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sábado, 31 de janeiro de 2015

Violência contra população LGBT será registrada por hospitais

Governo cria comissão para enfrentamento LGBT. Participam da solenidade, os ministros da SDH/PR, Ideli Salvatti, Saúde, Arthur Chioro e Secretaria-Geral da Presidência, Miguel Rossetto (Antonio Cruz/Agência Brasil)
Além da criação do grupo que combaterá violência contra população LGBT, o ministro Arthur Chioro anunciou  mudanças  em  fichas  de  regisro  de hospitais que beneficiarão essa comunidadeAntonio Cruz/Agência Brasil



















29/01/2015 Michèlle Canes - Repórter da Agência Brasil Edição: Stênio Ribeiro

Uma alteração na ficha que faz notificações dos casos de violência que chegam a todos os hospitais públicos e particulares do país vai ajudar a recolher dados sobre agressões contra lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais (LGBT). O anúncio foi feito hoje (29) pelo ministro da Saúde, Arthur Chioro, durante assinatura de uma portaria que cria comissão interministerial para combater a violência contra essa população. 

Segundo o ministro, além dos dados gerais e informações sobre o caso, dois campos foram acrescentados. O primeiro é o de orientação sexual, onde o profissional da saúde poderá registrar se o paciente agredido é heterossexual, homossexual ou bissexual. A segunda informação a ser recolhida é relativa à identidade de gênero e traz as opções de travesti, mulher transexual, homem transexual.

“Com essa simples introdução, vamos gerar uma capacidade de informação decisiva na orientação de um conjunto de políticas públicas e devolver ao movimento social a possibilidade de ter informação sobre o que acontece, como, em que locais e circunstâncias” disse Chioro.

O uso dos dois novos campos foi testado pelo Ministério da Saúde no ano passado. Agora, os profissionais da área estão sendo capacitados, e a expectativa é de que ainda este ano a ficha passe a ser usada em todo o país. Para o ministro, a medida vai qualificar ainda mais a portaria assinada hoje.

Com a criação da comissão interministerial, as ações implantadas pelos cinco ministérios poderão ser integradas. As secretarias de Direitos Humanos da Presidência da República e de Políticas para as Mulheres, os ministérios da Justiça e da Saúde e a Secretaria-Geral da Presidência da República assinaram o documento.

“Esta portaria vai fazer duas ações: a primeira é acompanhar todos os processos de notificação, de inquérito e de ação judicial, envolvendo violência contra lésbicas gays, travestis e transexuais. A outra ação é de acolhimento e acompanhamento das vítimas”, explicou a ministra de Direitos Humanos, Ideli Salvatti.

A ministra reforçou que, na área da saúde, o registro será importante para o processo de acompanhamento. Para ela, outro recurso importante são as ouvidorias. “As nossas ouvidorias vão permitir acompanhar a abertura do inquérito, junto com o Ministério da Justiça, e depois o processo judicial para que haja punição.”

De acordo com Ludymilla Santiago, ativista da Associação do Núcleo de Apoio e Valorização à Vida de Travestis, Transexuais e Transgêneros do Distrito Federal e Entorno (Anav-trans), a ação é um passo para outras conquistas. “Todas as vezes que podemos contar com uma ideia, fórmula ou ação, isso faz com que almejemos coisas maiores e nos coloca em um patamar de não achar que vivemos em um governo que tem algumas questões estagnadas, principalmente quando se fala na comunidade LGBT.”

Dados da Ouvidoria Nacional e do Disque Direitos Humanos (Disque 100) mostram que entre 2011 e 2014 foram registradas mais de 7.600 denúncias de violação contra a população LGBT. No ano passado, 232 casos foram contra travestis e transexuais. Os estados com maior número de registros foram São Paulo (53 denúncias), Minas Gerais (26) e Piauí (20). A discriminação foi a causa de 85% das denúncias e a violência psicológica esteve presente em 77% dos registros.

Desigualdade de gênero custa US$ 9 trilhões, aponta relatório da ActionAid

A desigualdade de gênero no mercado de trabalho custa, todos os anos, US$ 9 trilhões às mulheres nos países pobres – mais do que os PIBs da Inglaterra, França e Alemanha juntos – afirma um relatório da ActionAid. Isso acontece porque seus salários são menores que os dos homens e elas não têm os mesmos níveis de empregabilidade. O cálculo foi feito com base nos rendimentos médios de homens e mulheres nos países em desenvolvimento.
Não podemos falar em desigualdade sem falar sobre a exploração do trabalho das mulheres. Enquanto líderes mundiais se encontram em Davos, na Suíça, para o Fórum Econômico Mundial, o relatório da ActionAid chama atenção para isso. A adoção de medidas para conter este problema pode melhorar sensivelmente a vida das mulheres, assim como ajudar as comunidades onde vivem, já que elas costumam gastar seus salários em alimentação, saúde e educação de suas famílias.
A ActionAid avalia que existem duas principais causas para a grande desigualdade nos países em desenvolvimento: as mulheres costumam ter empregos precários e exploratórios, trabalhando em fábricas de roupas, sendo vendedoras ambulantes ou empregadas domésticas. E elas tão pouco recebem as mesmas oportunidades de emprego que os homens, porque gastam uma boa parte do seu tempo cuidando de crianças, idosos e familiares doentes, todo o trabalho que é invisível e não remunerado. De acordo com o Banco Mundial, as mulheres passam até dez vezes mais horas que os homens em trabalhos não remunerados relacionados ao lar e à família.
Nos países pobres, as obrigações femininas ainda costumam incluir a coleta de combustível e água. A coordenadora de Políticas da ActionAid no Reino Unido, Lucia Fry, afirma:
"A cada ano, o trabalho das mulheres pobres subsidia a economia global com US$ 9 trilhões. Essas mulheres estão na base da pirâmide, presas a formas precárias de trabalho remunerado, enquanto assumem uma pesada carga de trabalho não remunerado, cuidando de suas famílias. Estamos falando das mulheres nas favelas de Bangladesh, que passam horas numa fila para pegar água para sua família, cozinham refeições em uma fogueira sob uma lona, limpam suas casas e depois passam 12 horas num turno de trabalho numa fábrica em troca de salário baixíssimos em condições terríveis de trabalho antes de retornarem para casa e retomar a jornada doméstica." 
Mulheres vivendo em situação de pobreza têm um grande potencial econômico e poderiam melhorar suas próprias vidas e de seus familiares. Os custos da desigualdade econômica para as mulheres não são apenas financeiros, também afetam suas escolhas de vida, deixando-as vulneráveis à violência e outras formas de discriminação e exploração.
A ActionAid pede uma ação conjunta de governos, empresas e instituições internacionais para valorizar o trabalho feminino na sua totalidade, desde suas funções de cuidadoras da família e da comunidade, até suas longas jornadas de trabalho.
"Este é um problema enorme e não algo que vamos corrigir de um dia para o outro, mas há passos que podemos tomar para tornar as coisas melhores para milhões de mulheres pobres em todo o mundo. Precisamos parar de acumular lucros sobre as perdas das mulheres pobres. Precisamos que os governos e as empresas se atenham a normas acordadas mundialmente a respeito dos direitos humanos e trabalhistas, livrem-se de leis e práticas discriminatórias, adotem políticas favoráveis à família e promovam as vozes das mulheres em todos os níveis."

Empresas têm a ganhar com mulheres nos conselhos, diz CEO da Fesa, Denys Monteiro

(Brasil Econômico, 29/01/2015) Estive no encontro global de sócios da IIC Partners, realizado em Nova York. Tive o prazer de assistir ao painel sobre mulheres em conselhos. Um grupo de mulheres incríveis, com experiências executivas fascinantes e agora contribuindo em sua plenitude em conselhos de companhias diversas, com capital aberto ou privado, com ou sem fins lucrativos, partilharam seus pontos de vista: Janice Ellig, do YMCA; Elaine La Roche, da Marsh e China Construction Bank; Lulu Wang, da MetLife; e Mary Cirillo, da Thomson Reuters.

Um dos temas levantados foi a criação de cotas para mulheres em conselhos de administração. A Noruega foi o primeiro país a estabelecer, em 2003, uma lei que exige no mínimo 40% dos assentos dos conselhos para mulheres. A França aprovou, em 2007, legislação que regulamenta percentual de pelo menos 25% de mulheres no conselho. Na Inglaterra, órgãos reguladores já estão solicitando às empresas informações sobre a inclusão de no mínimo 30% de candidatas do sexo feminino em suas buscas para executivos e conselhos.

