O espaço entre nós
Marcos Cavalcanti
"Quem habita o planeta não é o Homem, mas os homens. A PLURALIDADE é a lei da terra. Ela é a condição fundamental da existência humana". (A condição humana, Hannah Arendt)
Por um destes privilégios de ser professor, participar de dezenas de bancas de tese por ano e se relacionar com centenas de pessoas interessantes, que passam suas vidas buscando respostas para suas inquietações, me chegou às mãos (por via digital) um texto que citava várias passagens do livro "A condição humana", de Hannah Arendt. O texto veio no exato momento em que conversava com minha namorada sobre o trabalho de Laszlo Barabasi (clique no link para conhecer seu trabalho).
Barabasi estudou profundamente as redes e no seu trabalho constatou que a Teoria das Redes sempre deu muita importância aos nós, quando sua intuição dizia que as arestas (relações) entre os nós são o aspecto mais importante para entendermos o valor de uma rede. Em uma rede social, por exemplo, falamos sempre do número de pessoas (nós) que participam do Facebook ou do Twitter, ou do número de "amigos" que uma pessoa tem, mas não damos muita importância e sabemos ainda muito pouco sobre a qualidade das relações. Achamos que tudo se passa de forma randômica, quando na verdade as diferentes relações entre os nós não são iguais. Conhecer e estudar estas relações entre os nós é um dos aspectos centrais desta nova ciência que ele batizou de "Ciência das Redes".
E o que Barabasi e Hannah Arendt tem a ver um com o outro? TUDO!
No seu livro "A Condição Humana", Arendt resgata uma conhecida polêmica sobre como se dá o processo de transformação do mundo. Para muitos de nós, só mudaremos o mundo quando todos os seres humanos se transformarem, quando se tornarem pessoas boas. O mundo não é "bom" porque as pessoas não são "boas". Mudemos as pessoas e mudaremos o mundo!
Para Hannah Arendt, "se o caminho for este, estamos perdidos!". Claro que cada um de nós vivencia, internamente, este conflito permanente entre o bem e o mal, o certo e o errado. E fazemos nossas escolhas. Mas a construção de uma sociedade é uma obra coletiva. É o resultado das interações entre milhões de seres humanos, e não o somatório deles. Até porque o que é "bom" para uma pessoa pode ser "ruim" para outra... Cada um de nós tem suas vontades, desejos, valores e, sobretudo, critérios do que seja o certo e o errado, o bom e o mal. Se cada um resolver fazer o que acha que é "certo" ou "bom", ignorando os outros, estaremos a um passo da barbárie!
Precisamos, portanto, construir um "espaço entre nós", um espaço onde cada um, no exercício de sua liberdade e singularidade, possa interagir e resolver seus conflitos e diferenças. Este local é o que Hannah Arendt chama de Espaço Público e a Política é a forma pela qual resolvemos estes conflitos e regulamos estas interações. Mas atenção, para ela a Política (com "P" maiúsculo) emerge da pluralidade e não de um "partido" ou "partidos". Se este espaço se esgarça, entra em colapso e a política se transforma num fim em si mesma, onde os fins justificam os meios, está aberto o caminho para o totalitarismo.
A construção deste espaço entre nós depende, no entanto, da política. Não da política partidária, que divide. Mas de uma política plural, acima dos "partidos". Achar que um partido possa mudar o mundo é a mesma coisa que achar que o mundo vai mudar se cada homem mudar. Se for assim estamos perdidos! Os partidos são instrumentos de uma parte. E nós precisamos de instrumentos que trabalhem com o todo, com a pluralidade humana.
Como diria Arendt "A pluridade humana, condição básica da ação e do discurso, tem o duplo aspecto da igualdade e diferença. Se não fossem iguais, os homens seriam incapazes de compreender-se entre si e aos seus antepassados, ou de fazer planos para o futuro e prever as necessidades das gerações vindouras. Se não fossem diferentes, se cada ser humano não diferisse de todos os que existiram, existem ou virão a existir, os homens não precisariam do discurso ou da ação para se fazerem entender. Com simples sinais e sons poderiam comunicar as suas necessidades imediatas e idênticas".
Nossa única possibilidade real de construir um mundo novo é entender a condição fundamental da existência humana: a pluralidade de seres únicos, singulares. E os instrumentos desta mudança não podem ser as partes, os partidos, mas as redes. As redes precisam reunir todos nós, com respeito às individualidades e liberdades individuais. Mas o espaço entre nós, o espaço público, é uma obra de criação coletiva. Para ser "bom" e duradouro, precisa ser a o resultado do esforço de construção não de uma parte, de um partido, mas de todos (os) nós...
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