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sábado, 31 de agosto de 2013

NADA DE COMERCIAIS DE COMIDA PARA CRIANÇAS

81% dos mexicanos estão de acordo com a proibição a publicidade de alimentos não saudáveis durante programas infantis ou canais para crianças.
Esse foi um dos dados levantado pela Pesquisa Nacional sobre Obesidade, realizada pela Alianza por la Salud Alimentaria, conjunto de organizações e profissionais preocupados com a crise de obesidade no México. Além dessa informação, o estudo revelou que 81% dos mexicanos concordam com a proibição da venda de comidas não saudáveis em escolas e 85% acreditam que os rótulos dos produtos devem ser mais claros. 77% ainda acreditam que deve ser proibido o uso de brinquedos e promoções para venda de alimentos não saudáveis aos pequenos e 87% consideram que o uso de personagens infantis na publicidade de alimentos influencia no que consomem as crianças.
“A população concorda que o governo deve intervir, regular e modificar as condições que lhes permite fazer escolhas saudáveis, que não induzam as crianças ao consumo de junk food e que garantam o acesso a alimentos saudáveis e água potável nas escolas. O que estamos falando é que isso não poderá ser feito como uma colaboração do governo com as empresas”, declarou Alejando Calvillo, diretor de El Poder del Consumidor, membro da Alianza.
O México é líder mundial no alto índice de obesidade, o que o leva a se destacar também nas mortes devido a doenças crônicas não-transmissíveis (DCNTs). A diabetes é a primeira causa de mortes por ano no país, com cerca de 10 milhões de vítimas. Resultados de outro estudo, a Pesquisa Nacional de Saúde e Nutrição (ENSANUT), realizada no México entre 2011 e 2012, mostraram que mais de 34% das crianças entre 5 e 11 anos estava com sobrepeso ou obesidade. Isso significa que mais de 5 milhões de crianças mexicanas estão sofrendo desse problema – que está diretamente relacionado as escolhas alimentares feitas pela população.
No Brasil, os pais também percebem os efeitos das estratégias publicitárias nos pequenos. Pesquisa Datafolha, encomendada pelo Alana em 2011, mostrou que 56% da população brasileira desaprova publicidade em escolas e que, para 79% dos pais, a publicidade de alimentos não saudáveis prejudica hábitos alimentares das crianças. 78% ainda afirmaram que os filhos pedem as comidas que veem nos anúncios.
 Para saber mais sobre a situação da saúde no México, vale ler a publicação Salud Pública de México, que foi a fundo na análise da ENSANUT 2012. Artigos completos, escritos por especialistas na área de saúde pública e medicina.

Pesquisadora lança livro sobre vida de mulheres peruanas em Brasília

A pesquisadora Délia Dutra, doutora em Sociologia pela Universidade de Brasília (UnB), lança nesta quarta-feira, 21 de agosto, o livro “Migração internacional e trabalho doméstico – Mulheres peruanas em Brasília”.
O livro é baseado na tese de doutorado da autora, desenvolvida a partir de entrevistas com dez migrantes que deixaram o Peru em busca de melhores condições de vida – “lançando mão daquela chance de trabalho que alguém lhes falou que existe numa cidade como Brasília”, como define Délia – e chegaram à capital brasileira, onde passaram a trabalhar como domésticas e morar no próprio local de emprego.
Além das “características históricas e urbanas da cidade de Brasília”, a pesquisadora define a “situação de confinamento e de isolamento” resultante de longas jornadas de trabalho e do pouco espaço físico à disposição para descanso como elementos relevantes para se estudar a interação das migrantes com a cidade. Essas mulheres, diz Délia, fazem parte de um fluxo de migração internacional feminina por trabalho doméstico, uma evidência da pobreza e falta de oportunidades que sofrem milhares de mulheres no mundo.

Combate ao trabalho infantil passa por estruturação de políticas públicas



Para cumprir as metas de erradicação, o Brasil precisa não apenas contar com fiscalização, mas investir em serviços públicos e promover com eficiência sistema de garantia de direitos 


