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sexta-feira, 31 de julho de 2015

Truffaut e a vertigem do feminino

POR José Geraldo Couto

 17.07.2015
Há cineastas que são admirados e respeitados a uma certa distância, como que olhados de baixo para cima: Lang, Hitchcock, Bresson, Kubrick. Outros são sobretudo amados: Renoir, Fellini, Kurosawa, Truffaut. Há na obra destes últimos um calor humano que dá ao espectador a ilusão de ser amigo pessoal, íntimo, de cada um deles.
É mais do que provável, portanto, que a megaexposição “Truffaut: um cineasta apaixonado”, aberta esta semana no MIS de São Paulo, converta-se num acontecimento inesquecível para os cinéfilos paulistanos e visitantes da cidade. A mostra, que vai até 18 de outubro, traz cerca de 600 itens, entre desenhos, fotos, objetos de cena e pessoais, livros, revistas, roteiros, trechos de filmes e entrevistas do diretor.
Mas o que torna Truffaut tão querido? Sua filmografia é irregular, com sucessos e fracassos tanto de público como de crítica, incursões nem sempre bem-sucedidas em distintos gêneros, do drama de época à ficção científica, da comédia ao policial. Mesmo em seus pontos mais baixos, porém, é perceptível o seu amor ao cinema, a sua entrega plena a essa arte que ele via como a forma contemporânea de realização de uma necessidade multimilenar do homem, a de criar ficções – e acreditar nelas, ao menos por um par de horas.
Mulher, cinema, infância
Em meio a essa obra plural, heterogênea, dois eixos principais se destacam: a relação de Truffaut com o amor – ou antes, com a mulher – e a relação com o próprio cinema. Um tema subsidiário seria o da infância, mas veremos que no fundo ele tem a ver com os outros dois.
No coração do cinema de Truffaut está a mulher. Não por acaso, ele disse certa vez, em tom mais ou menos sério, que “o papel do diretor de cinema é mostrar uma mulher bonita fazendo coisas bonitas”. Não se trata de um cinema que busque o ponto de vista feminino. Com exceção, talvez, de A noiva estava de preto (1967) e de A história de Adele H (1975), quase sempre o que vemos no centro de seus filmes é um homem fascinado, perplexo e desconcertado pela mulher.
Isso é particularmente visível na série com o personagem Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud) – Os incompreendidosAntoine e ColetteBeijos proibidosDomicílio conjugalO amor em fuga – e em filmes como Jules e JimA noite americanaDe repente num domingo e, claro, O homem que amava as mulheres. Um trecho admirável deste último sintetiza essa fascinação, esse desconcerto, essa vertigem diante do feminino: 
Desnecessário dizer que um certo feminismo afoito censurou essa adoração à mulher como uma forma disfarçada e insidiosa de machismo. Paciência. Desnecessário também notar que Truffaut, como George Cukor, foi um diretor de belas atrizes: Jeanne Moreau, Françoise Dorleac, Catherine Deneuve, Jacqueline Bisset, Isabelle Adjani, Fanny Ardant. De todas ele soube captar a delicadeza, a força e o mistério.
Godard: amor e ódio
Mas o encanto de Truffaut vem também de sua relação rica e complexa com o próprio cinema. Curiosamente foi essa paixão comum que o aproximou e depois o afastou radicalmente de Jean-Luc Godard, o outro grande nome de sua turma e geração, a dos Cahiers du Cinéma e da Nouvelle Vague.
Ambos discípulos de André Bazin, eles militaram juntos como críticos nos Cahiers em defesa do cinema norte-americano “de autor” (Ford, Hawks, Hitchcock, Welles) e contra o acadêmico e embolorado “cinema de qualidade francesa” que vigorava nos anos 1950. Truffaut escreveu o roteiro do primeiro longa de Godard (Acossado, 1959) e juntos fizeram o lindo curtaUne histoire d’eau (1961). Depois dessa fase heroica, afastaram-se cada vez mais. Enquanto Godard radicalizava sua ruptura com o cinema narrativo convencional, Truffaut buscava se aprimorar e aprofundar no domínio dessa narrativa, chegando a declarar que, com o tempo, descobriu que não havia nada como a decupagem clássica, isto é, com o cinema ilusionista, que conduz o olhar do espectador sem que este perceba.
No centro dessa discórdia está A noite americana (1973), em que o próprio Truffaut atua como um cineasta às voltas com os dramas e comédias dos bastidores da realização de um filme. É um dos grandes sucessos da carreira do diretor e um dos filmes mais queridos por seus admiradores. Mas Godard, que havia desconstruído estética e politicamente a realização cinematográfica em O desprezo (1963), acusou o ex-amigo de mistificar e falsear seu métier. (Curiosamente, as trilhas dos dois filmes foram compostas pelo grande Georges Delerue, parceiro habitual de Truffaut.)
Não é necessário tomar partido de um ou de outro, nem tampouco considerar que o “verdadeiro cinema” é o de Truffaut ou o de Godard. Mais vale encarar essa relação de amor e ódio como um momento único do cinema, em que duas obras distintas ao extremo, mas ligadas de modo umbilical, iluminam-se mutuamente e enriquecem a sensibilidade do espectador. Neste trecho de A noite americana, vemos uma dupla homenagem do diretor a Delerue e a seus cineastas favoritos: 
O homem-menino
Chegamos então à infância, tema caro a Truffaut. Crianças ou pré-adolescentes estão no centro de Os incompreendidosO garoto selvagem Idade da inocência, mas o que me parece mais interessante é o modo como, em praticamente todos os filmes do diretor, os homens adultos se desarmam, se fragilizam e de certo modo voltam a ser crianças diante da mulher e diante do próprio cinema.
Antoine Doinel é um adulto que ao longo do tempo se casa, tem vários empregos e no entanto segue sendo um menino confuso e travesso, assim como o protagonista (Charles Denner) de O homem que amava as mulheres. E Ferrand, o cineasta de A noite americanavivido pelo próprio Truffaut, não deixa de ver o seu ofício como uma grande brincadeira de faz-de-conta, ou, como disse Orson Welles, “o maior trenzinho elétrico que um garoto já teve”.
Faltou falar de outra relação fundamental, entre Truffaut e a literatura, mas fica para outra ocasião.
Para finalizar, como um regalo ou um aperitivo, vai aqui um trecho de Jules e Jim em que comparecem o amor, a amizade, a infância, o cinema, tudo junto e misturado, mostrando de resto que, com ou sem trapaça, em Truffaut a mulher sempre vence:

