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sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Filme sobre cineasta Chantal Akerman repassa obra 'incômoda' marcada por presença materna


Com depoimentos de Akerman e de amigos e colaboradores, I don’t belong anywhere ressalta vocação para nomadismo da artista, morta em outubro
Em 1975, uma jovem cineasta belga roubou a cena durante a Quinzena dos Diretores do Festival de Cinema de Cannes, na França. Seu filme, Jeanne Dielman, 23, Quai du commerce, 1080 Bruxelles, dividia, no entanto, os espectadores presentes na sala. Entre eles a escritora francesa Marguerite Duras, que não se conteve e deixou o cinema aos gritos de “Essa mulher é louca!”. “Louca é você”, retrucou Chantal Akerman, então com 25 anos e diretora da obra cinematográfica que, a partir da manhã seguinte à sua estreia em Cannes, começaria uma trajetória de consagração até se tornar um divisor de águas do cinema europeu e mundial.

Pérolas memoriais narradas em primeira pessoa como essa povoam o documentário I don’t belong anywhere – Le cinéma de Chantal Akerman (Eu não pertenço a lugar nenhum – O cinema de Chantal Akerman, em tradução livre), que ganhou projeção especial para uma plateia de convidados no último dia 7 de novembro no Centro Wallonie-Bruxelles, em Paris, antes de sair em turnê por festivais internacionais. A direção leva a assinatura da também belga Marianne Lambert, uma das mais profícuas colaboradoras de Akerman desde meados da década de 1990. O filme ganhou recentemente o status de corolário da artista: Chantal Akerman se suicidou aos 65 anos no último dia 5 de outubro, em Paris, 18 meses após a morte de sua mãe, Natalia, uma presença central em sua trajetória cinematográfica.

A direção de Marianne Lambert em I don’t belong anywhere opta por um recorte sobre o presente, abrindo a tela de cinema em grandes planos sobre as paisagens preferidas de peregrinação de Akerman, como Tel-Aviv, Paris, Nova York e Bruxelas. Confortável nesta moldura que enfatiza sua vocação para o nomadismo, Chantal se abre numa conversa íntima com seus interlocutores. “Quem a conheceu sabe como isso era difícil para ela. Somente ume equipe como a reunida por Marianne, com antigos colaboradores e gente em quem ela realmente confiava poderia resultar neste tipo de troca, de revelação”, afirmou Patrick Quinet, produtor de vários de seus filmes desde La Folie Almayer, filmado no Camboja em 2010 e lançado em Paris em 2012.

Foi também durante as filmagens de La Folie Almayer que Marianne Lambert começou a engendrar a ideia de documentar Chantal Akerman para a coleção “Cinéastes d’aujourd’hui” da Cinemateca da Federação de Valonia-Bruxelas. “Comecei a perceber claramente, quando me tornei sua diretora de produção, estando todos os dias no set com ela, que Chantal não correspondia nem um pouco ao perfil intelectualizado que sempre lhe foi atribuído. Pensei que era chegado um momento de fazer um documentário sobre ela, um convite que ela aceitou casualmente, em menos de cinco minutos, no fim de um jantar informal em Paris”, conta Lambert.

I don’t belong anywhere – le cinéma de Chantal Akerman, rodado em apenas duas semanas, resgata os trechos mais significativos dos mais de 40 filmes da artista belga, além de suas inúmeras instalações em vídeo, em pouco mais de uma hora de documentário. A direção de Marianne Lambert é leve e precisa, deixando o público descobrir a intensidade, a sensibilidade, a fragilidade e o talento de Chantal. Uma direção que encontra paralelo na visão da própria retratada, que afirma num de seus diversos testemunhos durante o filme: “Existem diretores como Hitchcock, que aliás eu adoro, que impõem ao espectador o seu recorte da cena, seja com um close de um objeto, um corte, existe sempre um direcionamento preciso do olhar do público, o público olha para o que o diretor quer. (...) Eu prefiro deixar os espectadores livres para descobrirem sozinhos o filme. Por isso a minha câmera é sempre desse jeito, parada, frontal”, afirma Chantal durante o filme.

Essa mesma câmera “parada e frontal” foi notoriamente uma das influências estéticas cruciais de Gus Van Sant em Last Days, produção norte-americana de 2005, que conta os últimos dias de um astro do rock enclausurado em sua casa de campo, filme inspirado pela trajetória de Kurt Cobain. “Last Days foi influenciado diretamente pelo impacto que tive quando vi Jeanne Dielman, 23, Quai du commerce, 1080 Bruxelles, de Chantal Akerman. (...) Chantal tem uma construção de imagem que eu chamo de arquitetural e que me marcou imensamente”, afirma Gus Van Sant em depoimento no documentário.

Além de Van Sant, o filme de Marianne Lambert coloca em cena outros personagens da mitologia akermaniana, como a editora de imagens Claire Atherton, parceira essencial em seus filmes, e a atriz Aurore Clément, protagonista de Les rendez-vous d’Anna, de 1978. Sentada num quarto de hotel de Bruxelas, num cenário que reproduz um ambiente típico da década de 1980, Aurore afirma que o cinema da diretora belga sempre mostrou coisas “insuportáveis”, coisas que não poderiam ser mostradas. “Seus filmes incomodavam o público, e continuam incomodando”, pontua.

“Todo documentário deve ter algo de ficção, e toda ficção deve ter algo de documentário”, afirma Chantal Akerman com sua voz rouca e seu timbre metálico característico em I don’t belong anywhere. Esta afirmação da diretora belga encontra eco em toda a sua obra. Chantal não foi uma artista de meia palavras nem de concessões. Adolescente, decidiu que seria diretora de cinema aos 15 anos após assistir “por acaso” ao filme Pierrot le Fou (1965), de Jean-Luc Godard, um dos cânones da Nouvelle Vague francesa. “Tinha ido ver o filme porque tinha gostado do título, nessa época a gente ia com a turma ver os filmes simplesmente, para tomar um sorvete, se divertir. Eu estava com a minha namorada da época e, depois daquela sessão de cinema, eu disse pra ela: é isso que eu quero fazer da minha vida. (...) Pensei: mas então cinema também pode ser isso, também pode ser poesia, pode ser outra coisa?”, conta Akerman num relato apaixonado e divertido, que parece entrar em oposição direta com sua personalidade assumidamente bipolar, entre períodos difíceis e internações, sobretudo após a morte de sua mãe em 2014.

