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terça-feira, 31 de dezembro de 2013

2013... Enfim, o Natal...

Mais uma vez renovamos nossos votos de FELIZ NATAL e nos reencontramos na fé e na esperança de um mundo melhor....

Um mundo cheio de amor e paz... um mundo que pode ser uma eterna e bruxuleante utopia, mas que pode vir a ser uma palpável e concreta realidade...

“Depende de nós
Se esse mundo ainda tem jeito
Apesar do que o homem tem feito
Se a vida sobreviverá....” diz Ivan Lins

A Família de Nazaré nos faz crer que ainda existe a criança dentro de cada um de nós, que é possível cultivar harmonia e paz, que o renascer do amor pode ser uma realidade e que sempre há lugar para o abraço e o perdão...

Nós da Família SOS Ação Mulher e Família, no desempenho de nossa missão entendemos que estas podem ser valiosas peças de um mosaico multicolorido de uma grande construção coletiva... E que cada um tem uma contribuição a dar para tornar o planeta Terra um verdadeiro “lar” e um lugar mais confortável de se viver...

Não devemos e não podemos nos esquivar desta missão crucial para o futuro da humanidade...

A grande família SOS Ação Mulher e Família vem confraternizar com você e agradecer por sua valiosa parceria no ano de 2013.

Em 2014 esperamos continuar a contar contigo para prosseguir trabalhando em prol da família e da paz nas relações humanas e para tornar reais nossos sonhos....

Boas Festas e Feliz Ano Novo

A brasileira se sente infeliz

A antropóloga Mirian Goldenberg detecta entre as mulheres de classe média um discurso de vitimização que não leva em conta suas conquistas - além de alimentar uma fantasia infantil sobre o homem provedor

Apesar da cordialidade e da entonação suave, a santista naturalizada carioca Mirian Goldenberg não foge da briga. Nem mesmo com quem acha que seu estilo não tem tanto a ver com os cânones acadêmicos. Ex-militante de esquerda nos anos 70, Mirian dirigiu sua verve crítica para as pesquisas sobre a cabeça da mulher brasileira, encarando temas como infidelidade com uma linguagem despojada para os padrões de uma doutora em Antropologia Social pela UFRJ.

A habilidade para se comunicar com um público heterogêneo faz de Mirian uma das estrelas do circuito de palestrantes - além, é claro, de uma bibliografia que inclui títulos instigantes como A Outra, Nu e Vestido, De perto Ninguém É Normal, Toda Mulher é meio Leila Diniz, Infiel: Notas de uma Antropóloga e O Corpo como Capital. Nesta entrevista a AMANHÃ, Mirian traça um paralelo intrigante entre brasileiras e alemãs, pesquisa que põe em cheque alguns valores das mulheres do lado de cá do oceano. Não deixe de conferir, agora, trechos da entrevista que não foram publicados na edição 253 de AMANHÃ - inclusive sobre a dificuldade que a brasileira tem de envelhecer, tema do seu livro Coroas.

As brasileiras estão voltando para casa?
Não acho que elas estão voltando para casa. O que está acontecendo no Brasil e em países como os Estados Unidos é que muitas mulheres estão voltando para cuidar da casa quando seus maridos ganham muito bem - o suficiente para os dois viverem tranquilamente. A mulher brasileira, diferentemente da mulher europeia, não abriu mão do seu papel de esposa e de mãe. Ela quer casar, ter filhos, constituir uma família, papel que na Europa muitas mulheres não desejam mais. Na Alemanha, por exemplo, 50% das mulheres não querem ter filhos. Elas investem muito no trabalho. Aqui, no Brasil, as mulheres querem conciliar o trabalho com a posição de mãe e esposa, o que é uma coisa muito complicada. A dificuldade de conciliar esses dois fatores tem deixado as mulheres brasileiras um tanto frustradas, tanto como profissionais quanto como esposas, mães e donas de casa.

A brasileira se impôs o desafio de ser uma supermulher?
A brasileira não faz o mesmo tipo de escolha de uma europeia. A alemã decide que ou fará isso ou fará aquilo. É algo como "ou eu vou ser mãe e criar meus filhos" ou "eu vou investir tudo na carreira". A brasileira, não. Ela quer isso e aquilo. A consequência é uma insatisfação feminina muito grande por causa de uma dupla frustração. Afinal, no mercado de trabalho elas não têm o mesmo prestígio, remuneração e poder dos homens. E por outro lado não conseguem ser mães e esposas em tempo integral. Diante desse quadro, algumas mulheres que podem exercer essa opção têm feito a seguinte avaliação: já que eu não estou tão satisfeita assim no mercado de trabalho, eu vou optar por ser mãe e esposa em tempo integral e depois eu sigo minha carreira. Mas eu não vejo um movimento tão massivo assim nessa direção. Não a ponto de dizer que a volta para casa é uma tendência. Pode até corresponder a um desejo feminino muito forte, mas não vejo isso efetivamente acontecendo em grande escala. Porque não seria um comportamento muito aceitável.

Quem não aceitaria?
Nem os homens nem a sociedade em geral aceitam. Os homens brasileiros já não querem bancar a casa sozinhos. Acabou aquele momento em que o homem era o único provedor e a mulher podia ficar em casa cuidando dos filhos. Eles não querem mais esse tipo de relação. E a própria sociedade cobra da mulher o trabalho remunerado. Há inclusive um certo estigma pesando contra a mulher jovem que se dedica inteiramente à família. Nem mesmo as outras mulheres aprovam... Por isso eu acho que só uma minoria das mulheres vai conseguir exercer essa opção de voltar para casa. Agora, no plano do desejo, da idealização, esse sentimento é muito forte.

Em que camada social esse desejo é mais forte?
Eu trabalho com mulheres das camadas médias. Minha pesquisa é com mulheres universitárias, que já se constituíram profissionalmente, que têm uma posição no mercado e que não vão parar de trabalhar, pois a independência econômica é importante para elas. Entre elas, o desejo de ficar mais perto do marido, dos filhos, aparece, sim, nas pesquisas que tenho feito. Existe uma certa fantasia, até meio infantil, do tipo "pode ser que eu encontre um parceiro que ganhe muito bem e aí eu possa cuidar dos filhos, fazer o que eu gosto, trabalhar em coisas em que eu não ganhe tão bem mas que me satisfaçam mais". Então ainda existe entre as mulheres, aqui no Brasil, uma fantasia do homem provedor. Mas está mais no plano da fantasia do que no plano da realidade das brasileiras de hoje.

Ainda que se trate de uma simples fantasia, não deixa de ser uma ruptura com um passado recente, quando as mulheres se lançaram em massa ao mercado de trabalho e se tornaram maioria em grande parte das empresas.

O que eu acho que existe é um certo paradoxo. As mulheres entraram com tudo no mercado de trabalho, mas não em posições muito prestigiadas ou que lhes permitam ganham muito bem. Elas estão em posições inferiores se compararmos com os homens. Claro, existem mulheres executivas, mulheres muito bem-sucedidas. Mas são exceções. A grande maioria das mulheres está em profissões de serviços, ou então como professoras primárias, enfermeiras, atividades em que elas não ganham bem e nem são muito prestigiadas.

Na comparação com as alemãs, alvo de sua pesquisa, como se saem as mulheres brasileiras?
Acho que esta comparação é bem interessante porque opõe dois extremos. Lá, na Alemanha, temos um tipo de mulher que valoriza a independência, a liberdade, a autonomia. Que pode ou não se casar. Que pode ou não ter filhos - para elas, tanto faz. E aqui, no Brasil, encontramos um tipo de mulher que investe muito na parceria amorosa, nos filhos, na família. Um dado curioso é que a mulher brasileira nunca esteve tão bem, como agora, em termos de educação, de trabalho, de qualidade de vida, de ser ouvida e respeitada. Só que, apesar deste bom momento, nas minhas pesquisas entre mulheres da faixa dos 40 anos eu encontro um discurso de vitimização. É o que eu chamo de miséria subjetiva.

O que é miséria subjetiva?
O discurso dessas mulheres gira em torno de duas questões: o homem (ou a falta dele) e a decadência do corpo.O que é que essas mulheres me dizem? Primeiro, aparece um discurso que é muito típico da mulher brasileira:"Falta homem no mercado", "os homens da minha idade não querem mulheres da minha idade, querem uma mulher muito mais jovem", "quando um homem se separa, imediatamente ele se casa, enquanto, para a mulher, é muito mais difícil encontrar um parceiro que a respeite". Esse é o discurso centrado no homem. Já o discurso feminino centrado na decadência do corpo traz muito fortemente percepções do tipo "meu corpo já não é mais o mesmo", "eu me tornei invisível", "eu não me acho mais uma mulher atraente", "não sou considerada uma mulher desejável". Esses dois discursos aparecem com muita força. É um discurso de vitimização. Eu chamo este fenômeno de "miséria subjetiva" porque, se você olhar para as conquistas da mulher que pratica esse discurso, verá que ela tem dinheiro, tem independência, ela está se realizando, está bem fisicamente. Mas ela não internaliza as conquistas objetivas como um poder... Já na Alemanha, eu encontrei a mulher poderosa - subjetivamente e objetivamente.

