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domingo, 31 de janeiro de 2016

Ayaan Hirsi Ali: "O que devemos não tolerar?"

por
 Ayaan Hirsi Ali - 28.01.2016 

Ayaan Hirsi Ali“É quase um milagre que Ayaan Hirsi Ali, uma das heroínas de nosso tempo, ainda esteja viva. Os fanáticos islâmicos quiseram acabar com ela e não conseguiram, e não é impossível que continuem tentando, pois se trata de um dos mais articulados, influentes e determinados adversários que eles têm no mundo", relata Mario Vargas Llosa em seu artigo O poder da blasfêmia, sobre a mais recente obra de Hirsi Ali, Herege (Companhia das Letras, 2015).
O livro é um apelo por uma reforma do islamismo como único modo de acabar com o terrorismo, as guerras sectárias e a repressão contra mulheres e minorias. Em Herege, Hirsi Ali identifica as cinco mudanças que precisam ser feitas na religião islâmica para que muçulmanos abandonem os dogmas que os prendem ao século VII.
Em seu artigo, Mario Vargas Llosa as explica brevemente: “1) a crença de que o Corão expressa a imutável palavra de Deus e a infalibilidade de Maomé, seu porta-voz; 2) a prioridade que o islã concede à outra vida sobre a do aqui e agora; 3) a convicção de que a sharia constitui um sistema legal que deve governar a vida espiritual e material da sociedade; 4) a obrigação do muçulmano comum de exigir o justo e proibir o que considera errado; 5) a ideia da jihad ou guerra santa."
Em Herege, Ayaan Hirsi Ali pede atenção do Ocidente para a recente e crescente redução da liberdade de mulheres e minorias nos países islâmicos e lastima que, no mundo, as reações a um livro sagrado criticado tenham mais peso do que milhares de pessoas mortas pelo Estado Islâmico. Confira abaixo um excerto da obra:
A primeira vez que me levantei para falar em público foi logo após o Onze de Setembro de 2001. Foi num fórum público, uma “casa de debates", que é uma instituição relativamente comum na Holanda. Eu estava trabalhando num think tank social-democrata pequeno, mas respeitado, e o meu chefe sugeriu que eu fosse.
O debate era apresentado por um jornal holandês, uma publicação que fora originalmente religiosa (protestante), mas agora era bem secular, e o tema era “Quem precisa de um Voltaire, o Ocidente ou o Islã?". O auditório estava lotado. Quem não conseguia encontrar lugar se encostava ao longo das paredes. E, em muitos aspectos, foi uma reunião interessante e incomum por haver tantos participantes muçulmanos na plateia. Normalmente eram quase todos brancos nesses locais, porque os temas em debate eram coisas como “Quanto de controle podemos ceder à União Europeia?" ou “Por que devemos trocar o florim pelo euro?". Nessa noite, porém, os membros habituais da elite de Amsterdam estavam ombro a ombro com muçulmanos da Turquia, do Marrocos e de outros países, quase todos imigrantes ou filhos de imigrantes na Holanda.
Havia seis palestrantes nessa noite, e cinco deles disseram, em essência, que era o Ocidente que precisava de um Voltaire, ou seja, que o Ocidente era o lugar mais necessitado de reforma. Seu argumento foi que o Ocidente tinha um ponto cego, com uma história longa e perversa de exploração e imperialismo, que não tinha ouvidos para o que se passava no resto do mundo, e que precisava de outro Voltaire para explicar tudo isso.
Eu estava sentada no meio desse mar de rostos, brancos, mulatos e pretos, e só ouvindo, cada vez mais consciente de que discordava do que foi dito. Finalmente, o sexto participante falou, um iraniano, refugiado, advogado. “Bem", disse ele, “olhe para as pessoas nesta sala. O Ocidente não tem um Voltaire, mas milhares, se não milhões, de Voltaires. O Ocidente está acostumado com críticas, acostumado com autocrítica. Todos os pecados do Ocidente estão expostos para todos verem."
Em seguida, ele disse: “É o islamismo que precisa de um Voltaire". E discorreu sobre uma lista com todas as coisas que são erradas ou questionáveis no islã — pontos que ressoaram em mim. E por isso ele foi vaiado, foi vaiado até se calar. (Ironicamente, dez anos depois, Irshad Manji, um resoluto defensor da reforma islâmica, falou nesse mesmo salão. Dessa vez, o público tinha mudado completamente. Estava lotado, não de observadores curiosos, mas de fundamentalistas islâmicos linha-dura, e nessa noite o público estava tão combativo que Irshad teve de ser retirado dali às pressas pelos seguranças.)
Depois que o advogado iraniano falou, houve um intervalo e, então, a plateia teve a oportunidade de fazer perguntas. Acenei com a mão e alguém com o microfone viu meu rosto negro e, provavelmente, pensou, “pela diversidade" — os organizadores brancos de tais eventos estavam de fato muito interessados em ouvir o que se passava na cabeça, nas famílias e nas comunidades dos imigrantes. Entregou-me o microfone. Levantei-me e concordei com o iraniano. Eu disse: “Vejam vocês. Há seis pessoas aí, vocês convidaram seis palestrantes, e um deles é o Voltaire do islã. Vocês têm cinco Voltaires, então permitam que nós, muçulmanos, tenhamos um, por favor". Isso levou um editor de jornal a me pedir que escrevesse um artigo, a que deu o título “Por favor, permitam-nos um Voltaire".
Nos meses e anos que se seguiram, li cada vez mais. Li opiniões ocidentais acerca do islã e da cultura muçulmana. Li mais pensadores liberais do Ocidente. E li sobre os reformadores muçulmanos do passado. A minha conclusão é que o islã ainda precisa de um Voltaire. Mas concluí que também há extrema necessidade de um John Locke. Afinal, foi Locke que nos deu a noção de um “direito natural" fundamental “à vida, à liberdade e à propriedade". Menos conhecida, porém, é a forte defesa de Locke da tolerância religiosa. E a tolerância religiosa, no entanto, por mais que tenha demorado a ser posta em prática, é uma das maiores conquistas do mundo ocidental.
Locke defendia que as crenças religiosas são, nas palavras do estudioso Adam Wolfson, “questões de opinião, opiniões a que todos igualmente temos direito, em vez de quantidade de verdades ou conhecimentos". Na formulação de Locke, a proteção contra a perseguição é uma das mais altas responsabilidades de qualquer governo ou governante. Locke também argumentava que, quando há coação e perseguição para mudar de opinião, isso só funciona a um altíssimo custo humano, produzindo em seu rastro tanto crueldade quanto hipocrisia.
Para Locke, ninguém deve “desejar impor" a sua visão da salvação a outrem. Em vez disso, em sua visão de sociedade tolerante, cada indivíduo deve ser livre para seguir seu próprio caminho na religião e respeitar o direito dos outros de seguirem seus próprios caminhos: “Ninguém, nem mesmo Estados", Locke escreveu, “tem o direito justo de invadir os direitos civis e os bens materiais de outrem a pretexto de religião".
O que quase sempre se esquece é que Locke restringia essa liberdade de religião a denominações protestantes. Ele não incluía a Igreja Católica Romana porque “todos aqueles que nela entram, ipso facto entregam-se à proteção e ao serviço de outro príncipe". Se Locke estivesse vivo hoje, desconfio que argumentaria de maneira semelhante acerca do islã. Enquanto houver alguns muçulmanos acreditando que os ensinamentos de Maomé em Medina destroem sua lealdade para com os países de que são cidadãos, vai haver uma legítima suspeita de que a tolerância ao islã põe em risco a segurança desses países. A questão central para a civilização ocidental continua a ser a mesma da época de Locke: o que devemos não tolerar?
Vamos começar pela opressão de metade da humanidade.
DIREITOS EM RETIRADA
Hoje, mais de duzentos anos depois de Voltaire e trezentos depois de John Locke, os direitos das mulheres estão recuando em todo o mundo muçulmano. Pense, para fins de simples ilustração, o que se permite que as mulheres muçulmanas vistam. Não é o mais importante direito humano, admito. Mas é uma liberdade com que a maioria das mulheres se preocupa.
Veja fotografias de qualquer uma das cidades muçulmanas do mundo na década de 1970: Bagdá. Cairo. Damasco. Cabul. Mogadíscio. Teerã. Veremos que muito poucas mulheres naqueles dias estavam cobertas. Em vez disso, nas ruas, em edifícios de escritórios, em mercados, cinemas, restaurantes e residências, a maioria das mulheres se vestia de maneira bem semelhante àquelas na Europa e nos Estados Unidos. Elas usavam saia acima do joelho. Adotavam as modas ocidentais. Usavam o cabelo preso e visível.
