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terça-feira, 17 de maio de 2011

COMO RESGATAR A MINHA AUTOESTIMA?

A melhor maneira de viver bem

Muito se fala sobre auto-estima, mas poucas pessoas entendem o seu verdadeiro significado. Cuidar de sua auto-estima vai muito além de visitar o cabeleireiro ou comprar aquela roupa nova. Aliás, estas nem são condições necessárias para o cultivo da auto-estima.

Todos conhecemos, em tese, a definição básica de auto-estima: é a estima que tenho por mim mesmo, ou seja, o quanto me valorizo. O quanto me quero bem e me aceito.

Vamos aperfeiçoar esta definição, dizendo que a auto-estima é um ato de amor e de confiança consigo mesmo. Precisamos entender bem que são as duas coisas juntas: o "amor próprio" e a "autoconfiança". Faltando um destes ingredientes, não teremos uma auto-estima verdadeira.

Amar a si mesmo sem confiança nos seus atos ou pensamentos não resolve. Neste grupo temos as vítimas, aquelas pessoas que desejam algum "bem" para si, mas se lamentam por não terem condições de consegui-lo.

Confiança em seus projetos ou na sua capacidade de conquista sem o amor próprio também não traz felicidade. Neste último grupo, vemos a maioria das pessoas mergulhadas no estresse social, preocupadas em ter e poder, mas esquecendo de ser.

Infelizmente, trazemos uma tremenda dificuldade em cultivar estes dois ingredientes da auto-estima (o amor próprio e a autoconfiança), por eventos que se manifestaram desde a nossa criação. Quantas vezes, por medo do egoísmo, deixamos de lado nossa própria vontade para f azer tudo o que o outro queria. Só que auto-estima não tem nada a ver com o egoísmo. O egoísta é um ser vazio e solitário que precisa cada vez mais de coisas e pessoas que o preencham. Gente com boa auto-estima, apenas reconhece que, c omo qualquer ser humano, tem o direito valorizar e satisfazer suas vontades.


Na verdade, a cultura, a mídia e até mesmo nossos familiares contribuíram fortemente para gerar este quadro: "Está na moda quem usa tal roupa"; "Sem estudo você não é nada"; "Você será aceito somente se fizer isto e não aquilo...". É claro que, muitas vezes, isto aconteceu por ignorância, e não por maldade. Se tivessem acesso a determinadas informações, certamente as atitudes de nossos pais seriam diferentes.

DESENVOLVENDO SUA AUTO-ESTIMA

O resgate da auto-estima acontece quando você decide que só precisa ser quem você é. Você pode confrontar as opiniões, e não ficar preso a um únic o ponto de vista. Mas descobre que, se no passado era importante ouvir e respeitar as ordens dos adultos, hoje você pode ser dono (ou dona) de seu próprio destino. Passa a respeitar mais suas próprias idéias, porque, automaticamente, está se ouvindo mais. É por esta razão que gente que tem uma boa auto-estima nunca se sente sozinha, pois solidão é a distância que se tem de si próprio.

Assumindo que você não é responsável pela felicidade alheia, também não responsabilizará ninguém pela sua própria felicidade. Os outros estão em sua vida para fazer companhia e não para se aprisionarem emocionalmente.

Cultivando sua auto-estima, será uma pessoa mais consciente, mais responsável por seus atos. Sentirá que está mais íntegro e que é alguém valioso para si mesmo. Perceberá que tem todo o direito de honrar suas necessidades e vontades que considerar importantes. Aprenderá que merece ter atitudes de carinho consigo mesmo, como, por exemplo, preparar a mesa do café, mesmo quando está sozinho, ou permitir-se ir ao cinema, ainda que ninguém queira lhe fazer companhia. Você é a sua grande companhia, e, se entender isto, poderá iniciar uma das melhores fases de sua vida.
Lucimaria Rangel
Psicóloga Clínica e Institucional, voluntária no atendimento do SOS/AMF.

