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sábado, 21 de março de 2020

Parcialidade racial: time da CNN Brasil gera debate sobre diversidade e presença de negros na mídia

por: João Vieira
A chegada da CNN Brasil movimentou o mercado do jornalismo nos últimos meses. A empresa conseguiu contratar nomes de peso da televisão brasileira, como as promessas globais Mari Palma e Phelipe Siani, o experiente Reinaldo Gottino, uma das estrelas do jornalismo da Record, e Evaristo Costa, que estava longe das telinhas desde 2017, quando decidiu não renovar seu contrato com a Rede Globo, possivelmente no momento de maior visibilidade da sua carreira.
O time de âncoras da CNN Brasil
No time de comentaristas, estão nomes como Caio Coppolla, um dos “gurus” do bolsonarismo na grande imprensa, que fez sucesso com comentários polêmicos Jovem Pan, Leandro Narloch, Gabriela Prioli e Raquel Landim, prometendo uma pluralidade de opiniões inspirada na polarização política que o Brasil vive já há alguns anos.
O time de comentaristas da CNN Brasil
Além deles, o time contratado por Douglas Tavolaro, CEO da empresa no Brasil, conta com a presença de uma experiente figura do jornalismo manchada por um caso de racismo de repercussão internacional. William Waack foi demitido pela Globo em 2017, após ter um vídeo vazado em que ele, direto de Washington, nos Estados Unidos, durante a cobertura das eleições americanas que levaram Donald Trump ao poder, em 2016, faz o seguinte comentário:
Tá buzinando por quê, seu merda do cacete? Não vou nem falar, porque eu sei quem é… é preto. É coisa de preto!“.
William Waack flagrado sendo racista: cadê a surpresa desse tipo de comportamento advindo de uma figura abjeta como ele?
739 pessoas estão falando sobre isso
Waack, desde então, não voltou para a televisão e apostou em projetos em outras mídias, como um canal no Youtube, até ser anunciado pela CNN no ano passado.
O jornalista William Waack, que deixou a Globo após caso de racismo
Somado a esse fato, a falta de pessoas negras entre comentaristas e âncoras (são apenas dois: Luciana Barreto, ex-TV Brasil, e Diego Sarza, ex-Globo News) gerou debate sobre o compromisso do novo veículo, assim como da imprensa brasileira no geral, com a diversidade, e o quanto isso impacta a promessa de imparcialidade por parte desses canais.
Hypeness entrou na onda e debateu com pessoas negras que, de alguma forma, integram o jornalismo no Brasil, pra entender como gira essa roda que impede a notícia de ter um rosto que representa etnicamente a sociedade na qual estamos inseridos.
Diego Sarza será correspondente da CNN no Rio de Janeiro

A história da CNN Brasil 

O nascimento da emissora foi anunciado em janeiro de 2019, quando a matriz americana, uma das marcas de comunicação mais importantes do mundo e em busca de ingressar no mercado de língua portuguesa, anunciou que havia licenciado sua marca para uso no Brasil. Ou seja, a CNN daqui não é propriamente uma filial, mas sim um veículo independente que tem direito a utilizar a marca CNN, sendo obrigada a seguir as regras de comunicação visual e algumas diretrizes jornalísticas.
Os líderes do projeto são Douglas Tavolaro e Rubens Menin. Menin, que é empresário e viabilizou o negócio financeiramente, além de ser o responsável pela construção do projeto, é CEO da MRV Engenharia, um dos nomes mais poderosos da construção civil no Brasil, sendo considerada pela revista Istoé Dinheiro como a 28ª marca mais valiosa do país. Em 2013, a empresa figurou em um relatório da Organização Internacional do Trabalho, em parceria com o Instituto Ethos e a ONG Repórter Brasilcomo sendo responsável por 11 ocorrências de trabalhadores em situação de escravidão em Curitiba, no Paraná, por terceirização de mão de obra com empresas que não cumprem com obrigações trabalhistas.
Já Tavolaro foi, por anos, um dos nomes mais fortes do jornalismo da Record TV. Ele entrou na empresa em 2004, como produtor de reportagens investigativas, mas expandiu sua função a ponto de ter se tornado vice-presidente de jornalismo da emissora e realizado a produção executiva dos filmes ‘Os Dez Mandamentos’ e ‘Nada a Perder’, que bateram recordes no cinema brasileiro.

