19 - 21, 2016

Venha compartilhar ideias, formar equipes e lançar sua startup!

O Startup Weekend é um evento que dura 54 horas ao longo de um fim de semana onde empreendedores, desenvolvedores, designers e entusiastas se unem para compartilhar ideias, formar equipes e criar startups. É o maior conjunto de eventos de startups do mundo, com edições realizadas em quase 700 cidades em todos os continentes.
Tudo começa na noite de sexta-feira, com o palco aberto para os participantes compartilharem suas ideias e inspirarem outros a se juntarem a seus times. As mais bem votadas são escolhidas. Durante o sábado e o domingo, os times se focam em encontrar um modelo de negócios e criar um produto viável mínimo, utilizando metodologias e ferramentas como Lean Startup, Business Model Generation e Desenvolvimento de Clientes. Durante a maior parte do tempo haverá mentores convidados à disposição dos participantes. No domingo, os times apresentam o que construíram e recebem feedbacks valiosos de jurados experts. Os melhores são premiados!
O local do evento disponibiliza toda estrutura necessária e tem ótima localização. No valor do ingresso estão inclusas refeições e coffee breaks, cuidamos de tudo para que suas horas sejam aproveitadas da melhor maneira para o sucesso de seu projeto.

Mas o que muda na edição women?
A principal diferença é que 75% dos organizadores, mentores, jurados e participantes são mulheres. Então, quer dizer que os homens não podem participar? Não... pelo contrário! A participação masculina é incentivada para que tenhamos também um equilíbrio maior nas equipes.
Com os números crescentes de mulheres empreendedoras, uma edição Women se justifica claramente, buscando mostrar a essas mulheres que tecnologia e inovação estão intimamente ligadas com empreendedorismo. Esse é o foco da edição Women. Reuniremos para esta edição especial, cerca de 100 empreendedoras de espírito talentoso, empresárias que já inspiram com seus cases, jovens aspirantes a empresárias, mulheres que tem alguma ideia de inovação e nem imaginam que seja capaz de se transformar em realidade, além de um time de mentoras que são destaques no cenário nacional com seus negócios de sucesso.
Inscreva-se e prepare-se para as 54 horas que irão mudar sua vida.

SEE WHAT IT'S ALL ABOUT

LEARN MORE



Friday, August 19 - 21, 2016 
Event starts at 6:00 pm 

Sebrae Santa Catarina
Rod. SC-401, Km 01 Lote 2 
Parque Tecnológico Alfa 
Florianópolis, SC 88030000

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Mulheres na Ciência 2016: O Gênero na Pós-Graduação - 08/08/2016

Local: Unesp Araraquara
Dia: 08 de agosto de 2016
Horário: 09h às 16h30

Um dia de palestras, apresentações de trabalhos e discussões entre mulheres e cientistas de sucesso da USP e da Unesp.


Convidadas:
Kaline Rabelo Coutinho, IF – USP
Cibelle Celestino Silva, IFSC – USP
Hideko Yamanaka*, IQAr – UNESP
Sidineia Barrozo, IQAr – UNESP
Lorena Oliveira Pires, IQAr – UNESP
Marian Rosaly Davolos, IQAr – UNESP
Dulce Helena Siqueira Silva, IQAr – UNESP


Projeto orienta profissionais que trabalham em farmácias sobre contracepção de emergência

30/06/2016
A professora Cristiane Cabral, docente do Departamento de Saúde Materno Infantil da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, participou juntamente com pesquisadores de outras instituições da construção do site piluladeemergencia.com.br, direcionado aos profissionais que atuam em estabelecimentos farmacêuticos e que traz informações e dados sobre contracepção de emergência, popularmente conhecida como “pílula do dia seguinte”.
Os autores do site esperam que farmacêuticos e balconistas esclareçam suas dúvidas e orientem consumidores sobre a medicação normalmente utilizada para a contracepção de emergência. O site é resultado de um esforço coletivo de uma equipe de pesquisa do Instituto de Estudos em Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com apoio da Faperj e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
Elaine Brandão, coordenadora da pesquisa, define o projeto como “uma investigação sócio-antropológica no âmbito das farmácias revelando a posição de farmacêuticos e balconistas sobre a contracepção de emergência”. Acesse aqui o site e baixe materiais disponíveis para download, como cartazes e cartilha.

