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domingo, 31 de maio de 2015

Nísia Floresta Brasileira Augusta: o feminismo revolucionário no século XIX

         
Por João Telesforo

Um dos traços evidentes da herança colonial brasileira é o quanto desconhecemos ou menosprezamos intelectuais do Brasil, da América Latina e do “Sul” global. Como consequência, o vício eurocêntrico de reproduzir acriticamente modelos, projetos e discursos pouco enraizados na história do nosso país.  Sem consciência do sangue negro, indígena e feminino que escorre do “moinho de gastar gentes” que formou o capitalismo e o Estado no Brasil, nos perderemos enfrentando moinhos de vento. Sem conhecimento das lutas e dos pensamentos que se articularam para enfrentar esse “moinho” real, dificilmente teremos capacidade de formular um projeto alternativo, de caráter libertador.
 
O governo fala em “Pátria Educadora”, mas qual é o conteúdo de sua noção de Pátria e de seu projeto de Educação? Para nos armarmos de referenciais da nossa história para refletir sobre essa questão, convido o/a leitor/a a conhecer, então, uma grande intelectual nordestina do século XIX, que pensou o Brasil a partir das lutas de mulheres, abolicionistas e indígenas, e pôs em prática uma pedagogia feminista libertadora. Causas que permanecem, hoje, no centro de qualquer projeto revolucionário que mereça esse nome.
 
No litoral do Rio Grande do Norte, uma “fértil e charmosa” terra tropical, que nos acolhe com sua quentura úmida, abriga hoje o município de Nísia Floresta. As aspas são do relato de Dionísia Pinto Lisboa, escritora que nasceu ali em 1809 e se tornaria conhecida pelo nome que adotou para si: Nísia Floresta Brasileira Augusta. A exuberância natural do lugar, na região metropolitana de Natal, contrasta com a sua paisagem social. Para citar somente um dado, perversa ironia para a cidade que leva o nome de uma paladina Brasileira da educação: quase um quarto da população do município com mais de 15 anos de idade não é alfabetizada (Censo 2010 do IBGE). Nísia Floresta compreendia as razões para isso. No Opúsculo Humanitário (1853), explica que sem uma “educação esclarecida”, “mais facilmente os homens se submetem ao absolutismo de seus governantes”.
 
A Brasileira Augusta lutou, em especial, pela educação para as mulheres. Não se contentou com a tradução livre, aos 22 anos, do livro “Direitos das mulheres e injustiça dos homens“. Insatisfeita com a falta de acesso, a má qualidade e a perspectiva patriarcal do ensino para as meninas, criou em 1838 uma escola para elas. Enquanto outras escolas para mulheres preocupavam-se basicamente com costura e boas maneiras, a de Nísia ensinava línguas, ciências naturais e sociais, matemática e artes, além de desenvolver métodos pedagógicos inovadores. Uma afronta à ideologia dominante de que esses saberes caberiam somente aos homens, restando às mulheres aprenderem os cuidados do “lar” e as virtudes morais de uma boa mãe e esposa…
 
Tal insubordinação rendeu a Nísia não somente críticas pedagógicas, mas também ataques à sua vida pessoal. Artigos nos jornais tentaram desqualificá-la como promíscua nas relações com homens e até mesmo com suas alunas. Mas essa Brasileira não era de baixar a cabeça para as estratégias atávicas do patriarcado. Já no nome que adotou para si e deu à escola, um grito de autonomia contra a moral sexual machista: “Colégio Augusto”, homenagem ao seu companheiro Manoel Augusto, com quem corajosamente viveu e teve dois filhos, enquanto era acusada de adúltera pelo ex-marido, com quem fora obrigada a se casar – tendo-se separado dele no primeiro ano de casamento, aos 13 anos de idade.
 
nisia florestaNísia participou das campanhas abolicionista e republicana ao longo de praticamente toda a sua vida. Denunciou também a devastadora opressão colonial contra os povos indígenas, em livros como “A lágrima de um caeté”, de 1849, poema épico de 39 páginas que em sua segunda parte tem como pano de fundo a Revolução Praieira (Pernambuco, 1848-50).
 
Ao migrar para a Europa, onde morou por quase duas décadas, Nísia continuou escrevendo e publicando livros de literatura e de resistência política. Foi amiga, admiradora e correspondente do filósofo positivista Auguste Comte, mas não absorveu seu determinismo racista. Sempre ostentou o orgulho de sua origem – ressaltada no próprio nome que se deu – e nunca abandonou o compromisso de se somar às lutas pela libertação dos setores oprimidos que formam a maioria social do povo brasileiro.
 

Pesquisa revela perfil das adolescentes que cometem atos infracionais no país

maio 28, 2015
 
Estudo mostrou que as unidades de internação que recebem garotas acabam reproduzindo o preconceito da sociedade, tornando a experiência ainda mais dramática para elas, que têm menos direitos do que os colegas homens. A visita íntima, por exemplo, é um benefício exclusivamente masculino na prática; também há relatos de meninas obrigadas a fazer faxina e lavar as roupas dos internos
 
Por Maíra Streit
 
Uma pesquisa realizada pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), em parceria com a Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), buscou traçar um panorama do universo vivido pelas adolescentes que cumprem medidas socioeducativas em unidades de internação. As cinco regiões do país foram representadas pelos estados de São Paulo, Rio Grande do Sul, Pará, Pernambuco e também pelo Distrito Federal.
 
O estudo mostrou que o padrão das adolescentes é formado por garotas pobres, majoritariamente negras e moradoras de bairros periféricos. A grande maioria delas não possui passagens anteriores nessas unidades, com exceção das apreendidas por tráfico, em que a reincidência é mais presente.
 
De acordo com os últimos dados nacionais oficiais, o Brasil possui 11.463 garotos internados, enquanto o número de meninas é de 578. A quantidade consideravelmente menor, aliada à questão do machismo arraigado na sociedade, faz com que as demandas delas permaneçam esquecidas e tornem a vivência institucional ainda mais dramática do que a dos meninos.
 
Em nenhuma das unidades verificadas pelas pesquisadoras as adolescentes estavam autorizadas a receber visita íntima. No entanto, muitas delas possuíam companheiros(as), namorados(as), por vezes já moravam com eles(as) ou tinham filhos, representando uma violação ao direito à sexualidade. O relacionamento homoafetivo no interior das instituições é bastante comum, embora proibido e passível de sanções.
 
De acordo com o artigo 68 da Lei 12.594/12, que criou o Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (Sinase), é assegurado ao adolescente casado ou que viva em união estável o direito à visita íntima. Na prática, contudo, as meninas não desfrutam desse benefício.
 
“Só os meninos que têm esse direito, nós não. O porquê eu não sei, mas eu acho que os direitos deveriam ser iguais. Aqui a gente não tem direito nenhum. Tudo é eles. Os meninos tão na vantagem, eles estão em primeiro lugar. Eles podem receber as mulheres, a gente não pode. Eles podem visitar os familiares, a gente não pode. Isso é ridículo, porque eu que já sou maior”, reclama uma das internas entrevistadas no estudo.
 
Além disso, foram verificados casos em que as adolescentes eram obrigadas a fazer faxina – às vezes, em todo o prédio, incluindo a sala da direção –, algo que não é cobrado dos garotos. As atividades oferecidas também são diferentes, como cursos obrigatórios de bordado para elas. No Rio Grande do Sul, as tarefas de lavanderia também são tidas como especificamente femininas, cabendo às internas, inclusive, lavar as roupas dos colegas homens.
 
