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quarta-feira, 26 de abril de 2017

Oprah Winfrey faz justiça para Henrietta Lacks

Nueva York 

Rose Byrne e Oprah Winfrey no longa 'A Vida Imortal de Henrietta Lacks'
Rose Byrne e Oprah Winfrey no longa 'A Vida Imortal de Henrietta Lacks' HBO

medicina deve muito a Henrietta Lacks. Era uma mulher única. Morreu de câncer há mais de seis décadas, aos 30 anos. Suas células continuaram vivas e se transformaram na ferramenta biológica que ajudou a desenvolver terapias para combater a poliomielite, o câncer e a aids. Mas a identidade dessa lavradora de tabaco ficou enterrada com a sigla das duas primeiras letras de seu nome e seu sobrenome. Oprah Winfrey agora faz justiça com A Vida Imortal de Henrietta Lacks. O melodrama dirigido por George Wolfe, que estreia na HBO na madrugada de sábado para domingo, é a adaptação do livro homônimo publicado por Rebecca Skloot em 2010 (Companhia das Letras). Jornalista especializada em ciência, Skloot revelou a origem dessas células com capacidade excepcional de se reproduzir fora do corpo humano.

A história remonta a 1951, no hospital Johns Hopkins de Baltimore – cidade onde também começou a carreira de Oprah. “Percorri as ruas onde sua família mora, buscando notícias. Nem sei quantas vezes estive no hospital. Também fui à igreja, mas nunca escutei nada sobre essa mulher”, afirma. “Soube da história porque alguém da minha equipe falou do livro.” Winfrey faz o papel de Débora, a filha mais velha de Henrietta Lacks. Os familiares nunca foram informados sobre a coleta de amostras de tecidos do tumor em seu colo uterino. E, claro, os laboratórios farmacêuticos nunca lhes deram uma compensação pelos avanços que revolucionaram a medicina. A comunidade negra, por outro lado, tinha medo na época de que os cientistas usassem seus integrantes como porquinhos-da-índia.
A história da ciência fica então num segundo plano, e a trama se concentra no périplo de uma mulher negra que tenta conhecer quem foi sua mãe. “Ninguém tem células que revolucionam a medicina moderna”, afirma Wolfe, “mas todos queremos saber quem nos criou.” Débora, diz Oprah, “precisava saber de onde vinha para definir sua identidade”. Rebecca Skloot, interpretada por Rose Byrne, foi ao seu encontro. O filme mostra a persistência da jornalista para ganhar sua confiança. Precisou demonstrar que não era outra pessoa branca que tentava se aproveitar. Oprah conta que a família queria manter a história enterrada, “ou porque a recordação era dolorosa, ou porque simplesmente não era tão importante”.
O grande desafio do diretor foi concentrar em 90 minutos uma história complexa e emotiva, que mistura as conquistas da ciência com questões raciais, religiosas, culturais e éticas. Poderia ter seguido qualquer rumo. A solução, explica, foi fazer um filme em que o público aprende com Débora à medida que ela descobre coisas sobre sua mãe e a ciência. “Ela organiza”, explica Wolfe. “Quando você conhece sua própria história, pode delimitá-la. Do contrário, fica preso pela definição que as outras pessoas criam sobre você.” Esse processo de descoberta alimenta a força de sua personalidade. E a intensidade alcançada pela relação com Rebecca o transforma numa aventura de duas pessoas. “Creio que o filme levará as pessoas a se fazerem muitas perguntas”, diz Winfrey.
E não só sobre a ciência, mas também sobre a questão racial. “Somos humanos”, afirma. “Se não fosse assim, teria sido outra forma de discriminação.” E aproveita para anunciar: “Sim, aqui estamos a negra Oprah e o negro George contando a história de uma mulher negra que ninguém sabia quem era e cujo filme estará na HBO. Isso, para mim, é um grande avanço.”