SOS no evento do CIC no Centro Comunitário do Jardim Santa Lúcia

Sábado passado, dia 14 de maio, o CIC - Centro Integrado de Cidadania – promoveu juntamente com o Centro Comunitário do Jardim Santa Lúcia um evento que deixou à disposição da comunidade diversos serviços, dentre eles o SOS/AMF. Das 10:00h às 12:00h eu, Lúcia, estive à disposição para orientações e esclarecimentos de dúvidas relacionados à Direito de Família, e das 13:00h às 14:00h nossa psicóloga voluntária Lucimaria Rangel se reuniu com um grupo de adolescentes para conversarem sobre drogas, sexualidade e violência. Durante o evento, foram distribuídos mais de 100 folhetos informando sobre os atendimentos que o SOS se disponibiliza a realizar no CIC. É o SOS agindo junto à população de uma das regionais mais necessitadas da cidade de Campinas, a sudoeste.

AGORA O SOS AÇÃO MULHER E FAMÍLIA ATENDE TODAS AS 5AS FEIRAS NO CIC, DAS 14:00HS ÀS 17:00HS.
VAMOS FAZER NOSSA PARTE PARA UMA SOCIEDADE MAIS JUSTA, FORTALECENDO NOSSAS FAMÍLIAS.
MARQUE UM HORÁRIO E VENHA CONVERSAR COM A GENTE! HOMENS E MULHERES SÃO BENVINDOS PARA ESCLARECIMENTO DE DÚVIDAS E ORIENTAÇÃO.
CIC Campinas - "Doutor Fernando de Cássio Rodrigues"
Rua Odette Teresinha Santucci Octaviano, 92 Bairro Vida Nova
Fone: (19) 3226-6161

Lúcia Helena Octaviano
Coordenadora Técnica SOS/AMF

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Uma Cartilha em favor da harmonia

Passo a passo, o Instituto Avon e seus parceiros vão munindo a sociedade de ferramentas que ampliam o entendimento da violência doméstica. Acaba de sair “do forno” a Cartilha Não Violência, um resumo do rico conteúdo do seminário sobre o tema, promovido pelo Instituto, em parceria com a Palas Athena. A originalidade dos professores Lia Diskin e José Romão na abordagem da violência tem sido elogiada por todos os que assistiram às palestras de ambos, em várias capitais brasileiras. São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e Recife já sediaram o seminário, que acontecerá também em Porto Alegre (no dia 19 de maio).
Você, que sente vontade de entender melhor a violência doméstica, pode acessar a Cartilha (http://migre.me/4sPx0) e indicá-la a amigos e representantes de associações de mulheres de Ongs, entidades governamentais. O Instituto Avon espera que o material contribua para a conscientização e a reflexão de todos os interessados em encontrar vias pacíficas para o enfrentamento de conflitos familiares.

terça-feira, 3 de maio de 2011

As guerreiras da África

Como as mulheres de Burkina Fasso estão mudando a face do terceiro país menos desenvolvido do mundo, onde apenas 26,5% da população sabe ler e escrever


Hélio Gomes, enviado especial a Burkina Fasso
29.04.11

Assista à reportagem :



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IDENTIDADE
As cicatrizes no rosto da burquinense são típicas de sua tribo e de sua família

Enquanto o norte do continente africano vive uma verdadeira epidemia de movimentos em prol da democracia, um tipo diferente de revolução ganha força na terceira nação menos desenvolvida do mundo. Burkina Fasso, pequeno país desprovido de litoral encravado no oeste da África, exatamente abaixo do deserto do Saara, é o cenário de um movimento que tenta reverter um quadro trágico. Ali, milhares de mulheres unem forças para conquistar sua dignidade e escapar da miséria, do analfabetismo e da violência secular de uma sociedade machista e ainda tribal por meio do cooperativismo.

Na cidade de Léo, localizada a 140 km da capital Uagadugu, quatro mil mulheres trabalham na colheita e no processamento do karitê. Depois de transformado em manteiga, o fruto típico da África é utilizado na fabricação de cosméticos de algumas das maiores marcas do planeta. O trabalho, realizado ao longo de quatro meses por ano, garante US$ 140 a cada cooperada. Parece pouco, mas é mais do que a renda média do país. Segundo o Banco Mundial, os mais de 16 milhões de burquinenses vivem com menos de um dólar por dia.