Para a coordenadora da pesquisa, Marília Montenegro, ainda falta muito para que sejam cumpridos os objetivos de ressocialização. “É um desmanche total do que prevê o ECA [Estatuto da Criança e do Adolescente]. Se o Estado não se prontifica sequer a conhecer as meninas, então, de fato, o que ele vem fazendo é tão somente punir”, avalia. “É preciso mais conhecimento e menos encarceramento”.
 
Veja abaixo outras informações obtidas pelo levantamento:
 
Causa da internação
Em todo o Brasil, teve destaque um percentual expressivo de adolescentes internadas por ato infracional análogo ao tráfico de drogas no Distrito Federal (25%), em Pernambuco (pouco mais de 20%) e em São Paulo (mais de 40%). Também foram identificados casos de internações indevidas, decorrentes de práticas em que não cabe a privação liberdade. Em Pernambuco, há uma adolescente internada por desacato e ameaça.
 
Família
É comum o contexto de laços familiares e comunitários fragilizados, com histórico de exclusão social e econômica que envolve miséria, violência e trabalho infantil. Muitas relatam já ter parentes, amigos ou namorados(as) presos(as) ou cumprindo medida no sistema socioeducativo. Outra realidade verificada é o fato de terem sido criadas sem a presença de um dos genitores, havendo incidência maior de adolescentes sustentadas apenas pela mãe.
 
Maternidade
A única unidade visitada que possuía estrutura específica para receber crianças das mais diversas idades é a Chiquinha Gonzaga, em São Paulo, onde o Programa de Acolhimento Materno-Infantil (Pami) proporciona a convivência da mãe adolescente e do(a) filho(a) por todo o tempo de duração da internação.
 
Educação
Praticamente todas possuem defasagem escolar. A maior parte, estando na faixa entre 15 e 17 anos, deveria estar cursando o ensino médio. Porém, há um percentual significativo que está entre o 1º e o 5º. A maioria, em todos os estados, cursava entre o 6º e o 9º ano.
 
Em nenhuma das unidades visitadas pelas pesquisadoras foi possível verificar que as garotas estariam dando continuidade aos estudos na exata série em que pararam, embora seja um direito assegurado a elas. Mesmo assim, boa parte aponta para o desejo de exercer profissões que exigem nível superior, como Engenharia, Direito e Odontologia.
 
Condições de vida
A estrutura física da unidade Cefes, no Pará, foi considerada a mais inapropriada, com péssimo sistema de esgoto e banheiros improvisados, situados no interior dos quartos das adolescentes, gerando, às vezes, a situação de seus colchões serem atingidos por dejetos. Há ainda relatos de maus-tratos e aplicação de sanções disciplinares de isolamento.
 
Para ter acesso à pesquisa completa, clique aqui.
 

Marcha das Vadias em São Paulo defende a legalização do aborto

Por Jarid Arraes 
maio 30, 2015
 
Hoje, a partir das 11h, a Marcha das Vadias de São Paulo retorna com o tema “Aborto Ilegal: Feminicídio do Estado“, denunciando o alto índice de mortes causadas pela criminalização do aborto. Segundo o texto de apresentação do evento, a ideia da marcha não é levantar um debate sobre quem é ou não a favor da legalização do aborto, mas declarar que, independente do posicionamento de cada um, as mulheres continuam recorrendo a abortos clandestinos e continuam morrendo.
 
A legalização do aborto é uma das bandeiras mais importantes do Feminismo em todo o mundo. No Brasil, é especialmente difícil falar sobre direitos sexuais e reprodutivos, sobretudo no momento atual, pois vivemos uma terrível onda conservadora que contamina o Congresso Nacional. Por causa da ação de fundamentalistas e intolerantes, as mulheres correm o sério risco de ter direitos revogados – direitos esses que foram conquistados com muitos anos de luta árdua.
 
Argumentos para que o aborto seja legalizado em nosso país não faltam. São argumentos embasados em fatos científicos e estudos sociológicos criteriosos, acima de tudo defendendo a laicidade do Estado, que não deve criar leis pautadas em nenhuma religião. O direito ao aborto legal, seguro e gratuito deve ser garantido a todas as cidadãs.
 
Assista ao vídeo da Marcha das Vadias com o rap “Ventre Livre de Fato“, composição de Luana Hansen e Elisa Gargiulo:



Fórum

O medo da liderança feminina

Por Jarid Arraes   
maio 19, 2015
 
Seja como heroínas em filmes de ação ou como chefes em uma grande empresa, mulheres em posição de liderança são ofendidas e repudiadas por muita gente, especialmente por homens que enxergam nessas mulheres verdadeiras ameaças. Em inglês, há até mesmo o termo “ball-buster“; direcionado a mulheres consideradas dominantes, a expressão sugere que a liderança e assertividade femininas são encaradas como uma espécie de violência contra os homens.
 
As configurações patriarcais de diversas sociedades ao redor do mundo, incluindo a nossa, são de extrema relevância para entender essa interpretação . A figura do patriarca, homem chefe de família e de negócios, e o reconhecimento de sua autoridade existem até hoje. A ideia de que os homens são naturalmente líderes e governantes não ficou enterrada nos anos 40; pelo contrário, muitos machistas têm a sensação de intimidação e revolta quando se deparam com uma liderança feminina – uma realidade ainda pior quando essa mulher é responsável por liderá-los.
 
Não por acaso, mulheres assertivas e eficientes na posição de liderar acabam sendo ofendidas com incontáveis xingamentos misóginos e, em muitos casos, também acabam sendo ameaçadas com a alegoria da feminilidade. Na visão machista, a mulher que não se comporta de maneira doce, meiga, materna e submissa está tentando “se tornar um homem” ou copiando supostos comportamentos masculinos – algo que não passa de uma estratégia para fazer recuar a autonomia feminina, em um esforço constante para “colocar as mulheres em seus lugares”, como se a ocupação de outros espaços fosse uma afronta contra a sociedade.
 
Não é difícil rebater esse tipo de ataque contra a autonomia das mulheres. Não existe “natureza feminina” ou “natureza masculina”, pois todos os papéis de gênero nos são ensinados sistematicamente desde o nascimento. E mesmo com essa doutrinação de gênero, mulheres ainda se tornam pessoas fortes, independentes, capazes de calcular, inventar, descobrir e desbravar. Todo o esforço machista para reduzir as mulheres a uma posição de subserviência jamais foi suficiente; as mulheres, ao longo da história, provam dia após dia que esses papéis não lhes definem, limitam ou cabem.
 
Imagine a revolta de um machista ao se deparar com uma líder segura de seu papel – e não um rascunho de mulher que pede desculpas por existir. Homens machistas não suportam ter uma mulher como chefe, nem toleram a ideia de que uma mulher seja melhor do que eles em algo que consideram tipicamente masculino. O machista logo acusará a mulher de possuir alguma inveja ou rancor contra os homens, como se seu maior objetivo fosse oprimi-los. Tudo isso quando, na verdade, o que faz o machista se sentir oprimido é o fato de não estar no domínio.
 
Por isso, é de fundamental importância que confrontemos esse tipo de reação misógina e provoquemos, cada vez mais, esse desconforto contra o machismo. Uma mulher na liderança é de um didatismo profundo e ensina valores que combatem o ódio contra mulheres e os estereótipos de gênero. A autonomia feminina ainda precisa ser conquistada e defendida pelas mulheres; somente com assertividade e segurança poderemos garantir o avanço contínuo até que a equidade seja uma realidade.
 

Chamar outra mulher de “puta” é cuspir no espelho

Por Jarid Arraes 
maio 22, 2015
 
É possível que você já tenha ouvido alguma mulher chamando outras mulheres de “putas”, “vadias”, “periguetes” e outros termos com esse teor – se é que não foi você mesma a mulher a proferir tais xingamentos. Na nossa cultura, parece ser muito comum a competitividade e autoafirmação feminina por meio da não-sexualidade, quando o fator sexual é considerado algo ruim e reprovável. Por isso, as mulheres que parecem ser muito sexuais – ou que são difamadas como tal – recebem hostilidades diversas.
 