O interessante do debate é que nenhuma das presentes defendia a estipulação de cotas nos Estados Unidos. Por quê? Por um lado, todo acionista está em busca do melhor perfil em seu conselho. Por outro, porque não haveria mulheres com track record suficiente para alimentar os conselhos de todas as companhias americanas. A melhor justificativa foi dada por estudo da ONG norteamericana Catalyst, que aponta que empresas que têm mulheres no conselho têm desempenho financeiro melhor dos que as que não têm. Os números falam por si: 84% em retorno sobre vendas, 60% em retorno sobre capital investido e 46% em retorno sobre o patrimônio. Essa justificativa deveria ser suficiente para convencer qualquer empresa a ter em seu conselho presença feminina relevante.

O debate sobre a diversidade de gênero nos conselhos de administração é ainda recente nas discussões da Governança Corporativa no Brasil. Contudo, ganha cada vez mais destaque com a adoção de regras ou adesões de outros países à presença feminina nos postos de liderança.

Nos últimos 20 anos, registramos na Fesa que aproximadamente 35% dos profissionais recrutados para nossos clientes são mulheres. Infelizmente são poucas as que chegam ao topo das organizações e, menos ainda, as que chegam aos conselhos. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), apenas 7,7% das mulheres ocupam posições nos conselhos de administração. Essa realidade precisa mudar, não apenas pela diversidade ou pela possibilidade de obrigatoriedade da lei, mas, novamente, porque melhora os resultados das empresas. É uma matemática que deveria por si só forçar a mudança de mind set.

O que posso dizer é que estamos atentos a este movimento, pois temos como um de nossos valores centrais a crença de que a diversidade traz riqueza. Contamos com a meta de ter 50% de candidatos apresentando diversidade — não só de gênero, mas de crenças, backgrounds, etc. Não é uma tarefa fácil, mas estamos evoluindo com grande velocidade na identificação de mulheres para conselhos administrativos. Espero que as organizações encontrem espaço para que elas possam dar sua contribuição na esfera mais alta de suas organizações e, no fim do dia, lucrar com isso.


Grávida demitida tem direito a estabilidade mesmo com recusa a reintegração

30 de janeiro de 2015
Uma mulher demitida no começo da gestação e que se recusa a ser reintegrada ao trabalho deve, mesmo assim, receber indenização pelo período de estabilidade provisória. Isso porque a gravidez e a dispensa imotivada impõem o pagamento da indenização substitutiva do benefício. O entendimento foi da 8ª Turma do Tribunal Superior do Trabalho, que condenou um mercado de Aracruz (ES) a pagar o montante devido a uma operadora de caixa.
O mercado admitiu a trabalhadora em 1º de outubro de 2013, em contrato de experiência. No dia 22 do mesmo mês, ela constatou, por meio de exame de sangue, que estava grávida de dez semanas e cinco dias. O empregador sabia da gravidez e mesmo assim a demitiu antes que ela completasse o primeiro mês no trabalho. Quatro meses depois, o mercado propôs a reintegração, que foi recusada.
Em reclamação trabalhista, a operadora de caixa requereu o recebimento de indenização referente ao período da estabilidade provisória garantida pelo artigo 10, inciso II, alínea b, do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT), que vai desde a confirmação da gestação até o quinto mês pós-parto. O juízo da Vara do Trabalho de Aracruz, porém, julgou o pedido improcedente, com o entendimento de que a recusa à reintegração resultou na suspensão do contrato de trabalho.
O Tribunal Regional da 17ª Região (ES) modificou a sentença e condenou o estabelecimento ao pagamento de indenização, porém relativa apenas ao período entre a data da dispensa e a proposta de retorno às atividades.
No exame de novo recurso, agora ao TST, o desembargador convocado João Pedro Silvestrin, relator, ressaltou que o pagamento dos salários e demais direitos deve abranger todo o período legal, de cinco meses após o parto. "O estado gravídico e a dispensa imotivada impõem o pagamento da indenização substitutiva da estabilidade provisória, a despeito de a empregada não intencionar a reintegração", afirmou. Ele acrescentou que a a estabilidade tem por objetivo não só a proteção da gestante, mas também do bebê — e por isso, é irrenunciável. A decisão foi unânime. Com informações da Assessoria de Imprensa do TST.
Processo RR-3500-18.2014.5.17.0121

Alcoolismo: tudo o que você preferia ignorar | ID #6

Frederico Mattos
Melhor do PdH, Mente e atitude, Id

Nota do autor:  No consultório e entre amigos sempre noto um tipo de questionamento velado sobre o alcoolismo, de como começa, como identificar e como tratar. Sempre comentam de um conhecido, pai de amigo ou narram histórias que já ouviram falar. É dificil vê-los se perguntando honestamente sobre sua própria relação com o álcool.

Pensando nisso, resolvi escrever na coluna #ID sobre o assunto – mesmo sem uma pergunta de leitor como ponto de partida – abordando vários aspectos importantes dessa experiência que pode ser a de muitos, mesmo que ignorem ou desconheçam.

Sempre que pensamos num alcoólatra (hoje o termo é "alcoolista"), logo vem à mente a imagem clássica do tiozinho com barba mal-feita cambaleando pela rua com a garrafa de pinga pura, caindo na frente da calçada de casa vomitando, fazendo toda a vizinhança olhar com desprezo e vergonha para aquele vagabundo sem caráter, violento, que faz mal à família.

Nunca pensamos numa loira linda como a personagem da namoradinha de "Alfie, o sedutor" ou na delicada personagem de Meg Ryan no filme "Quando um homem ama uma mulher". O bêbado é sempre o pai dos outros ou o garotão de balada que sai com o energético e vodka na mão. Ele está sempre bem longe e nunca dentro de casa.

Pelos trajes e perfil de sucesso, seria difícil apontar Don Draper como alcoólatra

A realidade não é bem essa. Não nos é tão nítido ou perceptível quando alguém passou da dose "moderada" e incidiu numa doença silenciosa, socialmente estimulada, que rende bons papos entre amigos e mata muitas pessoas direta e indiretamente – ainda que os dados estatísticos não consigam revelar a extensão e gravidade do assunto.

Todo mundo já ouviu uma história envolvendo álcool que não terminou bem. O problema é que ignoramos o fato de que a história não precisa culminar em morte ou paraplegia para ser uma tragédia.

Como saber que estou passando do ponto de "beber moderadamente"?

Todas as propagandas de bebida alcoólica estimulam os usuários a beber moderadamente. Ocorre que não fica muito claro exatamente qual seria esta medida. Muitos questionam, então, à partir de quando se pode diagnosticar o alcoolismo. Ou continuam bebendo, então, sem fazer a mínima ideia de que passaram do  ponto.

A Organização Mundial da Saúde alerta sobre o que é o razoável.

"O consumo não pode superar o equivalente a três copos de chope ou apenas uma dose de uísque por dia. Para quem costuma beber diariamente mais de duas latas de cerveja ou duas doses de destilado, como uísque ou pinga, aqui vai um alerta: o nível de álcool presente nessas quantidades de bebida está acima do recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), podendo causar danos ao organismo. De acordo com os especialistas, as pessoas saudáveis podem consumir, no máximo, 30 gramas de álcool por dia. "

Doses razoáveis. Mais do que isso começa a configurar algum tipo de dependência que pode ter sintomas declarados ou sutis. A questão é que muita gente perde a linha com menos que esse "razoável" e outras aguentam bem mais do que essa dose aconselhada.

Cada organismo reage de um jeito. Eu tenho um critério que uso para avaliar caso a caso, usando os seguintes marcadores.

Frequência

Alguém que toma bebida uma vez ao dia é alcoolista? E aquele que usa apenas uma vez por semana? Em ambos os casos, se ele faz isso com regularidade ininterrupta ao longo de 3 meses, sim.

Por isso, sempre peço para que a pessoa fique de 3 a 5 meses sem colocar uma gota de álcool na boca, para que ela perceba algum tipo de alteração substancial na sua rotina e humor como irritabilidade, descontrole dos impulsos (come, transa ou grita mais), tristezas súbitas e sem razão, mudança do sono (insônia ou sonolência), comportamento acuado ou retraído.

