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quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Empoderamento feminino: a melhor e a pior de 2014

Priscilla de Sá
Jornalista, psicóloga, coach, palestrante, especialista em liderança feminina e mãe

Publicado: 30/12/2014

2014 acabou, mas eu não posso deixar de apontar as duas figuras públicas femininas que, no meu entender, mais se destacaram pelas atitudes em relação às mulheres. Uma positiva e a outra negativamente.

Primeiro, a que mandou bem:

Emma Watson conquistou, aos 24 anos, uma alcunha bem mais interessante que a de "eterna bruxinha da saga Harry Potter". Durante o discurso de divulgação da campanha #HeForShe, promovida pela ONU, ela defendeu um feminismo sem regras, que inclui e liberta a todos - mulheres e homens - e se consagrou como o novo nome na defesa da eqüidade de gêneros.

Percebi que, apesar de admirarem as feministas clássicas, muitas jovens não se identificavam com Virgínia Woolf ou Betty Friedan. Nem mesmo com Leila Diniz. Carentes de referências mais próximas, elas encontraram, em Emma, a porta-voz competente, independente, estudiosa e fashion de um feminismo descomplicado, que dá vontade de seguir.

Agora, a que mandou (muito) mal:

Elizabeth Lauten. (Quem?). Elizabeth Lauten, assessora de um legislador republicano do Tennessee, tuítou sobre as filhas do casal Obama: "Queridas Malia e Sasha, sei que ambas estão nesses terríveis anos da adolescência, mas são parte da família presidencial, tentem mostrar um pouquinho de classe (...) Vistam-se de maneira respeitosa, não como em um bar".

Ao que parece, Sasha e Malia, de 13 e 16 anos, usavam minissaia e faziam cara de nojo, durante a cerimônia de Ação de Graças, na Casa Branca.

E daí? Quem nunca vestiu o que bem entendeu e fez careta num evento chato com a família?
Estamos acostumados a ver republicanos sendo republicanos, mas até agora não encontrei explicação para o desserviço ao feminino, prestado por essa senhora. Por que razão ela não teria suportado ver adolescentes negras podendo ser adolescentes negras na Casa Branca?
Espero que, depois do pedido de demissão, Lauten tenha procurado ajuda profissional. Quem teve uma adolescência bacana (e tem uma adultice bacana) não perde tempo implicando com teens.

P.S.: Em 2015, desejo que mais e mais mulheres entendam que não precisam ser consertadas, ajustadas, decifradas. E que acreditemos, com todas as nossas células, que perfeição é ser o que somos, de verdade.

Liderança feminina: uma lição brasileira




Publicado: 

Logo depois do Dia Global do Empreendedorismo Feminino, no dia 20 de novembro, eu recebo uma mensagem de uma amiga no Facebook, que levou a uma das experiências mais marcantes da minha vida: participar de um painel sobre empreendedorismo e liderança feminina no Fórum Mundial de Direitos Humanos, que aconteceria em Marrakesh, no Marrocos.

O convite foi feito por Alessandra Brimont, uma brasileira que faz acontecer que reside no Marrocos com o marido e os filhos há sete anos e tem uma empresa na área de branding e marketing. Alessandra é daquelas pessoas determinadas e que sonha com um Marrocos melhor. Dentre seus projetos está a construção de iniciativas empreendedoras com foco nas mulheres e jovens, e ela acredita que o Brasil é um importante modelo a ser seguido, tanto pela atuação e relevância de órgãos como o SEBRAE, quanto pelo crescimento de iniciativas com foco no empreendedorismo feminino, como o Jogo de Damas, por exemplo.

A confirmação da viagem veio dia 26 de novembro, na véspera do voo. Eu sabia que era uma oportunidade única, além de um privilégio e uma honra estar dentre os painelistas desse evento. Para vocês terem uma ideia, a Malala Yousafzai era uma das principais palestrantes e como eu trabalho com empoderamento feminino, admiro muito o trabalho dela. Estar entre nomes como o dela só me deixava mais ansiosa e, ao mesmo tempo, ciente da minha responsabilidade.

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Quando abrimos a palavra para o público fazer perguntas, ficamos surpresas: elas queriam voz, queriam falar, queriam perguntar, queriam discutir suas questões, seus desejos, suas experiências. As mãos levantadas se multiplicavam e eram seguidas por falas fortes, em árabe ou francês. A emoção tomou conta de nós, painelistas, quando percebemos que ali estava uma oportunidade para essas mulheres exercerem um direito básico: se expressarem.

O Marrocos faz parte do Mundo Islâmico e, por questões religiosas, ainda tem muito o que avançar em termos de Direitos Humanos e no que se refere ao papel da mulher na sociedade. Mais do que levar conteúdo, nosso painel deu voz a essas mulheres que souberam aproveitar o momento e colocar seus anseios em palavras. Ali estávamos nós, através das nossas histórias e experiências, servindo de exemplo para que essas mulheres tomassem iniciativa. Como mulher e estudante de Relações Internacionais, foi enriquecedor participar desse painel que foi uma verdadeira experiência intercultural.