Muitas mulheres que chamam outras de “putas” estão tentando demarcar um território, uma diferença entre elas e as outras. Para elas, é como se o fato das outras serem “vulgares” automaticamente assegurasse a própria reputação. O imenso equívoco está aí, pois chamar outra mulher de puta não te torna imune ao machismo; você não fica vacinada contra esses mesmos xingamentos. De fato, ser vista e ofendida como uma “vadia” é um dos primeiros atos de agressão proferidos contra todas as mulheres.
 
Isso acontece porque o machismo é um sistema de desvalorização e violência contra todas as mulheres, não apenas contra algumas. O filtro da misoginia é muito evidente: comportamentos considerados “masculinos”, independência no modo de ser e autonomia sexual são punidos de diversas formas, das verbais até as físicas. Portanto, diminuir o caráter ou o valor de uma mulher porque ela está em busca de sexo, porque usa roupas curtas e justas ou por qualquer outro motivo que use seu ímpeto sexual como negativação se trata de machismo – e quanto mais esse machismo é reforçado, mais todas as mulheres sofrem.
 
Muito pouco é necessário para ser chamada de “puta”. É verdade que mulheres que usam roupas curtas, dançam rebolando até o chão e fazem sexo com diversas pessoas são constantes vítimas do machismo, mas isso não significa que as mulheres heterossexuais, casadas, donas de casa ou que se sentem mais “intelectuais” do que as outras não estejam na mira desses julgamentos. Pelo contrário: quando algum homem é contrariado por qualquer razão, um dos primeiros xingamentos proferido contra as mulheres são de cunho sexual. Não importa se você usa uma saia curta ou longa, com ou sem calcinha, ou se frequenta um show por causa das bandas e não dos homens integrantes das bandas – se você não se comportar de forma que agrade os homens, você será chamada de “vadia”, “quenga”, “biscate”, “puta”, “vaca”, “cadela” e “periguete”.
 
Também é necessário compreender que, mesmo que uma mulher seja de fato uma “puta” – ou prostituta -, isso de nenhuma forma a torna inferior, nem merecedora de humilhações e violências. O imenso preconceito nutrido contra prostitutas também é mais um reflexo desse quadro de misoginia. Ser prostituta não torna nenhuma mulher menos humana, menos inteligente ou menos respeitável.
 
Portanto, é preocupante o quanto as mulheres ainda competem umas com as outras em busca de um respeito que jamais lhes será dado de bom grado. Entender que o machismo nunca permitirá respeito às mulheres é de fundamental importância, pois somente assim poderemos lutar por nossos direitos e pelo respeito que nos é devido, independente de quem somos. Enquanto mulheres, precisamos nos unir e compreender que se uma fica para trás, todas continuam para trás; uma mulher que é ofendida e violentada por motivações sexistas não é um caso isolado, mas uma evidência de que todas estamos vulneráveis.
 
Pedir que todas as mulheres sejam amigas, companheiras e que não briguem por motivos diversos é ingenuidade demais. Mulheres ainda serão muitas coisas para além de serem mulheres e vão continuar disputando empregos, credibilidade e oportunidades. No entanto, não podemos nos deixar cegar pela dominação do machismo; termos como “puta” e “vadia” não são argumentos para conquistar algum cargo ou obter respeito. Ao compreendermos essa realidade, nós garantimos o avanço social e a luta contra todas as manifestações da misoginia – desde a violência simbólica ou verbal até os feminicídios.
 

Listadas como vadias, punidas por serem mulheres

Por Jarid Arraes 
maio 29, 2015
 
A sexualidade tem dois pesos diferentes para homens e mulheres. Esse não é um fenômeno recente, mas se perpetua baseado na lógica misógina que objetifica a mulher. No último dia 27, uma matéria do R7 exibiu a situação terrível que as meninas da periferia de São Paulo estão vivendo: em listas chamadas de “TOP 10″ , meninas consideradas “vadias” são expostas nas escolas, nas redes sociais e até nas vizinhanças. Várias meninas deixaram de frequentar as aulas e já houve pelo menos 12 tentativas de suicídio. Embora existam também listas para os garotos, aqueles que entram são considerados “campeões” ou “pegadores”, enquanto as meninas são vistas como “vadias” e “putas”.
 
Casos como o das listas “TOP 10″ denotam que muitos homens não gostam de sexo, mas sim de humilhar e violentar mulheres. O prazer de muitos deles não está em dividir um ato sexual com uma mulher que considerem atraente, mas sim em dominá-la e exibi-la como uma coisa que não merece respeito.
 
Isso não se trata de uma questão individual; nossa cultura ensina o tempo inteiro aos homens que eles devem agir dessa forma, humilhando e objetificando as mulheres. Esse ensinamento está nas músicas, nos filmes, na programação da televisão e até mesmo na igreja. Sempre que um garoto escuta que mulheres que fazem sexo são “fáceis” ou “vadias”, sempre que um menino liga a televisão e vê mulheres reduzidas ao papel de corpos para exibição, ele aprende que o seu lugar é o de predador e explorador do corpo feminino.
 
Por isso, quando adultos, esses são os mesmos homens que publicam fotos íntimas das mulheres com quem transaram – e, ao fazerem isso, eles estão apenas seguindo o roteiro aceito pela sociedade. Afinal, esses homens acreditam que precisam exibir suas “conquistas”, mostrar que são homens que “comem” mulheres e dominam as “vadias”. Mas isso vai além: em muitos casos, o homem não quer apenas propagar o seu feito, mas também marcar a mulher para que ela não “sirva” a nenhum outro. Com a reputação destruída e sendo ele o responsável por essa destruição, a mulher é finalmente punida e ele vira o herói dos seus amigos. É alarmante que um ato tão doentio seja visto como natural e socialmente aceitável.
 
Essa realidade não é um mero “generalismo feminista”, mas sim uma epidemia que vem provocando a morte de milhares de mulheres. Meninas como as que estão nos “TOP 10 Vadias”, mulheres que têm seus vídeos e fotos vazados e também as que são estupradas, todas elas são vítimas de um mesmo sistema que beneficia os homens, que são celebrados e não sofrem qualquer consequência moral quando têm gravações e fotos íntimas vazadas ou aparecem em listas como o “TOP 10″.
 
Esse problema precisa ser diretamente nomeado para que possamos enfrentá-lo. Enquanto se coloca panos quentes, as vidas de milhares de meninas e mulheres são destruídas; e enquanto os homens viram as costas para a questão e não confrontam seus amigos por suas práticas misóginas, mais mulheres continuam a ser violentadas e expostas. É mandatório que tomemos nossa responsabilidade nesse quadro – não podemos mais ser ou tolerar uma sociedade que odeia as mulheres.
 

sábado, 30 de maio de 2015

Paulo Sérgio Pinheiro: “Baixar a maioridade penal não reduz crimes violentos”

É "covarde" e "demagógica" a proposta de reduzir a maioridade penal para 16 anos, afirma Pinheiro, especialista em violência e ex-ministro da Secretaria dos Direitos Humanos no governo FHC
                           
ALINE RIBEIRO
27/05/2015                    
Paulo Sérgio Pinheiro, ex-ministro dos Direitos Humanos e criado do Núcleo de Estudos da Violência da USP. Ele convocou ex-ministros  a se posicionar  contra a PEC 171, que propõe a redução da maioridade penal no Brasil (Foto: Roberto Setton)

Assim que chegou de Genebra, em abril, o sociólogo Paulo Sérgio Pinheiro se assustou com o avanço da proposta de redução da maioridade penal, de 18 anos para 16. Em sua ausência de 15 dias, a Proposta de Emenda Constitucional que trata do tema (PEC 171), até então engavetada havia mais de 20 anos no Congresso, foi aprovada na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania da Câmara dos Deputados. O pedido de alteração da lei nunca chegou tão longe. Pinheiro foi ministro da Secretaria dos Direitos Humanos do governo Fernando Henrique Cardoso e já foi consultado pela Organização das Nações Unidas (ONU) como especialista em violência contra a criança (atualmente, também pela ONU, acompanha as violações de direitos humanos na Síria). Pinheiro colocou seu currículo de peso a favor de uma articulação política. Em uma semana, conseguiu apoio do atual ministro Pepe Vargas e de outros sete ex-chefes da Pasta nos governos FHC, Lula e Dilma, para publicar uma carta de repúdio à redução da maioridade penal. “A proposta é racista, demagógica, covarde, oportunista e completamente incompetente”, afirma.
 