Normalmente a própria pessoa não consegue perceber essas mudanças, o que talvez torne mais efetivo perguntar para aqueles que estão à sua volta.

E, sim, podemos ter os alcoolistas constantes, ocasionais e de fim-de-semana. O que faz entrar na categoria é o fato de, na sua devida frequência, a bebida ser considerada "sagrada".

Irrecusabilidade

O outro critério é o grau de controle que a pessoa tem sobre as quantidades. Ela se comprometeu a tomar uma dose e toma duas, disse que ia beber dia sim e dia não e toma todos os dias. Ela cria situações sociais com frequência e está sempre bebendo. Acha que aguenta sempre um pouco a mais e já não fica alterada com a mesma quantidade de bebida de antes.

Esses são indicadores sérios, afinal, se uma pessoa vai criando resistência ao álcool é um sinal de avanço da doença. Os adeptos ao álcool adoram dizer que podem beber a vontade que nunca vão cair ou dar vexame. Esses são os mais doentes.

Já notou aqueles mendigos que se alimentam de cachaça pura e nunca comem nada? Pois é, eles tem uma baita resistência. Isso não quer dizer nada, a não ser que estão para além do comprometimento alcoólico.

Seqüelas

Os efeitos do uso constante do álcool é visível em pelo menos 3 campos mais diagnosticáveis.

1. Físico: alteração no organismo e doenças decorrentes do alcoolismo que afetam o  sistema cardíaco, nervoso e gastrointestinal – fígado, pâncreas, estômago e intestino, só para citar os órgãos mais afetados.

2. Social: faltas e atraso no horário de trabalho, diminuição da produtividade pessoal, perdas de compromissos sociais, problemas de relacionamentos conjugais – agressão física, discussões – infrações no trânsito e acidentes caseiros.

3. Psicológica: alteração do sono/sexualidade/alimentação, mudança de comportamento, alterações de temperamento, ansiedade constante, perda de motivação global, distrabilidade (perda de atenção em atividades que exijam concentração), falta de rumo pessoal.

O autoengano

O grande problema é que a pessoa que transpôs o uso moderado e adentrou a zona do alcoolismo, em geral, não percebe quando isso aconteceu. Ela entende que se consegue manter a família, o trabalho e as contas pagas, está tudo ok. A pergunta é: em que condições isso é mantido? O sujeito que chega em casa e toma o uísque dele sem – na própria cabeça – perturbar ninguém, deveria ser condenado e chamado alcoolista?

Os adeptos do álcool vão dizer que é exagero afirmar que sim. Afinal, "bêbado é quem bate na mulher".

Homens de família não cometem agressões

O álcool – como qualquer outra substância que altera o funcionamento do corpo e da mente – pode, no começo, causar muito prazer e nenhum desprazer, depois causar algum prazer e pouco desprazer, depois causar raro prazer e muito desprazer.

Nenhum dependente de álcool vai admitir que chegou nesse ponto. E o pior, em geral, ele próprio não está em condições de identificar isso.

Violência e álcool

O álcool é um dos co-responsáveis por grande parte dos crimes, pois em maior ou menor grau, está presente como coadjuvante nas tomadas de decisões criminosas.

Nos crimes passionais está quase sempre atuante como fator desencadeador da ação violenta. Nas vinganças e brigas de bar/balada fazem parte do gatilho impulsivo que transforma um simples desentendimento numa guerra.

Além disso, temos os crimes domésticos contra mulheres e crianças em que vemos o álcool como motivo de discussões e desinibidor de agressividades latentes entre casais, pais e filhos.

Os acidentes de trânsito com ou sem vítimas fatais quase sempre estão associados ao uso do álcool.

Cultura do álcool

O álcool sempre esteve presente em diversas culturas e não é na atualidade que ele celebra a roda de amigos ou a reunião de negócios. Até as tentativas de tornar o álcool ilegal fracassaram. Isso reflete o apelo que ele tem na vida cotidiana.

Vivemos num mundo mais enjaulado emocionalmente. Apesar da aparente liberdade de expressão que existe, a real comunicação, de coração para coração, não acontece tão naturalmente. Isso criou a ideia coletiva de que algum tipo de liberdade especial precisa ser mobilizada para que o sujeito se sinta plenamente feliz. Viagens, praias, amigos, pé na estrada, sexualidade sem tabus, enfim, tudo o que remeta a clichês sobre a sensação de ser dono do próprio nariz e senhor do próprio destino.

As empresas e os publicitários sabem como utilizar essas imagens para vender seus produtos. Associam a liberdade a pacotes turísticos, carros, comidas, álcool e outros tantos produtos que apontam como ingredientes para uma vida bem vivida.

Às vezes, alguém em pleno surto alcoólico vira herói

Assumir em público ou entre uma roda de amigos que não bebe é até considerado careta ou sinal de moralismo e chatice. Se duvidar, leia com atenção alguns comentários nesse texto.

Na nossa cultura, histórias de bêbados são contadas de forma engraçada e cheias de aventuras. Feliz é quem bebe. Se você não bebe (está implícito), corre o sério risco de se descobrir uma pessoa infeliz.

Ou seja, a associação felicidade-bebida em oposição a infelicidade-abstinência é forjada pela mídia e perpetuada sutilmente pelas pessoas.

O glamour de cada bebida

A cultura do álcool acaba associando as bebidas aos momentos distintos de descontração para induzir ao consumo de acordo com o público-alvo. Cervejas associadas com homens jovens, uísque com homens mais velhos, batidas de vodka para o público jovem em geral (mesmo tradicionalmente sendo dos mais velhos) e os vinhos como bebidas para casais românticos.

Baladas, jantares e happy hours são sempre regados a álcool. As pessoas falam das bebidas como se falassem de amigos queridos que não podem faltar em nenhum ambiente de descontração e paquera. O mais intrigante é ninguém questionar isso.

Por que a leveza, o riso e as paqueras estão sempre sendo intermediadas e facilitadas pelo uso de algum aditivo?

Se no começo uma pessoa bebia porque tinha vida social, do meio para a instalação do alcoolismo, ela tem vida social para beber.

Os adolescentes

A adolescência é a fase mais vulnerável da vida de uma pessoa. Quando já não se tem mais a presença constante dos pais, mas ainda não se tem uma identidade adulta que cria e fortalece a autoestima. Quando se procura uma tribo para se inserir, identificar e criar seu modo próprio de agir.

Nesta fase cria-se uma aversão por qualquer forma de autoridade e regra de vida que venha de pessoas que não são da sua idade. Os garotos com comportamento mais impositivos e as garotas mais carismáticas e sexy tornam-se mais populares e ditam as regras. São eles que decidem quem pertence ou não ao grupo.

Nessa luta por pertencimento – frequente em casos de estruturas familiares frágeis – adolescentes se submetem a qualquer tipo de código de conduta para sentir e mostrar que existem como seres independentes.

Se o álcool é um desses códigos, eles vão beber até cair para passar no ritual de aprovação. Quanto mais fortes forem para aguentar shots de tipos variados de bebidas, mais valor têm no grupo. Como nossa sociedade está carente de rituais de passagem legítimos, a bebedeira fecha de um jeito estranho essa lacuna importante do desenvolvimento social do jovem.

Se esse adolescente traz consigo problemas de autoafirmação, patologias prévias, comportamento compulsivo e genética desfavorável, a possibilidade de instalar-se o vício desde jovem será bem alta.

Homens bebem mais

O mito de que os homens bebem mais que as mulheres só é justificável pela massa física distinta entre os gêneros. Afinal, o metabolismo de um indivíduo maior dá conta de uma quantidade maior de álcool. Porém, o índice de alcoolismo vem crescendo no público feminino, que em geral toma bebidas mais adocicadas e equiparando-se aos homens.

Vejo apenas motivações diferentes nos gêneros. Os homens buscando projetar uma imagem socialmente mais poderosa, afugentar sua vulnerabilidade e buscar sua interioridade. E as mulheres usam o álcool como "remédio" para suas dores emocionais.

As fases, os animais e o cérebro com o álcool

Metáforas de animais quando se referindo a pessoas que bebem não estão muito longe da realidade. Ainda que dividam opiniões, são úteis para ilustrar como começa a se comportar o cérebro humano.

A principal e primeira área afetada do cérebro é o córtex frontal (quase na região da testa), responsável – entre tantas funções – por regular os nossos comportamentos sociais e o planejamento futuro. É ali que se concentram os registros de moralidade e noção de consequência.