Hoje, ao contrário, a simples foto de uma mulher andando pelas ruas de Cabul com uma saia à altura do joelho se torna um acontecimento viral na internet e provoca condenação generalizada como “despudorada" e “quase nua", e o governo é criticado por estar “dormindo". Quando eu estava na escola primária em Nairóbi, as que cobriam a cabeça eram exceção — menos de metade das meninas. Há alguns anos, pesquisei no Google a minha antiga escola primária. Nas fotos postadas, quase todas as meninas estavam cobertas.
Não se trata só de como nos vestimos. Se você é mulher e vive na Arábia Saudita, quer dirigir, quer sair de casa sem um guardião. Pode ter dinheiro, mas não pode fazer nada além de ficar em casa ou fazer compras sob supervisão masculina. No Egito, estamos lutando contra uma onda cada vez maior de assédio sexual — 99% das mulheres relatam terem sido vítimas de assédio sexual e ocorrem até oitenta agressões sexuais em um único dia.
Especialmente preocupante é o modo como o status das mulheres como cidadãs de segunda classe está se solidificando na legislação. No Iraque, está sendo proposta uma lei que reduz para nove anos a idade com que as meninas podem ser obrigadas a se casar. Essa mesma lei daria ao marido o direito de negar permissão à mulher para sair de casa. Na Tunísia, as preocupações se concentram na imposição da sharia. No Afeganistão e no Paquistão, por outro lado, precisamos temer o assassinato a tiros pelo crime de frequentar uma escola. E para as meninas de todo o norte da África, e além, permanece a ameaça de mutilação genital feminina, costume que certamente antecede o islã, mas que agora está quase totalmente confinado às comunidades muçulmanas. A Unicef estima que mais de 125 milhões de mulheres e meninas foram mutiladas nos países africanos e árabes, muitos deles de maioria muçulmana. Como se torna gradualmente claro, esse costume também é comum em comunidades de imigrantes na Europa e na América do Norte.
No mundo islâmico, muitos direitos básicos são restritos, e não só os direitos das mulheres. A homossexualidade não é tolerada. Outras religiões não são toleradas. Principalmente a liberdade de expressão em assuntos relativos ao islã não é tolerada. Como sei muito bem, livres-pensadores que queiram questionar obras como o Alcorão ou o hadith correm risco de morte.
O islã sofreu um cisma; nunca teve reforma. As discussões iniciais no islã produziram um sectarismo feroz que muitas vezes envolvia derramamento de sangue, mas quase sempre no tocante a questões técnicas. A maior foi sobre quem deve suceder o Profeta como líder do ummah: os sunitas queriam selecionar um califa (literalmente, um suplente) com base no mérito, enquanto os xiitas insistiam em um imame que era parente do Profeta. Uma divisão menor foi provocada pela questão de saber se Alá falou ao ditar o Alcorão. (Uma escola do pensamento islâmico, Mu'tazilite, argumentava que Alá não tem laringe humana e que o Alcorão não é, portanto, “discurso" de Alá.)
A ideia de “reforma" no islã tem, em grande parte, se concentrado na resolução de tais questões restritas. Na verdade, o termo “ijtihad", a coisa mais próxima de “reforma" em árabe, significa tentar definir a vontade de Deus em algum assunto novo, tal como: o muçulmano deve rezar dentro de um avião (nova invenção tecnológica) e, em caso afirmativo, como ele pode ter certeza de estar de frente para Meca? Mas a ideia ampla de “reforma", no sentido de questionar fundamentalmente os dogmas centrais da doutrina islâmica, é notável por sua ausência. O islã tem até seu próprio termo pejorativo para denominar encrenqueiros teológicos: “aqueles que se entregam a inovações e seguem suas paixões" (em árabe ahl al-bida, wa-l-ahwa').
TOLERAR A INTOLERÂNCIA
A maioria dos norte-americanos e também a maioria dos europeus preferem muito mais ignorar o conflito fundamental entre o islã e sua própria visão de mundo. Isso porque, em parte, eles geralmente supõem que “religião", qualquer que seja sua definição, é uma força do bem e que qualquer conjunto de crenças religiosas deve ser considerado aceitável em uma sociedade tolerante. Concordo com isso. Em muitos aspectos, apesar de seus elevados objetivos e ideais, os Estados Unidos acham difícil tornar realidade a tolerância religiosa e racial.
Mas isso não significa que devemos fechar os olhos para as possíveis consequências de nos adaptarmos a crenças que sejam abertamente hostis a leis, tradições e valores ocidentais. Pois não é simplesmente uma religião com que temos de lidar.
É uma religião política, e muitos de seus princípios fundamentais são irreconciliavelmente hostis ao nosso modo de vida. Precisamos insistir que não somos nós, no Ocidente, que devemos nos adaptar às sensibilidades muçulmanas; são os muçulmanos que devem se adaptar aos ideais liberais ocidentais.
Infelizmente, nem todos entendem isso.
No segundo semestre de 2014, Bill Maher, apresentador do programa Real Time with Bill Maher, na HBO, apresentou um debate sobre o islã que contou com o autor de best-sellers Sam Harris, o ator Ben Affleck e o colunista do New York Times Nicholas Kristof. Harris e Maher levantaram a questão de os liberais ocidentais estarem ou não abandonando seus princípios por não combater o islã com relação a seu tratamento em relação às mulheres, a promoção da jihad e punições baseadas na sharia com apedrejamento e morte para os apóstatas. Para Affleck, isso cheirava a islamofobia e ele respondeu com uma explosão de indignação moralista. Sob aplausos da plateia, ele acusava com veemência Harris e Maher de serem “nojentos" e “racistas" e dizia coisas não distantes de “você é um judeu safado". Alinhando-se com Affleck, Kristof intervinha dizendo que muçulmanos corajosos estavam arriscando a vida para promover os direitos humanos no mundo islâmico.
Depois do programa, durante uma discussão no camarim, Sam Harris perguntou a Ben Affleck e a Nick Kristof: “O que vocês acham que aconteceria se tivéssemos queimado um exemplar do Alcorão no programa de hoje?". Sam, em seguida, respondeu à sua própria pergunta: “Haveria rebeliões em dezenas de países. Embaixadas cairiam. Em resposta por maltratarmos um livro, milhões de muçulmanos iriam às ruas, e nós passaríamos o resto da vida nos protegendo contra ameaças plausíveis de assassinato. Mas quando o EI crucifica pessoas, enterra crianças vivas, estupra e tortura mulheres aos milhares, tudo em nome do islã a resposta são algumas pequenas manifestações na Europa e uma hashtag (#NotInOurName [EmNossoNomeNão])".
Pouco depois da transmissão do programa, uma paquistanesa-canadense muçulmana (e ativista dos direitos dos homossexuais) chamada Einah escreveu uma carta aberta a Ben Affleck que resumiu com precisão o que eu penso:
Por que os muçulmanos estão sendo “preservados" numa cápsula do tempo de séculos atrás? Por que não há problema em continuarmos a viver em um mundo onde as nossas mulheres são comparadas a mercadorias à espera de serem consumidas? Por que é bom para as mulheres do resto do mundo lutar por liberdade e igualdade, enquanto nos mandam cobrir nosso corpo vergonhoso? Não veem que estamos sendo impedidas de ingressar nesse clube de elite conhecido como século XXI?
Liberais nobres como você sempre defendem os muçulmanos malrepresentados e combatem os islamofóbicos, o que é ótimo, mas quem fica a meu lado pelos que se sentem oprimidos pela religião? Toda vez que erguemos a voz, uma de nós é assassinada ou ameaçada.
[...] O que você fez ao gritar “racista!" foi encerrar uma conversa que muitos de nós aguardávamos ansiosas. Você ajudou aqueles que querem negar que há problemas a rejeitá-los.
O que há de tão errado em querer entrar no século atual? Não deve haver vergonha nenhuma. Não há como negar que a violência, a misoginia e a homofobia existem em todos os textos religiosos, mas o islã é a única religião a que se obedece tão literalmente, até hoje.
Na sua cultura você tem o luxo de chamar esses literalistas de “malucos" […]. Na minha cultura, tais valores são defendidos por mais pessoas do que se imagina. Muitos vão tentar negá-lo, mas, por favor, me ouça quando digo que esses não são valores marginais. Está evidente na ausência de muçulmanos dispostos a se posicionar contra a arcaica lei sharia. A punição por blasfêmia e apostasia etc. é instrumento de repressão. Por que não tratam desse assunto, mesmo as pessoas pacíficas, que não são fanáticas, que só querem comer uns sanduíches e rezar cinco vezes por dia? Onde estão os manifestantes muçulmanos contra as leis de blasfêmia/apostasia? Onde estão os muçulmanos que assumem uma postura contra a interpretação rígida da sharia?

