Contribua com o SOS Ação Mulher e Família: Banco Santander 033 / Agência 0632 / Conta Corrente 13000863 – 4 / CNPJ 54.153.846/0001-90

Pessoas físicas e jurídicas podem destinar IR para o SOS Ação Mulher e Família através do Fundo Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente: http://fmdca.campinas.sp.gov.br/

Doe Nota Fiscal sem CPF pelos aplicativos abaixo: Ler o QRCODE ou digitar dados (CNPJ, Data, COO e Valor Total) da nota fiscal e enviar no nome do SOS Ação Mulher e Família

DOE UM CUPOM http://doeumcupom.com.br/ CUPONG http://cupong.me/ DOENOTA http://doenota.org

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Empregador não responde por estupro fora do horário de trabalho, decide TRT-3


O fato criminoso ocorreu durante uma viagem que a reclamante fez ao Mato Grosso do Sul, a serviço da empresa. Chegando ao seu destino naquele estado, narram os autos, uma turma saiu para trabalhar e outra ficou no hotel (o grupo havia comprado bebida antes). Ela contou que, naquela ocasião, todos estavam no seu quarto. Aos poucos, os colegas foram deixando o local, menos o rapaz que, trancando a porta, viria a violentá-la.
Segundo os autos, a testemunha não presenciou a agressão, mas foi chamada pelo supervisor para ir até o quarto da reclamante conversar com ela. Conforme registrado no depoimento, quando a testemunha chegou ao quarto, encontrou-a chorando muito, dizendo ter sido estuprada pelo colega. A testemunha acrescentou que, a pedido do supervisor, examinou a reclamante no banheiro, a fim de identificar algum vestígio. De acordo com o depoimento, o supervisor teria lhe dito que a empresa pediu para não chamar a polícia.
Diante desse quadro, o relator do recurso no TRT-3, desembargador Luís Felipe Lopes Boson, concluiu que o alegado estupro ocorreu quando os empregados que não foram trabalhar estavam confraternizando e consumindo bebida alcoólica no quarto da reclamante. Como o fato ocorreu fora da jornada de trabalho e os empregados não estavam aguardando ou cumprindo ordens (conforme o artigo 4º da CLT), o desembargador entendeu que não cabe atribuir qualquer responsabilidade ao empregador.
Seguindo o mesmo raciocínio expresso na sentença, o julgador avaliou que, com exceção das hipóteses previstas em lei, o empregador não pode ser responsabilizado pelo que acontece ao seu empregado quando o trabalhador está de folga, completamente desvinculado das suas atividades. Para o magistrado, pensar dessa forma significaria enxergar o empregador como responsável, em qualquer hipótese, por tudo o que aconteça aos seus empregados, durante o horário de trabalho ou fora dele.
O desembargador-relator observou no voto que a vendedora não demonstrou que o ‘‘exame’’ realizado acarretou-lhe constrangimento, vexame ou qualquer violação aos direitos inerentes à sua personalidade. Ele entendeu ser razoável, ante as circunstâncias e a gravidade do fato, que a testemunha tenha levado a reclamante ao banheiro para examiná-la, assim como suas roupas.
"É certo que a empresa não chamou a polícia. Contudo, tal fato, por si só, não tem o condão de configurar o dano moral, já que a própria reclamante poderia acioná-la. Diversamente do alegado na inicial, a empresa não fez ameaças à autora de que a deixaria na viagem caso desse às autoridades policiais notícia do estupro, conforme informação prestada por sua testemunha", finalizou o relator, ao negar provimento ao recurso. A turma julgadora acompanhou esse entendimento. Com informações da Assessoria de Imprensa do TRT-3.

Mulheres estão em desvantagem desde o começo da carreira

Laura Colby, da Bloomberg

Nova York - Muitas das iniciativas para aumentar a participação de mulheres nas empresas se concentram em sua baixíssima presença nos conselhos e no alto escalão executivo, mas um novo estudo mostra que as trabalhadoras estão em desvantagem desde o primeiro degrau da carreira profissional.

Por cada 100 mulheres que são promovidas de um cargo iniciante para outro de gerência, 130 homens avançam, segundo o estudo publicado na terça-feira pela LeanIn.org e pela McKinsey & Co.
Mulheres ficam atrás dos homens em todos os degraus, mas a diferença é maior no ponto crítico em que elas poderiam chegar pela primeira vez à chefia.
“As mulheres atingem o teto de vidro mais cedo do que as pessoas acham”, disse Rachel Thomas, presidente da LeanIn, um grupo fundado pela diretora operacional do Facebook, Sheryl Sandberg.
“Os homens avançam rapidamente e as mulheres começam a enfrentar obstáculos desde a largada.”
O estudo analisou grupos de funcionários de 132 empresas, entre elas General Motors, Visa, Procter & Gamble e Morgan Stanley. Também entrevistou 34.000 funcionários.
As mulheres pediram promoções ou aumentos um pouco mais frequentemente do que os homens e tiveram maior propensão a serem rotuladas como “mandonas” ou “agressivas” quando pediram, concluiu o estudo.
As mulheres também tiveram menos acesso aos executivos seniores que os homens, receberam menos conselhos sobre como melhorar seu trabalho e menos tarefas de alto perfil.
“Essas coisas começam a se acumular”, disse Thomas. “As mulheres progridem mais lentamente, e quanto mais acima se olha a hierarquia, menos mulheres se vê.”
Empurradas ao RH
Um possível motivo é que à medida que ascendem, muitas mulheres abandonam funções onde por exemplo são responsáveis por uma declaração de lucros e prejuízos, e passam para cargos como recursos humanos ou tecnologia da informação.
É menos provável que esses cargos levem à presidência da empresa. Pode ser que as mulheres sejam empurradas para essas carreiras, disse Thomas, ou que não tenham modelos a seguir. 
As mulheres representam menos de 5 por cento dos CEOs das 500 maiores empresas de capital aberto dos EUA, segundo o Catalyst, um grupo de defesa das executivas.
As disparidades são mais acentuadas para as mulheres negras, que representam 20 por cento da população dos EUA, mas ocupam apenas 3 por cento dos cargos do alto escalão.
Embora 78 por cento das empresas tenham informado que a diversidade de gênero era uma das 10 principais prioridades para seu CEO, contra cerca de 56 por cento em 2012, somente 55 por cento afirmaram que a diversidade racial era de alta prioridade.
Mas há motivos para ser otimista, disse Thomas. O estudo mostrou um pequeno aumento na porcentagem de mulheres em cada patamar em comparação com um ano atrás.
Outro fator que reteve as mulheres foram os companheiros que não compartilham a carga das tarefas domésticas e da educação dos filhos, segundo o estudo.
Entre as mulheres que dividem de forma igualitária os afazeres domésticos com seus parceiros, 43 por cento aspiravam a cargos executivos seniores.
Somente 34 por cento das mulheres que faziam a maior parte das tarefas domésticas queriam o mesmo, de acordo com o estudo.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Os redemoinhos do transtorno depressivo recorrente