Sobrevivente da Shoah, o nome judeu para a catástrofe do Holocausto, Natalia, de origem polonesa, foi enviada ainda jovem com seus pais para o campo de concentração de Auschwitz, de onde retornou sozinha e nunca mais falou sobre o assunto. “Eu, no entanto, sempre senti o sofrimento de minha mãe, completamente, inteiramente, mesmo ela tendo se recusado a comentar depois”, declara Chantal em I don’t belong anywhere. A presença materna será referência central e recorrente até seu último filme, No Home Movie, lançado durante o Festival de Locarno (Suíça) de 2015.

Quando vida e obra se misturam, tudo vira celebração e referência, mesmo se a morte ronda a festa. O transtorno bipolar da artista foi amplamente utilizado por ela, inclusive em algumas de suas instalações mais famosas como Maniac Summer e Maniac Shadows. “As pessoas perguntavam: ‘quem é essa nova videoartista?’”, diverte-se Chantal em depoimento durante o documentário. “Uma prova de que as pessoas de cinema não vão ao museu, e as pessoas de museu não vão ao cinema, uma pena”, lamenta.

Baixinha, direta e com seu andar clownesco e decidido, Chantal não poupa críticas a eventuais desafetos. O fracasso do filme que pode ser considerado o único empreendimento assumidamente comercial da diretora, a produção hoolywoodiana Um divã em Nova York, de 1996, é um desses momentos. “Juliette (Binoche) queria fazer um filme comigo, evidentemente porque eu estava nos Estados Unidos e ela estava interessada em filmar por lá”, ironiza Chantal. “Se eu tivesse assinado qualquer outro nome neste filme, sei lá Sylvie alguma coisa, todos teriam amado. Mas como eu sou Chantal Akerman, todos se decepcionaram. Meu público esperava outra coisa e quem não era meu público desistiu de ver quando a imprensa foi negativa. (...) Os atores abandonaram a divulgação do filme no meio, quando a imprensa criticou, nem Juliette nem William (Hurt) ficaram para defender o filme e dar prosseguimento... Uma pena”, diz a diretora.

Jeanne Dielman, 23, Quai du commerce, 1080 Bruxelles, sensação de Cannes de 1975, marcou a diretora para sempre. “No dia seguinte da projeção em Cannes, o filme já estava programado para mais de 50 festivais. (...) De um dia para o outro me fizeram compreender que eu era uma diretora extraordinária. Eu tinha 25 anos (...) Ficava angustiada, passei muito tempo pensando no que faria depois de Jeanne Dielman”. Não era para menos. O filme ficou conhecido como a primeira vez na história do cinema mundial em que o cotidiano banal e repetitivo de uma dona de casa foi mostrado em tempo real, em câmera parada e frontal, uma repetição que sublinha a alienação das mulheres no cotidiano doméstico. Akerman provou aos 25 anos que é possível criar uma narrativa de efeito altamente dramático mesmo durante longos silêncios, que habitam e assombram o espectador.

De cores feministas e com apuro técnico milimétrico, Jeanne Dielman, 23, Quai du commerce, 1080 Bruxelles continua impactante como em 1975. O filme conta a história de uma dona de casa de Bruxelas que se prostitui ocasionalmente, toma conta de seu filho com uma dedicação obsessiva e tenta ocupar ordenadamente todos os minutos de seu dia, até o momento em que ela acorda mais cedo, e toda a sua tentativa de alienação do vazio vai por água abaixo, por causa do tempo livre não organizado. “É claro que me inspirei em todas as figuras femininas da minha vida, minha mãe, minhas tias. (...) Passei minha vida vendo essas mulheres repetirem esses gestos”, afirma Akerman.

O documentário I don’t belong anywhere tem a qualidade de nos fazer sentir interlocutores privilegiados de Akerman, em planos que ora dão closes em ambientes intimistas, ora nos projetam em cenários urbanos de megalópoles ou de estradas solitárias no meio do deserto. Akerman está inteira lá, em discurso direto, incisivo, iconoclasta, uma espécie de afirmação polifônica de seu cinema e de suas próprias fragilidades e delicadezas. O filme, lançado mundialmente no Festival de Locarno em 7 de agosto, ainda não tem previsão de exibição no Brasil e deve iniciar agora uma turnê por festivais europeus.

“Sempre desconfiei quando alguém diz que um filme é tão bom que não se vê o tempo passar. Nos meus filmes, quero que o espectador tenha a noção de cada instante, do tempo passando, o tempo inteiro”, diz Akerman no documentário. “Assim ele não terá a sensação que roubei duas horas da vida dele, porque ele as viveu a cada minuto durante o filme.”