CONTADORA DE HISTÓRIAS

Oprah Winfreu em 'A Vida Imortal de Henrietta Lacks'
Oprah Winfreu em 'A Vida Imortal de Henrietta Lacks'

Oprah Winfreu se transformou na mulher mais poderosa do mundo do entretenimento. Fez isso durante 25 anos. Suas entrevistas eram sensacionais e, muitas vezes, polêmicas. Seu sucesso se baseava justamente no valor que dava ao relato dos participantes sobre como haviam chegado a ser o que eram.
Com a determinação que a caracteriza, Oprah considera importante contar a história de Henrietta Lacks. “Tanto faz que seja 1961, 1991 ou 2017”, diz. Fazer isso com um filme “permite definir, redefinir e afinar” a trama. Ela conta que precisou meditar muito sobre o papel. “Estava traumatizada”, admite, mas confessa que o trabalho lhe permitiu liberar uma raiva contida. Segundo a artista, o drama toca as pessoas de uma maneira que não se consegue com uma entrevista.

El País

Teresa Cristina: “O samba reflete o machismo, mas de um modo menos hipócrita”



São Paulo 

Teresa Cristina Caetano
Teresa Cristina analisa a figura da mulher no samba. PATRICK MAGESKI

“Teresa canta Cartola” e “Caetano apresenta Teresa”. A junção de dois espetáculos combina diferentes gerações e estilos da música brasileira. De um lado, Caetano Veloso, 74 anos, expoente do tropicalismo que confrontou a ditadura militar no fim da década de 60. Do outro, Teresa Cristina, 49 anos, uma das raras vozes femininas que alcançaram projeção no samba, graças, em parte, a um texto elogioso de Caetano que lhe rendeu destaque no The New York Times. Ao lado do violonista Carlinhos Sete Cordas, a dupla faz um show capaz de transitar pelas notas melancólicas de Cartola sem perder o tom do ritmo centenário que é um símbolo do Brasil. Às vésperas de embarcar para uma turnê pela Europa, que inclui cidades como Barcelona (28/4), Corunha (30/4) e Madri (4/5), Teresa conversou com o EL PAÍS sobre a parceria com Caetano, o papel da mulher no samba e o boicote a letras que reproduzem preconceitos.

Pergunta. Verdade que seu sonho era ser cantora de rock?
Resposta. Eu ouvia Diana Ross, Michael Jackson, Bee Gees... Com uns 16 anos, eu acabei virando “metaleira” por influência de um primo. Me encantei pelo rock. E até hoje eu ouço. Não tenho voz para cantar rock, mas adoro Van Halen, Iron Maiden, The Killers. Só que a minha praia é outra. Ouço todo tipo de música, mas o som que me arrebata, que me faz relaxar, é o do samba.

P. Como surgiu a ideia de fazer um show com Caetano?
R. Eu gravei uma música dele, “Gema”. Ele gostou da versão e me chamou para participar do show dele – “Obra em Progresso” – em 2008. Depois, quando fui trabalhar com a Paula [Lavigne], mulher dele, o Caetano conversou comigo sobre o meu jeito no palco, que gostava muito do meu trabalho, mas queria que eu me soltasse um pouco mais. Ele me deu vários toques sobre postura de palco. E, então, foi assistir ao meu espetáculo do Cartola. Ele se emocionou, porque eu fiz várias coisas que ele sugeriu. Eu estava tensa. Era uma sessão dupla. Logo no primeiro show, eu fiquei bêbada. Quando chegou o show que tinha o Caetano na plateia, eu já tava meio de pileque. Por isso não senti tanto a pressão.

Caetano e Teresa durante a apresentação de um show.
Caetano e Teresa durante a apresentação de um show. 


P. Você costuma beber antes de cantar?
R. Sempre tomo uísque durante os shows. Eu fui cantar com a Xênia França, uma cantora baiana que vive em São Paulo. No final, ela disse que eu tinha lhe dado uísque no palco: “Poxa, eu nem sou de beber pra cantar. Eu bebo na ‘vida real’, mas, no palco, não bebo.” Eu sou o contrário. Na ‘vida real’, nem bebo tanto. Eu bebo no palco [risos]. Porque o repertório do Cartola é bem forte, né? São músicas tristes, é tudo muito melancólico.