Por Guilherme Zocchio, da Repórter Brasil
da série especial Promenino*

Para evitar que crianças e adolescentes ingressem de modo precoce no mundo do trabalho – e na vida adulta – não basta somente contar com ações que encontrem, verifiquem e afastem meninos e meninas vítimas desse tipo de exploração. Em geral, fiscalizações trabalhistas, promovidas por auditores fiscais do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), têm, no que diz respeito à tarefa de erradicar todas as formas de trabalho infantil, alcance limitado, porque agem mais no sentido de reprimir a prática do que preveni-la e garantir que não haja sua reincidência.
Se o Brasil almeja cumprir o compromisso de eliminar as piores formas de trabalho infantil até 2016 – e, até 2020, todas as formas de trabalho infantil –, deve contar também com um conjunto de políticas públicas que integrem um sistema que garanta efetivamente os direitos de meninas e meninos. Esse é, pelo menos, um dos principais entendimentos de autoridades e agentes da sociedade civil que lidam com o tema, ouvidos pela Repórter Brasil. Medidas como o fortalecimento do papel da educação e da saúde públicas são alguns exemplos.
Garoto busca restos em lixão, atividade considerada entre as piores formas de trabalho infantil. Foto: MPT-MA
Garoto busca restos em lixão, atividade considerada uma das piores formas de trabalho infantil. Foto: MPT-MA
O fato de o país ter reduzido substancialmente o número absoluto de crianças e adolescentes trabalhando nos últimos 12 anos demonstra, por um lado, considerável avanço na questão. Segundo o último Censo, 3,4 milhões de crianças e adolescentes de 10 a 17 anos estavam em serviço em 2010 – número que indica uma redução de 13,4% desde o ano de 2000. No entanto, esse ritmo é insuficiente para que o Brasil cumpra as metas estabelecidas para eliminar o trabalho infantil dentro do seu território, mesmo se levado em conta o fato de o MTE ter intensificado a quantidade de fiscalizações a partir de 2012.
De acordo com dados do Ministério do Trabalho, entre 2007 e 2011 a média anual de ações fiscais exclusivamente voltadas à busca de focos de jovens trabalhando foi de 2,7 mil em todo o Brasil; em 2012, foram 7.392 ações do tipo, mas uma quantidade menor de meninos e meninas foi afastada de atividades remuneradas. Em 2007, as inspeções encontravam, em média, seis pessoas com menos de 18 anos a cada incursão em empresas ou logradouros públicos. Agora, a média é de 0,9 – o que significa que, em parte das vistorias, não são encontrados indícios de exploração infanto-juvenil.
Para Isa Maria de Oliveira, secretaria-executiva do Fórum Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil (FNPETI), é insuficiente jogar a responsabilidade do combate ao trabalho infantil exclusivamente sobre as fiscalizações do MTE. “Não basta que as inspeções retirem as crianças e adolescentes do trabalho, é preciso articular um conjunto de políticas públicas para evitar que essas situações se repitam”, explica.
O posicionamento dela, entretanto, leva em conta um cenário mais complexo. Todos os casos de flagrantes de crianças e adolescentes em atividades de trabalho seguem um procedimento adicional para a orientação das vítimas. Ao encontrarem meninos e meninas em serviço, as ações de fiscalização os encaminham para outros órgãos responsáveis. Conselhos tutelares, procuradorias do Ministério Público do Trabalho (MPT), órgãos governamentais de assistência social e mesmo organizações do terceiro setor recebem esses jovens. O procedimento é referência para a comunidade internacional e varia conforme as características de cada região do país, conforme indica o auditor Luiz Henrique Ramos, chefe da divisão de fiscalização de trabalho infantil do MTE. “Fazemos uma entrevista para verificar as especificidades de cada caso e encaminhamos os jovens para os órgãos responsáveis”, detalha.
Principal região de aplicação das políticas de combate à pobreza, o Nordeste apresentou os melhores índices de redução do trabalho infantil entre 2000 e 2012 Foto: Leonardo Sakamoto
Para evitar que crianças sejam aliciadas pelo mundo do trabalho, deve-se fortalecer o sistema de garantia de direitos. Foto: Leonardo Sakamoto
“A fiscalização é eficiente, e referência. Deixa a desejar pela falta de recursos, como acontece com os sistemas de garantias”, acrescenta um dos coordenadores do Programa Internacional para a Eliminação do Trabalho Infantil (Ipec, na sigla em inglês) do escritório da Organização Internacional do Trabalho (OIT) no Brasil, Antônio Carlos de Mello. Segundo o representante da OIT, a fiscalização cumpre o papel que deve cumprir no combate ao trabalho infantil, e a única ressalva diz respeito à falta de recursos, ponto do qual os auditores que lidam com o tema também reclamam.
É consenso, entre os fiscais do MTE, que faltam equipamentos e mais pessoal para as fiscalizações trabalhistas – sobram relatos do tipo entre os profissionais da área e o concurso para 100 novos agentes na área é apontado como insuficiente para suprir o déficit do serviço, segundo o sindicato da classe, o Sinait (Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais do Trabalho).
A analogia entre os problemas de estrutura para os agentes de fiscalização do trabalho e as políticas públicas desenvolvidas com o objetivo de manter um sistema de garantias no Brasil para o combate do trabalho infantil faz parte de como a OIT entende a situação, segundo Antônio Carlos. “Existe um interesse internacional nos tipos de políticas públicas desenvolvidos no Brasil, que partem da atenuação da pobreza. O processo vem acontecendo, mas faltam recursos físicos e humanos”, afirma. “Enquanto essa estruturação não acontecer, vai ser difícil erradicar o trabalho infantil.”

Educação e ciclo da pobreza
“As políticas públicas devem atuar sobre o conjunto de questões que são relevantes e impactam a exploração de trabalho infantil”, pontua Isa Maria de Oliveira, do FNPETI. “O não sucesso [de alguns jovens] na escola é uma questão a se analisar. A escola não responde às necessidades daquelas crianças que podem enfrentar problemas familiares”, exemplifica. Segundo ela, há situações em que pais e mães, ao não observarem o bom desempenho escolar dos filhos, forçam a entrada dos meninos e meninas no mundo do trabalho. Nesses casos, os adultos, se não encontram resultados esperados dos filhos, não veem necessidade de a criança perder tempo com o estudo quando já poderiam estar trabalhando.

Menino participa de programa educativa contra o trabalho infantil. Foto: Secretaria Municipal de Educação de Alto Paraguai
Menino participa de programa educativo contra o trabalho infantil.
Foto: Secretaria Municipal de Educação de Alto Paraguai (MT)
Uma leitura errada desse tipo de situação seria a de entender que os pais são culpados pelo fato de os filhos serem aliciados pelo mundo do trabalho. A representante do FNPETI entende, porém, que o problema está associado ao próprio modelo de funcionamento da educação no Brasil. Ela recomenda, por exemplo, uma escola em período integral, que assegure o acesso ao lazer de crianças e adolescentes e desenvolva um tipo de coordenação pedagógica que proporcione o pleno desenvolvimento na infância.
A fragilidade das escolas municipais e estaduais pode colaborar para que crianças e adolescentes estudem e também trabalhem, casos que evidenciam a pouca capacidade do sistema educacional de auxiliar no combate ao trabalho infantil. “Muitos jovens, por conta disso, já chegam à idade adulta com uma defasagem educacional”, pondera Antônio Carlos, da OIT. “Para a comunidade mais vulnerável, que de fato vai procurar trabalho por necessidade, essas dificuldades vão perpetuando o ciclo de pobreza. Por isso, deve haver o reconhecimento dessas deficiências por parte do Estado”, completa.
De um lado, o papel das políticas públicas deve ser o de proteger crianças e adolescentes que estejam mais vulneráveis ao aliciamento para o trabalho infantil por meio da garantia de direitos, com a estruturação de serviços de educação, saúde e transporte, em quantidade e com qualidade. De outro, o de articular redes que fortaleçam os vínculos comunitários e familiares dessas pessoas em situação de vulnerabilidade. É, de modo geral, o que entendem os representantes das entidades que lidam com o tema. O coordenador do Ipec aponta que certas medidas já vêm sendo tomadas, como a implementação de algumas escolas de período integral pelo país.
Para a secretária executiva do FNPETI, está claro que a erradicação do trabalho infantil passa pela reestruturação do próprio Estado. Crianças e adolescentes que trabalham não conseguem se desenvolver na plenitude e, portanto, têm dificuldade em almejar um emprego melhor que o dos pais e alcançar uma vida mais confortável. “Não há desenvolvimento sustentável onde há trabalho infantil. O Brasil, inclusive, tem carência de profissionais qualificados”, observa, em referência às dificuldades proporcionadas. “A permanência do trabalho infantil perpetua a pobreza e a desigualdade no Brasil. Não rompe e contribui para a manutenção do ciclo de miséria”, conclui.
* Reportagem produzida em parceria com Promenino/Fundação Telefônica Vivo, e publicada também no site Promenino, que reúne mais informações sobre combate ao trabalho infantil