Opera Mundi

Filme retrata martírio de mulher impedida de se divorciar pelas leis de Israel


“Em Israel, uma mulher divorciada come merda”, diz uma personagem secundária do filme O Julgamento de Viviane Amsalem, que chegou aos cinemas brasileiros na última quinta-feira (20/08). Contudo, o que o trabalho da dupla de diretores Ronit e Shlomi Elkabetz mostra é que há um grupo de mulheres no país que sofre ainda mais: aquelas que querem se divorciar, mas são impedidas de seguir adiante com esse desejo por causa de um sistema de regras arcaico.
Por não haver casamento civil em Israel, apenas os rabinos podem legitimar uma união ou sua dissolução. O divórcio, porém, segundo relata o filme, só é concedido por um tribunal rabínico com a anuência do marido ou quando há acusações muito graves.
Na história ficcional do filme, Viviane (papel realizado pela diretora Ronit Elkabetz) quer se separar de Elisha (Simon Abkarian) por um motivo simples: ela não o ama mais, não suporta a ideia de seguir vivendo sob o mesmo teto que ele, apesar de considerá-lo um bom homem, que cumpre com suas obrigações financeiras. Acontece que o marido se mostra irredutível na posição de não se separar, o que joga a mulher em uma espécie de limbo entre a condição de casada e divorciada.
Como prenuncia o título, todas as cenas do longa-metragem são passadas no edifício do tribunal. Esta escolha serve para acentuar a ideia de aprisionamento da protagonista, que só voltará a ter uma real liberdade quando conseguir o divórcio. Desse modo, o enredo acompanha todas as audiências realizadas sobre este caso ao longo de cinco anos.
A monotonia que esta proposta poderia sugerir não é verificada na tela graças a um trabalho notável da direção e do elenco. Explorando ao máximo a sala do tribunal com planos que buscam os detalhes das expressões dos personagens ou que fazem um recorte específico do local, sempre dando margem para o espectador tentar entender o que ocorre fora de campo, os cineastas demonstram pleno controle sobre forma e conteúdo do trabalho.
Exemplo disso se verifica quando a defesa de Viviane aponta a incoerência de um tribunal que se resigna quando dois amigos homens brigados não se perdoam, mas que rejeita a hipótese de que um casamento seja desfeito pelo desejo da mulher. Neste ponto, o advogado tenta utilizar pela primeira vez a mesma lógica moral dos juízes rabinos a favor de sua cliente, e os diretores atestam essa mudança também no visual do filme, ao enquadrarem o defensor de maneira frontal ao júri, sugerindo pela imagem que, naquele momento, ele está se juntando ao grupo de julgadores.
Assista ao trailer do filme 'O Julgamento de Viviane Amsalem':


Com nuances como essa, o filme vai traçando aos poucos um retrato multifacetado da sociedade israelense. A lógica machista predominante é dissecada pelo testemunho de uma mulher que não parece se dar conta de que reproduz um discurso preconceituoso; o choque de gerações entre a tradição religiosa e a modernidade é representado pelo advogado de Viviane, filho de um rabino importante; e a posição emancipatória e independente da mulher é vista na mudança de vestuário e de hábitos da protagonista, que chega a ser repreendida pelos rabinos simplesmente por soltar o cabelo.
Como citado pelos próprios diretores em entrevistas, uma das referências utilizadas na realização do filme foi a história de Joana D’Arc, mais precisamente a versão cinematográfica realizada em 1928 pelo dinamarquês Carl Dreyer. De fato, a secura dos closes e o retrato do sofrimento de uma mulher são fatores que relacionam as protagonistas dos dois filmes.
O trabalho israelense também faz referência à versão da história de D’Arc feita pelo francês Robert Bresson em 1962, notadamente na repetição de um plano que acompanha os pés da personagem rumo à sua trajetória final.
Evitando as armadilhas do maniqueísmo e do melodrama, O Julgamento de Viviane Amsalemretrata um martírio típico de nossos tempos.
*Adriano Garrett é editor do site Cine Festivais
Opera Mundi

Festival Indie, em São Paulo, exibe filmes de Kira Muratova, uma das maiores cineastas da ex-URSS


Quase desconhecida no Brasil, onde só teve exibido um de seus trabalhos (Síndrome Astênica, de 1989), a cineasta Kira Muratova possui grande prestígio no Leste Europeu. Hoje com 80 anos, ela anunciou que Eterno Retorno, trabalho de 2012, será o último de sua trajetória, composta por 21 filmes. Onze deles (nove longas e dois curtas-metragens) poderão ser vistos pelo público paulistano durante o “Festival Indie – Mostra de Cinema Mundial”, que acontece no CineSesc até o dia 30 de setembro.


Nascida em 1934 na cidade de Soroca, que faz parte da atual Moldávia, a diretora teve vários longas-metragens proibidos pelo governo soviético, que via seus trabalhos como ameaças burguesas ao Estado.
Até mesmo o governo de Mikhail Gorbachev, responsável pela glasnost - a transição que resultou na dissolução do governo comunista -, proibiu um dos títulos de Muratova (o filme Síndrome Astênica), algo inédito para obras cinematográficas em todo aquele período de abertura.
"Para mim, ela é uma cineasta política mais notavelmente em termos sociais. Seus filmes constantemente mostram um número pequeno de pessoas ajudando umas às outras a se sentirem mais felizes e seguras”, diz o crítico e programador americano Aaron Cutler, curador da retrospectiva de Muratova no Festival Indie.
Em entrevista a Opera Mundi, Cutler falou sobre o contexto político que envolveu a trajetória de Muratova e comentou a respeito da importância de seus filmes para o cinema mundial.
Opera Mundi: Muitos filmes de Kira Muratova tratam de questões cotidianas, como as relações familiares e de amizade. O que havia neles que levou a União Soviética a proibir suas exibições na época de lançamento? De que maneira essas observações sobre elementos micro da vida soviética também podem ser consideradas políticas?  

Aaron Cutler: Muratova não se considera uma cineasta política – nem tão pouco nacionalista, feminista, etc.. Muitos críticos a chamaram de radical e subversiva, mas esse discurso me incomoda. Prefiro chamá-la de amorosa.

Para mim, ela é uma cineasta política mais notavelmente em termos sociais. Seus filmes constantemente mostram um número pequeno de pessoas ajudando umas às outras a se sentirem mais felizes e seguras.
As buscas dos personagens espelham aquelas que Muratova fez em sua vida. O fato de ela ter encontrado muitos obstáculos para trilhar esse caminho deve dizer algo problemático sobre nosso mundo.
Entretanto, assim como os filmes de Charles Chaplin - um artista que ela amou desde criança –, os trabalhos de Muratova constantemente mostram pessoas tentando seguir vivendo com alegria, sempre prontas para enfrentar seus problemas com um sorriso e transmitir esse bom sentimento para os outros.
OM: Qual foi o teor da acusação e o tamanho do período em que Muratova ficou impedida de filmar?