Criança de 9 anos é a primeira no Brasil a ser autorizada pela Justiça a mudar de nome e gênero



a um passo transformação
“Príncipe, não. Eu sou uma princesinha”, diz Luiza*, de 9 anos, que se chamava Leandro(Foto: Fernando Moraes)

Decisão de juíz do Mato Grosso foi tomada nesta quinta-feira (28); reportagem se encontrou com família que estava emocionada

Por: Adriana Farias

A Justiça do Mato Grosso determinou nesta quinta (28) a mudança de nome e de gênero para o feminino nos documentos de uma criança transexual de 9 anos de idade.

Segundo decisão do juiz Anderson Candiotto, “a personalidade da criança, seu comportamento e aparência remetem, imprescindivelmente, ao gênero oposto de que biologicamente possui, conforme se pode observar em todas as avaliações psicológicas e laudos proferidos pelo Ambulatório Transdisciplinar de Identidade de Gênero e Orientação Sexual, do Instituto de Psiquiatria, do Hospital das Clínicas de São Paulo, evidenciando a preocupação dos pais em buscar as melhores condições de vida para a criança”.
Trata-se da estudante Luiza, de 9 anos, que antes se chamava Leandro. Ela é a primeira criança transexual do Brasil a receber essa autorização da Justiça. A pedido da família os nomes utilizados são ficticios para preservar suas identidades. 
A história da garota e de mais outros adolescentes atendidos no Hospital das Clínicas foi tema de reportagem de capa da revista VEJA SÃO PAULO em julho de 2015. Segundo a família, a revista foi anexada ao processo e ajudou a acelerar a decisão.

crianças e adolescentes trans
A capa de VEJA SÃO PAULO sobre o assunto (Foto: Veja São Paulo)
A repórter Adriana Farias encontrou com a família em um hotel em São Paulo na noite desta sexta-feira (29). Moradora de outro estado, Luiza viaja para a capital paulistana esporadicamente para visitar o ambulatório do Hospital das Clínicas.
Usando uma blusinha vermelha de babado na gola, shorts e cabelos compridos ultrapassando os ombro presos com um pequeno lacinho, a menina estava radiante. “Agora, não vou ter mais problemas nas chamadas na escola, às vezes me chamavam pelo nome masculino, no postinho de saúde e nas viagens, e era sempre era aquele zum zum zum quando olhavam para mim e para o meu documento”, conta ela, enquanto acariciava o cabelo de uma boneca do personagem Ariel, da Disney. “Eu me sentia muito mal, mas agora isso vai mudar.”
O pai Antonio, sargento aposentado do Exército, vibrava de emoção. "Foram três anos de batalha na Justiça eu ia direto no fórum cobrar uma resposta e os documentos sempre estavam na mesa do juiz para decidir”, conta. “Assim que saiu a reportagem da Vejinha, o nosso defensor público anexou-a junto ao processo, o que ajudou a acelerar porque foi a maior repercussão entre os magistrados. O juiz conversou com a Luiza no mês seguinte à publicação da matéria", relata.
"Agora que deu certo a felicidade é muito grande, já imagino quando ela for arrumar emprego ou casar vai ser tudo mais fácil", completa a mãe Beatriz. "A gente ficou surpreso porque nem transexuais adultos, que estão há anos tentando na Justiça, conseguiram o que ela conseguiu"
Os detalhes da primeira consulta no Hospital das Clínicas (HC) não escapam da memória de Beatriz. O comportamento feminino do mais novo de seus dois filhos fez com que ela e o marido  buscassem ajuda no Ambulatório Transdisciplinar de Identidade de Gênero e Orientação Sexual. Eles carregaram fotos de Leandro, então com 4 anos e 10 meses, em diversas situações: em algumas, usando os trajes de garoto presentes em seu guarda-roupa e, em outras, peças e maquiagens encontradas no armário da mãe. Na triagem, o psiquiatra Alexandre Saadeh apontou para uma imagem do caçula em trajes masculinos e perguntou a ele: “Quem é nessa foto?”. A resposta veio na lata: “Sou eu vestida de menino”.

a um passo da transformação
O psiquiatra Alexandre Saadeh: coordenador do ambulatório que atende crianças e adolescentes com disforia de genero (Foto: Fernando Moraes)
Era o início de um acompanhamento psiquiátrico e psicológico de longa duração, precedido por anos de angústia para a família, que tentou de castigos a artifícios religiosos a fim de forçá-lo a assumir o gênero com o qual veio ao mundo. Ele tinha sinais de depressão, agressividade e não queria mais sair de casa. Veio a difícil decisão: os pais passaram a criá-lo como ele sempre quis, com o nome de Luiza. Aos 9 anos, ela está prestes a se tornar a primeira criança com fortes indicativos de transexualidade a tomar medicamentos com o objetivo de bloquear a puberdade masculina e incentivar a feminina, como o nascimento de seios.
“PRÍNCIPE NÃO. EU SOU UMA PRINCESINHA”
Na reportagem de capa de julho de 2015, a família deu o seguinte depoimento a VEJA SÃO PAULO:
“Eu dizia: ‘Vem cá, príncipe da mamãe’. E o Leandro* retrucava: “Não é príncipe. É princesinha!’ ”, relata Beatriz, de 36 anos. Tudo começou quando ele tinha 2 anos. O menino pegava as presilhas das coleguinhas da creche e ajustava em seus fios loiros. Colocava blusas para usá-las como vestidos, amarradas com um cinto. “Para mim, era uma fase que ia passar”, lembra o pai, Antônio, sargento aposentado do Exército. A feminilidade do garoto, porém, só se acentuava, e as broncas resultavam em lágrimas. A família decidiu, então, buscar a ajuda de um pastor evangélico. A instrução foi reprimir ao máximo a conduta da criança e murmurar longas sequências de orações ao pé do ouvido enquanto ela dormisse, para expulsar “o inimigo” (ou seja, o demônio) de sua cabeça.
Três meses se passaram, e o inferno na casa só se agravava. “De repente, tínhamos ali um filho em depressão, agressivo, piorando na escola”, afirma o militar. Repreendido, Leandro fazia tudo às escondidas. Colocava pregadores de roupa nos cabelos para simular longas madeixas, escondia a genitália ao entrar no banho. Chegou a pegar uma tesoura para cortar o órgão. O ato foi rapidamente contido pela mãe, que procurou em sites de busca expressões como “mente feminina em corpo masculino”. Encontrado na  internet, o documentário americano Meu Eu Secreto traduziu a situação. Os pais fizeram então um trato com a criança: em casa ela podia andar de calcinha e vestido, mas fora dali seria menino. Não deu certo. Em uma ocasião, um amigo da família entrou na residência de moto, sem avisar. A garota estava no quintal e correu para se esconder atrás da churrasqueira, onde ficou por uma hora, tremendo de medo.
“Naquele dia, eu assumi: ela vai ser o que ela é, não importa o que pensem”, diz a mãe. Quando descobriu o ambulatório do Hospital das Clínicas, Beatriz ligou para lá aos prantos, pedindo “pelo amor de Deus” que a atendessem. Ali, os pais de Leandro foram orientados a não repreender nem incentivar o comportamento dele. Com o tempo, consolidou-se na criança a identidade feminina, de forma muito evidente. No primeiro passeio na rua como garota, Antônio precisou encorajá-la (e a si mesmo) a perder o receio dos olhares.
Com o nome social de Luiza, 9 anos, ela foi matriculada em uma escola pública (uma particular a barrou, temendo afugentar a clientela), onde apenas professores sabem de sua história. “Fui muitas vezes acusada de querer transformar minha filha”, lamenta Beatriz. Ela e o marido se afirmam felizes sobre as escolhas da caçula (eles também são pais de um garoto de 10 anos) e se preparam para as próximas fases que Luiza terá de enfrentar: tomar medicamentos para bloquear a puberdade masculina e, no futuro, outros para reforçar os traços femininos. Luiza se diz contente. “Agora me sinto uma menina inteira”, sorri. “Meu único medo é minhas amigas deixarem de falar comigo se um dia descobrirem que eu já fui menino.”

Números de armas por estado nos EUA têm relação direta com mais mortes de mulheres (ESTUDO)

 |  De


26/01/2016

País com uma arma de fogo para cada 88 entre 100 habitantes, os Estados Unidos também registram mais mortes de mulheres nos estados em que existem mais armas registradas. É o que aponta um estudo da Universidade de Boston, divulgado neste mês. O levantamento ajuda a desconstruir o mito de que mais armas significam mais segurança.

Os pesquisadores Michael Siegel e Emily Rothman analisaram comparativamente o número de armas de fogo registradas e os dados relativos a assassinatos de homens e mulheres nos 50 estados norte-americanos, entre 1981 e 2013. De acordo com o estudo, há uma forte correlação do feminicídio e a quantidade de armas registradas.
Para apontar que leis mais brandas para a aquisição de armas de fogo podem ter influência na violência doméstica contra mulheres, os pesquisadores levaram em conta dados como idade, raça, região, pobreza, desemprego, educação, índice de divórcio, uso de álcool, e outros fatores relacionados. E as conclusões são alarmantes.
Nos EUA, a maioria das mulheres morre vítima de armas de fogo. De acordo com o estudo, mais armas registradas significam mais homicídios por arma de fogo, e principalmente mais assassinatos por arma de fogo e cometidos por uma pessoa conhecida da vítima. Destas, 93% são mortas por um companheiro, de acordo com a pesquisa.
“Nosso trabalho confirma que a maior disponibilidade de armas de fogo não parece proteger as mulheres de homicídios cometidos por estranhos, mas aumenta o risco de assassinatos cometidos por pessoas conhecidas”, disse Siegel ao site americano Slate.
Em números, o levantamento explica que o combate ao feminicídio nos EUA pode ser feito pela análise do número de armas de fogo registradas estado a estado – nas áreas com mais armamentos, a taxa de morte de mulheres alcança 41% a mais do que nos estados com menos armas de fogo (entre homens, a diferença não ultrapassa 1,5%).
De acordo com reportagem do The Huffington Post em 2014, um terço das mulheres assassinadas nos EUA foram vítimas dos seus companheiros. Desde 2003, mais de 18 mil mulheres foram mortas em incidentes de violência doméstica no país. Tais dados reforçam outra pesquisa, feita pela Universidade de Harvardem 2002, que ligaram diretamente o número de armas com mais mortes por arma de fogo, especialmente de mulheres.
Mortes violentas no Brasil
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No Brasil, dados do Mapa da Violência de 2015, as armas de fogo responderam em 2013 por 48,8% dos assassinatos de mulheres – o índice é maior entre os homens (73,2%). Ainda de acordo com o mesmo levantamento, o feminicídio no País tem maior uso de força física e objetos cortantes/contundentes. Como nos EUA, a violência doméstica é maior contra mulheres e quase sempre é cometida por pessoas conhecidas da vítima.
Já segundo o Datasus5.039 mulheres foram vítimas fatais da violência em 2013, sendo que as negras somam mais do que o dobro das brancas. O Mapa da Violência aponta que houve um aumento de 190,9% de violência contra negras entre 2003 e 2013 – só neste ano final da pesquisa morreram 66,7% mais meninas negras do que brancas.
Neste ano, o Congresso Nacional deve analisar a proposta para flexibilizar o Estatuto do Desarmamento no Brasil. A medida está pronta para ir a plenário na Câmara e, se aprovada, segue para o Senado.