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TRABALHO
Membro da cooperativa de Léo separa o karitê para a fabricação de manteiga

“Consegui mandar meus filhos para a escola com o que ganhei com o karitê”, diz Pignan Bassia Mariam. Aos 58 anos, casada há quase quatro décadas com um professor, ela narra uma história que serve de exemplo para suas companheiras. Uma exceção à regra em um país onde apenas 26,5% da população sabe ler e escrever, Mariam é o motor de uma grande família. Além de criar seus oito filhos, ela ainda cuidou de dois sobrinhos depois da morte de sua irmã. “Comecei a trabalhar com o karitê nos anos 70. Antes, apenas colhíamos as frutas e as vendíamos no mercado. Agora, com a manteiga, temos mais trabalho e nos­sa renda melhorou muito”, afirma a senhora de sorriso fácil e largo.

O cérebro por trás da cooperativa UGPPK (União dos Grupos de Produtoras de Karitê), no entanto, é masculino. Tagnan Abou Dradin, 45 anos, é diretor-geral da organização desde 2007. “Lidar com as mulheres não é difícil, mas tudo depende da sua postura. Você está perdido se acha que é superior pelo simples fato de ser homem”, diz. Formado em história e arqueologia pela Universidade de Uagadugu, onde também cursou pós-graduação em comércio internacional, ele comanda uma operação que gerou US$ 550.000 de receita em 2010. Abou também coordena parcerias estratégicas com ONGs e fundações internacionais, que financiaram a construção de 11 centros de alfabetização para adultas em Léo e o ajudam a manter um programa de microcrédito que beneficia as cooperadas.

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ESTUDO
Mulheres aprendem a ler e escrever em escola de Uagadugu, capital de Burkina Fasso

“O futuro do continente está nas mãos das mulheres”, diz Saddo Ag Almouloud. Presidente da associação Fórum África, o professor de matemática da PUC-SP nasceu no Mali e está no Brasil há 18 anos. Segundo ele, o sexo feminino ganha cada vez mais importância política, social e econômica na região. Em Burkina Fasso, por exemplo, o governo do presidente Blaise Comparoé – que chegou ao poder depois de um sangrento golpe de Estado em 1987 – criou o Ministério para a Promoção das Mulheres. Não por acaso, o grau de alfabetização entre elas é de 33%, quase sete pontos porcentuais acima da média nacional. “A África está mudando muito rápido e os governos sabem que precisam atender às demandas da população”, afirma a socióloga britânica Amy Niang, especialista no continente africano.

A reportagem de ISTOÉ assistiu a uma das aulas ministradas nos centros de alfabetização da cooperativa de Léo. Ali, com os olhos grudados no quadro negro, mulheres de todas as idades aprendem a ler e escrever em francês e em alguns dos quase 60 dialetos falados no país. Além disso, elas recebem noções de economia doméstica e informações sobre saúde. Muitas frequentam as aulas com seus filhos no colo. Damase Zouré, coordenador nacional da ONG Aide et Action, é o responsável pelo programa. Formado em sociologia pela Universidade de Uagadugu, ele lida com as mulheres de Léo desde 2004 e já foi convidado a fazer um curso na sede da ONU, em Nova York, graças ao sucesso do seu trabalho. “Nosso método é baseado na filosofia criada pelo brasileiro Paulo Freire”, con­ta Zouré.

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CELEBRAÇÃO
O canto em uníssono das mulheres de Burkina Fasso é ouvido constantemente no país

Infelizmente, o analfabetismo está longe de ser o único problema para as mulheres de Burkina Fasso. Segundo a Organização Mundial da Saúde, mais de 70% delas tiveram seus órgãos genitais extirpados. Prática corriqueira em muitos países africanos e em parte do Sudeste Asiático, a mutilação sexual feminina consiste na retirada total ou parcial do clitóris e no fechamento de parte dos lábios vaginais. Considerado crime no país desde 1997, o ato ainda é realizado em comunidades rurais e grandes cidades. Geralmente, as meninas enfrentam o ritual de passagem a partir dos quatro anos de idade. “A lei que proíbe a mutilação sexual ajuda na conscientização das novas gerações, mas tenho certeza de que ela vai continuar a ser realizada por muitos anos”, afirma Muriel Cote, geógrafa e pesquisadora da Universidade de Edimburgo (Escócia) que passou dois anos trabalhando na África.