SBPC dá visibilidade às mulheres cientistas em nova plataforma


Produzido pela SBPC, site “Ciência & Mulher” contará com conteúdo exclusivo e divulgação de estudos feitos por mulheres e sobre mulheres
Por 
26/07/2016


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A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) lançou um novo portal de divulgação científica, o Ciência & Mulher, voltado para as conquistas e descobertas de mulheres das diversas áreas da ciência. O novo site já está no ar e pode ser visitado no endereço www.cienciaemulher.org.br.
Para conquistar a paridade e combater a desigualdade entre gêneros na ciência, o site Ciência & Mulher tem como objetivo estimular a produção científica por mulheres, seu ingresso e permanência nas carreiras acadêmicas e o pensamento crítico a respeito das questões de gênero no País. O site dará destaque a pesquisas, estudos, publicações, livros e artigos produzidos por mulheres e sobre mulheres.
O novo portal produzirá também conteúdo exclusivo, como entrevistas, perfis, coberturas de eventos e notícias sobre mulheres na ciência. É possível acompanhar as notícias do site também através da página do Facebook da SBPC.
Ludmila Vilaverde/Jornal da Ciência

Pokémon e o sequestro do desejo

Novo jogo escancara: na vida urbana mediada pelo celular, as corporações definem o que nos falta — e nos vendem a reconfortante ilusão de que decidimos
Por Alfie Bown, na Roar  | Tradução: Inês Castilho
Este artigo tem um título clickbaity mas aponta uma questão simples e preocupante. Em 2010, o Google lançou aquilo que é hoje uma subsidiária muito importante, a Niantic Inc. A mega-empresa lança muitas filiais por ano e adquire outras, não há nada de especial nisso. A questão é: o caso da Niantic mostra que há mais do que desejo de poder econômico nesta expansão.
Seis anos depois de nascer, a Niantic chega às manchetes com o lançamento de seu maior jogo, o Pokémon Go. O público finalmente volta os olhos à empresa. Gente à esquerda propõe até mesmo boicotá-la. Na verdade, há vários anos a Niantic vem trabalhando na psicologia e organização social dos celulares. Uma análise dos dois maiores lançamentos da empresa, Ingress e Pokémon Go, revela algumas verdades importantes sobre o mundo em que estamos vivendo, o controle que as corporações exercem e o poder dos nossos celulares para organizar nossos desejos.
A Niantic desenvolveu seu primeiro grande jogo, o Ingress, em 2011. O jogo, um dos mais importantes dos últimos anos, é uma ferramenta ideológica chave para o Google – e ao contrário do Pokémon Go, é pouco divulgado. O Ingress tem sete milhões ou mais de jogadores e as tatuagens Ingress mostram a que ponto as pessoas se autodefinem pelo aplicativo. Alguns jogadores até descrevem o Ingress como um “estilo de vida” ao invés de um “jogo”. O leitor pode ser perdoado por pensar: “Eu não jogo, então por que isso se aplicaria a mim?” Mas o entretenimento criado pelo Google via Niantic alinha-se com o projeto mais amplo de regular nossos movimentos e experiências do mundo físico. Isso se aplica a você, a não ser que não use o Google ou qualquer de seus aplicativos, muitos dos quais já vêm em nossos celulares.
O Ingress reflete a tendência de desenvolvimento de aplicativos para celulares (que inclui Google Maps e o Uber, entre outros bem conhecidos) projetados para regular e influenciar nossa experiência de cidade, transformando o smartphone num novo tipo de inconsciente: uma força ideológica que guia nossos movimentos enquanto nos mantemos apenas semiconscientes do que nos move e da razão por que somos movidos nessa direção.
Inicialmente, considerei que a importância dos jogos para smartphones devia-se a uma espécie de “distração” – argumento que usei em meu livro e num artigo relacionado que escrevi para o The New Inquiry. Mais tarde, quando jogava Ingress pela primeira vez, percebi que havia muito mais do que isso. O Ingress, ao contrário de simplesmente nos distrair da cidade ao redor, na verdade nos treina para ser cidadãos perfeitos do Google. No Ingress, o jogador move-se ao redor do ambiente real capturando “portais” representados por marcos, monumentos e obras de arte públicos, assim como outras características da cidade. É necessário que o jogador esteja dentro da área física do “portal” para capturá-lo. Por isso, o jogo está sempre rastreando o jogador via GPS. Significativamente, não monitora apenas aonde vamos, mas nos dirige para onde deseja que a gente vá.
Como tal, é um complemento ao Google Maps, que também está desenvolvendo a capacidade não apenas de rastrear, mas de dirigir nossos movimentos. Claro, há muito tempo os algoritmos do Google determinam que restaurante visitamos, que cafés conhecemos e que caminhos percorremos para chegar a esses destinos. Agora, porém, o Google está desenvolvendo uma tecnologia nova que de fato prevê aonde você deseja ir com base no tempo, na sua localização pelo GPS e no seu histórico de movimentação habitual arquivado num sistema de registros infinitamente poderoso. Isso, como o Ingress, mostra um novo padrão emergente, no qual o smartphone dita nossos passos pela cidade e nos encoraja, sem que a gente se dê conta, a desenvolver padrões de movimento repetitivos e habituais. Ainda mais importante: tais aplicativos antecipam nossos próprios desejos, oferecendo-nos nem tanto  o que queremos, mas determinando o que desejamos.