Por isso, o macaco é considerado o primeiro animal da escala da embriaguez, já que a pessoa fica leve, divertida e desinibida.

Depois, o álcool atinge outras áreas cerebrais como as amígdalas, responsáveis por regular as emoções básicas. O leão e o cordeiro ilustram esta fase, já que a pessoa pode ficar destemida e briguenta (liberando impulsos agressivos reprimidos) ou mansa e chorosa (mais emotiva e amorosa).

Por fim, o porco, por ser a fase final em que todo o córtex é atingido e só permanecem as funções básicas do tronco cerebral que regulam estar ou não em pé, respiração e coordenação motora. Nessa hora o sujeito já está vomitando, entrando em colapso, coma alcoólico e caindo sujo onde estiver. É o apagão total.

Psicopatologias ocultas

Muitas pessoas desconhecem os problemas subliminares do alcoolismo, pois ele costuma ser consequência de psicopatologias pré-existentes que se agravam com seu uso e por isso criam um ciclo destrutivo. A pessoa bebe para não ficar deprimida e fica deprimida porque bebe. O álcool acaba sendo uma maneira ineficaz de automedicação para "ludibriar" os sintomas originais.

Os principais quadros associados ao alcoolismo são:

1. Transtornos de personalidade: transtornos que afetam o humor como quadros de narcisismo, histriônicos, borderline, obsessivos e esquiva.

2. Transtornos de humor: depressão, bipolaridade, distimia.

3. Psicoses: esquizofrenia.

4. Transtornos ansiosos: TOC, ansiedade generalizada, síndrome do pânico, ansiedade social.

Traduzindo, o álcool não cura estas patologias. Ao invés disso, as potencializa. Por esta razão, elas são tratadas em conjunto com médicos, psicólogos e grupos de apoio.

Como esses transtornos possuem componentes genéticos, o risco é ainda maior de sedimentar patologias que poderiam ficar hibernando por toda uma vida.

Psicologia do alcoolismo

O alcoolismo é um tipo de compulsão. Ou seja, a pessoa passa pelas fases de angústia seguida de aumento de tensão, uso do álcool, culpa, remissão e novo ciclo de angústia-tensão-álcool-culpa-remissão.

A pessoa pode já ter bebido muitas vezes e, se estava num estado emocional equilibrado, o álcool foi um distrator menor na sua dinâmica de personalidade. No entanto, se a fase é de baixa e falta de estabilidade, é aí que pode ser criada uma janela de oportunidade para que o alcoolismo se instale.

Então, aquele sujeito que nunca se viu dominado por uma necessidade compulsiva de beber começa a usar níveis cada vez maiores, mais frequentes e irrecusáveis de bebida. De repente, a trama está criada com consequências imprevisíveis na vida de uma pessoa.



Eric Berne, psicólogo criador da Análise transacional e escritor do livro "Os jogos da vida" diz que não existe um alcoolismo, mas um papel de de alcoólatra que uma pessoa desempenha e que é alimentado inconscientemente por outras figuras. Segundo ele, existem 5 atuantes nesse jogo que podem pertencer a cinco pessoas ou a apenas duas que se revezam nos papéis.

1. Alcoólatra;

2. Perseguidor: cobra, persegue, humilha, costuma ser o parceiro(a) afetivo ou um dos pais;

3. Salvador: médico, terapeuta, amigo, sacerdote que vai tentar livrar o alcoólatra do vício;

4. Otário: aquele amigo que incentiva a bebedeira, paga a bebida ou a própria mãe que financia o filho por medo de que algo pior aconteça ou por fazer de conta que acredita na mentira contada para pedir o dinheiro.

5. O profissional: dono do bar/balada que dá o suprimento do álcool, mas sabe a hora de parar vender, até que o alcoólatra encontre outra fonte de álcool mais permissiva.

Em muitos casos, a mãe/esposa cumpre três dos cinco papéis. O papel 4, arrumando o filho/marido depois da bebedeira. Depois, o papel 2, cobrando e punindo. E, finalmente, o 3 tentando ser a pessoa bondosa que tenta salvar.

Com isso, acaba alimentando e realimentando essa dinâmica doentia onde é a ressaca o principal evento, já que é ali onde o alcoólatra vai em busca da redenção e do perdão. E faz as promessas acompanhadas de autopiedade e autoacusação.

Ele está sempre contando para os outros o quanto sofre e é perseguido por um mundo de pessoas que não o compreendem. É um jogo de desastre-redenção em que se busca um pai severo para dar palmadas em sua bunda. Uma maneira infantil de agir sobre uma vida sempre levada de forma inconsequente e cheia de acusações externas.

O domingo é o dia da ressaca, o sujeito vai reerguendo sua moral na segunda e terça-feira, começa os encontros sociais na quarta e quinta-feira, na sexta-feira já está na febre e o pico do sábado sem limites de semana em semana, sem que ninguém nota como esse indivíduo tão festiva pode ter algum problema sério. Pessoas que sorriem são vistas como felizes. Quem irá reparar no desastre oculto?

Aquela pessoa que era inibida se sente socialmente mais encorajada para paquerar ou demonstrar seus sentimentos de afeto e alegria. Se antes era bloqueada e apática se vê cheia de vivacidade e acaba alimentando esse ciclo de muleta psicológica que no meu entendimento é o principal mantenedor do alcoolismo, muito mais até do que a dependência física, que por si só já é explosiva. Não há palhaço sem um circo ou platéia, não há um bêbado dissociado de um mundo que superestima o álcool e uma família e parceiros amorosos que completam o espetáculo.

É como se todos estivessem na mesma trama de preguiça emocional. O alcoolista usa tanto a muleta que atrofia sua habilidade psicossocial que os outros também se envolvem num drama sem fim, nunca assumindo suas próprias dores, já que têm uma pessoa "tão doente" ao lado. A casa emocional de todos está em ruínas, mas a mais gritante é daquele que termina caído na sarjeta.

Acredito que uma vida genuína é aquela que consegue transcender os papéis típicos que giram em torno da tríade neurótica vítima-algoz-salvador para assumir um protagonismo consistente e transformador do mundo interno e externo.

Por que alimentamos essa cultura?

Eu respondo com outra pergunta: por que o álcool deveria perder o prestígio se ele causa tanta felicidade?

Entre numa roda de amigos que já estão alterados e as histórias são previsíveis: acontecimentos de outros carnavais "engraçados". O amigo que perdeu a estação de trem porque estava bêbado, o outro que enfrentou o segurança da balada e saiu com olho roxo, a menina que não faz ideia de onde foi parar no celular, aquele que beijou muita mulher mas não lembra quais foram da metade da balada para frente, o sujeito que caiu da área VIP e arrebentou o cóccix.

Alguns copos depois e eles não lembram de onde surgiu a cabra

Nada grave, tudo diversão. E de história em história criamos a celebração do desastre como pico da alegria. Alguém tem que sair vitimado por algum tipo de agressão física, verbal ou social para render boas risadas.

Aqueles que se sentem excluídos acabam entrando na roda para ser o palhaço da vez e assim se sentirem inseridos no grupo daqueles que aguentam muita bebida na cabeça.

Se você não bebe, não é boa companhia e não vai criar histórias "uhuuuu!!! Loucura total mêo!"

A família

Como eu descrevi acima, todos fazem parte do jogo e realimentam o tormento do alcoolismo. Por esse motivo existem grupos de co-dependentes do álcool, pois todos acabam fazendo parte do drama e da doença.

Existem ganhos secundários para aqueles que estão envolvidos indiretamente com o álcool. Eles se sentem importantes (ao tentar ajudar) e diferentes do parente alcoolista (por não beberem). Com isso, fogem à própria tarefa de desenvolvimento pessoal enquanto são vistos como mártires de uma causa nobre ou acusadores que atacam mas com justiça, afinal de contas quem suportaria um bêbado em casa?

Se o dependente é um jovem, a mãe super-protetora se sente no seu papel eternamente e, sem o saber, realimenta essa loucura familiar já que sempre terá um filho pelo qual lutar e cuidar. Como expliquei em meu livro "Mães que amam demais" o cenário para essa mulher perceber a dependência emocional de seu filho alimentada pelo álcool não é fácil, mas é o ponto central de alavancagem para a solução do conflito.