Rússia: reprimidos, gays avançam

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Lei homofóbica atiça violência mas, contraditoriamente, abre caminho para debater padrões sexuais alternativos. Ativistas rejeitam boicote às Olimpíadas de 2014

Por Taís González

O presidente russo, Vladimir Putin, sancionou no dia 30 de junho uma lei que proíbe “propaganda de relações sexuais não-tradicionais para menores”, abrindo um novo capítulo na história dos direitos dos homossexuais na Rússia. A lei impõe pesadas multas a pessoas que forneçam informações sobre homossexualidade a menores de 18 anos, e proíbe a adoção de crianças russas por homossexuais solteiros que vivam em países onde é legal o casamento entre pessoas do mesmo sexo. A proibição federal baseou-se no “sucesso” de leis regionais sobre “propaganda do homossexualismo para menores”, aprovadas em dez regiões a partir de 2006.

Entretanto, a lei é ambígua e perigosa. Sem uma definição legal de “propaganda” ou “relações sexuais não tradicionais”, não é possível controlar o modo como as autoridades irão utilizá-la. Para se ter ideia, quatro turistas holandeses foram detidos no norte da cidade de Murmansk, em julho, fazendo um documentário sobre o que é ser LGBT na Rússia. A justificativa foi que estariam espalhando “propaganda de relações não-tradicionais entre menores de idade”, já que os documentaristas teriam falado com adolescentes em um acampamento.

Perigo iminente. Desde que a proibição da propaganda homossexual começou a ser adotada, os casos de agressões multiplicaram-se, apontando para a triste realidade de que as consequências dessas leis serão principalmente sociais, e não legais. Por exemplo, na cidade de Ryazan, LGBTs têm vivido sob a lei da propaganda gay há mais de sete anos. Durante este tempo, apenas duas pessoas foram condenadas, depois de recorrerem a instâncias superiores. Seus casos foram levados à Comissão de Direitos Humanos da ONU e ao Tribunal Europeu dos Direitos Humanos. Entretanto, desde então, prisões de manifestantes, perseguições e assassinatos mostram que a forte presença da homofobia entre os cidadãos russos. Há apenas vinte anos, a homossexualidade era considerada um crime no país.

Não há números oficiais sobre violência antigay na Rússia, mas casos recentes mostram o problema no país. Em 9 de maio, o jovem Vladislav Tornovoy, de 23 anos, foi morto em Volgograd, a 950 quilômetros de Moscou. Atacado com garrafas de cerveja e uma pedra de 20 kg, o jovem não resistiu aos ferimentos. Um dos dois homens que o mataram foi preso pelo “suposto homicídio”. Aos 39 anos, Oleg Serdyuk foi assassinado em 29 de maio na região leste da Rússia, porque teria “orientação sexual não tradicional”. Em 30 de maio, o tribunal da cidade de Dzerzhinsk condenou a onze anos de prisão um homem que matou outro russo por ter lhe oferecido um relacionamento homossexual.

Bons costumes. Más línguas afirmam que estas são atitudes extremas para tentar deter manifestações que estariam multiplicando o número de adeptos da homossexualidade, como por exemplo a da banda punk feminista Pussy Riot. O grupo realizou em fevereiro de 2012, na Catedral Cristo Salvador, em Moscou, uma manifestação bem-humorada contra a campanha à presidência do então primeiro-ministro Vladimir Putin. As jovens conquistaram simpatia dentro e fora da Rússia devido às acusações de que três delas teriam recebido tratamento cruel enquanto sob custódia, e arriscavam-se a receber sentença de sete anos de prisão. Em agosto do mesmo ano, as três foram condenadas por vandalismo motivado por ódio religioso e condenadas a dois anos de prisão cada uma.

Uma das justificativas da lei gira em torno da proteção da moral, dos bons costumes, da família e, claro, do declínio da taxa de natalidade da Rússia. “Com um golpe de caneta, as autoridades endossaram restrições ao direito à liberdade de expressão, em nome dos ‘tão falsos’ valores tradicionais”, afirmou Rachel Denber, vice-diretora da Human Rights Watch na Europa e Ásia Central.

Não ao boicote. Com a aprovação da lei federal e o aumento de casos de agressão contra a comunidade LGBT, cresce a incerteza sobre a segurança dos atletas que participarão dos Jogos Olímpicos de Inverno de 2014, previstos para fevereiro na cidade de Sochi. O Comitê Olímpico Internacional recebeu “fortes garantias” de que não haverá discriminação. “A Rússia comprometeu-se a cumprir rigorosamente as disposições da Carta Olímpica e seus princípios fundamentais”, afirmou o vice-premiê Dmitry Kozak. A Carta rejeita qualquer tipo de discriminação.

A despeito dessa afirmação, uma onda de boicotes ronda os jogos. Para Nikolai Alexeyev, presidente do GayRussia.Ru e Moscow Pride Organizing Committee, contudo, boicotar grande eventos esportivos só irá abafar as vozes dos LGBT no país. Ele declara que “a Olimpíada é uma oportunidade única para a comunidade LGBT da Rússia e do mundo estar presente e ter sua voz ouvida. […] Os Jogos Olímpicos de Sochi podem transformar-se no maior incentivo ao movimento gay da nossa história”. Para Alexeyev, a lei “deu um impulso à luta LGBT. Mais ativistas estão protestando em várias cidades russas. O tema está sendo amplamente discutido na mídia, o que era impensável em 2005, quando nós começamos. O efeito é oposto ao que eles queriam atingir. Estão promovendo propaganda gay na Rússia, mais do que qualquer outro ativista LGBT”.

http://outraspalavras.net/blog/2013/08/30/russia-reprimidos-gays-avancam/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=russia-reprimidos-gays-avancam