SUSTENTO
A céu aberto e em condições precárias, as mulheres
da cooperativa de Léo fabricam a manteiga de karitê (abaixo)
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Mesmo sofrendo com todas as agruras de uma sociedade em que a dignidade é uma conquista diária, as mulheres de Burkina Fasso jamais abandonam sua alegria de viver. De certa forma, seu canto uníssono e constante, que dita o ritmo do trabalho e marca suas celebrações, é a prova concreta de que o prazer pode ser encontrado de diversas formas. O caminho para sua emancipação pode ser tortuoso, mas aponta uma direção clara para o desenvolvimento do país. “Sobrevivemos com o que ganho na cooperativa e a aposentadoria do meu marido. Eu tenho o meu dinheiro, ele o dele. E cada um paga sua parte das despesas”, diz Pignan Bassia Mariam. Nada mais justo.

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“Há muitas mulheres que lucram com a mutilação sexual das
meninas. Mas a situação está mudando em Burkina Fasso”
Tagnan Abou Dradin, diretor-geral da cooperativa UGPPK

Um verdadeiro choque de realidade
Até o mais experiente dos viajantes leva um baque com a falta de infraestrutura em Burkina Fasso. No único salão de desembarque do aeroporto da capital Uagadugu, uma reforma que parece durar anos transforma o espaço em uma arena de vale-tudo. Sem o auxílio de esteiras rolantes, a bagagem de centenas de passageiros é empilhada sobre caixotes de madeira. Lute para encontrar a sua.
Já no melhor hotel da cidade, ironicamente batizado de Palm Beach (não há praias em Burkina), a qualidade da água é o maior problema. Banhos com a boca cerrada e higiene bucal com água mineral são obrigatórios. Quem entra no país precisa mostrar o comprovante de vacinação contra a febre amarela. Mas a malária, combatida com doses excessivas de repelente, é o maior temor dos forasteiros. Comer também é um desafio – apesar dos sabores marcantes e do talento das cozinheiras. Como confiar na quali­da­de de peixes, legumes e verduras lavados em água da torneira?
Diferentemente de destinos como a Índia ou o Egito, nos quais a pobreza convive com um verniz de civilidade aplicado para seduzir os turistas, Bur­kina Fasso recebe seus visitantes sem disfarces. Prepare-se para mergulhar no quarto mundo. E sem escafandro.

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O drama da violência doméstica

Operação em Niterói e São Gonçalo apreende 15 armas e prende um. Objetivo da ação foi retirar armas de autores de violência doméstica e cumprir 60 mandatos de busca e apreensão.

SÃO PAULO - Quinze armas, uma granada e munições foram apreendidas e um homem foi preso em flagrante por posse ilegal de arma, nesta segunda-feira, 2, durante a segunda fase da Operação Quatro Paredes, realizada em Niterói e São Gonçalo, no Rio.
A ação, executada por policiais das Delegacias Especiais de Atendimento à Mulher (DEAMs), teve como objetivo apreender armas de autores de violência doméstica e cumprir 60 mandados de busca e apreensão.
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O drama da violência doméstica

A triste realidade retratada pelo filme 'Amor?', que aborda limites entre amor e agressão

02 de maio de 2011

Cristiana Vieira e Rosângela Rezende - O Estado de S.Paulo

Heloísa Passos/Divulgação
Heloísa Passos/Divulgação
A atriz Mariana Lima em cena do filme 'Amor?',
que coletou mais de 60 depoimentos

"Eu achava normal quando era um beliscão. Depois, quando começou a puxar meu cabelo, pensei: ‘Se eu casar com ele, me mata’." Aos 14 anos, Cláudia (o nome é fictício) começara a namorar um rapaz mais velho, extremamente ciumento. Um dia, quando a viu conversando com um surfista na praia, o namorado agarrou sua cabeça e a enfiou na água, num "caldo" de intermináveis segundos, enquanto ela esperneava, submersa, acreditando que ia morrer.

Vítima de violência do pai desde a infância, Cláudia ficava impotente diante das agressões e tendia a acreditar que "faziam parte do amor". "O fato é que o meu pai me batia, então, até que ponto eu poderia interpretar um tapa, um aperto forte no braço, um beliscão, um puxão de cabelo como um "não gostar"?", questiona.

O primeiro ato de libertação ocorreu aos 18 anos, quando já desenvolvida fisicamente, respondeu aos insultos do pai e o agrediu. O segundo, anos depois, quando, ao bater no filho de 3 anos, percebeu que estava repetindo o ciclo trágico de sua família também levado adiante por seu irmão - que espancava mulher e filhos. "Prometi neste dia que nunca mais bateria e que só o colocaria de castigo", lembra-se. No entanto, ainda hoje, uma pergunta a atormenta: "Qual a fronteira entre amar uma pessoa e querer matá-la?"