Gentileza x opressão, assédio x galanteio

Gestos até então considerados gentis, como abrir porta de carro, elevador ou servir um copo de cerveja, entraram no foco do debate. Atitudes assim seriam gentileza ou perpetuam a dominação do macho sobre a fêmea? Tentativas de esclarecimento a seguir
30/01/2016

Gestos até então considerados gentis, como abrir porta de carro, elevador ou servir um copo de cerveja, entraram no foco do debate. Atitudes assim seriam gentileza ou perpetuam a dominação do macho sobre a fêmea? Tentativas de esclarecimento a seguir:
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Gloria Kalil, jornalista, empresária e consultora de moda
“O limite entre o assédio e o galanteio pode ser difícil de definir, mas as pessoas sabem perfeitamente quando estão diante de um ou de outro. Qual mulher não sabe quando está sendo assediada? Às vezes, só pelo jeito que alguém olha, da maneira que chega, dá para saber que ali tem uma sinalização nitidamente sexual, abusiva. Tenho a impressão de que o pior assédio é o que acontece no trabalho porque implica situações comprometedoras. A vítima pode achar que, ao fazer qualquer movimento ao contrário, vai perder o emprego. Essa situação, de fato, traz consequências maiores. Se a pessoa está dando uma prensa nesse sentido, o outro tem medo de denunciar porque se trata de um chefe. Mas uma mulher achar ruim que um homem a sirva primeiro de um copo de cerveja ou que ele abra a porta do carro para ela entrar, que carregue o pacote de supermercado… Eu acho tudo isso ótimo. Fura o pneu do meu carro e eu vou trocar? Não troco! Não tenho força, não sei onde estão as ferramentas, não sei e não quero saber.
Acho que, se tirar do ideário feminino esse tipo de coisa e colocar no ideário da etiqueta ocidental para o bom andamento dos relacionamentos, a coisa flui sem esses pequenos conflitos que aparecem porque não há regras. Para que existem regras de etiqueta? Elas facilitam muito a vida das pessoas, são feitas para isso, e não para complicar. Se eu estou com um homem mais velho que tem alguma dificuldade, não devo ajudá-lo, abrindo uma porta, carregando um pacote? Se eu vejo um homem jovem cheio de pacotes, não vou ajudá-lo a abrir a porta do elevador, por exemplo? O que estou dizendo é que essas atitudes são do contexto da educação.
Se uma mulher se ofende com gestos masculinos de gentileza, na minha opinião, ela deveria, no máximo, propor uma discussão, uma conversa. Mas jogar copo de vinho na cara, como fez a ministra contra o senador, não. Esse tipo de atitude é o fim, demonstra uma falta de civilidade da parte dela incrível, uma reação primitiva, sem mediação. Além do mais, não acho que dizer que uma mulher é namoradeira seja uma ofensa. De repente, é um entendimento regional, cada Estado brasileiro entende de um jeito. Então, para ela, namoradeira pode querer dizer prostituta. Não sei. Aqui em São Paulo, sei que não é. Eu sou e sempre fui namoradeira. É uma delícia. Em uma sociedade destemperada, essas coisas acontecem. Mas, se somos uma sociedade civilizada, não deveria acontecer. Concorda?”
2015 Laerte Coutinho, cartunista e chargista, 64 anos
Laerte Coutinho, cartunista e chargista
“Todo tratamento diferenciado em relação às mulheres tem uma raiz patriarcal, que supõe uma situação em que mulher é mais imbecil, mais frágil. São suposições que têm por trás o desejo de dominação e controle de uma parte dos homens. Acho que a raiz do questionamento desse costume é feminista sim, mas não é a única. Pessoalmente, acho que os homens também têm bons motivos para refletir sobre esses costumes, que são tidos como inofensivos ou inocentes ou até elogiosos, em vez de ficarem se achando vítimas de mulheres raivosas e ressentidas.
Essa história que a gente chama de cavalheirismo é uma grande bobagem. Os homens que ficam magoadinhos porque as mulheres estão questionando devem aproveitar a ocasião para refletir um pouco porque a cultura patriarcal, que supõe que as mulheres sejam umas débeis mentais, é a mesma que manda os homens para a guerra, partirem para o sopapo. É a cultura que está enchendo os presídios de homens e o mundo de vítimas homens. Acho que as pessoas vão continuar se aproximando como sempre, mas dentro de um contexto de respeito social.
O modo como o assédio é praticado hoje supõe que a mulher é carne para o homem, que está no mundo para dar para o homem, e isso é algo que precisa ser superado. No fundo, é a cultura do estupro, de que os homens têm todo direito de meter a mão. O que se pode fazer é uma crítica desses costumes que ainda vigoram entre homens e mulheres, entre homens e homens, entre mulheres e mulheres. Eu, como mulher transgênero, tenho uma vivência diferente.
Passei 60 anos como homem, soube a pressão dessa cultura e, muitas vezes, agi com esse formato abusivo. A ideia é que, se você é homem, deve agir assim, se não é fraco. Quantas vezes já não tentaram me ensinar como se canta mulher… Eu tentei aprender com muita incompetência. Os homens se comportam assim, porque a mulher supostamente está ali para isso, então toda argumentação de que se trata de uma coisa respeitosa e carinhosa é uma argumentação que está mascarando a natureza real daquilo.
Por mais que o homem estivesse com uma intenção gentil, palavra que certamente ele vai usar, não estava, claro que não estava. Experimenta transpor para a questão racial, por exemplo. Você não faz comentários porque isso já virou explosivo o suficiente. E é tido como natural uma garota bonita e o fato de um homem poder olhar para a bunda dela. Se eu posso olhar, por que não posso comentar e por que não posso dar um toque? Esse tipo de argumentação é muito frequente.
O homem fala: ‘Não posso fazer nada, o meu pau levantou’. Exatamente isso. ‘Eu não posso falar para o meu pau ser respeitoso’. Porque o pênis do sujeito não é ele, é um animal que está dentro das calças do coitado desse homem sujeito a esse pênis que é encharcado de hormônios. E ele não pode fazer nada. ‘Eu só estou aqui acompanhando meu pênis.’ ”
Martim Ancona de Faria Bueno de Aguiar,
estudante de Engenharia

“A sociedade sempre naturalizou algumas atitudes opressivas e assim a vítima e o opressor pensam que é natural. Acho que, no momento em que as coisas não são mais naturalizadas, trazem uma reflexão mais profunda e a pessoa enxerga se é opressiva ou não. Não é o opressor que define o que é ou não machista. É a vítima. Com o fortalecimento dos movimentos feministas, quando um homem fala alguma coisa e nem imaginou que aquele comentário fosse machista – já aconteceu comigo –, a menina se sente mal, ofendida. Nessa hora, o que se deve fazer é um pedido de desculpas e refletir sobre o que ela falou. Muitas atitudes do cotidiano acabam reproduzindo, sem perceber, pensamentos e gestos machistas. O que levo em consideração é que as mulheres foram oprimidas por muito tempo.
Agora elas estão começando a se liberar, os movimentos feministas estão ganhando mais pautas e espaço. Todo esse movimento é meio uma novidade. Não só para os homens. Acredito que, para as mulheres, essa liberdade de expor mágoas com a sociedade também seja uma novidade. E, nessa fase de transição, é compreensível que as mulheres às vezes acabem sendo um pouco mais exacerbadas no jeito de se expressar. Acho que o primeiro pressuposto básico é pensar o que incomoda e tentar se colocar no papel do outro. Não dá mais para ficar naquele lugar de conforto com a justificativa de que os homens são assim mesmo, que eles têm os hormônios à flor da pele.
Acredito que a maioria dos homens está mais cautelosa, mais por medo de ser repreendida. Mas espero que seja apenas uma passagem, até que o medo de ser repreendido mude para uma reflexão de que não se deve fazer determinado tipo de coisa porque isso pode ser desrespeitoso com uma mulher.”
Ronaldo dos Santos Junior, estudante de História e professor de cursinho
“O limite entre a cantada e o assédio é muito tênue e, ao mesmo tempo, muito amplo. Prefiro dividir em dois tipos de situação que, ao menos nos meios em que transito, são mais recorrentes. Esse limite pode ser muito tênue porque, para cantar alguém – entenda cantar por “chegar” na pessoa –, é preciso antes sentir se ela está ou não interessada, tentar descobrir se existe interesse por parte dela. É natural e faz parte. É possível fazer isso por meio de uma conversa, convidando-a para dançar junto…
Trata-se de ir ‘conhecendo’ a pessoa. Existe uma grande diferença entre conhecer a pessoa, se aproximar dela e assediá-la. O assédio envolve agressão. “Cantar” alguém de forma agressiva ou impositiva é um assédio. Pode ser desde a agressão verbal, como o assobio, o famigerado ‘gostosa’ ou ‘delícia’ na rua, ou coisas mais agressivas e grotescas. Portanto, acho que existe uma diferença na forma como os dois são feitos. A cantada é uma demonstração de interesse, que envolve uma troca, uma conversa. O assédio é agressivo e ignora qualquer limite ou processo de troca por parte do outro. O assédio é unilateral.”
FOTO ARISMAR BAIXO -300 (1)
Arismar do Espírito Santo, músico
Para Arismar, o negócio é olho no olho.
“margem de acerto é tábua de salvação
lego crespo
ego cego
prelo seco
pouco moco
tolo rouco
o limite do bullying descabido
é me tido em brilho de íris 
é medido a milhares de metros lúbricos
ou total abstinência
intolerância em ter me, tente…”