 
As cores, de repente, mudam de tom, ficam esmaecidas. O que era vivo e empolgante, subitamente parece uma gravura em nuances de sépia. O ar parece mais denso, como aquele mormaço num dia que não se decide se chove ou faz calor. No peito uma melancolia que perturba e aquela antiga sensação de aperto na garganta, como se ali houvesse um choro há anos reprimido e que agora precisa desaguar.
O transtorno depressivo recorrente caracteriza-se pela repetição dos episódios de depressão, alternados por períodos de normalidade, durante os quais parece ter havido a remissão dos sintomas. A pessoa que convive com esse transtorno sofre com a visita inesperada da sensação de perda de prazer pelas atividades, mesmo as mais apreciadas; sente cansaço e desânimo; o que antes poderia ser avaliado como pequenos problemas, geram irritação e impaciência. A vida parece ter mudado ao redor, tudo ficou mais opaco e hostil.
Ainda que sejam episódios leves, aqueles que vivem na pele o processo depressivo recorrente, sentem-se impotentes diante de suas incontroláveis oscilações de humor. Muitas vezes, aguentam a dor calados e torcem para que ninguém os surpreenda em crises de choro que chegam sem avisar. Outras vezes, fazem a ariscada tentativa de confessar que estão deprimidos outra vez; sentem-se culpados e sem valor, como se tivessem de pedir desculpas pelo transtorno – literalmente pelo transtorno.
Não é raro acontecer a primeira manifestação de transtorno depressivo recorrente na infância. Neste caso, o diagnóstico é ainda mais delicado, posto que a criança não consegue expressar com clareza o que sente ou explicar a razão de seus comportamentos. Sendo assim, é preciso olhar atento e amoroso; se a criança de repente se comporta de modo incompatível à sua natureza, manifesta alterações no ritmo de sono, perde o apetite ou parece não se saciar, chora por qualquer motivo ou perde o interesse por atividades que a encantam, é necessário buscar a ajuda de um profissional da área de Psicologia ou Psiquiatria.
O que diferencia o transtorno depressivo recorrente dos episódios únicos de depressão é, justamente a ocorrência em ciclos que podem durar dias, semanas ou até meses. A adolescência também pode ser o período da primeira manifestação. Ocorre que muitas vezes recorremos a rótulos equivocados para categorizar o comportamento na adolescência. É claro que não se pode chamar qualquer simples rebeldia ou recolhimento natural dessa fase da vida de depressão. No entanto, o isolamento exagerado, explosões emotivas despropositais, irritação intermitente, alterações significativas no apetite e no sono, pode indicar que algo definitivamente está errado. E também neste caso, como na infância, a avaliação Psicológica ou Psiquiátrica é fundamental.
Entretanto, como passamos quase a maior parte da vida na fase adulta, ao menos cronologicamente, é ainda mais comum que o transtorno depressivo recorrente se manifeste nessa fase. Estima-se que há entre nós, os brasileiros, 17 milhões de pessoas sofrendo de depressão. E o mais sério de tudo isso é que, inúmeras vezes essas pessoas não são diagnosticadas, tratadas e acompanhadas adequadamente.
Aqueles que lutam para compreender, administrar e sobreviver aos episódios recorrentes de depressão lidam com dois inimigos invisíveis e muito traiçoeiros. Um é a própria doença, que diferente de uma ocasional tristeza, traz enormes prejuízos funcionais que afetam a vida afetiva, cognitiva e social daquela pessoa. O outro é o preconceito. Infelizmente, ainda há quem pense que depressão é frescura ou “coisa da cabeça”.
A verdade é que a depressão é muito mais democrática do que se pode supor, infelizmente. Ela pode se instalar em indivíduos extremamente bem-sucedidos e, também naqueles que ainda não se encontraram ou perderam tudo; pode ocorrer com pessoas cercadas de gente querida, inseridas em famílias estáveis e relacionamentos amorosos felizes; pode, inclusive, acontecer para aqueles que acham que isso é coisa de gente desocupada.
Não há vacina para prevenir a depressão. Mas há um “remédio” poderosíssimo, constituído por elementos essenciais como diagnóstico; terapia; medicação (se for o caso); e o mais simples deles, porém, o mais raro que é a compaixão humana.