Mas não parou por aí!

No dia seguinte fomos dar um workshop ao lado de uma francesa e uma canadense para empreendedoras de diversos países. Homens e mulheres de diversos países participaram e puderam conhecer diferentes ferramentas de negócios. A delegação brasileira apresentou o Canvas, do Business Model Generation e o público gostou bastante e quis saber mais. Também pudemos aprender um pouco mais sobre as ferramentas utilizadas por outros países.

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No dia seguinte fomos a Rabat, capita do país e cidade onde mora a Alessandra. Como fiquei ainda mais um dia no Marrocos e pude conversar ainda mais ela e entender as questões culturais do país e aquilo que buscam através dessa relação com o Brasil.

Por muito tempo o Marrocos buscou referências europeias, porém recentemente está focando em países com algumas características semelhantes e buscando aprender com esses exemplos. Nesse contexto, veem o Brasil como uma fonte de informação riquíssima, especialmente no que diz respeito ao empreendedorismo e liderança femininos. Embora ainda há muito o que avançar em termos de empoderamento da mulher aqui no Brasil, nossas iniciativas servem de exemplos.

Ao realizar esse projeto, a Alessandra plantou uma sementinha nas mulheres (e na sociedade) marroquinas e eu fiquei realizada e agradecida em participar desse processo. Espero que agora eu possa ajudar a regar e ver crescer.

Brasil Post

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

FEMINISMO 2014: PARA NÃO ESQUECER

Feminismo 2014: para não esquecer
Embora os acontecimentos de 2014 devam render debates, brigas e protestos por muito tempo, vale a pena separar um momento para relembrar alguns dos fatos que mais obtiveram repercussão neste ano