Julia Fortes Cré, estudante de Medicina
“A forma como a pessoa fala, como ela demonstra e como age já mostra a diferença entre um elogio e um assédio. Infelizmente, mesmo hoje, as pessoas não tomam cuidado com essa questão da cantada. Quando uma mulher caminha na rua sozinha e passa em qualquer lugar com uma concentração de homens, ela sofre com isso. Tenho amigas que mudam de calçada quando percebem que podem ser ‘cantadas’. Na faculdade, conheci umas meninas que tratam dessa questão do feminismo e, com elas, aprendi muito sobre o movimento. Antes de entrar na universidade, eu já conversava com minhas amigas sobre situações de assédio, como o ‘fiu-fiu’ e chamar de ‘gostosa’.
Esses grupos feministas que estão surgindo nas faculdades ajudam as meninas a tomarem mais consciência sobre esse assunto. Eu passei por uma situação recente, que pode ilustrar um pouco isso. Tem uma padaria perto da minha casa e um senhor cuida dela sozinho. Ele acabou de abrir o lugar e, como é um espaço em que vão muitos estudantes, esse senhor oferece algumas coisas para eles experimentarem. O dono da padaria quer saber se o que preparou para ofertar está bom.
Outro dia, ele me contou que uma menina não gostou da atitude dele porque entendeu que ela estava sendo cantada. Então, não acho que o cavalheirismo seja algo ultrapassado, mas por toda essa questão do assédio, que está muito forte, ele acaba sendo confundido com ‘dar em cima’.”
Isadora Szklo, professora
“Para pensar essa questão, precisamos ter como base que assédio é parte de uma ideologia machista, que desumaniza e objetifica as mulheres. Os elogios fazem parte da relação entre duas ou mais pessoas, mesmo que seja uma interação simples, como por exemplo um agradecimento. O assédio não tem essa interação, ele é só uma ação de um homem em cima de uma mulher. Isso fica ainda mais explícito em casos de assédio físico, como quando um homem “passa a mão” em uma desconhecida. Isso não é elogioso, é violento e reforça a ideia de que o espaço público é do homem.
O assédio vem sendo mais discutido recentemente. Penso que isso tenha começado com mais força na campanha ‘Chega de fiu-fiu’, passando pela ação contra estupro do “Eu não mereço ser estuprada” e, mais recentemente, as hashtags #meuprimeiroassedio e #meuamigosecreto, além da Marcha das Vadias. Tudo isso mostra verdades duras sobre a realidade das mulheres e o que nós realmente achamos das cantadas e diferentes formas de interação entre homens e mulheres. Infelizmente, a discussão em torno desse conteúdo não é tão ampla quanto gostaríamos, mas com certeza fortalece a luta das mulheres.
Existe uma diferença entre o cavalheirismo e a gentileza.

Gentileza é o gesto ou uma capacidade de ajudar o outro, sem distinção de gênero. O cavalheirismo é quando o homem faz algo por uma mulher por entender que eles exercem papéis sociais distintos. Atitudes como pagar a conta são tomadas geralmente sem perguntar a opinião da mulher. Sabemos abrir portas e podemos pagar contas. É uma ideia similar à do assédio, pois propaga que a escolha é sempre do homem. Sendo assim, o cavalheirismo pode parecer gentil, mas não é justamente por essa carga ideológica machista que carrega consigo.”

“As brasileiras entenderam que têm direitos”

A afirmação é de Maria Lygia Quartim de Moraes. Socióloga, doutora em Ciências Políticas e feminista, ela, ao lado de outras mulheres, com muita teoria e atitude, ajudou a construir o atual questionamento da sociedade. Para Maria Lygia, os recentes movimentos no País são espontâneos e por isso mobilizadores
23/01/2016
Maria Lygia Quartim de Moaraes. Foto: Luiza Sigulem
Maria Lygia Quartim de Moaraes. Foto: Luiza Sigulem

Maria Lygia Quartim de Moraes teve a sorte de nascer em uma família que tratava bem as mulheres. Filha do meio, entre dois meninos, de uma dedicada dona de casa e de um pai bacharel em Direito, que fez um pouco de tudo – foi gerente de banco, vendedor, diretor financeiro –, o casal tinha como verdadeiro negócio a cultura. Aluna rebelde do tradicional e conservador Sacre Coeur de Marie, Maria Lygia encontrou em O Segundo Sexo, obra de Simone de Beauvoir, a “munição” perfeita para, mais tarde, se tornar o que é: socióloga formada pela USP, com cursos de pós-graduação na França e no Chile, além de doutora em Ciências Políticas, também pela USP, e professora titular da Unicamp.

Viúva do economista Norberto Nehring, que militou na Aliança Libertadora Nacional, grupo de resistência armada à ditadura, liderado por Carlos Marighella, Maria Lygia viveu em Cuba com o marido e a filha, então com 5 anos. Era 1969. No ano seguinte, Norberto foi assassinado pelas forças da repressão.  Antes e depois do dramático episódio, Maria Lygia viveu na França, no Chile e de novo na França. Foi lá que estreitou seu relacionamento sério com o feminismo. “Era um movimento forte de mulheres ligado aos movimentos sociais, totalmente de esquerda.”
Enquanto a ditadura no País liquidava os oponentes, o movimento feminista no Brasil começava a surgir comprometido com a luta pelas liberdades democráticas. Maria Lygia estava lá. Em 1975, ano que marca a década da mulher da ONU, em uma confluência protagonizada por Paulo Evaristo Arns, “homem de uma coragem incrível”, a imprensa alternativa e os trabalhos de base, feministas brasileiras, Maria Lygia incluída, começam a dar os seus recados e forçam até mudanças em leis.
Há 30 anos casada com o advogado Rubens Naves, ela conta, a seguir, fatos marcantes e fundamentais para a situação da mulher no Brasil, como a criação do Conselho da Condição Feminina e das delegacias de mulheres, além das conquistas consolidadas na Constituição de 1988. Com propriedade, fala também da história do feminismo, que se confunde com a sua própria, e não poupa a burocracia das ONGs.
Brasileiros – A senhora já disse que a primeira forma de dominação na história é a opressão às mulheres. Mantém esse pensamento?
Maria Lygia Quartim de Moraes – Hoje eu seria menos segura em afirmar isso. Mas de todas as hipóteses que existem a respeito das narrativas históricas, essa relação entre mulher, propriedade privada e a garantia de que os frutos da mulher serão do homem procede. As mulheres foram dominadas não porque não fossem importantes, mas porque são importantíssimas. Elas foram, inclusive, portadoras de boa parte dos avanços ligados à agricultura doméstica. Mas acho complicado falar em “situação da mulher”, em abstrato, porque ela varia de sociedade para sociedade.

Historicamente, houve alguma sociedade avançada com relação à mulher?
Os egípcios, enquanto não havia Islamismo, foram a sociedade mais avançada com relação aos direitos da mulher. Vale a pena ler os livros de Nagib Mahfuz sobre a sociedade egípcia nos milênios dos faraós. Nas civilizações asiáticas, que não conheceram o Humanismo, Iluminismo, etc., a situação social das mulheres permaneceu inferiorizada. Os gregos eram democratas, mas não com as mulheres, que não participavam das decisões políticas. Também entre os turcos as mulheres tinham um status inferior e assim por diante.

Mas as civilizações evoluíram…
A primeira religião que disse que os homens são todos iguais porque tinham alma foi o Cristianismo, o que para mim é revolucionário porque tinha essa democracia das almas, igualando homens e mulheres perante Deus. Mas até esse argumento pode ser torcido quando o interesse econômico falou mais alto: no tempo da escravidão, a Igreja chegou a afirmar que os negros não tinham alma e por isso podiam ser escravizados, diferentemente dos índios. Ou seja, não dá para falar em “evolução” ou “progresso” de modo absoluto nem generalizando. Basta um Congresso evangélico e retrógrado, por exemplo, para botar em risco direitos já adquiridos pelas mulheres, como o do aborto em caso de estupro. Minha geração lutou pela criação do Conselho da Condição Feminina (criado no Estado de São Paulo em 1983, por meio de decreto; dois anos depois, é organizado o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher). Mas é ridículo achar que instituições dependentes dos governos possam representar os interesses das mulheres. Afinal, tudo vai depender do partido no poder. Também sou crítica com respeito ao trabalho de muitas das ONGs que lidam com a questão, pois a maior parte delas transformou-se em instituições burocráticas, muitas vezes cabides de emprego. Para as feministas dos anos 1970, o mais importante foi desconstruir o discurso sobre a inferioridade “natural” da mulher, que afirmava, por exemplo, que nós mulheres temos menor capacidade intelectual.

Mas ainda se usa esse argumento de que a mulher é mais sensível, mais fraca, mais maternal…
Tem a questão do corpo biológico, claro. Não nego que haja diferenças porque seria negar o óbvio, mas minha questão é o que se constrói em cima das diferenças. A gente diz que os africanos têm dom para a dança, mas também deve ter muito pé torto lá na África. Na verdade, eles têm uma cultura em que a música e o canto são importantes. A questão é que nem todas as mulheres se sentem confortáveis com o modelo dito feminino. E quem não está satisfeito tem o direito de reclamar. Não precisa usar o título de feminismo, diga só que defende seus direitos. Afinal, por que uma mulher estaria de acordo em ganhar menos e ser vítima de ataques sexuais? Digamos que uma grande parte das mulheres do mundo inteiro tem alguma queixa com relação às discriminações que sofrem. É como a luta de classes: enquanto alguém explorar o outro haverá uma possibilidade de revolta, de contestação. Assim, acho que toda mulher deveria ser feminista. Mas, se a palavra assusta, não a use. Mas continue lutando pela sua dignidade na relação entre homens e mulheres. Para mim, o feminismo é um projeto de novas relações entre mulheres e homens e um projeto libertador. Mas, por outro lado, e isso é importante, o feminismo é uma estratégia política, mas não um fim em si mesmo, na medida em que precisamos desconstruir a “mulher”. É o que Simone de Beauvoir faz no Segundo Sexo.

