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quinta-feira, 13 de julho de 2017

Eduardo e Roberto: “donos de casa” e cuidadores dos filhos | Homens Possíveis #1

Porque é da maior importância os pais saberem que podem ficar em casa para cuidar dos filhos

Ismael dos Anjos

Um dos conceitos mais arraigados na construção da masculinidade é o papel de provedor. Dos servos e aldeões responsáveis pela agricultura aos nobres em seus castelos, era responsabilidade do homem colocar comida na mesa. Mais tarde, essa noção passou a ser componente da ideia de sucesso.

Um homem que se preze deveria ser forte, poderoso e, de preferência, rico — ou estar no caminho para alcançar tal posição.

Mas e quando a principal preocupação de um homem não é colocar o dinheiro em casa, e sim cuidar dela? Alguém perde pontos na escala de masculinidade por escolher ser o principal cuidador dos filhos e estar mais preocupado em ser sensível, aberto e afetuoso?

Acredito que não. Longe disso. E é precioso saber que existem várias facetas para o “ser homem” e múltiplos caminhos para exercê-las.

O papel das mães já foi e continua a ser muito romantizado. Para evitar fazer o mesmo com os pais, conversei com dois homens que exercem essa paternidade mais ativa — para entender como funciona na prática a escolha de ficar em casa com as crianças.

Ex-consultor em engenharia civil, Roberto Scalia vivia uma vida estável, mas aparentemente sem sentido — sentia que precisava dedicar mais tempo suficiente a se conhecer de verdade.  “Cresci seguindo tranquilo os manuais da cultura local, faça isso e aquilo, vestibular, carreira, casa própria etc. Certa hora não funcionou mais pra mim, o manual não combate esses fantasmas, ele os esconde, e fiquei sem um sentido maior. É preciso tempo e esforço pra conhecer a si mesmo, e não fiz isso. Questionar a fundo tudo ao redor e a si mesmo”.

Em agosto de 2010, cumpriu todos os compromissos pendentes, doou os pertences e foi para Lençóis-BA, na Chapada Diamantina. “Recomeçar a vida com algumas roupas e objetos numa mochila, uns 600 reais no bolso. Levei também Gandhi, Francisco de Assis, Thoreau, Espinoza, Buda Gautama, os super-heróis, né? Rsrs”. Enquanto trabalhava como recepcionista de uma pousada, conheceu a hóspede que viraria seu grande amor, Carol. Bastaram 03 meses de papos virtuais para decidirem morar juntos em Taubaté, onde ela atua como servidora pública.

Eduardo Rodrigues, por sua vez, é de Araras — no interior de São Paulo. Formado em ciências sociais e músico profissional, conheceu a companheira Deborah em 2006 e trabalhou principalmente como professor até se mudar para a capital, em 2013. Decidido a viver da música, trabalhou com produção cultural até o nascimento da filha, Elisa. Hoje é pai de mais um filho, Ian, e se equilibra entre os cuidados com as crianças, gravações, shows e as cervejas que produz em casa e vende no bar de um amigo.

Música de Roberto e amigos na banda Nuda.

“Larga tudo sem nem avisar
Todos hão de um dia entender
E eu pergunto: pode o moço andar e arcar
Com a figura de um pai se perder?”

1. Como a paternidade entrou na sua vida? Já era um sonho antigo, foi algo natural, inesperado? Como foi o processo de começar a se entender nesse novo papel?  

Roberto: Naturalmente começamos a “morrer de fofura” pelos sobrinhos e crianças nas ruas, quase um instinto. Após boas reflexões, decidimos parar com o anticoncepcional e logo na sequência nosso Francisco, que hoje tem 05 anos, foi concebido.

Lembro que durante a gestação fiquei um pouco perdido, acho que procurando “cadê esse vínculo imenso, esse amor arrebatador?”. Você fica com medo de não amar seu filho. São ilusões que devemos encarar e eliminar.

Hoje entendo melhor o vínculo entre pai e filho, é algo diferente. Não temos o empurrãozinho natural de sentir realmente alguém dentro de você, sendo você, os hormônios, as dores, a amamentação. Ele é construído lentamente, dia após dia, fruto de cada minuto que você está pensando e cuidando dele. Você pode até passar horas com ele, mas sem cuidado e atenção, não se forma vínculo. Isso vale pra pai e mãe, pra todos.

Também acontecem alguns cliques. O Francisco nasceu prematuro e lembro que isso foi um eletrochoque na minha paternidade, nessa vontade de cuidar e proteger o filho.