A supreendente ascensão do feminismo negro

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1a Marcha do Orgulho Crespo, dia 26 de julho em São Paulo
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Marcha do Orgulho Crespo. Virada Feminista. Oficinas de Tranças e Turbantes. Julho das Pretas. Multiplicam-se iniciativas que afirmam: democracia feminista será preta, pobre e periférica – ou não será

Por Inês Castilho | Imagem Paulo Ermantino

São evidentes os sinais de maturidade e crescimento da onda do feminismo negro. Nas ruas já se fazem notar os cabelos crespos ou trançados e turbantes coloridos, na contracultura do alisamento que marcou os penteados femininos, das brancas inclusive, nos últimos tempos. Décadas de luta do movimento negro, somadas às políticas públicas inclusivas nas universidades, à multiplicação de saraus pela periferia e de blogueiras negras na rede já exibem seus frutos.

Neste segundo semestre, eventos se sucedem com grande velocidade em São Paulo: da primeira Virada Feminista, 4 e 5 de julho na Zona Norte, à 1ª Marcha do Orgulho Crespo pelo dia da Mulher Negra, Latino-americana e Caribenha, 25 de julho, em preparação à Marcha sobre Brasília pela Consciência Negra, em novembro, de caráter nacional, anunciada com um Manifesto contra o Racismo e a Violência e pelo Bem Viver. E ainda o lançamento do livro didático e fotobiografia da antropóloga e ativista Lélia Gonzalez, que encarna grande parte dessa história.

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“Enegrecer o Feminismo”, roda da Virada Feminista, deixou “de cara, estimulada pela grande presença de mulheres negras” a educadora artística Margot Ribas, que estava ali para falar da partidA – movimento nascente de mulheres, predominantemente brancas, para a possível construção de um partido feminista. “Foi prazeroso participar da oficina de turbantes, dar uma xeretada nas bruxas que ensinavam poções como alternativa aos remédios da indústria farmacêutica, e encontrar velhas amigas da militância das mulheres”, comentou.

Ali mesmo foi divulgada a próxima atividade, preparativa à edição nacional da Marcha das Mulheres Negras marcada para 18 de novembro em Brasília. “Nossos passos vêm de longe – narrativas de mulheres negras” é uma entre as muitas ações do Julho das Pretas, de programação extensa sobre saúde, feminismo negro, genocídio da juventude negra, representações e intervenções artísticas.