Possíveis caminhos e soluções

Sempre vejo um tripé que pode amenizar qualquer tipo de problema psicológico: o suporte físico, psicológico e social.

O tratamento físico acontece com o suporte médico, com medicamentos que ajudem a aplacar os sintomas-sequelas da abstinência do alcoolismo, assim como as psicopatologias subjacentes ao vício. Além disso, práticas físicas e alimentação adequada ajudam a recuperar o quadro.

O tratamento psicológico pode ser feito com psicoterapia associada a práticas recreativas de lazer, trabalho voluntário, práticas meditativas e buscas espirituais.

O tratamento social é feito pelo dependente e seus familiares em grupos de apoio como o Alcoólicos Anônimos e os grupos de co-dependentes Al-Anon. Além disso o engajamento em grupos de amigos com dinâmicas mais positivas e comunidades religiosas (que fortalecem o indivíduo com buscas de autoconhecimento e pessoas com objetivos comuns).

Na maior parte dos casos, vejo que o desafio principal não é apenas parar de beber, mas encontrar uma função social significativa para o ex-dependente. É muito comum perceber que aqueles que se recuperaram agem como prisioneiros que foram soltos após muitos anos de carceragem. Ou seja, não sabem como agir quando não estão arranjando problemas, vivendo aventuras alcoólicas ou se redimindo de familiares ressentidos.

Como sempre buscaram a socialização com a ajuda do álcool, muitos precisam aprender a paquerar, trabalhar, aguentar as pressões da vida e sorrir de forma autônoma, sem aditivos. E muitos deles se descobrem solitários, mau humorados ou impregnados de autopiedade. E com um agravante: agora são diagnosticados como doentes.

Não gosto de tratar o alcoolismo como uma doença, mas como um jogo psicológico que tem raízes culturais, sociais, familiares e psicológicas, num mundo onde é só mais um dos inúmeros jogos que nos distraem do verdadeiro sentimento de intimidade emocional que tanto buscamos mas tememos.

Quando pudermos viver de um jeito em que o papel do campeão não seja necessário para sentir o direito de pertencer e ter dignidade psicológica e social, abriremos caminho para que não hajam pessoas que encarnem o script de perdedores, fracassados, degenerados.

O alcoolismo não se restringe ao álcool, mas a uma série de comportamentos, valores e visões de mundo que precisam do bode expiatório que pague um preço alto enquanto o restante do mundo permanece paralisado em suas vidas autocentradas, apontando o dedo para condenar, ou se calando e sentindo uma vergonha alheia inoperante.

O alcoolismo começa no falso modo em que encaramos a ideia de felicidade. É na mudança dessa visão cheia de miragens que a superação do problema começa de verdade.

publicado em 11 de Janeiro de 2013

Por que culpamos a infância pelos nossos problemas?

Frederico Mattos
Mente e atitude

Desde que Freud, criador da Psicanálise, atribuiu à infância a causa de todos os problemas da vida adulta, lentamente nossa cultura passou a adotar uma perspectiva causalista para resolver os próprios problemas.

É verdade que muitas coisas começaram na infância e criaram marcas que, com o tempo, se sedimentaram no nosso comportamento. Por exemplo, a seriedade excessiva do pai influencia na maneira austera de olhar para as próprias falhas e a super-proteção da mãe parece ter ter estimulado uma tendência a se sentir frágil diante das pressões da vida.

Mas até que ponto essa tendência remissiva a buscar eventos originais realmente solucionam um problema, quando identificadas?

Nunca deixo de lembrar que Freud, por ser médico, tinha uma tendência a identificar o agente infeccioso para debelar a doença e seus sintomas. Provavelmente, por não haver um modelo diferente do mecanicista, foi mais plausível transferir o conhecimento de uma área consagrada para outra iniciante, como a psicologia.

Quando essa perspectiva científica se dissemina na nossa cultura, o resultado é que ela passa a ser mal utilizada e interpretada como meio de reforçar uma visão que superestima o indivíduo como causador de seus problemas, ignorando que existe uma complexidade de fatores biológicos, culturais, sociais, além dos psicológicos.

Até mesmo na esfera dos fatores psicológicos existe muita atribuição enganosa de uma pessoa ao alegar para si mesma "sou culpada disso, e tudo isso se deve porque meu pai/mãe fez xyz".

Existe um pouco de engano e prepotência nessa visão.

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Eis o homem, Freud

O engano é por ignorar a complexidade da vida, simplificando o motivo de uma ação atual por causa de uma cadeia de acontecimentos anteriores. E, em especial, o equívoco de imaginar que em nenhum momento o agente da ação atual teve escolha, pois foi movido por aspectos inconscientes a ele mesmo. É como se o passado fosse o mandante irrecusável de toda e qualquer ação, escondido na nossa mente, sem que possamos acessá-lo diretamente. Mas até que ponto não temos domínio sobre nosso comportamento?

Se fôssemos bem detalhados e descritivos ao analisar uma ação, já teríamos bons indicativos para flagrar o padrão supostamente inconsciente. No processo de terapia, o profissional em questão só está um pouco mais isento de intenções e de automanipulações, de forma que consegue perceber algo que todos vêem, menos o sujeito da ação. Mas, em essência, ele não tem uma varinha de condão, portanto, precisa da colaboração do agente para desvendar em conjunto o mecanismo de uma ação, muito mais do que sua causa.

Descobrir que o pai bateu ou a mãe fugiu só ajudará a pessoa a encontrar um suposto culpado, mas mesmo assim, o pepino segue na mão dele, pedindo por uma mudança de rota.

A única pessoa capaz de fazer isso é o sujeito que se queixa.

Ao chegar num suposto novo insight de "sim, eu sou o culpado pelo meu comportamento ruim", ele também não está conseguindo mudar, mas só aumentar a autoacusação. Agora ele não culpa seu passado, sua infância ou seus pais, mas a si mesmo.

Essa prepotência remonta ainda uma falsa crença que ao dar algumas chibatadas na própria consciência ela irá ser domesticada e agir bem no futuro. Ou de que pode ter pleno controle de tudo o que lhe ocorre internamente a ponto de prevenir qualquer engano, erro ou confusão pessoal. Não irá.

É uma busca de infalibilidade e perfeição a qual nunca atingiremos.

O insight verdadeiro é saber-se passivo diante de forças que estão além do nosso controle e, ainda assim, olhar minuciosamente para as esferas onde podemos escolher mudanças de rota dos nossos padrões de comportamento.

Ao invés de dizer para si mesmo "seu burro, olha o que você fez" e ficar numa condição de espancamento pessoal estéril, seria mais interessante deduzir "parece que não captei completamente esse conhecimento e tenho a liberdade para aprender daqui para a frente". Diante da burrice instituída não há nada o que fazer, mas diante do ponto cego pode haver um caminho.

Mesmo que eu tivesse problemas de memória e nunca fosse capaz de rememorar minha infância, não estaria aprisionado ao meu condicionamento, pois ele está aqui e agora disponível para investigação e pronto para ser recondicionado.

Saber do passado remoto virou um grande fetiche para pessoas que gostam de se sentir vítimas da vida, como se ao descobrir as causas estivessem livres do hábito.

Descobrir as causas é mais fácil do que mudar. Encontrar um culpado é mais fácil do que assumir a responsabilidade pela mudança.

publicado em 25 de Agosto de 2014

"Tenho um amigo viciado em drogas" | ID #38

Como amigos e familiares podem lidar com uma pessoa usuária de drogas

Frederico Mattos
Mente e atitude, Id

"Fred, tenho um amigo que é aparentemente tão normal quanto qualquer outra pessoa. Trabalha, é considerado um bom profissional, namora, sai com os amigos. 

E cheira cocaína. Bastante. 

Faz isso todo final de semana e algumas vezes durante a semana. Mas o problema é que ele parece acreditar que controla essa relação com a droga.

Acho que sou a única pessoa mais próxima que não usa drogas e sabe do que ele está vivendo de verdade, já que grande parte do atual círculo social dele também usa drogas e considera isso ok.

Como ajudo o meu amigo viciado que acha que não está viciado? E será que eu assumo essa responsabilidade ou deixo isso pra família ou pra ele mesmo se resolver?"