Eduardo: Paternidade nunca foi um sonho pra mim não. Eu nunca pensei, nunca visualizei isso mais jovem que eu me recorde. Lógico que a gente pensa em algum momento, mas nunca foi um sonho. A gente tem um relacionamento desde 2004 e só foi conversar disso em 2011, 2012.  Nunca foi uma coisa que permeou nossa relação, sabe? E isso aconteceu também com a gravidez. Foi natural, mas foi inesperado, né. Uma hora podia ser que acontecesse,  mas a gente não estava programando nada.

Acho que a questão do ser pai, quando caiu a ficha, não foge muito do que você ouve dos outros homens não. Acho que caiu minha ficha quando minha filha nasceu e ela veio no meu colo algum tempo depois, quando eu cortei o cordão. Aí que caiu a ficha de verdade mesmo. “Sou pai. Agora, querendo ou não, a vida mudou”.

2. Aquele padrão de homens como provedores e mulheres como cuidadoras já não funciona assim para todo mundo. Como funciona a dinâmica cotidiana de você, seu filho e sua companheira?

Roberto: Minha esposa cumpre sua jornada de trabalho diária, enquanto me dedico integralmente a cuidar do nosso filho e da casa, assumindo e compartilhando cuidados com alimentação, escola, tarefas, banho etc. Tenho alguns projetos secundários que realizo em casa, mas a prioridade é ele.

Contudo, nem sempre foi assim, a dinâmica evolui.  No primeiro ano de vida do Chico, ainda achava importante ter uma renda própria. Escolhi trabalhar como segurança em escala 12x36, justamente pra poder passar mais tempo com a família.  Mesmo assim não deu certo, minha esposa ficou sobrecarregada. São coisas que a gente aprende errando mesmo.

Se fosse hoje, teria escolhido ficar em casa desde o primeiro dia, pois nossa relação se estreitou profundamente desde lá.

Eduardo: Eu sou músico e ela é funcionária pública. Eu trabalho em casa, sou músico, saio pra tocar e viajar, mas não é frequente. Não são 20 shows por mês. Alguns outros trabalhos que tenho que fazer em relação à música faço em casa ou em estúdios próximos, de amigos, para desenvolver alguma coisa quando minha esposa está em casa. Se ela saísse desse trabalho a casa não conseguiria ser mantida, então ela é a provedora. Eu tenho meus pontos de remuneração, mas o meu recurso não seria possível de manter a casa sozinho.

Em 2013, primeiro ano em que estive aqui em São Paulo e ano em que a gente se descobriu grávidos da Elisa, eu tinha arrumado um emprego em uma produtora artística, como produtor cultural. Tinha alguns projetos, viagens, enfim. pensamos: os dois vão continuar trabalhando fora? A gente vai deixar nossa filha com seis meses numa escola?

Pra gente não foi uma ideia tão interessante assim.

A gente pensou que em um primeiro momento eu poderia manter esse meu trabalho na produtora além de tocar, mas depois vimos que isso não podia acontecer. Pensei: “meu, por que eu vou continuar trabalhando nesse lugar se não é esse meu emprego que mantém a casa?”.  Não era minha ocupação principal, eu não seguiria a carreira de produtor cultural. Eu não vi problema de abdicar desse trabalho pra cuidar da nossa filha assim. Foi uma coisa muito boa e é algo que a gente pretende fazer agora com o Ian, que é o segundo e nasceu há 15 dias.

tenho que fazer em relação à música faço em casa ou em estúdios próximos, de amigos, para desenvolver alguma coisa quando minha esposa está em casa. Se ela saísse desse trabalho a casa não conseguiria ser mantida, então ela é a provedora. Eu tenho meus pontos de remuneração, mas o meu recurso não seria possível de manter a casa sozinho.

3. Quais mudanças e reflexões exercer esse papel de cuidador trouxeram para a maneira como você enxerga e vive sua masculinidade?

Roberto: Nunca me achei machista no sentido total, achava isso ridículo e preconceituoso demais, porém o buraco é mais embaixo. Apesar de ter sido criado com muito amor e atenção pelos meus pais, a cultura pernambucana machista ficou cravada lá no fundo, em coisas sutis que foram aparecendo.

No primeiro ano de paternidade, por exemplo, não assumia muitas das responsabilidades em casa, ficava naquela postura clássica do homem esperando “ser comandado”, o que gerou uma carga injusta pra minha companheira. Vi que inconscientemente acreditava em velhas sentenças como “banho é coisa de mãe”. Pouco a pouco fui mudando, mas ainda luto contra essas coisas dentro de mim.

Também ficava embaraçado ao responder sobre minha profissão. Hoje, quando respondo um tranquilo e direto “sou dono de casa”, as reações me divertem bastante, são sempre inusitadas.