Por Jarid Arraes

O ano está chegando ao fim, mas os acontecimentos que envolvem o movimento feminista brasileiro não param. De fato, o ano foi mais movimentado a partir do seu segundo semestre, o que acabou despertando uma sensação de urgência e falta de espaço nas militantes. Entre notícias terríveis, ameaças de retrocessos e embates agudos dentro da própria militância, o ano de 2014 certamente deixará consequências com as quais ainda teremos que lidar por um tempo considerável no futuro.
A grande mídia brasileira acabou falando muito de Feminismo, o que nem sempre é totalmente positivo e encorajador. Em muitas ocasiões, tivemos que encarar prejuízos gerados por reportagens mal feitas, que reproduziram diversos valores machistas e estigmas impostos às mulheres. O aborto, um tema tão temido pelos programas e políticos, recebeu uma atenção enorme e estampou até mesmo a capa de uma revista feminina, a TPM, que falhou em garantir a representatividade das mulheres negras brasileiras e teve que encarar as críticas das feministas, que cobraram mais compromisso e coerência. 
Aliás, o caso da revista é apenas um exemplo dos diversos debates e desconfortos que figuraram o movimento feminista brasileiro em 2014. A internet vem crescendo como ferramenta extremamente relevante para a militância das mulheres e com ela muito mais espaço foi aberto para que longas discussões pudessem acontecer. O embate está fortíssimo e não dá sinais de cansaço. Na verdade, a militância feminista online foi capaz de conquistar mudanças concretas no país e interviu várias vezes em situações de desrespeito e violência contra as mulheres. Sem sombra de dúvida, quem não se acostumou com a ideia de que a internet é espaço político vai precisar aprender a lidar com esses fatos. 
No que diz respeito à visibilidade do movimento, algumas artistas brasileiras reivindicaram o título de “feministas”, defendendo abertamente temas considerados polêmicos. De cantoras como Pitty a funkeiras como Valesca Popozuda e Mc Xuxu, muitas soltaram a voz e usaram também as redes sociais na hora de defender os direitos femininos e falar contra o machismo, o que certamente despertou a curiosidade de milhares de fãs por todo o país. 
Apesar dessa explosão midiática, o Feminismo continua enfrentando suas dificuldades históricas com as quais as militantes já estão familiarizadas: muita gente parece querer ditar uma forma mais “tragável” de Feminismo e por isso condenam e hostilizam posicionamentos considerados “radicais”. Nada de novo na trincheira. A luta das mulheres ainda é extremamente incompreendida, mal recebida e distorcida por pessoas que se consideram aliadas, mas acabam reproduzindo preconceitos e equívocos que prejudicam o movimento social. 
Embora os acontecimentos de 2014 devam render debates, brigas e protestos por muito tempo, vale a pena separar um momento para relembrar alguns dos fatos que mais obtiveram repercussão neste ano:
Foto: http://www.flickr.com/photos/libertinus/
(flickr_libertinus)
SAÚDE E DIREITOS REPRODUTIVOS
  •  A Portaria 415, que efetivava a realização do aborto gratuito em casos já legalizados por Lei, foi publicada e revogada em período de somente uma semana. Mulheres em todo o país protestaram contra a decisão do Ministério da Saúde, uma carta aberta foi escrita e assinada por diversas entidades e instituições feministas, manifestantes foram às ruas e ativistas participaram de um Twittaço contra a revogação e cobrando ação da presidenta Dilma.
  • As mortes de Jandira Magdalena dos Santos e Elisângela Barbosa, duas mulheres que, motivadas em grande parte pelo medo do desemprego, se tornaram vítimas do aborto clandestino, foram chocantes e ganharam destaque na mídia, levantando uma série de debates e reportagens – na maioria das vezes com falta de profundidade e responsabilidade social – na grande mídia.
  • O Projeto de Lei conhecido como Estatuto do Nascituro foi aprovado pela Comissão de Finanças e Tributação da Câmara dos Deputados, prevendo uma quantia a ser paga a mulheres estupradas que não fizerem o aborto. Militantes e organizações feministas em todo o país protestaram e foram reunidas 1.500 manifestantes na Praça da Sé em São Paulo para reivindicar a descriminalização do aborto. Além do protesto presencial, uma petição online foi criada e entregue por representantes do movimento feminista no Congresso.
  • Por decisão inédita da Justiça, Adelir Goés foi obrigada a fazer cesariana contrasua vontade. A gestante estava perfeitamente bem informada a respeito de suas opções e seus respectivos riscos, mas preferia ter um parto normal caso fosse possível. Apesar disso, ela foi levada de casa por policiais com um mandado judicial para o hospital e só aceitou fazer a cirurgia após ouvir que seu marido poderia ir preso caso ela resistisse. O caso de Adelir foi decisivo para que o movimento pelo Parto Humanizado e contra a violência obstétrica tomasse mais força no Brasil.
  • 16 meses após a sanção da Lei 12.845 – que previa apoio obrigatório às vítimas de estupro pelo Sistema Único de Saúde (SUS) -, muitas unidades de saúde em todo o país continuam não realizando o procedimento conforme a legislação. A deputada Erika Kokay (PT-DF) alertou quanto a tentativa de revogação da lei, por conta de um novo projeto, o PL 6033, que se aprovado retiraria direitos básicos das vítimas de violência sexual.
COPA DO MUNDO
