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quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Debate sobre aborto chega ao STF e mobiliza opiniões pró e contra descriminalização

3 DE AGOSTO DE 2017

Ação propõe que aborto até o terceiro mês de gestação deixe de ser crime. A Gênero e Número ouviu diversos especialistas e reuniu os principais argumentos que sustentam os dois lados do debate.

Por Alessandra Monnerat*

No Brasil de hoje, a mulher que pratica um aborto pode ser punida com até três anos de prisão, segundo o Código Penal. As exceções são em casos de estupro, de feto anencéfalo e de gravidez que oferece risco à vida da gestante. Ainda assim, pelo menos uma em cada cinco brasileiras já abortou, o que equivale a cerca de  503 mil brasileiras em 2015, segundo dados da Pesquisa Nacional do Aborto, publicada pelo Anis – Instituto de Bioética e pela Universidade de Brasília (UnB) em 2016. Quase 1,3 mil por dia. Praticamente um aborto por minuto.

Desde março deste ano tramita no Supremo Tribunal Federal (STF), sob a relatoria da ministra Rosa Weber, um processo que pode descriminalizar a prática de aborto até a 12ª semana de gestação. O processo vem na esteira de uma decisão inédita do Supremo que em 2016 decidiu revogar a prisão de funcionários e médicos de uma clínica de aborto de Duque de Caxias (RJ). Os profissionais haviam sido flagrados realizando um procedimento em uma gestante de primeiro trimestre. A Gênero e Número conversou com especialistas e representantes do debate pró e contra a descriminalização para entender o que está em jogo.

A ação que corre no STF é movida pelo PSOL e pelo Anis. Uma das autoras da peça inicial, a professora do Departamento de Direito da UFRJ Luciana Boiteux, explica que a argumentação está centrada nos conceitos de dignidade – a autonomia de tomar suas próprias decisões – e de cidadania, ou seja, ter as condições necessárias para viver uma vida digna.

Nesse sentido, o Código Penal de 1940 violaria o que está previsto na Constituição de 1988: além dos direitos das mulheres à cidadania e à dignidade, os direitos à vida, à igualdade, à liberdade, de não ser discriminada, de não sofrer tortura ou tratamento desumano, degradante ou cruel à saúde e ao planejamento familiar.

“O Código Penal é de uma época em que as mulheres não tinham nem direito ao divórcio”, diz Luciana, que concorreu no ano passado a vice-prefeita do Rio de Janeiro pelo PSOL, na chapa encabeçada pelo deputado estadual Marcelo Freixo. “A mulher era vista, na perspectiva machista e patriarcal, como a garantia da reprodução da espécie e não como uma mulher sujeita de direitos. Quando a gente olha a Constituição de 1988, a perspectiva muda radicalmente: temos direitos e garantias individuais, especialmente a perspectiva da dignidade da pessoa e a igualdade de homens e mulheres”.

Quem se opõe a essa posição se autointitula ‘pró-vida’ – isso porque um dos principais argumentos desse movimento se baseia na inviolabilidade do direito à vida, descrita no artigo 5º da Constituição Federal de 1988. Este direito também está no artigo 3º da Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotada pelas Nações Unidas em 1948. Maria José da Silva, coordenadora estadual no Rio de Janeiro do Movimento da Cidadania pela Vida – Brasil sem Aborto, bate na tecla que é indissociável dos discursos contra a interrupção da  gravidez: a vida começaria na concepção e, por isso, estaria protegida legalmente.

“A vida é a nossa primeira garantia, é um direito universal. Se você deixa de defender esse direito, você pode matar e está tudo certo. Não concordamos que o aborto seja uma escolha da mulher sobre o seu próprio corpo”, explicou ela. “O bebê não é parte do corpo da mulher, a vida humana que está sendo gestada é uma segunda vida. O bebê não vai fazer mal nenhum para essa mulher."

Maria José cita ainda a Convenção Americana de Direitos Humanos – o Pacto de San José da Costa Rica, de 1969. O documento, assinado pelo Brasil em 1992, coloca no artigo 4º que “toda pessoa tem o direito de que se respeite sua vida. Esse direito deve ser protegido pela lei e, em geral, desde o momento da concepção. Ninguém pode ser privado da vida arbitrariamente”.

Para Luciana, no entanto, utilizar esses documentos legais para defender a continuidade da criminalização do aborto é fazer uma leitura enviesada. Ela pontua que o direito à vida está previsto abstratamente na Constituição, que regulamenta direitos da pessoa já nascida. A advogada defende o argumento jurídico da proporcionalidade – segundo o qual os direitos do feto, um ser ainda em formação, sem capacidade autônoma de existência, não se sobrepõem aos da mãe, uma pessoa humana adulta.

“Eu acho que quem melhor caracteriza a posição desses grupos conservadores é o cantor Caetano Veloso na música ‘Haiti’: ‘Vê a alma no feto e não vê no marginal’. Esse foco no nascituro na verdade é um falso foco. A gente não nega que aquele embrião em formação tem expectativa de direito, sim, mas que nesse caso a gente não pode ver só um lado e não ver o lado da mãe, o lado da mulher. Sobrepor o direito do feto a ponto de submeter a mãe a torturas ou a uma privação de direitos não me parece razoável do ponto de vista racional”.
Nos primórdios do debate

A discussão é antiga. No século XIII, São Tomás de Aquino (1225-1274) refletiu sobre o desenvolvimento da consciência como critério para o estabelecimento de uma pessoa humana. Isso o levou a não classificar o aborto como homicídio, se feito nos primeiros dias de gestação. A alma racional, dizia o teólogo, só estaria presente após 40 dias da concepção. No caso de fetos femininos, o tempo de desenvolvimento seria dobrado: 80 dias.

O debate ético em torno do que pode ser considerado o começo da vida humana não é o único a entrar em pauta. Argumentos legais, sociológicos e de saúde pública também compõem as conversas sobre a prática.

Aborto clandestino continua a matar, especialmente mulheres negras e pobres
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a cada ano, são realizados 22 milhões de abortamentos inseguros, quase todos (98%) em países em desenvolvimento. Em 2008, a prática representou 13% das mortes maternas e 20% do total de casos de mortalidade e deficiências por gravidez e parto. Em 2011, o Ministério da Saúde registrou 135 mortes maternas por aborto no Brasil. E a clandestinidade pode significar que o número seja ainda maior.

Ao todo, a Pesquisa Nacional de Aborto 2016 estima que 4,7 milhões de mulheres entre 18 e 39 anos no Brasil já tenham feito um aborto ao menos uma vez na vida. Destas, 67% já têm filhos e 88% têm religião, sendo que 56% são católicas.

Os métodos abortivos recomendados pela Organização Mundial de Saúde, principalmente os realizados por meio de medicamentos, são mais seguros e têm eficácia de até 98%. Nos Estados Unidos, por exemplo, a taxa de mortalidade é de 0,7 a cada 100 mil abortamentos legais, segundo publicou a OMS em 2012. Em quase todos os países desenvolvidos (segundo a classificação do Fundo de População das Nações Unidas), é possível interromper a gravidez de forma segura e sem restrição legal.

Para o médico Thomaz Gollop, livre docente em Genética Médica pela USP, professor associado de Ginecologia da Faculdade de Medicina de Jundiaí e coordenador do GEA – Grupo de Estudos Sobre o Aborto, a discussão sobre o tema deve se pautar não pelo questionamento do início da vida humana, mas pela segurança e saúde da mulher.

“O limite de 12 semanas [proposto pela OMS e ecoado no processo de descriminalização no STF] foi estabelecido por uma razão médica muito clara: as interrupções de gravidez são muito mais seguras nesse período, com risco quase zero para a mulher. Depois desse tempo, há uma ossificação maior do feto e, em consequência, um risco maior”, afirma.

As opiniões na sociedade brasileira a respeito do assunto são contraditórias. Uma pesquisa Ipsos do ano passado indicou o Brasil como o segundo entre 23 países do mundo com a maior taxa de rejeição ao aborto, atrás apenas do Peru. Aqui, apenas 16% são favoráveis ao direito de interrupção da gravidez por desejo da mulher. A média global foi de 45%. Já um levantamento da ONG feminista Católicas pelo Direito de Decidir em parceria com o Ibope encontrou outros resultados com uma pergunta diferente: “quem deve decidir sobre o aborto?” Pelo menos 64% dos entrevistados responderam que é a mulher.

Pesquisadora do Anis – Instituto de Bioética, a antropóloga, documentarista e professora da UnB Débora Diniz prefere manter o debate sobre o aborto focado nas consequências que a ilegalidade da prática traz para as mulheres, que acabam por se submeterem a procedimentos de alto risco.

“As pesquisas de opinião respondem a perguntas pré-estabelecidas. Uma delas é ‘Você é contra ou a favor do aborto?’. Você conseguiria imaginar alguém fazer a pergunta ‘Você é contra ou a favor das religiões’? Essa pergunta não faz sentido porque ela está em um campo daquilo que as pessoas não têm que ser ‘contra’ ou ‘a favor’. Elas têm que escolher se vão ou não ter uma concepção religiosa”, reflete Débora. “O aborto é uma experiência de vida exclusiva de mulheres. Os efeitos da criminalização são diretamente para as mulheres mais pobres, para aquelas que não estão sendo representadas, inclusive entre nós. São mulheres com necessidades urgentes de vida”.