* * *

Engraçado você começar explicando que seu amigo é normal, trabalha, tem namorada, sai com os amigos e... cheira cocaína. Normalmente, a imagem que temos do viciado em qualquer coisa é uma figura meio pálida e decadente, mas a convivência com qualquer substância ocorre em qualquer lugar, de pessoas lindas, coradas e cheirosas até maltrapilhos sem rumo, ela não faz distinção de gênero, classe, raça ou religião.

Definir o vício não é nada simples e muitos que me procuram no consultório por conta de questões com o uso de substâncias me perguntam porque algumas pessoas enlouquecem ou se tornam dependentes em determinadas situações e outras que atravessaram o mesmo tipo de experiência seguem bem e vivem tranquilamente. A resposta não é tão matemática, mas existem personalidade mais vulneráveis, que diante de certos tipos de situações e efeitos psicoativos, deixam aflorar problemas que estavam enjaulados nos porões da personalidade.

Muitos defendem o uso indiscriminado, pois alegam que não são essencialmente perigosas, que já usaram (ou usam ocasionalmente) por uma fase na vida e não ficaram viciadas. Outras pessoas, no entanto, fizeram o mesmo uso ocasional ou regular e entraram numa maré de de uso abusivo da droga e não conseguiram parar.

Quem é vulnerável ao vício?

Não importa se é com jogo, droga, sexo ou comida, o vício ativa regiões muito parecidas do cérebro e cria um ciclo de dependência que varia muito de pessoa para pessoa, visto que são mentes e biologias diferentes.

A personalidade vulnerável tirada do contexto social e biológico não se explica isoladamente. Por esse motivo, é muito difícil prever qual será o efeito de uma droga na mente de uma pessoa. A quantidade de pessoas que ignora suas vulnerabilidades emocionais podem iniciar um caminho sem volta, então, é possível abrir espaço para refletir que perfil seria esse. E como saber a que tipo de substância ou situação você será vulnerável? Não há uma resposta simplista, mas algumas pistas que estão longe de retratar todas as possibilidades.

1. Personalidade mais sugestionável, ou seja, a pessoa sem convicções e valores pessoais claros. Por sua baixa resiliência costuma aderir ao uso de droga como um tipo de status pessoal, um estilo de vida até então não muito delineado. O valor do uso em grupo também reforça o seu senso de pertencimento.

2. Personalidade refratária, aquela que gosta de ser do contra. A droga assume um tipo de luta pessoal, algo que ela quer expor para contrapor a imagem interna de seus pais, como um atestado de liberdade pessoal.

3. Personalidade exigente e rígida, costuma ser muito dura pois teme lidar com emoções intensas. Elas buscam na droga um tipo de diluidor da pressão interna, como se estivesse subornando o guarda da prisão para poder escapar de sua própria dureza. Acaba sendo um jeito de liberar sua ousadia contida.

4. Temperamento oscilante, normalmente são mais aderentes pela própria condição de instabilidade e utilizam substâncias como uma tentativa de regulador seu humor.

5. Sensibilidade extrema, elas costumam usar para trancafiar um pouco o excesso de emocionalidade ou para extravasar de vez.

6. Ansiedade e impulsividade, seja para potencializar ou abaixar seu estado de espírito, podem recorrer a substâncias como um meio de atender seu imediatismo pessoal.

7. Personalidades obsessivas, que tentam obter controle constante em suas vidas e são mais predispostas a algum tipo de compulsão

8. Personalidades hedonistas, pessoas que buscam aflitivamente o prazer para evitar qualquer tipo de sofrimento físico e emocional.

9. Personalidades destrutivas, ou seja, quanto mais alguém tenta ajudar mais ela se afunda e sente piedade de si.

A ineficiência das campanhas de combate e prevenção às drogas

O problema das abordagens oficiais no combate às drogas é de quatro ordens:

1) A figura retratada não cria identificação com o usuário ativo. Normalmente a imagem que ele faz de si mesmo é de uma pessoa livre, descolada, sem medos ou limitações e não de alguém que parece um zumbi (ainda que muitos possam chegar nesse ponto). O caráter preventivo talvez devesse ter outro tipo de abordagem, pois as figuras médicas usadas para instruir parecem insossas já que ele não se vê como um doente. É muito diferente quando o líder de alguma comunidade, que represente um ideal comum, faz um depoimento. Nesses casos, é como se seu irmão mais velho falasse e não seu pai autoritário.

2) O ponto sensível e intocável da questão é que o efeito emocional e inicial da droga costuma ser (com exceção das "bad trips") prazeroso. O usuário novato não tem clareza do resultado à longo prazo. O que importa não é o que irá impactar sua vida social com o passar do tempo, mas o que irá vivenciar  aqui e agora.

3) Outro ponto ignorado é se as drogas são inevitavelmente criadoras de dependência para todos. Algumas drogas tem um maior poder de dependência química e outras psicológicas, e para cada efeito colateral a abordagem preventiva e de tratamento é diferenciada.

4) Cada droga precisa ser tratada com sua especificidade, pois o usuário de maconha nem sempre se identifica com o usuário de cocaína, ecstasy ou LSD, já que cada uma delas tem sua "personalidade" própria, seus efeitos e contextos de uso. Uma droga utilizada para esquentar um ambiente social é diferente da que vai distorcer ou desacelerar.

A droga como aparente proteção

Sempre que a ideia da droga é veiculada, é associada com abusos e degeneração, num cenário meio obscuro, no estilo de uma cracolândia. A realidade é que poucos se perguntam de verdade como a trilha entre o uso ocasional e continuado se desenvolve na prática.

O fato que a maioria nega é que qualquer uso de substância surge num contexto de socialização no qual a apresentação é feita, normalmente por alguém de confiança ou apreciação do novato e que, como consequência, advém algum tipo de efeito psicológico rapidamente agradável. Seja para estimular o humor, atenuar uma ansiedade social ou trazer as emoções à flor da pele, as drogas tem um efeito não experimentado ordinariamente. De repente, a droga se torna amistosa ao usuário que passa a percebe-la não mais como o lobo mau que a mídia (e os pais) apresentava.

Assim, a primeira dissonância cognitiva surge, pois algo que sempre foi mostrado como perigoso deixa a pessoa momentaneamente mais confiante, falante, calma, cinestésica ou reflexiva.

O efeito da droga no primeiro momento causa um impacto para o usuário de cinco tipos:

1. Diminuição da pressão interna (desejos cheios de intensidade ou algum tipo de angústia ou confusão pessoal)

Esse efeito normalmente é buscado por pessoas de personalidade mais rígida, com tendência à culpa, ansiedade, timidez e até em casos mais extremos, com tendências psicóticas. A droga tem um efeito anestesiante frente à dureza pessoal com seu próprio desempenho criando uma sensação de mais valia ou invencibilidade.  

2. Diminuição da pressão externa (complexidade da vida, expectativa da sociedade e das figuras de autoridade)

Pessoas influenciáveis, com convicções mais frágeis e que, de modo geral, são oprimidas por pais super-protetores ou contextos sociais de muita expectativa acabam recorrendo à droga como uma blindagem emocional. 

Nossa sociedade é especialmente opressiva no que se refere ao desempenho social, financeiro e profissional, e uma contracultura que permeia certos círculos recorrem à droga como um auxiliar filosófico de aspirações menos opressivas. 

A droga surge como uma promessa de ferramenta prática para ajudar a pessoa a não se iludir pelo processo de pasteurização capitalista. Ela induz a um tipo de emocionalidade mais diluída e menos carente de aprovação do mercado competitivo, ou seja, desacelera o ritmo interno e gera uma desconexão com a crueza do mundo.

3. Busca de excitação

Nem todas pessoas nasceram em contextos motivadores e otimistas que permitam o desenvolvimento do carisma. Uma substância que pudesse conferir euforia, auto-embelezamento e uma sensação de intensidade sensorial viriam bem à calhar. 

Em um ambiente de paquera, entre amigos ou contextos de diversão, seria bem perturbador seguir a noite agindo de modo passivo, ascético e fechado. A droga é a promessa de excitabilidade fast food, use e se sinta incrível. Irresistível não buscar isso com frequência, certo?

4. Busca de pacificação

Mentes agitadas, corpos inquietos, vidas atribuladas, noites insones e uma dificuldade de se posicionar com firmeza diante dos outros é a rotina de muita gente. Pessoas assim veem quase como um milagre que a sensação de inadequação desapareça num passe de mágica, bastando pra isso alguns tragos. A droga se torna quase uma amizade íntima, a quem se deve muita gratidão e carinho.