A brasileira se sente mais infeliz do que realmente é?
Exatamente. Há um descompasso entre o poder objetivo que ela tem, e o sentimento subjetivo de miséria que ela traz. E isso é cultural, é um problema da nossa cultura, que diz para as nossas mulheres que se elas não tiverem um homem, se elas não estiverem jovens, se elas não forem sexy, se elas não forem magras, se elas não tiverem filho, elas não têm valor nenhum.

Se o corpo é um capital, como você sustenta em um de seus estudos, qual é o valor deste ativo no mundo corporativo?
É muito grande, e não só para as mulheres. E você vê este fenômeno mesmo em profissões em que o corpo não seria um grande capital, como na de professor universitário, que é a minha atividade. O corpo não seria relevante, não deveria ser, mas é. As pessoas gordas, que não pintam o cabelo, que se vestem "mal", são permanentemente desqualificadas, desrespeitadas e deixam de conseguir alunos, convites para palestrar, parcerias... E tudo por causa da aparência. Por quê? Porque aqui se associa uma pessoa que não cuida do seu corpo a uma série de adjetivos negativos: diz-se que ela é preguiçosa, é desleixada. Uma mulher que não pinta o cabelo, não faz as unhas, não se depila permanentemente, é vista no Brasil como uma pessoa que não tem higiene. Na Alemanha, uma mulher não se depila, não pinta o cabelo, não faz as unhas. É dificílimo você encontrar um cabeleireiro na Alemanha para fazer escova. Aqui, se você não tem esses procedimentos que as mulheres brasileiras acham que são mínimos, você é considerada uma pessoa sem higiene. Então, esse ativo, o corpo, não é tão visível, ele não é dito, mas ele vale. Ninguém vai te dizer "eu não te convidei porque você está gorda" ou porque "você não pinta o cabelo". Mas a pessoa não é convidada por isso.

No dia-a-dia do escritório, o corpo pode significar, ou pode custar, aquela sonhada promoção?
Isso mesmo. Tem até pesquisas nos EUA mostrando que as pessoas altas ganham mais. Que os advogados que são mais altos e mais fortes têm salário superior ao dos baixinhos e carecas. Então, não é só com a mulher. Só que isso não pode ser explicitado. É óbvio que você ser inteligente, ter ideias, publicar mais, ao menos no meu meio, é algo mais importante do que o corpo. Mas a aparência vale muito. Tenho certeza de que se eu não pintasse o cabelo, se fosse gorda, os convites para palestras ou para falar na TV diminuiriam. Ainda que as minhas ideias continuassem as mesmas...

O corpo, como capital, é um valor universal?
Não é universal. Eu diria que é muito uma tendência norte-americana e latina. Na Alemanha, as mulheres são respeitadíssimas sem pintar o cabelo, vestindo roupas largas, não usando salto alto e maquiagem. Porque elas são respeitadas pelas ideias, pela personalidade, pelo charme, pelo carisma, e não pelo corpo. Até pega mal lá você investir demais no corpo. É como se você estivesse ociosa, gastando com seu corpo um tempo em que você poderia estar fazendo coisas muito mais importantes - estudando, trabalhando. A mulher que gasta muito com roupa, que investe em botox, plástica, para ter uma aparência sexy, não é bem percebida no mercado de trabalho. São valores opostos aos daqui.

Sob este viés europeu, a mulher muito vaidosa estaria desviando do foco realmente importante...
Exatamente. É o oposto do que acontece por aqui. No Brasil, se você não faz botox... Eu até brinco um pouco com esta nossa realidade de culto ao corpo no meu livro mais recente, Coroas. Ali eu mostro como as pessoas reagem quando você chega aos 40 ou 50 e não faz nenhum procedimento... Elas até estranham - mesmo você sendo uma professora universitária, mesmo você sendo uma psicanalista.... É como se você fosse responsável pelo seu envelhecimento. Você não estaria fazendo tudo o que poderia fazer para congelar sua idade.

A mulher, neste caso, passa a ser vista como alguém que teria abandonado a si mesma, perdido a autoestima?
É... A mulher estaria envelhecendo. E envelhecer é um estigma. Lá, na Alemanha, quando eu mostro as imagens de nossas mulheres de 50, de 60 anos, eles vêem mulheres congeladas na etapa dos 30. Porque todas aqui parecem ter 30. Mas esse congelamento, para eles, não é algo positivo. Afina, você congela o seu corpo, mas você congela sua maturidade, você congela sua experiência, você congela o seu comportamento. Quando você congela a sua imagem em 30, você não congela só seu corpo.

As brasileiras não sabem envelhecer?
Eu acho que elas têm muito mais dificuldade para envelhecer do que em se vê em outras culturas. Nossa cultura valoriza muito um modelo de mulher jovem e, eu diria, até infantil....

Infantil em que sentido?
Infantil no sentido de ser uma mulher voltada para o olhar do outro. Voltada para o objetivo de ser validada pelo olhar masculino. Não é uma mulher voltada para ela mesma, para o objetivo de ela se dar valor. A mulher brasileira é permanentemente movida pela busca da aprovação externa de um homem.

Ela busca a aprovação externa de um homem ou, predominantemente, de outras mulheres?
Dizem isso, não é? Que a mulher faz tudo para impressionar outra mulher.

Não é verdade?
Eu não vejo isso. Eu vejo que a mulher quer a aprovação, o desejo, o olhar do homem. Ela quer se sentir desejável, ela quer se sentir sexy, ela quer se sentir seduzindo. E isso ela não quer de uma mulher, ela quer de um homem.

No ambiente de uma empresa, neste país do culto ao corpo, os atributos físicos são de algum modo usados para se avançar na carreira?
Não dá pra dizer que todas as mulheres são assim. Inclusive porque existe aquela mulher que é um trator para competir e que não se distingue do homem. Esta não está seduzindo ninguém. Está competindo, e quer ser respeitada, e quer ganhar mesmo.

Mas o perfil trator não representa a média, representa?
Pelo menos no universo de mulheres que eu pesquiso não representa a média, não. Eu não pesquiso altas executivas, grandes empresárias. Eu pesquiso camadas médias - é a professora, é a psicóloga, é a cientista social, é a pessoa que trabalha em banco. Nesse universo que eu pesquiso, a brasileira se coloca como uma mulher que seduz e que quer também privilégios por ser mulher. Então, não quer competir tão violentamente, foge da briga, usa outros meios pra conseguir as coisas.

Inclusive usando esse ativo que é o corpo?
Exatamente. E nem sempre é o corpo sexy. Pode ser, também, o corpo infantilizado, aquele corpo de menininha que não pode ser agredida, que tem que ser protegida. As mulheres... Eu não gosto de dar exemplo, mas na TV você vê muito esse modelo de ser mulher.

É o discurso da fragilidade, da busca da proteção...
O discurso da fragilidade, da meiguice, que é um discurso que seduz, porque você acaba tomando mais cuidado com essa mulher, porque senão você acha que vai quebrar, não é? Então você vê aquele trator, mas você também vê essa mulher mais frágil, mais delicada, que eu não vi na Alemanha.

Está-se comparando mulheres da mesma condição social?
Sim, mulheres da mesma condição social. As mulheres alemãs são muito fortes, muito "poderosas". Elas não gostam do modelinho frágil. Não combina com a mulher alemã.

Esta avaliação se aplica ao plano político? O Brasil está tão preparado para governantes como Dilma Rousseff e Yeda Crusius quanto a Alemanhã para líderes como Angela Merkel?
Eu acho que a situação é muito diferente. É óbvio que a Angela Merkel também sofre discriminações. Como ocorre em qualquer lugar do mundo. Mas na Alemanha você tem uma cultura mais igualitária entre homens e mulheres. Porque lá, durante a guerra, enquanto os homens combatiam, as mulheres assumiram todas as posições masculinas. As mulheres não precisavam dos homens. Então você tem já tem uma história de pelo menos 60 anos de mulheres assumindo atividades masculinas.