De fato, os riscos do aborto inseguro têm classe, cor e região. Estudo feito por pesquisadores do Instituto de Medicina Social da Uerj e da ONG Ipas Brasil apontou que as mulheres negras, analfabetas e da região Norte têm chances maiores de morrer em decorrência da prática. As negras têm 2,5 vezes mais chances de morrer do que as brancas. E, para as analfabetas, o risco é 5,5 vezes maior em relação àquelas com maior escolaridade.

“É uma lei ineficaz. As mulheres mais ricas interrompem a gestação em clínicas e não têm problema nenhum. São as mulheres negras e mais pobres que se expõem a riscos como perfuração de útero, de intestino e, possivelmente, até a esterilidade. Ninguém é a favor do aborto. O que não queremos é penalizar as mulheres. O Código Penal é ultrapassado e muita gente nem sabe que aborto dá cadeia”, elucida Thomaz.

A ginecologista-obstetra e coordenadora de assuntos bioéticos e científicos do Movimento Brasil sem Aborto Luciana Lopes Lemos, professora do Instituto Municipal da Mulher Fernando Magalhães da UFRJ, ressalta que procedimentos clínicos para interrupção da gravidez contêm riscos tanto em situações ilegais quanto legais. As consequências de uma curetagem, por exemplo, vão desde infecções, até perfurações uterinas, infertilidade em gravidezes posteriores e morte.

Na visão de Maria José, o movimento pró-vida, ao se colocar contra o aborto, também olha para a saúde da mulher, que fica sujeita a consequências como depressão e ansiedade. Ela cita um estudo feito no Hospital das Clínicas, da Faculdade de Medicina da USP, em 2009, que entrevistou 100 mulheres com sintomas de abortamento, tanto provocado quanto espontâneo. Os resultados apontaram que, embora as mulheres que provocaram o aborto tenham apresentado menos sentimentos de culpa e arrependimento, elas tinham mais sintomas de ansiedade e depressão do que as que viveram um abortamento espontâneo.

Uma análise subsequente foi publicada em 2011 com 156 mulheres no mesmo hospital de São Paulo e com 150 mulheres na Maternidade Escola Januário Cicco, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, em Natal. A taxa de mulheres com depressão pós-aborto em Natal foi de 50,7%, e em São Paulo, de 32,5%.

“Existe uma cultura muito patrocinada pela mídia de que violentar o próprio corpo e o próprio útero é bom para si. Isso é consequente de uma sociedade patriarcal, da opressão à mulher, da manipulação do corpo da mulher. Existe uma inversão de valores nesse sentido. Se meu corpo tem valor, ele não vai ser lesado por ninguém, nem por uma estrutura patriarcal nem por homens que não querem ter filhos. À medida que as pessoas têm atividade sexual, elas sabem dos riscos. Por isso eu digo, prevenir sim, abortar não”.

Segundo ela, a assistência social seria a melhor alternativa para evitar o aborto e suas consequências. “Mesmo nos casos de estupro, quando falamos às gestantes das consequências pós-aborto, as mulheres desistem de fazer o procedimento. No Centro Social Nossa Senhora do Parto, em São Paulo, e em muitas outras instituições, é feito um trabalho em que as mães atendidas conseguem enxergar opções além”, conta.

No Parlamento, homens contra o direito das mulheres decidirem
Instado pela ministra Rosa Weber a se posicionar sobre o tema, o presidente Michel Temer enviou uma nota técnica à Advocacia Geral da União no dia 27 de março, opinando que “entre o sacrifício da existência de um nascituro e o sacrifício dos desejos (ou interesses ou vontades) da gestante, a opção que melhor atende à moralidade social e à ética política é aquela que preserva a expectativa de nascer do feto (ou de existir do nascituro) em desfavor dos interesses da mulher”.

O governo sugeriu que o tema não fosse discutido pela via judicial, mas sim na Câmara dos Deputados, pelo “poder competente que representa toda a sociedade, qual seja, o Poder Legislativo”. Atualmente, há duas frentes parlamentares pró-vida: a Frente em Defesa da Vida e da Família, com 236 deputados; e a Frente Mista da Família e Apoio à Vida, com 209 deputados e 6 senadores. Os dois grupos são liderados por homens: Alan Rick (PRB-AC) e Ronaldo Fonseca (PROS-DF), respectivamente. Atualmente, 37 projetos que tratam do tema estão em tramitação na Câmara, incluindo quatro que tipificam o crime de aborto como hediondo.

Um dos partidos mais vocais a respeito do assunto é o PSC. A legenda da família Bolsonaro entrou com um pedido no processo de descriminalização para se tornar ‘amicus curiae’, um ‘amigo da corte’ que entraria na ação para fornecer subsídios à decisão do STF. Flávio Bolsonaro, deputado estadual no Rio pela sigla, compactua com a ideia de Temer: caberia ao Parlamento, “casa do povo”, o papel de discutir o tema.

O deputado criou e preside na Assembleia Legislativa do Rio, a Alerj, a Comissão Especial de Planejamento Familiar – para tratar do tema que, segundo ele, deveria ser discutido pelas mulheres, mas também, e principalmente, pelos homens, para que não haja necessidade de abortar. Segundo ele, a ação do PSOL no STF seria “uma pedalada na democracia”, já que a proposta não encontraria maioria na Câmara.

Luciana Boiteux, no entanto, ressalta que há apenas 45 mulheres deputadas, menos de 10% de um Congresso que representa um eleitorado majoritariamente feminino. “Esse Parlamento nos torna minoria. Há projetos de descriminalização do aborto que são freados por posições políticas não republicanas, baseadas em uma moral religiosa que não pode se estender a uma política de Estado. Não foi uma escolha do PSOL, mas uma ausência de possibilidade do debate democrático no Parlamento”, explica.

A advogada reitera a defesa da escolha da via judiciária, adotada em países como os Estados Unidos, onde o aborto foi reconhecido como direito em 1973 pela Suprema Corte, no caso Roe v. Wade. “Em uma democracia, o papel do STF é justamente o de defender os direitos humanos e das minorias. Uma democracia não é feita somente pela maioria. E se o Parlamento passasse a pena de morte? Seria uma ditadura da maioria”, afirma.

“Controle genético” e moral religiosa entram no debate
Existem precedentes constitucionais que baseiam o pedido de ampliação da legalidade do aborto no STF. O aborto de anencéfalos no Brasil passou a ser permitido em 2012, após decisão também do Supremo. O relator do processo, ministro Marco Aurélio Mello, declarou seu voto na época dizendo que “cabe à mulher, e não ao Estado, sopesar valores e sentimentos de ordem estritamente privada, para deliberar pela interrupção, ou não, da gravidez”.

Neste ano, a Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas decidiu que o acesso ao aborto legal e seguro é um direito humano, em um caso de aborto anencéfalo no Peru – onde, vale lembrar, a rejeição à prática é a maior do mundo. A anencefalia é uma má-formação rara do tubo neural que faz com que partes do cérebro e do crânio não se desenvolvam corretamente. O tempo de sobrevivência médio de recém-nascidos anencéfalos é de 55 minutos (de 10 minutos a 8 dias), segundo levantamento de 2010.

A posição pró-vida, no entanto, rejeita até essa exceção, que qualifica como "controle genético" – e argumenta que ela abre caminho para outras exceções em casos de deficiência. Em estudo do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, de 1999, 92% das cerca de 5 mil mulheres que receberam diagnóstico de Síndrome de Down no feto optaram pelo aborto. Em casos de anencefalia, 84%. Para as síndromes de Turner e Klinefelter, anomalias nos cromossomos sexuais, as proporções foram de 72% e 58%, respectivamente. Já quando o problema era espinha bífida, o índice de mulheres que escolheu o aborto foi de 64%.

“Se liberarmos a anencefalia, a microcefalia, os próximos serão Síndrome de Down, até chegar aos deficientes visuais. Serão escolhidos os que vão viver? Quero desafiar os promotores da ‘cultura da morte’ a visitarem a União de Mães de Anjos, em Recife. Ninguém vai chegar lá e entrevistar essas pessoas e perguntar se elas voltariam atrás e abortariam seu filho especial”, critica Maria José.

Católica, ela evita usar termos religiosos quando defende sua posição no debate do aborto. Quando dá palestras para grupos da Igreja, no entanto, não deixa de citar o versículo 19, capítulo 30, do livro do Deuteronômio, do Antigo Testamento: “Hoje, eu tomo o céu e a terra como testemunhas contra vocês; eu lhes propus a vida ou a morte, a bênção ou a maldição. Escolha, portanto, a vida, para que você e seus descendentes possam viver.” Para os “irmãos católicos”, resume Maria José, “é só seguir o mandamento de não matar.”

Porém, há correntes de teologia feministas, com representantes como a teóloga americana Mary E. Hunt (66) e a freira e teóloga feminista Ivone Gebara (72), que vão contra a ‘ordem oficial’ da Igreja, contrária à ampliação da legalização do aborto. Segundo Regina Soares Jurkewicz, uma das diretoras da ONG Católicas pelo Direito de Decidir, a proibição do aborto tem muitas contradições: uma das mais importantes é o direito a recorrer à própria consciência. De acordo com o catecismo da Igreja Católica, “o ser humano deve obedecer sempre ao julgamento de sua consciência”. Por esse viés, o Papa Francisco já declarou que perdoa as mulheres.

“A proibição [do aborto] não é um dogma, é uma questão disciplinar. A livre consciência é um dos princípio do pensamento cristão”, explica Regina. “O que defendemos não é ser contra ou a favor do aborto. A questão é ser a favor do processo de legalização, que dá mais controle sobre o número de abortos. Essa é uma questão de âmbito privado e de direito individual. A Igreja Católica tem o direito de falar, mas também tem o dever de ouvir e de não legislar a partir da teologia”.

