Contribua com o trabalho do SOS Ação Mulher e Família: Banco Santander (033) / Agência 0632 / Conta Corrente 13000863-4 / CNPJ 54.153.846/0001-90

segunda-feira, 31 de julho de 2017

PIEDAD CÓRDOBA: A MULHER QUE PODE SER A PRIMEIRA NEGRA LATINA A CHEGAR À PRESIDÊNCIA

A advogada colombiana é defensora histórica dos direitos humanos e da pacificação do país; confira entrevista exclusiva

Reportagem: Vanessa Martina Silva

A América Latina poderá ter a primeira mulher negra presidenta do continente. Piedad Córdoba Ruíz, advogada colombiana de 62 anos, que já anunciou sua pré-candidatura ao Palácio Nariño, em 2018, é figura conhecida nos círculos da esquerda latino-americana.
De vestidos coloridos e sempre com um turbante coroando sua cabeça, Piedad é uma mulher de presença marcante, que impressiona logo à primeira vista pela força e valentia que transmite pelo olhar. Percepção que se confirma assim que começa a falar. Eloquente e apaixonada, é uma influente defensora dos direitos humanos na Colômbia e uma referência para toda a região.
Em 2009, devido ao trabalho que fez pela pacificação de seu país, chegou a ser indicada por Adolfo Pérez Esquivel ao Prêmio Nobel da Paz, embora não tenha chegado a concorrer oficialmente. E, em 2012, foi considerada, pela revista Foreign Policy, como uma das intelectuais mais influentes da Iberoamérica.
Em sua trajetória política de mais de 30 anos, foi senadora em quatro oportunidades (1998, 2002, 2006 e 2010). Em seus mandatos, legislou em defesa das mulheres, dos negros, da população LGBTTI e, no tema que lhe deu visibilidade nacional e internacional: Piedad foi a grande promotora do processo de paz entre o governo colombiano e as FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia).
Em 2010, Piedad foi inabilitada e ficou impedida de exercer qualquer cargo público no país por 32 anos e perdeu o cargo de senadora. A acusação era de traição à pátria por proximidade com as FARC. No ano passado, no entanto, ela foi inocentada e a proibição perdeu validade. Com a sentença a seu favor, anunciou sua pré-candidatura à presidência.
No final de 2015, Piedad Córdoba, em uma visita a São Paulo, concedeu entrevista em um hotel próximo à Avenida Paulista em uma manhã ensolarada. Em pouco mais de uma hora, respondeu a uma série de interrogações sobre o processo de paz, a esquerda latino-americana, e o que é ser negra na Colômbia.
Os temas tratados há dois anos continuam atuais. Confira a fala potente dividida por temas da mulher que pode vir a ser a primeira presidenta negra da da América Latina.

NEGRITUDE
Sou autora de várias leis contra discriminação racial. Sou filha de pai negro e mãe branca. Sofri muito a discriminação na pele. Claramente, a sociedade, as pessoas no cotidiano, te discriminam. A discriminação é estrutural do Estado e passa diretamente para a dinâmica da sociedade.
Eu tenho comigo que se eu não fosse negra, os meios de comunicação, as pessoas nas ruas, não me tratariam tão mal como me tratam. Eu sou ‘a amante de Chávez’. Eu sou ‘aquela que rouba o dinheiro de Chávez’. Eu sou ‘a amante de Evo [Morales, presidente da Bolívia]’, quando não, é de Correa [ex-presidente do Equador]. Então, há um grande conteúdo racial, de discriminação.
Somos levados em conta apenas no momento eleitoral. Não há uma política de Estado na educação, na cultura, que reivindique que a Colômbia é um país multiétnico, multicultural. Não há uma valorização do aporte que temos feito há anos.
Se analisar os informes das Nações Unidas, a maioria dos deslocados das terras são negras e negros, mulheres e crianças. Os que estão nas ruas pedindo esmola, são negros e negras.

MULHERES
A violência de gênero na Colômbia aumentou. É alarmante.
Com a assinatura dos acordos de paz, o país vai se dar conta dos verdadeiros problemas que tem, de que há uma misoginia, homofobia, racismo… e o que está mais invisibilizado é a violência contra mulheres. Ano passado, 1700 mulheres foram assassinadas.

AVANÇO DA DIREITA E A MÍDIA
Creio que não é estranho que a direita esteja utilizando nossos temas, nosso discurso em defesa dos direitos humanos para desvirtuar e dar a entender que o que fazemos é uma perseguição aos seus líderes. Isso é parte de uma estratégia de desestabilização dos países da região.
É muito grave porque parece que essa forma de golpe suave nos pegou de surpresa. Eles estão usando uma estratégia massiva, simultânea e não estamos respondendo individualmente e sequer coletivamente.
Esse discurso de direitos humanos tem uma vantagem muito grande com relação a nós: eles têm plataformas de meios de comunicação inveteradamente a favor dessa direita e, hoje mais do que nunca, usam sua voz para fazer o mundo e a população crer que quem está violando os direitos humanos somos nós, os governos socialistas.

UNIÃO DA DIREITA
É um a estrutura concreta, é uma plataforma da direita financeira que tem uma capacidade enorme de preencher os vazios e usam o marketing político de maneira perfeita. Não precisam sequer ter partidos, mas têm a capacidade de olhar a necessidade econômica das pessoas.
Esse é um momento de uma reflexão e retificação para que possamos impedir que a direita retorne. É uma responsabilidade nossa, não podemos atribuir tudo ao império. Temos que solucionar os problemas do povo. Sentar e traçar uma estratégia continental.
Na eleição da Venezuela [parlamentares de 2015], vimos algo asqueroso. Seis ex-presidentes dando as mãos, passeando por todas as partes, falando com a população, dando lições de ética e falando sobre o processo eleitoral, quando em seus países sequer são dadas as garantias democráticas, como é o caso de Andrés Pastrana [ex-presidente colombiano (1998-2002)].
Então eles podem se unir para nos desestabilizar, mas nós não somos capazes de nos unir para traçar uma plataforma de defesa.

