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quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Quando os estranhos eram os outros

Alberto Garrido, fisiculturista que conseguiu superar o vício em esteroides anabolizantes, relata a espiral diabólica em que sua vida se tornou antes de vencê-lo

 Madri 25 NOV 2014

Alberto Garrido, na atualidade, dois anos após deixar os anabolizantes. / XURXO LOBATO

Alberto Garrido não mede muito mais de 1,70 metro e pesa apenas 65 quilos. Fala com suavidade e é tão leve e magro que parece que poderia sair voando se ficasse no meio de uma corrente de ar. Quando mostra uma fotografia de um êmulo de Sylvester Stallone, sem dúvida, que posa exibindo seus 95 quilos de músculo, braços tatuados e olhar de mau sob a testa larga em que a franja é apenas uma insinuação, tem de jurar e rejurar várias vezes que esse homem que assusta é ele também. “Sim”, ri Garrido, que decidiu falar de seu vício de como o superou e de como se pode romper o código de silêncio e vergonha, para sentir-se melhor, para confortar seus pais e enviar uma mensagem a todos os que pensam que os esteroides são como balas.
“É como nas fotos de anúncios de suplementos, o antes e o depois, mas ao contrário. E eu fui isso, um Stallone, durante exatamente metade da minha vida, 20 dos meus 40 anos. Levantava peso nas academias dos 18 aos 38 anos, e quem diz levantar pesos também diz consumir anabolizantes”.
Quanto estrago têm feito ao mundo, e não só à história do cinema, Schwarzenegger com seus Conans e Terminators, e Stallone com seus Rambos e Rockys! Pode-se gritar isso na cara de Garrido e ele concorda, ele que entrou pela primeira em uma academia para puxar ferro quando tinha 18 anos.
“Comecei em Madri e o fiz porque queria ter um corpo esteticamente dentro dos cânones de beleza da época, 1992. Comecei tranquilo. Depois, dei um passo a mais e modelei tais músculos e tais veias, a ponto de ter podido competir. Entre minhas amizades estava o campeão galego, que chegou a ir ao campeonato da Espanha, mas eu não quis competir”, diz Garrido, cujos inícios foram precavidos. “No princípio nem sequer ia todos os dias, só duas ou três vezes por semana, mas à medida que entrava no mundo dos anabolizantes, passei a treinar duas horas todos os dias. Ia in crescendo, mas podia dividir os treinos com o emprego de auxiliar administrativo em uma empresa elétrica. E para quem me perguntava, dizia que conseguia tudo aquilo tomando apenas proteínas...
Garrido conheceu os anabolizantes porque atraíram sua curiosidade. Perguntou a um colega de academia: “Joé, que corpo tão bom você tem. Como conseguiu? E ele disse, veja, tem umas substâncias... E também, diante das minhas dúvidas, esclareceu que não eram perigosas para a saúde, que não eram mais perigosas do que fumar, por exemplo. E assim te vendem a coisa”.