Idosos órfãos de filhos vivos são os novos desvalidos do século XXI

 

Atenção e carinho estão para a alegria da alma, como o ar que respiramos está para a saúde do corpo. Nestas últimas décadas surgiu uma geração de pais sem filhos presentes, por força de uma cultura de independência e autonomia levada ao extremo, que impacta negativamente no modo de vida de toda a família. Muitos filhos adultos ficam irritados por precisarem acompanhar os pais idosos ao médico, aos laboratórios. Irritam-se pelo seu andar mais lento e suas dificuldades de se organizar no tempo, sua incapacidade crescente de serem ágeis nos gestos e decisões
Por Ana Fraiman, Mestre em Psicologia Social pela USP
A ordem era essa: em busca de melhores oportunidades, vinham para as cidades os filhos mais crescidos e não necessariamente os mais fortes, que logo traziam seus irmãos, que logo traziam seus pais e moravam todos sob um mesmo teto, até que a vida e o trabalho duro e honesto lhes propiciassem melhores condições. Este senhor, com olhos sonhadores, rememorava com saudade os tempos em que cavavam buracos nas terras e ali dormiam, cheios de sonho que lhes fortalecia os músculos cansados. Não importava dormir ao relento. Cediam ao cansaço sob a luz das estrelas e das esperanças.
A evasão dos mais jovens em busca de recursos de sobrevivência e de desenvolvimento, sempre ocorreu. Trabalho, estudos, fugas das guerras e perseguições, a seca e a fome brutal, desde que o mundo é mundo pressionou os jovens a abandonarem o lar paterno. Também os jovens fugiram da violência e brutalidade de seus pais ignorantes e de mau gênio. Nada disso, porém, era vivido como abandono: era rompimento nos casos mais drásticos. Era separação vivida como intervalo, breve ou tornado definitivo, caso a vida não lhes concedesse condição futura de reencontro, de reunião.
Separação e responsabilidade
Assim como os pais deixavam e, ainda deixam seus filhos em mãos de outros familiares, ao partirem em busca de melhores condições de vida, de trabalho e estudos, houve filhos que se separaram de seus pais. Em geral, porém, isso não é percebido como abandono emocional. Não há descaso nem esquecimento. Os filhos que partem e partiam, também assumiam responsabilidades pesadas de ampará-los e aos irmãos mais jovens. Gratidão e retorno, em forma de cuidados ainda que à distância. Mesmo quando um filho não está presente na vida de seus pais, sua voz ao telefone, agora enviada pelas modernas tecnologias e, com ela as imagens nas telinhas, carrega a melodia do afeto, da saudade e da genuína preocupação. E os mais velhos nutrem seus corações e curam as feridas de suas almas, por que se sentem amados e podem abençoá-los. Nos tempos de hoje, porém, dentro de um espectro social muito amplo e profundo, os abandonos e as distâncias não ocupam mais do que algumas quadras ou quilômetros que podem ser vencidos em poucas horas. Nasceu uma geração de ‘pais órfãos de filhos’. Pais órfãos que não se negam a prestar ajuda financeira. Pais mais velhos que sustentam os netos nas escolas e pagam viagens de estudo fora do país. Pais que cedem seus créditos consignados para filhos contraírem dívidas em seus honrados nomes, que lhes antecipam herança. Mas que não têm assento à vida familiar dos mais jovens, seus próprios filhos e netos, em razão – talvez, não diretamente de seu desinteresse, nem de sua falta de tempo – mas da crença de que seus pais se bastam.
A irritação por precisar mudar alguns hábitos. Muitos filhos adultos ficam irritados por precisarem acompanhar os pais idosos ao médico, aos laboratórios. Irritam-se pelo seu andar mais lento e suas dificuldades de se organizar no tempo, sua incapacidade crescente de serem ágeis nos gestos e decisões. Desde os poucos minutos dos sinais luminosos para se atravessar uma rua, até as grandes filas nos supermercados, a dificuldade de caminhar por calçadas quebradas e a hesitação ao digitar uma senha de computador, qualquer coisa que tire o adulto de seu tempo de trabalho e do seu lazer, ao acompanhar os pais, é causa de irritação. Inclusive por que o próprio lazer, igualmente, é executado com horário marcado e em espaço determinado. Nas salas de espera veem-se os idosos calados e seus filhos entretidos nos seus jornais, revistas, tablets e celulares. Vive-se uma vida velocíssima, em que quase todo o tempo do simples existir deve ser vertido para tempo útil, entendendo-se tempo útil como aquele que também é investido nas redes sociais. Enquanto isso, para os mais velhos o relógio gira mais lento, à medida que percebem, eles próprios, irem passando pelo tempo. O tempo para estar parado, o tempo da fruição está limitado. Os adultos correm para diminuir suas ansiosas marchas em aulas de meditação. Os mais velhos têm tempo sobrante para escutar os outros, ou para lerem seus livros, a Bíblia, tudo aquilo que possa requerer reflexão. Ou somente uma leve distração. Os idosos leem o de que gostam. Adultos devoram artigos, revistas e informações sobre o seu trabalho, em suas hiper especializações. Têm que estar a par de tudo just in time – o que não significa exatamente saber, posto que existe grande diferença entre saber e tomar conhecimento. Já, os mais velhos querem mais é se livrar do excesso de conhecimento e manter suas mentes mais abertas e em repouso. Ou, então, focadas naquilo que realmente lhes faz bem como pessoa. Restam poucos interesses em comum a compartilhar. Idosos precisam de tempo para fazer nada e, simplesmente recordar. Idosos apreciam prosear. Adultos têm necessidade de dizer e de contar. A prosa poética e contemplativa ausentou-se do seu dia a dia. Ela não é útil, não produz resultados palpáveis.Este estilo de vida, nos dias comuns, que não inclui conversa amena e exclui a ‘presença a troco de nada, só para ficar junto’, dificulta ou, mesmo, impede o compartilhar de valores e interesses por parte dos membros de uma família na atualidade, resulta de uma cultura baseada na afirmação das individualidades e na política familiar focada nos mais jovens, nos que tomam decisões ego-centradas e na alta velocidade: tudo muito veloz, tudo fugaz, tudo incerto e instável. Vida líquida, como diz Zygmunt Bauman, sociólogo polonês. Instalou-se e aprofundou-se nos pais, nem tão velhos assim, o sentimento de abandono. E de desespero. O universo de relacionamento nas sociedades líquidas assegura a insegurança permanente e monta uma armadilha em que redes sociais são suficientes para gerar controle e sentimento de pertença. Não passam, porém de ilusões que mascaram as distâncias interpessoais que se acentuam e que esvaziam de afeto, mesmo aquelas que são primordiais: entre pais e filhos e entre irmãos. O desespero calado dos pais desvalidos, órfãos de quem lhes asseguraria conforto emocional e, quiçá material, não faz parte de uma genuína renúncia da parte destes pais, que ‘não querem incomodar ninguém’, uma falsa racionalidade – e é para isso que se prestam as racionalizações – que abala a saúde, a segurança pessoal, o senso de pertença. É do medo de perder o pouco que seus filhos lhes concedem em termos de atenção e presença afetuosa. O primado da ‘falta de tempo’ torna muito difícil viver um dia a dia em que a pessoa está sujeita ao pânico de não ter com quem contar.