P. E como vocês mesclam a melancolia do Cartola com as músicas do Caetano?
R. Primeiro, eu canto meia hora de Cartola. Ele vem em seguida e faz um show de 50 minutos. Depois, ele me chama de volta e a gente faz cinco músicas juntos. Eu, ele e o Carlinhos [Sete Cordas]. O show ganhou corpo, passou por Ásia, Europa e Estados Unidos. Já é uma história nossa, sabe? Ficou com uma unidade bacana. Às vezes me cai a ficha: “Caraca, tô fazendo um show com o Caetano!” Mas na hora eu fico tão concentrada que não me deixo abalar muito. Me cobro para fazer tudo certo.

P. As letras das músicas do Cartola também te abalam?
R. Eu já sou um pouco melancólica por natureza, mas não queria que o show ficasse pesado. A bebida ajuda a me soltar. Mesmo lidando com a melancolia, com a tristeza, eu tento deixar o ambiente mais descontraído. Eu brinco, por exemplo, com essa coisa do Cartola na música “Tive sim”, que é muito cruel com a mulher. Ele fala que tinha outra antes dela, que era muito feliz. E aí eu troco o gênero. Eu canto a música na voz masculina e depois faço na voz feminina. Como se a mulher virasse pro homem com a mesma postura que ele teve. É um momento muito legal do show. As mulheres se levantam, gritam e cantam junto.


P. Sentia um desconforto por interpretar uma música que, de certa forma, deprecia a mulher?
R. Me incomodava, sabe? Eu não gosto de trocar gênero de música. Eu respeito o compositor. Mas eu passei a sentir empatia por aquela mulher. Pô, uma mulher ouvir aquilo... E no final ele ainda fala: “Mas vou calar, pois não pretendo, amor, te magoar”. E magoou a música inteira. Eu entendo que essa canção é dos anos 70. A relação do homem com a mulher era diferente. A mulher aceitava algumas coisas que a gente já não aceita mais. A música é linda. Mas desse jeito, fazendo a adaptação, fica mais natural para mim. Eu canto sem me sentir culpada de repetir esse discurso machista.

P. Por que a mulher ainda não ocupa um espaço de protagonismo no samba?
R. É bom lembrar que o samba só nasceu no Rio de Janeiro porque foi introduzido por uma baiana, a Tia Ciata. As pastoras aprovavam o samba de terreiro balançando o lenço. A presença da mulher foi importante nesse contexto. Se pegar as gravações de samba e tirar a voz feminina, fica tudo pesado. O coro feminino dá uma força para o samba que o diferencia de outros ritmos. É um recurso de unidade, de afirmação da cultura. Sem a mulher, o samba não existiria. Era um gênero feito por homens que tinha a mulher como tema. Apesar de não aparecer como compositora, a mulher estava nas letras. Há canções que são uma ode à mulher, mas, em outras, ela é demonizada por fazer os homens sofrerem. Como se a recíproca não fosse verdadeira. Com o tempo e o surgimento de novas compositoras, essas letras vão mudar um pouquinho.

P. O samba é essencialmente machista?
R. O samba reflete o machismo da sociedade, mas de uma maneira menos hipócrita. O machismo que existe no samba não é velado como o racismo no Brasil, por exemplo. É visível. Eu percebo na sociedade atitudes extremamente machistas com a desculpa de “ah, não, isso não tá acontecendo, isso não existe”. No samba, o machismo é mais claro. Você chega numa roda de samba e logo vê a quantidade de homens, sem nenhuma mulher cantando ou tocando um instrumento. Há muito mais compositores que compositoras. Essa discrepância é facilmente notada. Será que não existem compositoras? Será que o número é menor por que elas não existem ou por que elas não têm voz?
Teresa Cristina interpreta Cartola.
Teresa Cristina interpreta Cartola. 