  • A Copa do Mundo foi marcada por diversos casos de assédio e estupro, como o caso onde uma jovem brasileira que foi estuprada por um chileno de 32 anos em Cuiabá. Mulheres foram feitas de musas em revistas, programas televisivos e portais de notícia, jornalistas foram beijadas sem permissão e o futebol feminino continua esquecido pela mídia e pela torcida brasileira.
Foto: Fotos públicas
(Fotos Públicas)
VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER
  • Neste ano, a Lei Maria da Penha passou por mudanças importantíssimas. Por 10 votos a 1, o Supremo Tribunal Federal decidiu que ela vale mesmo sem queixa da própria vítima e que agora o Ministério Público também pode denunciar. Além disso, foram proibidos os “institutos despenalizadores” em casos de violência doméstica contra a mulher, uma iniciativa da deputada Sandra Rosado (PSB-RN) para evitar a impunidade dos acusados e endurecer o cumprimento das penas.
  • Cerca de 77% das mulheres em contexto de violência foram agredidas diariamente ou semanalmente, segundo balanço de atendimentos realizados no primeiro semestre de 2014 pelo Ligue 180, conhecido atualmente como Disque Denúncia. Apesar disso, o número de denúncias de violência doméstica tem aumentado. Apenas no primeiro semestre de 2014, foram feitas mais de 7 mil denúncias no DF. No ano em que foi publicada a Lei Maria da Penha, apenas um caso foi registrado; comparativamente, muito mais mulheres estão denunciando. Em contraste, Manaus tem o menor índice de denúncias realizadas pelo Disque 180, segundo o ranking nacional divulgado pela Secretaria de Política para as Mulheres da Presidência da República.
  • Eduardo dos Santos Pereira, o mentor responsável pela Barbárie de Queimadas – um estupro coletivo que aconteceu em uma festa, onde cinco mulheres foram violentadas sexualmente como “presente de aniversário” e duas acabaram mortas, em 2012 – finalmente foi julgado. Após 19 horas de julgamento, o réu foi condenado a 108 anos de prisão. No mesmo dia do julgamento, manifestantes se mobilizaram na Paraíba para relembrar as vítimas de Queimadas e exigir justiça.
  • No Dia Nacional de Luta Contra a Violência à Mulher, o número de serviços especializados da Rede de Atendimento às Mulheres em Situação de Violência havia subido de 332 para 1.027 comparativamente aos últimos 10 anos. Entre os serviços disponíveis, há delegacias especializadas, abrigos, postos de saúde, juizados de violência doméstica e familiar, centros de referência e núcleos de enfrentamento ao tráfico de pessoas.
  • Um ano e meio após a implementação do vagão exclusivo para mulheres no DF, elas continuaram a sofrer com assédios e violência sexual. O vagão feminino não se mostrou suficiente para solucionar o problema, especialmente pela falta de apoio às vítimas e infraestrutura para atender todas as denúncias.
  • A Faculdade de Medicina da USP tem onda de casos de estupro em Ribeirão Preto. A partir de relatos das próprias vítimas, sabe-se que as festas da FMUSP já tinham um sistema pronto para abusar das garotas, com a venda de bebidas alteradas e tendas com colchões onde ocorreriam os estupros. Após denúncias, foi iniciada uma Comissão para investigar os casos de estupro, mas os deputados da base de Alckmin boicotaram a reunião que elegeria a presidência da Comissão, de modo que a investigação pode ser adiada até depois do recesso.
  • Segundo dados do Mapa de Violência, o número de assassinatos de mulheres triplicou no Brasil nos últimos 30 anos. Segundo a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher da ONU, o maior obstáculo é reduzir o número crescente de feminicídios cometidos por parceiros das vítimas e eliminar a impunidade no julgamento, pois o Judiciário tem sido omisso na implementação da Lei Maria da Penha.
TECNOLOGIA
  • 2014 contou com diversas iniciativas e projetos para inserir e despertar o interesse das mulheres pela tecnologia. Foi realizado o RodAda Hacker, uma oficina de programação para incentivar meninas e mulheres a atuarem como construtoras na web; a segunda edição do Hackathon de Gênero e Cidadania ; o Edit-a-thon das Minas, uma maratona de edição para incluir mulheres na Wikipedia onde foram editadas 40 páginas em 8 horas; e o Technovation Challenge teve, pela primeira vez, estrutura no Brasil.
Foto: Neto Lucon
(Neto Lucon)
PROTESTOS E ATIVISMO
  •  A Marcha das Vadias aconteceu novamente no Brasil e as mulheres tomaram as ruas de diversas cidades, como Belo Horizonte, Curitiba, Salvador e São Paulo, para protestar pelo direito de escolherem o que vestem e a autonomia sexual. A marcha de São Paulo foi marcada por um caso de violência, onde um homem agrediu uma das participantes e foi protegido pela polícia. Policiais empurraram e agrediram as mulheres presentes, até mesmo com bomba de gás, enquanto o homem agressor saiu impune.
  • No início do ano, cinco mulheres trans foram hostilizadas e impedidas por seguranças de utilizarem o banheiro feminino no Shopping Center 3, em São Paulo. Para protestar, foi realizado o ato “Me deixem fazer xixi em paz! Porque sou mulher trans e uso o banheiro feminino”, organizado por travestis e mulheres trans que se concentraram na Avenida Paulista para reivindicar a identidade de gênero e o direito de usar o banheiro feminino.
  • A Marcha das Margaridas 2014, realizada pela Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (CONTAG), foi realizada como mobilização das mulheres trabalhadoras rurais para reivindicar o desenvolvimento sustentável, livre, justo e autônomo. Durante a marcha, a ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República, Eleonora Menicucci, pediu às “margaridas” que verificassem se seus municípios cumpriam as políticas federais para mulheres implementadas pelo governo.