AC: Os primeiros longas-metragens solo de Muratova foram censurados até a glasnost, e houve diferentes pontos entre 1967 e 1987 em que ela foi proibida de realizar filmes, mais notavelmente durante o período entre O Longo Adeus (1971) e Conhecendo o Grande e Vasto Mundo (1978).

Não conheço as justificativas diretas do comitê de censura, mas posso dizer que, em termos gerais, os primeiros filmes de Muratova foram desdenhados e caluniados no contexto público por serem supostamente “burgueses” e darem foco aos problemas emocionais da elite em detrimento dos problemas práticos enfrentados pelo povo.
Essa acusação soa ridícula nos dias de hoje quando vemos os seus filmes, que lidam muito diretamente com as lutas cotidianas enfrentadas tanto por funcionários do governo quanto por pessoas do povo, embora isso seja feito de uma maneira muito mais pessoal do que propagandista - um pouco parecido com os documentários poéticos que Krzystof Kieslowski estava fazendo na Polônia por volta da mesma época que Muratova realizou seus primeiros filmes.
Inclusive, em uma relação curiosa com a São Paulo de hoje, Breves Encontros (1967) — o primeiro longa-metragem solo de Muratova na direção — contém vários momentos em que personagens pobres lamentam a crise hídrica da cidade em que moram.
OM: Quão comum era essa punição para cineastas naquele período na URSS?

AC: Se você pensar em diretores da época da União Soviética que hoje em dia são considerados mestres, facilmente irá perceber que muitos deles tiveram problemas com a censura em pelo menos um de seus filmes. Eu acho que é justo ver as lutas que cada um deles enfrentou para se expressar pessoalmente também como a representação de uma batalha compartilhada, que continuou depois da dissolução da União Soviética.

Muitos grandes diretores, incluindo Muratova em vários períodos, foram efetivamente proibidos de fazer filmes depois da glasnost não por causa da censura política, mas por não conseguirem levantar fundos suficientes para a filmagem e montagem dos trabalhos. A censura econômica é muito menos divulgada que a censura política, e exatamente por isso pode ser mais perigosa.
Mas Muratova superou esses problemas e, engenhosamente, conseguiu fazer várias obras-primas durante as décadas de 1990 e 2000 até o Eterno Retorno (2012), depois do qual ela decidiu parar de fazer filmes e dar prioridade ao tratamento de sua saúde. O período dela pós-glasnost está representado na segunda metade da retrospectiva no Indie.
OM: Conte sobre o episódio do governo Gorbachev com o filme Síndrome Astênica.

AC: Síndrome Astênica (1989) é estruturado como um filme de esquetes, criado pela Muratova através de um processo de associação livre, com um mosaico de personagens cujas histórias estão relacionadas mais tematicamente do que narrativamente. Essa estrutura faz um incrível comentário sobre a natureza efêmera das interações entre pessoas em espaços urbanos.

Perto do final do filme, a personagem de uma mulher com óculos, que até então não havia aparecido, é mostrada sentada sozinha no metrô difamando o marido e o resto do mundo. A cena dura cerca de três minutos, e o comitê de censura queria removê-la por considerá-la obscena.
Muratova não aceitou isso, pois para ela a personagem estava expressando algo verdadeiro sobre a vida, e a sequência seria inclusive mais real se fosse mais longa. Eu acredito que ela estava certa em não cortar. Tendo em conta os fatos que a precederam nas mais de duas horas anteriores de projeção, a cena proporciona uma catarse poderosa, na qual todos os males da humanidade são expurgados antes que um momento de graça aconteça no final do filme.
Por causa da recusa, Síndrome Astênica foi banido por alguns meses antes de ser lançado comercialmente e de ganhar o Prêmio Especial do Júri no Festival de Berlim de 1990. Este foi o único filme soviético censurado durante o governo Gorbachev, e hoje é considerado por muitas pessoas como o filme mais importante de Muratova.
OM: A partir de que momento a obra de Muratova passou a ser apreciada com mais entusiasmo na União Soviética e como isso se estendeu aos dias de hoje?

AC: Até o final dos anos 80, poucos espectadores na União Soviética haviam visto os filmes dela, pois eles estavam oficialmente banidos. O título de Mudança de Destino, trabalho de 1987, traz em si um sinal da liberdade e da exposição que Muratova experimentaria como artista no período pós-glasnost.

Ainda assim, ela foi realista sobre o lugar que os seus filmes poderiam ocupar dentro da cultura popular, mesmo em uma sociedade nova e mais aberta. Alguns dos momentos mais engraçados de Síndrome Astênica (1989) e Eterno retorno (2012) trazem personagens discutindo como o público geral se sente alienado por filmes “artísticos” como os dela.
Apesar de tudo isso, os filmes de Muratova ganharam muitos seguidores apaixonados ao longo dos anos, incluindo um número grande de diretores importantes. Por exemplo, Alexander Sokurov (russo vencedor do Festival de Veneza em 2011 por Fausto) considera Muratova a melhor cineasta viva no mundo hoje em dia, e Sergei Loznitsa (ucraniano que é figura recorrente em grandes festivais) cita Síndrome Astênica como seu filme preferido.
Muratova continua a influenciar o cinema contemporâneo nos países da ex-União Soviética, e até mesmo alguns diretores de fora dessa região. Sua influência durará enquanto os seus filmes continuarem sendo vistos.
Trecho de "Síndrome Astênica":
OM: Há alguma explicação estética/temática que justifique uma maior dificuldade de apreciação do cinema de Muratova pelos ocidentais?

AC: Eu odeio esse tipo de lógica racista na qual a cultura ou a nacionalidade de um cineasta é apontada como culpada pela incompreensão dos espectadores a respeito de seus filmes. Como exemplo desta prática, cito as obras de grandes cineastas como o japonês Yasujiro Ozu e o tailandês Apichatpong Weerasethakul – este último, aliás, terá seu último filme (Cemitério do Esplendor) exibido no Indie.