Mesmo depois da guerra?
Sim, mesmo depois da guerra. Quando os homens voltaram, criou-se um problema, porque elas não queriam abrir mão daquelas atividades que tiveram de assumir enquanto eles estavam fora. Você vê que na Alemanha Oriental, hoje, me parece que 30% dos homens ficam em casa, cuidando dos filhos, e as mulheres vão trabalhar. Elas não querem aceitam ficar em casa cuidando dos filhos, elas querem trabalhar. O resultado, lá, é a existência de uma cultura mais igualitária, de mulheres que já não precisam provar nada. Aqui nós temos que provar permanentemente que podemos. Então é óbvio que o fato de ser mulher acrescenta um problema. Os homens também têm que ser competentes e tal, e também são questionados, mas a mulher tem que provar o tempo todo que pode... Ela não é vista como uma igual. Ela tem que provar que é uma igual. E tudo isso com outros agravantes, aqui no Brasil. Porque a Dilma teve que fazer plástica. A Yeda eu não sei. A Marta Suplicy fez quantas plásticas? A Dona Marisa fez quantas plásticas?

Na lógica do marketing político, uma plástica pode melhorar a imagem da candidatura...
O marketing político investe uma enormidade na aparência. Eu não sei se as candidatura delas ficariam comprometidas caso não fizessem plástica. Mas a expectativa é de que façam. Nesse ambiente, a gente acaba cedendo. E quando a gente cede, acaba reforçando a cultura do corpo. Então eu acho que aqui é mais complicado. Houve até uma pesquisa em que a primeira pergunta era "por que você votaria numa mulher? Quais os requisitos?". E os homens disseram: em primeiro lugar, ela tem que ser bonita. Claro, a Marina não fez esta concessão (cirurgia plástica), a Heloísa Helena não fez.... Mas é muito complicado, no Brasil, porque aqui a gente tem que provar o tempo todo nosso valor.

O valor do corpo...
O corpo é um capital. Se a gente não tiver esse corpo, nós temos mais dificuldade no mercado de trabalho. Não só no mercado de trabalho, no mercado afetivo, no mercado sexual, no mercado de amizades. E nós temos que investir, ainda, na família. Não podemos abrir mão disso, porque, senão há um problema, há um fracasso, há um estigma. Uma mulher que não tem um homem e vai entrar na política, a primeira coisa que se vai dizer a seu respeito é "Ah, mas qual é o problema dela?"....

Se é solteira, há um problema.
Se é solteira, as pessoas perguntam: por quê? Qual o problema? A mesma coisa aconteceu com o Kassab (Gilberto Kassab, prefeito de São Paulo, reeleito em 2008), não é? Na campanha, se invocou o estado civil dele. Quer dizer, se fosse casado e tivesse filhos, acabou o problema, acabou o questionamento... Aqui no Brasil é assim: quando você não tem uma família constituída, filhos, você é visto como um ser anormal, totalmente fora do desejável. Ainda não é vista como uma escolha legítima a opção de não se casar e de não ter filhos. Em outras culturas é legítimo, até desejável. Tanto é que o governo alemão, e agora até o italiano, dão dinheiro para as mulheres que têm filhos. Dão uma mesada para uma mulher que tem filhos.

Nas últimas décadas teve início uma verdadeira ocupação feminina nos escritórios. Nos mais diferentes setores profissionais, a mulher se tornou maioria, inclusive rompendo tabus, como na atividade policial. As suas pesquisas e observações indicam que este fenômeno vai-se manter, se acentuar ou se inverter nos próximos anos?
Se olharmos para as últimas décadas, veremos que este avanço das mulheres foi maior em profissões com salários cada vez menores e com menos prestígio material. O jornalismo, por exemplo, era uma profissão completamente masculina e hoje é uma profissão muito feminina. Mas veja a desvalorização da profissão e do salário dos jornalistas. Então, as mulheres começaram a ocupar profissões que os homens não queriam: professora primária, enfermeira, psicóloga... Todas profissões muito associadas ao próprio trabalho da mulher dentro de casa. A entrada da mulher no mercado de trabalho foi por aí. Depois ela foi entrando em profissões que estão sendo desprestigiadas em termos salariais como, por exemplo, o jornalismo, além de atividades como a bancária, por exemplo. A mulher ocupou não somente postos de trabalho em que ela ganha menos que o homem como profissões em que se ganha menos.

E o que dizer da presença das mulheres em profissões bem remuneradas?
As mulheres ainda estão muito pouco inseridas em profissões de alto prestígio. Você poderia citar modelos, atrizes, apresentadoras de TV, em que corpo é mesmo um capital, e profissões em que se ganha bem. Mas são poucas as profissões em que a mulher ganha mais do que o homem. Quando acontece, é em atividades voltadas para o corpo, como modelo. Eu diria, então, que nós estamos muito longe, ainda, de ocupar posições de poder e de prestígio. Acredito, sim, que o caminho é esse. Mas desde que a mulher faça mais escolhas, e abra mão até de alguns papéis que ela valoriza muito. Porque quando a brasileira começar a dizer "eu quero, sim, ser diretora executiva da empresa tal", ela vai ter que fazer uma escolha diferente do que ela faz hoje.

Como assim?
É interessante notar que, em Medicina, as mulheres entram na faculdade com média superior à dos homens; durante toda faculdade elas têm médias superiores; e quando elas vão escolher a profissão, o homem escolhe ser um neurocirurgião e a mulher escolhe pediatria, dermatologia, anestesia. Então, eu acho que as escolhas da mulher ainda são muito em função dos outros papéis que ela quer conciliar, e aí isso tem um custo muito alto pra carreira dela. Então ela opta pela pediatria porque vai ter um horário mais tranqüilo, é um ramo menos competitivo, que não exigirá dela comparecer a tantos congressos nem fazer três pós-graduações...

Aquela obsessão de conciliar a profissão com papéis de mãe, esposa, dona-de-casa...
É. A nossa cultura faz com que a mulher veja um problema em abrir mão de outros papéis para realizar o sonho de ser, por exemplo, a neurocirurgiã número 1 do Brasil...

Já os homens podem ser tudo o que quiserem. Não precisam abrir mão de nada. Afinal, eles têm apoio dentro de casa. Então, eu acho que, enquanto o valor da família, do casamento, dos filhos, for tão fundamental para todas as mulheres - e isso é imposto culturalmente -, só raras exceções, entre elas, vão chegar lá, profissionalmente. Mas será que elas querem chegara lá? Eu acho que não. E isso eu vejo entre as jovens. Sou professora de meninas de 20 a 25 anos. Elas não parecem dispostas a abrir mão de ter filhos, não vão abrir mão de se casar, de ter família. Como vão chegar lá?

Você também desenvolveu estudos sobre infidelidade.
Meu livro, meu primeiro livro sobre esse tema se chama "A Outra". E dois anos atrás eu publiquei um livro chamado Infiel. Depois de 20 anos de pesquisas, eu criei um conceito que chamo de capital marital. Já que você está querendo falar de ativos, vamos lá. Eu, comparando as brasileiras na faixa de 50 anos com as alemãs da mesma faixa etária, vi que na Alemanha elas não falam de homens. Já do lado de cá, no Brasil, percebi que as mulheres aparentemente mais satisfeitas e mais felizes são aquelas que têm um marido, pois o mercado de maridos é escasso nesta faixa etária. Também notei que estas mulheres mais felizes, daqui, reportam que o marido é totalmente dependente delas. Eles ligam várias vezes por dia, não sabem fazer uma massa, não sabem encontrar nada dentro de casa. E na maioria das vezes o marido é o principal provedor dentro de casa. Ele ganha muito mais do que ela. Então, elas se sentem duplamente poderosas: porque têm um marido, num mercado escasso, e porque eles dependem totalmente delas. Daí minha conclusão de que, no Brasil, o corpo é um capital, mas é um capital mas o marido é um capital mais valioso ainda.

Marido vale mais do que um belo corpo, mesmo?
Vale. Por quê? Porque mesmo as gordinhas que eu pesquisei se diziam felizes porque estavam com um marido há 30 anos... E, por outro lado, as mulheres mais bonitas, mais jovens, mais bem-sucedidas que eu ouvi, me diziam ter inveja de outras mulheres nem tão bonitas ou bem empregadas porque não tinham um marido. Não tinham esse capital. Lamentavam, dizendo "eu nunca vou ter uma relação de 30 anos, porque já estou com 50".