  • Motivada pelo resultado de uma pesquisa do Ipea, onde 65% dos entrevistados – 66% dos quais eram jovens mulheres – afirmaram que mulheres que vestiam roupas curtas mereciam ser atacadas, a jornalista Nana Queiroz lançou a campanha “Eu Não Mereço Ser Estuprada”, um protesto online que reverberou em todas as redes sociais. Diversas mulheres em todo o Brasil postaram suas fotos sem roupa da cintura para cima, tapando os seios com os dizeres “eu não mereço ser estuprada”. Posteriormente, o Ipea declarou erro na contagem e divulgação dos dados e corrigiu o índice para 26%.
  • No Dia de Luta pela Descriminalização do Aborto na América Latina, foi realizado o Cortejo da Mulher Morta em Aborto Clandestino na Avenida Paulista, uma manifestação de luto pelas mulheres mortas pela clandestinidade do aborto reivindicando a interrupção da gestação segura e legalizada para todas as mulheres.
  • Para que as mulheres se apropriem das cidades com segurança, a ActionAid lançou a campanha Cidades Seguras para as Mulheres, que propõe mudanças contra a violência estrutural e busca garantir a plena mobilidade das mulheres nas cidades. Também foi criada a campanha Chega de Fiu Fiu e um mapa coletivo onde todas as mulheres podem denunciar qualquer tipo de violência e marcar o local onde ocorreu, compartilhando qualquer agressão com outras mulheres de forma anônima e colaborativa. A ideia do projeto partiu da jornalista Juliana de Faria, fundadora do Think Olga, e vai virar documentário.
  • Foi inaugurado o Mapa MAMU, um projeto de mapeamento colaborativo, para marcação de coletivos e grupos femininos, feministas ou que focam as mulheres e suas reivindicações.
  • Coletivos feministas denunciaram uma loja da rede Pernambucanas onde estava à venda uma camiseta machista. Na camiseta, havia a estampa de uma mulher em uma forca, com a palavra “namorada” na lacuna. Após o protesto, a Pernambucanas retirou a camiseta machista das lojas.
  • Em resposta ao vereador Agamenon Sobra (PP), que fez apologia à violência e afirmou que mulheres que tentam se casar sem calcinha deveriam “ganhar uma surra de couro cru e um banho de sal”, a vereadora Lucimara Passos (PCdoB) compareceu à Câmara Municipal de Aracajú sem calcinha, desafiando as afirmações machistas. Segundo a Vereadora, a Câmara foi conivente com o crime de incitação à violência de Agamenon.
  • 2014 foi um ano de sucesso para vários projetos feministas que conseguiram apoio e financiamento coletivo no Catarse, evidenciando a importância da internet como ferramenta de militância política. Entre as iniciativas, está o projeto Beleza Real, um livro ilustrado publicado pela artista Negahamburguer que reúne histórias de mulheres fora dos padrões sociais de beleza; o livro infantil As Aventuras de Lilith, criado por Marcelo Deldebbio para que sua filha e outras meninas tivessem acesso a uma história de coragem, bravura e independência; ou mesmo a própria campanha Chega de Fiu Fiu do Think Olga.
  • Após verem as pichações das mensagens “Vamos cortar a sua pica”, “Ser mulher não é calçar os nossos sapatos” e “Não deixe que os machos invadam seus espaços”, presumivelmente escritas por mulheres feministas, no banheiro feminino da Unicamp, mulheres trans e travestis estudantes da Universidade se manifestaram reivindicando o direito de usarem o banheiro feminino.
  • O portal Think Olga lançou a campanha Entreviste Uma Mulher, que alerta sobre a falta de voz das mulheres na sociedade. O projeto é um banco de dados de mulheres especializadas em diversas áreas, com objetivo de ampliar o número de fontes femininas nos jornais, revistas, pesquisas e artigos científicos.
  • As feministas negras brasileiras protagonizaram um protesto histórico contra a Rede Globo e um dos diretores da casa, Miguel Falabella, que criou a série Sexo e as Nêgas, considerada racista e machista pelas militantes. Os protestos foram recebidos com hostilidade por Falabella e seus admiradores, mas o incômodo causado pelas mulheres negras ativistas gerou resultados positivos: debates, protestos na porta da Rede Globo e, por fim, o cancelamento da segunda temporada da série.
  • O movimento feminista lançou uma petição online e conseguiu chamar a atenção do Itamaraty para Julien Blanc, um suíço que viria ao Brasil para ensinar técnicas machistas e violentas de como “conquistar” mulheres. Por causa da mobilização, o órgão declarou que não concederia o visto a Blanc caso fosse solicitado.
  • O Movimento por uma creche pública na Unifesp fez uma carta aberta em defesa das mães no movimento. Devido a inexistência de creches apropriadas onde possam deixar as crianças, as mães trabalhadoras são hostilizadas e até impedidas de permanecer na universidade com seus filhos, como foi o caso de Agnes Verm, representante discente do Campus de Humanidades da Unifesp que compareceu a uma reunião da congregação, sumariamente encerrada devido a presença de sua filha e outras crianças que acompanhavam seus responsáveis.
  • Foi entregue o Prêmio Rose Marie Muraro: Mulheres Feministas Históricas, iniciativa destinada a brasileiras acima dos 75 anos que tiveram atuação na vida pública nacional. A premiação levou o nome da escritora feminista que faleceu aos 83 anos em Junho deste ano.