CONTRA O SISTEMA
Eu fui inabilitada por 32 anos, com duas sentenças seguidas por causa da minha posição política frente ao sistema eleitoral venezuelano e por minha posição diante das FARC.
Eu represento o contra sistema. Estou contra os meios de comunicação. Meu caso foi parar na Corte Interamericana de Direito.

CRITICA À ESQUERDA
Nós temos que ser muito críticos com a esquerda continental. Fomos muito inferiores ao momento. Não fomos capazes de revisar e retificar.
É muito importante que a esquerda latino-americana tenha a capacidade de perceber que tem culpa pelo que está ocorrendo. Antes de tudo, nos nossos países a unidade não existe. Nos dedicamos a escrever livros para ver quem é o best seller da esquerda e não fazer política com as pessoas… Não analisamos o povo que dizemos defender.
O exemplo mais contundente é a Venezuela. Milhões de casas grátis, gente que estuda de graça, o medicamento é quase grátis e as pessoas votaram contra o processo que os têm favorecido [nas eleições parlamentares]…
Nós temos que nos reunir para defender o povo e fazer um muro de contenção, porque hoje eu estou aqui, mas amanhã posso estar morta. No meu país não há nenhuma garantia, porque não ameaçam, matam. O que estão matando, na verdade, é a esperança das pessoas.

Edição: Juliana Gonçalves

Ouçam as vozes das mulheres negras para a necessária transformação da sociedade e do Estado, alerta Jurema Werneck

(Débora Prado/Agência Patrícia Galvão, 25/07/2017) Reconhecer as vozes das mulheres negras como centro do diálogo sobre uma nova sociedade e um novo Estado é fundamental e urgente. 
“Elas não estão dizendo alguma coisa que vá trazer seus filhos assassinados de volta, elas já os perderam e perderam para sempre. O que elas estão trazendo é uma proposta de como o Estado pode ser diferente, como a polícia pode ser diferente, como a sociedade pode ser diferente. Ou seja, é uma proposta extremamente generosa”. A explicação é da ativista antirracista Jurema Werneck, que na sua trajetória de vida e luta acumula décadas de experiência e respeitabilidade, como integrante da ONG Criola, médica, doutora em Comunicação e Cultura e atualmente diretora da Anistia Internacional no Brasil.
A voz de Jurema tem repetido, em ações, falas, textos e formulações eloquentes, aquilo que o racismo invisibiliza: são as vozes das mesmas mulheres negras que estão no centro da resistência ao racismo patriarcal – por serem justamente as mais intensamente expostas às suas consequências violentas e violadoras – que devem ser ouvidas pelo muito que têm a ensinar para a construção de uma sociedade mais justa e menos violenta.
Suas reflexões vão ao encontro das reivindicações da Marcha das Mulheres Negras de São Paulo, que neste 25 de julho realiza o ato “Mulheres Negras e Indígenas por nós, por todas nós, pelo Bem Viver”. A manifestação acontece no Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e também Dia Nacional de Tereza de Benguela – uma data que une as mulheres negras internacionalmente (saiba mais).
Jurema Werneck esteve em São Paulo em 18 de julho, para uma participação no 11º Encontro Anual do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. A entrevista foi concedida à Agência Patrícia Galvão após sua participação na conferência internacional realizada por Tracey Meares, professora de Direito na Universidade de Yale, nos Estados Unidos, e também mulher negra, que falou sobre o tema ‘Atuação policial, legitimidade e confiança nas polícias‘.
Tracey Meares destacou em sua fala como a atuação policial impacta não só na relação da sociedade com o Estado, mas possui também um poder ‘educativo’ que impacta na relação dos membros da sociedade entre si. Ou seja, uma polícia violenta alimenta relações sociais violentas. Ao interagir com a conferencista, Jurema Werneck trouxe quatro casos de jovens negros assassinados por agentes de forças policiais, que são acompanhados pela Anistia Internacional: Maicon de Souza Silva, 2 anos, morto em 1996 durante uma operação policial na favela de Acari, Rio de Janeiro; Gary Hopkins, morto aos 19 anos em 1999 pela polícia de Maryland, nos Estados Unidos; Fabrício dos Santos, filho de Gláucia dos Santos, assassinado aos 17 anos por autoridades policiais em um posto de gasolina em Guadalupe (Rio de Janeiro) na virada de 2013 para 2014; e Nakiea Jackson, morto em 2014 pela polícia de Kingston, capital da Jamaica (leia mais sobre os casos).
“São quatro histórias de crianças e jovens negros mortos pela polícia, de familiares que se tornaram ativistas pelo fim da violência, pela punição dos assassinos e pela transformação da polícia. Nossa região, a americana, é extremamente violenta”, pontuou Jurema Werneck, ressaltando que as políticas públicas da região não atuam da mesma forma em relação à proteção da vida de brancos e negros. Nesse cenário, Jurema destaca que é preciso dar centralidade para a voz das mulheres negras, que muito têm a dizer para a construção de uma sociedade menos racista e violenta em um continente marcado pelo colonialismo, a escravidão e o seu nefasto legado: o racismo patriarcal.
Confira a entrevista:
Você disse durante a conferência que é preciso ouvir as vozes das mulheres negras, que elas têm muito a ensinar para uma polícia e um Estado mais humanizado. O que essas vozes estão repetindo que a sociedade não está ouvindo?
Primeiro, essas vozes estão falando bem alto que a polícia está matando meninos e meninas negros e negras nas favelas, nas periferias, em todos os lugares. Elas estão dizendo também que há um fenômeno escondido, ou pouco tratado pelo Estado, que é o racismo, o racismo patriarcal, que não apenas elimina os jovens e as jovens, mas também invisibiliza ou não ouve o que precisa ouvir das vozes das mulheres negras. Porque elas não estão dizendo alguma coisa que vá trazer seus filhos de volta, elas já os perderam e perderam para sempre. O que elas estão trazendo é uma proposta de como o Estado pode ser diferente, como a polícia pode ser diferente, como a sociedade pode ser diferente.
Ou seja, é uma proposta extremamente generosa, porque, como eu disse, o que elas já perderam não vão recuperar nunca mais, mas elas mostram que existe um caminho para além da vingança, tem um caminho que significa justiça, e fazer parte da justiça é dar centralidade a essas vozes, ouvir essas mulheres que são mulheres negras, que são em sua maioria mulheres de favela e da periferia, que têm uma proposta de um mundo diferente e que precisam ser ouvidas.
E qual é o papel das instituições no enfrentamento ao seu racismo institucional, que é quebrar de fato essa invisibilidade e se comprometer com essa pauta para além do discurso?
É fazer. Enfrentar o racismo institucional só se faz enfrentando. Primeiro, tem que reconhecer que o racismo está lá – em uma sociedade racista, um país racista, um continente racista, o racismo está lá. Então, é preciso enfrentar, e de diferentes formas. Reconhecer implica dizer que as autoridades, ou melhor, que a opinião institucional tem que ser abertamente e explicitamente colocada em favor do enfrentamento ao racismo. É preciso também criar mecanismos internos: diferentes setores, políticas e ações, diferentes formas de dialogar com a sociedade, informar e prestar contas do que está fazendo.
E, no caso das polícias, é preciso de fato interromper imediatamente esse confronto entre Estado e comunidade negra, em especial a população jovem negra. E, por fim, é preciso se juntar à luta que parte da sociedade já está fazendo. Os movimentos negros e os movimentos de mulheres negras, a população indígena, a população de favela já estão lutando. É preciso se juntar e não se opor a essas lutas. Tem que trazer essa inteligência, tem que trazer essas metodologias para dentro, para construir políticas que tenham mais a cara da população. Ou seja, tem que fazer muita coisa, mas é isso: tem que fazer.
E é importante respeitar esse protagonismo, certo?
Sim, com a mulher negra no centro, porque é a mulher negra que está fazendo esse movimento. Isso vale para o Brasil, a Jamaica, os Estados Unidos e vários países do continente: as mulheres negras estão fazendo. Então, é central, é fundamental e é urgente trazê-las para o diálogo e para informar as ações que as instituições têm que fazer.
Por fim, você comentou durante a conferência sobre a taxa de mortalidade da população negra e no Mapa da Violência 2015 vimos que também aumentou a morte violenta de mulheres negras – em 54%, enquanto a de brancas caiu 9,8% – mesmo com a Lei Maria da Penha em vigor no Brasil, que é considerada uma das mais avançadas do mundo. Esses números são reflexo do racismo estrutural e institucional no país?
Sim. O racismo está presente inclusive na Lei Maria da Penha, quando exclui o enfrentamento ao racismo dos seus mecanismos de proteção à vida das mulheres,  que, assim, está deixando de fora esse contingente de mulheres que segue sendo extremamente vulnerável, que segue sendo assassinado apesar da Lei, apesar de uma política pública que foi construída com todas as mulheres. A Lei Maria da Penha foi construída no debate com todas as mulheres, mas na reta final a política pública acabou não incorporando aquelas que estão mais expostas, não incorporando o enfrentamento ao racismo institucional. O processo de criação e de implementação da Lei Maria da Penha tem muito a ensinar, mas a primeira lição é que é preciso enfrentar o racismo.

