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segunda-feira, 6 de maio de 2013

Como acabar com a guerra em casa

Pais, mães e filhos podem ser treinados para alcançar a harmonia em família. Técnicos esportivos, especialistas em guerra e altos executivos mostram em recente best-seller nos Estados Unidos como isso é possível

Nathalia Ziemkiewicz
03.05.13

A batalha na casa do escritor americano Bruce Feiler durou quase oito anos, idade de suas filhas gêmeas Eden e Tybee. As manhãs eram especialmente caóticas ? nunca subestime o potencial bélico de uma criança quando acorda e precisa ser vestida, alimentada e encaminhada ao colégio contra a vontade. Feiler e sua esposa, Linda, estavam prestes a explodir de frustração. ?Percebi que jogávamos sempre na defensiva, nunca no ataque?, disse o colunista do jornal ?The New York Times? sobre vida em família para a ISTOÉ. Cansado dos convencionais guias de autoajuda, ele recrutou especialistas das mais diversas áreas para descobrir como manter um grupo unido e motivado: militares, esportistas, executivos, publicitários, etc. Colocou tudo em prática na sua casa, melhorou significativamente a dinâmica familiar e, em fevereiro, publicou ?The Secrets of Happy Families? (?Os segredos das famílias felizes?, em tradução livre), com um arsenal de 200 dicas inusitadas para a paz do lar.

A obra já figura entre as mais vendidas no ranking do ?The New York Times? e teve os direitos comprados pela Ediouro para ser lançado no Brasil ainda este ano.  É um sucesso previsível. Pais modernos são seres entrincheirados entre a frenética exigência profissional e a conflituosa rotina doméstica. Décadas atrás, as gerações não percorriam as prateleiras das livrarias em busca de títulos aconselhadores. Cabia às mulheres cuidar da educação dos filhos, enquanto os homens se dedicavam ao mercado de trabalho. Agora, essa divisão de papéis praticamente inexiste e encontrar o equilíbrio entre eles parece ser a chave da felicidade. Segundo uma pesquisa da Pew Study feita em 2010, 76% dos adultos consideram a família o elemento mais importante da vida. ?A satisfação dentro de casa norteia os outros aspectos do dia-a-dia, é o que nos deixa tranquilos ou não fora dela?, afirma José Roberto Marques, presidente do Instituto Brasileiro de Coaching.

Em seu livro, Feiler mostra que dedicamos tempo para aprimorar nosso trabalho, nosso corpo, nossos hobbies, mas não fazemos o mesmo por aqueles que mais amamos. E por que isso acontece? ?As demandas profissionais nunca foram tão grandes e as pessoas têm pouco tempo para lidar com questões emocionais?, afirma Ana Maria Rossi, doutora em psicologia e presidente do Isma-BR, uma associação internacional para a prevenção e o tratamento do estresse. ?É como se elas se reprimissem o dia inteiro para se enquadrar na postura socialmente aceita, então só querem ser elas mesmas quando voltam para casa.? Em outras palavras, você perde a paciência com seu marido porque não pode perder com seu chefe. O autor americano tenta tirar os pais desse fogo cruzado, com sugestões de respostas para perguntas cruciais: como transmitir valores e responsabilidade às crianças, e ainda assim se divertir em família? Como educar e dar suporte aos filhos, mas também arrumar tempo para preservar a relação do casal?