ÉPOCA – Havia 22 anos que a PEC 171 estava engavetada no Congresso. Por que ela voltou a ser debatida?
Paulo Sérgio Pinheiro –
Até agora, ela vinha sendo barrada pelo envolvimento do Brasil com a Convenção dos Direitos da Criança, refletido aqui pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). A proposta é, evidentemente, oportunista. Aproveita-se de uma crise política conjuntural grave. Crianças e adolescentes em conflito com a lei podem ser imputadas no Brasil a partir dos 12 anos de idade – algo que muitos deputados parecem desconhecer, porque não leem e não conhecem o Estatuto, ou porque precisam agradar, com soluções simplistas para a violência, as empresas de armas e munições e as igrejas evangélicas fundamentalistas. A política de segurança e a luta contra a violência do Estado brasileiro não pode ser ditada, como disse o ministro José Gregori, pela bancada da bala, pelos interesses daqueles que justamente promovem a violência através das armas e das munições. E, digo eu, muito menos por leituras fundamentalistas e ideológicas dos textos bíblicos.
 
ÉPOCA – A maioria da população brasileira é a favor da redução da maioridade penal. Este ambiente favorável dá força à aprovação desse projeto no Congresso?
Pinheiro –
É compreensível que a população apoie essa proposta, diante da dificuldade de a segurança pública ser garantida para toda a população. Não culpamos a população. Estamos solidários com as vítimas de crimes. A maioria da população é favorável à PEC 171 porque é engabelada por parlamentares que vendem sua aprovação como a solução para diminuir a violência. Mas política criminal não é Fla versus Flu, nem é para ser resolvida por pesquisa de opinião. Cabe ao governo e a nós, que somos contra a PEC 171, ajudar a sociedade a superar os mitos açulados pelos deputados.
 
ÉPOCA – A pena máxima para menores infratores, prevista no ECA hoje, é a internação por três anos. Não importa se o adolescente cometeu um crime mais brando, como furto, ou um crime hediondo. É preciso aprimorar o ECA?
Pinheiro –
Essa noção é falsa. Os adolescentes que cometeram infrações mais graves (nota da redação: mais de uma infração grave) podem chegar a ficar detidos nove anos, e sem os mecanismos de defesa dos adultos que cometem crimes semelhantes. O estatuto é bom. O problema é que o ECA é mal aplicado. Os recursos são escassos, a formação do pessoal é precária, os salários dos funcionários reduzidos. O problema não é a lei. O problema é a gestão de aplicação e implementação da lei. Mas reformar instituições é um processo lento que não dá voto.
 
ÉPOCA – Ainda assim, há uma sensação de impunidade para crimes bárbaros cometidos por menores...
Pinheiro –
Se eles forem para a prisão, aí é que vão virar criminosos mesmo. De carteirinha. As instituições de cuidados de adolescentes no Brasil são ineficazes? São. Mas não todas. Eles querem fazer o quê? Enfiar esses adolescentes entre os quase 700 mil presos hoje, a terceira maior população carcerária do mundo (para a quinta maior população), que ficam amontoados em 300 mil vagas? Quem vão ser esses adolescentes? Não vão ser os filhos dos deputados, nem os meus. Vão ser os pobres, miseráveis, não escolarizados, negros. Os mesmos que estão nas instituições de proteção e justiça. Além de tudo, essa proposta é racista. A maioria das instituições de proteção de crianças e adolescentes funciona mal, mas qualquer uma delas é melhor do que uma prisão de adulto.
 
ÉPOCA – Os apoiadores da PEC afirmam que os jovens hoje são aliciados pelo crime organizado, sobretudo para traficar drogas. Isso não é uma realidade?
Pinheiro –
Os criminosos devem estar gargalhando dessa argumentação. Atrás de criança e adolescente, tem de ter adulto. Porque para haver crimes de economia de massa, como circulação de objetos roubados, tráfico ou roubo de automóveis, precisa haver receptadores. E se não vão poder pegar mais adolescentes de 16 anos, vão pegar de 15 ou 14. A PEC é covarde, porque se abate contra o elo mais fraco, os adolescentes, em vez de se confrontar com as grandes organizações do crime organizado e os adultos que estão atrás dos adolescentes. Há ignorância também sobre quantos dos crimes de homicídio, tentativa de homicídios e latrocínios são praticados por adolescentes entre 16 e 18 anos. Chega a 0,5%. Esses crimes são cometidos, geralmente, por jovens adultos entre 19 e 25 anos. Para que o número de homicídios caia, é essencial que os adolescentes em conflito com a lei não persistam nas carreiras do crime – o que fatalmente ocorrerá se eles forem condenados à reclusão com condenados adultos.
 
ÉPOCA – Não seria razoável dar mais liberdade aos juízes para definir as penas, nos casos mais graves?
Pinheiro –
Isso é perigoso. É arbitrário demais depender de exames psicológicos, deixar na mão do juiz para julgar se o adolescente é responsável ou não. É necessário não pensar em indivíduos, mas em 23 mil crianças e adolescentes que estão em instituições de correção. E, da forma que o sistema judicial funciona no Brasil, altamente discriminatório, com sentenças mais pesadas para afrodescendentes que cometem os mesmos crimes que brancos, não se pode abrir a brecha. Se abrir, vamos retroceder mais ainda.
 
ÉPOCA – Como a maioridade é tratada pelas democracias mais avançadas?
Pinheiro –
Qual é o interesse hoje das grandes democracias? Evitar que os adolescentes entrem no sistema de Justiça criminal, e que se trate mais da responsabilidade deles do que da criminalização, que se possa reeducar e reinserir. Não estou dizendo que isso acontece no Brasil, que aqui é tudo uma maravilha. Os deputados por trás da PEC 171 não têm a menor noção do que é política de segurança hoje, do debate que acontece no mundo. Estão a fim de faturar os apoios financeiros que receberam, de jogar para o público. A proposta é demagógica, covarde, oportunista e incompetente, porque não impedirá o aliciamento nem diminuirá o crime violento.
 
ÉPOCA – Se o senhor tivesse um parente prejudicado por um menor de idade, relativizaria sua opinião?
Pinheiro –
Claro que não. O que ocorre na minha vida, que já chegou aos 71 anos, não tem nada a ver com minhas posições intransigentes a respeito dos direitos dos adolescentes, de qualquer idade, mesmo aqueles que infringem a lei.
 
ÉPOCA – A limitação nos 18 anos foi estabelecida no Código Penal de 1940. Um jovem de 18 anos daquela época é o mesmo de hoje?
Pinheiro –
O Código de 1940 não prevalece. Não se levou em conta o adolescente daquela época. O limite da maioridade penal foi definido pela Convenção Internacional dos Direitos da Criança de 1989, ratificada pelo Brasil em 1990. Essa mesma idade foi mantida na legislação nacional.
 
