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terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Afinal, o que é gênero?

Por Regina Soares Jurkewicz1
O objetivo deste pequeno artigo é conceituar o significado das relações de gênero de forma compreensível para que possa servir como subsídio aos grupos de mulheres, movimentos sociais e pastorais atuantes em nossa sociedade.
Quando falamos das relações de gênero, a primeira pergunta que se coloca é: afinal, o que é o gênero? Tentaremos responder a esta pergunta, evidenciando as diferenças existentes entre gênero e sexo.
Podemos dizer que gênero é o sexo social definido, ou seja, gênero não é sinônimo de sexo. Enquanto o sexo é biológico, o gênero é construído historicamente, culturalmente e socialmente. Com isto quero dizer que nascemos machos ou fêmeas, mas nos fazemos homens ou mulheres. O núcleo da identidade de gênero se constrói em nossa “cabeça”, sobretudo até os 3 anos de idade. A criança logo que nasce ganha um nome e começa a ser tratada como menino ou menina. A linguagem é poderosa no processo de construção do gênero. Incorporamos o gênero masculino ou feminino, através do aprendizado de comportamentos, hábitos, formas de pensar, concordantes com padrões definidos socialmente como masculinos ou femininos.
Alguns ditados populares nos ajudam a perceber como se dá a incorporação do gênero: “homem que é homem, não chora”, “menina brinca com boneca, menino joga bola”, “menino se veste de azul e menina de rosa”, “lugar de mulher é na cozinha”. Introjetamos essas ideias desde nossa primeira infância, de uma forma imperceptível, e essas atribuições sociais nos são apresentadas como atribuições naturais. Ao nos tornarmos adultos e adultas não percebemos que durante toda a vida nos ensinaram que a primeira “vocação” da mulher é a maternidade e por isso, muitas vezes acreditamos que as mulheres só podem realizar-se tornando-se mães. Não levamos em conta o fato de que as mulheres “aprendem” a exercer a maternagem (cuidado das crianças), mas não nascem prontas e aptas para serem mães. O que estou afirmando é que as diferenças biológicas entre homens e mulheres, não determinam e não explicam as diferentes atribuições dos homens e das mulheres na sociedade. Exemplo: “o lugar da mulher é na cozinha”, não porque sua “natureza feminina” a faz mais apta para este serviço, mas sim, porque as mulheres são treinadas desde meninas para “fazer comidinha”. Ou seja, as diferenças sociais entre os homens e as mulheres não são de ordem natural, mas sim de ordem cultural. Não estamos negando as diferenças biológicas entre os dois sexos, mas tratando de entender que as diferenças sociais entre os sexos estão construídas e são elaboradas socialmente a partir das diferenças biológicas.
A divisão sexual do trabalho não se explica naturalmente, ela é expressão de uma relação de dominação dos homens sobre as mulheres. Na divisão sexual do trabalho, tradicionalmente entendemos que as mulheres estão alocadas na esfera da reprodução, devem cuidar dos serviços domésticos e dos filhos em primeiro lugar. Se trabalham fora de casa, podem assumir serviços auxiliares, profissões tidas como femininas: secretárias, enfermeiras, professoras, assistentes sociais… desde que estas atividades não prejudiquem sua primeira missão que é a de cuidar do “lar”. Já os homens, estão “situados” na esfera da produção, e desde pequenos são treinados para assumir tarefas fora do espaço doméstico, assumir cargos de chefia e gerência, “construir o mundo” para além das quatro paredes que significam a casa. Atualmente há um embaralhamento nestas atribuições e muita coisa está mudando, porém a divisão sexual do trabalho permanece.
Se observarmos como se organizam os trabalhos pastorais, vamos encontrar no seio desta organização, a divisão sexual do trabalho. No Brasil as comunidades eclesiais de base, significaram uma ação pastoral importante. Quem manteve e mantêm a vida das comunidades? Quem faz o trabalho cotidiano, pequeno, invisível? Quem vai morar na periferia e buscar uma inserção nos setores populares? São as mulheres, leigas e religiosas. Porém quem assume a direção dos processos pastorais são, sobretudo os homens, os padres.
Pensar em termos de relações de gênero, significa desvendar os mecanismos sociais que constroem essas desigualdades. Por isso, falar em relações de gênero, é falar em relações de poder. Não se trata de ver os homens como “machistas” e as mulheres como “vítimas”. Nos referimos aos homens e às mulheres enquanto categorias sociais, independente de sua boa ou má vontade pessoal, os homens encontram-se em situação social privilegiada e as mulheres são frequentemente discriminadas. “O conceito de gênero, estabelecido como um conjunto objetivo de referências, estrutura a percepção e a organização concreta e simbólica de toda a vida social. Estas referências estabelecem distribuições de poder” (Scott, 1991).

Como nasce o pensamento e o trabalho com a categoria gênero?
Nos anos 70 o movimento de mulheres estava, sobretudo preocupado em dar visibilidade às mulheres na história e nos diferentes espaços sociais. Nas academias são desenvolvidos os “estudos de mulher”. Os sindicatos, movimentos sociais e igrejas criam ou reforçam a existência dos departamentos femininos. As mulheres ganham destaque. Os estudiosos em suas pesquisas dedicam um capítulo especial para tratar da “questão da mulher” ou o “problema da mulher”. Porém, esse interesse aparece frequentemente como um capítulo a parte, que não toca nas questões de fundo, não questiona os espaços de poder e não vê a mulher “em relação”. Procura-se compreender a vida das mulheres, sem a percepção de que é preciso para isso ter como objeto de estudo as relações sociais e os mecanismos que geram subordinação. A mulher é vítima ou heroína. Até então o objeto de estudo é a mulher, frequentemente tratada de forma singular, sem levar em conta as diferenças de raça, classe ou geração que nos obrigam a compreender as mulheres em sua pluralidade e complexidade.