A primeira lição que Feiler testou veio da indústria automobilística japonesa. Lá, os trabalhadores seguem um quadro de tarefas que organizam o caos e faz com que todos vejam o progresso do time. Eles também participam de breves reuniões para avaliar o desempenho do grupo e discutem o que deu certo, o que não deu e qual será o objetivo da próxima semana. Esses encontros reduzem o estresse e melhoram a comunicação da equipe. Como todas as propostas do livro, Feiler testou essa em sua casa. Pregou um fluxograma na parede da cozinha, listando os deveres de cada membro da família, como ?tirar o lixo? ou ?arrumar a cama? (leia mais na pág. 66). Também ajudou as filhas a se orientarem de manhã com um cartaz de passo a passo: ?escovar os dentes?, ?arrumar o cabelo?, etc. Todos passaram a se reunir uma vez por semana, por 15 minutos, para conversar sobre apenas dois problemas e sugerir soluções. Desde então, o autor permite que as filhas escolham as próprias recompensas e punições, como ?uma festa do pijama? ou ?uma semana sem doce?, de acordo com o comportamento.

De fato, há uma série de pesquisas sobre como é vantajoso dar poder às crianças. Quando planejam o tempo, definem metas e avaliam o desempenho, elas desenvolvem o córtex pré-frontal. Essa parte do cérebro é responsável pela cognição, pela tomada de decisões e pela autodisciplina. De um jeito intuitivo, a empresária Júlia Cencini aplicou uma técnica parecida com seus dois filhos, Nycolas e Luka, de 19 e 14 anos. Ela pregou na geladeira uma constituição com regras e tarefas, tudo discutido e assinado por cada um da família. ?Eu era a chata sobrecarregada, não aguentava mais brigar e cobrar que me obedecessem?, diz Júlia. A televisão, por exemplo, deve ser desligada às 22h. O castigo vem em forma de descontos na mesada, mas a empresária ainda não precisou recorrer a isso. Para ela, o desgaste diminuiu porque, quando as coisas não saem como o esperado, basta apontar para a ?lei? formulada em conjunto.

A obrigação das refeições em família é outro mito que o colunista derruba em seu livro. Ele traz à tona uma pesquisa reveladora: apenas dez minutos ao redor da mesa são de conversas produtivas. O resto é ocupado por frases como ?passe o sal? ou ?tire os cotovelos daí?. Ou seja, em vez de se culpar por não conseguir almoçar ou jantar com os pequenos, os pais deveriam reservar tempo, de qualidade, com eles em um horário viável da sua rotina ? pode ser uma leitura infantil antes de dormir, por exemplo. A descoberta é um alento para mulheres como a fisioterapeuta Ana Júlia Graf. Ela trabalha 12 horas por dia, o que a impossibilita de fazer as refeições com o filho Enzo, 8 anos. ?Eu me cobro por isso, me sinto uma mãe incompleta por não estar com ele nesses momentos?, diz. Ana tenta recompensá-lo aos fins de semana e dias de folga, quando está mais relaxada e pode acompanhar trabalhos de escola ou bater uma bola na praia, em Santos, onde vive com o marido. Melhor para Enzo, de acordo com uma pesquisa feita com crianças e adolescentes entre 8 e 18 anos. Elas responderam à pergunta: ?Se você tivesse um pedido aos pais, qual seria?? Ao contrário do que os adultos entrevistados imaginaram, os filhos não pediram mais tempo com eles: 34% queriam que o pai e  a mãe estivessem menos cansados.

Esse dado é curioso, na medida em que o próprio rebento se encarrega de minar as energias de seus progenitores. Imagine que irmãos entre 3 e 7 anos brigam dez minutos a cada hora. E que apenas um em cada oito combates termina em reconciliação. A comerciante Ana Paula Gaspar hasteou a bandeira branca há alguns anos, depois de surtar em viagens de carro com os filhos João Pedro e Thiago, gêmeos de 13 anos. Eles costumavam passar temporadas no litoral, mas o período de descanso nunca saía como o esperado. Impacientes no trânsito, com fome, eles perguntavam o tempo todo ?quanto faltava para chegar? e se cutucavam para driblar o tédio. Certa vez, Ana Paula colocou a cabeça para fora da janela e gritou exaurida. Hoje, anda com revistas de caça-palavras para todo lado, uma tática que não só sossegou os meninos como fez com que todos se ajudassem para finalizar o jogo. Foi exatamente essa a dica dada pelos designers de games do Vale do Silício entrevistados por Feiler, experts em entreter crianças. A essência é estimulá-las a interagir, não competir entre si. Em salas de espera, como aeroportos, dê missões como ?descubra a que horas sai o próximo voo para os EUA? ou ?quantos passos são necessários até o portão 3??  