Muitos dizem que eles são “muito asiáticos”, mas as maiores influências cinematográficas desses dois são de artistas ocidentais. O diretor preferido de Apichatpong é o americano Bruce Baillie, que faz filmes experimentais, e Ozu frequentemente dizia que consolidou seu estilo por tentativas e erros ao imitar clássicos de Hollywood.
De forma parecida, muitas das referências mais preciosas de Muratova são cineastas ocidentais. Ela considera Michael Haneke o maior diretor em atividade; quando criança, os diretores que mais amava eram Robert Flaherty, Federico Fellini e Charles Chaplin.
Certamente a política e a cultura russas e soviéticas são relevantes para os trabalhos de Muratova, mas se você se sentir desconcertado pelos filmes, isso será muito mais devido ao não reconhecimento da linguagem cinematográfica que ela está usando do que por você não conhecer as culturas eslávicas.
OM: O cinema de Muratova deve muito ao legado de Chaplin?

AC: Muratova já disse diversas vezes que o seu filme preferido é Em Busca do Ouro. Chaplin está em todo lugar no cinema dela: o pathos e o humor em particular, junto com o entendimento de que ambos são necessários se você quer ter sucesso em se conectar com as pessoas.

Como em Chaplin, os filmes dela são sempre feitos com empatia com as pessoas que aparecem neles. Ambos veem as pessoas como indivíduos e entendem a individualidade como algo a ser preservado.
Por isso, se você assistir de mente aberta aos filmes da Kira, então você irá entendê-los – eu garanto isso. Ela fala através de seus filmes de um lugar de amor, e qualquer pessoa que fala com amor quer ser entendida.
*Adriano Garrett é editor do site Cine Festivais
Opera Mundi

Mônica Waldvogel estreia como roteirista de série sobre feminismo e machismo

“Vamos mexer no vespeiro que virou o assunto, buscando um lugar confortável para todos“, diz a jornalista

Bruno Astuto
23/08/2016
Mônica Waldvogel  (Foto: Divulgação)
Mônica Waldvogel é uma das roteiristas da série Humanidade em mim(Foto: Divulgação)

Mônica Waldvogel faz sua estreia como roteirista de curtas-metragens na série Humanidade em mim, que vai ao ar nesta quarta-feira (24), com sessão seguida de debate na Caixa Belas Artes, em São Paulo. “Vamos mexer no vespeiro do que virou o feminino e o masculino, buscando um lugar confortável para todos. Não diria que as mulheres se masculinizaram, mas estão sendo desafiadas em muitas áreas e precisam experimentar valores novos”, diz a jornalista, há oito anos à frente do programa político Entre aspas, da GloboNews.

“A sociedade está numa espécie de exaustão de um modelo fracassado. Ela não quer só ajuste fiscal e corruptos na cadeia, quer um outro modo de fazer política”, afirma. Mônica acredita que o crescimento da audiência de programas como o seu reflete uma mudança de comportamento do público.

“Hoje o desejo de acompanhar de perto, participar do debate e entender o que acontece politicamente com o nosso país é de uma intensidade muito forte. Todo mundo tem o direito de dizer que não gosta de política. Mas não tem jeito: mais cedo ou mais tarde, de um jeito ou de outro, vai ser convocado a se posicionar.”

Universitária sofre trombose cerebral depois de tomar pílula. Conheça os riscos



O relato da estudante de 22 anos viralizou nas redes sociais. Quantos outros casos serão necessários para que os médicos respeitem os critérios da OMS antes de receitá-la?

CRISTIANE SEGATTO
03/08/2016
Banner Coluna Dois Minutos (Foto: Época)
Aconteceu de novo. Agora com a universitária Juliana Pinatti Bardella, de Botucatu, no interior de São Paulo. A estudante de 22 anos sofreu uma trombose venosa cerebral. Passou 15 dias internada – três deles na UTI. Segundo os médicos que a atenderam na capital, o problema pode ter sido causado pela pílula anticoncepcional Yaz, fabricada pela Bayer.
desabafo postado por Juliana no Facebook viralizou. Já recebeu mais de 144 mil curtidas e foi compartilhado 43 mil vezes. No texto, ela conta que procurou um hospital em Botucatu com fortes dores de cabeça. A médica diagnosticou enxaqueca e não pediu exames neurológicos, apesar da insistência da paciente.
"Era sexta-feira, dois dias após ter ido ao hospital. Acordei pela manhã para ir à aula, quando fui levantar da cama minha perna direita não respondeu ao meu comando, mas com algum esforço levantei. Escovando os dentes, percebi que minha mão direita também não estava normal. Tentei me vestir, sem sucesso. Aquilo estava muito estranho, então não fui à aula e resolvi esperar passar. Não passou", escreveu no post.
Juliana Bardella que trombose cerebral após uso de pílula (Foto: Reprodução)
Com dificuldades de visão, dores de cabeça intensas e confusa (sem saber sequer usar o banheiro), ela foi trazida para um hospital na capital. Felizmente, não sofreu sequelas graves. Milhares de vítimas de anticoncepcionais no Brasil não tiveram a mesma sorte, como ÉPOCA revelou numa reportagem de capa em março de 2015.
"Foi um choque, não consegui entender bem o que estava acontecendo, o médico me perguntou se eu tomava anticoncepcional, eu disse que sim, há cinco anos, e então ele disse que essa poderia ser a causa do problema. Cinco anos de Yaz, três ginecologistas diferentes, e nenhum me alertou sobre a trombose, mesmo perguntando a respeito, nenhum falou que seria um risco. Não tenho histórico familiar, não sou fumante e os exames de sangue estavam normais, não tinha predisposição a ter trombose.”
Quando os médicos subestimam os riscos conhecidos das pílulas (em especial os das compostas de drospirenona) e sonegam informação às pacientes, eles roubam delas o direito de decidir sobre o próprio corpo. Isso precisa acabar.
Os ginecologistas tendem a minimizar os efeitos adversos das pílulas. Postura bem mais cautelosa é adotada pelos neurologistas. São eles que entram em ação no momento das tragédias, quase sempre marcadas por sequelas e mortes.    
Depoimentos públicos como o de Juliana são importantes. Não se trata de fazer campanha contra a pílula. Isso seria uma insanidade num país onde, todos os anos, 13 milhões de adolescentes se tornam mães. E 30% delas engravidam novamente no primeiro ano após o parto.
 O controle sobre quando e como ter filhos é uma conquista que permitiu às mulheres assumir novos papéis na sociedade. Isso não significa que elas devam arriscar a vida por ignorar os riscos das diferentes formas de contracepção.
Até o final de 2014, a Bayer havia pagado US$ 1,7 bilhão para liquidar 8.200 ações movidas por pacientes e familiares na Justiça americana. Depois de muita discussão, as autoridades sanitárias dos Estados Unidos e da Europa concluíram que os benefícios das pílulas à base de drospirenona superam os riscos. Não era o caso de retirá-las do mercado, mas as agências exigiram que os fabricantes incluíssem nas bulas alertas mais claros e enfáticos.
Embora as bulas brasileiras mencionem os riscos, as tragédias persistem. Prova disso são os mais de 8 mil relatos recebidos pela página Vítimas de Anticoncepcionais no Facebook.
ÉPOCA preparou um guia para ajudar as mulheres a tomar decisões mais seguras. Ele é baseado nas orientações da Organização Mundial da Saúde, entre outras fontes. Se todos os ginecologistas seguissem esses critérios antes de receitar anticoncepcionais, casos como o de Juliana seriam realmente raros.
artepilulaV2 (Foto: artepilulaV2)