E como fica a mulher que não tem o "capital marital"?
Percebi, nas minhas pesquisas, que quando uma mulher não tem o marido, que é o desejo mais profundo em todas as entrevistadas, ela atribui valor ao fato de ter um homem. Se ela não tem o capital marital, o amante também é um valor. Porque a pior coisa para uma mulher nessa faixa etária é não ter um homem. É a pior situação. Mas se ela tem um homem ... ela o considera fiel, porque é todo seu, e só está com a outra, com a esposa, por obrigação e por acomodação. Ela acredita que ele não tem relação sexual com a esposa, que ele não ama a esposa. Então, numa cultura em que ter um homem é um valor tão fundamental, para a mulher brasileira se sentir valorizada até um amante é um capital. E ela constrói o mesmo tipo de discurso da esposa. "Ele é dependente de mim, ele precisa de mim, eu sou a relação mais importante da vida dele." Então, esposas e amantes nesse ponto são muito parecidas.

http://miriangoldenberg.com.br/content.php?option=com_content&task=view&id=89&Itemid=106

República Centro-Africana: ONU alerta que crianças estão sendo mutiladas em meio à crise

Uma menina próxima a um espaço para crianças apoiado pelo UNICEF em Bossangoa, na República Centro-Africana (RCA). Foto: UNICEF
Uma menina próxima a um espaço para crianças apoiado
pelo UNICEF em Bossangoa, na República Centro-Africana (RCA). Foto: UNICEF
Ataques contra crianças na República Centro-Africana (RCA) tem se intensificado, disse nesta segunda-feira (30) o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), dizendo que pelo menos duas crianças foram decapitadas, e uma deles mutilada, durante a onda de violência que tomou conta da capital Bangui desde o início de dezembro.
“Estamos testemunhando níveis sem precedentes de violência contra as crianças. Mais e mais crianças estão sendo recrutadas por grupos armados, e elas também estão virando alvos diretos em ataques atrozes de vingança atroz”, disse Souleymane Diabate, representante do UNICEF no país.
“Os ataques direcionados contra crianças são uma violação do direito internacional humanitário e dos direitos humanos e devem parar imediatamente. Uma ação concreta é necessária agora para prevenir a violência contra as crianças”, acrescentou Diabate em um comunicado à imprensa.
O UNICEF e seus parceiros confirmaram as mortes de pelo menos 16 crianças, com outras 60 feridas, desde o início da violência inter-comunitária na capital, Bangui, em 5 de dezembro.
A RCA passa por grande tensão desde que os rebeldes Séléka lançaram ataques há um ano e forçaram o presidente François Bozizé a fugir, em março deste ano. Um governo de transição já foi encarregado de restaurar a paz e abrir o caminho para eleições democráticas, mas confrontos armados irromperam novamente e, em Bangui, na semana passada, os cristãos e os muçulmanos realizaram ataques mútuos de represália dentro e próximo da cidade.
As agências da ONU têm relatado que a situação humanitária no país está se deteriorando, com pelo menos 600 pessoas mortas somente em dezembro, e mais de 100 mil outras expulsas de suas casas em Bangui.
Diabate disse que elementos armados foram responsáveis por tomar medidas específicas para proteger as crianças, incluindo diretrizes claras por aqueles em posições de autoridade dentro das forças e grupos armados para impedir violações graves contra crianças.
“As ordens devem deixar claro que as crianças não devem ser recrutadas para a luta, nem virarem alvo”, afirmou o UNICEF, que também pediu a libertação imediata de crianças associadas às forças e grupos armados, e sua proteção contra represálias.
A agência também citou a necessidade de proibir os ataques contra o pessoal de saúde e educação, bem como o fim da utilização de espaços civis, como escolas e hospitais, para fins militares. O Fundo também disse ser essencial que se permita uma passagem segura e sem impedimentos da ajuda humanitária imparcial.
O UNICEF está intensificando os esforços de ajuda entre as comunidades deslocadas, incluindo o fornecimento de água potável, instalações sanitárias e suprimentos médicos, além da criação de espaços seguros para as crianças.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Documentário 'A voz das mulheres' reúne depoimentos de vítimas da violência

Produção, que será exibida na TV fechada, conta com a participação da inspiradora da lei Maria da Penha

Gracie Santos
28/12/2013

“Perto da sua casa tem uma mulher sendo assassinada neste momento, e você não sabe”. O duro depoimento da delegada de polícia Maria dos Anjos Camardella resume bem o tom do documentário O silêncio das inocentes (Brasil, 2010, 53min), do diretor Ique Gazzola, que o Sesc TV (canal 3 da Sky, 137 da Net e 29 da Oi TV) exibe hoje às 22h (com reapresentação às 20h de segunda). Do nome à condução da narrativa, tudo é instigante e extremamente benfeito no filme, que reúne depoimentos emocionados e comoventes de mulheres que foram vítimas de violência, além de autoridades e especialistas no assunto.

Julia Equi/Divulgação (Julia Equi/Divulgação)
Julia Equi/Divulgação
Só a presença de Maria da Penha, corajosa cearense que lutou por justiça contra o pai de seus três filhos, depois de ter sido alvejada por ele com um tiro nas contas enquanto dormia, em 1983 (o que a deixou paraplégica), já seria suficiente para envolver o espectador. O longa torna palpável a dor daquela que deu nome à principal arma da mulher na luta contra os abusos: a Lei Maria da Penha, de 2006. E vai além: condena a submissão ainda frequente no universo feminino. Importante, por exemplo, é a declaração da relatora da lei, Jandira Fhegali, denunciando todos os tipos de violência, psicológica, moral e física: “Um detetive ou uma arma no armário são formas de tortura.” Mulheres “sem nome” mostram que, ainda que haja muito por fazer, a história começa a mudar: “Depois que meu vizinho foi preso, meu marido nunca mais me bateu”, declara uma das que temem se revelar.

Músico (baterista) e ator de teatro, o diretor Ique Gazzola, em entrevista ao Sesc TV, contou que “o trabalho de pesquisa foi muito difícil, pois a maioria em situação de violência doméstica não queria filmar, temendo represálias.” O filme conquistou o prêmio de Melhor Média-Metragem na 7ª Mostra Latino-Americana de Direitos Humanos 2012 e, este ano, foi selecionado na Mostra Brésil en Mouvements, de Paris (França). Se a Organização dos Estados Americanos (OEA) condenou a situação do Brasil em relação às mulheres violentadas, o que culminou na Lei Maria da Penha, O silêncio das inocentes vem para dar voz ao que não pode ser calado.

"O parceiro deve ser colocado em primeiro lugar", defende Andrew G. Marshall

O inglês Andrew G. Marshall, terapeuta de casais com quase 30 anos de experiência, desafia o senso comum e propõe que, em vez das crianças, o parceiro seja colocado em primeiro lugar. E ele garante que a família toda ganha com isso.