ÉPOCA – Penas longas para assassinos adultos não acabam com o crime bárbaro. Nem por isso abrimos mão delas. A mesma lógica não valeria para os menores?
Pinheiro –
Essa lógica é delirante. Sabemos que penas longas de reclusão não diminuem por mágica a criminalidade, mesmo assim se pretende impor aos adolescentes penas semelhantes. Caso a reclusão fosse a solução, o Brasil deveria ser o paraíso da não violência, com a terceira maior população carcerária do mundo. É isso que parlamentares  estão vendendo como panaceia para a população, justamente amedrontada com a criminalidade.
 
 

Marisa Deppman: "Defendo a redução da maioridade penal sem limite de idade"

Para a advogada, condenados por crimes hediondos com mais de 16 anos deveriam começar a pena na Fundação Casa e, após os 18, continuar a cumpri-la na prisão
                            
MARISA DEPPMAN
30/05/2015
 
Marisa Deppman sobre maioridade penal  (Foto: Arquivo pessoal)
 
Às 20h53 de 9 de abril de 2013, minha vida virou de cabeça para baixo. Meu filho Victor Hugo Deppman foi vítima de latrocínio praticado por um menor e bandido com 17 anos, 11 meses e 27 dias de idade. O crime ficou conhecido como “roubo do celular”. Um celular que custou a vida do meu filho.

Sou formada em Direito e, desde a graduação, sempre fui a favor da redução da maioridade penal. O jovem tem total consciência do que é certo e errado e o faz por escolha própria. Sei que há crimes e crimes. Para aqueles com menor potencial ofensivo, como furto simples, dirigir sem habilitação ou vandalismo, deve ser aplicado o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Para os crimes hediondos, como homicídio, latrocínio e estupro, defendo que a maioridade penal seja reduzida, sem limite de idade. Além disso, o menor que pratica o crime hediondo deve, até os 18 anos de idade, cumprir sua pena em uma unidade de maior segurança da Fundação Casa, para que continue a ter o acompanhamento que ela oferece, para só então ser transferido para uma prisão comum.

 Apesar da dor que sinto, sei que somente punição não basta. É necessário investir em educação, no combate às drogas e ao acesso fácil a armas, em medidas sociais na periferia, atividades de lazer e cultura, para não permitir que o jovem seja cooptado pelo crime. Mas, de forma concomitante, aprovar medidas que coíbam de forma drástica os crimes cometidos pelos menores. Eles precisam ter receio da punição que vão receber. Será que o bandido que executou meu filho o faria, se soubesse que teria de cumprir pena de até 30 anos, e não medida socioeducativa de até três anos? Pior: a presidente da Fundação Casa, Berenice Giannella, afirmou que o tempo médio de internação é de nove meses. No caso do meu filho, fui informada em fevereiro de 2015 que, apenas um ano e dez meses após ter executado Victor, o bandido estava em processo de soltura. Acredito que já esteja em liberdade. Isso é uma pena justa?

Acredito que não se deve levar a discussão sobre a maioridade penal para o campo da “luta de classes”, em que se diz que o executor do Victor, por ser negro e pobre, não tinha alternativas na vida. A teoria “do pobre coitado” não se justifica. A falta de estrutura familiar, valores cristãos e valores morais pode levar qualquer jovem, de qualquer classe social, para o crime. É questão de ter índole criminosa ou não. É questão de escolha. O jovem escolhe ser ou não bandido, simples assim.

 Ideologias utópicas de esquerda tentam nos fazer crer que a maioridade penal não deve ser reduzida, por causa da parcela de menores que comete crimes hediondos ser maior ou menor, ou por causa do índice de reincidência do bandido menor de idade ser menor ou maior. Mas não resta dúvida de que o jovem infrator, ao deparar com a impunidade regida pelo ECA, vai se aprimorando na prática criminal. Se o bandido juvenil tem discernimento para entender o ato que pratica e “coragem” suficiente para matar cruelmente, e já que as medidas socioeducativas do ECA não atendem mais aos anseios da sociedade, só nos resta pedir: redução da maioridade penal, já!

Marisa Deppman é advogada, formada em Direito pela Universidade Cidade de São Paulo (Unicidi). Concorreu a deputada federal pelo PSDB no ano passado


Época

Ari Friedenbach: "Reduzir a maioridade penal só deslocaria o problema"

Para o advogado, os governos deveriam criar unidades punitivas e reeducativas ao mesmo tempo. E crimes cometidos na adolescência têm de reaparecer na ficha de criminosos adultos, em vez de sumir

ARI FRIEDENBACH
30/05/2015                      
Ari Friedenbach sobre maioridade penal  (Foto: Arquivo pessoal)

Em 2003, por uma tragédia, minha vida mudou de forma drástica. Minha filha Liana, então com 16 anos, foi estuprada e assassinada por um menor de idade, conhecido por Champinha, e sua quadrilha. O choque e a dor me deixaram amortecido, sem rumo, dominado por raiva e vontade de vingança. Após o crime, passei semanas dormindo à base de medicamento. Buscava uma explicação. O tempo me fez rever os conceitos mais radicais e me fez entender que eu tinha uma missão: fazer algo para que a Justiça fosse mais severa e outras tragédias pudessem ser evitadas. Apoiar a simples redução da maioridade penal me pareceu uma solução imediata e simples. Mas não era esse o caminho.

Crimes graves praticados por menores de idade e a impunidade fazem parte do nosso dia a dia. O círculo vicioso requer ação imediata, mas também inteligente. Como advogado, passei a me aprofundar na legislação. Consultei especialistas, visitei unidades de recuperação de menores e acompanhei casos de famílias vítimas de violência. Elaborei uma proposta. Nesses 11 anos de estudo, entendi que reduzir a maioridade penal apenas deslocaria o problema para outras faixas etárias. Menores de 15, 14, 13 e 12 também cometem crimes graves e ficam impunes. Nove meses em uma unidade de ressocialização não é punição suficiente para um crime grave. E menores que cometem infrações de baixa periculosidade e apresentam condições de ressocialização não podem ser punidos na mesma proporção que um estuprador ou assassino.

 
Defendo a responsabilização do menor que comete crime grave ou violento – homicídio, latrocínio, estupro, assalto à mão armada e sequestro. A ideia é que, após o crime, o menor passe por um exame, por uma junta especializada, que avalie sua condição psicológica e sua consciência em relação ao ato. O parecer técnico embasará a decisão do juiz. Comprovado que o agressor está ciente do que fez, haverá a possibilidade de responsabilizar o menor, para que ele seja julgado. Isso requer alteração legal e não constitucional.

 Uma vez condenado, o menor cumprirá pena e, paralelamente, passará pelo trabalho de ressocialização em uma prisão da Fundação Casa, um novo tipo de unidade a ser criado. Não adianta ele cumprir pena numa prisão comum, que não devolve ninguém ao bom convívio com a sociedade. Caso seja identificado algum distúrbio mental, o infrator deverá ser internado em unidades de saúde e interditado civilmente.

O julgamento deve aplicar o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), antecedentes e agravantes e a Lei de Execuções Penais (que garante a elaboração de um programa individual de privação da liberdade, adequado ao julgado). Outras duas medidas ajudariam: agravar a pena de maiores que usem menores para cometer ou assumir delitos e resgatar a ficha policial do jovem que reincida no crime, após a maioridade. Quem cometer crime como menor e depois como maior deve ser julgado como reincidente. Minha proposta é uma nova alternativa para o tema – mais severa, preventiva e justa.