Visões latino-americanas sobre o tema
Em outros países da América Latina, o aborto continua a ser uma discussão acalorada. No Chile, a lei que regula o assunto, de 1874, é chamada de “draconiana” pelo Center for Reproductive Rights, ONG internacional de direito das mulheres. Está prestes a mudar depois do Senado chileno aprovar, no dia 19 de julho, a descriminalização do aborto em casos de risco para a vida da mãe, por inviabilidade do feto e por estupro. Pelo menos 73% da população apoia a proposta e as denúncias de crime de aborto no país têm diminuído. Em 2016, foram apenas 14, 10 pela realização de aborto consentido.

Até que a lei seja sancionada, não há nenhuma exceção para a terminação da gravidez no Código Penal, nem mesmo se esta ameaçar a vida da mulher. Um código de saúde, criado em 1931, permitia o aborto terapêutico, mas a regra foi suspensa durante a ditadura de Pinochet, em 1989. Poucos países no mundo ainda têm um nível de punição tão severo para mulheres que abortam – outros exemplos são Nicarágua, El Salvador, Malta e República Dominicana.

A clandestinidade do aborto no Chile torna difícil a obtenção de números confiáveis sobre o assunto. O único estudo nacional, de 1990, indica uma média de 160 mil abortos por ano, uma taxa de 45 a cada 1.000 mulheres entre 15 e 49 anos. Outras estimativas mais recentes apontam cifras que variam de 60 mil a 300 mil, segundo o Guttmacher Institute.

No Uruguai, país com a legislação de aborto mais liberal da América Latina, a discussão sobre o tema também está no centro do debate público – mas por outros motivos. Com o procedimento legalizado desde 2012 para gravidezes de até 12 semanas, a conversa se centra no nível de dificuldade do acesso pelo sistema estatal e sobre quem, em última instância, paira o poder de decisão para interromper uma gravidez.

Uma decisão judicial permitiu uma situação sem precedentes no país — um homem conseguiu ter o direito de impedir o aborto de sua ex-companheira, com 10 semanas de gravidez. O processo abriu um recurso de inconstitucionalidade contra a lei de aborto, mas a ação caiu por terra quando a jovem perdeu o bebê de forma natural. O Tribunal de Apelações do Uruguai chegou a criticar a juíza da decisão inicial, considerando que ela incluiu apreciações pessoais para defender o feto, que "para nosso direito (o embrião) não é um sujeito de direito, ao não ser considerado uma pessoa (no sentido jurídico da palavra)", informou o El Observador.

Os setores contrários argumentam que a legalização tem aumentado os números de aborto no Uruguai – os últimos dados, de 2015, apontam aumento de 9% em relação ao ano anterior com 9.362 procedimentos. No entanto, a responsável da área de Saúde Sexual e Reprodutiva do Ministério de Saúde Pública, Ana Visconti, afirma que não se pode falar de uma tendência, pois a lei é muito jovem. Mesmo com a provável subnotificação das práticas abortivas quando elas ainda eram ilegais, as cifras atuais ficam abaixo das anteriores à despenalização.

No final do ano passado, ela declarou à imprensa que o conhecimento sobre a lei está aumentando, “as mulheres estão sabendo quais são seus direitos, estão confiando mais nos serviços e por isso estão fazendo a interrupção voluntária da gravidez dentro do sistema [do governo]”, informou o El País do Uruguai. Por outro lado, as organizações feministas CLADEM, CNS Mujeres, Cotidiano Mujer, Mujer Ahora, Mujeres en el Horno e Ovejas Negras reclamam que há pouca informação sobre a lei para a população em geral.

“Barreiras seguem empurrando muitas mulheres a praticarem um aborto na clandestinidade, deixando-as como antes da lei, expostas a graves riscos de saúde e possíveis consequências penais”, comunicaram as organizações no lançamento do Projeto Sin Barreras, para conscientização do assunto.

Apesar dos entraves, o caso do Uruguai foi elogiado como um modelo de institucionalização de abortos seguros. Uma década antes da lei de despenalização, o país já havia implementado um projeto piloto de educação sexual, acesso a métodos contraceptivos e orientação sobre aborto para frear as estatísticas de mortalidade materna.

Hoje, para realizar um procedimento, é preciso passar por cinco etapas: uma primeira consulta médica para determinar o tempo de gravidez; uma entrevista com um ginecologista, um assistente social e um psicólogo; um período de reflexão de cinco dias; uma outra consulta para ratificar a decisão do aborto e receber a medicação; e finalmente, uma última visita ao médico para confirmar a interrupção da gravidez.

Um relatório do International Journal of Gynecology and Obstetrics destacou o Uruguai como o país com a menor taxa de mortalidade materna de toda a América, atrás apenas do Canadá. A publicação atribuiu o fato ao modelo de redução de risco e danos do aborto inseguro, seguido pela lei de despenalização de 2012. A interrupção da gravidez foi responsável por 8,1% das mortes de mães no período entre 2011 e 2015, em oposição à taxa de 37,5% de 2001 a 2005.

“Da forma como vemos, somos o movimento pró-vida”, disse Lionel Briozzo, vice-ministro de Saúde Pública uruguaio no ano passado ao The New York Times. “Em toda a América Latina, é possível fazer esse método de redução de danos, para prover acesso à informação com neutralidade e humanidade. Este é o direito das mulheres”.

 Alessandra Monnerat é jornalista e colaboradora da Gênero e Número.

“Os homens avançam mais rápido na carreira porque não têm o trabalho doméstico nas costas” 21 DE JUNHO DE 2017

21 DE JUNHO DE 2017

Por Natália Mazotte*

Hildete Pereira de Melo é economista da Universidade Federal Fluminense e pesquisa há mais de 30 anos temas relacionados a gênero e trabalho. Quando questionada, tem na ponta da língua dados sobre a situação feminina no mercado brasileiro, mas também coleciona histórias que vão além dos números: é militante feminista desde a década de 70 e já perdeu as contas dos eventos que participou, inclusive na vida política, onde só a voz masculina era ouvida. Em entrevista à Gênero e Número, a pesquisadora é assertiva ao dizer o que impede a mulher de ascender no mercado de trabalho: "Há um teto de vidro nas nossas cabeças. E ele se chama patriarcalismo." 

GÊNERO E NÚMERO – As mulheres têm ocupado mais espaço no mercado de trabalho, inclusive em campos que antes eram hostis à participação feminina. Estamos caminhando pro fim da divisão sexual do trabalho?

Hildete Pereira de Melo – De uma maneira geral, a participação tem aumentado, mas permanecem as barreiras. As mudanças não são suficientes para criar a equidade. As mulheres conseguem fazer todas as coisas que os homens fazem, mas há uma dificuldade dos homens assumirem os nossos papéis. Há 40 ou 50 anos, éramos 20% do mercado, hoje somos em torno de 45% da média nacional da população ocupada nas áreas metropolitanas. Mas isso já está estacionário há mais de uma década. Não conseguimos igualar, temos hoje cerca de 40 milhões de mulheres em idade ativa que são apenas donas de casa. E o trabalho reprodutivo continua atrelado ao feminino.

Quais foram as principais mudanças no mercado de trabalho feminino nos últimos anos?

Hildete – O mercado de trabalho feminino é mais instável, por causa da reprodução da vida. Até por isso que as mulheres não conseguem se aposentar por idade. Elas seguem concentradas em atividades direcionadas ao cuidado. Desde que o primeiro censo foi realizado, em 1920, a ocupação predominante entre as mulheres sempre foi de empregada doméstica. Isso permanece até o censo de 2010, e a novidade vem apenas em 2013, com os dados da PNAD anual, que aponta que o número de mulheres comerciárias tinha ultrapassado o de domésticas. A PNAD de 2015 também mostra que as atividades de educação e saúde despontaram entre as mulheres, seguidas das comerciárias e empregadas domésticas – ainda são quase 6 milhões de empregadas. Essa configuração acompanha a trajetória feminina, embora sejamos mais educadas hoje do que há algumas décadas e ocupemos uma parcela bem maior do mercado.

Ou seja, os redutos masculinos continuam os mesmos…

Hildete – Em grande parte sim. Podemos pegar como exemplo a ciência. As mulheres constroem a ciência junto com os homens, mas peça para alguém dizer o nome de uma cientista mulher de destaque. Eu te digo: Marie Curie inventou a radiografia, sem ela o diagnóstico por imagens não existiria. Somos grandes exportadores de soja, mas ninguém cita que uma grande responsável por isso é a agrônoma Johanna Döbereiner, cuja pesquisa fez diminuir o custo de produção da soja no Brasil. Não conhecemos nossas inventoras. Quem ganha os prêmios Nobel são os homens. As mulheres são mais educadas, mas não ocupam as posições de vanguarda. Lançamos uma pesquisa, em 2014, para mostrar quem eram as cientistas brasileiras com grau PQ1 no CNPq, a mais alta bolsa dada pelo governo brasileiro, para pesquisadores no topo da carreira. 23 mulheres até 40 anos tinham a PQ1 até aquele ano – e 280 homens. A carreira cientifica ainda é masculina, embora as mulheres estejam nos laboratórios produzindo junto.

Mais educadas e mais capacitadas que os homens, a representatividade feminina em cargos de liderança continua muito baixa. A que você atribui essa dificuldade de ascensão na carreira? O que hoje pode ser considerado o maior obstáculo pro avanço das mulheres no campo profissional?