Svetlana Alexievich, a arqueóloga do socialismo real


A jornalista bielorrussa ganhou o Nobel de Literatura por retratar os dramas soviéticos

RUAN DE SOUSA GABRIEL
10/10/2015
Svetlana Alexievich  (Foto: Ulf Andersen/Getty Images)
EM BUSCA DA VERDADE
Svetlana Alexievich em Lyon, na França, em 2014. O passado soviético é tema de seus livros 
(Foto: Ulf Andersen/Getty Images)

O que têm em comum uma jornalista bielorrussa que incomoda hoje o governo de uma ex-república soviética e Winston Churchill, o primeiro-ministro britânico que liderou o Reino Unido durante a Segunda Guerra Mundial? Ambos criaram uma obra literária composta quase exclusivamente de obras de não ficção e, com ela, arremataram o Prêmio Nobel de Literatura. Na quinta-feira, a Academia Sueca anunciou o ingresso da bielorrussa Svetlana Alexievich, de 67 anos, no panteão de escritores laureados com o Nobel. Svetlana escreve livros que escavam as ruínas do passado soviético e expõem os efeitos colaterais da falência do socialismo real.

A jornalista nasceu na Ucrânia e se mudou para a Bielorrússia com a família depois que o pai deixou o serviço militar. No vilarejo onde cresceu, ouvia histórias que as mulheres mais velhas contavam sobre a guerra. Não encontrou histórias como aquelas nos livros e concluiu que seria uma boa ideia escrevê-las. Ao longo de mais de quatro décadas, escreveu poemas, ensaios, peças teatrais e roteiros para cinema. Mas seus livros mais notáveis resultam de um trabalho quase arqueológico. O registro do cotidiano e das memórias de seu povo conquistou os votos da Academia Sueca, acostumada a olhar com mais carinho quem compõe obras fictícias.

O Nobel não era concedido a um escritor de não ficção desde 1953, quando Churchill foi homenageado por sua “brilhante oratória em defesa dos valores humanos”.

Svetlana, que nunca foi editada no Brasil, estava passando roupa em sua casa, em Minsk, capital da Bielorússia, quando atendeu o telefone e descobriu que ganhara o Nobel. “Fantástico!”, disse ela. A Academia Sueca afirmou que os livros da jornalista são “um monumento ao sofrimento e à coragem” e ressaltou o caráter “polifônico” de sua obra. O mesmo adjetivo já foi associado aos volumosos romances do escritor russo Fiódor Dostoiévski (1821-1881), nos quais o discurso do narrador não se sobrepõe às vozes dos inúmeros personagens que desfilam ao longo da narrativa. Svetlana recupera essa tradição ao dar voz aos personagens reais que povoam seus livros. A guerra não tem rosto de mulher, o primeiro livro da jornalista, que reúne as memórias de mulheres durante a guerra, não foi bem recebido pelas autoridades, que impediram a publicação. As crianças de zinco, de 1989, apresenta a trágica invasão do Afeganistão pelos soviéticos do ponto de vista das mães dos soldados mortos. Em 1997, publicou seu livro mais célebre, Oração de Chernobil (que, em inglês, recebeu o título de Vozes de Chernobil: crônica do futuro). Durante três anos, ela entrevistou mais de 500 sobreviventes do acidente nuclear de 1986 e transformou em literatura as histórias que ouviu.

O único livro de Svetlana disponível em português é O fim do homem soviético, editado em Portugal. Nele, ela narra a desintegração do homo sovieticus, a identidade formada por décadas de autoritarismo e escassez material. “O homem soviético não desapareceu. Para essa classe de homem, a liberdade é ter 20 tipos de salsicha para escolher”, afirmou a escritora ao receber o Prêmio da Paz dos Livreiros Alemães, em 2013. Svetlana foi perseguida por Aleksandr Lukashenko, presidente bielorrusso que se mantém no poder desde 1994 graças a eleições fraudulentas. O mesmo mérito que agradou à Academia Sueca incomodou o regime: Svetlana até flerta com a ficção, mas seu maior compromisso é com a verdade.

literatura  e realidade (Foto: Hulton Archive/ Getty Images (2), AP e Evening Standard/Getty Images)

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Jovens narram viagem para fazer aborto legalmente e geram comoção na internet