Ari Friedenbach é advogado cível pela PUC-SP. Filiou-se ao PPS em 2010, tornou-se vereador em 2013 e hoje integra o Pros. Atua na Comissão Extraordinária Permanente de Segurança Pública


Época

Brasil, o país das cesáreas, reduz a mortalidade materna menos que o combinado

A queda nessas mortes, desde 1990, é de 55%. O país havia se comprometido na ONU com uma redução de 75%
                           
IGOR UTSUMI, COM ALINE RIBEIRO
30/05/2015
 
Em 1990, 141 mães morriam para cada 100 mil bebês nascidos no Brasil. Em 2000, o país se comprometeu a reduzir esse número em 75%. E em 2015, mostrou que não cumpriu a meta.
 
Mesmo com um avanço notável — houve redução de 55%, o que significa, hoje, 64 mortes para cada 100 mil nascidos vivos — o objetivo não será alcançado. Não há uma explicação única para o fracasso, mas a Organização das Nações Unidas (ONU) aponta o excesso de cesáreas como principal vilão.
 
A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que, no máximo, 15% dos nascimentos sejam realizados por cesárea. No Brasil, o porcentual cresce ano após ano e hoje fica perto de 55%, a maior taxa do planeta. Mulheres submetidas ao procedimento, segundo a ONU, têm 3,5 vezes mais chances de morrer do que aquelas que realizam parto natural.
 
Reduzir o número de mulheres que morrem em decorrência da gravidez ou do parto foi o único Objetivo de Desenvolvimento do Milênio (ODM) que o Brasil não chegou nem perto de alcançar. Ele fazia parte de uma série de metas estipuladas em 2000 pela ONU. Aceitas pelo Brasil e outros 188 países, deveriam ser cumpridas até 2015.
 
Com o prazo se encerrando, algumas áreas tiveram progressos importantes, como redução da miséria, fome e universalização da educação básica. Carlos Lopes, secretário geral adjunto da ONU, afirmou a ÉPOCA que o desempenho do Brasil é louvável, embora tenha ficado “um pouquinho abaixo do esperado” na diminuição da mortalidade materna.
 
Movimentos sociais questionam se o único ODM voltado só a mulheres teria recebido menor atenção — e investimento — de forma intencional. “Ter quase o dobro de mortes daquilo que foi estipulado não é pouco. É absurdo”, diz Raquel Marques, presidente da ONG Artemis. “No Brasil, há assistência médica quase universal a grávidas e parturientes, mas mesmo assim não resolvemos o problema”.
 
Para Alessandra Nilo, diretora da Associação Brasileira de Organizações Não-Governamentais (Abong), é preciso avaliar se o problema é encarado de forma “menos grave” do que a fome, por exemplo. “A mortalidade de mulheres ainda não é tratada com a atenção merecida”, afirma. “Mostra-se necessário olhar de forma especial como desigualdades de gênero podem influenciar a questão”.
 
>> Ouça o comentário de Cristiane Segatto, repórter especial de Época, sobre o tema

Época

Mulheres ocidentais são atraídas pelo Estado Islâmico por razões complexas

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As mulheres são atraídas para o Estado Islâmico por diversas razões,
incluindo o senso de isolamento, o sentimento de que a comunidade
internacional muçulmana está sob ameaça, além da promessa de
uma irmandade, que é muito importante para jovens mulheres
(Foto: Wikimedia)
Pesquisas indicam que cerca de 550 mulheres ocidentais estão vivendo em territórios controlados pelo Isis
Mulheres ocidentais estão desempenhando um papel importante na disseminação da propaganda do Estado Islâmico (Isis) e não apenas migrando para a região para se tornar noivas jihadistas, segundo um novo relatório de pesquisa britânico.
O relatório foi publicado na última quinta-feira, 28, pelo Instituto para o Diálogo Estratégico e o Centro Internacional para o Estudo da Radicalização, do King´s College, em Londres. As mulheres são atraídas para o Estado Islâmico por diversas razões, incluindo o senso de isolamento, o sentimento de que a comunidade internacional muçulmana está sob ameaça, além da promessa de uma irmandade, que é muito importante para jovens mulheres, segundo o relatório.
As pesquisas indicam que cerca de 550 mulheres ocidentais estão vivendo em territórios controlados pelo Estado Islâmico. Ser mãe e esposa são as suas principais responsabilidades, apesar de algumas terem o desejo de lutar nas frentes de batalhas, o que não é permitido pela interpretação da sharia promovida pelo Isis. Entretanto, elas têm tido um papel importante na propaganda e no recrutamento de outras mulheres.
E apesar dos pesquisadores dizerem que o casamento não é a única razão para as mulheres se juntarem ao Estado Islâmico, eles sabem que isso ainda é um fator. “Online, imagens de leão e leoa são frequentemente compartilhadas para simbolizar esta união. Este é um símbolo que significa encontrar um marido forte e corajoso, mas de também fazer propaganda de que apoiar um marido jihadista e assumir a ideologia do Isis é um papel de empoderamento para as mulheres”, diz o relatório.
Fontes: The Washington Post-Report: Western women are attracted to Islamic State for complex reasons
Opinião e Notícia

Joana D'Arc

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Joana D’Arc se transformou em uma figura mítica após ter ajudado a França a vencer a Guerra dos Cem Anos (1337-1453), empreendida contra a Inglaterra, entre os séculos XIV e XV.  
 
Joana D’Arc nasceu na França, no ano de 1412, no lugarejo de Domrémy. No contexto histórico do século XV, a França se encontrava em meio a uma “turbulência” política, social e econômica. O rei Carlos VI estava doente e, por suas ausências no governo, a rivalidade entre a casa da França e a casa de Borgonha (também na França) acentuou-se.
 
A França, no século XV, encontrava-se quase que em uma total anarquia e permeada por motins e assassinatos. Assim, os conflitos civis e a desordem social estavam instalados na França. Dentro desse contexto, a Inglaterra, sob o comando do rei Henrique V, viu a oportunidade de tomar o poder na França.
 
No ano de 1422, no entanto, o rei Carlos VI, da França, e o rei inglês Henrique V, morreram. A irmã de Carlos VI, casada com Henrique V, assumiu a regência do trono francês. Sem nenhum sucessor para o trono francês, os ingleses aproveitaram para uma possível invasão da França. No momento em que a França estava sendo invadida pelos ingleses, surgiu a figura mítica da história francesa: Joana D’Arc, insatisfeita com o governo britânico, assim como os camponeses e populares.
 
Joana, quando era criança, divertia-se normalmente, brincava, mas tinha responsabilidade sobre outros afazeres: tomava conta do rebanho de carneiros, costurava e cuidava dos serviços domésticos. A religiosidade era outra característica presente na vida de Joana D’Arc, tanto é que, aos 12 anos de idade, conta-se que a menina afirmou ter ouvido vozes vindas do céu que lhe diziam para salvar a França e coroar o rei.
 
Em certo dia, Joana escreveu ao rei uma carta, pedindo conselhos, e o rei aceitou recebê-la (os motivos da concordância do rei são desconhecidos). Dessa maneira, Joana D’Arc partiu para a corte no dia 13 de fevereiro de 1429 e chegou ao Castelo de Chinon, residência do rei Carlos VII (filho de Carlos VI. É interessante ressaltar que a Inglaterra não reconhecia a legitimidade do governo de Carlos VII), no dia 23 de fevereiro. As primeiras palavras de Joana para o rei foram em relação à visão que havia tido.
 
Entretanto, o rei somente acreditou em Joana quando ela falou sobre os vários pedidos que ele fizera a Deus, enquanto rezava solitário na Igreja. Após ser testada também por teólogos, Joana D’Arc recebeu do rei uma espada, um estandarte e o comando geral dos exércitos franceses.
 