Compromisso com a diversidade 

Não são poucos os veículos da grande mídia que, nos últimos passaram a se autodeclararem compromissados com a diversidade. Em cima disso, a própria Rede Globo foi elogiada pela presença de Maria Julia Coutinho como âncora titular do ‘Jornal Hoje’, um dos três jornais diários nacionais do canal, substituindo Sandra Annenberg. Mesmo tendo sido vítima de ataques completamente desproporcionais, até mesmo por colegas de imprensa, a jornalista segurou a onda e contou com o apoio da emissora, que expandiu sua presença para grandes atrações como o ‘Fantástico’, onde Maju ocupa seu lugar no rodízio de apresentadores, e no ‘Jornal Nacional’, onde ela já estava antes e no qual ela já apresentou algumas vezes.
A jornalista Maria Julia Coutinho, âncora titular do Jornal Hoje
Só que o discurso não se transforma em prática quando olhamos os números.
Segundo dados do Manchetômetro, iniciativa do Laboratório de Mídia e Esfera Pública do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP), da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), que mede o perfil daqueles que têm poder de opinião nos principais veículos de imprensa do país desde 2014, os jornais O Globo, Folha de São Paulo e Estadão dão voz para uma massa profissional predominante masculina – 74%, 73% e 72%, respectivamente –, e branca. O Globo tem 91% de seus colunistas brancos, a Folha tem 96% e o Estadão atinge impressionantes 99%.
“Eu acho que quando a CNN chega no Brasil e vai em busca de profissionais já consagrados na profissão pra montar seus quadros, ela já encontra um cenário devastador quando se fala de questão racial”, opina a jornalista carioca Lola Ferreira, repórter do Gênero e Número, que já escreveu para UOL, Huffington Post e R7. “Ela encontra pessoas com destaque que são majoritariamente brancas também. E aí tem uma dupla responsabilidade, do jornalismo em si e da CNN, que não se preocupou em furar essa bolha e ir além do que já está pré-estabelecido”, afirma ela, que enxerga a falta de representatividade racial do canal como desanimadora.
A gente não pode deixar invisíveis as pessoas negras que estão na CNN hoje, têm cargos de destaque na CNN hoje, mas é muito pouco. É muito pouco ter duas pessoas negras, é muito pouco ter uma pessoa negra. Quando a gente fala de ter pessoas negras na equipe, não é só pra ter lá uma foto colorida da equipe inteira, é pra ampliar a pluralidade de ideia, de visões, de pautas, tornar o jornalismo mais abrangente possível. – Lola Ferreira.

Impacto social direto 

A falta de representatividade na tela da TV, além de excluir pessoas negras de oportunidades de trabalho, influencia diretamente na forma como a população enxerga os fatos. O jornalismo televisivo, como via de regra, aposta na forma de se expressar, falar, se portar e se vestir como via direta para transmitir credibilidade. Assim, historicamente, sotaques são excluídos em prol de atender a região mais rica do país, regras de etiquetas são impostas e dão ‘cara’ para a opinião pública, que passa a enxergar naquelas pessoas brancas o padrão de seriedade que deve ser levado em conta.
Além disso, a visão unilateral de abordagens dos temas diários distorce a realidade e dificulta o aprofundamento de temas por si só profundos, como o caso envolvendo a empresária Lorena Vieira e o banco Itaú. Lorena foi acusada por gerentes de uma das agências da instituição de fraude, ao tentar sacar, de sua própria conta, R$ 1.500,00. Os profissionais do banco acionaram a Polícia Civil, alegando suspeita de falsificação de identidade. Lorena, que é casada com o DJ Rennan da Penha, foi levada para a delegacia e liberada 12 minutos depois, pois um laudo atestou a veracidade do documento.
Horas depois, porém, a polícia voltou atrás e atestou que o RG de Lorena era falso. Agora, segundo o jornal Extra, o delegado titular da 22ª DP, Fabricio Oliveira Pereira, disse que já há indícios suficientes para que a empresária e blogueira responda pelo crime de falsificação de documento. O crime tem pena prevista de dois a seis anos de reclusão e multa.
Mesmo com tantas contradições, a narrativa não foi questionada pelos grandes jornais, como tampouco o racismo foi tratado como possibilidade de problemática no tema, mas sim como polêmica levantada pelas redes sociais. “Você ter uma pluralidade de pessoas dentro de um veículo de comunicação, pra abranger a pauta, abranger até aonde a gente pode discutir aquele assunto, é fundamental, porque eu acho que não dá mais pra fazer jornalismo sem pensar nessa diversidade, nessa abrangência maior das pautas discutidas”, afirma Lola, que tem opinião compartilhada pelo escritor e influenciador Ale Santos, que escreve para veículos como Vice, The Intercept e Muito Interessante.
“Por isso é importante a gente quebrar essa tradição brasileira de superioridade branca, uma tradição herdada e que precisa ser questionada, pra que a gente possa realmente ver uma diversidade não só étnica, mas de ideias, de cultura ali. Uma diversidade que verdadeiramente representa o nosso povo, um dos mais diversos de todo o planeta. Mas quando você liga a TV, o rádio, ou abre uma página de notícias na internet, você não vê essa diversidade”.
Passou da hora da gente parar com esse jornalismo declaratório, de nota de assessoria de imprensa, nota de pedido de desculpas no Twitter, e a gente tem que começar a procurar e olhar na janela e ver de onde aquilo vem, de onde aquilo nasce e onde pode desembocar. Isso pode ser um pouco da falta de discussão de raça na mídia, mas acho que isso principalmente é da falta de diversidade dentro das redações. – Lola Ferreira.

Imparcialidade? 