Angela Davis: “Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela”

Filósofa norte-americana exortou que o feminismo negro defenda punições alternativas à prisão.

Professora defendeu que movimento no Brasil, incluindo o das domésticas, seja referência para EUA



"As pessoas me perguntam: 'Você já esteve no Rio?' Não. 'Você já esteve em São Paulo?' Não. Mas estive em Salvador e de novo e de novo", derreteu-se Angela Davis rendendo de vez o auditório da Universidade Federal da Bahia (UFBA) nesta terça-feira. As pessoas que lotavam as cadeiras e as galerias, muitas reluzindo vastas cabeleiras afro em jogo com a de Davis - do graúna das fotos históricas, agora seu fios estão agora quase brancos -, ouviram a filósofa e ícone da luta pelos direitos civis dos EUA conclamar contra os que considera algozes, do Governo Trump ao sistema carcerário mundial "depositário dos humanos considerados lixo": "Com a força e o poder das mulheres negras desta região, nós resistiremos".
Davis comemorou que sua sexta visita ao Brasil desde os anos 90, a quarta apenas em Salvador, uma das cidades mais negras do Brasil, coincidisse com o Dia Internacional da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha, 25 de julho. Em seu discurso de quase uma hora, a professora emérita do departamento de estudos feministas da Universidade da Califórnia criticou o encarceramento como meio de combater a violência de gênero: "Quão transformador é enviar alguém que cometeu violência contra uma mulher para uma instituição que produz e reproduz a violência? As pessoas saem ainda mais violentas da prisão. Adotar o encarceramento para solucionar problemas como a violência doméstica reproduz a violência que tentamos erradicar", afirmou na mesa de conferências imponente formada por mulheres negras.

Vídeo da palestra de Davis na UFBA.