  • Diante das Eleições de 2014, a página Vote Numa Feminista convidou as mulheres a conhecerem suas opções e incentivou o voto consciente e politizado. A página listou centenas de candidatas feministas ou com propostas e projetos que beneficiam as mulheres, para todos os cargos e nas mais diversas cidades do Brasil.
Foto: Reprodução/Youtube
(Reprodução/Youtube)
QUESTÕES RACIAIS
  • Cláudia Silva Ferreira, mulher negra moradora da periferia e auxiliar de limpeza, foi assassinada e arrastada por um carro pela Polícia Militar no Rio de Janeiro. O Ministério Público defendeu a soltura dos policiais militares responsáveis, evidenciando o problema da violência policial no Brasil. Foram feitas diversas reivindicações, como o protesto Paixão de Cláudia e o projeto artístico Cem Vezes Cláudia, onde diversos artistas foram convidados pelo Think Olga a criar imagens e enviá-las para publicação.
  • A candidata ao governo de MG, Cleide Donária (PCO), foi vítima de racismo por defender a desmilitarização da polícia. Um homem não identificado deu um soco em seu estômago e gritou: “Cadê seu partidinho de merda para dissolver a PM? Dissolve a PM agora sua prostituta. Sua negra vagabunda”.
  • Foi realizada uma exposição pelo centenário de Carolina Maria de Jesus, escritora negra e pobre nascida em 1914. A exposição teve mostra de livros, manuscritos, fotos e exibição de filmes relacionados à escritora.
  • O Ministério da Saúde lançou uma campanha contra o racismo no Sistema Único de Saúde (SUS), para conscientizar a população sobre a discriminação racial no atendimento público. Apesar de ter sido recebida com hostilidade pelo Conselho Federal de Medicina, a campanha se manteve ativa e foi bastante compartilhada por feministas negras, que chamaram atenção para a saúde da mulher negra no Brasil.
  • Em projeto para conscientizar mulheres indígenas sobre seus direitos, a ONG Thyndeuá lançou o livro Pelas Mulheres Indígenas, relatando as vidas de mulheres de 8 etnias do Nordeste do Brasil.
  • O IBGE divulgou uma pesquisa sobre analfabetismo no Brasil e os resultados mostram que a taxa de analfabetismo caiu de forma mais acelerada entre as mulheres negras, mas elas ainda somam o dobro de analfabetas comparativamente às mulheres brancas.
IGUALDADE DE GÊNERO
  • O Brasil caiu 9 posições no Ranking de Igualdade de Gênero do Fórum Econômico Mundial, se posicionando na 71ª posição. A maior queda foi na avaliação de salários e liderança feminina no mercado de trabalho.
  • Segundo pesquisa do IBGE e da Secretaria de Políticas para as Mulheres e o Ministério do Desenvolvimento Agrário, a participação das mulheres no mercado de trabalho cresceu de 50% para 55% na última década. O crescimento da participação é maior para aquelas acima de 30 anos e que vivem nas cidades.
  • Segundo levantamento feito pelo Instituto Avon e Data Popular, 48% dos jovens entre 16 e 24 anos consideram errado que uma mulher saia sem o namorado. A pesquisa foi feita com mais de 2 mil entrevistados, tanto moças quanto rapazes.
  • Neste ano também foi divulgada a pesquisa “Por Ser Menina”, realizada pela ONG inglesa Plan International, que atua no Brasil desde 1997. Segundo os dados levantados entre garotas brasileiras, 14% das meninas entre 6 e 14 anos já trabalharam, além de terem passado por diversas situações em que foram tratadas de forma sexista e violenta por serem do gênero feminino
  • A Igualdade de Gênero foi removida do Plano Nacional de Educação após sofrer ataques de grupos conservadores liderados pelos pastores-deputados Marco Feliciano (PSC-SP), Marcos Rogério (PDT-RO) e Pastor Eurico (PSB-PE), que conseguiram retirar a diretriz para superação das desigualdades
O deputado federal Jair Bolsonaro (Foto: Gabriela Korossy/Câmara dos Deputados)
O deputado federal Jair Bolsonaro
(Foto: Gabriela Korossy/Câmara dos Deputados)
ELEIÇÕES, POLÍTICA E LEGISLAÇÃO
  •  A deputada Benedita da Silva (PT-RJ) se vestiu como empregada doméstica em homenagem à profissão, que também já exerceu. Ela pediu que o projeto de lei complementar (PLP 302/13), que regulamenta os direitos e deveres do empregado doméstico, seja aprovado na Câmara, já que a PEC das Domésticas ainda segue sem a devida regulamentação
  •  Agatha Lima se tornou a primeira mulher transexual a assumir a presidência do Conselho Estadual LGBT de SP. Sua função é receber e encaminhar as demandas e denúncias do Conselho e articular com as secretarias do estado.
  •  A eleição para presidência do Brasil contou com três candidatas mulheres e levantou debates a respeito de questões como aborto e comportamentos machistas, principalmente por parte dos candidatos homens que também disputavam o cargo. Ativistas feministas cobram a presidenta Dilma para que atenda o movimento feminista e cumpra suas promessas.
  •  Os senadores aprovaram o substitutivo da senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR) ao PLS 292/2013, que modifica o Código Penal para tornar o feminicídio um crime hediondo e endurecer a pena contra os agressores.
  • O deputado conservador Jair Bolsonaro (PP-RJ) declarou, em plena Câmara, que não estupraria a colega Maria do Rosário (PT-RS) porque ela “não merecia”. Posteriormente, explicou que não a estupraria por considerar a mesma “muito feia” e “ruim”. O caso teve repercussão internacional e mobilizou a militância de esquerda; Bolsonaro foi denunciado pelo Ministério Público por incitação ao estupro e o Conselho de Ética da Câmara também instaurou um processo contra o deputado. Apesar disso, é provável que o processo seja engavetado e não tenha um desfecho tão cedo.
(Foto de capa: Mídia NINJA)