1ª Marcha do Orgulho Crespo, organizada pelos grupos Hot Pente Blog das Cabeludas  eCasa Amarela ocorreu neste domingo, 26 de julho, no vão livre do Masp, de onde seguiu pela Avenida Paulista até a ocupação artística da Consolação. Também para marcar a data, a Cidade Tiradentes preparou a 1ª mostra cultural Mulher Afro Latinoamericana e Caribenha. E ainda no dia 25 aconteceu a Ocupação Preta no Centro Cultural da Penha com oficina de turbantes, roda de conversa e show de mulheres rappers e do hip hop: “pulsante produção realizada por artistas, coletivos, grupos e companhias de teatro e dança que produzem arte engajada que coloca em xeque o mito da democracia racial”.

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As oficinas de trança e turbante se multiplicam pela cidade e são um hit nesses eventos. Os incríveis trançados, cores e formas desses adereços são ao mesmo tempo instrumento de beleza e afirmação cultural, a exemplo do que ocorre nos EUA – como retratado pela escritora nigeriana Chimamanda Ngozie Adichie em Americanah, livro de cabeceira de muitas e muitos em vários cantos do mundo.

Nós da rede
Algumas falas recolhidas na Virada Feminista denotam a intrincada confluência em que se encontra esse levante feminista negro, tão igual e ao mesmo tempo diferente do feminismo branco, também em plena onda. ”A mulher negra é invisível no feminismo. O feminismo que está aí não nos tem como referência”; ”A mulher branca brigou pra ir trabalhar. A mulher negra sempre trabalhou e luta por seus direitos, pra ser tratada com dignidade no trabalho. Só recentemente conseguiu os direitos trabalhistas como doméstica.”

Para Margot Ribas, um feminismo que não reconhece a existência de uma condição específica da mulher negra está mal informado. “O racismo é tão forte e naturalizado na nossa sociedade que as pessoas são racistas até por automatismo. É esse racismo velado e automático que impede a população negra de avançar socialmente”, observa ela, cabelos afro. “Temos muito que conversar. Racismo é assunto delicado, espinhoso e necessário.”

O feminismo negro encontra-se em terreno delicado também frente aos homens do movimento negro. ”Quando as mulheres querem se organizar, os homens dizem que queremos rachar o movimento”; ”A gente quer um espaço só nosso. Toda hora voltar atrás e ver o que os homens acham não dá mais. Temos que buscar autonomia.” ”A mulher negra está entre o racismo e o machismo” – resume uma das falas.

As feministas negras apontam os vícios das narrativas e representações das pretas na educação formal e informal. ”Na mídia a mulher negra ou é objetificada ou vista no papel da empregada, que não tem vida própria, não tem família”; “Desde a escola, a mulher negra não existe como protagonista. As crianças não conseguem citar um nome sequer”; ”Tem que ter feminismo na escola.”

O surpreendente ascenso das mulheres negras ganhou impulso com a instituição do ProUni (Programa Universidade para Todos), em 2005, das cotas para negros e indígenas nas universidades e, mais recentemente, no programa de ação afirmativa na pós-graduação coordenado pela saudosa Fulvia Rosemberg, da Fundação Carlos Chagas.

Contudo, o artigo O quanto somos pretas, do grupo Nós Mulheres da Periferia, mostra como ainda é dramática sua inserção social. “Na base da sociedade, a mulher negra tem um rendimento médio de R$ 760,27, inferior ao do homem negro. A mulher branca (R$ 1.437,64) ocupa posição superior ao do homem negro, mas ainda não atinge o homem branco. Em termos de igualdade de gênero, estamos duas casas atrás no ‘jogo da vida’.  O ensino superior tem atingido apenas 10,9% das pretas. Nos cargos de direção das empresas privadas, somente 9% têm liderança negra e feminina.”

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Lélia Gonzalez (1935-1994)
Segundo dados do Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio) de 2011, 61,6% das 6,5 milhões de mulheres que exercem o trabalho doméstico remunerado no Brasil são negras, pobres e com baixa escolaridade, a maioria sem vínculo trabalhista formal. Na Câmara dos Deputados, as pretas são 0,6% e as pardas 1,6%, entre 8,3% de mulheres brancas e 71% de homens brancos, 15% de pardos e 3,5% de pretos.