Joana queria atacar a região de Orleans sob o comando dos ingleses, por isso enviou um aviso a eles: “A vós, ingleses, que não tendes nenhum direito neste Reino de França, o Rei dos Céus vos ordena, e manda, por mim, Joana, a Donzela, que deixeis vossas fortalezas e retorneis para vosso país, caso contrário farei grande barulho”.¹
 
A guerreira e a tropa francesa mobilizada pelo rei Carlos VII conseguiram empreender vitórias em diversas batalhas. Essa disputa ficou conhecida na história como a Guerra dos Cem Anos (1337 – 1453), da qual a França saiu vitoriosa, conseguindo expulsar os ingleses, principalmente do norte da França.      
 
Após a expulsão dos britânicos, os nobres franceses, representados pelo rei Carlos VII, temerosos de uma forte aliança popular entre Joana D’Arc e a população camponesa, entregaram-na para os ingleses. Joana foi morta, queimada na fogueira, no ano de 1430 sob a acusação de bruxaria. No ano de 1453, a Guerra dos Cem Anos terminou com a assinatura do Tratado de Paz entre França e Inglaterra.
 
Leandro Carvalho
Mestre em História

¹ Trecho retirado: GARÇON, Maurice. ‘Joana D’Arc. Uma santa em armas’. In: Biografias. Os grandes nomes da Humanidade. Revista História Viva, nº 2 , São Paulo: Duetto-Editorial, p. 64-69.
 

Alemanha desbanca Japão e passa a ter menor taxa de natalidade do mundo

29 maio 2015

Foto: AP
Alemanha tem 8,2 nascimentos para cada mil habitantes, pouco menos que o Japão
A Alemanha desbancou o Japão e passou a ter a menor taxa de natalidade do mundo, segundo um novo estudo, gerando temores de que a escassez no mercado de trabalho possa prejudicar a economia do país – o mais rico da Europa.
 
Na pesquisa, os autores alertam sobre os efeitos da redução da população em idade ativa (ou seja, apta a exercer uma atividade econômica).
 
Eles afirmam que a maior participação das mulheres na força de trabalho poderia ser a chave para o futuro econômico do país.
 
Na Alemanha, houve uma média de 8,2 nascimentos para cada mil habitantes nos últimos cinco anos, segundo o estudo divulgado pela empresa de auditoria alemã BDO em conjunto com o Instituto de Economia Internacional de Hamburgo (HWWI).
 
O levantamento diz que, no mesmo período, o Japão registrou uma média ligeiramente maior do que a alemã, de 8,4 nascimentos para cada mil habitantes.
 
Na Europa, de acordo com o estudo, Portugal e Itália vêm em segundo e terceiro lugares com uma média de 9 e 9,3 filhos a cada mil habitantes, respectivamente. França e Reino Unido têm, em média, 12,7 nascimentos a cada mil habitantes.
 
Por outro lado, aponta a pesquisa, as maiores taxas de natalidade foram verificadas entre os países africanos. O Níger encabeça o ranking, com 50 nascimentos a cada mil habitantes.

Salários mais altos

Foto: Getty
Para pesquisadores, participação das mulheres na força de trabalho pode ser solução para futuro da Alemanha
A taxa de natalidade decrescente da Alemanha significa que o número de pessoas em idade ativa no país ─ entre 20 e 65 anos ─ cairia de 61% para 54% em 2030, informou o diretor da HWWI, Henning Voepel, por meio de um comunicado.
 
Arno Probst, da BDO, disse, por sua vez, que, devido à baixa taxa de natalidade, empregadores alemães vão enfrentar pleitos por maiores salários para custear as despesas com a previdência.
 
"Sem um mercado de trabalho forte, a Alemanha não se poderá manter na dianteira da economia por muito tempo", acrescentou Probst.
 
Especialistas, no entanto, discordam sobre as razões do baixo número de nascimentos na Alemanha, assim como os meios para enfrentar a situação.
 
Probst disse que o país precisaria de jovens imigrantes para preencher lacunas importantes do mercado de trabalho. E mais mulheres teriam de se juntar à população economicamente ativa para evitar problemas no futuro.
 
A Alemanha tem uma das maiores taxas de migração do mundo, mas, recentemente, vem assistindo a um crescente apoio ao partido anti-imigrante Alternativa para a Alemanha (AfD).
 
Os dados vêm à tona em meio aos esforços do atual governo da chanceler alemã Angela Merkel de incentivar o nascimento de mais bebês no país.
 
BBC

‘Pai-lobo’ defende agressão física na educação e cria polêmica

Fernanda Morena
Atualizado em  2 de fevereiro, 2012
O 'pai-lobo' com seus quatro filhos, três deles na Universidade (Foto: Divulgação)
O 'pai-lobo' com seus quatro filhos, três deles na Universidade (Foto: Divulgação)

 
Um empresário está causando polêmica na China com a publicação do seu livro, no qual defende a agressão física na educação infantil.
 
Xiao Baiyou, que já foi apelidado de pai-lobo, publicou em maio do ano passado um manual de educação para pais, intitulado inicialmente de "Bata nos seus filhos até a Universidade de Pequim".
 
Talvez por causa da polêmica, o livro saiu depois com o título "Então, irmãos e irmãs na Universidade de Pequim".
 
"Eu resolvi escrever o livro depois de muitos amigos dizerem que o jeito que educo meus filhos é inspirador", conta Xiao.
 
Três de seus filhos estudam na Universidade de Pequim – uma das instituições de maior prestígio na China –, o que ele entende como a prova de sucesso do seu método.
 
Xiao Baiyou, 48, é um homem de negócios de sucesso, trabalhando há mais de 15 anos no mercado imobiliário de Guangzhou, no sul da China.
 
Já esteve no Brasil duas vezes, adora futebol e mantém como plano de vida ter 12 netos com títulos de pós-graduação. Para isso ele foi educado e por isso ele faz do seu método a bíblia dos melhores pais da China.
 
"Eu sou o imperador da minha casa. Meus filhos fazem o que eu digo, e não tem reclamação", ensina.
 
As normas da casa de Xiao – que somam cerca de cem – vão desde como segurar um copo, cobrir-se com o cobertor, até o limite de uma única hora semanal de televisão. As regras também excluem atividades extra-curriculares e encontros com amigos.

Sucesso de Xiao no equivalente chinês do Twitter

"Se meus filhos não obedecem, eles apanham", diz o pai-lobo, que começou a bater em seus filhos aos três anos e parou quando eles tinham 12. Entre estas idades, acredita, as crianças "são como animais, que precisam ser treinados, pois seu entendimento social não está completo".

Linha dura

Com seu livro, Xiao engrossa o coro cujo tom foi estabelecido em janeiro de 2011 pela chamada Mãe-Tigre, Amy Chua, com seu livro "Grito de guerra da mãe-tigre".

A professora de Direito na Universidade de Yale colocou a China e os Estados Unidos em uma nova batalha por dominação mundial – a da educação. Sua hipótese é que a China conta com mais filhos prodígios por manter uma educação menos indulgente.

Descendente de chineses, Amy mora nos Estados Unidos há mais de duas décadas. Para ela, a vantagem da educação de estilo chinês sobre a de estilo americana é a luta pelo esforço pessoal e trabalho árduo na conclusão de tarefas.

"Filhos chineses não podem desistir", diz a descendente de chineses que mora nos EUA. Sua teoria causou tanto barulho que foi considerada pela revista americana Time como a 13ª pessoa mais influente do mundo.