A ativista argumentou que é preciso relacionar a violência de gênero a "violências institucionais" para buscar outras maneiras de combater o sexismo: "Não são as pessoas individualmente que decidem que a violência é a resposta; são as instituições ao nosso redor que estão saturadas de violência. Se o Estado usa a violência policial para solucionar problemas, há a mensagem de que a violência também pode ser usada para resolver problemas em outras esferas como os relacionamentos. Não podemos excluir a violência de gênero de outras violências institucionais", pontuou a filósofa.
Presa em 1970 acusada de conspiração e homicídio após envolvimento com o movimento dos Panteras Negras nos EUA e pesquisadora sobre o sistema carcerário, a ativista estabeleceu as relações entre o sistema escravista e o sistema prisional. "No passado houve quem defendesse a manutenção da escravidão de forma 'mais humanizada'. Esse argumento não nos faz sentido, mas há os que defendem a reforma do sistema carcerário hoje. A escravidão e o cárcere são instituições de repressão estruturadas no racismo. Abolir o sistema carcerário nos faz pensar a sociedade em que esse sistema de punição emerge e buscar novas formas de justiça", defendeu.
Davis lembrou a trajetória de mulheres negras brasileiras e enfatizou a sua importância na construção de novas lideranças e de novos formatos de liderança. Questionou seu lugar como difusora privilegiada das ideias do feminismo negro por ser norte-americana. "As mulheres dos EUA têm muito a aprender com a longa história de luta do feminismo negro no Brasil." "Mãe Stela de Oxossi me falou sobre a importância das mulheres negras na preservação das tradições do candomblé. Vi a importância de Dona Dalva para manter a tradição do samba de roda no Recôncavo Baiano", contou. Ela também elogiou o movimento organizado bem sucedido das trabalhadoras domésticas negras. "Nos EUA não conseguimos estruturar essa categoria com sucesso. A liderança dessas mulheres não se estrutura naquele individualismo carismático masculino que vimos no passado. É um tipo de liderança que enfatiza o coletivo e as comunidades onde vivem", afirmou ela.
A professora fez questão de mencionar Carolina Maria de Jesus, autora de Quarto de despejo, um diário de uma moradora de favela em São Paulo dos anos 60, para dizer que a escritora “nos lembrou que a fome deveria nos fazer refletir sobre as crianças e o futuro”. Também disse que a antropóloga e ativista baiana Lélia Gonzalez foi pioneira nas conexões entre raça, classe e gênero quando pouco se falava nisso. "Ela já falava sobre os elos entre negros e indígenas na luta por direitos. Essa é uma das lições que os EUA podem aprender com o feminismo negro daqui.''
Davis foi ovacionada ao dizer que considera o movimento das mulheres negras o mais importante do Brasil hoje "na busca por liberdade". Antes de Salvador, num encontro internacional sobre feminismo negro e decolonial em Cachoeira, ela já havia defendido o poder de transformação da mobilização: "Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela, porque tudo é desestabilizado a partir da base da pirâmide social onde se encontram as mulheres negras, muda-se a base do capitalismo".
A conferência na UFBA foi encerrada com a insistência de Davis na necessidade de novas abordagens feministas sobre o sistema carcerário. "Não reivindicamos ser incluídas em uma sociedade profundamente racista e misógina, que prioriza o lucro em detrimento das pessoas. Reivindicar a reforma do sistema policial e carcerário é manter o racismo que estruturou a escravidão. Adotar o encarceramento como estratégia é nos abster de pensar outras formas de responsabilização. Por isso, hoje faço uma chamada feminista negra para abolirmos o encarceramento como forma dominante de punição e pensarmos novas formas de justiça."

A diretora que luta para que haja mais mulheres maduras no cinema

A cineasta francesa Agnès Jaoui protagoniza ‘Aurore’, tragicomédia sobre a velhice como etapa divertida

GREGORIO BELINCHÓN
Madri 29 JUL 2017
“De verdade, eu disso isso? As mais tiranas, eu?”. Agnès Jaoui (Antony, 1964) cai na gargalhada. Ela fala em espanhol muito fluente, com um sotaque engraçado, mas após a pergunta, pede para ouvi-la novamente em francês. Mas os registros de jornais e revistas a entregaram, pois a dramaturga, atriz, roteirista e diretora – glória nacional francesa – disse em uma de suas visitas anteriores à Espanha: “Nós, as mulheres, somos as mais tiranas, e as mais tiranizadas”. Pode ser que parte desta ideia esteja presente em seu novo filme como atriz e roteirista, Aurore, a história de Aurore, que recém completou meio século de vida e descobre que entrou na menopausa, que vai ser avó e que será demitida de seu trabalho como garçonete. Ela encontra apoio entre outras mulheres e também algum olhar mais cruel das mais jovens. Só lhe resta lutar contra todos esses problemas ou assumi-los. O melhor de Aurore é a própria Jaoui, mais engraçada do que em seus filmes (“Eu certamente não teria me deixado ser tão burlesca”) e que mantém uma tragicomédia que fala sobre algo tão difícil de mostrar nas telas: a vida diária.
Ela volta à frase da tirania. “Acho que estava embriagada naquele dia. Que raro”. Aconteceu durante a divulgação de seu filme Comme una image. “Ah, certo. Sim, pelo aspecto físico. Reconheço que a frase é minha, porque uma mulher pode ser muito dura com outras mulheres pela sua aparência. Em Aurore há varias reflexões de coisas que como mulher você não pode entender se não as vive: falo do racismo, a discriminação... Quando você é jovem, você acha que é imortal, não entende o que acontece quando completa meio século de vida. Mais do que nunca, vivemos numa sociedade da juventude, que não leva em conta as mudanças da idade. “Isso acontece com outros, comigo não”, você pensa num dia e, no outro, precisa de óculos para ler. Vivemos numa sociedade que esconde os velhos, como se sofressem uma doença. Meus filhos, adolescentes, tiram sarro de mim. E mando ficarem quietos porque não sabem o que falam”, conclui entre risadas. “Ah, como a juventude é tonta”.
Por outro lado, como sua personagem em Aurore, Jaoui – toda sorridente no cara a cara, ao contrário de sua normal aridez nas telas – descobriu outras coisas ao ficar mais velha. “Experiência e inteligência. A vida adere ao seu corpo”. Por isso há tantos nomes assinando o roteiro do filme. “Blandine Lenoir, a diretora, já estava há um tempo com o roteiro e percebeu que não tinha conversado com mulheres de mais de 50 anos, que estivessem entrando na menopausa. Assim que foi acontecendo com várias amigas, acrescentamos histórias e conselhos”.