A dificuldade de reconhecer a falta que o outro faz.
Do prisma dos relacionamentos afetivos e dos compromissos existenciais, todas as gerações têm medo de confessar o quanto o outro faz falta em suas vidas, como se isso fraqueza fosse. Montou-se, coletivamente, uma enorme e terrível armadilha existencial, como se ninguém mais precisasse de ninguém. A família nuclear é muito ameaçadora. para o conforto, segurança e bem-estar: um número grande de filhos não mais é bemvindo, pais longevos não são bem tolerados e tudo isso custa muito caro, financeira, material e psicologicamente falando. Sobrevieram a solidão e o medo permanente que impregnam a cultura utilitarista, que transformou as relações humanas em transações comerciais. As pessoas se enxergam como recursos ou clientes. Pais em desespero tentam comprar o amor dos filhos e temem os ataques e abandono de clientes descontentes. Mas, carinho de filho não se compra, assim como ausência de pai e mãe não se compensa com presentes, dinheiro e silêncio sobre as dores profundas as gerações em conflito se infringem. Por vezes a estratégia de condutas desviantes dão certo, para os adolescentes conseguirem trazer seus pais para mais perto, enquanto os mais idosos caem doentes, necessitando – objetivamente – de cuidados especiais. Tudo isso, porém, tem um altíssimo custo. Diálogo? Só existe o verdadeiro diálogo entre aqueles que não comungam das mesmas crenças e valores, que são efetivamente diferentes. Conversar, trocar ideias não é dialogar. Dialogar é abrir-se para o outro. É experiência delicada e profunda de auto revelação. Dialogar requer tempo, ambiente e clima, para que se realizem escutas autênticas e para que sejam afastadas as mútuas projeções. O que sabem, pais e filhos, sobre as noites insones de uns e de outros? O que conversam eles sobre os receios, inseguranças e solidão? E sobre os novos amores? Cada geração se encerra dentro de si própria e age como se tudo estivesse certo e correto, quando isso não é verdade.
A dificuldade de reconhecer limites característicos do envelhecimento dos pais. Este é o modelo que se pode identificar. Muito mais grave seria não ter modelo. A questão é que as dores são tão mascaradas, profundas e bem alimentadas pelas novas tecnologias, inclusive, que todas as gerações estão envolvidas pelo desejo exacerbado de viver fortes emoções e correr riscos desnecessários, quase que diariamente. Drogas e violência toldam a visão de consequências e sequestram as responsabilidades. Na infância e adolescência os pais devem ser responsáveis pelos seus filhos. Depois, os adultos, cada qual deve ser responsável por si próprio. Mais além, os filhos devem ser responsáveis por seus pais de mais idade. E quando não se é mais nem tão jovem e, ainda não tão idoso que se necessite de cuidados permanentes por parte dos filhos? Temos aí a geração de pais desvalidos: pais órfãos de seus filhos vivos. E estes respondem, de maneira geral, ou com negligência ou, com superproteção. Qualquer das formas caracteriza maus cuidados e violência emocional.
Na vida dos mais velhos alguns dos limites físicos e mentais vão se instalando e vão mudando com a idade. Dos pais e dos filhos. Desobrigados que foram de serem solidários aos seus pais, os filhos adultos como que se habituaram a não prestarem atenção às necessidades de seus pais, conforme envelhecem. Mantêm expectativas irrealistas e não têm pálida ideia do que é ter lutado toda uma vida para se auto afirmar, para depois passar a viver com dependências relativas e dar de frente com a grande dor da exclusão social. A começar pela perda dos postos de trabalho e, a continuar, pela enxurrada de preconceitos que se abatem sobre os idosos, nas sociedades profundamente preconceituosas e fóbicas em relação à morte e à velhice. Somente que, em vez de se flexibilizarem, uns e outros, os filhos tentam modificar seus pais, ensinando-lhes como envelhecer. Chega a ser patético. Então, eles impõem suas verdades pós-modernas e os idosos fingem acatar seus conselhos, que não foram pedidos e nem lhes cabem de fato.
De onde vem a prepotência de filhos adultos e netos adolescentes que se arrogam saber como seus pais e avós devem ser, fazer, sentir e pensar ao envelhecer? É risível o esforço das gerações mais jovens, querendo educa-los, quando o envelhecimento é uma obra social e, mais, profundamente coletiva, da qual os adultos de hoje – que justa, porém indevidamente – cultivam os valores da juventude permanente e, da velhice não fazem a mais pálida ideia. Além do que, também não têm a menor noção de como haverão eles próprios de envelhecer, uma vez que está em curso uma profunda mudança nas formas, estilos e no tempo de se viver até envelhecer naturalmente e, morrer a Boa Morte. Penso ser uma verdadeira utopia propor, neste momento crítico, mudanças definidas na interação entre pais e filhos e entre irmãos. Mudanças definidas e, de nenhuma forma definitivas, porém, um tanto mais humanas, sensíveis e confortáveis. O compartilhar é imperativo. O dialogar poderá interpor-se entre os conflitos geracionais, quem sabe atenuando-os e reafirmando a necessidade de resgatar a simplicidade dos afetos garantidos e das presenças necessárias para a segurança de todos.
Quando a solidão e o desamparo, o abandono emocional, forem reconhecidos como altamente nocivos, pela experiência e pelas autoridades médicas, em redes públicas de saúde e de comunicação, quem sabe ouviremos mais pessoas que pensam desta mesma forma, porém se auto impuseram a lei do silêncio. Por vergonha de se declararem abandonados justamente por aqueles a quem mais se dedicaram até então. É necessário aprender a enfrentar o que constitui perigo, alto risco para a saúde moral e emocional para cada faixa etária. Temos previsão de que, chegados ao ano de 2.035, no Brasil haverá mais pessoas com 55 anos ou mais de idade, do que crianças de até dez anos, em toda a população. E, com certeza, no seio das famílias. Estudos de grande envergadura em relação ao envelhecimento populacional afirmam que a população de 80 anos e mais é a que vai quadruplicar de hoje até o ano de 2.050. O diálogo, portanto, intra e intergeracional deve ensaiar seus passos desde agora. O aumento expressivo de idosos acima dos 80 anos nas políticas públicas ainda não está, nem de longe, sendo contemplado pelas autoridades competentes. As medidas a serem tomadas serão muito duras. Ninguém de nós vai ficar de fora. Como não deve permanecer fora da discussão sobre o envelhecimento populacional mundial e as estratégias para enfrentá-lo.
Para ler na integra acesse Ana Fraiman  