Aqui é útil novamente a conexão com o conceito de inconsciente. Embora alguns autores tenham enxergado o inconsciente como um pântano de desejos não regulados, os seguidores da psicanálise de Freud e mais tarde de Lacan têm tido interesse em mostrar precisamente quão estruturado por forças externas é o inconsciente. Nossos smartphones fingem estar quase a ponto de preencher todos os nossos desejos, oferecendo-nos entretenimento sem fim (jogos), transporte fácil (Uber), acesso instantâneo a comida e bebida (OpenRice, JustEat) e até mesmo sexo e amor quase instantâneos (Tinder, Grindr). Contudo, mais assustador do que o fato de poder conseguir tudo o que você deseja via smartphone é a possibilidade de que o seu próprio desejo seja mobilizado por ele.
É precisamente nessa atmosfera que entra o Pokémon Go, lançado há apenas alguns dias, e desde já o lançamento de smartphone mais significativo de 2016. O jogo é, claro, construído por ninguém menos que o Niantic Labs. Uma série de eventos histéricos já surgiu a partir do campo minado ético que é o Pokémon Go. No caso do Ingress, foram feitos estudos acadêmicos sobre o fato de que o jogo mandou crianças pequenas a parques urbanos sem iluminação às 3 da manhã. Com Pokémon Go, a polícia australiana teve de enfrentar uma penca de treinadores de Pokémon que tentavam entrar numa delegacia de polícia para capturar um deles lá dentro — e algumas pessoas encontraram um cadáver ao invés de um Pokémon. Já foi sugerido que o Pokémon Go vai acabar matando alguém – e desde que esse artigo foi publicado alguém trombou com um carro de polícia e outra pessoa foi atropelada enquanto caçava os personagens. Mas, como no caso do Ingress, não é a aparição ocasional de uma história maluca que deveria nos preocupar, mas os efeitos psicológicos e tecnológicos da experiência de cada usuário.
A premissa do Pokémon Go é simplesmente que você usa seu GPS para encontrar Pokémons no ambiente real, e então usa sua câmera para torná-los visíveis, de modo que o mundo é “enriquecido” pelo ato de olhar, por meio da tela, para o que está atrás dela, como na imagem abaixo:
O próprio Pokémon é um fenômeno incrível que merece um estudo do tamanho de um livro. Talvez porque agora podemos dizer que o Pokémon é o exemplo perfeito do que Jacques Lacan chamou de “objet a”, aquele objeto de desejo fetichizado, adorável mas ilusório, que iria nos fazer felizes de verdade se pudéssemos colocar as mãos nele. Nós nunca colocamos, porque há sempre à mão uma versão mais nova, mais atraente e mais difícil de capturar!
As visões distópicas sobre para onde a tecnologia e os videogames apontam parecem ter algo de completamente errado. Os retratos do futuro distópico do videogame sempre tenderam a uma ideia de futuro em que cada indivíduo está isolado, sentado sozinho e quieto num quarto pequeno, conectado a um computador, somente através do qual sua vida pode ser vivida. Ou seja, a importância do ambiente físico é reduzida em favor do mundo eletrônico imaginário. Ao contrário dessas previsões do futuro, vivemos hoje numa distopia em que o Google e suas subsidiárias nos movem pela cidade em direções de sua escolha, loucamente e quase sem cessar, em busca de objetos de desejo, sejam eles um amante no Tindr, uma tigela de ramen japonês autêntico ou aquele ilusório Clefairy ou Picachu.
Nos anos 1990, os pais poderiam pedir a seus filhos que “brincassem na rua” para escapar às limitações do videogame; mas agora, são os jogos que nos fazem sair pilhados pela cidade, capturando portais, colecionando Pokémons e frequentando encontros. Mesmo sem considerar o total acesso que o Google tem a suas contas via Pokémon Go, isso nos revela algo de fato perigoso. Aponta para a crescente realidade de que não há realmente como escapar do Google. Enquanto fazemos aquilo que pensamos desejar, acreditando que usamos smartphones apenas para nos ajudar a alcançá-lo, na verdade o Google tem um poder ainda maior, verdadeiramente revolucionário: a capacidade de criar e organizar o próprio desejo.
Esse poder verdadeiramente revolucionário é o mais importante, quando se trata de Pokémon Go e Ingress. Dizer que esses jogos são revolucionários não é dizer que estão fazendo algum bem, nem que são “radicais”, e certamente não é dizer que são de esquerda – ao contrário, a revolução no desejo parece ser corporativa, hegemônica e centralizada. Contudo, se é que a esquerda pode ter alguma esperança, ela não pode resistir ao Pokémon Go, como a já famosa sugestão da Jacobin, mas entender e talvez até abraçar o poder do celular para reorganizar o desejo e buscar novos caminhos.