Hildete – Há um teto de vidro nas nossas cabeças, e ele se chama patriarcalismo. A visão de que a mulher deve ocupar espaços inferiores e de que nossa principal função é a reprodutiva. Veja o caso da política. O poder político no Brasil é completamente dominado por homens. Como reverter a desigualdade sem ter mulheres em espaços de poder? Nas empresas, os espaços de poder também são majoritariamente ocupados pelos homens, elas são apenas 17% dos postos de chefia empresariais. As mulheres não detêm nem 2% da riqueza mundial. As mulheres são comandadas e vistas como boas reprodutoras. Os homens avançam mais rápido na carreira porque não têm o trabalho doméstico nas costas.

A discriminação salarial também é um ponto importante quando olhamos para as assimetrias de gênero, e não apenas no Brasil. Há modelos em outros países de políticas que conseguiram reduzir a diferença salarial entre homens e mulheres? 

Hildete – Esse ponto é chave para a gente enxergar como o patriarcalismo se manifesta nas relações de trabalho. Quanto maior a escolaridade, maior a diferença salarial entre homens e mulheres. Um exemplo é o salário da CEO da GM nos EUA, que foi contratada ganhando 50% do salário do seu predecessor, um homem. Se vamos para empregos que pagam salário mínimo, a discrepância diminui. O preconceito nas políticas salariais aparece mesmo na ponta, quando comparamos homens e mulheres de maior escolaridade ou de cargos mais elevados. No Brasil, algumas políticas de incentivo às empresas tentaram reverter esse cenário, como o programa Pró-Equidade, que incentivava as empresas que elaborassem políticas internas para promover equidade de gênero. Foi um programa pensado na gestão da ex-ministra da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres Nilcea Freire, enquanto Dilma ainda estava no Ministério das Minas e Energia. Dilma teve um papel fundamental pro programa: falou com todos os presidentes das empresas do setor de petróleo e gás para aderirem. Eu fiz parte desse programa como avaliadora e a dificuldade era imensa. As empresas eram ótimas adotando ações de conscientização, mas na hora de mexer no cronograma de promoções era diferente. Na Espanha e na França há programas semelhantes que serviram de inspiração, que oferecem incentivo para as empresas promoverem planos de carreira equitativos para homens e mulheres. 

Uma outra discrepância diz respeito às horas trabalhadas. No trabalho produtivo (remunerado), as mulheres não ultrapassam os homens. Mas se somarmos o trabalho reprodutivo (não remunerado), elas trabalham em média 7,5 horas a mais que os homens por semana, segundo estudo do IPEA com dados do IBGE. Em 2015, a jornada total média das mulheres era de 53,6 horas, enquanto a dos homens era de 46,1 horas. Como reduzir essa carga sobre as mulheres?

Hildete – As mulheres trabalham mais quando somamos o trabalho reprodutivo com o trabalho produtivo. Mas a jornada fora de casa é menor. Elas acumulam os dois tipos de trabalho, e aí não conseguem igualar o tempo do trabalho produtivo masculino. Então o primeiro caminho seria os homens se conscientizarem que precisam dividir as tarefas domésticas. É preciso pensar programas como creches e escolas integrais. Hoje só temos creches para 23% das crianças, há um déficit colossal. Escola em tempo integral só existe para os ricos, e mesmo assim não há muita oferta. 90% das crianças e adolescentes são atendidas pelas escolas públicas, ou seja, o grosso da população depende do sistema educacional público. Expandir as creches para toda a população de 0 a 3 anos e oferecer escola integral para crianças de até 14 anos é o sonho. Realizável, porque a França, por exemplo, já oferece escolas públicas em tempo integral para população. Mas isso demanda uma luta política ainda enorme.

Quando falamos de políticas de distribuição de renda – como o Bolsa Família – as mulheres costumam ser as beneficiárias diretas. Por quê?

Hildete – As mulheres são mais pobres que os homens em todas as faixas etárias, ainda ganham 70% do que eles ganham. O Bolsa Família está concentrado nas mulheres porque elas são as responsáveis pela família. Essa fórmula só mostra que elas são encarregadas da reprodução, o Estado reconhece que a responsabilidade dos cuidados é feminina.

O Estado estaria então reforçando os estereótipos de gênero? 

Hildete – Isso é uma briga e eu não entro nela. Há uma corrente do feminismo que é contra o Bolsa Família porque diz que reforça a visão da mulher enquanto reprodutora da vida. O problema é que eu sou realista, eu posso ficar de espada em punho para fazer com que os homens dividam os trabalhos dos cuidados, mas hoje a realidade ainda não é essa, as mulheres que colocam o feijão nas bocas dos filhos, então o Bolsa Família cumpre um papel. E aumentou a renda das mulheres. Agora, precisamos também de ações que levem a mudar os papéis determinados pelo gênero.

Como você avalia o impacto da reforma trabalhista em tramitação no Congresso para as mulheres?

Hildete – Essa reforma vai desconstruir completamente toda a legislação social brasileira, e isso não afeta só as mulheres. Embora elas sejam mais afetadas porque já enfrentam desde o início um mercado que as desfavorece. As mulheres já estão nos empregos mais precários, mas quando jogamos a precarização para todo o conjunto de trabalhadores, certamente a condição delas vai piorar ainda mais.

Em 15 anos, palcos da Flip receberam apenas 25% de mulheres autoras

27 DE JULHO DE 2017

Pela primeira vez este ano, o evento de maior destaque no calendário literário nacional terá maioria feminina entre os convidados.

Por Natália Mazotte*

Foram necessários 15 anos para que a prestigiosa Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP) formasse uma programação composta, em sua maioria, por mulheres. Em todas as edições do evento, a cada quatro convidados, apenas um nome foi feminino. Este ano, serão 24 autoras e 22 autores nos palcos do evento, que acontece de 26 a 30 de julho.

A Flip de 2017 também amplia a diversidade de vozes negras, que historicamente foram representadas por menos de 5% dos palestrantes: 25 em um total de 569. Seis mulheres negras compõem as mesas desta edição, o dobro do apresentado em todas as 14 anteriores somadas.
Os números evidenciam um esforço ativo da atual curadora do evento, Joselia Aguiar, de colocar a diversidade no centro do debate literário, o que vem ganhando fôlego desde 2014. “Há três anos, essa discussão praticamente não existia. Se alguém falasse disso, falaria sozinho. E as explicações são conservadoras: historicamente há mais homens escrevendo, fatores extraliterários não devem influenciar a escolha de autores”, afirmou em entrevista à Gênero e Número.

Segunda mulher a assumir a curadoria da Flip, Josélia precisou realizar uma pesquisa mais extensa para conseguir trazer novos nomes à cena. “Se eu me restringisse ao que grandes editoras, críticos ou jornais recomendam, conseguiria finalizar minhas escolhas muito mais rapidamente. Há um trabalho maior de buscar diversidade, conhecer novas obras e ver como elas dialogam. Esse esforço hoje pra mim é totalmente justificável, acho que o programa fica mais interessante. Mas outras pessoas podem preferir destacar nomes que estão mais à mão.”

A representatividade proposta pela organização do evento este ano, de fato, demanda ir além do mainstream literário, ainda composto predominantemente por homens brancos. É o que revela um estudo coordenado por Regina Dalcastagnè, da Universidade de Brasília (UnB). Ao consultar 258 romances publicados entre 1990 e 2004 pelas editoras Companhia das Letras, Record e Rocco, a pesquisadora encontrou 94% de autores brancos, 73% deles homens, do Rio de Janeiro e de São Paulo (47% e 21%, respectivamente).

A pesquisa ainda investigou a representação dos personagens nos romances brasileiros, e os números não diferem muito do perfil dos autores: maioria masculina (62%) e branca (92%). Embora já tenham superado os homens como público leitor no país, as mulheres, especialmente as mulheres negras, se veem menos refletidas nas obras literárias.

A representatividade das mesas da Flip desde que foi criada, portanto, não deixa de ser espelho de um mercado editorial pouco paritário em termos de gênero e raça.

Raízes históricas
O aumento da presença de autoras em Paraty é celebrado pela escritora Beatriz Bracher, co-fundadora da Editora 34. Com seis obras publicadas e diversos prêmios de literatura, é uma das cinco mulheres que, em 15 anos de Flip, foram convidadas a regressar aos palcos. Na ala masculina, 45 autores estiveram no festival mais de uma vez. “Nesses espaços, ter mais mulheres é muito importante, isso incentiva meninas a se enxergarem como potenciais autoras”, afirma.

Beatriz, contudo, não atribui aos editores a responsabilidade por catálogos predominantemente masculinos. “Vejo por mim e por meus colegas, estamos atentos e interessados em ter paridade de gênero e diversidade étnica. Mas chegam pouquíssimos originais. Os levantamentos se concentram em mostrar o número de publicações, mas só quem está dentro sabe o perfil das pessoas que enviam suas produções a uma editora”.

A dificuldade de ampliar o número de mulheres na literatura tem raízes históricas e decorre de práticas machistas que não são exclusivas deste campo cultural. O livro “Profissões para mulheres e outros artigos feministas” compila ensaios e reflexões da renomada escritora inglesa Virginia Woolf, nos quais ela expõe os empecilhos que o fato de ser mulher gera para a carreira literária: a falta de acesso à educação, o tempo reduzido pela maternidade e pelos trabalhos domésticos, as chances desiguais de autonomia financeira em um mercado de trabalho dominado por homens.

“É mais complexo que culpabilizar um setor. Os desafios envolvem a formação das mulheres e começam muito antes delas alcançarem as Editoras. Primeiro precisam ter autoconfiança para se autorizarem a serem escritoras. Deveríamos nos preocupar em atuar nesse ponto, em criar espaços para encorajar mais mulheres a se verem autoras”, ressalta Beatriz.