5. Busca de interiorização

Nossa sociedade tem sido uma competente produtora de pessoas com problemas psiquiátricos subclínicos. 

O relaxamento é um estado de mente pouco cultivado. Por falta de instrução, persistência ou treino adequado, o meio mais popular é usar algum tipo de substância que facilite esse canal de comunicação interno. Essa busca de profundidade não-estruturada é tão irresistível que cria um abismo ainda mais perturbador entre o ritmo interno e o externo.

Nossa sociedade paradoxalmente cria cenários fragilizantes ao mesmo tempo em que condena qualquer tentativa do sujeito de atenuar seus efeitos predatórios. 

O uso crescente de substâncias psicoativas (coisa que não é recente), é também o resultado da pressão social asfixiante, em especial para pessoas que se sentem frágeis demais para seguir as regras (nada amistosas) do jogo. Não raro são as pessoas mais delicadas são aquelas que ficam emaranhadas pelas drogas.

Por que o adolescente é o mais vulnerável?

Durante 13 anos conduzi grupos com adolescentes, seja como voluntário ou com terapia de grupo, e sei que essa é a fase onde você mais se sente habitando um planeta estranho. O adolescente está numa situação existencial de limbo, pois já não é mais o docinho da mamãe e ainda não é o adulto fodão (se é que existe essa figura lendária). 

Ele está desajeitado no seu corpo, medroso em relação aos seus sentimentos, paralisado diante de suas escolhas, com pressão interna e externa por todos os lados. O que seria mais desejável numa fase dessa do que sentir uma sensação imediata de alívio, empoderamento e adequação social? Se alguém disser que amarrar o rabo do gato deixaria ele menos inadaptado, certamente ele arriscaria a ideia para ficar menos deslocado no mundo.


Família feliz de propaganda de margarina? Sem chance.
Outro fator que paradoxalmente predispõe ao uso de drogas é ter pais autoritários e cheios de bons exemplos para enfiar goela abaixo do filho. Se uma pessoa quer se diferenciar dos pais para criar sua identidade própria, nada parece ser mais libertador do que fazer exatamente o extremo oposto do que os pais fazem.

Atendendo filhos de pais que vivem uma vida sem muitos protocolos, é muito engraçado ver uma filha arrumando o decote da mãe e um filho levando o pai bêbado para a cama. Eles querem ficar longe de tudo aquilo que lembra os pais e se tornam exemplos vivos de moralidade. Mas essa é uma minoria. 

Os filhos de pais dominadores e superprotetores praticamente são preparados para o vício. Por que? Porque não foram instrumentados a desenvolver opinião própria e sim a obedecer uma ordem superior, como se fosse uma verdade absoluta. Sem serem iniciados na arte do debate (e do questionamento à autoridade dos pais) por que motivos eles argumentariam com o amigão que oferece uma substância qualquer?

A maioria dos pais só vai descobrir que se desconectou do filho bem tarde, quando muitos problemas já estão instalados. Simplesmente porque abraçaram o papel de pais inquestionáveis e não sabem lidar quando os filhos expõem suas contradições, incompetências humanas e feridas pessoais.

O drogado se sente uma pessoa superior (e o não drogado também)

A discussão sobre as drogas é completamente diferente entre quem fala de dentro do universo do uso e de quem fala de fora. 

Os não-usuários olham os usuários como perdidos, fracos, incapazes, reféns de prisões emocionais. Curiosamente, os usuários pensam o mesmo de quem não usa.

A autoimagem de quem usa droga é a de uma pessoa que atravessou uma linha de coragem e agora faz parte de uma sociedade secreta, um mundo sem restrições, moralismo ou "caretice". A imagem que ele faz do não-usuário é uma das principais barreiras emocionais para a descontinuidade do uso. Como alguém que se firmou no papel de descolado, leve, livre e solto vai querer voltar a se perceber como alguém estereotipado como chato, mala, "sem vida", amargurado e conservador?

Essas "conversões" costumam ser acompanhadas de um momento de transição em que parece que o "dever chama a pessoa" como o nascimento de um filho, uma promoção profissional, a dedicação religiosa e uma busca por um tipo de círculo social que reforce valores como sacrifício, resiliência, força de caráter em detrimento de prazer, descompromisso e "vida loka". São estigmas que se sustentam e se alimentam um do outro. Ambos os grupos carregam uma certa presunção em relação ao outro, um por se sentir a locomotiva da sociedade e outro por achar que sabe viver a vida de verdade.

Para os usuários, a decadência não é perceptível, pois os prejuízos são vistos como resultantes de um estilo de vida alternativo e moralmente superior aos não-usuários. Quem quer alertar os abusos ou exageros é visto como um inimigo da "causa", um chato ou estraga-prazeres, alguém que não entendeu nada da vida.

Do lado do time de quem está na "curtição" tudo parece um grande complô para roubar os poucos momentos de alegria e entretenimento. É como alguém que vem abaixar o som no meio da festa sem perceber que o divertimento do anfitrião já comprometeu o bem-estar de toda a vizinhança. Os vizinhos são vistos como patéticos e mal amados em oposição à vida onde o amanhã não existe.

Paro quando eu quiser!

Como falei no texto sobre "Alcoolismo", a frequência, irrecusabilidade e as sequelas são os fatores que retratam o vício. É quando o "eu paro quando quiser" nunca chega no "eu quiser" e o sujeito nunca mais descobre se realmente consegue parar por 12 meses. Ele nunca tentou de verdade e não conseguiu perceber quais são os efeitos da abstinência química e psicológica.

Somos especialistas em fingir para nós mesmos quando perdemos o controle das nossas emoções e já estamos terceirizando nossa autonomia. As pessoas abrem mão de sua vontade pessoal no trabalho, nos relacionamentos amorosos e também ao usar uma droga. Escolher cada passo é muito angustiante e expõe nossa potencial incompetência diante das novidades.

Quando o marinheiro começa a preferir o barco do que chegar na outra margem do rio, está procurando mais conforto na solidão do que na conexão com as pessoas. Se o objetivo inicial implícito era ser menos inibido com as pessoas, a droga começa a se tornar ela própria a companhia exclusivista, e até a antiga excitação já não tem mais efeitos sociabilizantes. 

Nessa hora a droga não é uma ponte para as pessoas, mas um obstáculo. A busca do prazer se torna um imperativo para evitar a angústia de voltar para a realidade usual e a própria abstinência da substância induz ao uso continuado. A interação humana foi embora e só restou a droga.

O limite da decadência

A droga vira um atalho que enfraquece a habilidade emocional do usuário até um ponto que a capacidade de rir ou ficar leve não ocorre sem a substância. Aquele sonho encantado de liberdade vai embora.

Para quem tem menos interesse por se desenvolver, isso parece não ser um problema, mas para quem inicialmente queria ter autonomia emocional, a droga se torna um fim em si mesma, uma muleta inibidora da personalidade.

O ciclo começa a se repetir até um ponto que o aumento das quantidades versus o seu resultado denuncia uma falência do gerenciamento emocional. 

O sujeito age como alguém que passou tempo demais deitado e enfraqueceu os músculos das pernas. Quanto mais anda de muleta, mais confirma a profecia autorrealizadora de que ela é necessária. A vida sem muletas não é uma opção.  Aquele apoio eventual, eletivo e transitório se transforma num segundo corpo. Sem a droga, a mente não se move com fluência e a pessoa já não se recorda como era a vida antes dela existir.

Ninguém percebe quando já perdeu coisas importantes porque elas são imateriais e invisíveis, a linha é cruzada silenciosamente. O único juiz que poderá atestar o vício é a decisão pela abstinência voluntária de, no mínimo, 12 meses.

A inconsequência associada à obsessividade gradual e crescente vai afastando as pessoas, causando perdas sociais que aumentam a angústia do usuário que finge ainda estar confortável. Nessa hora a armadilha está armada, pois quanto mais perde, mais a droga se transforma no único alívio.

Esse é o ponto em que a pessoa não está na cracolândia, mas já perdeu pessoas queridas o suficiente para se refugiar somente com seus companheiros de vício. Esse clube se fecha ainda mais e o único entretenimento que vivem é o de usar a substância e relembrar os tempos áureos e rir das histórias desastrosas como uma proteção cínica da própria decadência.

O que fazer, então?