A ideia de pertencer a um grupo, nas horas divertidas ou difíceis, aumenta os laços de afinidade e o poder de resiliência. Feiler identificou essa qualidade ao conversar com líderes militares e esportistas ? são indivíduos que compartilham experiências e se movem juntos por um propósito. Por isso, ele sugere que até mesmo quando se trata de dinheiro as famílias pensem no grupo. Casais devem separar a renda entre ?meu?, ?seu? e ?nosso?. Os filhos que ganham mesada podem contribuir com 15% do valor para algo em prol de todos ? uma noite no boliche ou férias no campo, por exemplo. É também uma forma de as crianças entenderem o significado dos impostos e da poupança. A analista de tecnologia da informação Mônica Japiassú faz questão de educar financeiramente as filhas Amanda e Letícia, de 8 e 4 anos. Ela e o marido presentearam as meninas com cofrinhos e pagam uma semanada às duas. A mais velha ganha R$ 3,50 e a mais nova, R$ 0,50 (gastos em balas). Amanda economizou meses para comprar um skate e a mãe a ajudou na pesquisa de preços. ?Isso fará diferença no futuro, elas saberão o valor do dinheiro e como administrá-lo?, afirma Mônica.

Com tantas preocupações com os filhos, as desavenças entre o casal se tornam praticamente inevitáveis. O próprio Feiler conta que ele e a esposa tinham um horário crítico diariamente, no começo da noite, quando decidiam quem iria lavar a louça ou botar as roupas na máquina. Estudos indicam que o período mais estressante para as famílias é entre 18h e 20h, com os pais cansados do trabalho e diante das tarefas domésticas. O casal adiou as conversas chatas para depois do jantar e de um banho relaxante. Feiler consultou diplomatas de Harvard para saber como brigar com inteligência (leia mais na pág. 65) e descobriu que longas discussões são as menos eficazes. Os verdadeiros argumentos são ditos nos três primeiros minutos ? depois, a tendência é a repetição e ofensas. ?Se a briga fica feia, prefiro dar um gelo do que me desgastar na discussão?, diz a fotógrafa Tatiana Cristov Furlan, casada há cinco anos. Ela trabalha e cuida da filha Sofia, 2 anos, além de ser responsável pelas tarefas da casa. Quando o marido volta do escritório, já está pronta para dormir. ?Ele reclama que não tenho tempo para ele?, diz. Reservar um dia na semana para namorar é uma das dicas de uma terapeuta sexual com quem Feiler conversou.

Não existem fórmulas prontas nem um perfil científico das famílias felizes. O que o autor americano aponta são pistas de como se aproximar daquela tão sonhada harmonia, sem recorrer a cartilhas clichês de best-sellers sobre as mães-tigre, chinesas ou francesas. Talvez alguns indicadores ajudem a avaliar se você está seguindo nesse caminho. Ser assertivo, por exemplo, é uma das qualidades essenciais dentro de casa. ?Não reprimir emoções nem colocar a culpa em ninguém, mas abrir para o diálogo?, afirma Ana Maria Rossi, do Isma-BR. Em segundo lugar, priorizar a qualidade em vez de quantidade de tempo. De nada adianta passar horas com os filhos se vocês vivem se acusando e se ressentindo. Após três anos de pesquisa, o autor concorda. Para ele, as famílias felizes têm três coisas em comum: elas são adaptáveis, conversam muito e se divertem junto. ?E o mais importante: todos decidem continuar a trabalhar para aprimorar a família.? Essa pode ser a lição mais duradoura de todas.

IstoÉ

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