A escritora Martha Lopes concorda que o acesso posterior das mulheres à educação e a falta de segurança para colocar o que escrevem no mundo façam parte do problema, mas não exime o mercado editorial, que frequentemente reforça estereótipos sobre a produção literária feminina. “As casas editoriais têm uma série de estigmas sobre o tipo de literatura que uma mulher deve produzir: deve ter sempre romantismo, delicadeza, temas que envolvam maternidade, questões domésticas. É importante repensar o que é a literatura feminina. É recorrente a ideia de que homens escrevem para o mundo e mulheres escrevem só para mulheres”, afirma.

Movimentos por mudanças
A discussão de gênero ganhou espaço na Flip em 2014, depois da divulgação de um programa que incluía apenas 7 mulheres entre 43 autores. Martha e a editora Laura Folgueira iniciaram uma campanha virtual com a hashtag #KDmulheres?” e organizaram rodas de conversa durante o evento. No ano seguinte, a participação feminina no festival dobrou, e em 2016, atingiu praticamente a paridade, mas as críticas ficaram por conta da ausência de escritoras negras. O curador da Flip em 2016, Paulo Werneck, reconheceu a falha.

O movimento “KDmulheres?” se tornou um portal que hoje abriga uma série de entrevistas com autoras nacionais que tiveram trabalho relevante e ficaram apagadas na história. Outras iniciativas também despontaram para jogar luz à literatura produzida por mulheres, como a newsletter “Mulheres que escrevem“, o blog “Veredas” e os clubes de leitura “Leia mulheres” e “Leia mulheres negras“.

“Fiquei muito satisfeita de ver a curadoria, e fez muita diferença colocar uma mulher como curadora, essa sensibilidade aparece. Mas a gente continua batendo no debate interseccional, ter mais mulheres negras, indígenas, e pluralizar cada vez mais essa programação. Tem muita coisa boa sendo produzida na cena independente”, conclui Martha.

Linha de frente: lugar a ser ocupado por elas

8 DE AGOSTO DE 2017

Mesmo com aumento do número de mulheres nas Forças Armadas brasileiras e mudanças relevantes nas instituições para diminuir diferenças entre gêneros, elas ainda não têm acesso à mesma formação que os homens, o que impacta diretamente na evolução da carreira militar

Reportagem: Giulliana Bianconi

“E aí, passou em Física?” A pergunta era feita às atuais aspirantes da Marinha, no primeiro ano delas no curso de formação na Escola Naval. Era uma brincadeira, mas quase um deboche, dos colegas homens que também haviam ingressado no curso. É que no currículo dessa primeira turma de combatentes mulheres – que agora está prestes a se formar – a disciplina de Física havia sido substituída por Cultura Organizacional, como mostram as pesquisadoras Renata Giannini, Maiara Folly e Mariana Fonseca no recém-lançado estudo sobre gênero nas Forças Armadas, acessado pela Gênero e Número em primeira mão.

Aquele assunto rendeu. A Marinha justificou a mudança explicando que num primeiro momento as mulheres não precisariam desse conteúdo porque poderiam ingressar em apenas uma das três especialidades relacionadas ao combate existentes na Escola Naval, justamente aquela mais direcionada a questões administrativas, a Intendência. Mas em seguida reviu a diferenciação feita no currículo e, no segundo ano do curso, as cadetes passaram a estudar Física. Não seria a única vez que debates como esse, sobre o que podem e o que devem as aspirantes a combatentes, aconteceriam por ali.
A atuação das mulheres na linha de combate das Forças Armadas brasileiras e os limites impostos a elas nesse espaço são hoje assuntos recorrente nas corporações militares e no Ministério da Defesa. Depois daMarinha, agora é a vez do Exército Brasileiro ampliar o acesso. Após exigência que chegou em forma de lei, em 2012, para que o Exército abrisse a elas a possibilidade de ingresso na tradicional Academia das Agulhas Negras (AMAN), veio o primeiro concurso público nacional com direito a cota de 10% para o sexo feminino, em 2016. As 40 aprovadas chegaram em 2017 à Escola Preparatória de Cadetes, e miram a AMAN, onde entram no início do ano que vem sabendo que também ainda não podem tudo.

Elas não podem se preparar para missões na cavalaria, nem para atender à área de comunicação das tropas em um eventual confronto bélico. Tampouco têm acesso a treinamento com foco nas atividades exercidas pelas tropas de infantaria – as que atuam a pé ou em automóveis. Tudo isso ainda é tido como coisa só de homem. As áreas que as mulheres podem acessar, mesmo ingressando na formação para a linha de combate do Exército, são as de apoio ao combate, como a de material bélico e a administrativa – a Intendência. “Eu ouvi algumas vezes nas entrevistas de campo que fizemos nas três escolas de formação que guerra não é lugar para a mulher”, revela a pesquisadora Renata Giannini, que liderou o estudo.

As opiniões conservadoras estão por toda a parte nas escolas e em diferentes postos hierárquicos, como mostra a pesquisa. A percepção de que à mulher ainda é reservado papel de cuidadora da família, instituição extremamente valorizada pelas Forças Armadas, é dominante nas respostas dos aspirantes a cadetes e de oficiais do sexo masculino.

Mas a abertura das três principais escolas de combatentes, somada ao número crescente de mulheres nas Forças Armadas do Brasil, vem empurrado as fronteiras do debate. As restrições com que as mulheres se deparam nas escolas de formação representam limites para a ascensão na carreira militar, mais associada à figura masculina. Mulheres de todos os níveis hierárquicos das três forças armadas brasileiras somam 25.507 militares e representam atualmente 8% do total do efetivo geral, segundo dados do Ministério da Defesa.

Exército, Marinha e Aeronáutica têm uma estrutura hierárquica comum – embora patentes e postos específicos. A proporção de mulheres em relação ao todo de cada nível hierárquico de cada força – oficial general, oficial, suboficiais e cabos – é sempre baixa, mas piora consideravelmente no Exército, exatamente o último a recebê-las na escola em que acessam a formação para se tornarem combatentes. A Aeronáutica e a Marinha têm, desde as primeiras ingressantes no corpo auxiliar da Marinha, na década de 80, um histórico de maior abertura

É na camada dos Oficiais que existe um menor desequilíbrio na proporção entre homens e mulheres nas Forças Armadas – e ainda assim, em nenhuma das três Forças elas representam sequer metade do total do quadro. Além dessas desproporções da presença de homens e mulheres, há um obstáculo validado por lei na ascensão das oficiais de carreira, especialmente na Marinha e no Exército: como elas não podem receber treinamento a algumas armas específicas que são pré-requisitos para oficiais generais de última patente, já saem na desvantagem, com limite bem claro de onde poderão chegar desde o momento em que se formam oficiais nas escolas. Não por acaso dos 382 oficiais-generais apenas um é mulher.

É possível que em breve as restrições à formação das mulheres na Marinha fiquem para trás. No dia em que recebeu a Gênero e Número para uma entrevista no seu gabinete, numa das áreas onde civis não entram sem uma rigorosa identificação, a contra-almirante Dalva Mendes, única brasileira a alcançar o nível de oficial-general até hoje, disse que tem pensado muito sobre onde as mulheres querem chegar e sobre como devem buscar seus espaços. Contida nos discursos sobre direitos da mulher, ela prefere sempre o argumento da meritocracia. “A essa altura já está mais do que comprovado que nós temos capacidade operativa suficiente para desempenhar funções diversas nas Forças com excelência, e isso é reconhecido por muitos colegas militares homens que se mostram favoráveis, por exemplo, ao ingresso das mulheres nos navios de esquadra, onde hoje ainda somos convidadas”, afirma.

Navios de esquadra são aqueles aptos a missões bélicas, e onde as mulheres hoje não podem fazer parte da tripulação a menos que sejam oficialmente convidadas. Já em diversos outros navios brasileiros, sejam os com fins de pesquisa, de ensino ou de cuidados médicos, as militares brasileiras já embarcam há anos.

Na Marinha, nenhuma mulher conseguiria atualmente ascender até o posto de almirante-de-esquadra, o mais alto do nível do generalato, pois apenas militares que passam pelos quadros de Oficiais de Armada ou de Oficiais de Fuzileiros Navais na Escola Naval podem avançar até a quarta estrela. Mesmo aceitas na escola Naval desde 2014, as mulheres ainda não alcançam esses quadros. Dos três corpos de combate – Fuzileiros navais, Armada e Intendentes – elas podem acessar apenas o último, onde estão concentradas as tarefas administrativas relacionadas ao front bélico. “Estive em Brasília recentemente discutindo essa presença das mulheres nos navios e as funções que podem vir a ter, pois temos no Comando da Marinha uma proposta encaminhada ao Ministério da Defesa para mudança da lei [de Corpos e Quadros]”, diz a contra-almirante.

O movimento pró-abertura total da formação às mulheres a Escola Naval está engrenando. Em abril deste ano, documento oficial da Marinha já afirmava que a ampliação da participação de oficiais e praças femininas em atividades de aplicação efetiva do Poder Naval era uma decisão tomada pelo comandante da Marinha, Eduardo Bacellar, e que até 2023 isso seria praticado. Desde que as mulheres ingressaram na Marinha, em um época em que nem se cogitava formá-las para o combate, a proporção entre mulheres e homens nas patentes mudou muito lentamente, e a presença delas em posto de capitã ou tenente, por exemplo, oscila ora para mais ora para menos.