A CANTORA HISPANO-BRASILEIRA


Agnès Jaoui não apenas fala em espanhol, mas também canta. E mais que em francês. “Quando gravei meu primeiro disco, não conseguia compor em francês. Então fiz em espanhol e em português para os ritmos brasileiros... Agora também canto em francês. Mas com dificuldades. Quando canto, gosto de me sentir outra pessoa e em francês continuo sendo eu mesma”, diz. Ela continua lançando álbuns e apresentando shows. E melhor em espanhol e português. “Até a posição da voz muda. Em outro idioma me sinto livre, em francês me sinto... nada”.
É possível encarar uma personagem sem entendê-la? Aurore é o papel mais próximo de Jaoui em sua carreira? “Sei que há atores, mitos, que sabem interpretar uma personagem sem entendê-la ou nem sequer fazer um trabalho prévio de aproximação. Eu me sinto incapaz. E com Aurore não tenho dúvidas porque vivo o mesmo que ela. Agora, adoro o papel, embora seja um filme de Blandine, não meu”.
Jaoui fez parte do júri da última edição do festival de Cannes. No encerramento, uma de suas colegas, Jessica Chastain, declarou à imprensa: “Uma das coisas que levo pra mim desta experiência é a análise das personagens femininas. É preocupante como o mundo nos enxerga, a representação das mulheres foi o que mais me surpreendeu [tristemente]”, após destacar que, de 19 filmes, apenas três tinham como protagonista uma mulher e que, deste trio, apenas um tinha uma personagem ativa. “Nós, mulheres, não apenas reagimos às coisas que acontecem ao redor dos homens. Acho que se incluirmos mais narradoras, teremos no cinema mais mulheres como as que vejo na minha vida cotidiana”.

A duas cadeiras de distância, Jaoui pegou o cabelo e colocou embaixo do nariz imitando um bigode e como símbolo de protesto. “Falei muito disso com Thierry Frémaux, o diretor de Cannes”, lembra, agora, a cineasta francesa. “Não sei se é que havia poucos filmes com mulheres ou se a seleção teve um descuido no critério. Mas que triste, a sensação que tive é de atraso social. Conversava com Jessica todos os dias, porque filme após filme ficávamos surpresas. Víamos nas telas mulheres fracas, manipuladas, submissas... Tive vontade de gritar aos diretores. Porque se equivocam em sua visão démodé do mundo. Até na televisão há mais personagens para mulheres do que no último festival de Cannes”. Há solução para isso? “Conversamos e falamos muito. É preciso agir. Há anos nos calávamos e eu mesma não queria assinar comunicados de protesto para não atrapalhar minha carreira. Eu me blindava dizendo que eram decisões artísticas dos diretores. Agora me arrependo tanto... mudemos as coisas”.

Marina Peralta, reggae, dreads e feminismo na terra do sertanejo

Cantora se apresenta no Festival de Inverno de Bonito (MS) como a "revelação do reggae brasileiro"