Reportagem: Aline Viana / Edição: MdeMulher

Conteúdo CLAUDIA



Casal feliz
Marshall orienta que os casais fortaleçam a comunicação e priorizem o sexo.
Foto: Getty Images
Inverter a ordem de prioridades e colocar o parceiro no topo da lista, antes dos filhos, parece uma ideia absurda? O inglês Andrew G. Marshall, terapeuta de casais há três décadas, garante que não. "Quando duas pessoas decidem se casar, em geral desejam que seja para sempre. Enquanto os filhos, apesar de extremamente importantes, crescem e vão viver a própria vida. Por isso é fundamental investir na relação", diz. "O problema é que muitas pessoas, empenhadas em se tornar pais perfeitos, põem o casamento no piloto automático e esquecem de si mesmas." Autor de 12 livros sobre relacionamento e de colunas em jornais, como os britânicos The Guardian e Daily Mail, Marshall defende essa tese em sua obra mais recente, I Love You, But You Always Put Me Last (Eu te amo, mas você sempre me deixa por último), ainda sem previsão de lançamento no Brasil. O expert ressalta que, embora a sociedade cobre que as mães ponham os filhos em primeiro lugar, deixando os pais mais livres para fazer outras opções, suas recomendações valem tanto para homens quanto para mulheres. Em entrevista a CLAUDIA, o terapeuta conta que demorou a abordar publicamente suas ideias porque, no consultório, percebia que muitos pacientes resistiam a aceitar que deviam mudar a postura com relação às crianças. A seguir, as principais conclusões do escritor ao se aprofundar em sua teoria.
Um estranho no ninho
A chegada de um bebê provoca mudanças tão intensas que pode colocar em risco a vida sexual dos pais e, às vezes, até o casamento. Mesmo as crianças um pouco mais velhas demandam tanto que é comum não sobrar espaço para o casal. Isso acontece, especialmente, quando a mulher foca toda sua energia - ou quase toda - na maternidade. O parceiro, então, se sente excluído e busca uma válvula de escape, como mergulhar fundo no trabalho. Já a mulher, apesar de lamentar o afastamento do marido, não se esforça para mudar a situação porque se sente valorizada como a figura mais importante para a cria. E a situação só piora: por existir uma cobrança social para que a criança receba toda a atenção da família, o casal não conversa sobre o distanciamento, os ressentimentos vão se acumulando e um abismo maior se abre entre os dois. O problema, diz Marshall, é que, ao embarcarem nesse ciclo, pai e mãe se esquecem de que também são marido e mulher. Mas é possível virar a mesa. "Já ajudei muitos casais que passaram anos submersos no mundo dos filhos a reverter o jogo", conta. Nesse caso, os conselhos do inglês estão baseados em dois pilares: revisão de prioridades e equilíbrio entre casamento, bem-estar dos filhos e as próprias necessidades. "Priorizar o parceiro não é bom apenas para ele e para você mas também para as crianças”, analisa. “Todos ganham com a felicidade do casal."
Sem bancar a supermãe
"Canalizar toda a energia para a criação da próxima geração, além de levá-la à exaustão e ameaçar arruinar seu casamento, faz você e seus filhos ficarem tão identificados que o sucesso deles passa a ser o seu sucesso, assim como o fracasso. Isso os coloca sob uma pressão desnecessária", analisa o inglês. Aqueles que se preocupam em ser "pais perfeitos" em geral não preparam os filhos para os percalços da vida. "Liberem-se para ser apenas bons, pois, quando se permitem errar, os pais também ensinam as crianças a conviver e a aprender com os próprios erros", defende. Marshall garante que os filhos dos casais que topam o desafio de inverter as prioridades e colocam a relação em primeiro lugar se tornam mais felizes. Por outro lado, se eles são o centro da casa, o perigo é grande. "Tendem a perceber a infelicidade dos pais, tentam reaproximá-los e, assim, apesar de não ter maturidade suficiente, se envolvem com uma situação complexa. Pior: imaginam que são culpados pelos desentendimentos."
Combate à traição
Colocar a relação como prioridade faz com que o parceiro se sinta valorizado e amado e, sobretudo, que o casamento fique menos suscetível à infidelidade. Tanto de um lado quanto do outro. Em seu recente livro, Marshall conta a história de uma paciente que teve um caso extraconjugal porque depois da chegada das crianças passou a se sentir abandonada pelo marido. "Em um relacionamento saudável, os filhos surgem como um acréscimo positivo e podem unir definitivamente os pais. Basta que eles não percam de vista que também são amantes."
Investimento erótico
O principal erro dos casais quando se trata de sexo é apostar que o desejo sempre deve surgir espontaneamente. Baseados nisso e diante de tantas novas atribuições no dia a dia, muitos agem como se o amor fosse autossustentável. Não é. "Para uma relação não morrer, deve haver espaço para o romantismo e o flerte. Que tal passar um e-mail ou torpedo com uma mensagem sexy para o parceiro no meio do dia?", diz. "Não há nada de errado em planejar o sexo." Embora a maioria dos casais retome a intimidade nos primeiros meses após a chegada do bebê, a frequência tende a despencar. E atenção: focar nos filhos, segundo o terapeuta, pode ser uma forma de compensar a solidão quando o relacionamento já não satisfaz. "É mais fácil colocar as crianças como prioridade do que falar sobre o assunto e assumir a responsabilidade pelo próprio prazer."
Evitar discutir a todo custo pode ser
tão prejudicial quanto brigar o tempo todo.

Foto: Richard Cannon
Boa conversa
Marshall alerta que a base de uma relação saudável e duradoura é a boa comunicação. É essencial o casal se sentir à vontade para que cada lado diga ao outro como se sente e conte as próprias aspirações e necessidades sem precisar usar de subterfúgios. No entanto, vale manter a vigilância em relação ao tom de voz (que não pode ser acusatório) e, sobretudo, ao modo de se expressar. "Disfarçar desejos em um discurso de que se está fazendo aquilo em prol da família ou dos filhos não permite que o parceiro perceba o que é importante para você", avalia Marshall. "Não mencionar o que incomoda é comum entre casais que se distanciam. Jogar os problemas para debaixo do tapete é ruim porque passa a impressão de que aquele ponto não é tão fundamental para você. Além disso, sentimentos positivos podem ser varridos junto com os negativos", avalia o terapeuta. "É preciso acabar com o mito de que bons relacionamentos são livres de conflitos. Evitar discutir a todo custo pode ser tão prejudicial quanto brigar o tempo todo."
Como um time
Quando os dois se dedicam um ao outro, nasce um casal afinado, no qual o homem não é privado das decisões a respeito dos filhos. Assim, sobra mais tempo para a mulher, e a relação entre pai e filho se fortalece. Incluir o parceiro nas deliberações sobre o andamento da casa e a educação das crianças mostra que a opinião dele realmente importa. "Caso contrário, ele se sente desprestigiado", alerta Marshall. O terapeuta explica que quem não está no controle da relação acaba ressentido e que, pouco a pouco, isso mina a convivência. "Por que não funcionar como um time, em condição de igualdade?", pergunta. "É preciso deixar claro que a opinião dele tem o mesmo peso da sua."
Diversão a Dois
Pequenas atitudes são capazes de renovar a relação. Uma delas é fazer programas de casal com regularidade. "Capriche no visual nessas ocasiões", lembra Marshall. "Com isso, você passará a mensagem de que se importa com o parceiro e está apaixonada." Não ocupe toda a agenda com compromissos com os filhos e todos se beneficiarão. "Se você não negligencia o casamento, mantém a família unida", acredita. "Atender às demandas dos outros sem desconsiderar as próprias pode ser difícil, mas vale tentar. Assim, você aprende a expor seus desejos, ouvir o parceiro e ser assertiva, negociando com firmeza quando as necessidades e vontades de ambos forem incompatíveis."

Assembleia Legislativa aprova projeto que prevê monitoramento eletrônico de autores de violência doméstica

Lei se refere a quem esteja cumprindo medida protetiva de urgência ou cautelar diversa da prisão

18/12/2013 - A Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul aprovou, nesta quarta-feira, por 45 votos, o projeto que trata do monitoramento eletrônico de autores de violência doméstica e familiar. Encaminhada pelo Executivo e sugerida pelo deputado Edegar Pretto (PT), a iniciativa visa a proteger mulheres, familiares e testemunhas.
De acordo com o texto aprovado em plenário, a lei se refere a agressores que estejam cumprindo alguma medida protetiva de urgência (Lei Federal 11.340) ou medida cautelar diversa da prisão. O artigo 2º da lei afirma que "o agressor de violência doméstica e familiar contra a mulher poderá ser obrigado a utilizar equipamento eletrônico de monitoramento para fins de fiscalização". No mesmo artigo, consta que quem "fizer uso do equipamento eletrônico de monitoramento terá preferência na participação nos serviços de educação ou reabilitação".
A lei entrará em vigor na data da publicação.

Magistrados e juízes de todo o país reiteram necessidade de garantir e acompanhar medida protetiva

info Magistrados e juízes de todo o país reiteram necessidade de garantir e acompanhar medida protetiva
Débora Prado/Portal Compromisso e Atitude pela Lei Maria da Penha - A rápida expedição das medidas protetivas de urgência e o acompanhamento para garantir às mulheres em situação de violência a segurança prevista foram elencados como eixo prioritário para a atuação do Poder Judiciário visando a plena efetivação do disposto na Lei Maria da Penha. Em sua quinta edição, o Fórum Nacional de Juízes da Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher (Fonavid) reuniu magistrados e profissionais das equipes multidisciplinares que atuam nas unidades especializadas de apoio a mulheres nos diversos Estados brasileiros e reiterou: a medida protetiva é o principal legado da Lei Maria da Penha no sentido de salvar a vida de milhares de mulheres e contribuir para que elas rompam o ciclo de violência.

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O juiz Álvaro Kalix Ferro, auxiliar da Presidência
do Conselho Nacional de Justiça (CNJ)
e membro do Tribunal de Justiça de Rondônia.
“Nós entendemos que a Lei Maria da Penha, antes de ser uma legislação punitiva, é preventiva e precisamos trabalhar com mecanismos que façam com que a mulher deixe de sofrer agressões e violências. E, para nós, o melhor mecanismo para isso são as medidas protetivas”, explica o presidente do V Fonavid, o juiz Álvaro Kalix Ferro, auxiliar da Presidência do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e membro do Tribunal de Justiça de Rondônia.

“Precisamos trabalhar mecanismos para que a medida seja garantida no Poder Público, de modo que a mulher seja realmente salvaguardada por ela. Além disso, precisamos dialogar com toda a sociedade, mostrar que todos nós somos responsáveis por fazer cumprir a legislação e destacar a necessidade daquilo que nós chamamos de ‘meter a colher’, para acabar com a violência doméstica”, frisa o juiz.

A prioridade foi destacada também por representantes do Poder Executivo que participaram dos painéis. “As mulheres que procuram a rede de segurança não podem morrer, temos obrigação de salvá-las e, para isso, precisamos acompanhar a medida protetiva e amparar essa mulher”, reforçou a secretária Nacional de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência, Aparecida Gonçalves.