Nos anos 80 o gênero aparece como categoria interdisciplinar. Vai sendo elaborado por antropólogas, historiadoras, psicanalistas, no interior das teorias feministas. A partir daí as teorias de gênero vão sendo formuladas, desnaturalizando as diferenças entre homens e mulheres. A percepção do gênero enquanto categoria explicativa das relações entre homens e mulheres, mulheres e mulheres, homens e homens, coloca em relevância os estudos feministas.

Ao falar em categoria, estou fazendo referência a um instrumento que nos permite explicar a realidade. Exemplificando: a pobreza é um conceito. Classe social é uma categoria que permite explicar o empobrecimento. O gênero, na medida em que é explicativo dos diferentes lugares sociais das mulheres e dos homens, têm a mesma relevância que a categoria classe social. O mesmo poderíamos afirmar sobre “raça ou etnia”, que tratará de explicar as opressões raciais. Portanto, qualquer pesquisa ou análise social não pode dispensar o uso dessas três categorias fundamentais: classe, gênero e raça.

O mito da “natureza feminina”:
Na socialização humana aprendemos que homens e mulheres têm comportamentos diferentes, assumem lugares sociais diferentes, assumem tarefas diferentes porque são “naturalmente diferentes”. As análises de gênero têm desmistificado esta crença, evidenciando como se dá o processo de construção social da feminilidade ou da masculinidade a partir das diferenças biológicas. As chamadas “características femininas” – ternura, passividade, acolhimento, fragilidade e outras – não são resultado da “natureza feminina”, e sim frutos de um processo de socialização. Assim como, as “características masculinas” – racionalidade, agressividade, objetividade, força e outras – não são resultado da “natureza masculina”.

O discurso da “natureza feminina” têm estado a serviço da subordinação das mulheres, na medida em que justifica com o argumento da natureza, as discriminações sofridas pelas mulheres.

A cultura embora seja atividade humana é apresentada como se fosse regida por leis da natureza, como algo imutável, fatal. Desmistificar a “natureza feminina” significa pensar numa nova possibilidade de relações entre os gêneros, na qual às mulheres também é dado o direito de pensar, de decidir, de ser de fato cidadã. Todo esse processo têm provocado um embaralhamento nas atribuições sexuais de mulheres e homens, e as mulheres, sem deixar de ser mulheres, cada vez mais participam dos espaços políticos, assumem lideranças, ousando transitar nos espaços tradicionalmente masculinos.

Aos homens, também está colocado o desafio de construir uma nova masculinidade, que lhes permita viver de forma plena as dimensões humanas que lhes são negadas. Possivelmente os homens serão mais felizes, quando não mais tiverem que aparentar força e segurança constante, quando se permitirem chorar, mesmo que isto lhes custe perder o lugar de “manda chuva” do planeta azul.

Referências:
1. Regina Soares Jurkewicz é Coordenadora do projeto Derechos Reproductivos, Religión y Fundamentalismos em América Latina: propuestas para el avance de los derechos de las mujeres. Acciones desde CDD Brasil y CDD Colombia. Doutora em Ciências da Religião pela Pontifícia Universidade Católica – PUC SP.

Bibliografia:
CASTRO, Mary Garcia. “A dinâmica entre classe e gênero na América Latina: apontamentos para uma teoria regional sobre gênero”. In: Mulher e Políticas Públicas, Rio de Janeiro, IBAM/UNICEF, 1991, p.39-69
FERRAND, Michèle. Relações sociais de sexo, maternidade e paternidade. Tradução Soraya Tahran. Revisão da Profa. Elisabeth de Souza Lobo, 1987.
GOMÁRIZ, Enrique. Los estudios de género y sus fuentes epistemológicas: periodización y perspectivas. In Isis Internacional. Ediciones de las Mujeres, n. 17, 1992.
SCOTT, Joan. Gênero: uma categoria útil para análise histórica. S.O.S. Corpo, Recife, 1991.
SORJ, Bila. “O feminino como metáfora da natureza”. In: Estudos Feministas. Rio de Janeiro, CIEC/ECO/UFRJ, 1992.

Católicas pelo Direito de Decidir

Salve essas datas - Seminário Permanente Gênero e Territórios de Fronteira 2017

01/02/2017
Seminário Permanente Gênero e Territórios de Fronteira
Coordenação: Jose Miguel Nieto Olivar e Flávia Melo da Cunha
Agenda
 
17 de março de 2017
Tema: Governo, Estado, Fronteira e Gênero
Horário: 9h-12h
Local: Sala da Congregação do IFCH-Unicamp (sessão pública)
 
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07 de abril de 2017
Tema: Afetos, desejos, corpo, substância

Título: “O cu do mundo”: corpos, buscas libidinais e atualização mito-conceitual.
Horário: 9h-12h
Local: Sala da Congregação do IFCH-Unicamp (sessão pública)
Link inscrições - em breve
 
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05 de maio de 2017
Tema: Movimentos, Mobilidades, Gênero