Assim como a maioria dos veículos de grande mídia do Brasil, a CNN chegou ao país firmando compromisso com jornalismo imparcial e a ‘verdade dos fatos‘, segundo a própria emissora, independente de ideologias ou partidos políticos. Mas a baixa diversidade de seu time jornalístico levanta em analistas a dúvida se é possível transmitir notícias de forma imparcial quando há uma homogeneidade de raça e construção social a partir dela.
“A presença de pretos e pretas com outras visões de mundo, com outras vivências, com outras referências, gera medo e conflito. A mídia hegemônica busca aliados e não questionadores. E a falta de pessoas pretas, que questionam, que apontam falhas e erros, sobretudo do Estado, que desempenham seus trabalhos sem deixar de lado as questões raciais e sociais, contribui pra que não haja imparcialidade”, explica o comunicólogo e youtuber Rick Trindade“Não há como ser imparcial quando só há um lado noticia, e sendo a TV um dos maiores meios onde a população consome informação, isso gera uma influência muito forte”.
Para Amauri Eugênio Jr, jornalista com passagens pelo Yahoo! Brasil e Vice, a representação física do jornalismo brasileiro não é correspondente com a realidade étnica do país. “Trata-se de uma lógica que retroalimenta a estrutura já vigente da sociedade, pautada pela desigualdade sociorracial existente no Brasil. Não é plausível mais da metade da população brasileira ser negra e haver menos de 4% de apresentadores negros na imprensa nacional”, opina.
A homogeneidade de um determinado perfil sociorracial – e de gênero – resulta no fato de uma determinada linha opinativa ser transformada em um consenso social. Logo, opiniões passam a ser menos plurais e mais excludentes de somente um grupo for considerado – isso sem contar a criação do que se entende por uma aparência aceitável e a que é, se muito, vista como exótica. – Amauri Eugênio Jr.

É possível mudar o futuro? 

A falta de representatividade negra em espaços de poder não é recente, pelo contrário. A construção histórica brasileira mostra que a maioria étnica do país não integra grupos que têm vias de participação em tomadas de decisões relevantes nos rumos do país. Pessoas negras são minoria no mercado de trabalho, nas universidades, nos veículos de comunicação social, na política e nos cargos executivos de todos os três poderes. O futuro dos negros está na mão de pessoas brancas. Seja no momento de ingressar no mercado de trabalho, seja na hora da necessidade de atendimento médico, seja em questões judiciais, financeiras ou de qualquer ordem semelhante, a comunidade negra se debruça na dependência de encontrar brancos que tenham consciência racial o suficiente para driblar os vieses sociais impostos.
Luciana Barreto é a única mulher negra no time de âncoras da CNN Brasil
Assim, o que a história ensina é que, para que haja qualquer possibilidade de uma realidade efetivamente democrática do ponto de vista racial, é necessário uma quebra de padrões, que permita o ingresso de pessoas negras nestes espaços.
“Mais pessoas negras dentro da imprensa, trará uma visão que pode verdadeiramente apoiar o desenvolvimento nacional, porque você terá outros pontos de vista impactando a sociedade, e eles podem ajudar a sociedade a entender seus principais temas e dores, e de repente encontrar soluções para um Brasil melhor, um Brasil que possa compreender a totalidade de toda essa diversidade que a gente tem e é como povo”, opina Ale Santos, completado por Amauri: “Dentro desse cenário, quando uma pessoa negra aparece como headliner, ela passa a ser vista como modelo dentro da comunidade – o vídeo da garota encantada com Maju Coutinho é um exemplo disso”.

Na mesma linha, Rick complementa: “A mídia, a televisão em especial, se prende ao modelo de padrão de beleza que a sociedade impõe. E digo isso em todos os quesitos: tipo físico, cor dos olhos, até o sotaque… E enquanto for assim, será cada vez mais comum que pessoas que se encaixam nesse padrão tenham mais oportunidades na televisão, oportunidades inclusive de aprender fazendo, enquanto muitos de nós, com anos de carreira e experiência, não temos metade das oportunidades e das chances”.
Nesse sentido, quem consegue atravessar os padrões e participar da mídia colhe os frutos, mas sofre com a falta de preparo das empresas em receber a diversidade. “Eu por exemplo sempre tive chefes mulheres, mas nunca fui entrevistada por pessoas negras, nem tive chefes negros. Isso é uma realidade do jornalismo hoje, pessoas brancas e homens dominam aquilo. E isso por si só já é uma má recepção de mulheres e pessoas negras, porque quando você entra em um espaço que você não se vê ali, você já sente que aquele espaço pode ser um pouco mais reativo com você, e não conseguir enxergar suas pautas, suas dores e suas trajetórias da forma que deveria ser”, acredita Lola Ferreira.

Outro lado 

A CNN Brasil foi citada pela reportagem como um dos ganchos do tema. Justamente por isso, foi procurada para exercer seu direito de resposta, mas não respondeu até o momento da publicação dessa matéria, que será atualizada caso a mesma entre em contato.

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