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segunda-feira, 30 de julho de 2012


Me dá sua senha?

Trocar senhas de e-mail e redes sociais é a nova prova de amor. Em tempos de traição (e paranoia) digital, é vasculhando o perfil do parceiro — e se deixando vasculhar — que muitos homens e mulheres se sentem seguros. Mesmo que, às vezes, saber de tudo traga consequências amargas

Por Andrea Dip foto Christian Von Ameln. Produção Juliana Moraes
Da esq. para a dir.: Flávio e Gabriela; João e Jéssica
Prometo ser-te fiel, amar-te e respeitar-te, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença... no instagram e no facebook e dar-te, ainda, todas as minhas senhas eletrônicas até o fim de nossas vidas.” Se tivessem sido escritos depois da criação da internet, é bem possível que fossem esses os votos matrimoniais proferidos nas cerimônias de casamento. Em tempos de paranoia e traição digital, muitos casais veem a troca de senhas (do e-mail ou das redes sociais) como verdadeira prova de amor. 
É o caso de Jéssica Baldi e João Matos, ambos com 21 anos. Ela estuda design gráfico e ele, análise e desenvolvimento de sistemas. Estão juntos há dois anos e, desde o quarto mês de namoro, dividem todas as senhas de e-mail e redes sociais. Jéssica foi a primeira a dar o passo, ao abrir o seu perfil de facebook para o namorado. Por telefone, pediu que ele olhasse “se tinha algum recado urgente” para ela, que, havia alguns dias, estava sem internet. Um mês depois, foi a vez de João pedir que ela acessasse sua conta no mesmo site, enquanto jogava videogame no sofá ao lado. Foi a forma que ele encontrou para retribuir a prova de amor da namorada.
CIÚME E DESCONFIANÇA Jéssica já havia compartilhado as senhas com um ex, mas a negociação, na época, foi por puro ciúme: “Eu fuçava as páginas dele todos os dias, antes mesmo de olhar as minhas. Com João, foi diferente. A gente confia tanto um no outro que não precisa esconder nada”, diz. “Vejo os e-mails e o facebook dele quando quero ou quando ele me pede. Não fico checando, mas gosto de ter a senha.” Para a estudante, “confiança e amor andam juntos” e, se estiverem acompanhados das senhas eletrônicas, melhor ainda. Mas e os papos de menina? Aqueles que os homens nem podem sonhar que existem? Será que trocar as senhas não censura um pouco as conversas? Jéssica acha que não, mas diz que avisa o namorado quando recebe mensagens que podem gerar interpretações erradas. “Eu já digo logo: ‘olha, tal pessoa me convidou para sair, mas é só meu amigo e a gente vai em turma, tá?’, que é para evitar que ele se preocupe”, afirma Jéssica. João entende e faz igual.
"Se ele não tem nada a esconder, por que 
eu não posso ler seus e-mails?” 
Gabriela, 33, empresária
TENDÊNCIA MUNDIAL Assim como eles, 30% dos jovens que têm vida social virtual ativa (ou seja, passam bastante tempo em sites de redes sociais e de relacionamento) compartilham ao menos uma senha com o parceiro ou algum amigo. É o que mostra um estudo com 770 pessoas feito recentemente pelo instituto de pesquisa americano Pew Internet. Para Rosa Farah, coordenadora do Núcleo de Pesquisas­ da Psicologia em Informática da PUC-SP, os casais que fazem isso­ querem tanto expressar fidelidade e confiança que se esquecem dos riscos de exposição. “As relações foram reinventadas e a vida virtual tem se cruzado mais com a presencial. Todos precisam de uma dose de privacidade, mas como lidar com isso em uma época em que a exposição é supervalorizada? As pessoas têm prazer em compartilhar momentos íntimos da ­vida e, às vezes, ignoram a importância da individualidade”, diz.
O casal de empresários Gabriela Vilela, 33, e Flávio Donadio, 34, é um exemplo de como a internet invadiu as relações amorosas na última década. Eles lidam com os perfis virtuais um do outro desde o início do namoro, há nove anos. Tudo começou um mês depois do início do relacionamento. Flávio decidiu criar um perfil no orkut. Imediatamente, Gabriela pediu que ele revelasse a senha. O argumento usado foi que eles não precisavam esconder nada um do outro. Com o acesso concedido, ela fazia “varreduras” diárias na página do namorado para ver se não havia nada “suspeito”. De tanto entrar no perfil dele, demorou a criar o seu próprio e usava o de Flávio quando queria ver as páginas dos amigos em comum.