Título: Terra, rio, voo, minha vó: movimentos e permanências em intensidades transfronteiriças
Horário: 9h-12h
Local: Sala da Congregação do IFCH-Unicamp (sessão pública)
Link inscrições - em breve
 
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02 de junho de 2017
Tema: Gênero, Relação e Reconceitualização de fronteira

Título: “La frontera no existe”. 1, 3, múltiplo, impossível: relações e cosmografias de contra-fronteirização
Horário: 9h-12h
Local: Sala da Congregação do IFCH-Unicamp (sessão pública)
Link inscrições - em breve
 
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11 de agosto de 2017
Tema: Gênero e Fronteiras em perspectivas indígenas

Título: Macunaímas e Francesas, Icamiabas-cunhatãs, militares, estrangeiros e freiras: civilização e Estado olharam pra nós?
Horário: 9h-12h
Local: Sala da Congregação do IFCH-Unicamp (sessão pública)
Link inscrições - em breve
 
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14 de setembro de 2017
Seminário Internacional Gênero e Territórios de Fronteiras: gestos e articulações possíveis

Local a definir
 
 
Dinâmica dos seminários:
O seminário permanente está composto por cinco (5) sessões de um dia cada uma, uma sessão mensal, com a seguinte metodologia:
 
  • Seminário: apresentações públicas das pessoas convidadas sobre o tema previsto de cada sessão (20min), intervenção de debatedor/a e conversa com o público. Jornada matutina.
  • Workshop: diálogo e debate mais livre a partir de questões previamente circuladas ou de questões surgidas durante o seminário. Aberto para indicação prévia de leituras ou de questões por parte dxs convidadxs. Jornada vespertina. Workshop: 14-18h sala multiuso do IFCH-Unicamp (restrito a convidados)
 
 

Seminário Permanente Gênero e Territórios de Fronteira 1ª sessão

1ª Sessão:

17 de março de 2017

“Penosidade de Fronteira”: perspectivas de governo, de gestão e de invenção da fronteira

Participantes
Adriana Dorfman - Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Daniel Hirata - Universidade Federal Fluminense
Flávia Melo da Cunha - Universidade Federal do Amazonas
José Lindomar Albuquerque - Universidade Federal do Estado de São Paulo
Luiz Fábio Paiva - Universidade Federal do Ceará

Debatedora
Taniele Rui - Universidade Estadual de Campinas

Horário e Local:
Seminário: 9h -12h Sala da Congregação do IFCH-Unicamp (sessão pública)
Workshop: 14h -18h Sala Multiuso do IFCH (restrito a convidados)

Realização:
Núcleo de Estudos de Gênero PAGU
Financiamento FAPESP Auxílio JP

8 de março 2017 "Feminismos: a importância da ação política"

Data do Evento: 
03/08/2017 (Dia todo)

Feminismos: a importância da ação política

Maria Lygia Quartim de Moraes (Depto. de Sociologia do IFCH/Unicamp)
Margareth Rago (Depto. de História do IFCH/ Unicamp)
Bila Sorj (Universidade Federal do Rio de Janeiro)
Iara Beleli (Núcleo de Estudos de Gênero - Pagu/ Unicamp)

08 de março de 2017
14h
Auditório II do IFCH

Organização: Profa. Dra. Maria Lygia Quartim de Moraes

Realização: Programa de Pós Graduação de Sociologia/ IFCH, Núcleo de Estudos de Gênero - Pagu

Apoio: Secretaria de eventos/ IFCH

Meu Bloco na Rua - Criado com iPhone 7 Plus


Publicado em 14 de fev de 2017
A beleza e alegria do carnaval ganham ainda mais destaque com o novo Modo Retrato do iPhone 7 Plus. 

Música: Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua
Artista: BaianaSystem (feat. Yzalú)

Escute no Apple Music: 

#NãoMexeComigo



Publicado em 22 de fev de 2017
Essa marchinha é baseada em relatos reais sobre o assédio no Carnaval.
Você pode ver todas as histórias que inspiraram seus versos aqui: http://bit.ly/Historias_de_Assedio