A sociedade sempre vai te apontar. Contudo, ver nosso filho querendo nos ajudar a cozinhar, lavar pratos ou fazer compras me dá forças, pois é um dos sinais que estamos conseguindo mudar isso. Talvez a geração dele já perceba o quanto é másculo limpar cocô, dar banho, cozinhar e, principalmente, demonstrar carinho numa sociedade como a nossa. Não ter medo de encarar modelos injustos é o que faz de você um homem de verdade, além de gerar um exemplo e uma relação inestimável com seu filho, pode ter certeza.

Eduardo: As mudanças são muito drásticas, né meu. Seu sentimento se aflora, parece. Se você for uma pessoa com personalidade mais amorosa, pensando em psicologia, parece que esse lado amoroso vem à tona. Você fica mais sensível, mais cuidadoso, mais esperto com o arredor e fica mais leve, sabe? Não sei se isso vai de pessoa para pessoa —  para algumas pessoas a paternidade deve ser um fardo, acredito eu.

É tudo muito intenso, tudo muito no limite. É uma existência em estado cru, puro, que você tá vivendo, se defrontando. Principalmente quando seu filho tá com mais anos, 2 ou 3, que é o caso da Elisa agora, você conversa, você vê que ela raciocina, que ela tem lembrança.

Eu acho que é uma baita oportunidade de você conseguir enxergar a sua personalidade. Como você é, o que você é. Não uma questão de certo e errado, mas uma questão de ser justo, do trato, você consegue enxergar muito isso. Você vê todos os seus problemas, consegue enxergar como você foi criado.

Quando eu fico reproduzindo uma coisa na criação, no convívio com minha filha, estou reproduzindo o que foi trocado comigo quando eu era criança. A gente vê que esse caminho que a gente tenta seguir agora, uma coisa mais humana, com empatia maior, é muito diferente.

4. Com o crescimento da paternidade mais ativa, muita gente passou a romantizar um pouco a ideia de ficar em casa, cuidar dos filhos. Conte um pouco sobre as alegrias e os perrengues de viver isso na prática?

Roberto: Ser pai é padecer no paraíso (risos). Sim, é muito romantizado e cada pessoa vai ter suas dificuldades. Eu, por exemplo, sou avesso à rotina e tive que me adaptar na marra. Também foi difícil lidar com os pequenos escândalos públicos, mas a gente vai aprendendo.

Acho que o maior desafio foi ter escolhido uma educação sem gritos, castigos ou palmadas. Se você decidir o mesmo caminho – educar pelo exemplo e não pelo medo - prepare toneladas de paciência. O dia a dia, a birra e o cansaço muitas vezes enchem o saco e tem hora que você perde mesmo a calma.

É justamente aí que entram a sinceridade e o exemplo. Gritou com ele? Respira, senta, pede desculpas e explica porque perdeu a calma. Aprendi na prática que essa postura é a mais difícil, porém educa profundamente. Nosso filho ficou mais calmo e obediente, nossa cumplicidade se fortaleceu muito.

Esse é o padecer. Sobre o paraíso? Teu filho assistir um desenho abraçadão com você, sentar no teu colo pra dizer que está com medo de algo e pedir ajuda. Ver ele correndo de saudade pra te abraçar forte. Sair de casa e saber que ele perguntou várias vezes “Cadê papai? Já voltou?”.

Não há preço nem palavras pra isso.

Eduardo: Não é só um mar de rosas não. Não são só coisas fantásticas e maravilhosas que ocorrem em todos os pontos da paternidade, e também nessa questão do cuidado. É muito romantizado mesmo essa questão do largar tudo, né. Eu e minha companheira tivemos muitas conversas nesse sentido.

Pra mim não é um problema, sabe? Eu continuo exercendo  minhas ocupações e arrumei outra que consigo fazer em casa.  Agora a questão de tocar, de ser músico, não sei como vai ser isso a partir do segundo filho, em que tudo dobra, o cuidado dobra.

Mas cara, acho que é muito dialético a questão de você estar se doando, estar com seu filho ou sua filha, vendo crescer, orientando. São momentos únicos, acredito eu. Minha companheira diz que ela não faria o contrário. Eu pelo menos não larguei tudo, continuo fazendo minhas coisas.

Mas mesmo assim, tem várias coisas que não posso fazer a mais por que eu tenho compromisso — não é um fardo, é um compromisso muito prazeroso. Muitas coisas minhas são deixadas de lado em função dos filhos, da família e do coletivo da casa.

A gente acredita na construção de um mundo melhor e eu vejo que essa construção é a partir da relação que a gente tem com as pessoas. E as pessoas com quem a gente mais se relaciona, querendo ou não, são as pessoas que estão com a gente, os nossos filhos.

A partir das experiências que a gente tem com eles, as relações e o convívio, a gente pode tentar dar uma melhorada no mundo, sabe

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11 de Julho de 2017

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