Um certo Benjamin da Amazônia

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Em vilarejo inchado por obra do PAC, floresce comércio do sexo. Alguns bordeis abrigam meninos. Um deles, cheio de palavras
Por Ana Aranha, no blog 3por4 | Imagem Di Cavalcanti, Baile Popular
Outras Palavras anuncia uma nova coluna, 3por4, escrita por Ana Aranha, e já publicada em blog hospedado no Yahoo. Jornalista há alguns anos, Ana busca, na coluna, contar histórias de gentes. “Gente que vale uma reportagem inteira, um livro, um filme. Mas, por motivos que nos escapam, nem sempre ganham o mundo”, ela escreveu na estreia, em março. Começaremos resgatando seus textos que permanecem vivos, ao mesmo tempo republicaremos os mais frescos que aparecem no blog. Bom saboreio. (B.B.)
Aos 12 anos, Benjamin* mora em um bordel, um dos muitos que fervem a noite de uma vila, na Amazônia brasileira. Desde os cinco anos, quando sua mãe lhe deixou aos cuidados da tia cafetina, ele convive com cenas e sons da vida adulta. As mulheres de vestidos curtos, a cerveja em fartura e a música no último volume inebriam os clientes, que não notam o menino no fundo do bar, olhos colados na TV.
Na companhia de um papagaio e de um cachorrinho (desses bem miúdos), Benjamin devora qualquer pedaço de ficção que alcança pela TV aberta. Assim alimenta o desejo de conhecer lugares e viver experiências distantes da sua realidade. Como, por exemplo, ir ao cinema.
Magro, pele morena, olhos levemente puxados, como são no Norte do país. É um menino cheio de palavras. Conta da matéria que assistiu sobre um grupo de cinema itinerante na Amazônia: “Eu vi no jornal que eles vão de barco nas comunidades, passam as histórias das pessoas naquela tela bem grande. Será que um dia eles vêm aqui?”.
De todos os filmes que ele já assistiu na tela pequena, um mexeu com a sua imaginação de um jeito diferente. “Meu preferido é o Benjamin Button. Muito legal nascer velho e depois virar criança”. A saga interpretada por Brad Pitt no filme O Curioso Caso de Benjamin Button, baseado no livro de mesmo nome de F. Scott Fitzgerald, despertou a curiosidade de milhões de espectadores, atraídos pela fantasia da trajetória de vida invertida.
Mas, para o pequeno Benjamin, a ficção não é tão distante da realidade de sua infância. Ele também cresceu em uma casa habitada pelos temas da vida adulta, onde não havia muito espaço para ser criança. Entusiasmado, o menino conta como gostaria de entrar por inteiro na pele do personagem. Teria apenas uma adaptação: “queria crescer mais um pouco, até os 20 anos, para viajar o mundo. Depois virava criança”.
Pergunto por que ele gostaria de viver esse futuro invertido. Seria uma busca pelas brincadeiras e cuidados que nunca teve? Mas o sonho do menino também é adulto. “Queria voltar aos cinco anos pra ajudar minha mãe, pra ela não ter que ir embora”.
Quando a conversa envereda pela vida real, as palavras somem. Benjamin fica monossilábico. Sim, tem saudades. Não, não sabe onde ela está. Sua cabeça e ombros parecem pesados, miram o chão. A dor é tanta que não é mais possível fazer perguntas. Ele pede licença. Está cansado pois acordou às 6 da manhã para limpar o bar, pelo qual fica responsável até o meio dia, tempo do descanso da tia.
No momento em que ele se afasta, o fotógrafo Marcelo Min e eu ficamos paralisados por longos segundos. O que se pode fazer ao ouvir uma história assim?
Nosso encontro com Benjamin se deu no início do ano, quando colhíamos informações sobre a revolução no modo de vida daquela comunidade desde que, a poucos quilômetros dali, teve início uma das maiores obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Antes uma vila de pescadores, o lugar recebeu milhares de trabalhadores da construção civil. No horário de folga, e longe de suas cidades de origem, eles querem se divertir, extravasar a pressão do canteiro de obras. Como a cidade mais próxima fica a cerca de 100 km, a pequena vila explodiu.
Dezenas de bares e bordéis se multiplicaram pelas ruas de terra. Antes de anoitecer, a vila já está tomada pelo som do brega e alguns hits americanos, como Backstreet Boys e Whitney Houston. Sempre no volume máximo. Mulheres de várias origens dançam na frente dos bares. Há morenas, loiras, indígenas, bolivianas. As donas dos bordeis ficam atrás do balcão. Elas cobram 20 reais por cada meia hora nos quartinhos dos fundos e obrigam as funcionárias a beberem para acompanhar os clientes. As garrafas de cerveja logo cobrem as mesas de plástico e, não demora, começam as brigas. É difícil uma noite sem histórias de murros e facadas.
Benjamin não é o único “menor de idade” circulando entre garrafas e micro-saias. Diversas crianças locais convivem com as mudanças. Algumas, fruto do novo mercado do sexo, nasceram dentro dos bordéis.
Depois de ouvir sua história, nos perguntamos qual seria o efeito da publicação dentro daquela reportagem. E se as autoridades resolvessem tomar providências? Tirá-lo do lugar onde ainda há esperança de reencontrar a mãe. Punir e afastá-lo das únicas pessoas com quem têm laços. E as outras crianças, dos bordéis vizinhos?
A decisão foi não publicar, não naquele contexto. Mas a história voltou comigo para casa e, de vez em quando, me fisgava a necessidade de contá-la. Lançar o retrato de Benjamin ao mundo, ou ao menos a quem queira conhecê-lo nos limites da tela do computador.
Por isso, ele é a estreia desse blog. Aqui pretendo contar as histórias de gente que vale uma reportagem inteira, um livro, um filme. Mas, por motivos que nos escapam, nem sempre ganham o mundo.
* Nome fictício

Perigosos peixes de aquário

“10,000 Count,” 1954
“10,000 Count,” 1954
Nossa estranha sociedade sugere exibir dinheiro ou poder, diante da incapacidade de sentir. Também por isso, nova guerra é iminente
Por Katia Marko, na coluna Outro Viver | Imagem de Ikeda Tatsuo
Me nego a viver em um mundo ordinário,
como uma mulher ordinária.
A estabelecer relações ordinárias.
Necessito o êxtase.
Não me adaptarei ao mundo. Me adapto a mim mesma.”
Anais Nin