Documentário sobre mulheres da periferia estreia no dia 8 de março

Filme “Nós, Carolinas” questiona invisibilidade de moradoras das margens da cidade de São Paulo
No Dia Internacional da Mulher, 8 de março, quarta-feira, às 19h, o coletivo Nós, mulheres da periferia, formado por comunicadoras que promovem narrativas sobre ser mulher nas margens da cidade de São Paulo, realizará na Galeria Olido a pré-estreia do vídeo “Nós, Carolinas. Este é o primeiro documentário realizado pelo grupo e apresenta vivências de mulheres moradoras de quatro regiões diferentes da capital paulista. Após o lançamento, o curta entra em circuito durante o mês de março em diferentes regiões do município.
Durante a exibição do vídeo, o público transita entre bairros e experiências de vidas relatadas em primeira pessoa. Racismo, solidão, maternidade e a busca da autoestima são alguns dos temas levantados sobre as condições de ser mulher, negra e periférica. As entrevistadas, que têm entre 18 e 93 anos, embora possuam trajetórias diferentes, estão conectadas por elementos cotidianos, como os impactos do machismo e  desigualdades raciais e sociais ainda presentes no Brasil.  
“A nossa proposta foi de ouvir e partilhar histórias pessoais que são ignoradas ou desvalorizadas. Para nós, o processo de empoderamento passa necessariamente pela ocupação do lugar de fala. E a nossa busca é não nos acomodar em rótulos, estereótipos, reconhecendo  a diversidade do universo feminino nas periferias”, explica Bianca Pedrina, jornalista e cofundadora do Coletivo Nós, mulheres da periferia.
Sem a pretensão de representar as mulheres da periferia de forma única, o nome “Nós, Carolinas” homenageia Dona Carolina, uma das entrevistadas e personagem do documentário,  e faz menção honrosa à escritora Carolina Maria de Jesus, autora do célebre livro “Quarto de Despejo – o Diário de uma Favelada”.
As mulheres apresentadas fizeram parte do projeto Desconstruindo Estereótipos, realizado pelo coletivo em 2015, durante oficinas sobre a representação das mulheres moradoras das periferias na grande mídia.  No final do mesmo ano, o coletivo lançou no Centro Cultural da Juventude (CCJ) a exposição multimídia Quem Somos [Por Nós], que incluiu uma série de entrevistas, a partir das quais, como uma segunda etapa deste projeto, foi criado o documentário. Ambos os projetos foram financiados pelo VAI (Programa de Valorização às Iniciativas Culturais) da Secretaria Municipal de Cultura da Prefeitura de São Paulo.
Após a pré-estreia, o Coletivo Nós mulheres da periferia realizará um circuito de exibição do documentário em diferentes regiões da cidade, incluindo Cidade Tiradentes e Guaianases, na zona leste, Parque Santo Antônio, na zona Sul; Jova Rural, zona norte e Perus, região noroeste, os bairros das protagonistas Carolina Augusta, Joana Ferreira, Renata Ellen Soares e Tarcila Pinheiro.
Serviço:
Pré-estreia do documentário “Nós, Carolinas”
Data: 8/3, às 19h.
Local: Galeria Olido –  Av. São João, 473 – Centro, São Paulo

Circuito
11/3 – Centro de Formação Cultural da Cidade Tiradentes – Cidade Tiradentes
16/3 – CIEJA Campo Limpo – Parque Santo Antônio.
18/3 –  Biblioteca Cora Coralina – Guaianases
24/3 – Biblioteca Padre José de Anchieta – Perus

Sinopse
Uma senhora cheia de memórias sobre o interior de São Paulo. Uma menina que se orgulha de seu cabelo black-power. Uma mulher que voltou a estudar depois dos 50 anos e uma arte-educadora que dribla o tempo para conciliar maternidade e sua vida pessoal. Todas elas unidas por uma mesma geografia: a periferia da cidade de São Paulo. “Nós, Carolinas” traz as vivências e vozes de quatro mulheres que moram em diferentes bairros: Parque Santo Antônio, zona Sul; Jova Rural, zona norte; Perus, região noroeste e Guaianases, na zona leste. Joana Ferreira, Carolina Augusta, Renata Ellen Soares e Tarcila Pinheiro falam o que é ser mulher da periferia em cotidianos particulares, mas conectados pelo recorte de classe, raça e de gênero.  Assim como a escritora Carolina Maria de Jesus, que encontrou na escrita um instrumento para superar sua invisibilidade, essas outras Carolinas também invisíveis aos olhos do centro, usam a potência de sua voz para romper silêncios.

Ficha Técnica
Título Original: Nós, Carolinas
Gênero: Documentário
Tempo de Duração:  17 minutos
Ano de Lançamento (Brasil): 2017
Direção/Roteiro/Produção:
Coletivo Nós, mulheres da periferia
Aline Kátia Melo
Bianca Pedrina
Jéssica Moreira
Lívia Lima
Mayara Penina
Regiany Silva
Semayat Oliveira
Classificação: Livre

Imagens
Daniele Menezes
Elis Menezes
Edison Rodrigues Galindo Júnior
Naná Prudêncio 
Vinícius Bopprê
Yasmin Santos
Edição, Montagem e animação
Ananda Radhika
Videografismo e direção de arte
Regiany Silva
Trilha sonora
Mulher do Fim do Mundo (Elza Soares)
Curadoria musical
Ananda Radhika

Entrevistadas
Dona Carolina Augusta de Oliveira
Joana Ferreira de Carvalho
Tarcila Pinheiro
Renata Ellen Soares Ribeiro

Nós, Mulheres da Periferia

Como as telenovelas brasileiras representam as mulheres

Este estudo reflete sobre a representação da figura feminina nos meios de comunicação, especificamente por meio das telenovelas brasileiras. Segundo a autora, muitas vezes elas constroem personagens femininas estereotipadas que reforçam a dominação masculina, mas existem brechas significativas para abordar temáticas contra-hegemônicas. Esse é o caso da personagem Clara da novela “Em Família”, analisado no estudo, que abre espaço para discutir as relações lésbicas.
(Nexo, 23/02/2017)
A qual pergunta a pesquisa responde?
A pesquisa teve por objetivo refletir sobre a construção da figura da mulher operada pelos meios de comunicação, através de um dos seus produtos culturais, a telenovela brasileira. Será que a telenovela coloca a mulher em termos estereotipados ou, para além disso, garante um lugar de fala a elas?
Por que isso é relevante?
Muitos acreditam que a mulher brasileira só tem espaço na mídia com suas bundas e em comercial de cerveja. De fato, essa objetificação existe e não só para a cerveja. Vai desde a pasta de dente até o gorrinho de dormir. Mas a telenovela, pelo que percebemos, pode ir – como tem ido – além disso. Assim, observando algumas telenovelas, formulamos a seguinte ideia: não existe invisibilidade midiática no que se refere à mulher, mas sim uma visibilidade que é construída através de estereótipos que preservam a manutenção da dominação masculina. Ou seja, no que concerne à mulher, acreditamos que a mídia representa, ao seu modo, a sua figura. Isso implica dizer que a constrói, sim, em cima de estereótipos mas que nem sempre essas construções são negativas. Como é o caso da personagem Clara da novela da Globo “Em Família”. De modo que consideramos importante pesquisar sobre quais são as concepções e consequências das articulações da mídia no que diz respeito à figura da mulher.
Camilla Rodrigues Netto da Costa Rocha