E agora, José?, por José Saramago

  por 



Em crônica pouquíssimo conhecida no Brasil, o escritor português inspira-se em Drummond para refletir sobre “as horas em que o o desânimo se faz muralha” e a covardia dos homens
Curadoria e narração: Alexandre Machado

"A guerra às drogas é um mecanismo de manutenção da hierarquia racial"

Em visita ao Brasil, ativista norte-americana formada em Harvard diz que a política proibicionista teve sucesso ao criminalizar negros e pobres
por Débora Melo — publicado 27/07/2016

A guerra às drogas é uma ferramenta da qual a sociedade contemporânea depende para manter negros e pobres oprimidos e marginalizados. Esta é a opinião da ativista do movimento negro norte-americano Deborah Small, formada em Direito e Políticas Públicas pela Universidade de Harvard.
Em viagem pelo Brasil para uma série de palestras sobre política de drogas, racismo e encarceramento, Small desembarca nesta quarta-feira 27 em São Paulo, depois de passar por Rio de Janeiro, Salvador e Cachoeira, no Recôncavo Baiano.
Em entrevista a CartaCapital, a ativista fez um paralelo entre as polícias do Brasil e dos EUA – onde tem crescido a tensão com a comunidade negra – e defendeu que o Brasil assuma uma posição de liderança no debate regional. “A única coisa capaz de ajudar a América do Sul é dar um fim à política proibicionista”, disse a ativista.
Deborah Small já foi diretora de assuntos legais da New York Civil Liberties Union, pela qual se dedicou à defesa dos direitos dos presos. Depois ocupou o cargo de diretora de políticas públicas e articulação comunitária da Drug Policy Alliance e há cerca de dez anos criou a organização Break the Chains, cujo objetivo é conscientizar a comunidade negra norte-americana sobre os efeitos perversos daguerra às drogas. Confira a entrevista:
CartaCapital: Quais suas primeiras impressões a respeito do Brasil?
Deborah Small: Esta é minha terceira vez no Brasil, e eu vim para discutir questões relacionadas às drogas e ao modo como o Brasil desenvolve sua política de drogas. Para ser bem franca, eu não tenho visto grandes melhorias, pois o Brasil ainda depende muito da polícia para lidar com a questão.
Esse esforço policial é concentrado nas favelas, como se este fosse o único lugar onde as drogas estão, mesmo que nós saibamos que em todos os países o uso de drogas é igualmente distribuído e atinge todos os grupos sociais e econômicos. O problema é que, assim como nos Estados Unidos, há certa negação a respeito da existência de usuários de drogas e dependentes químicos entre os ricos e poderosos, e o foco é sempre a população pobre.
CC: Algum comentário sobre o trabalho da polícia e o processo de pacificação das comunidades?
DS: Eu passei um dia na favela, no [Complexo do] Alemão, e não há palavras para descrever essa experiência. Lembrei muito da zona sul de Chicago, onde os sinais da violência são visíveis. Eu vi marcas de tiros, marcas de balas nas casas das pessoas, e isso foi assustador para mim. Eu só conseguia pensar em quem vive do outro lado daquelas paredes. A maioria dessas pessoas não tem envolvimento com o crime, mas vive em um estado de sítio.
Eu não entendo como é possível construir uma boa relação entre polícia e comunidade quando você tem policiais circulando pelo bairro com suas armas para fora da janela, com o dedo no gatilho. Foi isso que eu vi, e as pessoas agem como se isso fosse completamente normal. Eu não entendo. Honestamente, eu vivi na cidade de Nova York, então não é como se eu não soubesse o que é viver em uma comunidade violenta. Mas a polícia está ali para, supostamente, proteger as pessoas.
CC: Isso não acontece nos EUA?