P. Mas, como você disse, no passado elas tiveram voz, não?
R. A Dona Ivone [Lara] foi a primeira mulher, em 1965, a ter um samba-enredo na Avenida. Depois de 50 anos sem uma composição feminina, eu fiz o samba da Renascer de Jacarepaguá, em 2015. Fui a primeira mulher a ganhar o Estandarte de Ouro [prêmio concedido pelo jornal O Globo]. Mas é inexplicável por que não haja mulheres entre tantos compositores de samba. É preciso jogar luz sobre isso. Em várias de suas músicas, Dona Ivone teve de colocar o nome de um homem [na autoria] pro samba andar. Isso sempre mexeu comigo, assim como várias letras de músicas. Tem uma que é assim: “Se essa mulher fosse minha, eu tirava do samba já, já. Dava uma surra nela que ela gritava ‘chega’”. Isso é uma música! Um samba que incendeia a roda e todo mundo bate palma. Tem outra, que foi o primeiro samba-enredo da Portela: “Lá vem ela, chorando, o que ela quer? Pancada não é, já sei.” Olha isso! As pessoas cantam sem refletir. E a Portela foi campeã com esse samba. Ficou o estereótipo da mulher que, além de ser o demônio de saias, é um bicho interesseiro, preocupada com ascensão social, roupa e vaidade, enquanto o homem é o coitado, que fica sofrendo apaixonado. Esses sambas foram gravados, é fato, e a gente não pode fingir que eles não existem. A questão não é demonizar esses sambas, mas fazer outros que definam o que a mulher realmente representa.

P. Mudar essa percepção da mulher no samba é uma missão que você assumiu?
R. Eu quero muito. A minha contribuição é tentar compor cada dia melhor e fazer sambas na voz feminina que tenham a mesma repercussão que as letras machistas tiveram. Apesar de discordar das mensagens que passam, reconheço que são músicas bem feitas, com uma amarração de versos e melodias belíssimas. Mas é preciso dar um contrapeso feminino à história do samba.

P. Existe uma corrente que questiona os preconceitos difundidos nas marchinhas de Carnaval, como em “O teu cabelo não nega”, do Lamartine Babo...
R. Quem me chamou a atenção para o racismo na letra dessa música foi a Dona Memélia, mãe do Chico Buarque, que é branca. A gente tava na casa dela tocando um monte de marchinha de Carnaval. Quando começou a tocar “O teu cabelo não nega”, ela disse: “Mas que horrível! Essa música é racista. Como assim a cor não pega? O que tem de errado com a cor?”. Depois daquele dia, eu nunca mais cantei essa música. Prefiro cantar outras. É proibido cantar essa música? Não. Você pode cantar o que quiser. Mas, a partir do momento que me incomoda, eu não canto.

P. Para o show do Cartola, você optou por deixar alguma música de lado por causa do viés machista?
R. Teve uma, infelizmente. Ela se chama “Feriado na Roça”, que é um samba rural lindo. Fala de um cara que mora na roça e se apaixona por uma menina de lá. Ela vai pra cidade grande e, depois de um tempo, ele fica sabendo que ela tá voltando pra roça. Ele para o serviço, troca as cordas do violão e prepara uma seresta para recebê-la. Mas a mulher volta de braços dados com um doutor. E aí ele pega o revólver, dá dois tiros nela e no cara. Como é que eu vou cantar essa música? A melodia é maravilhosa, mas não dá. E eu nem culpo o Cartola, porque não se trata de um caso isolado. Isso não é exclusividade do tempo dele. É só abrir o jornal hoje em dia que você vê. O que mais tem é homem que não aceita a separação e mata a mulher. Ainda há essa coisa de “não vai ser minha, não vai ser de ninguém”. Agora, nós, mulheres, estamos acordando. O caso do Zé Mayer foi histórico. Uma emissora poderosa como a Globo afastando um ator poderoso como o Zé Mayer. Temos que parar com essa história de achar que toda mulher que se diz molestada é maluca, louca, quer se promover [respira fundo]... Dá uma esperança quando acontece um movimento como o “Mexeu com uma, mexeu com todas”. A maioria das pessoas, e não só as mulheres, apoiou a moça que denunciou o assédio. Imagina essa mulher? Ela precisa ter apoio, acompanhamento psicológico e um emprego. Ela não pode ficar marcada como “a mulher que acusou o Zé Mayer”. Eu prefiro que ele, sim, seja conhecido como “aquele ator que assediou a mulher”.