Rap nordestino dá resposta contra o machismo



Ponte

“As mulheres são o motor da resistência”, diz diretora da Anistia Internacional Brasil

São principalmente as mães, irmãs e companheiras das vítimas de violência policial que se mobilizam para que os autores de homicídios e outras violações sejam responsabilizados
(Ponte, 22/02/2017)
O protagonismo das mulheres na luta por Justiça em casos de homicídios praticados por policiais é destacado em relatório que a Anistia Internacional Brasil lança nesta quarta-feira (22/02) no Rio de Janeiro. São principalmente as mães, irmãs e companheiras das vítimas de violência policial que se mobilizam para que os autores de homicídios e outras violações sejam responsabilizados criminalmente — no Brasil e em outras partes do mundo.
“As mulheres têm sido o motor da resistência, as mulheres têm sido o motor da mudança”, afirmou a diretora executiva da organização, Jurema Werneck. “Muitas vezes invisibilizadas, vistas como parte da paisagem, mas somos nós que estamos à frente de toda a resistência. Isso é bom e precisa ser celebrado”, disse.
Aludindo às familiares de vítimas que a ouviam, completou: “Tem dor ali, tem sofrimento ali, mas tem força, tem aquela afirmativa potente de dizer: ‘daqui não passa, estamos aqui para fazer a diferença’. E elas estão aqui para fazer a diferença”.
Ela se referia às mães brasileiras do Movimento Mães de Maio Débora Maria da Silva, Vera Lúcia dos Santos e Rute Fiuza, à norte-americana Marion Gray-Hopkins e à jamaicana Shakelia Jackson — mulheres que compartilham da mesma dor e da mesma luta desde que a violência policial atingiu suas famílias.
Entre elas, um homem: o pedreiro José Luiz Faria da Silva, que já se acostumou a conviver com muito mais mulheres do que homens, justamente por ser um dos poucos pais de vítimas que se tornaram ativistas. Seu filho, Maicon, foi morto em 1996 por um policial militar aos dois anos de idade, quando brincava na porta de casa, na favela de Acari, Zona Norte do Rio. Registrado como “auto de resistência”, o crime prescreveu em 2016 sem que o PM que matou a criança fosse responsabilizado.
Nesses 20 anos, ele perdeu a esposa, não conseguiu mais se relacionar, sofreu enorme desgaste físico, passou por problemas de saúde e sofreu ameaças de PMs. “A mãe do Maicon não quis isso por causa das ameaças que eu sofri. Foram cinco, ao longo dessa história. Ameaças que eu sofri com fuzis na cara pra morrer. Só que, com a permissão de Deus, estou vivo e lutando, e com isso acabou meu casamento, meu lado sentimental não funciona mais. Não consigo estabelecer uma relação. Então o Estado não só matou e marginalizou o Maicon como destruiu a minha saúde e a da mãe dele, destruiu toda a família. Uma bala não mata só uma pessoa, ela destrói a vida da família toda”, lamenta o pai.
Mulheres de luta
As histórias das mulheres são muito semelhantes. As vítimas da violência policial — seus filhos, irmãos ou companheiros — são quase sempre jovens negros, os policiais quase nunca são responsabilizados pelos crimes e a luta pela responsabilização dos policiais que matam é mais do que uma luta contra a impunidade: é também uma luta pela preservação da memória das vítimas, que muitas vezes acabam sendo criminalizados como uma maneira de justificar seu assassinato.
“É uma história que se repete, o modus operandi [dos policiais] é o mesmo, a Justiça é a mesma, quando se trata de um jovem negro e pobre. É uma coisa impressionante”, diz Debora Maria da Silva, que teve o filho, Edson Rogério, executado por PMs nos Crimes de Maio de 2006, em São Paulo. “A força das mulheres é um clamor pra nós. A gente tem o dom de transformar. E só com a união a gente consegue alavancar a luta”, enfatiza.
Para Vera Lúcia dos Santos, a união das mulheres brasileiras com as de outros países em uma mesma causa é fundamental para fortalecer a luta contra a violência policial. “Quando estamos juntas, nos fortalecemos mais. A gente vê que isso não acontece só no Brasil, que acontece em vários pontos do mundo. Nós somos soldados pequenos, mas de mãos dadas a gente vira um exército muito grande”, afirma ela, que teve a filha Ana Paula, grávida, e o genro, também executados por policiais nos Crimes de Maio.
Desde que seu filho, Davi Fiuza, foi torturado por 23 policiais na Bahia e desapareceu em 2014, Rute Fiuza vem lutando pela responsabilização dos agentes, que embora identificados, até hoje não responderam pelo crime. Segundo ela, a união com as outras mães é o que a fortalece. “É o que nos fortalece, ver que você não está sozinha. Porque chega um momento em que ninguém mais quer ouvir sua história. Seus amigos e familiares se afastam, começam a achar chato você falar tanto sobre seu filho. A gente só sente na verdade quando é na nossa pele”, afirma.
A jamaicana Shackelia Jackson contou que, assim como as brasileiras, ela não teve tempo de ter luto quando seu irmão Nackiea Jackson, de 29 anos, foi morto por um policial dentro de seu restaurante, em 2014. “Quando se tem que lidar com a polícia, não se tem tempo de ter luto”, disse ela. “Me sinto como muitas outras famílias. Nós fomos sentenciados. Perdi meu irmão e provavelmente perdi um pedaço de mim”, completou Shackelia, que continua lutando na justiça pela condenação do policial.
Mãe de Gary Hopkins, assassinado aos 19 anos por um policial em Maryland, nos Estados Unidos, a norte-americana Marion Gray-Hopkins falou sobre o racismo no país. “A história de Gary é a história dos Estados Unidos”, disse. O crime ocorreu em 1999 e o policial que matou o jovem negro foi absolvido. Na época, tentaram criminalizar Gary, afirmando que havia drogas e álcool no carro onde ele se encontrava. “O relatório policial torna a vítima um vilão. É aí que entra o papel de vocês [jornalistas]: vocês precisam conhecer de verdade as histórias das vítimas”, encerrou a ativista.
A Ponte publicará reportagem especial a partir de entrevistas exclusivas com Shackelia Jackson e Marion Gray-Hopkins.