Marina Peralta (Campo Grande, 1993) passou sua infância brincando na rua e numa igreja evangélica. E foi o templo, paradoxalmente, um dos primeiros lugares onde expressou sua vocação artística. “Havia muito espaço para a dança, para o canto, para o teatro... Eu colocava até reggae”, lembra ela levando seus dreads de um lado para outro. Marina é hoje uma personagem muito improvável nos bancos da igreja, mas Deus continua não só na sua vida, mas nas suas letras. “Agora vejo Deus de uma forma mais ampla”, e como diz uma das suas músicas: Meu Deus é negro/ meu Deus é índio/ meu Deus é mulher/ meu Deus é menino. “Não consigo mais encaixar Deus dentro da caixinha duma religião”
Improvável é também o ritmo com o qual Marina fez sucesso em Mato Grosso do Sul, uma região apaixonada pela musica sertaneja e fronteiriça aos passos de botas de cowboy. A jovem ganhou fama inesperada em 2015 ao divulgar um vídeo caseiro na varanda de casa cantando sua música Só Agradece. Dois milhões de pessoas já o assistiram no YouTube, e com o tempo e o poder da rede tornou-se uma revelação do reggae brasileiro. Na sua cidade lota ali onde vai e atrai fãs que nunca na vida pensaram em curtir um show de reggae. No Festival de Inverno de Bonito, uma homenagem à cultura e música da região onde ela se apresentou nesta sexta-feira, até as botas de vaqueiro paqueravam a cadência dos versos da jovem que se contorcia no palco. “Já ouvi de muitas pessoas que não costumam ouvir reggae, mas que se sentiram atraídas pelas letras, pela sinceridade do trabalho”, conta a cantora.
As letras de Marina estão longe do paz e amor enquanto fumamos um. Elas atacam o agronegócio, defendem a demarcação de terras indígenas, pregam feminismo e batem de frente contra o racismo. “O reggae não é e só para falar de coisa boa. O reggae vem do gueto, é para denunciar todas as coisas que tem de errado”, alerta. A militância tem seu preço. Depois de criticar o encarceramento em massa no Brasil, alguns de seus seguidores indignados lhe cobraram que se dedicasse “apenas” à música, o que implicaria que ela deixasse de ser ela. “A pauta é mais importante que a fama. Não vou recuar. Essas reivindicações caminham junto ao meu trabalho artístico”.
“Existe esse limite na militância de que se você é revolucionária não pode ter espiritualidade”
Apesar da variedade das suas bandeiras, em Bonito, Marina declarou que seu coração estava “em chamas” pelo recente assassinato de Mayara Amaral, uma jovem musicista de Campo Grande, cometido, segundo a polícia, pelo seu namorado, também músico. Comovida, improvisou uma música composta após a morte da colega. Muita gente do público se emocionou. “Era um alerta para as mulheres. Cuidado, não permaneçam em relacionamentos abusivos. E, se você não estiver conseguindo sair, procure outras mulheres. O assassino era uma pessoa que a gente encontrava tantas vezes... a gente nunca sabe”.
Foi o feminismo, descoberto na militância da faculdade, o que a encorajou como artista, como mulher e como mulher espiritualizada.“Porque existe esse limite na militância de que se você é revolucionária não pode ter espiritualidade, né?” , provoca. “Eu cresci num contexto no qual a gente não podia se tocar, não podia sentir, não podia se permitir sentir prazer. A igreja é muito machista, o patriarcado reina dentro das igrejas. Eu vim do processo em que eu fui muito podada da minha sexualidade”, relata. “Quando eu consegui me libertar disso, falei: porra!”. Libertação que inspirou sua música Ela encanta: Fica bem aqui, que eu vou te falar / Frida já se foi, mas pediu pra representar /E só pra constar, na minha rima vou lembrar/ Você é linda do seu jeito e até quando acaba de acordar!
Marina, além de cantora e militante, é mãe. Lua, de apenas um ano e quatro dentinhos, roda os bastidores dos shows, ora nos braços do pai, baterista da banda e professor de arte, ora no peito da mãe enquanto dá entrevistas, tira fotos ou conversa com a produção. “O que a gente faz hoje é pensando no futuro dela como mulher. Melhorar o máximo possível nosso entorno para que ela não tenha que sofrer o que a gente sofre. Só de nascer mulher, já é resistência”, afirma Marina enquanto amamenta o bebê. Com protetor auricular cobrindo suas orelhas e jaquetinha de couro, a menina já começou a dançar.

O pesadelo de ser menina na Nicarágua

Manágua 
A jovem de pé é Carla Vanesa Calderón, de 17 anos, abusada quando tinha 14.
A jovem de pé é Carla Vanesa Calderón, de 17 anos, abusada quando tinha 14. CARLOS HERRERA.
Kathy de los Ángeles Méndez, de 15 anos, foi fartamente elogiada em maio por uma rádio alinhada com o Governo do presidente Daniel Ortega. Era Dia das Mães, e a adolescente posou ao lado de um colchão e de cestas básicas oferecidos pela emissora Nueva Radio Ya. Sua cara morena de menina mostrava um sorriso tímido para as câmeras, enquanto segurava um diploma que a certificava como a mamãe mais jovem da Nicarágua. Seu ventre inchado foi declarado “a mãe de todas as panças” e celebrado com música, numa grande exposição pública. Algo normal num país onde a vice-presidenta Rosario Murillo declarou que a gravidez de uma menina é “um milagre”, embora as leis estabeleçam que qualquer gestação de menor de 16 anos decorre de estupro, e que o Estado é obrigado a investigar o caso e punir o responsável.
As críticas à rádio governista foram duras, e, pelo Twitter, a emissora reagiu na defensiva. “Não sabemos as circunstâncias dessa menina, mas é mais fácil usar a guilhotina do que investigar, ou não?”, responderam os jornalistas, que violaram o Código da Infância ao expor uma menor.
O caso de Kathy de los Angeles não é o único na Nicarágua, país que conta com a maior taxa de gravidez entre meninas de 10 e 14 anos na América Latina. Estatísticas oficiais reunidas num estudo da organização IPAS Centroamérica mostram que na última década – coincidindo com os 10 anos de governo do presidente Daniel Ortega – 1.600 meninas entre 10 e 14 anos foram estupradas e engravidaram em decorrência disso. Como o aborto terapêutico foi proibido na Nicarágua há uma década, com apoio da Frente Sandinista, o partido de Ortega, essas meninas não receberam a recomendação de interromper a gestação – pelo contrário, foram obrigadas a parir pelas autoridades de saúde pública.
“Na Nicarágua não há opções para uma menina que sofra violência sexual e engravide por causa disso”, afirma Marta María Blandón, diretora do IPAS. “Há 10 anos, com a penalização do aborto na Nicarágua, não resta outro caminho à menina neste país senão parir, e, uma vez que a menina dá à luz, tampouco é bem visto que ofereça a criança em adoção, porque ainda existe o estigma de que a mãe que gera tem que criar, mesmo que se trate de uma menina de nove anos. Ninguém recomendou às meninas abusadas que interrompessem a gestação, o que deveriam, porque [manter a gravidez] põe em perigo a sua vida, porque é uma tortura, porque não é adequado que uma menina assuma responsabilidades físicas, emocionais e espirituais de uma mulher adulta”, acrescentou Blandón.
Carla Vanesa Calderón, de 17 anos, viveu na pele aos 14 o pesadelo de ser menina na Nicarágua. A adolescente vive num barraco feito de tábuas, chapas enferrujadas, plásticos e papelões, numa favela dos arredores de León, no oeste da Nicarágua. Aqui ela contou sua história: Máximo Rayo García, um conhecido da família, abusava dela constantemente. “Ele me pagava quando abusava de mim. Quando eu não queria fazer nada com ele, me tratava a socos, me amarrava pelas mãos e os pés, me dizia que ia me matar se eu falasse. [Mataria] eu e minha mãe”, contou Carla Vanesa.
Engravidou devido aos estupros e, embora não quisesse ser mãe, foi obrigada a parir. “Eu me sentia mal, porque já não seria a menina que era antes. Por isso quando estava grávida eu achava que queria tirar a menina. Eu batia em mim para que ela caísse. Dava socos na barriga. Quando a menina nasceu, eu não sentia nem carinho nem amor, porque achava que ela tinha me desgraçado a vida. Minha mãe me dizia para eu pegar amor por ela, que a menina não tinha culpa, que o pai era um covarde e que eu não tinha por que descontar na menina. Eu dizia para a minha mãe que não queria nem ver a menina.”
Ela se torna adulta ao lado de um bebê, num mundo de miséria que torna ambas mais vulneráveis, sem que ou Estado as proteja – pelo contrário, manipula os casos de gravidez na adolescência, descrevendo-os como um milagre, num aceno aos setores mais conservadores de um país que, segundo organizações que trabalham contra o abuso sexual, sofre uma epidemia de estupros contra suas meninas. “O Estado e todas as suas instituições têm responsabilidade”, disse Lorna Norori, diretora do Movimento Contra o Abuso Sexual. “Não há uma política de proteção. As instituições da Nicarágua não só não estão fazendo nada para proteger essas meninas, o que já é grave, como também estão violando seus direitos quando convencem uma menina de 10, 11 ou 13 anos de que ela precisa aceitar sua maternidade”, afirmou Norori.