Raízes
O lançamento, em 15 de julho, do Projeto Memória Lélia Gonzalez, veio regar as raízes dessa frutificação exuberante. Lélia, que escrevia em “pretuguês”, recriando a língua para falar da história do seu povo, “enegreceu o movimento feminista e feminizou a raça”, como afirma a filósofa Sueli Carneiro, herdeira intelectual de Lélia e autora de sua fotobiografia. Colaboradora do jornal feminista Mulherio (1981-1988) desde as primeiras edições, deixou grande legado nos estudos sobre raça e gênero do país, além de originar com sua obra diversos outros trabalhos.

Naquela tarde, o clima era esfuziante no Centro Cultural Banco do Brasil. Cabelos e turbantes em rostos negros sorridentes, alguns homens, poucas brancas: Eva Blay, que presidiu o primeiro Conselho Estadual da Condição Feminina (1983), Beth Vargas, convidada para a ouvidoria da Faculdade de Medicina da USP depois do escândalo da violência contra as estudantes, Schuma Schumaher, anfitriã do evento pela Redeh, ao lado do Geledés.

A noite era de encontro e eu estava lá, cabelos quase brancos. De volta. Quando finalmente cheguei à mesa em que Sueli Carneiro autografava os livros, um abraço emocionado e a dedicatória lembrando “Mulherio, uma das casas preferidas de Lélia e memória de nossa nascente, possível e desafiadora sororidade.”

Oxalá! A democracia feminista será preta, pobre e periférica – ou não será.

Outras Palavras

#SalaSocial Concurso elege foto de mulher amordaçada e revolta internautas

Publicação inicial divulgou a premiação de imagem considerada 'divertida' por agência esportiva

  • 29 julho 2015



Um concurso cultural promovido por uma agência esportiva provocou controvérsia nas redes sociais ao premiar uma imagem considerada machista e violenta por internautas.
A promoção da OTB Sports, empresa que gerencia carreiras de jogadores e técnicos de futebol, foi lançada no último dia 20.
O objetivo era premiar o torcedor flamenguista que publicasse a melhor foto que representasse "seu amor pelo Flamengo". O prêmio: uma camisa autografada do atacante peruano Paolo Guerrero, atleta gerenciado pela empresa.

Reprodução
Concurso direcionado a torcedores do Flamengo era para promover o atacante Paolo Guerrero, recém-contratado pela equipe carioca.

Na terça-feira, a OTB publicou o resultado em sua página no Facebook. A imagem vencedora mostra um torcedor flamenguista comemorando em frente à TV e uma mulher, aparentemente fã de uma equipe rival, presa e amordaçada em uma cadeira ao lado.
A reação nas redes foi imediata. "Será que não confundiram e escolheram a pior?", escreveu Thatiana Penna de Lima. "Que vergonha, hein, OTB Sports, Melhor já ir preparando a retratação", foi a mensagem de Paulinha Mariá.
"Ofensivo", "vergonhoso" e "violento" foram alguns outros adjetivos usados para descrever a imagem.

Reprodução
Pelo Facebook, internautas manifestaram repúdio à escolha da imagem pela agência esportiva.

Na avaliação desses internautas, a foto premiada descumpriu o regulamento do próprio concurso. Uma das regras dizia que a imagem a ser selecionada não poderia ter "cunho ofensivo, imoral, racista, discriminatório, com teor ilícito ou imagens que sugiram ou estimulem atos que possam colocar em risco a saúde, segurança e vida da audiência".
Diante da repercussão negativa, a OTB apagou a publicação com a foto controversa e desclassificou a imagem. O post original foi reproduzido pelo site Dibradoraspágina que luta por mais espaço para as mulheres no meio esportivo.
Após os comentários críticos dos internautas, a OTB publicou a seguinte mensagem:
NOTA OFICIAL
A OTB Sports vem a público se retratar do mal entendido que praticou no Concurso Cultural publicado nas suas redes sociais nesta terça-feira (28.07.15).
Entendemos o posicionamento de cada opinião e achamos por certo desclassificar a imagem divulgada e realizar uma nova auditoria.
Nosso objetivo em nenhum momento foi transmitir o machismo ou atuar como veículo de promoção do ódio. Não somos assim. Pedimos nossas sinceras desculpas a todas as pessoas que se sentiram ofendidas. Na quarta-feira (29.07.2015), publicaremos o novo ganhador.