O que eu quero viver com você?


RUTH MANUS
05 Novembro 2014

Precisamos mesmo de uma vida perfeita?


Eu poderia te dizer que quero uma vida linda ao seu lado. Uma casa boa, com um jardim bonito, flores coloridas. Poderia dizer que quero viagens para a praia, para o campo e para as metrópoles mais encantadoras do globo. Poderia te dizer que quero dois filhos,um casal, com cabelos brilhantes, pele saudável e bochechas coradas. Nada disso seria mentira.
Mas, outro dia, me dei conta de que há amores que com muito menos, conseguem marcar muito mais. Que ter tudo isso que descrevi acima não garante uma vida de amor. E que ter muito menos do que isso, não impede a felicidade plena. Foi quando ouvi minha avó, viúva há quase 20 anos, dizer:
“Eu não tenho nenhuma inveja de moças como você, que têm rapazes bonitos e jovens para namorar. Tenho inveja das velhas que nem eu que ainda têm seus velhos de cabeça branca para andar de mãos dadas.”
A história deles não foi impecável. Não conheceram a Europa juntos, não construíram um império, os filhos não alcançaram 1,80m de altura, alguns netos são orelhudos, um câncer atrapalhou tudo, ele morreu cedo, ela se viu pela metade.
Não foi impecável, mas foi o suficiente para ela nunca mais ter tirado os vidros de perfume dele do banheiro e a aliança dourada do dedo.

E para TODA noite- eu disse TODA noite-, há 20 anos, desdobrar uma carta num papel amarelado em que ele dizia o quanto a amava num aniversário de casamento e ir dormir com os olhos mareados. Foi o suficiente para ela, mesmo só bebendo Guaraná e Chopp Black, ter encontrado uma lata de Coca com o nome dele, José, e uma garrafa com o nome dela, Rita, e deixá-las juntas, como enfeite soberano da cozinha.

foto (1)

E foi contemplando esse amor que percebi que quero viver muito mais com você do que uma vida bonita. Quero viver uma vida de verdade ao seu lado.

E o que eu quero viver, de verdade, com você?

Uma vida com altos e baixos.

Perrengue de grana.
Dificuldade para instalar persiana.
Filhos que não comem legume.
Alguma insegurança, algum ciúme.
Problemas. Soluções.
Alívios. Aflições.
Quero perder a entrada na estrada.
Alguns acertos. Algumas burradas.
Companhia para abrir resultado de exame.
E que, de vez em quando, a gente se engane.
Quero a receita de bolo que não vai dar certo.
E dependência de óculos para enxergar de perto.
Quero ver filme ruim no cinema.
E tentativas frustradas de escrever poema.
Dúvidas. Sugestões.
Sonhos. Ilusões.
Dezoito pernilongos no quarto.
As dores de ter ou não ter um parto.
Domingo de tédio.
Algum incômodo. Algum remédio.
Companhia na sala de espera.
Chá preto que não veio da Inglaterra.
Pneu furado. Calvície.
Trânsito parado. Bursite.
Quero mais que uma vida bonita.
Quero brigar pela última batata frita.
Quero aquela sua mania que tanto me irrita.
Quero errar no café da visita.
Quero que você seja meu Zé, quero ser sua Rita.
Quero um amor como o dos meus avós.
Quero que juntos, pela vida, desatemos os nós.
E quero um dia, sozinha na cama, poder chorar de saudades da sua voz.