A abertura total do Exército e da Aeronáutica ainda não tem data estimada. “Essa é uma questão que precisa considerar o amadurecimento das próprias instituições para tratar do tema, além dos estudos e das evidências que as experiências de países que já têm mulheres na linha de combate nos trazem”, diz o presidente da Comissão de Gênero do Ministério da Defesa, o brigadeiro Antônio Carlos Coutinho. “Mesmo que o Ministro da Defesa viesse a público defender a abertura total das Forças para as mulheres, não seria assim que a coisa funcionaria, pois são instituições seculares, com muitas normas, e isso causaria um desgaste que não nos permitiria avançar tanto quanto com o diálogo, que é o que tem sido feito aqui com prioridade desde 2014, quando essa comissão foi criada”, opina o brigadeiro. (GB)


Padrão de desempenho masculino ainda dita formação das mulheres combatentes
A competência das mulheres não está em discussão nas Forças Armadas, conforme mostra o estudo “Situações extraordinárias: a entrada de mulheres na linha de frente das Forças Armadas brasileiras”. “De modo geral, existe consenso sobre as habilidades femininas para a administração e a logística, identificadas com as funções desempenhadas pelos intendentes”, pontuam as autoras no artigo. Mas quando se fala de front bélico, o argumento de uma possível redução na eficácia de tropas e, consequentemente, o risco de comprometer a defesa nacional a partir da entrada da mulher passa a ser constante.

O cumprimento ou não de determinados índices de desempenho passa a ser um ponto crucial do debate. A diferença da força física entre homem e mulher, por exemplo, é frequentemente citada. “Carregar sacos de cimento para construir uma ponte durante uma missão das tropas de Infantaria pode ser uma atividade inviável para mulheres”, exemplifica o comandante da Escola Preparatória de Cadetes do Exército, o coronel Marcus Alexandre de Araujo, em entrevista a Gênero e Número.

O coronel tem acompanhado de perto a primeira turma de alunas a combatentes que se prepara para chegar à Academia das Agulhas Negras. “Elas se adaptaram muito bem ao longo deste ano, não tivemos qualquer problema de ordem disciplinar, e vimos ao longo desses meses elas executarem tarefas muito técnicas de igual para igual com os homens, como o tiro”, avalia. “Sentimos diferença mesmo apenas quando houve a necessidade de esforço físico muito intenso e prolongado, como marchar a pé carregando uma mochila muito pesada”, complementa o coronel.

Por ora, as mulheres que entrarem no Exército terão acesso à formação para material bélico ou para a área administrativa, também consideradas “armas” na linha de ensino bélico. Elas fazem a escolha no início do segundo ano, na AMAN. Todo o restante das armas ainda é de acesso apenas dos homens. Mas das 40 ingressantes na primeira turma três já fizeram outra escolha, a de deixar a escola, e abriram mão de seguir para as fileiras de combate. “Isso é perfeitamente normal, pois quem ingressa aqui ainda não tem perfeita noção do que são a rotina e a vida militar”, diz o coronel Araujo. Entre os homens, dos 400 ingressantes no mesmo período, 17 também decidiram por outros rumos.

Parâmetros ideais
Nas escolas de formação de combatentes, os parâmetros de segurança e eficácia para as tarefas e missões sempre foram definidos levando em conta características estudadas no gênero masculino. Mas as discussões que têm sido travadas agora é se é preciso mesmo buscar um desempenho igual para ambos os gêneros para que elas acessem todas as armas.

“Essa é uma discussão que vemos ocorrer em diferentes países e por onde já passaram todos os países que abriram totalmente suas Forças para as mulheres. Aqui na Comissão de Gênero, em Brasília, recentemente tivemos uma reunião com esse tema central, o entendimento correto da condição fisiológica do organismo feminino submetido a situações de esforço físico intenso, e seguimos discutindo isso sempre que temos oportunidade de irmos a reuniões internacionais que tratam de gênero”, afirma o presidente da Comissão, o brigadeiro Antônio Carlos Coutinho.
Em vários países da América Latina, a discussão já foi superada e as mulheres fazem parte de todos os postos. Na Europa, também há experiências de inclusão total. Na Noruega, mulheres militares fazem parte das frentes de combate desde 1985.

Peso dos estereótipos
Ainda não há consenso nas Forças Armadas brasileiras sobre o tema. E o peso dos estereótipos segue moldando parte das tropas atuais e futuras do país, como aponta o estudo liderado pela pesquisadora Renata Giannini. “Acompanhei várias cadetes mulheres e a maior dificuldade que eu percebi relaciona-se a justamente àquela brincadeira de mulher não saber estacionar. Há de fato uma diferente noção espacial. Elas têm mais dificuldade com exercícios de aproximação de pouso”. A declaração é atribuída a um oficial da Academia da Força Aérea que teve a sua identidade preservada. Ele foi um dos que responderam ao questionário da pesquisa de campo, realizada por Giannini e equipe do Instituto Igarapé.

Para o brigadeiro Coutinho, trata-se de ignorância emitir opiniões sobre incapacidade de as mulheres atuarem nas frentes de combate sem analisar experiências diversas e entender como se tirar o maior proveito do trabalho conjunto das tropas. Na Força Aérea há 34 anos, ele conta que já observou algumas diferenças entre pilotos homens e mulheres. “Como instrutor, anos atrás, observei que os alunos tinham uma tendência à agressividade e ao ataque maior do que as aviadoras, que demonstravam uma prudência maior, mas o ponto que sempre destaco é que se isso for mesmo característica predominante nos gêneros, mesmo que seja construída socialmente, e você conseguir unir essas diferentes características numa missão, o resultado tende a ser muito interessante, porque afinal o que a gente quer é que um piloto, homem ou mulher, esteja mordendo o calcanhar do inimigo, mas volte são e salvo para casa”, observa. (GB)

Primeira a formar combatentes, Aeronáutica ainda é conservadora no debate de gênero
“Na aviação tem um caso sério. Se a mulher descobre que está grávida, é afastada do vôo. Ela pode, então, chegar a ficar dois anos fora. Ela terá que ter treinamento rígido para voltar a ser operacional. Também fazemos muitas missões fora, viajamos muito. Se ela quiser manter a operacionalidade e se destacar terá que optar por ter filho mais tarde. Por volta dos 35 anos, quando voamos menos”. A declaração é de um oficial homem da Academia da Força Aérea (AFA), que teve sua identidade preservada ao responder pesquisa do Instituto Igarapé que buscou mapear em que contexto tem se dado a entrada das mulheres na linha de frente das Forças Armadas brasileiras.

A Aeronáutica, primeira a abrir uma a escola de cadetes para as mulheres no país, em 1996, foi também a pioneira entre as três forças na formação de mulheres para uma arma de combate direto – a aviação – ainda em 2003. Tudo isso muito antes de qualquer lei prever a obrigatoriedade de inclusão das mulheres nos cursos de formação de combatentes – o que só viria acontecer em 2012. Mas mesmo quatorze anos depois do início daquela turma que sacudiu as estruturas da até então 100% masculina linha bélica do país, e com meia centena de aviadoras formadas para o combate até hoje – incluindo uma capitão que integra a equipe de pilotos do avião presidencial – as distinções dos papéis de gênero continuam a ser fortemente percebidas na instituição.

Não são apenas homens que validam uma indissociável relação entre a mulher, o papel de mãe e as atividades que se esperam dela. “Em algumas atividades pode prejudicar a força. Por exemplo, em um ambiente de guerra, como um navio afundando, mulher é a primeira a ser salva. É porque ela gera esperança. Tem que ter cuidado por ela ser mãe, tem que amamentar etc”, destacou uma cadete mulher da mesma Academia em resposta às questões da pesquisa, repetida também nas escolas de formação de combatentes da Marinha e do Exército. As entrevistas na AFA foram realizadas em 2016, quando 43 oficiais e aspirantes, homens e mulheres, participaram.

Mesmo que não seja um modelo para a equidade de gênero, a Aeronáutica tem atraído cada vez mais a atenção de mulheres que se interessam pela carreira militar. Entre 2012 e 2016, contou com uma variação de 27% no número total de mulheres na corporação. Elas eram 7.751 e passaram a 9.848, de acordo com dados do Ministério da Defesa. No mesmo período, o número total de homens sofreu variação negativa, diminuindo 6%.

Atualmente, a Aeronáutica é, entre as três forças, a que conta com a maior proporção de mulheres em relação ao efetivo total – mas ainda assim elas não chegam a ocupar 15% do quadro da corporação.

Marginalizados nas Forças Armadas, LGBTs ganham holofotes com caso ITA

Se foi no reduto da Força Aérea que as mulheres exibiram pela primeira vez o uniforme de oficiais combatentes, foi ali também que ficou claro para a sociedade brasileira que o debate sobre gênero nas Forças Armadas é binário. Muito antes do protesto do engenheiro Talles de Oliveira Farias contra a homofobia, em 2016, quando foi à formatura do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA) – uma das tradicionais escolas de formação para a carreira militar – de vestido vermelho e salto alto, a militar Maria Luiza da Silva havia amargado uma dura batalha na Justiça. Ela foi a primeira transexual das Forças Armadas brasileiras a escancarar o preconceito, quando em 2000 recorreu à Justiça após receber parecer do Alto Comando que determinava seu afastamento do trabalho e justificava a decisão tratando claramente “transexualismo” como um diagnóstico que inviabilizava a sua permanência no posto de cabo da Força Aérea.

Na época do parecer, ainda com identidade civil masculina, Maria Luiza foi para a reforma, mas passou uma década buscando seus direitos até que, em 2010, numa decisão histórica, obteve vitória, com determinação para voltar aos quadros da Força Aérea, mesmo que na reserva, por questão de idade, como contou à época com detalhes o jornal Correio Brasiliense.