DS: Eles têm armas, mas eles não devem exibir essas armas a não ser que estejam diante de alguém perigoso. Circular com armas para fora do carro, apontando para as pessoas, seria considerado um comportamento policial extremamente inapropriado, porque a mensagem que isso passa para a comunidade é que, basicamente, todos são suspeitos, todos são criminosos e todos estão sujeitos a serem alvejados por tiros a qualquer momento.
CC: Aqui no Brasil isso só acontece na periferia...
DS: Sim, apenas na favela, onde a maioria é negra. Então é basicamente a população negra que está sendo obrigada a viver em um estado de medo. É como se dissessem que a culpa também é deles porque, se eles não tivessem traficantes entre eles, não teriam de viver desse jeito.
CC: A letalidade das polícias do Rio e de São Paulo é altíssima, mas a maioria dos brasileiros parece não se importar, diferentemente do que ocorre nos EUA. O que explica esse fenômeno?
DS: Ontem [quinta-feira 21] eu estive com um movimento de mulheres negras do Rio de Janeiro e, assim como nos Estados Unidos, mas ainda mais aqui no Rio, há uma preocupação em aumentar a conscientização dentro da própria comunidade negra. Essa é uma das bandeiras mais importantes do movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam, em tradução livre), de que nós temos que defender a vida de toda a nossa gente, incluindo as pessoas que podem ou não estar vendendo drogas.
Então eu acho que grande parte das razões pelas quais as pessoas não reagem a essas mortes é porque lhes foi dito que aqueles que foram mortos eram traficantes ou tinham algum envolvimento com o tráfico. E a maioria das pessoas acredita nisso, até que os filhos deles sejam presos ou mortos. Só então eles pensam: ‘não, isso não é correto’.
Para mim, isso é parte do legado da escravidão e da segregação racial, que fez os negros acreditarem que eles próprios são criminosos. Você quase tem que provar que a pessoa que foi morta não era uma criminosa para que a comunidade sinta alguma empatia por ela. Quando as pessoas são classificadas como criminosas, a sociedade não se sente obrigada a pensar quais são as causas disso. 
CC: É por isso que você costuma dizer que a guerra às drogas não fracassou e, na verdade, é um sucesso?
DS: O sucesso da guerra às drogas foi fazer as pessoas acreditarem que um grupo está mais propenso à criminalidade que outro. E também teve sucesso ao fazer com que esse mesmo grupo acreditasse nisso.
Quando nós falamos de drogas, por algum motivo nós deixamos de lado a nossa racionalidade para acreditar que esta é uma realidade exclusiva dos pobres, dos negros. Isso não faz sentido, exceto se você pensar que a guerra às drogas é um mecanismo de manutenção da hierarquia racial da qual a sociedade depende.
CC: Você vê algum paralelo entre o racismo no Brasil e nos Estados Unidos? Quais as consequências do histórico de escravidão nessas duas sociedades?
DS: Eu acho que uma semelhança que existe entre os dois países, além desse histórico, é o nível de negação a respeito das consequências desse passado. Existe uma negação sobre o modo contínuo como a discriminação racial não apenas prejudica os negros, mas beneficia os brancos.
Quando eu entrei na faculdade de Direito, nos Estados Unidos, muitos dos meus colegas brancos me perguntaram se eu não me sentia uma pessoa de sorte por ter a chance de estar ali. Em um primeiro momento eu disse que sim, mas depois eu parei pra pensar e disse a eles: ‘não, eu não tenho sorte, eu mereço estar aqui. Mas eu tenho certeza de que alguns de vocês não estariam aqui se os seus pais tivessem que competir com os meus pais’.
Então, para mim, a questão do racismo que não é comentada é que grande parte da riqueza e dos privilégios dos quais as pessoas brancas desfrutam hoje é porque elas não tiveram que competir com os negros. Mas elas acreditam que merecem tudo aquilo que têm. 