A nota de retratação da empresa também foi alvo de críticas.

A retratação não satisfez alguns internautas, que passaram a criticar a empresa por classificar o episódio como "mal entendido". "Não foi mal entendido, foi machismo mesmo. Assumam o erro de forma correta", escreveu Felipe Galvão.
O responsável pela foto polêmica afirmou no Instagram, em resposta a um usuário que disse não ter visto machismo na imagem, que "a maldade está nos olhos de quem vê".
A BBC Brasil procurou a OTB Sports nesta quarta-feira, mas não havia obtido resposta até a publicação desta reportagem.

Atrizes de Hollywood entram em polêmica com Anistia sobre prostituição

Críticos afirmam que medida pode levar à despenalização de cafetões e dos donos de bordeis
30 julho 2015
Ver estrelas de Hollywood apoiando organizações de direitos humanos para dar visibilidade à causa é algo corriqueiro.
Mas uma situação pouco comum vem acontecendo entre atrizes famosas e a Anistia Internacional.
Emma Thompson, Meryl Streep, Kate Winslet, Anne Hathaway, Angela Bassett, juntamente com outras pessoas e organizações, assinaram uma carta rechaçando um documento da Anistia, no qual a ONG analisa a possibilidade de recomendar a organismos governamentais e internacionais a descriminalizar a prostituição.
Meryl Streep e Anne Hathaway estão entre as atrizes que assinaram carta criticando a Anistia
Ainda que se trate de um documento interno (a Anistia deve submetê-lo à votação no mês que vem), isso foi suficiente para desatar uma onda de críticas, especialmente entre os grupos de defesa dos direitos das mulheres.
Na carta à Anistia, o grupo afirmou estar "profundamente preocupado com a proposta da Anistia Internacional de adotar uma política que levaria à descriminalização de cafetões, dos donos de bordeis e dos consumidores de sexo – os pilares de uma indústria global do sexo que move US$ 99 bilhões".
E continua: "Ainda que a Anistia tenha tardado em entender que os direitos das mulheres são direitos humanos e incorporar esse conceito em sua missão, é uma organização vista como modelo para a mobilização do público para garantir que o governo implemente os princípios da Declaração Universal dos Direito Humanos. Por isso, o documento prejudica essa reputação histórica."

Abuso

Segundo a organização Coalizão contra o Tráfico de Mulheres (CATW, na siga em inglês), que também assinou a carta, há cada vez mais provas dos efeitos catastróficos da descrimiminalização do comércio sexual. A CATW diz concordar com a Anistia no que diz respeito ao fato de que as trabalhadoras do sexo não devem ser criminalizadas pela política ou pelo governo.
Documento da Anistia ainda é rascunho de medida que será analisado apenas em agosto
Também diz acreditar que a total descriminalização da prostituição "transforma os cafetões em homens de negócios que vendem impunemente pessoas vulneráveis com histórico de pobreza, descriminação e abuso sexual"
Diante da polêmica, a Anistia afirmou que ainda está trabalhando no rascunho do documento, e que se baseia na ideia de que criminalizar o trabalho sexual entre adultos pode levar a um maior abuso das trabalhadoras sexuais.
"Esses abusos incluem violência física e sexual, prisões e detenções arbitrárias, realização forçosa de testes de HIV e outras intervenções médicas", disse a ONG em um comunicado, reiterando que nenhuma decisão será tomada no momento.

Governo quer mudar legislação que tipifica crime de tráfico de pessoas no Brasil

30/07/2015 Andreia Verdélio - Repórter da Agência Brasil

Está em tramitação no Congresso Nacional projeto que vai tipificar o crime de tráfico de pessoas no país e ajudar na prevenção e repressão desse tipo de delito, além de qualificar as medidas de atenção às vítimas. Hoje (30), durante lançamento do Relatório Nacional sobre Tráfico de Pessoas, o secretário nacional de Justiça, Beto Vasconcelos, disse que o governo espera que o projeto seja aprovado até o final deste ano.

No Brasil, a tipificação do tráfico de pessoas está prevista apenas no Código Penal nos casos de tráfico interno e internacional para fins de exploração sexual (artigos 231 e 231-A). Vasconcelos explicou que o novo marco legal vai adequar a legislação brasileira ao Protocolo de Palermo contra o tráfico de pessoas, das Nações Unidas, adotado pelo Brasil em 2004, que especifica outras modalidades do crime.