“O artista tem de se posicionar. Mas a classe artística, mesmo com todo esse desmonte que acontece no Brasil, as ações políticas com notas de fascismo, machismo e homofobia, faz um silêncio estarrecedor”

P. Tanto você quanto o Caetano se engajaram publicamente na campanha. Esse tipo de atitude é necessário para marcar uma posição política como artista?
R. Não é uma questão meramente política. É questão de cidadania. O artista tem de se posicionar. Mas a classe artística, mesmo com todo esse desmonte que acontece no Brasil, as ações políticas com notas de fascismo, machismo e homofobia, faz um silêncio estarrecedor. É algo absurdo. Eu sinto falta do artista engajado. As pessoas simplesmente não se posicionam. A impressão que dá é que o artista brasileiro, salvo exceções, só existe no palco. Fora do palco, ele não é ninguém. Parece que algumas pessoas não são tocadas quando um direito é revogado, como nessa história da terceirização. Estamos perdendo o pouco que tínhamos. Direitos trabalhistas que conquistamos na época de Getúlio Vargas. E aí? Silêncio. Isso me incomoda demais.

P. Acredita que o artista, em linhas gerais, tem medo se posicionar?
R. Acho que é o medo de rejeição. Vemos muitos artistas sendo atacados nas redes sociais e nas ruas por causa de seu posicionamento político. O Chico Buarque faz parte da história do Brasil, e isso não impediu que ele fosse agredido. Mas tem artista que só quer o filé mignon, que tenta ser visto como 100% fofo. Não sei o que faz uma pessoa se calar diante de injustiças.

P. Na época da ditadura, o Caetano Veloso foi um dos artistas que se rebelaram contra o regime militar. Você o tem como uma inspiração?
R. O Caetano se manifestou num período em que a voz dele era necessária. Nos anos 60 e 70, a resistência da classe artística contra a ditadura precisava existir. Há um momento emocionante no nosso show, quando cantamos “Como 2 e 2”. Essa música tem uma letra forte e um peso muito grande. Eu a cantava quando tinha quatro anos. Eu ficava imitando minha mãe cantar ouvindo o disco do Roberto Carlos. É uma música que, a cada ano que passa, fica mais atual. Hoje em dia, o Brasil é isso: “tudo certo como dois e dois são cinco”. Exatamente o que estamos vivendo agora. Toda vez que eu canto essa música com Caetano no palco e olho pra ele, eu choro. Tento me segurar, volto a olhar pra plateia, disfarço, mas é difícil segurar a emoção. Eu me lembro do Brasil, da minha infância, do que essa música representa. Cantá-la com o Caetano é uma vitória.


P. Há algumas décadas, o samba abriu espaço para mulheres que também marcavam posição, como Leci Brandão, Alcione, Elza Soares, Beth Carvalho...
R. Todos os nomes que você citou são de mulheres fortíssimas, mulheres de opinião. A gente sabe muito bem o que elas pensam. Sempre se posicionaram em momentos importantes da nossa história. Eu me posiciono como cidadã. Nunca fui de aceitar imposições. As coisas não me incomodam por eu ser cantora de samba, mas sim por ser brasileira. Temos um sistema político carcomido, essa madeira podre que não cai. Me sinto agoniada e impotente diante disso. Já perdi muitas noites de sono pensando nos rumos que o Brasil está tomando. O Bolsonaro vai a um clube de judeus, fala as maiores barbaridades do mundo, fala dos negros e de quilombola, e tem gente rindo na plateia. Isso me revolta. Não consigo me calar.