Na vida real, ser um superman destrói o homem.

Alan Lima -  21 set, 2016

A gente é ensinado desde pequeno a ser “macho de verdade”. Um ser humano que não chora, não reclama, não tem essas frescuras de “mulherzinha.” O tempo passa e a cobrança só se afasta do bom senso. Olha, você precisa transar e logo e muito. Nada de falar dos sentimentos na rodinha de amigos, as crianças crescidas pra serem “machos de verdade” querem agora saber apenas de biologia. É só a parte menos psicológica.

E assim, grupos de homens vão fingindo que não sentem, defendendo suas masculinidades mais do que suas saúdes, e caindo no teatro mais imbecil; mostrar alguma humanidade apenas quando é para parecer fofo.

Um efeito de tanto esforço para ser um “superman” é triste; o número de homens que se suicidam chega a ser seis vezes maior do que o de mulheres. Embora em matéria de mortes, não há o que comemorar. Mesmo o número de mulheres que se matam sendo menor, todo suicídio é trágico ( Não entremos no jogo bobo de reduzir vida às estatísticas).

Qualquer pessoa, independente do gênero biológico ou social, que se recusa a cuidar de sua saúde mental está correndo riscos. Não seria diferente com homens.

Mas é isso que está no discurso do senso comum. O “homem da casa” não pode sofrer, ele é imbatível, um superman, herói, invencível, suas doenças todas são tratadas numa passadinha rápida na farmácia. Nada de choro, tristeza, ele vai carregar e comandar tudo e todos. Desgraçando a sua própria felicidade, adoecerá as pessoas que estiverem em sua volta.

Homem chora sim. E não estou falando do choro do galã pra ser bem visto pela mocinha. Falo de agonia, desespero diante das incertezas, de não poder mais sustentar uma cultura que rouba sua humanidade em prol de privilégios.

Sensibilidade não é uma habilidade de conquista em paqueras. Nem é coisa só de poesia. É intrínseco a nós, seres humanos, e ninguém precisa matá-la em prol de ser “macho de verdade”.   Aqueles que negam suas fragilidades, estão por aí, tentando provar com tomadas de poder, o que só funcionaria bem para todos com solidariedade.

Dizer o que você sente, admitir que sexo não é só biologia, perceber que a casa precisa mais de amor e cuidado do que de um “homem da casa”, não exigir aplausos por fazer o bem-óbvio, melhora sua vida mais do que sua força.

Deixe o superman para os filmes, é só na lente das câmeras que ele funciona. Na vida real, o superman só destrói o homem. Ao invés de voar mais alto que todo os outros, você pode ir caminhando ao lado; assim ouvirá o que eles têm a dizer.