Dados do último relatório global das Nações Unidas sobre tráfico de pessoas, de 2014, mostram que o tráfico para fins de exploração sexual é a modalidade mais comum, atingindo 53% das vítimas, seguido de trabalho escravo, com 40%. Mas o tráfico de pessoas também está ligado a outras formas de exploração, como a remoção e transporte de órgãos, os crimes contra crianças e adolescentes – relativos à adoção ilegal e com fins financeiros –, a mendicância forçada e mesmo a vinculação a práticas como o tráfico de drogas.

Além da limitação da legislação, outra dificuldade apontada no relatório é a falta de informações sistematizadas que permitam a elaboração de diagnósticos e o planejamento de políticas públicas. A adequação da lei vai, inclusive, possibilitar a qualificação dos dados, explicou Vasconcelos.

Entretanto, esses números não representam a realidade, e o número de vítimas pode ser muito maior, disse Vasconcelos. Dados da Polícia Rodoviária Federal revelam que 590 crianças foram resgatadas das rodovias brasileiras em 2013, em situação de vulnerabilidade e de exploração sexual.Por isso, para evitar sobreposições e conflitos conceituais, o relatório traz dados individualizados de cada instituição pesquisada sobre o perfil das vítimas e dos traficantes, as características dos crimes e os encaminhamentos dados pelo sistema de Justiça Criminal. Entre as informações, está o levantamento feito nas delegacias das polícias civis de 18 estados, segundo o qual 254 pessoas foram traficadas no Brasil em 2013.

O secretário destaca o aumento significativo do número de denúncias no Disque 100 (de 26, em 2011, para 218, em 2013) e do Ligue 180 (de 35 para 340, no mesmo intervalo). “É um crime que corre de forma silenciosa, pelo constrangimento da vítima e o medo da testemunha, ou sequer a pessoa sabe que está em condição de vítima. Quando se criam canais e campanhas e se sensibiliza e informa a sociedade sobre o que é o tráfico, as pessoas passam a ter uma confiabilidade do sistema [de Justiça]”, disse.

Segundo o representante do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (Unodc) no Brasil, Rafael Franzini, há estimativas de que 20 milhões de pessoas são traficadas por ano no mundo, e a cada vítima identificada existem cerca de 20 sendo exploradas. “Em função dos esforços, espera-se que os números apresentados hoje cresçam nos próximos anos”, disse ele, ressaltando a importância de se conhecer as especificidades do crime e disponibilizar canais de denúncia para a população.

Franzini destacou que o tráfico de pessoas é o terceiro crime mais lucrativo do mundo, atrás dos de tráfico de drogas e de armas.

O lançamento do relatório marca a semana de mobilização contra o tráfico de pessoas no Brasil. O dia 30 de julho foi adotado pelas Nações Unidas como o Dia Mundial de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas, quando vários países se mobilizam por meio da Campanha Coração Azul. Durante a cerimônia de hoje, foi lançado o selo comemorativo dos Correios, feito especialmente para a campanha.

Edição: Stênio Ribeiro
Agência Brasil

Judiciário retoma julgamento de processos criminais contra a mulher

30/07/2015

De 3 a 7 de agosto, mês em que a Lei Maria da Penha (Lei 11.340/2006) completa nove anos de existência, o Poder Judiciário volta a priorizar o julgamento dos processos criminais, cíveis ou de família em que as mulheres são vítimas de violência doméstica. A medida faz parte da Campanha Justiça pela Paz em Casa, executada pelos tribunais estaduais e cuja 1ª edição ocorreu em março deste ano. Para as coordenadoras das Jornadas Maria da Penha, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), conselheiras Ana Maria Amarante e Deborah Ciocci, a campanha é uma ótima oportunidade de ampliar o debate em torno da violência de gênero ao intensificar a realização de julgamentos dessas ações judiciais durante essa fase e mobilizar, além de magistrados, promotores e defensores públicos.

“A mobilização ajuda a diminuir a sensação de impunidade em relação ao feminicídio. Constatar que os processos relativos à temática da violência contra a mulher têm tido maior julgamento fortalece o sentimento de justiça”, diz a juíza Deborah Ciocci.