P. Já foi ofendida por manifestar suas opiniões?
R. Ah, eu já me deparei com muita gente sem luz, principalmente em rede social. Já fui xingada dos piores nomes possíveis. Certa vez postei uma mensagem para o Arlindo Cruz, que estava em um quadro crítico no hospital, e um sujeito disse: “Isso que dá acreditar nesses deuses que vocês acreditam”. Já me colocou no bolo, porque o Arlindo é do candomblé e eu sou da umbanda. Na época da reeleição da Dilma [Rousseff], era ainda pior. Mas, hoje em dia, esses ignorantes são minoria. Cara a cara, na rua, nunca me abordaram. Ninguém tem dúvidas em relação ao meu posicionamento político. Se o silêncio for o preço para ter mais fãs ou fazer mais shows, eu prefiro continuar onde estou. Sou feliz assim.

P. Sofreu muito preconceito em sua trajetória para se tornar cantora?
R. Sofri mais preconceito por estar cantando samba do que por ser mulher. O mundo do samba que me acolheu sempre me tratou bem. Fui muito respeitada por todos, principalmente pela velha guarda. Tive mais problemas por causa do gênero musical. Já fui cantar em lugares em que eu exigia um bom retorno de voz e a pessoa falava: “Gente, mas é samba!” Como se qualquer coisa servisse para fazer um samba. Acham que não precisamos passar som, não precisamos ensaiar. Tratam o samba como uma coisa menor.

“Ainda dizem que mulher fica assistindo jogo só pra ver as pernas dos jogadores. Desde quando a gente precisa do futebol pra ver corpo de homem?”

P. Ao contrário das gerações de Leci Brandão e Dona Ivone, hoje há poucas mulheres em evidência no samba. Já em gêneros como o sertanejo, por exemplo, a mulher vem ganhando terreno. Você observa essa tendência fora do samba?
R. As mulheres estão aparecendo no sertanejo de uma maneira bem bonita. Não é um gênero que ouço muito. Mas, por mais que eu não acompanhe tanto o sertanejo, é preciso reconhecer o mérito da voz feminina. A mulher tá falando dela. “Ah, o homem é safado, cachorro e não sei o que lá”. Mas o homem não falava isso da mulher antigamente? As mulheres do sertanejo estão trabalhando bem e ganhando espaço. Simone e Simaria, Marília Mendonça, Maiara e Maraísa etc. Tem uma coisa que me incomoda naquela música dos “50 reais”. É a parte “não sei se dou na cara dela ou bato em você”, quando a mulher encontra o cara no motel com outra. Isso repete um padrão masculino. Eu cantei os “50 reais” no Carnaval, mas mexi nesse verso. Fiz assim: “Eu não vou dar na cara dela nem dou em você, eu só vim atrapalhar sua noite de prazer” [risos]. Dei uma mudada pra tirar essa parte da agressão, porque acho meio pesado. De qualquer forma, é importante o que elas estão fazendo. Tem assunto, viu? Se a gente sentar e for listar as atitudes do homem que nos aborrecem, olha, dá pano pra manga.

P. Você é vascaína e canta músicas do clube em seus shows. De onde vem o apreço por dois universos (samba e futebol) majoritariamente masculinos?
R. Eu amo o Vasco e amo o futebol. Ainda dizem que mulher fica assistindo jogo só pra ver as pernas dos jogadores. Desde quando a gente precisa do futebol pra ver corpo de homem? Eu assisto futebol porque gosto. Apesar das rivalidades, esse papo de ficar chamando flamenguista de ladrão, falando que clube tal é time de viado, também são coisas que eu não gosto. Eu não brinco assim com meus amigos. Futebol e samba são dois lugares onde a predominância é masculina. Mas, desde criança, sempre gostei de futebol de botão e de outras brincadeiras tipicamente masculinas. E eu não me masculinizei por causa disso. Cantar samba ou frequentar estádio de futebol não significa que eu queira ser homem.

El País