CC: De que forma isso explica os recentes conflitos entre a polícia e a comunidade negra nos EUA?
DS: A polícia é o instrumento que a sociedade usa para manter o status quo racial, ou seja, parte da função da polícia é manter esse status quo. Então os privilegiados podem manter seus privilégios, e as pessoas da base são mantidas na base, sem condições de ascender socialmente.
O departamento policial é, em sua grande maioria, branco, policiando comunidades negras. Em cidades como Baltimore [Maryland] e Washington DC há muitos policiais negros, mas no restante a grande maioria é branca. Então a diferença racial e as diferenças econômicas e sociais contribuíram muito para o conflito.
O Brasil, por outro lado, tende a atrair a população mais pobre para compor a sua força policial. Então, basicamente, você tem pobre oprimindo pobre, mas, de maneira geral, são pessoas com as quais a sociedade não se importa.
Na minha opinião, não existe um compromisso social com qualquer um desses grupos. Então você não vê o presidente ou o prefeito comentando as mortes por policiais, como se faz nos EUA, porque os policiais são da mesma classe social que os pobres que eles combatem. De certa maneira, todos eles são considerados descartáveis.
CC: O que seria uma política de drogas justa?
DS: Eu acredito que a melhor política de drogas é não ter política criminal de drogas. Nós precisamos de políticas de saúde para tratar problemas de uso de drogas, da mesma forma como lidamos como tabaco, álcool e outras substâncias que causam dependência.
A proibição prejudica completamente a economia dos países, porque toma esses produtos e os torna mais valiosos que qualquer coisa que as pessoas possam cultivar ou produzir. E os mais afetados são os países produtores.
CC: Qual é o papel do Brasil na discussão global sobre drogas?
DS: Eu tenho algumas preocupações em relação ao Brasil. Uma é que o Brasil experimentou um aumento no consumo de drogas na última década. A segunda preocupação diz respeito à atual crise política. Na minha opinião, isso parece um golpe, e o novo governo quer trazer de volta o poder das oligarquias.
Para mim, o que acontece aqui é muito parecido com o que aconteceu em Honduras sete anos atrás. Eu não sou brasileira, não sei o suficiente sobre a política doméstica, mas me parece muito errado que o novo governo não tenha incluído nenhum negro, nenhuma mulher. Isso não me parece um governo progressista.
Minha preocupação é que a economia brasileira vai continuar piorando enquanto a situação política estiver esse tumulto. O País pode acabar como Honduras, e as consequências para o mundo são catastróficas. As consequências para Honduras afetaram principalmente Honduras, mas o que acontece com o Brasil afeta toda a população da América do Sul e até mesmo a economia global.
Presumindo que todos esses problemas sejam resolvidos de maneira positiva, minha esperança é que o Brasil se torne de fato um líder da região. Porque a única coisa capaz de ajudar a América do Sul é dar um fim à política proibicionista. Apenas caminhando em direção à regulamentação será possível se livrar do efeito distorcido que a proibição tem sobre a economia da América da Sul.
Quando você observa a história das Américas, do Canadá ao Chile, há uma implicação do passado de escravidão, colonialismo e genocídio da população indígena. Até estarmos dispostos a lidar com isso honestamente, nós iremos sempre desenvolver nossas políticas de justiça criminal, incluindo a política de drogas, em termos raciais e discriminatórios. E uma das coisas que a gente pode fazer para mudar isso é não repetir no século 21 a história dos séculos 19 e 20.

Carta Capital