Já para a desembargadora Ana Maria Amarante, toda política pública que contribua para afirmar a Lei Maria da Penha é importante. “É preciso apoiarmos toda política pública que vá nessa direção. Apenas o Judiciário não daria conta de toda complexidade que envolve a violência doméstica. Precisamos aprofundar o debate e reforçar a política de parceria nessa área. Esse é um tema que necessita abordagens multidisciplinares, envolvendo a assistência social a essas mulheres, emprego, renda, apoio psicológico”, completa.

Mobilização - A política de formação de parcerias conta com a aprovação do presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP), desembargador José Renato Nalini, que conclamou os tribunais a estabelecerem convênios com universidades para desenvolverem estágios não remunerados nas áreas de Direito, Psicologia e Serviço Social, em varas especializadas e de competência comum. “Todos estão chamados a participar desse empenho. Uma nação justa, fraterna e solidária começa dentro de casa. É lamentável verificar que um grande número de agressões ocorra naquele espaço sagrado que já foi chamado de ‘lar’ e que precisa tornar a sê-lo”, afirmou o magistrado, em carta dirigida para o lançamento da campanha.

Apoio – Em Brasília, a cerimônia de abertura da II Semana Nacional Justiça pela Paz em Casa ocorrerá a partir das 10 horas de segunda-feira (3/8), no Auditório Sepúlveda Pertence, no prédio do Fórum de Brasília (TJDFT), com a presença da ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal, idealizadora da campanha. Na primeira edição do evento, os 19 Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher do DF realizaram 676 audiências e proferiram 866 sentenças e decisões.

Em Minas Gerais, o presidente do TJMG, desembargador Pedro Bitencourt Marcondes, convocou todos os juízes a participarem da iniciativa. Na primeira edição da campanha, ocorrida em março, três mil processos foram julgados nas comarcas mineiras.

Na Paraíba, o TJPB designou para a comarca de João Pessoa 10 juízes, 20 oficiais de justiça, promotor de justiça e defensor público, que atuarão em audiências nos turnos da manhã e tarde. A expectativa é julgar 600 processos de violência doméstica e familiar contra a mulher.

O Judiciário maranhense também se prepara para intensificar a realização de julgamentos de ações judiciais de violência doméstica. Segundo levantamento da Coordenadoria da Mulher do TJMA, na primeira edição da campanha, 600 audiências foram agendadas na Região Metropolitana da capital e interior e 468 julgamentos foram realizados pelas duas varas especiais de violência doméstica e familiar contra a mulher (São Luís e Imperatriz) e demais varas criminais competentes.

Em Goiás, a força-tarefa envolverá magistrados que atuam nos Juizados Especiais da Mulher e nas Varas Criminais, assim como membros do Ministério Público do Estado de Goiás (MPGO) e da Defensoria Pública. Dados indicam que há cerca de 45 mil ações relacionadas à violência de gênero no estado. Somente nos dois Juizados da Mulher na capital são 7.835 processos entre crimes de lesão corporal, ameaça, estupro e feminicídio.

Regina Bandeira
Agência CNJ de Notícias

Precisamos falar sobre transexualidade



POR Thaís Zimmer Martins ATUALIZADO EM 30/07/2015
A transexual Renata Peron estava na praça da República, em 2007, quando foi agredida por nove rapazes. Os resultados dessa agressão estão presentes até hoje: um dos golpes fez com que perdesse um rim. Diariamente, ela precisa beber três litros de água, não consumir carne, além de outros cuidados.
Infelizmente, histórias como a de Renata são frequentes. Entre janeiro e abril de 2015, foram registradas 356 denúncias de violações de direitos humanos entre a população LGBT no País. No ano passado, o número total de denúncias chegou a 1.013.
"Sem medo de errar eu falo pra você: eu não conheço ninguém que não tenha sido agredido", revelou Thais Azevedo, transexual entrevistada pela SUPER. "Você morre porque você é travesti. Você morre porque você é gay. Você morre porque você é transexual. É por isso que você morre", lamentou Renata.
De acordo com um o relatório divulgado pelo Grupo Gay da Bahia, 312 gays, lésbicas e travestis foram assassinados no Brasil no ano passado. Isso significa que é uma morte a cada 28 horas. O Brasil é campeão mundial de crimes homotransfóbicos: 40% dos assassinatos de pessoas LGBT ocorreram no País. Por quê? E por que falamos tão pouco sobre isso?
Renata e Thais fazem parte de centros que lutam pela diversidade. Devido à agressão sofrida, Renata fundou a Associação Centro de Apoio e Inclusão Social de Travestis e Transexuais (CAIS). Após anos de dedicação a pacientes com HIV, a técnica de enfermagem Thais trabalha atualmente como socio-educadora no Centro de Referência e Defesa da Diversidade (CRD), fundado em 2008.