Qual a diferença entre as mulheres da sua geração e as de hoje?
Coube à minha geração esse trampo de desconstruir um discurso hegemônico. Hoje as mulheres se sentem com direitos e mais à vontade para reclamar de coisas que lhes parecem abusivas. Meninas que, apesar de nunca terem lido nenhuma teoria feminista, são capazes de dar um basta: “Chega, fim do abuso”. Esses movimentos atuais, no mínimo, expressam um pensamento de repúdio às discriminações. Mas não existe hoje uma central feminista da qual emanam diretrizes ou palavras de ordem.

Que lição a gente tira?
Que nada é permanente. Há coisas que servem em certo momento e depois não servem mais. O meu feminismo era justamente acabar com os estereótipos. Logo, é a própria ideia de mulher que eu coloco entre aspas. Por isso sou contra a luta identitária. Em certos momentos, digo que sou feminista, defendo, acho que tem discriminação sim, que as mulheres continuam sendo maltratadas, têm os piores salários, etc. Butler (a filósofa americana Judith Butler) diz que o feminismo é uma tática, não um ponto de vista. O identitarismo parte da ideia de que há uma essência da mulher, e não acho que exista uma essência de mulher nem de homem. Quando Simone fala do processo que nos torna mulheres ou homens, já se coloca o problema da “desconstrução”. Se a inadequação com o gênero é o resultado dos limites rígidos dos papéis sociais que constituem o gênero, sobra pouco espaço para os meninos sensíveis e românticos e para as meninas empreendedoras e transgressoras.

Qual a luta atual?
Hoje não se usa a cor dos olhos como referência na carteira de identidade. Vamos lutar para que chegue o momento em que ser gay, isso ou aquilo não terá a menor importância. Um dos traços marcantes da obra e do discurso de Butler é sua fluidez, sua capacidade de lidar com ambiguidades e evitar o dualismo do sim ou não. Nesse sentido, existe uma enorme coerência em toda sua trajetória intelectual: evitar quaisquer tipos de normas e regras que criem ou possibilitem o “abjeto”; o que não importa, os corpos inumanizados, para usar uma expressão da filósofa italiana Andrea Cavarero. Sua militância é libertária, mas não identitária. O feminismo de modo geral é uma luta contra as imensuráveis discriminações sofridas pelas mulheres. Ao mesmo tempo, parte do feminismo é contra os identitarismos que implicam essências. Mas quem vai mais longe nessa reflexão anti-identitária é a Beatriz Preciado (filósofa espanhola), autora do Manifesto Contrassexual, que acho genial por ser uma provocação que nos ajuda a questionar o binarismo sexual. No fundo, trata-se de repensar o contrato social, que não pode ter como base a diferença entre homem e mulher. Esse binarismo que atravessa o social pode e deve ser superado.

E a ideia de desconstrução da mulher?
Descobri que não começa com Simone de Beauvoir, mas com Erasmo de Roterdã, que foi um humanista. E qual é a grande premissa do Humanismo? Que o homem é a medida das coisas. Ele diz que ninguém nasce homem, o homem se constrói, é responsável pelo que faz, ideia que vai dar no Existencialismo. E a Simone usou isso para a mulher.

E o conceito da desconstrução?
Beauvoir não fala exatamente em desconstrução, diz que ninguém nasce mulher, torna-se mulher. Assim, a primeira questão diz respeito exatamente ao processo de construção do ser mulher. A corrente teórica que se inicia com Beauvoir é conhecida como construtivista. Quem vai falar em desconstrução é a nova geração de feministas, a partir das reflexões de filósofos como Jacques Derrida, Deleuze e Foucault. Butler, por exemplo, coloca em questão a própria matriz heterossexual. Não que seja contra a heterossexualidade, mas é contra a que cria uma divisão entre corpos abjetos e desprezíveis, e aqueles que estão enquadrados como certinhos. Na verdade, para Butler, a questão dos corpos não reconhecíveis como merecedores de respeito marca toda sua obra, desde seu primeiro livro, Gender Trouble, nascido de sua indignação com a discriminação e descaso de que foi vítima a primeira geração contaminada pelo HIV. A partir daí, Butler, corajosamente, tomou a defesa dos palestinos (o que lhe valeu a condenação do lobby sionista) e, mais atualmente, dos precarizados, dos exilados e de todos aqueles que sofrem perseguições políticas.

O capitalismo não permite a diversidade?
Não acho que o capitalismo seja contra o feminismo, desde que este não seja anticapitalista. A questão das discriminações de gênero ou cor não é fundamental para o capitalismo. Ao contrário. Há uma florescente indústria dirigida aos gays e às mulheres.

A senhora fala sobre tomada de consciência e agora, com as manifestações de mulheres, gentilezas masculinas, como pagar conta, podem ser interpretadas como opressão?
O meu critério é assim: quem tem mais dinheiro paga, só que, em geral, quem tem mais são os homens. Quando saio com amigas mais duras, eu pago. Não saber receber algo é complicado. As pessoas precisam ter a generosidade de dar e de receber. Uma coisa é educação e gentileza, outra, bem diferente, é o machismo.

O bom senso ficou em segundo plano?
Nas Ciências Sociais, da USP, ouvi queixas de meninos sobre bullying de mulheres. Não duvido que as meninas possam fazer bullying. Estudei 12 anos em um colégio de mulheres e sempre houve as vítimas das piadas e perseguições. Vejo o mesmo nas escolas atuais. Quantas meninas não sofrem de anorexia por terem sido chamadas de gordas ? Com relação ao bom senso, penso que a Beatriz (Preciato) defende um ponto de vista de que precisamos de uma moral sexual mais abrangente do que essa que nos sufoca. Precisamos de uma legislação que garanta, por exemplo, a interrupção da gravidez não desejada, é essa a questão. Há um seriado na Netflix que se chamaModern Family, o engraçado é que a família moderna é a coisa mais antiga que existe! O casal homossexual é um grande estereótipo, com um dos parceiros fazendo o papel feminino e outro o masculino e querendo brincar de papai e mamãe. Tenho saudades daquela tropa de gays dos anos 1970, que fazia oposição à ditadura militar, tinha o jornal Lampião… Pois o problema não é criar de novo a família, é romper com a família burguesa tradicional, ir para a frente, procurar formas novas. Sei que não é fácil, mas tem uma coisa muito conservadora e reafirmadora do binarismo masculino versus feminino.

Há quem defenda que as gentilezas masculinas são feitas para manter as coisas como são.
Butler diz que ninguém muda de identidade como se muda de roupa. Quando ela fala da performatividade de gênero não quer dizer que trocamos de identidades, como no teatro. Para ela, é muito difícil escapar do gênero. Se eu não tivesse sido educada pela minha mãe, que era uma ótima dona de casa e nos proporcionava o bem-estar da comida bem-feita, das frutas e flores, muito provavelmente eu teria uma outra relação com o mundo doméstico. Acho interessante em Simone de Beauvoir o fato de que ela analisa os mitos da feminilidade e mostra que, se isso fosse universal, deveria aparecer igual sempre. Mas não, em cada autor estudado por Simone a imagem que aparece é diferente, variando do feminino como pureza ao feminino como degradação. Em algumas sociedades, a mulher é o perigo, a traidora, a traiçoeira, a sensualidade bruta porque é a natureza, e não a cultura. Ela mostra que até na construção do eterno feminino não há um discurso único. O Segundo Sexo é um trabalho incrível. Foi a primeira obra em que me apoiei. Eu morei numa casa em que as mulheres eram queridas, isso facilita. Mas a Beauvoir me deu munição para enfrentar esse discurso.

Qual é a realidade de hoje no Brasil?
O feminismo dos anos 1970 teve de construir um discurso contra os preconceitos vigentes. Houve o boom dos estudos sobre a mulher que depois passaram a ser estudos de gênero. Tive o prazer de participar da criação do Neim, núcleo de estudos interdisciplinares sobre a mulher, na Universidade Federal da Bahia, em 1983. Dez anos depois, foi criado o Pagu -Núcleo de Estudos de Gênero da Unicamp. Todos esses núcleos continuam ativos. Mas o momento atual é principalmente o que eu chamaria de “feminismo espontâneo”. As brasileiras acham que têm direitos, que ninguém merece ser estuprada porque está de shortinho. Mas, para enfrentar esse tipo de coisa, é preciso dizer: mesmo que eu seja assediada, vou usar esse short porque posso. De fato, o espaço público tem sido conquistado pelas mulheres aos poucos.

A senhora acha que hoje existe um movimento de mulheres no País?
Dito com esse nome ou não, as mulheres estão mais ativas do que nunca. E sempre que falo dos feminismos gosto de lembrar que, se as palavras movem, os exemplos arrastam. Minha geração foi arrebatada pelo exemplo de Leila Diniz (1945-1972). Apesar da ditadura militar, seu modo de vida e sua liberdade foram um exemplo para nós, assim como suas escolhas amorosas: a gravidez fora do casamento (e o consequente rompimento com o estigma da mãe solteira) e a fotografia grávida de biquíni, numa exaltação erótica do corpo da mulher grávida, em direta oposição à caretice da época. Hoje, existe uma nova geração de jovens brasileiras utilizando blogs e fanzines, organizando grupos de protesto pontuais, como esse da resistência ao assédio no metrô ou o movimento contra as tentativas reacionárias do Congresso em relação aos direitos das mulheres e dos homossexuais.