Os últimos acontecimentos no mundo e a iminência de um novo ataque ao Oriente Médio têm me feito refletir sobre o tema poder versus prazer. Comecei a pesquisar sobre a questão e me deparei com uma análise estatística realizada pelo neuropsicólogo James W. Prescott, do National Institute of Child Health and Human Development, com 400 sociedades pré-industriais.
No trabalho de 1975, intitulado “O Prazer Corporal e as Origens da Violência”, ele coloca à prova, estatisticamente, algumas das principais teses de Wilhelm Reich sobre o desenvolvimento humano e social. A pesquisa aponta que aquelas culturas que dão muito afeto físico a seus filhos, e não reprimem a atividade sexual de seus adolescentes, são pouco inclinadas à violência, à escravidão, à religião organizada. Já nas culturas onde o castigo físico às crianças é constante, e há grande repressão sexual na adolescência, tendem a conviver com homicídios frequentes, torturas, cultivo da inferioridade da mulher e a crença em seres sobrenaturais que intervêm na vida diária.
Prescott afirma que diversas condutas sociais e emocionalmente anormais, resultantes do que os psicólogos chamam “privação materno-social” – isto é, carência de cuidados ternos e amorosos – são causadas por um único tipo de privação sensorial, privação de contatos somato-sensoriais. Provenientes da palavra grega que designa o corpo, este termo se refere às sensações de contato e de movimento corporal que diferem do sentido da visão, da audição, olfato e gosto. “Creio que a privação do contato corporal, das carícias e do movimento, constituem as causas básicas de boa quantidade de transtornos emocionais que incluem os comportamentos autista e depressivo, a hiperatividade, as perversões sexuais, a busca de riqueza e poder, o abuso de drogas, a violência e a agressão.”
Vivemos em um mundo onde o poder e a violência se sobrepõem. A luta pela sobrevivência torna a busca natural do prazer irrelevante. Suportamos a dor e a violência. Tomamos como normal o que não é natural. Adotamos um comportamento autodestrutivo. E tudo isso em prol do quê?
No livro Prazer, uma abordagem criativa da vida, Alexander Lowen diz que o poder é antagônico ao prazer. “O prazer se origina do fluxo livre de sensações e de energias dentro do corpo, e entre o corpo e seu meio. O poder se desenvolve através do represamento e controle da energia. Se desenvolve a partir do controle e funciona através dele. Não pode funcionar de outra forma. Ele é controlador e demolidor. Ergue uma parede entre o homem e o seu meio. Protege-o, mas também o isola.”
Lowen faz uma analogia interessante. Segundo ele, a pessoa que mora num apartamento numa cidade moderna, aquecido no inverno e refrigerado no verão, trabalhando em um escritório em condições semelhantes, é como o animal no zoológico ou o peixe no aquário. Sua sobrevivência está assegurada e seu conforto provido, mas a excitação e o prazer em espaços abertos, os estímulos das mudanças de estação e a liberdade de áreas ilimitadas lhe são negadas. “Não passa de um pobre peixe que trocou a liberdade e os perigos do oceano ou do rio pela segurança do aquário.”
A sociedade de massa, ao lado da busca por sucesso, nos induz a uma obsessão pelo poder. Na avaliação de Lowen, a luta pelo êxito se desenvolve a partir da necessidade de se conseguir reconhecimento, alcançar a identidade mesmo que só seja pública, e sentir-se importante. “A luta pelo poder nasce da necessidade de superar sentimentos íntimos de impotência e de compensar sentimentos de desespero. Para as pessoas, o sucesso se apresenta sob dois aspectos. Um é o da riqueza; o outro o da autoridade. Ambos proporcionam a quem os possua uma sensação de poder que servirá para criar uma pseudo-individualidade parecida com a do bem-sucedido.”
Comunidade Osho Rachana completa agora em setembro nove anos. Eu moro lá há cinco. Neste tempo já experimentamos diferentes formas. Agora debatemos a nossa visão de comunidade para os próximos anos. Como queremos viver? Quais são nossas prioridades, nossos valores? E a questão poder versus prazer está bastante presente também. Como ir além da sobrevivência e viver com mais alegria e criatividade.
O mestre indiano Osho afirma que somente quando o ser humano renasce, ele pode compreender qual é a beleza e a grandiosidade da infância. E compara a criança ao sábio. “O sábio não é superior e a criança não é inferior. A única diferença é que a criança não sabe o que ela é, não compreende a imensa inocência que a envolve, e o sábio sabe.” Quem sabe curar as feridas da infância e da adolescência seja o início para a busca de uma vida mais prazerosa. Utopia? O mundo não vai mudar? Bem, eu quero fazer a minha parte.

Filme de Julie Delpy remexe nas doces memórias de família

Em O Verão do Skylab, a atriz e diretora francesa compartilha suas doces memórias de infância

ALEX XAVIER
"O verão do Skylab" é o melhor trabalho de Julie Delpy como cineasta (Foto: Divulgação)
"O verão do Skylab" é o melhor trabalho de Julie Delpy como cineasta 
(Foto: Divulgação)
Atriz cultuada pelos amantes do cinema independente, a francesa Julie Delpy (da trilogia Antes do amanhecer, Antes do pôr-do-sol e Antes da meia-noite) também gosta de se arriscar como diretora e roteirista. Eventualmente, banca a cantora e compositora. O divertido e nostálgico O verão do Skylab é seu melhor trabalho como cineasta. Lançado em 2011, entra em cartaz agora no Brasil. O filme segue uma dinâmica semelhante ao anterior 2 dias em Paris (2007) e ao mais recente 2 dias em Nova York (2012). Os três se desenrolam em um curto período de tempo, mostram contrastes de personalidade dentro de um grande grupo e envolvem muito falatório e agitação. 