Cresce diferença de jornada de trabalho entre homens e mulheres

A diferença de carga de trabalho total entre homens e mulheres aumentou nos últimos anos. Enquanto em 2005 elas trabalhavam 6,9 horas a mais por semana do que os homens, em 2015 a diferença cresceu para 7,5 horas, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
(Folha de S.Paulo – 26/02/2017)
Nesse período de dez anos, o tempo gasto por homens com atividades profissionais diminuiu quase 3 horas, e sua dedicação às tarefas domésticas continuou ocupando 10 horas da semana, em média.
O tempo gasto pelas mulheres com afazeres em casa diminuiu de 26,9 horas para 24,4 horas, um movimento que pode ser explicado pelo maior acesso a eletrodomésticos. Fora de casa, elas continuaram trabalhando mais 35 horas por semana, em média.
Somadas todas as atividades, a jornada total dos homens caiu de 48,4 horas semanais para 46,1 horas, enquanto a das mulheres foi de 55,3 horas para 53,6 horas.
Outra diferença importante entre os gêneros é o número de pessoas que declaram realizar alguma atividade doméstica. Só metade dos homens entrevistados pelos pesquisadores do IBGE afirma ter afazeres em casa. A outra metade diz que não realiza qualquer trabalho doméstico.
A história se repete mesmo entre mulheres que são as principais provedoras da família, que dedicam 19 horas por semana a atividades domésticas, enquanto seus companheiros dedicam 7,5 horas, segundo cálculos da demógrafa Simone Wajnaman, da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).
“Quando analisamos os dados em maiores detalhes, observamos também que mulheres com cônjuge têm mais afazeres domésticos do que aquelas sem cônjuge”, diz Natália Fontoura, pesquisadora do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). “Além disso, quanto mais filhos, maior o tempo gasto com afazeres domésticos.”
No debate sobre a reforma da Previdência, o aumento da participação das mulheres no mercado de trabalho e a redução do tempo que elas gastam com afazeres domésticos são apresentadas pelo governo como justificativas para estabelecer a mesma idade mínima de 65 anos como condição para aposentadoria de homens e mulheres, sem distinções.
O aumento da diferença de carga de trabalho entre homens e mulheres, porém, indica que os avanços sociais dos últimos anos foram mais lentos do que sugere o discurso oficial. “A ideia de que as jornadas estão se igualando é uma ilusão”, diz Fontoura.
EXPECTATIVA DE VIDA
As mulheres têm expectativa de vida superior à dos homens no Brasil, vivendo em média sete anos a mais do que eles. Como as regras atuais permitem que as mulheres se aposentem mais cedo, isso contribui para que recebam o benefício por mais tempo.
“Se somos [machistas], então o mundo inteiro é. A questão da igualdade de tratamento previdenciário, você vê em vários outros países”, disse o secretário da Previdência, Marcelo Caetano, ao defender a reforma num seminário na semana passada.
Na maioria dos países desenvolvidos, a mesma idade mínima é exigida de homens e mulheres. Defensores de exigências diferentes, porém, dizem que a realidade desses países não se compara à brasileira, uma vez que a oferta de creches e escolas públicas é muito maior nesses lugares.
O governo reconhece que há diferenças no mercado de trabalho entre homens e mulheres. Ao definir uma regra de transição para os trabalhadores que estão mais perto da aposentadoria, a proposta de reforma enviada ao Congresso estabelece critérios mais generosos para as mulheres.
Para o governo, as diferenças estão diminuindo. Enquanto em 1995 o rendimento delas era equivalente a 66% do recebido pelos homens, em 2014 esse percentual subiu para 81%, segundo o IBGE.
Mesmo que as desigualdades persistam, para o governo a solução está em outras políticas públicas. “Não devemos usar a Previdência para tentar resolver problemas que não são da área previdenciária. Não só não vai resolver como vai criar um custo grande”, afirmou Caetano.
Por FERNANDA PERRIN

Por que precisamos falar sobre 3,5 milhões de crianças fora das creches?