A voz de Diva para esconjurar o racismo

Até sexta-feira, diversidade da Flip era algo mais aferível por números, até que a professora falou

Paraty 

Ao levantar ofegante, já emocionada, tremendo pela coragem repentina que lhe fez erguer o dedo e pedir a fala na manhã desta sexta-feira durante uma mesa na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), Diva Guimarães, 77, estava – como ela própria diz durante um almoço neste sábado – esconjurando, compartilhando e vingando-se de uma história que lhe perseguia há 72 anos. Em sua intervenção, acompanhada de aplausos e choro dos palestrantes Lázaro Ramos e Joana Gorjão Henriques, falou sobre o dia em que, aos seis anos, deixou de ser criança depois do sermão de uma freira do colégio interno em que estudava no interior do Paraná.
Deus, na fantasia da religiosa, havia criado um rio para que todos se abençoassem. Uns, laboriosos, teriam chegado primeiro e, ao se banharem, ficaram brancos. Outros, preguiçosos, demoraram-se e encontraram um rio já atolado em lama escura. Estes, puderam apenas lavar as palmas das mãos e as plantas dos pés, ficando com todo o resto do corpo preto. O que a freira dizia é que a cor da pele de Diva era um verdadeiro estigma, a denunciar lassidão, moleza, falta de moral. Tudo poderia ser resumido em uma palavra: racismo. Mas uma palavra não basta.
“O racismo é para além da pele. O racismo nos adoece, porque é muito difícil a gente se manter emocionalmente. Você ter chorado naquela hora [em que fazia a intervenção] é porque nossas vozes estão engasgadas desde sempre”, disse a escritora Conceição Evaristo em um encontro com Diva pouco antes da hora do almoço deste sábado. Lembrando da conversa com a autora e de tudo que está acontecendo na Flip, Diva ressalta que não havia se preparado para falar coisa alguma na sexta-feira. “Mas ao ver Lima Barreto homenageado, ao ouvir a fala do Edmilson Pereira [autor que abordou a questão racial no evento], ao conhecer a história da moça de Ruanda [a autora Scholastique Mukasonga] que perdeu toda sua família no genocídio, eu senti que precisava dizer algo também”.
A ideia inicial, diz enquanto espera seu spaghetti bolonhesa, era conseguir falar apenas com Lázaro Ramos, mas, ao ter a oportunidade de fazer uma pergunta durante a mesa do ator, acabou usando o espaço para dizer tudo que precisava. “Foi minha oportunidade, meu momento”. Menos de 24 horas depois, a filmagem de sua intervenção já tinha sido assistida mais de 5 milhões de vezes. Na rua, ela tem sido reconhecida por todos. Diva é paciente. Está feliz. Para, conversa, abraça, tira sefiles. As pessoas querem dizer que o que ela fez foi fundamental, que ela é, de fato, uma diva. E, desde sexta-feira, ela tem uma palavra para todos. Mas quer deixar bem claro: “Não sou boazinha assim, eu tenho raiva, ódio mesmo, e falei o que falei também por causa disso”, diz ao explicar que detesta ser vista com comiseração.
Até a manhã desta sexta-feira, a diversidade da 15ª Flip ainda era algo mais aferível por números do que concretamente. Sabia-se, por exemplo, que pela primeira vez havia mais autoras convidadas do que autores. Sabia-se também que 30% dos escritores da programação oficial eram negros e negras. Ao falar, Diva Guimarães fez de tudo isso algo palpável. O resultado é que deixou uma cidade emocionada, mas, mais do que isso, desorientada. Foi como se tivesse oferecido um espelho para uma pessoa que nunca vira seu reflexo. “Parece que deu um erro, uma tela azul do Windows na cara das pessoas. A Diva contou a nossa história, a história de todos os negros, e deixou claro como os brancos não sabem lidar com isso”, disse uma ativista do movimento negro em uma conversa informal com a reportagem do EL PAÍS.
“O escritor moçambicano Luís Bernardo Honwana tem um conto chamado ‘As Mãos dos Pretos’ em que narra a história de uma criança que quer saber porque as palmas das mãos dos negros são brancas e recebe como resposta diferentes variações da história que Diva ouviu da freira”, diz Claudia Fabiana, professora e pesquisadora de literaturas de língua portuguesa, que está na Flip. Em uma delas, relembra, um professor da personagem explica que é porque os negros, até pouco, andavam de quatro, como os bichos. “O que a Diva fez foi contar uma história comum a todos. Quando você dá o microfone para a Diva, dá o lugar de fala para ela. Se só tiverem autores brancos, só vai ter uma história e, por isso mesmo, só uma literatura, um conhecimento”, argumenta Claudia.
Em um ambiente quente e polarizado no país, há uma crítica que reverberou na internet nos últimos dias que diz que essa edição da Flip teria se esquecido da literatura para se tornar só política. Claudia rejeita a ideia. Para ela, a literatura está no centro de todo o debate da Festa e o argumento contrário ao evento parte do princípio de que a experiência compartilhada do negro, que está presente muito mais na oralidade, é menor ou pior. “O que a Diva fez foi contar uma história que poderia ou não estar em um livro, mas que é um conhecimento oral e não é por ser oral que é menor”, diz. Em entrevista ao EL PAÍS nesta sexta-feira, Conceição Evaristo disse algo semelhante: “Não nasci rodeada de livros, mas de palavras”. Tudo pode dar em literatura ou ser literatura.