Não precisa fingir que é uma capa de herói, a linda cortina que você quer levar pra decorar sua casa.

A desagradável tarefa de fazer-se odiar- Martha Medeiros

CONTI outra -  26 set, 2016

Por Martha Medeiros

Pais de família estão cada vez mais participativos, atuantes, necessários, afetivos, fundamentais na criação dos filhos, ao contrário do que acontecia nas gerações anteriores, quando o pai era uma figura cerimoniosa, o provedor que detinha a última palavra nas questões graves e terceirizava o resto. Hoje não. Hoje os pais deitam, rolam, se embolam, se envolvem nas pequenezas cotidianas, são quase mães.

Quase. Porque tem uma coisa que a maioria deles ainda não consegue assumir: a desagradável tarefa de fazer-se odiar.

Li essa frase num livro (em outro contexto) e achei que fechava perfeitamente com a maternidade. O que é ser mãe, senão tomar para si o papel de chata da família?

As cobranças do dia a dia são especialidade nossa: o que comeu, o que vestiu, se tomou banho, a toalha no chão, os garranchos, o blusão amarfanhado, a luz que ficou acesa, liga pra tua vó, o estado deplorável do tênis, a hora em que foi dormir, segura direito esse talher, deixa de preguiça, cuidado ao atravessar, não durma de cabelo molhado, largue esse computador, menos palavrão, hora de acordar, a consulta no dentista, e esse amigo mal encarado, e esse decote provocante, convida os teus primos, não tranca a porta à chave, fecha a janela, abre a janela, não corre pela casa, me avisa assim que chegar, tu anda bebendo?

Não que o pai seja relapso, mas se ele ainda vive com a mãe das crianças, a patrulha cotidiana possivelmente ficará a cargo do sargento de saias. Nós, tão femininas, tão doces, tão sensíveis, tão amorosas, não pensamos duas vezes em abrir mão desses nossos suaves atributos caricaturais a fim de manter a casa de pé, a roda girando, a vida funcionando, todo mundo no eixo. Se tivermos que ser antipáticas, seremos. Se tivermos que ser repetitivas, que jeito. Controladoras? Pois é. Alguém tem que se encarregar do trabalho sujo.

É uma generalização, eu sei, mas amparada no senso comum. Os pais mandam, ralham, brigam, mas raramente perdem a cabeça, quase nunca gritam e se estressam. Eles têm essa irritante capacidade de manter a boa reputação com os filhos. Se forem obrigados a escolher um lado durante o barraco, dirão que estão do lado da mãe, que estão de acordo com tudo o que ela disse, mas irão piscar para o filho quando ela não estiver olhando.

Ao fim e ao cabo, mães dão conta de todas as crianças da casa. Todas.

É o nosso papel: reger a orquestra familiar ofertando nosso melhor, mesmo que ele seja confundido com nosso pior. É o risco que corremos, mas não há outra maneira de educar. O excesso de zelo pode ser estafante, mas é preciso segurar o tranco de ser odiada um pouquinho a cada dia a fim de garantir um amor pra sempre.

terça-feira, 27 de setembro de 2016

#TambémÉViolência: 3 em cada 5 mulheres são vítimas de relacionamento abusivo

Campanha #TambémÉViolência joga luz sobre o relacionamento abusivo (Foto: Camila Cornelsen)

Campanha criada pela ONG Artemis joga luz sobre violências silenciosas, que nem sempre deixam marcas visíveis, mas aprisionam milhões de mulheres no Brasil. Com ato nacional, feministas pretendem exigir dos tribunais o reconhecimento de denúncias de agressões psicológicas e morais

23.09.2016 | POR REDAÇÃO MARIE CLAIRE

No Brasil, existem diferentes tipos de violência que calam e aprisionam milhões de mulheres diariamente. Nosso país ocupa o 5º lugar no ranking de feminicídio de acordo com a ONU Mulheres. E os índices são alarmantes. Cerca de 41% dos casos de violência acontecem dentro de casa. Além disso, 3 em cada 5 mulheres sofreram, sofrem ou sofrerão violência em um relacionamento afetivo. É urgente! Precisamos falar de relacionamento abusivo.

Apesar de as violências silenciosas – psicológica, moral e patrimonial – constarem na Lei Maria da Penha, muitas das denúncias não são reconhecidas pelos tribunais de justiça. Por isso, a ONG Artemis, organização comprometida com a promoção da autonomia feminina e prevenção e erradicação de todas as formas de violência contra as mulheres, prepara, para a terça (27), o lançamento da campanha #tambéméviolência.
Feministas posam para a campanha #TambémÉViolência (Foto: Camila Cornelsen)


Para isso, feministas se reunirão em um ato em frente ao Tribunal de Justiça de São Paulo, onde exigirão das autoridades o efetivo cumprimento da lei e pretendem conscientizar a sociedade apontando sinais de violência até então banalizados.

Nas redes, a ideia é estimular o debate por meio da divulgação de histórias que envolvam qualquer conduta que cause dano emocional, diminuição da autoestima ou controle de ações por meio de ameaças, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, vigilância, insulto, perseguição e limitação do direito de ir e vir.

A mobilização que vai até o dia 10 de outubro tem o apoio da LUSH, que incentiva globalmente ações voltadas à garantia dos direitos humanos. Por isso, neste período, toda a renda arrecadada com a venda do sabonete Karma será revertida em doações para a ONG.