Skylab é o nome da estação espacial que, colocada em órbita pelos americanos em 1973, foi destruída ao entrar prematuramente na atmosfera terrestre seis anos depois. Enquanto o noticiário mostra o temor que a queda do aparato causava nas pessoas na época, uma numerosa família se encontra no litoral da Bretanha, no oeste da França, para celebrar o aniversário da matriarca. A diretora se inspirou na própria infância e em seus alucinados parentes para criar personagens e situações. Ela tinha 10 anos em 1979, mesma idade da protagonista Albertine (Lou Alvarez) – Julie interpreta Anna, a mãe da menina.
Cena do filme "O Verão do Skylab", estreia da atriz Julie Delpy na direção (Foto: Divulgação)
Cena do filme "O Verão do Skylab", estreia da atriz Julie Delpy na direção 
(Foto: Divulgação)
O elenco traz muitos rostos conhecidos do cinema francês, como a veterana Emmanuelle Riva (Amor), Eric Elmosnino (Gainsbourg – O homem que amava as mulheres), Jean-Louis Coulloc’h (Lady Chatterley) e Noémie Lvovsky (Camille outra vez). Uma das atuações mais comoventes fica por conta de Albert Delpy, pai da cineasta, como um avô esclerosado. Há ainda crianças talentosas que circulam com naturalidade em torno dos experientes atores. Típicas de famílias grandes, as trapalhadas, discussões e confraternizações surgem muito bem orquestradas na tela. O rito de passagem de Albertine à adolescência também encanta nesse filme construído à base de doces memórias.
O VERÃO DO SKYLAB *** (Le Skylab, França, 2011). Gênero: comédia dramática. Duração: 113 min. 

A psicofobia e o peso das palavras

O preconceito contra quem sofre de transtornos mentais pode virar crime

CRISTIANE SEGATTO

Pouco antes de morrer, em março do ano passado, o humorista Chico Anysio decidiu entrar na luta contra o preconceito que cerca as doenças mentais. Ele sofria de depressão e, num sábado à tarde, recebeu em casa o médico Antonio Geraldo da Silva, presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), para gravar um depoimento.

Durante a conversa, Chico fez um comentário e uma sugestão:

– Antigamente existiam carros usados. Agora chamam de “seminovos”. As coisas hoje têm esses nomes. Crie um nome para o preconceito.

O conselho do comunicador não foi esquecido. Muitas reuniões depois, a ABP lançou o termo “psicofobia”. Atualmente ele é adotado para designar atitudes preconceituosas e discriminatórias contra as deficiências e os transtornos mentais. O uso da palavra se disseminou. Uma busca rápida no Google aponta 16 mil textos em que ela é citada.

A psicofobia pode virar crime. O senador Paulo Davim (PV-RN) propôs uma emenda para incluir esse tipo de preconceito no projeto de lei de reforma do Código Penal Brasileiro. Vários senadores, entre eles Aécio Neves (PSDB-MG), apoiam a proposta.

Cerca de 23 milhões de pessoas (12% da população) necessitam de algum atendimento em saúde mental no Brasil, segundo uma estimativa conservadora da Organização Mundial da Saúde. Quem sofre de depressão, transtorno bipolar, esquizofrenia, transtorno obsessivo-compulsivo, entre outras doenças, sabe que o preconceito se manifesta de formas variadas e perversas.

Com medo de ofender os pacientes, médicos deixam de encaminhá-los ao psiquiatra. Os pacientes que recebem encaminhamento desistem de procurar o especialista por medo do diagnóstico e da discriminação que ele e a família passarão a sofrer.

O estigma destrói a autoestima dos doentes. Eles deixam de procurar emprego ou de lutar por assistência adequada. Estima-se que no Brasil 58% dos casos de esquizofrenia não recebem tratamento.

Muita gente acredita que os doentes mentais são violentos. As notícias sobre crimes ajudam a perpetuar essa crença. “93% das pessoas com doença mental não são violentas, mas isso nunca é notícia”, diz o professor Wagner Gattaz, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

Pouco depois do chamado Massacre do Realengo, quando um ex-aluno entrou numa escola no Rio de Janeiro, matou 12 adolescentes, feriu outros 12 e se matou (leia mais aqui e aqui), os pacientes de Gattaz passaram a relatar ainda mais dificuldades.

“Eles diziam que a família estava com medo, que os amigos passaram a evitá-los e que deixaram de conseguir emprego porque as pessoas achavam que eles poderiam passar fogo em todo mundo a qualquer momento”, diz Gattaz.

Não nos damos conta, mas uma das formas mais eficientes de perpetuar o preconceito contra os doentes mentais é aplicar termos da psiquiatria fora do contexto. Quem nunca fez isso?

A imprensa é mestre na arte do uso metafórico da palavra esquizofrenia. Os portadores dessa doença apresentam períodos em que têm dificuldade para distinguir o real do imaginado. Podem ocorrer mudanças na forma de pensar e sentir, com prejuízo das relações afetivas e do desempenho profissional e social.

Esquizofrenia é isso, mas na linguagem corrente passou a designar todas as mazelas da política, da economia e as esquisitices da cultura pop. Faltou palavra? Tascamos um esquizofrênico e todo mundo entende o que queremos dizer.

Uma amostra dessa prática foi reunida num interessante estudo sobre o estigma da esquizofrenia na mídia, assinado por Francisco Bevilacqua Guarniero, Ruth Helena Bellinghini e Wagner Gattaz.

O uso metafórico da palavra “esquizofrenia” e, principalmente, “esquizofrênico (a)”, nos sentidos de “absurdo”, “incoerente” e “contraditório” é recorrente.

Nas colunas de política, são esquizofrênicos: o governo, o Judiciário, as relações Brasil-Estados Unidos, a Grã-Bretanha e a Comunidade Europeia.

Nas colunas de economia, esquizofrênicas são a política cambial e a política econômica.

Nas editorias de artes e espetáculos, quase tudo é classificado como esquizofrênico(a):

• O Festival de Cinema de Gramado
• O show da cantora Cyndi Lauper (que passa de “clássicos a platitudes pop”)
• O ritmo do musical Evita
• Batman 
• O ator (que se despe de si mesmo para vestir um personagem, segundo a atriz Bruna Lombardi)
• A infelicidade de hoje (segundo o cineasta e colunista Arnaldo Jabor)
• Rose, a vizinha do personagem Charlie Harper na série Two and a Half Man
• A cantora Madonna (que na adolescência não se decidia entre ser freira e popstar, segundo ela mesma)
• O jornal The New York Times (por cobrar pelo acesso online, mas distribuir conteúdo gratuitamente nas redes sociais)

Seria divertido se não fosse trágico. A assistência à saúde mental no Brasil vive uma crise profunda. ÉPOCA contou isso aqui. Há uma luta ideológica entre os psiquiatras e parte dos psicólogos. As famílias estão desesperadas. Falta acesso a medicamentos, ambulatórios e leitos psiquiátricos para internar os pacientes nos momentos de crise. Apenas 2% dos gastos do SUS são destinados à saúde mental.