No almoço, Diva conta que ainda criança chegou à cidade de Cornélio Procópio, no interior do Paraná, com a mãe, que era lavadeira em diferentes casas do município. Pouco depois, aos cinco anos, foi recolhida por uma missão católica para estudar em colégio interno. A coisa, diz, funcionava assim: a Igreja dava educação, as crianças, em paga, trabalhavam para a instituição. Tudo muito mascarado de boas intenções. Aos 21 anos, pegou um trem que demorou 24 horas para chegar a Curitiba. Lá, passou frio com uma manta “corta febre” – “dessas que o prefeito de São Paulo anda distribuindo para os mendigos da cidade” – arranjou trabalho, estudou, entrou no curso de educação física na Universidade Federal do Paraná. Foi a única negra da instituição. Virou “cobra” no atletismo, jogou basquete, arremessou peso, nadou, formou-se. Tornou-se professora. Nunca esqueceu a freira.
Eu não sou vítima! Porque estão me perguntando do meu salário? O que isso tem a ver?
E a freira, explica, não está apenas na história de sua infância, mas na diretora da escola que um dia lhe disse que “se negro não faz sujeira na entrada, faz na saída”. Está no fato de que no Sul do país muitos negros aprenderam alemão em suas escolas por causa dos imigrantes europeus, mas que os brasileiros não aprenderam sequer uma vírgula sobre a África. Está também em todos os olhares de desconfiança que já recebeu. Está até mesmo nestes dias em Paraty, quando uma mulher lhe disse “talvez achando que me elogiava, que meu coração é branco”. Ou ainda na pergunta de um repórter que queria saber quanto Diva ganhava. “Eu não sou vítima! Porque estão me perguntando do meu salário? O que isso tem a ver?”.
Na rua do Fogo, distante algumas quadras do restaurante, onde está a casa da editora Malê – termo usado no Brasil no século XIX para designar a população negra de origem mulçumana que sabia ler e escrever em árabe –, Vagner Amaro, seu fundador, também comenta a intervenção de Diva. “Eu venho à Flip desde o começo e não via meus pares. Vivi essa situação inúmeras vezes. Por que essa edição tem muito mais presença de negros no público? Porque nós nos reconhecemos nessa programação. Ela chamou as pessoas”, comenta. A Malê, fundada em 2015, é dedicada à literatura afro-brasileira e é o selo de autores como a própria Conceição Evaristo. “Acho que a Diva falou porque se sentiu empoderada pelas palestras e pela presença de seus pares”, reflete Amaro.
Formada em educação física, Diva, contudo, sempre foi uma apaixonada por literatura e Conceição é uma de suas preferidas. Não à toa, ficou tão emocionada quando recebeu a visita da escritora neste sábado. “Sempre procurei ler literatura de autores negros, mas também ouvir suas histórias”, conta. O que faz lembrar que desde que a programação da Flip foi anunciada, há um comentário recorrente que diz que mais importante do que “trazer autores negros é formar leitores negros”. Uma variante da mesma ideia diz que “não faltam só autores negros em Paraty, mas também público negro”. Para Amaro, Diva é a prova viva da mentira dos argumentos. “O leitor negro no Brasil, a literatura negra no Brasil, não nasceu agora”, argumenta.
Segundo o editor, as pessoas se sentem livres para falar sem conhecimento, como se o mundo em que elas vivem, fosse todo o mundo. “A Malê, por exemplo, tem livros em terceira, quarta edição, outros esgotados, e temos pouco tempo de vida. Não há leitores negros ou os eventos, como a própria Flip fazia, não dão espaço para que esses leitores possam se reconhecer?”, diz Amaro. Para ele, há gerações anteriores de leitores e escritores, como a da própria Conceição, além de uma juventude nova que teve mais acesso à formação, e que está tão bem representada em mobilizações na internet e projetos que não param de surgir – como sua própria editora.
Cabelos curtos presos em tranças, Diva contou, enquanto se equilibrava com sua bengala nas pedras das ruas históricas da cidade fluminense – “toda construída por meus antepassados escravos” –, que só perdeu a raiva de Deus quando compreendeu que Jesus não era o da freira de sua infância. “Ele não tinha olhos azuis e nem cabelo loiro, seria impossível”. No espaço de um quarteirão entre o restaurante e a casa para onde foi à tarde para participar do lançamento de um catálogo de intelectuais negras, organizado por pesquisadoras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Diva foi parada mais umas tantas vezes para tirar fotos e conversar. Chegando ao evento, encontrou um espaço completamente lotado, com mais de 300 pessoas se espremendo. Ao passar a soleira da porta, foi ovacionada e, mais uma vez, se emocionou.