O (cis)gênero não existe

    POR Carla Rodrigues | 10.12.2014

      A primeira vez que repeti em público a frase da filósofa Judith Butler – “O gênero não existe” – causei profundo estranhamento a feministas que vinham de uma linha de estudos e militância formada a partir da decisiva distinção sexo/gênero. Gênero como cultural, oposto a sexo como biológico, havia sido um conceito fundador da segunda onda do feminismo, e foi um operador da libertação do destino biológico das mulheres. Era preciso – a rigor, infelizmente, ainda é – reivindicar que o sexo anatômico não pode fundamentar hierarquias sociais, políticas e econômicas. Afirmo que “o (cis)gênero não existe” a fim de discutir o recente episódio de agressão contra transgêneros nos banheiros da Unicamp.
Ao longo da semana passada, a doutoranda Amara Moira, pesquisadora de Teoria Literária, denunciou a pichação dos banheiros femininos com slogans violentos de protesto contra a frequência de transgêneros. Frases como “Ser mulher não é calçar nossos sapatos” e “Não deixem que os machos ocupem os nossos espaços” foram as ameaças mais brandas de uma luta que parte de um grupo de feministas radicais cuja bandeira é a defesa da biologia. Sim, aquela mesma que se queria combater no parágrafo acima.
Uma das características mais importantes do movimento feminista é não ser estabilizável numa única forma política. Feminismo tem a ver com questionamento de subalternidades. Para se afirmar como movimento político, sempre se afirmou plural. A fim de sustentar essa pluralidade, considero necessária uma crítica contundente às feministas radicais e seus fundamentos biológicos. Acho impossível sustentar uma posição que seja absolutamente contra os homens ou absolutamente a favor das mulheres apenas. É um desserviço à causa da emancipação que, não tendo nascido mulher, não sendo portadoras de “vaginas originais de fábrica”, transgêneros devam ser combatidos por serem “biologicamente” homens.
Considero mesmo um retrocesso político execrável que em nome do feminismo se cometa contra transgêneros um tipo de violência igual àquela perpetrada historicamente contra mulheres, a violência da exclusão, da subordinação, da classificação como pessoas de segunda classe. Para as “radfem”, se o feminismo é uma luta contra o patriarcado, e se o patriarcado está obrigatoriamente encarnado nos homens, então a luta deve ser contra os homens biológicos, não importa como eles se apresentem socialmente. Tudo se passa como se o século XX não tivesse a marca de um debate fundamental contra a fundamentação biológica dos sexos e contra uma forma dualista de perceber as diferenças sexuais. Se não mais opositivas, essas diferenças nem podem se afirmar em função da anatomia – portadores de pênis de um lado, donas de vagina, de outro – nem em função de identidade.
A questão fica ainda mais complicada quando se parte de uma premissa, por vezes implícita, de possibilidade de adequação perfeita entre sexo e gênero, o que se pretende nomear como “cisgênero”. Cis – do latim, do mesmo lado – é a denominação para aquele cuja identidade de gênero equivale ao seu corpo biológico, numa expectativa de ajuste que muitas correntes do feminismo, entre as quais me incluo, não aceitam. Gênero é uma construção social a partir da qual não se pode evocar uma ideia de normalidade ou adequação, não há como ser “a” mulher ou “o” homem que corresponda a um modelo adequado de gênero. Há desvios, desejos, singularidades, equívocos. Depois de tantos anos lutando contra a distinção binária masculino/feminino, construída como hierárquica e dicotômica, não faz sentido erguer um novo par opositivo – cisgênero/transgênero – para sustentar exclusões, como se a uma pessoa fosse perfeitamente possível estar “de acordo” com seu sexo e com as expectativas das convenções sociais.
A diferença entre sexo e gênero foi formulada a partir do pensamento de Simone de Beauvoir e está no início da introdução do segundo volume de O segundo sexo. Importante lembrar que o livro tem 300 páginas, e não apenas a frase “Não se nasce mulher, torna-se mulher”. O texto continua: “Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam de feminino”.
Publicado alguns meses depois do primeiro volume, é esse o livro que marca de fato a recepção do pensamento de Beauvoir na França de 1949.  No final da década de 1980, outra filósofa, a norte-americana Judith Butler, percebeu o que agora parece óbvio. Como trata-se de tornar-se mulher, na cultura e na sociabilidade, o performativo “tornar-se” pode ser conjugado por qualquer corpo, independente do seu sexo anatômico. Abriu-se com Butler, com sua leitura para as filosofias de Jacques Derrida e Michel Foucault, uma incontornável crítica à naturalidade com que um corpo biológico feminino torna-se necessariamente uma mulher, ou um corpo biológico masculino torna-se necessariamente um homem. As potencialidades dessa abertura dependem, em grande medida, tanto do abandono de binarismos e estereótipos que estamos há tanto tempo lutando para desfazer, quando do abandono ao biológico que fundamentou a violência na Unicamp. Para retomar o argumento inicial, “o (cis)gênero não existe” porque, para existir, depende da fundamentação de uma identidade fixa, por exemplo, em “vaginas originais de fábrica”, como se houvesse uma fôrma que as produzisse sob um selo de autenticidade não encontrável nem na natureza.

Banco Mundial: Brasil, um país com maioria de mulheres e governado por homens

Publicado em 22/12/2014

A taxa de participação feminina na política brasileira está abaixo da cota de participação de 30% instituída para os partidos, é uma das menores do mundo e a quarta mais baixa na América Latina e o Caribe.

No Brasil, 51% da população é feminina, no entanto mesmo reelegendo recentemente uma mulher para presidente, apenas 10% dos parlamentares – tanto em Brasília, quanto nos estados – são mulheres, informou o Banco Mundial. Além da taxa estar abaixo da cota de participação de 30% instituída para os partidos, é uma das menores do mundo e a quarta mais baixa na América Latina e o Caribe.

Impulsionados pelo Congresso Nacional e com apoio do Banco Mundial, 47 hackers se reuniram durante uma semana em Brasília para buscar dados e desenvolver sites e aplicativos que ajudem as mulheres a terem mais participação política.

A maratona hacker – oficialmente chamada Hackathon de Gênero e Cidadania – recebeu 22 projetos de todo o país. Um deles foi o desenvolvimento de uma plataforma em que candidatas desconhecidas possam expor suas propostas e conseguir financiamento direto. A ferramenta, com o adequado nome de Dona Maria, venceu o hackathon.

“Além de a representação feminina no legislativo ser pequena, ainda está restrita a famílias que já tenham patrimônio alto ou contatos políticos”, destaca o programador Yves Bouckaert, um dos criadores da plataforma. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral, das mulheres que concorreram às eleições em 2014, 81% não receberam nem sequer um centavo de financiamento externo. Entre os homens, o número cai para 67%.

Além de discutir a participação feminina na política, a maratona hacker estimulou a criação de aplicativos contra a violência de gênero. Os vencedores serão premiados no próximo Dia Internacional da Mulher, comemorado em todo o planeta no dia 8 de março.