O caso acima é uma das oito histórias verídicas envolvendo amor e violência relatadas no filme Amor?, do cineasta João Jardim, em cartaz em São Paulo. O filme lança luz sobre o tema da violência doméstica, especialmente contra a mulher, uma realidade presente em milhões de lares brasileiros e considerada uma preocupação para 56% das mulheres brasileiras, segundo pesquisa do Ibope e do Instituto Avon, realizada em 2009.

Dependência - Calcula-se que, no País, metade das mulheres agredidas sofra sem pedir ajuda. Os agressores são maridos, companheiros ou ex-companheiros. Entre as que não denunciam, as razões são: dependência financeira (24%), medo de serem mortas caso rompam a relação (17%) ou vergonha de admitir a agressão (8%).

Com base na experiência de 20 anos à frente da 1ª Delegacia de Defesa da Mulher, em São Paulo, a delegada Celi Paulino Carlota identificou uma trajetória comum entre os casos que chegam à polícia. A primeira fase da violência é falar alto e perder o respeito. Depois vêm as ofensas morais e o empurrão. Daí, para o pior. Muitos agressores se arrependem, prometem mudar, dão presentes e, assim, convencem a mulher de que tudo ficará bem. Ledo engano. O ciclo se repete e a violência volta com mais intensidade. "O erro é dar mais uma oportunidade, mas a ameaça pode ser concretizada e isso pode levar à morte", avalia a delegada.

Legislação - Graças à Lei Maria da Penha (leia texto ao lado), a violência doméstica contra a mulher deixou de ser um crime de menor poder ofensivo. E, com a maior divulgação do tema, as denúncias estão crescendo. Houve aumento de 123% no número de queixas à Central de Atendimento a Mulher - Ligue 180, da Secretaria de Política para as Mulheres (SPM), na comparação entre 2009 e 2010.

Além de penas mais rigorosas, houve ganhos de agilidade. O processo, que antes passava por dois juízes, atualmente é resolvido por um só. "A delegacia tem 48 horas para enviar o processo para o juizado e, este, 48 horas para responder. O mesmo juiz que vai julgar a lesão também vai afastar o agressor do lar", explica a delegada Celi. A lei prevê a saída do agressor de casa, proteção dos filhos, distância mínima entre eles e, em casos extremos, abrigo para a mulher.

Não bastasse todo o trauma, a violência doméstica também tem um custo social. Segundo dados do Banco Mundial e do Banco Interamericano de Desenvolvimento, um em cada cinco dias de falta ao trabalho no mundo é causado pela violência sofrida pelas mulheres dentro de suas casas. A instituição estima que o custo total da violência doméstica varia de 1,6% a 2% do PIB de um país.

Passado um ano do seu segundo casamento, o músico carioca Walter (nome fictício), de 51 anos, foi parar na delegacia por agredir seriamente sua mulher. Como trabalham juntos, as pessoas mais próximas ficaram sabendo. Na delegacia, reparou num cartaz anunciando o Noos - uma ONG que trabalha para a prevenção e interrupção da violência intrafamiliar e de gênero, entre outras coisas -, e foi procurá-los. Hoje, diz que aprendeu a controlar a pressão. "Aprendi a me proteger das emoções externas, a não chegar mais àquele estado."

Para além das estatísticas, é difícil enxergar a presença de razão nos relatos de violência. "Impressionante como se chega ao ponto em que matar ou não matar depende de um segundo, literalmente de uma fagulha, um barulho qualquer que desvie a atenção, tire a concentração, afaste a pessoa da vertigem", afirma a jornalista Renée Castelo Branco, responsável pela coleta e análise de mais de 60 depoimentos para o filme Amor? em delegacias de polícia, juizados e organizações de proteção e apoio, tanto a mulheres vítimas de agressão quanto a homens agressores.

Após a experiência de ouvir tantos relatos, Renée não afirma categoricamente que amor e violência são indissociáveis, mas acredita que praticamente todas as relações de amor resvalam, em algum momento, para algum tipo de violência. "Basta olhar em volta e ver como as pessoas se comportam, com relação aos filhos, aos namorados e namoradas, aos pais."