Mudar isso tudo depende de mobilização, dinheiro e disposição para a luta política. Combater o estigma não custa nada e depende da vontade individual. Um bom começo é pensar nas palavras que escolhemos e repetimos. Elas têm peso e consequência.

http://epoca.globo.com/colunas-e-blogs/cristiane-segatto/noticia/2013/08/psicofobia-e-o-peso-das-palavras.html

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Mud – Amor Bandido

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Filme deve ser visto com a cabeça fresca, aberta e 
conectada nas tuas próprias experiências de vida 
(Reprodução/Internet)
CRÍTICA DE CINEMA

'Mud - Amor Bandido' segue a tradição dos filmes de aventura, que fazem a gente pensar sobre as apostas, conceitos e sentimentos que queremos levar da infância para a vida adulta

por Alessandra Ogeda *

Gosto de filmes sobre jovens garotos porque estas produções normalmente resgatam em nós aquele desejo de aventura e de descobrir o que ainda não se sabe antes da fase adulta, quando o cinismo costuma entrar em cena. Não por acaso dois dos meus filmes preferidos de todos os tempos são Stand By Me, do diretor Rob Reiner, baseado em um livro de Stephen King, e The Goonies, dirigido por Richard Donner, com roteiro de Chris Columbus, sobre uma história de Steven Spielberg. Mud, uma obra singela e interessante, segue a tradição de filmes do gênero. O longa nos faz pensar nas apostas, conceitos e sentimentos nos quais vale a pena seguirmos acreditando, e na necessidade de saber quando deixá-los para trás.

A HISTÓRIA: Brinquedos e lembranças marcadas pelo tempo decoram o quarto de Ellis (Tye Sheridan). O garoto está sentado no escuro, à espera de um sinal. Quando o seu walkie-talkie toca, Ellis age. Saindo de casa, ele escuta a mãe, Mary Lee (Sarah Paulson), falando que está cansada de morar ali. O marido (Ray McKinnon) escuta sem tirar os olhos do jornal. Ellis, então, parte para uma aventura com o amigo Neckbone (Jacob Lofland). Eles vão conferir o boato de que existe um barco abandonado sob uma árvore em uma ilha próxima. Lá, Ellis e Neckbone conhecem Mud (Matthew McConaughey), um sujeito com uma história atribulada, que vai alterar a rotina dos garotos a partir deste encontro.

Ainda que o filme leve o nome de Mud, ele não é o personagem central. Ellis é o narrador e a figura central da história, que carrega a ação. As principais decisões são dele, e a história só acontece da forma como acontece por causa do garoto. Ellis é confrontado com uma das grandes indagações da vida: afinal, vale a pena acreditar no amor? Sacrificar-se por ele?

Quase todas as produções românticas abordam esta questão, de uma forma ou de outra, mas poucas conseguem fazer isso com a inteligência deste filme. Ellis vive um momento difícil, de ruptura, algo que surge logo nos primeiros minutos do filme. Mas vamos entender isso em profundidade apenas depois. Este é outro acerto do texto do diretor: a compreensão dos fatos vai se desdobrando para o espectador na mesma medida em que o entendimento recai sobre o protagonista.

Ellis se encanta por Mud por mais de uma razão. Primeiro porque o personagem de Matthew McConaughey sabe como fascinar as pessoas, fisgá-las com suas histórias. Depois, porque com a separação iminente dos pais, Ellis vê na história de Mud e Juniper (Reece Witherspoon) uma alternativa para continuar acreditando no amor.

Estereótipos

Uma grande sacada desta produção me impressionou pela sua eficácia: a forma muito natural com que Nichols “humaniza” estereótipos que estamos acostumados a ver nas reportagens dos jornais ou nas conversas com psicólogos. Isso vale tanto para a “vítima constante”, que não consegue sair de seu papel, vivida pelo pai de Ellis, quanto pelo “bandido charmoso”, Mud. Quem pode julgá-los? Quem pode defendê-los ou atacá-los? Cada personagem tem as suas razões e consegue, a seu próprio modo, causar empatia, pena ou apenas reflexão.

Da parte técnica do filme, destaco a excelente trilha sonora de David Wingo, parte fundamental para ajudar o filme a ter ritmo; a direção de fotografia equilibrada de Adam Stone, e a edição detalhista de Julie Monroe.

Além de um roteiro que beira a perfeição, Jeff Nichols tem uma direção segura, que equilibra o foco das lentes da produção nos atores e seus personagens tanto quanto no entorno que ajuda a explicá-los. Gosto dos silêncios desta produção, assim como das interações entre os atores. Os garotos roubam a cena, e é encantadora a franqueza deles – algo que muitas vezes falta para os adultos, habituados a jogos de poder e de dissimulação.

*Alessandra Ogeda escreve no blog Moviesense, parceiro do Opinião e Notícia

Fontes: Movie Sense-Mud – Amor Bandido

Após 100 plásticas, iraquiana disfarça queimaduras no rosto com tatuagem

Aos dois anos, Basma Hameed sofreu queimaduras de 3° grau em 40% da face. Ela transformou sua própria experiência em negócio: abriu clínicas no Canadá e EUA, onde usa a micropigmentação para camuflar cicatrizes graves