Em 2016, Talles tinha uma comunidade a seu favor quando decidiu ir a público protestar na formatura. O debate sobre gênero no país avançou e alunos LGBT da escola militar em Barbacena já formam inclusive a AGITA, a Associação LGBT do ITA. Ainda assim, ele, que entrou no instituto em 2012 como militar vindo da Escola Preparatória de Cadetes (EPCAR), saiu, em 2016, como civil. Talles afirma que se sentiu coagido a pedir o licenciamento do serviço ativo da Aeronáutica depois de ser repreendido por seu comportamento e por atos realizados contra a homofobia nas instalações militares. “Eu fiquei com receio de tirarem o direito de eu me formar se eu continuasse como militar, pois a todo o tempo fui repreendido por ser coerente com o que sou, por não me camuflar”, disse ele a Gênero e Número.

Em maio de 2015, depois de um ato relacionado ao Dia Nacional Contra a Homofobia, foi aberta uma sindicância interna para apurar infrações disciplinares. Para o engenheiro, aquilo soou como um alerta. “Eu havia ingressado no ITA por aspirações profissionais, lógico, e também pela possibilidade de já durante a faculdade contar com benefícios como salário e moradia, mas percebi que mesmo que eu quisesse seguir como militar e preferisse escolher mais tarde se era aquela carreira mesmo, o mais importante naquele momento era eu garantir o meu diploma, e por isso me desliguei”, afirma.

Desde o pedido de licenciamento acatado pelo ITA, Talles amadureceu a ideia de protesto na formatura. “Para parte da sociedade conservadora, isso soa como um afronta, mas para mim aquilo ali foi a forma que encontrei de mostrar que não se pode obrigar as pessoas a se encaixarem em estereótipos e que eu não concordo com esse reducionismo porque a gente precisa viver e sermos nós mesmos”.

A imagem de Talles viralizou na internet, ganhou a mídia tradicional, os blogs, foi parar num dos principais programa de domingo da maior emissora do país. O ITA se pronunciou. Pela primeira vez, tratou da acusação de homofobia publicamente. Emitiu nota em que negou ter havido pressão para o desligamento do então militar em formação, mas afirmou que “as diversas transgressões disciplinares que cometeu [o aluno] levariam a um comprometimento de sua avaliação como militar.” Entre as transgressões, a Aeronáutica citava o uso inadequado do uniforme e das redes sociais, onde teria o aluno desrespeitado símbolos nacionais.

Diferentemente de Maria Luiza, Talles Farias decidiu não travar qualquer briga na Justiça. Diferentemente dela, que já tinha 22 anos de contribuição às Forças Armadas quando foi afastada, Talles ainda estava por engrenar na carreira militar quando toda a polêmica se estabeleceu. Já distante da rotina militar, ele diz que o assunto não lhe doi, mas que definiu seus rumos. “Eu hoje exerço minha profissão de engenheiro e estou decidido a trabalhar na área de educação e a me dedicar a esse tema, estou desenvolvendo uma ferramenta que possa melhorar o debate sobre identidade de gênero no processo educacional”, conta sem dar detalhes do que vem por aí.

Nas Forças Armadas, a homossexualidade e a transexualidade são, comumente, abafadas e reprimidas, não apenas no Brasil, como pode ser corroborado recentemente com a declaração do presidente estadounidense Donald Trump, sobre a proibição de transexuais nas Forças Armadas americanas, assunto que vinha sendo tratado sob a ótica de direitos na administração de Barack Obama. Nos anos 90, os EUA já haviam instituído, com o presidente Bill Clinton, a política americana “Don´t ask, don´t tell” (Não pergunte, não conte), onde a ordem era não acatar militares que se declarassem abertamente homossexuais.

Países que não compactuam com o retrocesso no debate, como o Canadá, também têm se posicionado. Após a declaração de Trump, os militares canadenses responderam no mesmo meio usado pelo presidente americano, a rede social Twitter, com mensagem de acolhimento: “Damos as boas-vindas aos canadenses de todas as orientações sexuais e identidades de gênero. Junte-se a nós!”. (GB)

“Para eles, desconstruir a masculinidade é como se fosse ser um soldado pior”
Especialista em segurança internacional, a doutora em estudos internacionais Renata Giannini tem se dedicado a analisar profundamente o campo a partir de recortes de gênero. No Instituto Igarapé, onde atua como pesquisadora sênior, ela liderou nos últimos dois anos pesquisas que resultaram no recém-lançado estudo “Situações extraordinárias: a entrada de mulheres na linha de frente das Forças Armadas brasileiras”. Para a Gênero e Número, que teve acesso a dados abertos da pesquisa para a produção do reportagens sobre o tema, Giannini falou principalmente sobre desafios atuais e históricos da entrada das mulheres na linha de frente do Exército, Marinha e Aeronáutica, com uma perspectiva de quem conhece os contextos local e internacional.

GN – Desde a entrada das mulheres na reserva da Marinha, nos anos 80, até a abertura das três principais escolas de combatentes das Forças Armadas, bem mais recente, o que pesou para esse processo de mudança a favor delas?

Renata Giannini – A literatura costuma falar bastante do período da redemocratização do Brasil como um momento em que as Forças Armadas sentiram a necessidade de melhorar a imagem para a sociedade em geral. Saindo de um período de ditadura militar, com imagem bem desgastada por causa do envolvimento com várias violações dos direitos humanos. Tudo isso estava presente, e a entrada da mulher é vista também como um fator positivo. Mas depois disso, a gente teve também a nova Constituição, em 1988, buscando garantir igualdade, e isso também pesou a favor das mulheres. Mas mesmo com toda essa movimentação, a gente observa que ao longo do tempo as possibilidades de carreira são muito diferentes para homem e para mulher. Elas só puderam ingressar como oficiais ou suboficiais na década de 90, e isso definia limites de ascensão, que foram sendo questionados à medida em que as mulheres foram entrando nas instituições, prestando concurso, ascendendo e que outros países foram se abrindo. Mas havia a barreira mesmo das escolas de formação de oficiais que podem ir para o combate.

GN – Agora elas ingressaram nessas “escolas de combatentes”, e o que isso significa?

Renata Giannini – Acho importante dizer que em espanhol eles diferenciam entre escola matriz e escola de formação, e eu consigo entender melhor do que como falamos no Brasil. Em inglês, há a expressão ground combat que no fundo se refere à linha de frente, ao combate direto. Na Escola Naval, na Academia das Agulhas Negras e na Academia da Força Aérea, não são apenas para o combate direto, há também especialidades voltadas para o apoio ao combate. Por isso fala-se em linha bélica. Intendentes, de forma geral, não são combatentes (diretos), eles dão apoio ao combate. Aqui, quando você vê as propagandas que temos a respeito do assunto, sobre as mulheres que estão entrando, fala-se em mulheres combatentes, mas na verdade elas darão o apoio ao combate. Quando uma mulher passa por uma escola de formação de oficiais, como a AMAN, podem fazer outros cursos, em lugares como a Escola de Comando e Estado-Maior o Exército, e essa trajetória é importante para ela, lá na frente, se tornar general. Então se elas entram nessas escolas, elas vão realmente ter condições de ascender mais.

GN – A entrada das primeiras turmas de mulheres, seja na década passada, na Aeronáutica, ou agora em 2017, no Exército, carrega muitas questões e polêmicas que aparecem no estudo que você conduziu, afinal não era só uma questão de abrir as portas, não?

Renata Giannini – Sim! Na Força Aérea, a primeira turma de mulheres aviadoras, em 2003, teve muita coisa. Eu conversei com algumas mulheres que são da primeira turma e elas falam que evitavam ao máximo a diferenciação e que aquele primeiro momento foi muito ruim. Primeiro porque o ingresso foi separado, homens e mulheres entraram separados, e segundo porque era a primeira vez que a mulher estava naquela posição de combate, o que atraiu muito a atenção. Elas mesmas contam que eram tratadas como ‘estrelinha’ e isso gerava um problema entre colegas muito grande. No final do dia, o bullying e essas coisas que parecem menores são o grande desafio para elas continuarem ou não nas Forças Armadas. É o dia a dia. É ter que aguentar, numa idade tão jovem, uma série de pressões.

GN – Um ambiente de pressão e predominantemente masculino…

Renata Giannini – Quando vc anda pelas escolas, você vê que as mulheres são poucas. É visual. E isso chama muito a atenção. E uma coisa que acho muito interessante na fala dessas mulheres entrevistadas [na pesquisa] é que elas dizem que como elas são poucas, qualquer coisa que elas fazem chama muito a atenção. ‘Fulana está hoje falando com fulano e amanhã está conversando com outro: ‘ah, ela tá dando mole para dois caras!’. Essa percepção delas aparece em quase em todas as entrevistas, isso de o comportamento de uma ou de outra se tornar representativo de todas as mulheres.

GN – Essa entrada das mulheres na aviação, que marcou o acesso delas a uma arma de combate, pressupõe mesmo igualdade? Esse acesso a armas coloca o debate num outro nível?

Renata  Giannini – Acho que sim, pois justamente estamos falando da última fronteira. Por que estudar gênero nas forças armadas? Existem muitos estereótipos, muitos construções sobre o que é ser homem, o que é ser mulher, e não existe nenhum outro lugar fora das Forças Armadas onde esse estereótipo do que é ser homem se encaixe tão bem. É a força. Então a mulher entrar ali [na aviação de guerra], diante desse papel de gênero que foi historicamente construído para elas como sensível, é quase como um embate dessa feminilidade tal qual nos construímos. Então considero esse um passo importante.