Investir nos primeiros anos de vida traz benefícios à sociedade, ajudando o país a investir em seu desenvolvimento humano, político, social e econômico de maneira íntegra e sustentável. Se não estamos dando a devida prioridade para a primeira infância, estamos falhando como sociedade
(Nexo, 22/02/2017)
O Brasil tem avançado na atenção às suas crianças. A aprovação do Marco Legal da Primeira Infância, em março de 2016, por exemplo, foi um dos resultados práticos do crescente entendimento de que investir nessa fase da vida, do nascimento aos seis anos, pode realmente mudar o destino das pessoas e do próprio país.
Entretanto, dados alarmantes nos lembram que ainda existe muito a avançar: segundo o IBGE e a ONG Todos pela Educação, 3,5 milhões de crianças de zero a três anos estão fora das creches. E a ciência nos alerta que esse número é extremamente significativo para a perspectiva de desenvolvimento futuro de uma nação. James Heckman, vencedor do Nobel de Economia, protagonizou um estudo* que ressaltou a importância do investimento na primeira infância: cada US$ 1 empregado nos primeiros anos de vida produz um retorno de pelo menos US$ 7 no cidadão adulto (veja o infográfico). De acordo com Heckman, esse resultado não se compara sequer ao melhor desempenho registrado na bolsa de valores.
Somadas à pesquisa do economista norte-americano, descobertas conjuntas de áreas como economia, psicologia, neurociência, e outras, apontam para a forte correlação entre os comportamentos e valores do indivíduo adulto e aquilo que se plantou no início da vida. Uma boa analogia para compreender esses conceitos é comparar o desenvolvimento do ser humano com a construção de uma casa. Sua fundação e seus pilares precisam estar bem construídos. Caso essas estruturas não recebam os devidos cuidados, poderão ficar sujeitas a problemas futuros. A ciência demonstra que uma infância de muitas carências tende a levar a uma adolescência e uma vida adulta com possíveis dificuldades que poderiam ser evitadas, como obesidade, abandono da escola, dependência química, aumento de índices de violência e até o encarceramento.
Tudo começa na formação do cérebro humano. Só nos dois primeiros anos de vida, essa “máquina” maravilhosa realiza cerca de 700 conexões neurais a cada segundo**. Até os quatro anos de idade o cérebro já desenvolveu praticamente 90% de sua estrutura. Um processo que acontece tanto pela influência genética como também pelos estímulos externos que os bebês recebem dos pais e adultos a sua volta (avós, tios, educadores etc.) e do meio onde vivem.
Entornos conturbados, nutrição inadequada, falta de estímulos, violência e negligência constantes causam aquilo que os especialistas chamam de “estresse tóxico”, prejudicando o desenvolvimento cerebral, que, como a ciência nos diz, tem o poder de impactar enormemente a fase adulta. O infográfico apresenta temas como parto normal, incentivo à amamentação exclusiva até os seis meses, ampliação das licenças-maternidade e paternidade, creches e pré-escolas de qualidade — alguns dos pontos que devem pautar iniciativas focadas nos primeiros anos de vida. Programas de primeira infância de qualidade consideram o desenvolvimento integral da criança e isso demanda políticas públicas que envolvam Educação, Saúde e Desenvolvimento Social, acompanhando as necessidades atuais de uma sociedade em evolução, enxergando o longo prazo com um olhar integrado.
Iniciativas alinhadas com esses fundamentos já têm surgido nos governos municipais, estaduais e federal. Para garantir o nível e a eficiência de tais programas, serviços e políticas, estes precisam estar respaldados por monitoramentos e avaliações efetivas, que tragam aos seus gestores dados que orientem ajustes progressivos e o aperfeiçoamento de estratégias. Só assim é possível assegurar que as intervenções não se percam em meio a burocracia, interesses individuais, políticos e em metas inalcançáveis. Caso contrário, mais desperdício dos recursos públicos e falta de perspectivas de bem-estar serão contabilizados na história das novas gerações, comprometendo a qualidade de nosso capital humano.
Precisamos falar sobre as crianças fora das creches, bem como das demais necessidades que não estão sendo supridas para cada uma delas. Investir nos primeiros anos de vida traz benefícios à sociedade, ajudando o país a investir em seu desenvolvimento humano, político, social e econômico de maneira íntegra e sustentável. Se não estamos dando a devida prioridade para a primeira infância, estamos falhando como sociedade.
* Heckman, James J. (2008). “Schools, Skills and Synapses”, Economic Inquiry, 46(3): 289-324.
** Center on the Developing Child (2009). Five Numbers to Remember About Early Childhood Development (Brief).
Eduardo de C. Queiroz é formado em Administração de Empresas com especialização pela Fundação Getúlio Vargas e mestrado em Administração Pública pela Harvard Kennedy School of Government (Mason e Lemann fellow). Desde fevereiro de 2011 é diretor-presidente da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal. É membro voluntário dos Conselhos das ONGs Espro, United Way Brasil e Outward Bound Brasil.