Nesse sentido, além das medidas protetivas, os operadores de Justiça e especialistas presentes no Fórum reforçaram também a necessidade da atuação integrada – tanto entre os poderes e serviços do Estado, quanto junto à sociedade. “É preciso somar forças, como inclusive prevê o artigo 8º da Lei Maria da Penha. Há uma grande necessidade de que se integrem todos os poderes e serviços do Estado do ponto de vista operacional”, recomendou a desembargadora Ana Maria Duarte Amarante Brito, membro do Conselho Nacional de Justiça e sua representante na Coordenação Nacional da Campanha Compromisso e Atitude pela Lei Maria da Penha, que proferiu a palestra de abertura do encontro.

Lei Maria da Penha

Nos diversos debates e apresentações nos três dias de evento (27 a 29/11), um tema foi constante: a necessidade de aprofundar os caminhos criados pela Lei Maria da Penha para coibir a violência contras as mulheres no Brasil – e não apenas no aspecto de responsabilização dos agressores.

Conforme lembrou a professora e advogada Alice Bianchini, a lei é considerada uma das três mais avançadas em todo o mundo justamente por contemplar três aspectos fundamentais no enfrentamento à violência: preventivo, psicossocial e punitivo. “Entre os 46 artigos da Lei Maria da Penha, apenas 5 são de caráter criminal”, lembrou.

Nesse sentido, foram compartilhadas experiências locais dos Tribunais de Justiça de diferentes Estados que mantém ações de aprofundamento da Lei Maria da Penha em todos os seus aspectos, como o Justiça em Seu Bairro (TJPB), Patrulha Maria da Penha (TJRS) e o Botão do Pânico (TJES), entre outros.

Os novos projetos de lei para complementar a Lei Maria da Penha, atualmente em discussão no Congresso Nacional, também foram debatidos entre os participantes, sobretudo os resultantes daComissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) sobre a violência doméstica no Brasil.

Os resultados dessa Comissão foram apresentados aos participantes do Fonavid pela senadora Ana Rita Esgário (PT-ES), relatora da CPMI, que elencou os projetos de lei resultantes do processo de apuração da Comissão, como o que prevê a tipificação penal do feminicídio, o que classifica a violência doméstica como crime de tortura e o que inclui o enfrentamento à violência de gênero nos currículos escolares.
juiza Maria Herminia Azoury Silveira Magistrados e juízes de todo o país reiteram necessidade de garantir e acompanhar medida protetiva
A juíza Maria Hermínia Azoury Silveira (TJES)
foi eleita a nova presidente do Fonavid

Juízas de ES e MS são as novas presidentas do Fonavid

Na tarde do último dia do evento, a assembleia geral elegeu por aclamação a juíza capixaba Hermínia Azoury para presidir o Fonavid até o encontro do próximo ano, que será realizado em Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Coordenadora da Violência Doméstica do Tribunal de Justiça do Espírito Santo (TJES), a juíza Hermínia era a vice-presidente do Fórum e foi a idealizadora do Botão do Pânico, projeto de fiscalização das medidas protetivas que acaba de receber o Prêmio Innovare.

A juíza Simone Nakamatsu, que coordenará a realização do encontro do Mato Grosso do Sul, foi eleita vice-presidente do Fonavid.

Carta de Vitória

Os quatro grupos de trabalho que se reuniram durante o Fórum apresentaram seus relatórios para discussão e debates. Desses relatórios saíram os elementos para a elaboração da Carta de Vitória, documento que o V Fonavid divulgará nos próximos dias e que orientará atuação dos juízes da violência doméstica e familiar contra a mulher ao longo dos próximos 12 meses.

http://monitoramentocedaw.com.br/noticias-cedaw/magistrados-e-juizes-de-todo-o-pais-reiteram-necessidade-de-garantir-e-acompanhar-medida-protetiva

Violência sexual na RDC não pode continuar

por Babatunde Osotimehin e Zainab Bangura*
adolescentes Violência sexual na RDC não pode continuar
Adolescentes que foram crianças-soldados na República Democrática do Congo.
Foto: Einberger/argum/EED/IPS.
Nações Unidas, novembro/2013 – Imagine um orfanato de 300 crianças abandonadas por serem fruto de violações sexuais. Agora imagine uma aldeia onde só no último ano foram violados 11 bebês entre seis meses e um ano e 59 crianças entre um e três anos.
A história da violência sexual nos conflitos é tão antiga quanto a guerra propriamente dita. Não distingue fronteiras, condição étnica, religião, nem idade.
A população da República Democrática do Congo (RDC) conhece muito bem o sofrimento da violência sexual. Um documento do Ministério de Gênero indica que, somente em 2012, foram registrados 15.654 casos, alta de 52% em relação ao ano anterior.
Desses crimes, 98% foram cometidos contra mulheres. Nas zonas congolesas de conflito, a idade média das sobreviventes é inferior a 21 anos, e um terço tem entre 12 e 17 anos. No ano passado, 82% de todas as vítimas não tinham completado a escola primária.
Esses não são apenas números. Trata-se de crianças concebidas em violações e abandonadas, e também de mulheres e meninas que diariamente suportam as sequelas físicas e emocionais de semelhante agressão, e de homens e meninos que sofrem em silêncio a vergonha e o estigma associados a esse crime.
Todos os sobreviventes devem receber a atenção necessária, e todos os atores envolvidos devem unir forças para permitir que reconstruam suas vidas e evitem que esses fatos se repitam.
Não foi esse conflito que criou o flagelo da violência sexual que hoje enfrentamos na RDC. As raízes, especialmente a desigualdade das mulheres e o abuso de poder, estão aí há séculos.
Na RDC, e em todo o mundo, a violência de gênero é o abuso mais prevalente, mas menos reportado, de direitos humanos.
O conflito gera insegurança e um contexto de impunidade que, por sua vez, exacerba a violência sexual persistente.
Para erradicar efetivamente a violência sexual nos conflitos devemos redobrar a promoção dos direitos femininos como direitos humanos, e criar mecanismos viáveis que ponham fim à impunidade e enviem uma forte mensagem de que esse abuso de poder, extremo e dominante, não será tolerado. Devemos falar forte e claro: será julgado e será castigado.
A violência sexual em situações de guerra, como a que vive o leste da RDC, apresenta desafios únicos. Segundo o último informe do secretário-geral – da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon –, somente nessa parte do país operam mais de 44 grupos armados, alguns procedentes de países vizinhos.
Quase todos esses grupos estão implicados em crimes sexuais. Também se acusa soldados das forças armadas e da polícia. Nesse contexto, fica particularmente complexo atrair uma ampla variedade de atores estatais e não estatais para garantir que as violações não sejam usadas como arma de guerra.
Os custos econômicos e humanos desses crimes e de outras formas de agressão de gênero são tremendos: incluem a perda de vidas e sustento, a rejeição de famílias e comunidades, e graves consequências para a saúde reprodutiva e mental, inclusive com risco de morte.
Contudo, a violência sexual não é inevitável.
O governo da RDC reconheceu essas consequências e tomou medidas para modificar o discurso público diante do problema. Em 2006, aprovou uma lei que ampliou a definição de violência sexual e promoveu sanções mais severas para os responsáveis.
Em 2009, o país desenvolveu a Estratégia Nacional sobre Violência de Gênero, e em março deste ano o governo e a ONU assinaram um comunicado conjunto expondo as ações concretas que as autoridades adotariam para erradicar esses crimes.
Todos esses são passos na direção correta, mas é preciso fazer muito mais. As leis têm de ser aplicadas, e se deve julgar e condenar os agressores.
Fazer com que impere a lei em um território imenso, onde o direito consuetudinário é, em muitos lugares, a única autoridade reconhecida, representa um enorme desafio para as instituições e os atores envolvidos no combate à impunidade.
Porém, a RDC não está sozinha nessa luta. O sistema da ONU, que inclui as forças de manutenção da paz, também tem uma responsabilidade direta de apoiar e facilitar as iniciativas nacionais.
Assumimos essa missão conjunta para a RDC para aprofundar o compromisso político, potencializando a participação das instituições democráticas, dos dirigentes políticos e da sociedade civil.
Nosso objetivo é que os compromissos assumidos e o trabalho feito pelo governo e pela ONU marquem uma diferença nas vidas de mulheres, meninas, meninos e homens que vivem com temor todo dia.
Nos comprometemos a trabalhar para a eliminação da violência sexual na RDC.
Para alcançar avanços significativos, precisamos do apoio da comunidade internacional, de todo o sistema da ONU e do governo. Também defendemos maior atenção dos doadores nos serviços básicos para os sobreviventes, que incluam educação, saúde, abrigo, sustento e outras ações psicossociais.
A violência sexual na RDC está longe de ter acabado, mas trabalhando juntos podemos pôr fim ao que durante muito tempo constituiu o maior silêncio da história, e escrever seu capítulo final.
Eliminar a violência de gênero e empoderar as mulheres e as meninas constituem a essência das mudanças que esse país deve adotar para alcançar a paz e o desenvolvimento. Envolverde/IPS
Babatunde Osotimehin é subsecretário-geral adjunto da Organização das Nações Unidas (ONU) e diretor-executivo do Fundo de População das Nações Unidas. Zainab Bangura é subsecretária-geral da ONU e representante especial do secretário-geral para violência sexual nos conflitos.