Ninguém precisa esperar ser espancada para procurar a delegacia. A ajuda pode começar a partir daquela briga em que a agressão, mesmo no âmbito verbal, passa dos limites, podendo ser enquadrada como violência psicológica. É a partir desse ponto que se deve procurar ajuda psicológica e social numa ONG especializada ou no Juizado Especial de Violência Doméstica e Familiar Contra a Mulher.

Unidades de apoio - Há também serviços que funcionam em hospitais e universidades e que oferecem atendimento médico, assistência psicossocial e até orientação jurídica. Outro caminho são as Defensorias Públicas e Juizados Especiais, nos Conselhos Estaduais dos Direitos das Mulheres e em organizações de mulheres. E se achar que a própria vida ou a dos filhos e familiares está em risco, a vítima pode ter ajuda de casas-abrigo, que são moradias em local secreto em que fica afastada do agressor.

O exemplo de Maria da Penha

A farmacêutica cearense que deu nome à Lei Maria da Penha e voz a tantas mulheres sofreu uma série de violências. Um dia, acordou com um tiro nas costas que a condenou a viver numa cadeira de rodas. Maria da Penha lutou durante 19 anos e 5 meses, mas só quando faltavam seis meses para o crime prescrever é que o agressor foi julgado. Isso porque ela buscou ajuda em órgãos internacionais. Ele foi condenado, mas saiu do fórum em liberdade. Ela escreveu o livro Sobrevivi e Posso Contar, de 1994, em que relatou o processo e as histórias de agressões que ela e as filha sofreram.

O julgamento foi anulado. No segundo, em 1996, ele voltou a ser condenado e, mais uma vez, saiu em liberdade. Duas ONGs internacionais denunciaram o Brasil no Comitê Interamericano dos Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos. Condenado, o País foi obrigado a mudar as leis para que os autores de violência contra suas mulheres fossem punidos.

Fim do silêncio

Uma campanha para quebrar o silêncio, informando a sociedade sobre a dimensão e a gravidade do problema no Brasil. Com esse objetivo, o Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher (Unifem) criou a Campanha Bem Querer Mulher. A ideia é financiar projetos de prevenção e apoio à mulher vítima de violência física, sexual e moral. Em março, um leilão beneficente de obras de arte ajudou a arrecadar fundos para a causa.


O Estado de S.Paulo

JORNAL DA TARDE - Justiça quer ampliar varas para violência doméstica

10 de maio de 2010 - EVELSON DE FREITAS/AE
O Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) prepara a maior reforma dos últimos 30 anos no Judiciário.
O plano é criar cinco varas especializadas em violência doméstica, ampliar de cinco para oito as varas do Júri na capital e promover um mutirão para concluir os processos, com objetivo de aproximar a Justiça do cidadão, aperfeiçoar o trâmite processual e acelerar processos de homicídio, que hoje chegam a levar mais de quatro anos.
As mudanças fazem parte de um plano da Corregedoria Geral do TJ e incluem alguns pontos polêmicos, como a distribuição dos inquéritos policiais diretamente ao Ministério Público.
Já as varas seriam todas centralizadas no Fórum Criminal da Barra Funda, na zona oeste. E os processos de homicídio passariam a ser distribuídos aleatoriamente, não mais pelo critério territorial – hoje cada vara atende a uma região da cidade.
No caso das varas especializadas em violência doméstica, estuda-se a criação de duas unidades na zona leste, duas na zona sul e uma na norte. Atualmente, há uma, no Fórum da Barra Funda. E, segundo levantamento do TJ, 5.626 processos e inquéritos policiais sobre violência doméstica.
A proposta da Corregedoria prevê ainda a criação de cinco Juizados Especiais Criminais (Jecrim), destinados a analisar delitos de menor poder ofensivo, como lesão corporal. E há a possibilidade de se criar uma vara especializada em acidentes de trânsito.
O projeto vislumbra também a gravação em vídeo dos depoimentos judiciais, a construção de salas de teleaudiência e a mudança no trâmite dos inquéritos.
A Corregedoria do TJ já apresentou suas propostas a juízes do Fórum da Barra Funda. Até o dia 21, recolherá sugestões de alterações em seu projeto para, depois, apresentá-lo oficialmente à presidência e aos órgãos diretivos da corte.