Atualizado em 22/08/2016
Em pleno ano de 2016 e muita gente ainda não entendeu que aborto é uma questão de saúde pública muito antes de ser uma questão política ou religiosa. Alguns setores da sociedade brasileiras e irlandesas, por exemplo, fazem parte deste grupo.
Por isso, no último fim de semana, duas jovens irlandesas criaram uma conta no Twitter para narrarem o caminho até a Grã-Bretanha para que uma delas fizesse legalmente e com segurança o procedimento. Segundo o site The Guardian, estima-se que 10 mulheres deixem diariamente a Irlanda para interromper a gravidez em outros países da Europa.
A conta @TwoWomenTravel, descrita como “duas mulheres, um procedimento, 48 horas longe de casa”, chegou a mais de 25,7 mil seguidores. Entre eles, várias personalidades que fizeram questão de dar apoio às jovens. Como, por exemplo, o apresentador britânico James Corden e a atriz Tara Flynn. O próprio Ministro da Saúde da Irlanda, Simon Harris, agradeceu por elas dividirem esta história que faz parte da realidade de tantas outras meninas no mundo todo.
Os tweets começaram a ser postados no sábado pela manhã ainda no aeroporto de Dublin, capital da Irlanda, e o último foi publicado na tarde de domingo. Entre eles, elas mostraram a sala de espera da clínica, o hotel que se hospedaram e outros detalhes dolorosos do procedimento. Todo o momento, os tweets são direcionados a Enda Kenny, primeiro-ministro do país, líder de um governo conservador e principal voz que defende a manutenção do aborto como um crime.
Entre as mensagens, elas afirmam que o político as obrigou a “cair na estrada” e comentam: “de novo, em mais uma sala de espera e, se não fosse por @EndaKennyTD, estaríamos em casa à noite junto de quem amamos”. Em outros posts, elas comentam sobre a exaustão do procedimento e a dificuldade de voltar para casa sangrando e sentindo dores. Por fim, agradecem o apoio dos seguidores e completam: “com isso, mostramos nossa solidariedade a todas as mulheres exiladas por @EndaKennyTD e seus defensores”.
Na Irlanda, realizar um aborto pode dar até 14 anos de prisão. Em movimentos de resistência e campanhas sociais contra a lei, algumas mulheres vão a delegacias do país dizendo terem tomado remédio para interromperem a gravidez e pedem para serem processadas.
No Brasil, o aborto também é criminalizado na maioria dos casos. E, a falta de apoio médico e psicológico às mulheres foi a causa de 65 mil mortes de brasileiras somente em 2013, segundo a ONU, causadas por complicações ao interromper de forma clandestina e sem assistência uma gravidez.

Wânia Pazzinato destaca papel da mídia no combate à violência

Para a representante da ONU Mulheres, a mídia tem parte relevante nesse combate, sob vários aspectos.
THAIS GUIMARÃES
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Em entrevista ao GP1, a pesquisadora e consultora da Organização das Nações Unidas (ONU), Wânia Pazzinato, falou sobre o importante papel que os meios de comunicação cumprem no enfrentamento à violência contra a mulher.
Para a representante da ONU Mulheres, a mídia tem parte relevante nesse combate, sob vários aspectos. “A mídia tem um papel fundamental no enfrentamento a violência contra a mulher, tanto divulgando as leis, a lei maria da penha, a lei do feminicidio, alertando que a violência contra a mulher é um problema da sociedade brasileira que exige políticas públicas e que o brasil tem um compromisso internacional de enfrentar, porque assinou tratados internacionais de defesa dos direitos humanos das mulheres”, destacou.
Wânia também considerou que a imprensa deve respeitar e resguardar a vítima.  “É preciso preservar o que nós chamamos de direito à privacidade e a memória, de não expor, nos casos de violência contra a mulher, fatos da intimidade da mulher que não contribuem para elucidar o crime e apenas servem para transferir a responsabilidade da violência para a vítima”, ressaltou.
A pesquisadora salientou que a sociedade conserva uma cultura de culpar a vítima pela violência sofrida. “Frequentemente se responsabiliza a mulher pela violência que ela sofreu, pela roupa que ela estava usando, porque se encontrava em um espaço em que não deveria estar, porque estava bebendo, isso não importa, nada justifica que essa mulher sofra violência”, finalizou.

Mulheres ainda têm dificuldade de denunciar assédio no trabalho

(O Estado de S. Paulo, 22/08/2016) Mesmo com o crescimento do número de casos que vieram a público, especialistas apontam que a grande maioria dos incidentes de assédio sexual no trabalho ainda não é denunciada

Em 1991, uma professora de Direito chamada Anita Hill trouxe a questão do assédio sexual para a consciência pública quando acusou seu antigo chefe, o candidato ao Supremo Tribunal, Clarence Thomas, de ter repetidamente lhe feito propostas lascivas.