Mulheres colocam nos trilhos os homens no Cairo

por Annabell Van den Berghe, da IPS
egipcias640 Mulheres colocam nos trilhos os homens no Cairo
Nihal Saad Zaghloul, cofundadora de Basma, na estação do metrô no Cairo, onde fez as primeiras campanhas de conscientização. Foto: Cortesia de Magali Corouge/Documentography
Cairo, Egito, 18/11/2013 – A egípcia Nihal Saad Zaghloul, de quase 30 anos, enfrenta como outras jovens o risco cotidiano de ser assediada sexualmente nas ruas do Cairo. Mas a revolução em seu país a levou a perceber que as pessoas podem se unir e que ela mesma pode fazer a diferença. No Egito aumentam as violações cometidas por gangues, no contexto da instabilidade política e da perda de segurança desde a revolução.
Junto com uma amiga, Zaghloul fundou a organização Basma, para conscientizar sobre o assédio sexual nas ruas desta metrópole de 30 milhões de habitantes. Após reunir dezenas de voluntários, no ano passado se mobilizaram pela primeira vez nas ruas próximas à Praça Tahrir e dentro das estações centrais do metrô. Zaghloul acredita firmemente que a educação é o princípio de tudo, e a isso se dedica.
“Nosso sistema educacional está falhando. As escolas do governo funcionam mal e as particulares são muito caras. E isto faz com que a maioria dos jovens egípcios não se eduque. E é exatamente esse grupo que encontramos nas ruas. Estão aborrecidos com a vida, maltratando as mulheres”, pontuou a jovem.
O assédio contra mulheres é bastante normal e até aceito no Egito. Segundo um estudo feito em abril pela ONU Mulheres, 99,3% das egípcias consultadas disseram que foram assediadas sexualmente. Contudo, com a Basma, Zaghloul começou a lutar contra isto. Cada vez que chega uma menina vítima de assédio, ela e sua equipe de voluntários se aproximam dos rapazes ou meninos para sensibilizá-los.
Os primeiros meses foram uma verdadeira luta para a organização. A polícia, que tem entre seus efetivos alguns que costumam participar ativamente do assédio, não levou a sério a iniciativa e causou mais problema, em lugar de oferecer apoio. Apesar disso, Zaghloul observou uma mudança nos últimos meses. Pela primeira vez a polícia está apoiando a iniciativa e participa ativamente da prevenção. Outro fenômeno importante é o aumento de mulheres policiais que patrulham o metrô. A coronel Manal e suas nove colegas mulheres estão especialmente ansiosas em promover a segurança nas estações.
O assédio é um problema cotidiano, mas com a El Eid, uma das principais festividades muçulmanas, realizada na semana passada, estiveram em pleno funcionamento iniciativas públicas e privadas de prevenção. O centro do Cairo sempre foi um lugar onde o fenômeno alcançou níveis máximos. E, ao lembrar a grande quantidade de ataques sexuais que aconteceram durante o mesmo período do ano passado, muitas mulheres têm medo de andar pelas ruas de sua cidade.
Houve uma pausa no assédio durante os primeiros dias da revolução de 2011, quando a Praça Tahrir estava repleta de famílias e o clima era jovial. Mas, quando Hosni Mubarak (1981-2011) foi derrubado, o assédio voltou ao seu ponto máximo. O problema não se relaciona diretamente com nenhuma corrente política ou religiosa específica, sendo mais uma característica da cultura egípcia ao longo das últimas décadas.
Há duas semanas, Manal patrulha o metrô do Egito para conscientizar sobre essa situação. Muito influenciada pela iniciativa Basma, disse que agora a polícia tem mais autoridade e pode prender os responsáveis. Em contraste com os primeiros dias da Basma, atualmente essa força está disposta a cooperar. Na semana passada, Zaghloul e Manal trabalharam lado a lado.
Desde a década de 1990, as mulheres podem viajar no metrô pela cidade em vagões a elas reservados. Mas essa norma é violada com frequência. Os homens aproveitam a oportunidade logo antes de as portas do metrô fecharem para saltarem dentro dos vagões que são apenas para mulheres. Ocasionalmente, entram neles por acidente, mas a maioria o faz de propósito, sabendo que estão cheios de mulheres.
“Se um homem entra no vagão logo antes de fecharem as portas o que podemos fazer? Às vezes as mulheres se irritam, mas, principalmente, sentem medo e olham para o outro lado enquanto ele assedia uma de suas companheiras de viagem”, contou Zaghloul. “Mas, quando uma delas se defende, todas as outras a seguem. É por isso que criamos essa iniciativa, para fazer com que todas se defendam”, destacou.
Há apenas um ano, e pela primeira vez na história recente do Egito, uma jovem chamada Samira apresentou queixa contra um dos vários homens que a atacaram durante um protesto contra o regime militar. E ganhou a causa. “Essas histórias ainda são incomuns. Continuam mostrando as mulheres como as instigadoras e não como vítimas dessas ações. Assim, preferem manter em segredo o que sofreram”, explicou Zaghloul.
“Além disso, se uma mulher recorre à polícia, frequentemente é assediada pelos próprios policiais. Por isso ter mulheres policiais cuidando desse problema é um dever absoluto”, acrescentou a jovem. Até há pouco não se via mulheres policiais nas ruas do Cairo. Esse era um trabalho reservado exclusivamente para os homens. Por meses, Zaghloul e uma dezena de voluntários da Basma patrulharam o lotado metrô e as movimentadas ruas da capital. Atualmente, a coronel Manal lhes dá plena assistência.
Jornalistas são vistos com suspeita, em particular os estrangeiros. O regime interino que governou o país após a derrubada do presidente Mohammad Morsi, em julho, lançou uma campanha contra a imprensa, apresentando-a como espiã e colaboradora da Irmandade Muçulmana. Por isso, Manal também recebeu a IPS com receio. Contudo, uma referência à Basma serviu para quebrar o gelo.
“Há 50 anos, havia tantas mulheres como homens na polícia. Temos que voltar a esse equilíbrio. Só dessa forma as egípcias se sentirão seguras nas ruas do Cairo”, declarou Manal. Como as leis não são claras, ainda é difícil combater o assédio sexual. Porém, a policial pede que todas as vítimas apresentem queixa.
Nem todas as mulheres acreditam que haverá avanços. Hend Elbalouty, de 25 anos, foi testemunha do ataque sexual que uma gangue cometeu, no começo desse ano, contra sua irmã na Praça Tahrir. As acusações que apresentou contra os responsáveis nunca receberam o devido tratamento. “Estamos de novo no ponto de partida”, lamentou a jovem.  “Temos um Estado policial que não funciona. O fato de as mulheres terem mais poder agora não muda o caos que domina o sistema legal do Egito”, acrescentou.
Mohammad Jamees, um passageiro que viaja no vagão dos homens, não é a favor dessa iniciativa. “Combater a delinquência não é um trabalho de mulheres. Inclusive para seus colegas homens, essas situações costumam ser incontroláveis, assim, como podem as mulheres abordá-las?”, questionou.
As leis e os valores tradicionais, bem como uma divisão de tarefas para homens e mulheres, ainda estão profundamente arraigados na sociedade egípcia. Mas Zaghloul é otimista. “A polícia, finalmente, está assumindo a responsabilidade. Levará um tempo para os homens aceitarem a autoridade das mulheres, mas isso é, definitivamente, um passo na direção correta”, enfatizou. Envolverde/IPS

Combate à violência contra a mulher deve ir além das boas intenções, escreve Nobel da Paz

The New York Times 
Shirin Ebadi*

Num hotel em Belfast, no início do ano, histórias de vida e crianças enchiam os quartos e corredores; apesar disso, as ativistas de mais de vinte países que estavam ali não conseguiam se esquecer das velhas amigas que não puderam participar da reunião.

Cantamos parabéns para uma delas: Nasrin Sotoudeh, que estava cumprindo pena de seis anos no temido presídio Evin, em Teerã. Advogada dedicada a ajudar mulheres presas injustamente por seu trabalho em prol de direitos iguais, ela foi acusada de agir contra a segurança nacional ao criticar o regime.