Então, está mais fácil para as mulheres?
Gostaria de pensar que as minhas netas têm menos restrições nas suas escolhas, mas não há como negar que vivemos uma realidade cada vez mais complexa e difícil. O trabalho é a questão mais problemática. De um lado, a precarização do emprego formal fez crescer o número de trabalhadores autônomos. Com a crise, vieram as demissões. Mas isso vale para homens e mulheres. A questão é que elas ainda ganham cerca de 30% menos do que os homens. E isso é doido porque, de um lado, existe uma sociedade que obriga as pessoas a trabalharem até mais tarde, e por outro tem menos emprego. Como fica? Não tenho nenhuma receita pronta, mas sei que a tendência inexorável do capitalismo é a concentração de riquezas, o incremento da tecnologia e o desemprego.

O Brasil produziu um movimento feminista?
Durante a ditadura, todos os movimentos sociais ficaram proibidos. A Igreja Católica teve um papel importante na retomada das organizações populares, criando um espaço para a militância nas comunidades de base, especialmente com grupos de mulheres da periferia, que estavam às voltas com problemas de carestia, falta de creche, etc. Havia nisso um feminismo incipiente? Acredito que sim. Mas foi muito importante o fato de muitas de nós, nos anos 1970, termos saído do País e absorvido o feminismo francês e italiano, que é o feminismo de esquerda.

Mas foi um movimento de massa?
É difícil falar do feminismo como movimento de massa no Brasil porque nosso nível de cidadania era e continua sendo baixíssimo, apesar de todos os progressos alcançados durante a redemocratização. O Brasil entrou no século 20 com os resquícios da escravidão. Na Primeira República só votavam os homem alfabetizados e com renda, só existia um partido, o republicano. Até 1930, só o Rio Grande do Sul contava com dois partidos. Até 1985 o Brasil conheceu poucos anos da chamada normalidade republicana. Minha geração, a do pós-Segunda Guerra Mundial, teve a sorte de crescer entre 1945- 64. Vale dizer, para nós o regime presidencialista era uma realidade e nossa luta era por um governo popular que fizesse as reformas sociais de que o País precisava. De qualquer forma, houve pouco tempo para criarmos movimentos sociais fortes. Na primeira fase da ditadura, de 1964 até final de 1968, ainda foi possível manter a força e o protagonismo do movimento estudantil, especialmente dos jovens universitários. Acho que as revoltas de 1968 comprovam a importância da juventude como protagonista político, no mundo inteiro. Não procede a afirmação de que 1968 tenha começado na França e sido copiado aqui. Ao mesmo tempo que acontecia o maio francês, em São Paulo os estudantes estavam derrubando o palanque do governador nomeado pelos militares, Abreu Sodré. Ou seja, no Brasil pós-golpe, a questão principal era derrubar a ditadura e as mulheres entraram de cabeça na luta política e também na luta armada. Algumas foram para a clandestinidade, outras presas, torturadas e mortas, outras foram exiladas… Em 1975 as coisas começam a mudar: a ONU proclamou o Ano Internacional da Mulher. Foi aí que se organizaram os primeiros encontros de mulheres, com o apoio decisivo de Dom Paulo Evaristo Arns – aliás, um homem de uma coragem incrível. Meu ativismo feminista começou nos anos de exílio na França, alimentado pela importância do feminismo francês. Em 1973 escrevi um texto sobre a questão feminina, que circulou clandestinamente no Brasil e que foi publicado em 1976 na prestigiosa revista Estudos Cebrap. A imprensa alternativa foi para mim um espaço fabuloso, que me ensinou a escrever sob censura e me pôs em contato com o melhor da oposição intelectual do momento. Era possível fazer uma agitação em torno do tema mulher. Os jornais feministas não eram censurados porque a ditadura não levava a questão feminina a sério. Eu fui uma das participantes do Nós Mulheres. Vira e mexe, matérias que eram censuradas no Movimento, acabavam sendo publicadas no Nós Mulheres. A censura prévia da ditadura achava que aquilo era coisa de mulher, logo sem perigo…

A imprensa oficial feminina também era forte, não?
Boa parte das militantes feministas trabalhava na Editora Abril. As revistas Claudia, Nova tiveram sua importância, especialmente a Claudia, quando Carmen da Silva era colunista. Mas isso foi nos anos 1960. Em meados dos anos 70, a imprensa alternativa propunha uma visão muito mais realista da situação da mulher, ao colocar em cena as trabalhadoras. Em 1976, Raimundo Pereira teve a ideia de fazer uma matéria sobre o Primeiro de Maio, pegando apenas o trabalho da mulher. O número ficou incrível, com matérias fortes sobre as condições de trabalho das mulheres nos canaviais, nas fábricas e nos serviços. Uma denúncia das condições de exploração da força de trabalho feminina. Mas a matéria foi integralmente censurada.

Daí, o que aconteceu?
Nós éramos convidados pelos estudantes, eu viajei o Brasil inteiro para falar das matérias censuradas. Foi quando o feminismo começou a se espalhar também. Eram intelectuais, militantes, mas tinha um País inteiro. Um dos movimentos continua até hoje, o SOS Mulher, que tem um trabalho importante no Recife. Havia também um movimento feminista expressivo no Rio de Janeiro e em Salvador.

Era um feminismo mais político?
A minha tese é essa. O feminismo brasileiro foi e continua sendo um feminismo político. Nos Estados Unidos, existe um movimento forte de mulheres de direita, mas não sei se elas se consideram feministas. Tem mais, quando as pessoas comparam o Brasil com os EUA, digo: a gente precisa comparar o País com a França, que tem a ideia da República, em que o Estado é visto como agente importante para a melhoria das coisas. Nos EUA, o Estado é opressor, as pessoas veem com desconfiança tudo o que vem dele e desprezam quem precisa do Estado porque é o “looser”. 70% da população americana acredita em Deus. 70% dos franceses não acreditam em Deus. Então, nos EUA o feminismo cresceu na base dos direitos civis. E na França, na base dos direitos civis e sociais.

Fala-se em segunda onda do feminismo. O que acha?
Essa coisa de segunda onda é totalmente americana. De repente surge um termo novo, imposto pela hegemonia norte-americana e nosso complexo de colonizados nos faz engolir tudo acriticamente. É mais ou menos como o terceiro setor, são categorias despolitizadas, muito a gosto do pensamento conservador. Temos o Estado, o mercado e o terceiro setor. Isso lá é divisão de sociedade? É uma babaquice. É uma divisão e cada uma dessas divisões não é inocente. O que seria o terceiro setor? Tudo o que não é Estado e mercado: sindicatos, entidades filantrópicas, tudo o que é gato pingado é terceiro setor. Tenho ojeriza, não uso terceiro setor para nada. De ONG não tem mais como fugir, porque tem a Abong, né? Quando Franco Montoro ganhou as eleições (governo de São Paulo, 1983)  a gente consegue o Conselho da Condição Feminina, e as delegacias da mulher. Em suma, uma plataforma fundamental que era ter organismos específicos para a mulher.

Esses organismos atendem às demandas femininas?
Antes de existir a delegacia da mulher, aquelas que sofriam violência sexual eram obrigadas a passar por outra violência: serem atendidas numa delegacia comum, um recinto masculino. A Eleonora Menicucci, ex-ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres, quando ainda era professora na Universidade Federal de São Paulo, concebeu uma política especial para mulheres vítimas de estupro, com atendimento policial, psicológico e médico. O atendimento, o direito à chamada “pílula do dia seguinte”. Hoje, para ver o nível de atraso em que estamos, a bancada evangélica quer proibir a pílula do dia seguinte! Da mesma forma, nunca o aborto foi tão criminalizado! Mas as coisas são complexas. Você sabe por que temos o divórcio? Não foi o movimento feminista que conseguiu. Foi Geisel, um ditador, protestante, para afrontar a Igreja Católica em 1977.

Um ganho por um caminho absurdo?
Tem outra característica brasileira que é o jeitinho. Quando o aborto era proibido, na França, dava até guilhotina. Em 1971 houve um julgamento num caso de aborto, 300 e tantas mulheres famosas, mesmo que não tivessem abortado, assinaram um manifesto dizendo “Eu também abortei”. Catherine Deneuve, Simone de Beauvoir, todas elas. Três anos depois, saiu a lei legalizando o aborto na França. Aqui a gente tem essa coisa conservadora que não pune, mas ao mesmo tempo não dá direito. É uma questão de origem social. E as principais vítimas são as mulheres pobres que não podem se oferecer um aborto seguro.

A gente tem uma presidenta mulher…
Quero falar do desrespeito de que ela foi vítima, publicamente, na Copa. As pessoas estavam com raiva dela e fizeram um tipo de coisa que nunca se fez antes e acho que tem a ver com machismo. Que tipo humano é esse que xinga a presidente de seu país em um campeonato mundial? E ver a turma dos banqueiros, que ganham bilhões de lucros semestrais, encabeçando as vaias? E pensar que essa gente recebeu tantas benesses do governo! É uma elite econômica voraz, mal educada e machista. Agora, acho que nossa presidente falhou ao não punir seus agressores. Abriu-se aí um péssimo precedente.