Ainda que a polêmica criada em torno das histórias de Amy tenha sido "mais negativa do que positiva em 2011", conforme a escritora, o sucesso de seu sistema educacional é, para ela, comprovado pela entrada da filha em grandes universidades.

No final do ano passado, a primogênita de Amy, Sophia, de 17 anos, foi aceita pelas universidades de Harvard e Yale.

De forma semelhante, o pai-lobo crê que são os sucessos dos filhos que comprovam suas teorias. Seu filho mais velho, Xiao Yao, de 23 anos, foi o que mais apanhou.

Suas irmãs mais novas, hoje com 21, 20 e 16 anos, eram obrigadas a ficar ao lado do irmão enquanto ele era punido.

"O mais velho tem de ser o exemplo para os mais novos", explica Xiao. "E meus filhos cada vez mais acreditam na educação que receberam", ressalta.
Foto: Peter Z. Mahakian
A 'mãe-tigre' Amy Chua
(Foto: Peter Z. Mahakian)

Xiao atesta que seu método é a volta da educação tradicional chinesa, em oposição à educação ocidental que ele considera permissiva demais, e só poderia funcionar no Ocidente.

"As leis são diferentes, e as necessidades sociais também. Um país superpopuloso como a China precisa de seus truques na hora de formar profissionais competentes."

Ocidente x Oriente

Na China, as opiniões são divididas tanto entre pai-lobo e mãe-tigre quanto entre os sistemas de educação do Oriente e do Ocidente em si.

No Weibo, microblog que emula o Twitter, proibido no país, o pai-lobo tem 3.455 fãs, enquanto Amy tem 9.136.

As críticas à educação com disciplina férrea, porém, são maiores. No site Douban, uma espécie de MySpace, a comunidade Antipais, criada em 2008, tem mais de 50 mil seguidores.

Casos de suicídio entre estudantes reportados pela mídia local elevaram as críticas contra a repressão na educação instituída na China, dentro e fora das casas, em que a agressão física não é proibida.

Só em dezembro de 2011 o governo municipal de Pequim anunciou a criação de uma lei que proíbe o uso de repressão física pelos professores em salas de aula.

Embora tanto a mãe-tigre quanto o pai-lobo defendam o rigor na educação, ambos diferem bastante entre si.

Em seu livro, Amy conta como forçou sua filha de sete anos Lulu a praticar uma canção no violino até executá-la com perfeição – sem pausas para jantar, tomar água ou ir ao banheiro.

A mãe-tigre jamais aceitou que suas filhas tirassem notas abaixo de A (a não ser em educação física e artes), namorassem, dormissem na casa de amigas ou assistissem à TV.

"A educação ocidental é muito liberal, mas tende a formar crianças mais criativas, mais interessantes. Procuro esse balanço ao propor um método de educação que une a restrição e o esforço chineses à criatividade", diz Amy.

Sobre a educação do pai-lobo, ela diz que a considera "muito restritiva". "Sou contra a punição por agressão física em qualquer lugar. O pai-lobo é muito restritivo, controla todos os aspectos da vida de seus filhos. Isso jamais aconteceria nos EUA."

Já o pai-lobo considera que os conceitos da educação da mãe-tigre, embora claramente oriundos da educação chinesa, foram amenizados pelo "sistema legal americano, que monitora, através de leis, o tratamento das crianças em suas casas".

"Acho que ela tem bons pontos, mas eles funcionam somente em comparação à sociedade ocidental", diz Xiao.

BBC

Na China, ‘pai-gato’ entra na polêmica para rivalizar com ‘mãe-tigre’

  • 28 maio 2015   
Série de TV chinesa mostra disputas entre casal em que a mãe é severa e o pai, relaxado em relação à criação da filha
Talvez você se lembre da mãe que causou polêmica ao publicar um livro sobre a maneira bastante rígida que ela criava suas filhas.
 
Em Grito de Guerra da Mãe-Tigre, a acadêmica americana de origem chinesa Amy Chua dizia que as filhas não podiam brincar na casa de amigos, nem trazer amigos para brincar com elas, nem assistir TV, nem reclamar. Todas as suas notas tinham de ser as mais altas da classe.
 
Em um episódio, a mãe conta como forçou sua filha de sete anos a praticar uma canção no violino até executá-la com perfeição – sem pausas para jantar, tomar água ou ir ao banheiro.
 
Mas quatro anos após a polêmica, um novo estilo chinês e "felino" de criar filhos está entrando em cena para tentar rivalizar com a mãe-tigre: o pai-gato.
 
Sua abordagem com as crianças é a oposta da de Amy. Ele é sensível, gentil, relaxado em relação a regras e disciplina, e acredita que isso faz com os filhos sejam independentes e autossuficientes.
 
O termo pai-gato está os mais populares do site de microblogging chinês Sina Weibo (parecido com o Twitter), por causa do sucesso de um programa de TV local chamado - em tradução livre - Mãe-Tigre Pai-Gato.
Post do ator que representa o pai-gato viralizou nas redes sociais chinesas
Os dois principais personagens são, como o título sugere, atores interpretando uma mãe rígida e um pai “relax”. O estilo deles entre em choque na hora de criação da filha pequena.
 
“Como o nome sugere, o pai-gato prefere uma abordagem mais gentil na hora de educar as crianças, enquanto a mãe-tigre e o pai-lobo acreditam que a educação é um processo doloroso”, conta Vicent Ni, da BBC Chinesa.
 
“Fazia tempo que a TV chinesa não passavam um programa que capturava tão bem o conflito entre essas duas filosofias de educação. Os chineses acompanharam a série de perto e, inclusive, levaram a polêmica para as mídias sociais, para discutir e compartilhar suas opiniões sobre como criar filhos”, diz Ni.

Polêmica

Mais de 80 milhões de chineses assistiram ao programa e seu episódio final gerou dezenas de milhares de comentários no Weibo.
 
Alguns defenderam o pai-gato: “Eu acho que há muito bullying com ele. É totalmente desrespeitoso”, comentou um usuário.
 
Já outros disseram que o pai era fraco e não chegava ao pé da mãe. “Eu acho que eles deveriam se separar”, escreveu outro usuário. “Esse pai-gato não é homem de verdade.”
 
Tong Dawei, o ator que interpreta o pai, postou uma foto dele e de seu filha na sua conta do Weibo, com uma legenda bem humorada: “A mamãe saiu quando o cano quebrou. O papai então segurou o choro e consertou antes que ela chegasse.”
 
O post teve uma incrível repercussão, com 63 mil curtidas e 5 mil comentários.
 
“Como homem, eu jamais poderia ser como o pai-gato – prova de que até mesmo quando a vida imita a arte, o pai-gato ainda não ‘pegou’ na China”, dizia um dos comentários.
 
Apesar de o estilo pai-gato não ser tão famoso com a mãe-tigre, ele existe há tanto tempo quando ela. Um dos pais-gatos originais foi Chang Zhitao, de Xangai, que participou de um debate na TV com Amy Chua, logo após o lançamento de seu livro.
 
Na ocasião, como exemplo do sucesso de seu método, Amy contou que obrigou a filha a passar a noite fazendo contas após uma nota baixa em matemática.
 
Zhitao rebateu, dizendo que quando a filha teve problemas com redação, ele a chamou para brincar – e depois a menina escreveu um belo texto, porque diz que ficou inspirada pelo pai.
 
Apesar do estilo oposto de Zhitao e Chua, os filhos de ambos entraram na Universidade de Harvard.
 
E como se não bastassem o tigre e o gato, há ainda um outro “estilo animal” de criar os filhos na China, “o pai-lobo”, que é ainda mais rígido do que a mãe-tigre e acredita que castigos físicos fazem parte da educação de uma criança.
 
BBC