Essa resposta não é fácil, pois um dos princípios da ajuda é respeitar o livre arbítrio do outro. Mas como definir o momento da intervenção com alguém que já perdeu boa parte de sua liberdade de arbitrar sobre si mesma?

Certamente, o apoio que vem de cima para baixo não ajuda, pois um amigo não-usuário será visto como alguém do time contrário, daqueles que não entende nada sobre o assunto. A abordagem precisa ser gradual, efetiva, sem desespero ou dramatizações. A frieza amorosa precisa entrar em ação diante de medidas cortantes.

Como nenhum problema acontece isoladamente, é preciso lembrar que o vício em um dos seus membros é o sintoma de um adoecimento familiar. A maior parte das famílias ignora os seus problemas de comunicação, problemas ocultos, rachaduras emocionais e prefere adotar o membro viciado como o "único e verdadeiro problema". 

Com essa abordagem, todos os familiares projetam suas incapacidades na figura do "viciado degenerado", enquanto eles próprios não refletem sobre suas vidas. Parece que o problema foi coagulado numa pessoa só, enquanto o resto da família coloca todo o seu amor carregado de presunção moral como meio para oprimir ainda mais a pessoa que ficará cada vez mais blindada e certa de que sua única companhia é a droga.

Se uma pessoa chega lado a lado, sem uma condenação moral declarada, para conversar, o acesso é mais possível. Infiltrar a semente da dúvida sobre sua própria trajetória é o primeiro ponto a ser observado. Avaliar com a pessoa, ponto a ponto, dos objetivos dela e de como tem levado a vida, descobrir seus medos e sonhos mais profundos, ou seja, parar de se concentrar apenas na droga como se ela fosse a única coisa que interessa na vida dela.

Nos casos mais extremos, é difícil pensar numa abordagem única e isolada, um tratamento conjunto que envolva médicos, família, psicólogos e um apoio social é fundamental.

Como sempre, o espaço está aberto para discussões nos comentários.

publicado em 29 de Janeiro de 2015

Elogio não é medida de sucesso

Luciano Ribeiro
Cultura e arte, Mente e atitude

Durante a década de 1960, tivemos no mundo ocidental o surgimento de uma grande efervescência intelectual, musical, artística. Tudo foi tomando proporções maiores, as pessoas queriam pensar a respeito daquilo que as circundava e também sobre os mecanismos que poderiam levá-las a se destacarem naquela nova cultura, onde de repente, você poderia se tornar um novo Beatle, repleto de fãs correndo pelas ruas atrás de você.

Era o sonho da época (e há quem diga que ainda é). E foi nesse tempo que surgiram pessoas como Jimi Hendrix e Eric Clapton (sendo alçados ao status de deuses), que o homem foi à lua, que a moda, as artes e o cinema se tornaram muito mais coloridos, criativos, brilhantes.


Claro, receber um elogio pode ser muito satisfatório. A gente se sente feliz, contemplado, admirado. Ouvir que somos bonitos, que estamos bem vestidos, que nossa casa nova está linda, que tocamos bem, que nosso último texto foi maravilhoso ou que somos bons na cama é delicioso.

Além disso, há todo um reforço cultural à ideia de que grandes gênios são extremamente autoconfiantes (outros usariam a palavra “arrogantes”) e nunca se fartam de receber elogios como uma prova dessa condição especial à qual pertencem.

Mas, para nós, mortais-de-ego-não-tão-inflado, o elogio feito de forma errada pode, na verdade, ser danoso.

Vamos assumir aqui que há duas formas básicas de elogio. Um mais pessoal, como “Nossa, você é inteligente”, que foca em qualidades inatas. E um outro, chamado de elogio de “processo”, que é direcionado a esforços.

Um estudo da Utrecht University e da The Ohio State University colocou 313 crianças de escolas públicas para participarem de um jogo contra oponentes de outras escolas. Ao final de cada partida, recebiam elogios como “Uou, você é ótimo!”, “Nossa, você fez um

bom trabalho!” ou não tinham feedback nenhum.

Com isso, buscava-se entender como as crianças se sentiriam diante da vitória ou derrota quando estimuladas utilizando uma das duas formas de elogio.

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O que acontece quando você elogia a inteligência de uma criança?

Os resultados mostram que elogiar crianças pelas suas qualidades pessoais pode, na verdade, piorar a sensação de vergonha em uma situação de derrota.

Além disso, as crianças estimuladas pelo esforço, ou seja, com o elogio de processo, não experimentavam um abalo na autoestima quando derrotadas.

Mas há pessoas que se destacam seguindo pela via oposta à busca incessante por elogios.

Jimi Hendrix, por exemplo, é famoso por uma entrevista na qual foi perguntado sobre qual elogio gostava de receber ao sair de um show. Sua resposta exemplifica bem como elogios podem se tornar uma distração.



“Pergunta: O que você gosta de ouvir quando as pessoas vêm depois de um concerto? Que tipo de elogios você gosta de ouvir?
Jimi Hendrix: Eu não vivo realmente nos elogios. Na verdade, eles são uma forma de me distrair. Eu conheço um monte de músicos, artistas por aí que ouvem elogios e pensam ‘uau, eu devo estar fazendo algo realmente grande’ e então eles ficam gordos e satisfeitos e se perdem e esquecem sobre seus talentos e começam a viver em outro mundo.”

Jack White se recusa a tomar crédito por suas composições.



Pergunta: Você se sente orgulhoso quando ouve [Seven Nation Army sendo cantada nos estádios]?
Jack White: Sim, mas, sabe… isso é parte do processo, a música já está lá no ar ou qualquer coisa assim. Você apenas… meio que a ajuda a existir. Você a administra ou a direciona ou aponta para onde ela supostamente deve ir ou algo assim. Você realmente não pega egocentricamente a glória interna ou crédito por qualquer das canções que vêm pelo estúdio ou pela sua presença. Você apenas está lá para ajudá-las a existir.
Pergunta: Você apenas está lá para fazê-las existir? Como assim?
Jack White: De certa forma as canções já estão lá. Quando alguém diz “eu escrevi essa canção”, isso não é totalmente verdade. O melhor que eu acho que posso fazer quando estou escrevendo uma canção é me posicionar fora do caminho. Não dizer tanto o que ela deve fazer. Não dizer “ela deve mudar aqui”, “vou fazer isso”, “esta vai ser uma canção country”, “esta vai ser um rock’n roll”. Ela já existe, ela já aconteceu, apenas afaste-se. Quanto mais você se afasta, mais ela existe e melhor a canção é. E é difícil tomar crédito por isso.

Woody Allen nunca ficou satisfeito com seus filmes, por mais elogiados que fossem.

“Quando você faz um filme é como um chef que trabalha em um prato. Depois de passar o dia na cozinha cortando, picando e adicionando molhos, você não quer mais comê-lo. Isso é o que sinto em relação a um filme (…) É por isso que eu sou eternamente grato ao público por amar alguns, apesar do meu próprio desapontamento. Para mim, sempre está longe de ser a obra-prima que eu tinha certeza que ia realizar.”

Johnny Depp se recusa a procurar saber o que estão falando de suas atuações.



Link YouTube | “Desculpa. Você não viu o (seu) filme?”. “Não, até agora”

“Fico o mais longe possível depois que as gravações estão concluídas. Se puder, prefiro me manter no mais profundo estado de ignorância a respeito do que está acontecendo”.

Com esses exemplos, não quero dizer que os elogios devam ser banidos. Não acho que em todas as ocasiões eles seriam um desserviço.

O veneno reside mais na busca desmedida por elogios, que os transformam em moeda, “fiz um jantar delicioso e ela não falou nada!”, como se recebê-los fosse uma medida do nosso valor. Eles acabam se tornando tijolos na busca por uma autoestima elevada – o que também traz problemas próprios.

Claro, há aquelas situações quando uma pessoa realmente precisa de uma palavra de apoio, de algo que a ajude a sair de uma condição de autoflagelo. E, mesmo, há também o fluir do cotidiano que pode ser premiado com bons e sinceros afagos verbais, ajudando as pessoas a perceberem que você está observando e envolvido com suas vidas (o Eduardo Amuri adora ter suas camisas elogiadas, por exemplo).

Ao invés de usar elogios como uma ferramenta do narcisismo, bem que podíamos aplicá-los para tornar nossos dias mais leves.

publicado em 07 de Maio de 2014