O que é machismo, professora?
É o conjunto de atitudes que coloca a mulher em um lugar desqualificado. Além de outras formas de violência física. Mas vamos pegar só o machismo educado, não o violento. O educado é quando uma mulher fala e os homens dão um risinho benevolente, “deixa falar”. Ou você fala e a pessoa não presta atenção. Tive uma amiga, que trabalhava no sistema financeiro e era uma fera. Ela fez carreira no Citibank e conta que, no começo, quando ela chegava numa reunião e era a única mulher e muito mignonzinha, os caras já iam dando coisa para ela segurar (risos). E tinha tanto machismo que ela teve que se dirigir direto ao staff dos EUA, porque lá existia uma lei federal que punia a discriminação salarial por motivo de gênero. Isso é machismo.

É praticado só pelos homens?
Claro que não. Dizem até que o machismo é uma ideologia, uma forma de ser, um conjunto de pensamentos conservadores e preconceituosos. As mulheres também podem ser muito machistas. Elas ainda educam os homens como se tivessem direito a privilégios. Isso é unânime. Eu achava interessante porque minha mãe não fazia diferença entre meus irmãos e eu.

Voltando um pouco para esse protagonismo atual, como a Marcha das Vadias.
No Brasil, a Marcha das Vadias foi quase um replique de uma coisa que começou no Canadá. Não foi um movimento espontâneo no sentido de estar reagindo a um fato concreto. Na passeata “Somos Todas Prostitutas”, nos anos 1970, saímos às ruas para denunciar um delegado que abusava de prostitutas. Eduardo Suplicy lá estava, como sempre esteve ao lado do feminismo. Mas a figura mais especial do período foi a Ruth Escobar, por todo o vanguardismo de seu teatro, que foi palco de inúmeras reuniões políticas e de fóruns feministas na década de 1970. A Ruth tinha um especial talento para coreografias. Quando teve o assassinato da Ângela Diniz (1976) e o subsequente julgamento de seu assassino Doca Street, fomos todas vestidas de preto com matracas. Foi uma passeata incrível. Naquele tempo, as pessoas convocavam umas às outras pelo telefone, isso é uma história e seu contexto. Outra coisa é um grupo como o Femen (grupo feminista surgido na Ucrânia). Aquelas meninas tiram a roupa com qual proposta, além de fazer uma provocação? É muito fácil criticar, mas qual é a pauta positiva?

A senhora está dizendo que antes as pautas eram objetivas?
Nós queríamos mudanças na legislação brasileira e conseguimos. Duas advogadas fizeram as emendas para a mudança do Código da Família, que foram incorporadas pela Constituição de 1988. O código dizia: na família o homem é o chefe e a mulher sua melhor auxiliar. O homem decidia tudo. Até uns 15 anos atrás, a mulher não ser virgem ainda era uma razão para anulação de casamento. Uma provocação que faço quando vou falar com gente bem mais jovem é: “Olha, vocês acham que feminismo não está com nada, mas, se não fossem as feministas, vocês ainda estariam sob o jugo dos seus maridos!”. Quando me casei era obrigado mudar o sobrenome. E quantos crimes foram cometidos com a desculpa da honra? A honra dos homens está no meio das pernas das mulheres?! Se eu namorar outro a honra do homem está abalada? Vai ao dicionário e leia a definição de mulher e homem. A palavra “mulher” serve como xingamento, vai de mulherzinha para baixo. Homem não. Todas as coisas ligadas ao feminino podem ser usadas de maneira pejorativa e isso também é machismo.

O que é tabu hoje entre as mulheres?
Acho que tem “n” feminismos, “n” mulheres, “n” questões. É algo disperso.

Qual a demanda de uma mulher como a senhora, intelectual, estabilizada economicamente, e de uma negra, pobre?
A Beatriz Preciato diz que o feminismo vitorioso é o branco, e que não incluiu as negras, as mestiças. Acho essa afirmação discutível, pois o feminismo letrado e das classes médias conquistou muitos direitos que valem para mulheres de todas as classes sociais. Mas para não virar um feminismo de fachada, a luta tem de partir das próprias negras e pobres. Só elas saberão defender seus interesses específicos, ou o que elas entenderem como tais. Não acredito nessa coisa de que alguém possa servir de “libertador”. Ou o povo assume a luta, ou…

Então as lutas são várias?
Há questões que interessam a todo mundo, homens e mulheres. Uma delas é a creche. A questão do direito das mulheres de decidir se vão ter filhos ou não é inalienável. Se quiser ter filho, ótimo. Mas a questão do binarismo homem-mulher é muito mais forte e presente do que se imagina, tanto que muitos movimentos de direitos homossexuais não encampam a questão do aborto porque não diz respeito aos gays.

O que a senhora acha das políticas públicas?
Elas são insuficientes. A única coisa que avançou é a luta contra a violência de gênero. O que não impediu que as mulheres continuem sendo as principais vítimas da violência familiar. Mas, como resultado da política de conciliação conservadora do governo e, dado o peso das bancadas evangélicas, vivemos um momento de retrocessos.

E a lei Maria da Penha?
Digamos que é um caso extremo, de mulher que sofre uma violência absurda. E pelo menos a lei terminou com a impunidade completa, ainda que falte uma política de mediação familiar. Em Porto Alegre, durante a época áurea das prefeituras petistas, eles tinham um programa com relação à violência, faziam um trabalho com o agressor – porque há mulheres que não querem se separar do cara. Não estou falando de estupro, porque nesse caso o agressor vai para a cadeia. Estou falando de violência em família mesmo, que é a que mais acontece. Essas políticas de mediação são muito eficazes, mas dão trabalho.

E os partidos ideológicos do Congresso?
O Congresso não reflete a maioria do País. Reflete os partidos que tiveram dinheiro suficiente, corrupção e tal, para chegar lá. São poucos os partidos ideológicos, como o PSOL e o PCdoB. O resto virou tudo partido fisiológico, estão lá para permanecer no poder. Todos, infelizmente. Mais à direita, menos à direita, alguns com programa social, alguns com programa antissocial, de criminalização dos movimentos sociais. Veja o Alckmin (Geraldo Alckmin, governador de São Paulo) com as escolas estaduais. E situações tragicômicas de uma lei antiterror defendida por um “ex-terrorista”, Aloysio Nunes Ferreira (senador, PSDB-SP). O Aloysio sabe como é fácil alguém te chamar de terrorista. Mas uma coisa é o Bolsonaro, que foi Bolsonaro a vida inteira. O que faz um cara com a história do Aloysio virar essa coisa vergonhosa?

A senhora acha que esses movimentos que passam pelas redes sociais, como #foracunha ou #primeiroassedio, colaboram ou prejudicam?
Eles foram espontâneos e claro que colaboram. Pessoas se colocarem como sujeitos, promoverem uma ação, lutarem contra alguma coisa que incomoda é positivo. Eu não tenho a mesma plataforma que essas meninas, com certeza. Já não me assediam mais, é uma das vantagens da velhice (risos). Mas sofri muito com isso, está certo? É horrível! Nos anos 1970, a Marta Suplicy, na fase áurea de sua atuação como feminista, tinha um programa de rádio no qual ela questionava essa coisa de passar a mão. E perguntava: você gostaria que eu passasse a mão no seu pinto? (risos) Realmente, se uma mulher faz alguma coisa assim com os homens, eles ficam apavorados.

Também tem uma pressão sobre os homens, de ser machão, abordar as mulheres…
Sem sombra de dúvida. O culto do macho deve ser um cansaço. Mas o que se vê hoje é outra coisa. Tem mais espaço para os homens fazerem o que eles tinham vontade de fazer e não podiam, que é cuidar de criança, cozinhar… Não é que o homem cuida de criança como a mulher, ele cuida de criança como homem, tem outra maneira de se relacionar com o espaço doméstico. É outra forma, e boa porque tem a diferença. Mas ainda tem os machistinhas, que nasceram com o sexo dominante e, como se sentem fragilizados nessa situação, reagem com agressão. Daí a quantidade de violências gratuitas que as mulheres estão sofrendo. É aquela história, o feminismo nunca matou ninguém, o machismo mata todo dia.

Mas a sexualidade também mudou. Antes, era comum a mulher se casar, ter filhos, cuidar da casa, não?
Tem uma coisa que acho fundamental na luta das mulheres: se sentir bem no seu corpo, poder sair na rua, almoçar com alguém ou sozinha, se sentir bem e não achar que é uma espécie de leprosa porque está sozinha. Indiscutivelmente houve um notório avanço. Na geração de minha mãe as mulheres desquitadas eram desconsideradas e viviam sofrendo assédio. Muitas usavam dupla aliança para fingir que eram viúvas. E a maior parte delas dependia financeiramente do marido. Quando voltei ao Brasil, em 1975, uma mulher sozinha tinha muita dificuldade em alugar um apartamento em seu nome.Também é indiscutível que as conquistas tiveram um preço, pois as mulheres assumiram maiores responsabilidades no trabalho, mas não conseguiram diminuir sua carga de serviços domésticos e familiares. E ainda há toda a pressão pela aparência física. Eu gostaria muito que as meninas de hoje não acordassem duas horas mais cedo para lavar e secar os cabelos. E que não perdessem tanto tempo com os selfies! Apesar disso, sou otimista com respeito às novas gerações e gosto imensamente de conviver com os jovens. Vocês nem imaginam quanto aprendi com minhas netas! E não foi uma alegria ver os jovens tomarem as escolas que seriam desativadas pelo programa de “reorganização” do governo Alckmin?