“Falar sobre o assunto é o primeiro passo”, diz a cartilha do movimento. “Violência doméstica é qualquer ação ou missão baseada no gênero que lhe cause morte, lesão, sofrimento físico ou psicológico e dano moral ou patrimonial. E a culpa é sempre do agressor.”
Feministas posam para a campanha #TambémÉViolência (Foto: Camila Cornelsen)

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Número de divórcios aumenta no Iraque

O aumento de divórcios no Iraque é atribuído ao islamismo, à pobreza e às novelas turcas

26 set, 2016

De 2004 a 2014, houve um divórcio em cada cinco casamentos no Iraque. É uma taxa baixa pelos padrões ocidentais, mas muitos iraquianos dizem que o casamento está em crise no país.

Alguns culpam a disseminação dos princípios mais rígidos do islamismo nos últimos dez anos. O sexo fora do casamento é um tabu ainda mais forte. Por esse motivo, um número maior de pessoas está casando para ter relações sexuais. Nos preceitos da lei muçulmana os casamentos de rápida duração podem ser dissolvidos com facilidade.

A pobreza também é um fator que influencia a estabilidade no casamento. “Atualmente, muitos homens divorciam-se das mulheres por não terem condições financeiras de sustentar uma família”, disse Bassam al Darraji, um sociólogo que vive em Bagdá, a um jornal do Golfo Pérsico.

Alguns sociólogos também atribuem o aumento do número de divórcios às novelas turcas, que são muito populares no país e que mostram a relação romântica dos homens com suas mulheres. Os enredos das novelas também retratam mulheres que se divorciam dos maridos, que não as tratam bem, sem parecerem prostitutas perversas. Todos esses fatores inspiram ideias de liberdade às mulheres iraquianas. Dois terços dos divórcios partem da iniciativa das mulheres.

'Vejo cenas iguais às da Somália': a luta solitária de uma mulher contra a fome no Iêmen


BBC
Image captionAshwaq Muharram chora de tristeza com a situação das crianças no Iêmen

Depois de dois anos de guerra no Iêmen e um boicote comercial de vizinhos que durou 18 meses, milhões de pessoas estão passando fome no país ─ alguns estão até morrendo por causa da escassez de comida. Enquanto isso, uma médica na cidade de Al Hudaydah está fazendo tudo o que pode para salvar vidas.
Em seus 20 anos como médica, Ashwaq Muharram nunca presenciou uma situação tão ruim.
"Eu tenho visto a mesma coisa que costumava ver na TV quando a fome tomou conta da Somália", diz ela. "Nunca pensei que um dia fosse ver isso no Iêmen", acrescentou.
Por anos, Ashwaq trabalhou para organizações de ajuda internacional, mas a maioria delas deixou o país quando a guerra começou, em março de 2015 ─ e aquelas que ficaram, reduziram bastante suas atividades.
Agora ela tem distribuído remédios e comida com dinheiro de seu próprio bolso, usando seu carro como uma clínica móvel.
A reportagem da BBC passou duas semanas com Ashwaq visitando regiões e vilas perto de Al Hudaydah e testemunhando cenas até então impensáveis no Iêmen.

Relato

Al Hudaydah, que é controlada por rebeldes houthis que tomaram o controle da maior parte do Iêmen em 2014, era até recentemente o ponto de entrada de 70% da comida importada que chegava ao país.
Agora, não só está sob boicote, como também tem sido alvo de ataques aéreos da coalizão liderada pela Arábia Saudita ─ o próprio porto, que era um resort turístico na praia, está completamente destruído.
As bombas e o boicote passaram a representar uma ameaça dupla aos pacientes de Ashwaq .
"Se você não morre pelo ataque aéreo, você pode morrer doente por falta de alimento", diz ela. "E não há forma mais triste de morrer do que de fome", acrescenta.
Com o carro carregado de remédios, ela dirigiu com a BBC até Beit al-Faqih, 100km a sudeste de Hudaydah.
Outrora próspera, a vila se sustentava com a venda de bananas e mangas ao exterior, mas as exportações cessaram e a maioria dos trabalhadores perdeu o emprego.
As frutas acabaram se tornando caras demais para qualquer pessoa que vive no Iêmen.
É nesse local que conhecemos uma mãe e seu filho, Adbulrahman. A criança tem intolerância à lactose e a doença vem afetando seu crescimento.
"Quantos anos ele tem?", pergunto. "18 meses", responde ela. "Ele já deveria estar andando e falando agora", lamenta. E, imediatamente, cai em lágrimas.
Abdulrahman precisa de um tipo especial de leite que não está disponível no Iêmen desde a destruição do porto de Hudaydah e o início do boicote.
Ashwaq diz à mãe que irá ajudá-la ─ antes de perceber que essa era uma promessa que talvez nem ela seria capaz de cumprir.
Ela sabe que o menino pode morrer sem o leite, mas também tem consciência de que será um desafio enorme encontrar o produto.

"Eu mesma já procurei por esse tipo de leite antes e realmente não há lugar que tenha", diz.
Sua própria família enfrentou problemas similares. Depois que a guerra começou, o marido ficou doente: contraiu uma infecção no coração e precisava urgentemente de remédio.
"Eu corri até o principal hospital cardíaco de Sanaa, mas como médica sabia o que eles estavam prestes a me dizer: que estavam sem estoque de remédio e que não poderiam fazer nada para ajudar", conta.
"Sou médica, meu marido estava morrendo na minha frente e não havia nada que pudesse fazer", acrescenta Ashwaq, em lágrimas.
O marido conseguiu ir embora para a Jordânia, levando os dois filhos do casal para viver em um local mais seguro. Eles já não vão mais para a escola.