E não era a única. Ali em Belfast, compartilhamos histórias de agressão, encarceramento, tortura, morte e medo. Da Libéria, Mianmar, Colômbia, Haiti, Congo, Sudão, Sri Lanka e outros países, trocamos informações sobre os altos níveis de violência contra a mulher ‒ seja por repressão, ganância, conflito armado ou desigualdade ‒ e a falta de responsabilidade dos governos e da sociedade como um todo.

O que tínhamos em comum era o desejo de oferecer um futuro seguro para nossas filhas e para todas as gerações de mulheres.

Por mais reconfortante que tenha sido encontrar apoio nas semelhantes, é preocupante admitir que nossos pedidos por mudanças continuam um refrão conhecido há décadas: queremos ter o direito de viver num mundo em que as decisões sobre nossos corpos sejam só nossas, de acordo com nossas ambições, sem a ameaça da violência. Infelizmente, essas liberdades continuam a ser vistas como desafios radicais a normas e princípios sociais arraigados.

As boas intenções da comunidade internacional não são suficientes; as palavras que formam declarações e resoluções têm que ser verdadeiras e transformadas em ação para que as sobreviventes sintam alguma diferença e para que se faça progresso efetivo na prevenção do abuso.

Se há um fator que me motiva, sem dúvida é o das mulheres agindo nas comunidades de que fazem parte. Nesses últimos anos, venho observando nossa força coletiva ganhar força e impulso: elas estão em ascensão e exigindo punição para crimes não só contra si mesmas, mas a sociedade como um todo.

No meu país, o Irã, as mulheres lutam incessantemente para desafiar e diminuir os efeitos das leis discriminatórias impostas após a Revolução Islâmica de 1979. Muitas como Nasrin ‒ e a minha jovem colega Bahareh Hedayat, uma universitária condenada a 9,5 anos de cadeia ‒ foram presas por causa de seu trabalho como advogadas, jornalistas ou ativistas e de seu esforço em expor os abusos perpetrados pelo regime.

Apesar da ameaça iminente de punição, as iranianas lançaram a campanha Um Milhão de Assinaturas, em 2006, para atrair apoio dos cidadãos comuns e mudar as leis que promovem a violência contra a mulher. Os protestos públicos se tornaram perigosos demais, sim, com muitas de nós detidas e indiciadas, mas continuamos a luta ‒ e ampliamos nosso objetivo em nível comunitário, para tentar mudar a mentalidade geral a partir de grupos menores.

As iranianas, assim como em muitos outros países, estão exigindo mudanças fundamentais que lhes garantirão o direito a uma vida segura, livre de ameaças. Mulheres do mundo todo, inclusive no Ocidente, lutam todos os dias contra a violência insidiosa dentro da sociedade. As crises políticas e os conflitos armados continuam a gerar abuso e agressão contra nós.

Algumas estão ocorrendo de cima para baixo, mas é preciso ter cuidado para saber o que exatamente isso significa. Depois das recentes eleições presidenciais no Irã, por exemplo, o governo nomeou, pela primeira vez, uma mulher como porta-voz do Ministério do Exterior e outra como líder da missão iraniana em Genebra.

Entretanto, segundo a lei do país, uma mulher casada ainda necessita da permissão por escrito do marido para tirar passaporte. O que aconteceria se o marido da nova embaixatriz a proibisse de viajar?

A nova representante do ministério não está autorizada a ser a única testemunha num tribunal, apesar da responsabilidade de falar em nome de toda uma nação. Segundo o Código Penal Islâmico de 2013, o testemunho feminino vale metade do masculino.

Nossa determinação de mudar os sistemas que nos reprimem forçaram inúmeros governos e a comunidade internacional a agirem.

A África do Sul lançou uma investigação inédita no estupro em massa supostamente orquestrado e perpetrado por Robert Mugabe e seu partido, o Zanu-PF, durante as eleições de 2008 no país vizinho, o Zimbábue; na Guatemala, apesar do grande risco à sua vida, a primeira Procuradora Geral está em busca dos arquitetos do genocídio cometido ali nos anos 80, no qual o estupro era usado para dizimar comunidades.

De fato, neste último ano houve incontáveis atividades para combater a violência a mulher. O Reino Unido deu a largada, motivando os membros do G-8 e outras nações a instituírem um fundo para acabar com a violência sexual. Em setembro, aproveitando a Assembleia Geral da ONU, 113 países assinaram a Declaração de Compromisso pelo Fim da Violência Sexual em Áreas de Conflito, que proíbe anistia para esse tipo de crime em acordos de paz e permite que os agressores sejam punidos em qualquer lugar do mundo. Também promete pôr em vigor um novo Protocolo Internacional, em 2014, para garantir que as provas reunidas possam ser utilizadas em juízo.

Essas iniciativas internacionais são mais que bem-vindas. Quando países como o Congo ‒ descrito pelo enviado especial do Secretário-Geral da ONU como a "capital do estupro" do mundo ‒ se comprometem a obedecer a uma declaração abrangente como essa, é sinal de que as atitudes estão realmente mudando.

É preciso, porém, cautela para não confundir a disposição de assinar um documento com uma verdadeira redução na violência. Tais acordos pouco fazem por aquelas que precisam de ajuda imediata ‒ e ninguém sabe melhor disso que as mulheres responsáveis por suas comunidades.

São elas que veem as promessas feitas pela comunidade internacional deturpadas ou engolidas pelas normas culturais e interesses nacionais.

Alguns dos países que estão assinando esses acordos são os mesmos que financiam e fornecem apoio militar a governos que apoiam abertamente criminosos de guerra e/ou se recusam a prendê-los ‒ como a saga de Omar Al-Bashir, presidente do Sudão que, apesar de acusado pelo Tribunal Penal Internacional de genocídio, inclusive de orquestrar estupros em massa em Darfur, viajava livremente para muitos países.

Tem também os governos que fazem acusações sem assumir a responsabilidade pela violência contra suas próprias mulheres ‒ como no caso que acabei de mencionar da África do Sul, que investiga os casos de estupros no Zimbábue enquanto sofre com uma das taxas mais altas de violência contra a mulher do mundo.

Apesar disso, em ocupações, revoluções e levantes, no Oriente Médio e outros lugares, as mulheres estão tomando a dianteira ‒ e se tornando altamente visadas.

Na Índia, elas exigiram serem ouvidas em protestos contra crimes brutais, foram às ruas pedindo mudanças no regime de lugares como Tunísia e Iêmen e lotaram um tribunal para contar como foram violadas na frente do ex-presidente que estava sendo julgado por genocídio na Guatemala.

Depois de anos de luta para se fazerem ouvir, aquelas que lidam com comunidades afetadas pela violência estão fazendo o que podem para efetivar as mudanças. A Campanha Internacional pelo Fim do Estupro & Violência Feminina em Zonas de Conflito, por exemplo, une mais de 700 organizações que variam desde forças poderosas como a Anistia Internacional e a Human Rights Watch a grupos locais como o Hospital Panzi, no leste do Congo, um lugar inacreditável, que recupera mulheres dilaceradas pela violência sexual. Literalmente.

Juntas, elas formam uma corrente humana que usa a voz coletiva para ser ouvida não só nos salões do poder, mas nas ruas, casas e escolas. A meu ver, o segredo da verdadeira mudança reside na força da organização de base.

Muitas de nós vivem num sistema patriarcal que justifica o uso da violência; mudar o sistema em si levaria séculos. Como mulheres, cidadãs e parte da comunidade global, temos que fazer com que a sociedade assuma sua responsabilidade. Ao mesmo tempo, é preciso reconhecer que nos tornamos, sim, uma ameaça ao patriarcado e aos governos que ameaçam nos silenciar.

Minha colega Nasrin Sotoudeh, que não pôde se juntar a nós em Belfast, foi solta em setembro pelas autoridades iranianas, dias antes da viagem do novo presidente, Hassan Rowhani, à Assembleia Geral da ONU.

Aquelas de nós que batalham para defender os direitos da mulher no Irã sabem que o regime a libertou apenas para apaziguar os ânimos da comunidade internacional e não por ter mudado de ideia ‒ e embora incrivelmente felizes de vê-la livre, sabemos que sua liberdade e de muitas outras não é completa.

As promessas são boas, mas as mudanças são ainda melhores. Um grupo de mulheres decididas, seja reunido num salão, dançando e cantando, ou em espírito, energizado, corajoso e pronto para responsabilizar quem quer que seja por seus atos ‒ essa é a verdadeira revolução.

*Shirin Ebadi recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 2003. É uma das fundadoras da Iniciativa Nobel das Mulheres, organização global que administra com outras cinco laureadas, e é uma das diretoras da Campanha Internacional pelo Fim do Estupro & Violência Feminina em Zonas de Conflito.