Alberto Garrido, quando usava anabolizantes.
Garrido começou a experimentá-las, o que implicou numa inevitável conexão com outra pessoa, que começou a vender-lhe os primeiros produtos, os quais, como são de entrada, são baratos. “Mas, o que acontece?”, pergunta. “Depois você passa a um ciclo maior, depois a outro e já entra em uma espiral. Como a pessoa do primeiro contato às vezes não podia me fornecer certos produtos, comecei a entrar em fóruns na Internet para entrar em contato com gente que no mesmo fórum oferece seu catálogo e sua lista de preços. Você começa fazendo um pedido para experimentar. Pede uma substância que sabe que funciona e três ou quatro dias depois você tem alguns sintomas inequívocos: o clembuterol provoca tremor nas mãos e sudorese, por exemplo. E assim você tem certeza de que a pessoa não te vende falsificações. Com essa garantia, você pede um ciclo de 300 euros (aproximadamente 950 reais). E também íamos comprar em farmácias de Portugal, onde a legislação não é tão estrita. E à medida que você vai fazendo ciclos, vai vendo como quer se ver, o que te estimula a continuar e te dá uma grande segurança. Quando você sai de noite, nas festas, nota que as pessoas te respeitam mais, você paquera mais, se dá bem e precisa disso, porque com testosterona você passa o dia excitado... Até que chega o dia em que você começa a gastar muitíssimo dinheiro em ciclos. E estabelece com seu vendedor uma relação de síndrome de Estocolmo. Ele é o amigo que te dá os produtos que você quer, e ainda por cima, como o que antes te custava 70 ele faz por 50, dentro da tua cegueira e da tua loucura você pensa inclusive que ele está te fazendo o maior favor da vida. E você é tomado por uma confiança nele que até parece um amigo que quer compartilhar tudo contigo".
Três vezes por semana, ele injetava ampolas de 5ml nos músculos
"Mas cada vez você gasta mais dinheiro. A cada ciclo, são novas substâncias: Testoviron, Winstrol, que é estanozolol, Primobolan, nandrolona, trembolona, boldona... Queimadores de gordura como clembuterol, hormônios tireoidianos T3 e T4, hormônio de crescimento, insulina, que faz com que tudo o que você come se transforme mais rapidamente, IGF1... Tudo o que existe. E você é autodidata, pesquisa nos fóruns, que só falam dos benefícios, mas nunca dos problemas, da queda de cabelo, da vascularidade conseguida com hormônio de crescimento... Você vê isso como o fumante, que lê que fumar produz câncer e não acredita. O mesmo acontece conosco com todas as campanhas de informação sobre os males dos anabolizantes. Você está na sua espiral e nem liga. Vai à academia e depois só se relaciona com as pessoas que fazem o mesmo, acabamos sendo uma pequena seita. Uma seita que nos impede de ter uma relação de casal normal, pois você nunca pode explicar à namorada o que tem nas gavetas. Quando você explica, ela te abandona. Mas você não está nem aí: pensávamos que os estranhos eram os outros. Nós éramos irmãos”.
O primeiro 'irmão' disse que os esteroides não eram tão perigosos como o fumo
Garrido esteve a ponto de romper a espiral há quatro anos, quando os grandes abscessos de pus produzidos pelas injeções dadas diretamente nos músculos de braços, ombros e pernas –“duas ampolas inteiras de 5ml três vezes por semana”, diz–, o obrigaram a ir ao hospital. “Tiraram um litro de pus de uma perna e fiquei tão mal que pensei em parar. Além disso, tinha tantas dívidas, pois gastava mais do que ganhava na empresa, 1.200 euros por mês, e embarquei em uma sucessão de créditos, cada vez mais caros, que meu pai, pré-aposentado, voltou a trabalhar e teve de hipotecar a casa para pagar a dívida de 60.000 euros... E, apesar disso, passado o primeiro choque, no hospital só desejava que me dessem alta para não perder tempo e continuar com meus ciclos. Mas dois anos depois cheguei ao fundo do poço. Com a ansiedade, o estresse e as substâncias, pois também tomava o estimulante efedrina, não podia dormir, e o traficante começou a me vender tranquilizantes, que tomava cada vez mais. E um dia, em junho de 2012, fiquei adormecido e quando me levantei não sabia onde estava, não podia nem urinar tanta era a dor que sentia. No hospital disseram que eu tinha uma insuficiência renal aguda e que se tivesse ido três horas mais tarde teria morrido ou passaria o resto da vida fazendo diálise. Meus pais choravam e eu morria de vergonha. Não voltei a tomar injeções, mas como qualquer drogado, porque isso é uma droga, sofri uma síndrome de abstinência psicológica. E descobri que não há centros especializados em vigorexia, então fui a um psiquiatra, que me tratou. E foi fundamental o apoio dos meus pais...”
Dois anos depois, quase sem músculos e nem pesadelos, Garrido se sente limpo, só e vítima de efeitos colaterais que persistem, como a depressão, a surdez e a falta de produção de testosterona por seu corpo, que somente há seis meses voltou a funcionar de novo, mas muito aos poucos. “Faço coisas que antes não fazia, me inscrevi num curso de inglês e em um time de rugby, participo de corridas populares...” diz. “Mas não tenho amigos e aos 40 anos é difícil começar uma vida nova. Rompi com os amigos, os irmãos da seita. E estou certo de que quando esses amigos me virem no jornal, isso os fará pensar. Não acredito que me insultem”.

Desmitificar as academias

Era tão elevado o consumo de anabolizantes por parte de Alberto Garrido que não havia operação da Guarda Civil em que seu nome não aparecesse como um dos maiores clientes. Isso aconteceu na Operação Escudo e depois na Operação Baner, que resultaram em uma centena de presos. Mas Garrido não foi um deles.
“Para nós, para a UCO (Unidade Central Operativa), Garrido era simplesmente um consumidor, uma vítima, e como tal foi tratado quando falamos com ele”, diz Manuel Sánchez, chefe do corpo operacional da Guarda Civil. “Nossa tarefa não é apenas a repressão do delito, mas também a prevenção, um trabalho social para evitar que um consumo tão daninho se estenda. Para isso é necessário desmitificar as academias e que pessoas como Garrido falem, não só como testemunhas diante dos tribunais ou conosco para nos ajudar a investigar, mas também à sociedade para alertar de um perigo ao qual ainda não se dá muita importância”.

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