Mas o episódio gerou mensagens dúbias, segundo muitos especialistas em discriminação. Apesar de ter aumentado a consciência sobre comportamentos corrosivos no local de trabalho, a intensa reação contra Anita Hill, até mesmo de membros do senado americano, passou a ideia de que as mulheres precisam encarar grandes obstáculos quando lidam com esses abusos. (Thomas negou as acusações.)
Quase 25 anos mais tarde, depois de uma série de alegações de assédio sexual que levaram a um pedido de demissão de Roger Ailes, antigo presidente da Fox News, e a uma cascata de acusações de agressão sexual contra o comediante Bill Cosby, alguns especialistas acreditam que podemos estar nos aproximando de mais um momento parecido com o do caso Anita Hill.
As histórias de Ailes e Cosby, afirmam eles, poderiam ter influência entre as mulheres no mercado de trabalho não apenas pelo poder intrínseco desses exemplos, mas porque acontecem em um momento em que elas estão ficando mais poderosas em sua luta pela igualdade. E quando a assertividade feminina produz resultados dramáticos como a demissão de Ailes, pode inspirar mais mulheres a seguirem pelo menos caminho.
“Quando Anita Hill se insurgiu contra Clarence Thomas, ela não conseguiu nada e ele arrumou um cargo vitalício”, afirma Linda Hirshman, biógrafa do Supremo Tribunal que já foi professora de Estudos Femininos. “Se há algo que pode inspirar as mulheres a se manifestar contra uma ameaça real, esse seria a confluência perversa do paizão, Bill Cosby, com Roger Ailes, o homem mais assustador do mundo – o fato de que os dois estão se dando mal.”
Mesmo assim, defensores que lidam com os locais de trabalho advertem que uma sensação maior de poder e mesmo vitórias legais que chamam a atenção não necessariamente levam a um aumento significativo no número de mulheres que tomam medidas formais. Eles apontam para estudos que indicam que a grande maioria dos incidentes de assédio sexual no trabalho ainda não é denunciada.
“As mulheres podem se sentir qualificadas para vários empregos e não esperam sofrer discriminação, mas isso não se traduz em denúncias sobre abusos”, explica Chai Feldblum, integrante da Comissão de Oportunidades Iguais no Trabalho que, junto com uma colega, Victoria Lipnic, passou um ano produzindo um relatório sobre a questão. “A pesquisa mostra que, infelizmente, na maioria dos locais de trabalho não falar nada ainda é uma resposta razoável, porque as pessoas vão sofrer retaliações.”
O número de mulheres entrando com acusações de assédio sexual na Comissão de Oportunidades Iguais no Trabalho cresceu significativamente nos anos seguintes à denúncia de Anita Hill. Mas o efeito de seu testemunho sobre esse aumento foi um pouco prejudicado por uma lei de 1991 que deu às pessoas que alegavam discriminação no emprego o direito a um julgamento legal e permitiu compensações monetárias adicionais.
Casos amplamente divulgados parecem ter desempenhado um papel para incitar outras pessoas a fazer denúncias também em uma grande variedade de contextos mais específicos.
O premiado documentário de 2012 “A Guerra Invisível” jogou uma luz em um padrão crônico de abuso sexual nas forças armadas, incluindo o caso de Kori Cioca, que alega ter sido estuprada enquanto servia na guarda costeira e processou dois secretários de defesa por não conseguirem impedir que ela e outros funcionários fossem assediados. O filme foi muito visto por integrantes das forças armadas, mesmo nos níveis mais altos. Segundo estatísticas do Pentágono, relatos de assédio sexual pularam de cerca de 3.600 em 2012 para mais de 5.500 no ano seguinte. Houve cerca de 6.100 denúncias em 2015, (Um porta-voz do Pentágono afirmou que em 2012 as forças armadas haviam apenas começado a mudar a maneira de responder a denúncias de assédio sexual.)
A questão envolvendo Gretchen Carlson, antiga âncora da Fox que entrou com um processo de assédio sexual e retaliação contra Ailes em julho, parece estar tendo um efeito similar, começando com duas mulheres que violaram acordos de silêncio para descrever suas próprias experiências na emissora.
Em uma entrevista ao New York Times publicada dois dias depois de Ailes pedir demissão, Rudi Bakhtiar, que trabalhou na rede de televisão uma década atrás, disse que a Fox News a mandou embora depois que ela rejeitou os avanços de um colega e apresentou uma queixa interna. Ela explicou que se sentiu encorajada a contar sua história publicamente por causa do processo de Gretchen Carlson.
Os historiadores afirmam que há uma mudança na percepção feminina de seu próprio poder, como a crescente discussão sobre os méritos da assertividade no local de trabalho, resumida pelo livro “Faça Acontecer” da chefe de operações do Facebook, Sheryl Sandberg. Eles também notam uma mudança para formas mais assertivas de ativismo em anos recentes, incluindo o grupo End Rape on Campus (Fim do Estupro nos Campus), que ajuda sobreviventes a prestar queixas federais e encontra serviços legais e de saúde mental. Os especialistas dizem que esses movimentos têm sido alimentados por um nível cada vez maior de educação, poder econômico e conectividade, por meio das redes sociais, das mulheres.
Mas a mesma conectividade que pode oferecer apoio às vítimas também é capaz de trabalhar contra elas; os advogados de algumas das pessoas que fizeram queixas argumentam que os riscos de se falar a verdade aumentaram com o tempo. Há três décadas, teria sido muito difícil para um possível empregador descobrir um processo legal. Hoje, afirma Linda D. Friedman, importante advogada do trabalho com muitos casos contra empresas de Wall Street, a marca de pessoa “encrenqueira” pode seguir por toda a vida de quem faz uma denúncia.
“Qualquer pessoa de Recursos Humanos no país pode fazer uma pesquisa no Google e descobrir uma denúncia federal antes de decidir se contrata alguém”, conta ela.
Apesar de um caso bastante divulgado como o de Gretchen Carlson poder encorajar uma maior quantidade de pessoas que sofreram assédio a fazer denúncias, muitos defensores dizem que é mais possível que isso aconteça indiretamente, persuadindo primeiro os empregadores a cuidar com mais seriedade de reclamações de assédio e discriminação. Apenas quando a maioria dos funcionários acreditar que pode falar sem arriscar sua carreira, um desenvolvimento que muitos dos advogados duvidam que vá acontecer logo, eles terão possibilidade de fazer isso em números substancialmente maiores.
Ainda assim, se a consequência das acusações contra Cosby e Ailes for uma indicação, um número crescente de mulheres pode estar concluindo que agora é mais provável que a denúncia resulte em punições para o agressor do que para o acusador.
Anita Hill, que hoje é professora da Universidade Brandeis, está cautelosamente otimista, apesar de se preocupar com o fato de que os US$40 milhões que Ailes teria recebido para deixar a Fox News possam prejudicar a lição do caso.
“O fato de que a empresa está agora não apenas falando com as mulheres” que dizem que sofreram assédio, “mas também falando sobre a possibilidade de outras pessoas terem sido facilitadoras, é importante. Mulheres que sofreram assédio nos locais de trabalho talvez vejam essa evolução como um resultado possível”.
Noam Scheiber e Sydney Ember (The New York Times)