NATHALIA TAVOLIERI

Basma antes e depois da "camuflagem" de cicatrizes. Ela desenvolveu uma pigmentação bastante próxima da natural. Hoje, oferece o tratamento em suas clínicas no Canadá e Estados Unidos (Foto: Arquivo pessoal)
Basma antes e depois da "camuflagem" de cicatrizes. Ela desenvolveu
uma pigmentação bastante próxima da natural. Hoje, oferece o tratamento em
suas clínicas no Canadá e Estados Unidos (Foto: Arquivo pessoal)
A iraquiana Basma Hameed, de 27 anos, sempre preferiu o lado direito do rosto. Não pelo ângulo do nariz ou por uma mancha na bochecha. Mas pela marca de uma brincadeira que não acabou bem. Aos dois anos, ela e o irmão, na época com seis, decidiram preparar na cozinha da casa onde moravam, em Bagdá, capital do Iraque, uma surpresa para os pais. No meio do procedimento, seu irmão derrubou, sem querer, a panela com óleo fervente sobre o lado esquerdo de seu rosto. Basma teve 40% da face queimada. Em terceiro grau. Ela não se lembra da dor que sentiu no momento do acidente. Mas as consequências a acompanharam pelo resto da vida.
Durante a infância e a adolescência, Basma passou por mais de 100 cirurgias plásticas – a maior parte feita no Canadá, para onde mudou com a família aos nove anos. Logo nas primeiras, os médicos conseguiram fazê-la voltar a abrir o olho esquerdo. A cada novo procedimento, uma reparação discreta. As cirurgias tornaram a superfície de sua pele um pouco mais homogênea e reduziram o contraste das diferentes tonalidades de seu rosto. Por meio de implante, ela ganhou cabelo na parte da cabeça que ficara careca e pelos sobre o olho esquerdo, no lugar da sobrancelha. Mas nem tantos procedimentos estético-cirúrgicos, nem as bases e corretivos usados diariamente, evitavam os olhares curiosos, que a viam sempre com pena. E à distância. Basma ainda era visivelmente deformada.
Após o acidente, quando tinha dois anos, Basma teve 40% de seu rosto queimado (Foto: Arquivo Pessoal)
Após o acidente, quando tinha dois anos, Basma teve 40%
de seu rosto queimado (Foto: Arquivo Pessoal)
Aos 16 anos, os recursos cirúrgicos se esgotaram. “Os médicos disseram que não podiam fazer mais nada por mim”, diz Basma. Ela não desanimou. Foi, aos poucos, atrás de alternativas para atenuar a assimetria entre os lados do rosto. Uma delas foi a maquiagem definitiva (técnica semelhante à da tatuagem, de tinta sob a pele) para deixar as sobrancelhas mais parecidas e bonitas. O resultado foi surpreendente. E a fez pensar: “Se deu certo na sobrancelha, por que não daria no resto do rosto?”
Basma logo após as primeiras intervenções cirúrgicas. Ao logo da vida, ela passou por mais de cem (Foto: Arquivo Pessoal)
Com uma máquina própria para fazer tatuagens e frascos de pigmentação para pele, ela foi brincando com os tons até encontrar o que mais se aproximasse do bege claro que coloria o outro lado do rosto. Sozinha, sentada em frente ao espelho, começou a fazer aplicações nas áreas danificadas. Sabia que a textura da pele não mudaria, mas acreditava que, por meio desse tipo de tatuagem, poderia amenizar as discrepâncias de cor. “Foi arriscado, mas não tive medo. Já havia passado por tanta coisa que, àquela altura, sentia que não tinha nada a perder.”
Quando criança, Basma sofreu um acidente enquanto brincava na cozinha de casa. Sem querer, seu irmão derrubou óleo fervente sobre seu rosto (Foto: Arquivo Pessoal)
Quando se deu conta dos resultados positivos das primeiras aplicações, matriculou-se em cursos para dominar as técnicas de tatuagem artística e micropigmentação paramédica. Concentrou-se em estudos de coloração e desenvolveu uma pigmentação bastante natural. O que aprendia na teoria era testado por ela no próprio rosto. Por um ano, fez novas aplicações. O resultado pode ser visto nas fotos acima.
Hoje, aos 27 anos, Basma gosta dos dois lados de seu rosto  (Foto: Reprodução)
A micropigmentação paramédica como tratamento para colorir áreas despigmentadas, como manchas e aréolas pós-cirurgias da mama, por exemplo, não é novidade. Mas no caso de cicatrizes mais graves, pela dificuldade de se encontrar pigmentações próximas aos tons naturais da pele, a técnica é pouco difundida. “Ao longo dos anos, desenvolvi minhas próprias pigmentações. Sei como a pele danificada reage a diferentes tipos de cores, e também sei qual é o limite das intervenções, o que a pele pode aguentar.”
Em 2007, Basma abriu sua primeira clínica em North York, no Canadá, para oferecer o tratamento. A procura foi tão grande que inaugurou outra em Chicago, nos Estados Unidos, e pretende abrir mais duas até o final do ano que vem na América do Norte. Além da “camuflagem de cicatrizes”, as clínicas, que levam seu nome, oferecem tratamentos como maquiagem definitiva e implantes de cabelo. Basma também faz treinamentos de capacitação para outros profissionais. Há pessoas que saem de outros países só para fazer o curso com ela. “Quero que um dia minha técnica esteja disponível em todo os continentes.”
Basma Hameed oferece treinamentos de capacitação para profissionais que queiram aprender sua técnica (Foto: Arquivo Pessoal)
Na prática, o procedimento de Basma é o acabamento após as plásticas e outros métodos convencionais, um retoque final. Depois de todos as intervenções médicos, que incluem as cirurgias e tratamentos dermatológicos, os médicos encaminham seus pacientes a ela. “Muitas vezes não há mais como reduzir as cicatrizes, como foi meu caso. Mas por meio de cores dá pra deixá-las com um aspecto mais natural”, afirma Basma.
Ela diz que muitos de seus pacientes a procuraram em depressão. “Eles não saíam de casa, não trabalhavam fora, não gostavam de se relacionar. Tudo por causa das cicatrizes.” Basma diz que por conhecerem sua história, e saberem que ela é uma prova viva da eficácia de seu procedimento, eles confiam nela. “Como passamos por experiências parecidas, nos identificamos. Conversamos antes das sessões, às vezes choramos juntos”, ela diz. “É quase como uma terapia.”
Basma se diz agradecida pelo acidente na infância. “Tudo o que aconteceu comigo fez com que eu pudesse me superar e, a partir dessa experiência, ajudar pessoas com histórias parecidas com a minha”. Hoje, Basma gosta dos dois lados de seu rosto.

Após o tratamento, a diferença de tonalidade dos dois lados foi atenuada (Foto: Reprodução / YouTube)
Após o tratamento, a diferença de tonalidade dos dois lados foi atenuada
(Foto: Reprodução / YouTube)
Basma Hameed transformou sua experiência em negócio. Ela trabalha em duas clínicas, que levam seu nome, no Canadá e EUA (Foto: Arquivo Pessoal)
Basma Hameed transformou sua experiência em negócio.
Ela trabalha em duas clínicas, que levam seu nome, no Canadá e EUA
(Foto: Arquivo Pessoal)
http://epoca.globo.com/vida/noticia/2013/08/apos-mais-de-100-plasticas-iraquiana-disfarca-bqueimadurasb-no-rosto-com-btatuagemb.html