Criança subnutrida pega na mão da médica
Image captionCriança subnutrida pega na mão da médica

"Estou cansada como médica, como mãe e como esposa", suspira.
Dirigindo de volta para Al Hudaydah, a reportagem avista pela janela um homem tomando banho ─ vestido ─ no meio da rua, enquanto crianças descalças correm ao redor dele. São iemenitas que fugiram para a cidade de áreas de conflito mais intenso.
"Os ricos agora são a classe média, a classe média é agora parte dos pobres e os pobres agora estão morrendo de fome", explica Ashwaq.
"Algumas dessas pessoas tinham uma vida como eu e você, e agora olhe para elas", diz, apontando para as pessoas na calçada. "Perderam tudo", conclui.
Na rua, uma mãe com três crianças conta que a família vivia em Haradh, perto da fronteira com a Arábia Saudita, ao norte do país. Eles passaram meses em um campo de refugiados com pouco acesso à comida ou a medicamentos, mas o local foi bombardeado. O marido dela morreu no ataque.
Os iemenitas estão presos em uma armadilha. Mais de 3 milhões de pessoas de uma população de 27 milhões tiveram que abandonar suas casas. Enquanto isso, todos os portos foram fechados pela coalizão saudita, o que impede qualquer pessoa de deixar o país.
Para piorar, muitos países que um dia receberam iemenitas sem pedir visto agora estão fechando as portas para eles.
Viajando com Ashwaq, de uma vila para outra, a reportagem encontrou diariamente crianças morrendo de fome.
Ao mesmo tempo, está ficando mais difícil para que elas consigam tratamento no país. Boa parte dos hospitais do Iêmen teve de fechar, seja por causa das bombas ou pela falta de medicamentos.
A ala infantil do hospital central de Al Hudaydah está tão lotada que há duas ou três crianças em cada leito.
Ali a BBC conheceu Shuaib, 4 anos. O avô dele tomou emprestado dinheiro de vizinhos para ir ao hospital, em busca de tratamento para a febre e diarreia do menino.
Mas escutou dos médicos que não havia nada que eles pudessem fazer. "Nenhum dos antibióticos que temos aqui tratam o tipo de bactéria que ele tem", disse o administrador do hospital.
O corpo de Shuaib vai ficando mais frio a cada minuto, e seu avô aperta sua mão e chora.

Muharram verifica remédios para ajudar iemenitas
Image captionMuharram verifica remédios para ajudar iemenitas

Uma hora depois, Shuaib está morto. Seu avô chorava silenciosamente, cobrindo seu pequeno corpo com seu cachecol e o levando para a mãe do menino.
A própria Muharram está inconsolável. "Quem é responsável pela morte de Shuaib?", pergunta ela.
"A guerra! Mas ele será considerado uma vítima de negligência do hospital. Milhares como ele estão morrendo. Será que eles precisam morrer bombardeados por um avião para serem reconhecidos como vítimas dessa guerra?", indaga.

Repórter da BBC conversa com avô de menino que morreu por falta de medicamento
Image captionRepórter da BBC conversa com avô de menino que morreu por falta de medicamento

Chega a notícia de que outro hospital, administrado pela ONG Médicos Sem Fronteiras, na cidade próxima de Abs, foi atingido por bombas de aviões da coalizão.
"Eles estão bombardeando hospitais! Por quê?", questiona Ashwaq. Uma das razões é que a Arábia Saudita acusa os rebeldes houthis de usar hospitais para guardar armas.
No dia seguinte, a BBC visita o hospital dos Médicos Sem fronteiras. Nas ruínas da ala infantil, uma cena desoladora: velas, chapéus de festa e restos de um bolo de aniversário se espalham pelo chão.
"As crianças estavam comemorando um aniversário antes de a bomba atingir o hospital", explica a administradora do local, Yahia al-Absy.
No total, 19 pessoas morreram no ataque ─ e o governo de Abs já não tem mais um hospital.
Em nota, o governo saudita negou estar atacando alvos civis ou missões humanitárias, alegando ser o maior fornecedor de ajuda humanitária para o Iêmen.

Ashwaq Muharram segura a mão de Abdulrahman, que tem 18 meses, mas o mesmo peso de um bebê de 6
Image captionAshwaq Muharram segura a mão de Abdulrahman, que tem 18 meses, mas o mesmo peso de um bebê de 6

No dia seguinte, Ashwaq finalmente recebe boas notícias. Um amigo havia conseguido uma forma, a um alto custo, de obter o leite que salvaria a vida de Abdulrahman.
Assistindo a todo esse desespero por duas semanas, é incrível poder ver pelo menos um final feliz. Abdulrahman pega a garrafa de leite e bebe até a última gota ─ enquanto sua mãe, chorando, só sabe agradecer.
"Você trouxe felicidade para a minha casa", diz ela à médica, abraçando-a.
Apesar de Ashwaq ter conseguido salvar a vida de uma criança, outras milhões estão passando fome no Iêmen. Especialistas acreditam que, se algo não for feito agora, o país pode perder uma geração inteira de pessoas.

Conflito no Iêmen

O Iêmen está em estado de sítio. Dois anos atrás, rebeldes houthis e seus aliados ─ uma facção armada leal ao antigo presidente Ali Abdullah Saleh ─ tomaram o controle da maior parte do país, incluindo a capital Sanaa.
O então governo foi forçado a fugir. A Arábia Saudita diz que foi chamada a intervir a pedido da própria liderança local.
Por 18 meses, uma coalizão liderada pelo país, apoiada pelos Estados Unidos e pelo Reino Unido, luta contra os rebeldes. Uma guerra que não tem previsão para terminar.