7 dúvidas sobre identidade de gênero

LGBT
Getty
 
POR Thaís Zimmer Martins ATUALIZADO EM 29/07/2015

Existe diferença entre transexual e travesti? O que é identidade de gênero? Uma pessoa que nasceu homem pode ser mulher? Essas e outras dúvidas vêm à tona quando falamos sobre diversidade sexual. Por isso, a SUPER conversou com Edith Modesto, que é terapeuta, escritora e especialista em diversidade sexual e questões de gênero. Em 1999 ela fundou o Grupo de Pais Homossexuais (GPH) que atualmente é formado por mais de 200 brasileiros. Veja as respostas: 
 
1. O que define exatamente a transexualidade?
O "ser mulher", com um corpo de homem; um "ser homem" com um corpo de mulher. Nesses casos, há um processo de mudança física possível que dependerá da vontade de cada transexual.
 
2. Dentro da diversidade sexual, são muitos os termos que encontramos? Quais são eles e o que significam?
Heterossexuais: se sentem atraídos sexual e/ou afetivamente por pessoas do gênero contrário ao seu.
Homossexuais: se sentem atraídos sexual e/ou afetivamente por pessoas do gênero idêntico ao seu.
Bissexuais: podem se sentirem atraídos por pessoas do gênero masculino, ou do gênero feminino.
Assexuados: não se sentem atraídos sexualmente por ninguém.
 
Em relação aos gradientes de gênero, temos muitos termos: cross-dresser, drag-queen, drag king; andróginos, trans não binários, etc.
 
3. Qual a diferença entre uma travesti e uma transexual?
Antigamente, a travesti era conhecida como uma pessoa que se sentia homem e mulher ao mesmo tempo. Por isso, não queria fazer a operação. Hoje, a diferença é social e política. Sabemos que há gradientes (graus) de masculinidade e feminilidade (gêneros) não atrelados completamente ao biológico. Quando a pessoa se sente uma mulher em um corpo de homem e é de classe econômica e social mais simples, ela é denominada travesti. Geralmente, essas pessoas não têm nenhuma oportunidade na vida e se tornam profissionais do sexo para sobreviverem. Quando a pessoa com essa questão de gênero pertence a uma classe social e econômica mais alta, ela é denominada transexual. Quem não tem essa questão é denominada Cissexual.
 
4. As pessoas confundem, às vezes, identidade de gênero com orientação sexual. Você pode explicar qual é a diferença?
Na "orientação" ou "condição" sexual, a pessoa é hétero, bi, homossexual ou assexuada. Identidade de gênero refere-se ao gênero com o qual a pessoa se identifica: saber-se masculino(a) ou feminina (o) e em que graus. Essa condição pode mudar no decorrer da vida.
 
5. Conversamos com a Renata e com a Thais. As duas optaram por não fazer a cirurgia de readequação sexual. A Renata se diz mulher enquanto que a Thaís afirma ser transexual (por não nascer com as condições biológicas femininas). Como funcionam esses termos?  
De modo geral, a pessoa transexual é aquela cujo corpo (do ponto de vista biológico) possui características masculinas e se sente do gênero feminino, ou possui características biológicas femininas e se sente um homem.
O motivo pelo qual Thais não se diz "mulher" (pq não nasceu com características físicas femininas) é eminentemente político. Ela é uma militante que usa esse recurso na luta para que a transexualidade seja aceita como uma categoria e as pessoas transexuais "existam".
 
6. Qual a principal (ou principais) dúvida em relação à diversidade sexual que chega até você no dia a dia?
A diversidade sexual continua a ser avaliada muito negativamente. Portanto, continua a dificuldade de autoaceitação pelos jovens da homo ou bissexualidade e a dificuldade de aceitação desses filhos diferentes por seus pais.
 
7. Como você acha que o Brasil (tanto governo como sociedade) tem lidado com a diversidade sexual? 
Da parte do governo, muito mal, pois políticos brasileiros, sendo o Brasil um país laico pela constituição, fez parcerias com religiosos fundamentalistas. A sociedade parece estar tentando se defender contra isso, pois o assunto está a cada dia mais presente nas mídias.