GN – Leis, maior número de mulheres na carreira militar, isso tudo ainda não garante que não haverá sexismo ou violações. Qual o caminho para se avançar nisso, na sua opinião?

Renata Giannini – Uma lei não significa mesmo que todos os desafios estarão superados, mas você ter uma legislação que respalda vai significar melhoras no geral. A novas gerações [de militares] também estão ajudando nesses debates. Eu vejo como uma questão de tempo.

GN – Mas no estudo você pontua que a França, que tem uma alta abertura às mulheres, enfrenta problemas sérios de assédio sexual

Renata  Giannini – Sim, na França houve muito assédio, assim como na Austrália, onde se identificou quase uma “epidemia”. Mas já mudou muito. A a atitude desses países foi exatamente abrir sindicância e apurar os casos, confrontar com a legislação e, a partir disso, buscar melhorar a legislação. Então eles abriram para investigar, para descobrir. Mas infelizmente o que acontece ainda nesses casos de violação, indiscriminadamente, é que as Forças Armadas tendem a esconder. Aqui no Brasil, um dos nossos problemas é que a legislação não dá conta de crimes como assédio sexual.

GN – Aqui no Brasil a entrada das mulheres nas escolas foi cercada de cuidados, distâncias, normas rígidas. que você ouviu sobre isso?

Renata Giannini – Eu ouvi bastante nas entrevistas que as mulheres não podem ser permitidas em alguns acessos para protegê-las. Mas me parece um absurdo você impedir a entrada de uma mulher num determinado ambiente ou arma porque vc acha que o direito dela vai ser violado. Então você usa o argumento de uma possível violação e termina violando o direito do acesso? E foi interessante que fomos até a Escola Preparatória de Cadetes da Aeronáutica, em Barbacena, e lá quem ingressa depois pode entrar direto na AFA. E os oficiais diziam: ‘aí o bicho pega , pois elas são meninas. Tem o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente)’.

GN – Nessas escolas, o que mais você escutou?

Renata Gianini – Parte-se da ideia de que mulher não deve estar na guerra. Mas já que tem que estar, por mil razões, a quantidade de frases que denota uma postura misógina é enorme. Ouvi algumas assim: ‘Mas imagina você ser comandado por uma mulher? Não dá.’ e ainda: “Porque sei que se ela for pega por um inimigo, o que vai acontecer com o restante das tropas?. Eles vão todos estar preocupados em protegê-la, e nao em cumprir com a missão”. Eu entendo que tudo isso é porque eles estão vendo a mulher não como uma colega, nao como uma profissional, mas como mãe, aquela imagem construída, que não se encaixa na guerra.

GN – Dentro das escolas você percebia que as mulheres se sentiam livres?

Renata Giannini – Tem uma pesquisadora, a professora Emilia Takahashi, que fez tese de doutorado sobre as primeiras mulheres que ingressaram nos quadros de Intendência. E ela fala como essas mulheres tiveram que se masculinizar para serem aceitas. E isso era bem comum nas opiniões que eu ouvia nas escolas também, durante as entrevistas, mulheres falando coisas como: “a gente faz intendência porque não dá pra eu ser da infantaria”. Elas mesmas incorporam esse discurso, mas destaco que, assim como há mulheres pensando assim, há homens que não têm esse discurso, não..

GN – Mas você viu mulheres reclamando do quanto elas são obrigadas a seguir esse um padrão de feminilidade?

Renata Giannini – As oficiais que foram entrevistas nessa parte de carreira falaram muito sobre isso. Algumas diziam que adorariam que o marido ajudasse mais com os filhos. A mulher ainda tem um papel diferenciado com a família, com os filhos, então para elas é, sim, um desafio. Uma delas me contou que teve que ficar uma semana fora e preparou um calendário de atividades, mas o marido levou a filha para a natação quando era balé. Então elas contam essas histórias mostrando como isso, no final, afeta a carreira delas. Elas falam sobre a dificuldade do homem militar assumir o papel de quem cuida da casa. É sobre reconstruir mesmo o modelo de masculinidade. E aí as Forças armadas, onde a gente fica falando tanto de força física, esse modelo de masculinidade é reforçado. Precisamos falar não só sobre o avanço, sobre o quê as mulheres podem conquistar, mas sobre como desconstruir a masculinidade. Sim, e é muito difícil, pois para eles desconstruir a masculinidade é como se fosse ser um soldado pior.

GN – Ao longo do estudo, fica evidente que à mulher é reservado ainda um papel de cuidadora e de mãe. Você chegou a ouvir claramente que guerra não é espaço para a mulher?

Renata Giannini – Sim, ouvi bastante. Mas também notamos que aqueles que já estiveram em missões com contingentes mistos ou que já tiveram a oportunidade de conversar com militares de outros países, são bem mais abertos à ideia e geralmente mudam a forma de pensar.

GN – São as referências, então, que pesam?

Renata Giannini – Referências. Precisamos muito disso nesse debate. Praticamente em todas as entrevistas foi citada a militar americana que deu entrevistas falando que Forças Armadas não é lugar de mulher. Eles conhecem essa referência muito bem. Mas a coronel-infante norueguesa que eu conversei, que comandou tropas na bósnia, eles não sabem que é. Preferem as referências que reforçam os estereótipos (GB)

Minicurso "Desvelando os sinais da violência vivida pela criança: possibilidades e dificuldades do trabalho com a família"



terça-feira, 15 de agosto de 2017

Reunião da Comissão Permanente da Mulher no dia 22 de agosto às 14h, na Câmara Municipal de Campinas


Bibliothek: Mais sobre as mulheres na literatura alemã

A presença feminina é maciça no pós-guerra. Isso não quer dizer que a Alemanha seja um mar de rosas: ainda se luta por visibilidade. Os protestos de escritoras no Brasil encontram seus paralelos aqui.
15.08.2017
Ricardo Domeneck
No último texto, discuti a presença feminina nos primórdios da literatura alemã, com nomes como Hildegard von Bingen no período medieval, Annette von Droste-Hülshoff no século 19, Else Lasker-Schüler e Hannah Arendt no início e meados do século 20. A situação no pós-guerra mudou muito. Se a presença feminina pontuou a literatura do país em momentos precisos e altos de qualidade, no pós-guerra sua presença se tornou maciça.
Isso não quer dizer que a Alemanha seja um mar de rosas para as escritoras. Ainda se luta por visibilidade no coração da Europa, assim como em outras regiões. Os protestos de escritoras no Brasil encontram seus paralelos aqui, onde a lista de festivais e prêmios ainda privilegia a voz masculina também. Por mais progressista que se queira a comunidade literária, escritores muitas vezes reservam seus pedidos de igualdade para outros setores da sociedade, com muitos homens encampados numa ilusão de aristocracia editorial. Para muitos efeitos, infelizmente ainda estamos no século 19 quando a discussão é literatura.
Fora do âmbito germânico, arriscaria dizer que a escritora mais famosa da língua na literatura internacional ainda é a austríaca Ingeborg Bachmann (1926-1973). Como escrevi em uma homenagem a ela nesta mesma coluna ["Vida e morte de Ingeborg Bachmann”], a autora alcançou repercussão já com seu primeiro livro de poemas, produzindo mais tarde também prosa e dramaturgia.
Já na Alemanha, o país vivia o período triste de sua divisão, divisão que se estendia para a literatura. Um nome incontornável é o de Christa Wolf (1929–2011), que produziu na Alemanha Oriental e se tornou um dos nomes centrais da literatura do outro lado do muro. Seu livro Der geteilte Himmel ("O céu dividido”, 1963) é, além disso, uma das obras marcantes sobre a própria divisão. Devido a acusações de que teria colaborado com o regime ditatorial, seu nome hoje é circundado de polêmica. Mas foi uma grande escritora, que descreveu com força a experiência feminina em língua alemã. Livros como Kassandra (1983), traduzido no Brasil por Marijane Vieira Lisboa (Cassandra. São Paulo: Estação Liberdade, 1990) ou Medea (1996) devem permanecer nas estantes por mais que se tenha tornado controverso o nome de sua autora. E sua influência se teria feito sentir em escritoras contemporâneas como Elena Ferrante.
Na Alemanha Ocidental, um nome que recomendo é o de Marie Luise Kaschnitz (1901–1974). Canônina, está em qualquer livraria. Seus livros estão espalhados por sebos. Confesso que levei tempo para a ler, até que Melissa Dullius, cineasta brasileira radicada em Berlim com seu companheiro Gustavo Jahn (do duo Distruktur), disse-me que estava trabalhando em um filme sobre sua obra e me presenteou com o livro Tage, Tage, Jahre ("Dias, Dias, Anos”, 1968), uma série de reflexões sobre vários assuntos em que mostra a delicadeza e força de sua prosa, ainda que seja hoje melhor conhecida como poeta. Fiquei muito impressionado.
Estas duas autoras são canônicas, estabelecidas, nomes que ficaram. Há, como em qualquer país, também as obscuras, que vão as poucos firmando-se no céu literário. Na Alemanha, o caso mais potente é o de Unica Zürn (1916–1970), mulher de Hans Bellmer, artista visual e autora dos anagramas mais impressionantes da língua. Para os que se interessam por poesia experimental que não deixa de ser um soco na boca do espírito, recomendo seu trabalho. E na semana que vem encerrarei esta série com os nomes das que estão vivinhas-da-silva (ou vivinhas-von-schmidt?) e produzindo os melhores livros da Alemanha contemporânea. Leia mulheres.

DW