Fogões melhorados limpam o ar doméstico

Por Athar Parvaiz, da IPS – 
Darjeeling, Índia, 24/2/2017 – As comunidades de montanha na zona indiana do Himalaia dependem quase completamente das florestas para conseguir lenha, apesar de a prática ser considerada uma das causas mais importantes de perda florestal e de contaminação do ar no interior das moradias. A queima indevida de combustíveis como a lenha em espaços fechados libera perigosos contaminantes no ar, enquanto a coleta de lenha e o cozinhar em fogões tradicionais consomem muito tempo, especialmente das mulheres.
A Organização Mundial da Saúde calcula que 4,3 milhões de pessoas morrem no mundo a cada ano por doenças atribuíveis à contaminação do ar doméstico. Acredita-se que mulheres, meninas e meninos correm um risco maior de sofrer as consequências dessa contaminação, já que passam mais tempo em casa. Dados do censo de 2011 revelam que 142 milhões de famílias rurais na Índia dependem exclusivamente de combustíveis como lenha e esterco de vaca para cozinhar.
Apesar dos fortes subsídios aplicados pelos sucessivos governos desde 1985, para que combustíveis mais limpos, como o gás liquefeito de petróleo (GLP), estejam à disposição da população pobre, milhões de pessoas continuam lutando para poderem pagar por uma energia mais limpa, o que as obriga a optar por substâncias tradicionais e mais prejudiciais.
Isso fez com que organizações como a Fundação Ashoka para a Pesquisa em Ecologia e Ambiente (Atree), com sede em Bangalore, ajudem as comunidades de montanha a minimizar os riscos sanitários e ambientais derivados do uso da lenha para cozinhar em lugares fechados. A IPS conversou com a diretora regional da Atree para o nordeste da Índia, Sarala Khaling, que supervisiona o projeto de fogões melhorados (FM) administrado pela organização em Darjeeling, na região indiana do Himalaia.
IPS: O que levou a começar o programa FM em Darjeeling?
SARALA KHALING: Em muitas áreas remotas da floresta de Darjeeling realizamos uma pesquisa e descobrimos que as pessoas dependem da lenha, já que é a única fonte barata em comparação com o GLP, a querosene e a eletricidade. No entorno do Parque Nacional de Singhalila e do Santuário da Vida Silvestre Senchal constatou-se que o consumo médio de lenha era de 23,56 quilos por família, por dia. Portanto, pensamos em proporcionar apoio tecnológico a essa gente para minimizar a degradação florestal e a contaminação em interiores, que é perigosa para a saúde humana e também contribui para o aquecimento global. Assim, começamos a substituir os fogões tradicionais por outros de melhor cocção, que consomem muito menos lenha, além de reduzirem a contaminação.
IPS: Quantos FM foram instalados?
SK: Até o momento, a Atree instalou 668 unidades em diferentes localidades de Darjeeling. Depois da instalação realizamos outra pesquisa e os resultados mostraram uma redução do consumo de lenha de 40% a 50%, uma economia de 10 a 15 minutos no tempo para cozinhar, além de as cozinhas ficarem livres de fumaça e contaminação. Capacitamos mais de 200 membros da comunidade e selecionamos promotores de FM para poder montar uma microempresa. Existem oito modelos de FM para diferentes grupos destinatários, como os fogões destinados às famílias, ao gado e os modelos comerciais para albergues, hotéis e escolas.
IPS: Quando o projeto começou?
SK: Trabalhamos com energia eficiente desde 2012. A tecnologia foi adaptada da área vizinha do Nepal, o distrito de Ilam. Todos os modelos que adotamos procedem da organização nepalesa Centro de Desenvolvimento da Comunidade Namsaling. Isso por causa das semelhanças culturais e climáticas da região. Se os modelos não são adequados para a cultura local, as comunidades não aceitam as tecnologias.
IPS: Quem são os beneficiários?
SK: Os beneficiários são as comunidades locais de 30 aldeias onde trabalhamos, já que essas pessoas são totalmente dependentes da lenha e vivem nas proximidades das florestas.
IPS: Quais os benefícios para a saúde do uso do FM, especialmente para mulheres e crianças?
SK: As mulheres passam mais tempo na cozinha, o que significa que as crianças menores que dependem de suas mães também ficam muito tempo na cozinha. Definitivamente, o ambiente sem fumaça nesse local deve ter um efeito positivo na saúde, especialmente nas condições respiratórias. A cozinha também fica mais limpa, bem como os utensílios. E, depois, o menor consumo de lenha significa que as mulheres passam menos tempo coletando, evitando dessa forma a fadiga.
IPS: O que dizem os beneficiários?
SK: A resposta das pessoas que adotaram essa tecnologia foi positiva. Dizem que os FM consomem menos lenha e proporcionam muito mais comodidade para cozinhar em um ambiente livre de fumaça. As mulheres nos disseram que suas cozinhas ficam mais limpas, bem como os utensílios.
IPS: Quanto custa ter um fogão limpo? Uma família pode consegui-lo por si só?
SK: Custa cerca de US$ 37 fabricar um. A Atree só paga os gastos de mão de obra. Naturalmente apoiamos a capacitação, mobilização, monitoramento, divulgação e extensão. E também existem muitas casas fora dos pontos de nossos projetos que também adotaram essa tecnologia. O material usado para fogão limpo é local, pois é feito com tijolos, esterco de vaca, sal, melaço e peças de ferro.
IPS: Há uma meta para o número de famílias que se deseja cobrir em um certo período de tempo?
SK: Pretendemos fornecer 1.200 unidades ao mesmo número de famílias. Mas, dependendo da capacitação, vamos ampliar esse número. Nosso objetivo principal é fazer com que isso seja sustentável e não algo que se distribua gratuitamente. Nosso modelo é a seleção e a capacitação de membros da comunidade. Queremos que esses membros treinados se convertam em pessoas de recursos e se organizem em uma microempresa de promotora desses fogões.