Como quem procura acha, em menos de um mês, Gabriela se deparou com um depoimento­ escrito por uma ex-namorada de Flávio, desses bem melosos. “Liguei na hora, surtando. Mas ele nem sabia do que eu estava falando, porque ainda não tinha visto a publicação dela.” A conversa continuou ao vivo naquela mesma noite, quando os dois se encontraram.
SAIA JUSTA Gabriela agia como uma metralhadora de perguntas, querendo saber se ele havia flertado com a menina, se os dois mantinham contato e se ele sentia saudade dela. Flávio negou tudo e disse que a ex-namorada era maluca e carente. Apesar de ter mantido a calma durante a conversa — na qual prometeu excluir a garota do seu círculo de amigos virtuais —, a briga o traumatizou, e ele decidiu encerrar sua conta no orkut e abandonar as redes sociais. Quando o myspace e twitter se popularizaram, Flávio, mesmo trabalhando com tecnologia da informação, não aderiu. Só mudou de ideia no início de 2012, quando ele e Gabriela já estavam casados, e fez um perfil no facebook.
CELULAR ABERTO Dessa vez, ela demorou dois meses para pedir a senha do marido. “Disse que queria compartilhar fotos de uns cachorrinhos que a gente pegou na rua e precisava doar.” Antes disso­, ela costumava entrar no celular dele e checar mensagens e e-mails. Gabriela afirma que também viu o marido fuçando o seu celular sem pedir licença, mas diz achar graça. Ele tem as senhas dela desde o começo de namoro, porque criaram os endereços juntos e ela optou por usar o mesmo código para todas as suas contas — o que, como ela mesma ­admite, chega a ser perigoso. Hoje, eles não só continuam tendo todas as senhas um do outro, como também têm um aplicativo no computador que rastreia os celulares e dá a localização exata dos seus passos em tempo real­. Controle demais? Eles acham que não, e defendem que o acordo mantém o equilíbrio da relação.
Para outras pessoas, no entanto, vasculhar a vida do parceiro é um hábito angustiante e, ao mesmo tempo, incontrolável. É o caso da designer A., 30 anos, que prefere não se identificar, casada há dois anos com o músico Gustavo, 42. Ambos mantinham sua privacidade nas redes sociais até seis meses atrás, quando ele deu a senha do seu perfil no facebook para que ela divulgasse um show que faria naquela noite. Feliz com o desprendimento do marido, A. abriu a página, fez a postagem e voltou ao trabalho. As coisas só começaram a mudar no dia seguinte, quando, ainda em posse da senha, ela sentiu uma vontade de fuçar as mensagens do marido que se provou maior do que o respeito à privacidade dele. “Me justifiquei dizendo a mim mesma que, se ele me deu a senha, foi porque não tinha nada a temer.” Mas o comportamento de A. virou rotina: ao menos duas vezes por dia, ela “escaneava” a página de Gustavo e analisava as interações que o marido tinha com outras mulheres. “Eu via uns recados de meninas falando umas besteiras, mas sei que isso rola porque ele é músico. Quando via que ele não dava corda, me tranquilizava.”
"Depois da briga, passei a controlar mais. 
Hoje, vejo as atualizações do facebook dele direto no meu celular” 
A., 32, designer

DESMASCARADO A. imprimiu aconversa e levou para o marido à noite. “Quando perguntei o que era aquilo, ele ficou branco, depois vermelho e gaguejou. Disse que era papo de internet e que essas conversas fazem bem para o ego dos homens, mas só. Ele não chegou a questionar porque eu estava conectada em seu perfil, acho que nem pensou nisso na hora! Mas a gente teve uma briga bem feia, porque não aceitei suas explicações”, conta. “Ficamos um mês separados e eu via sua página todos os dias. Ele me ligava, pedia desculpas, dizia que me amava e que queria voltar.” De tanto insistir, Gustavo a convenceu a reatar. “Valeu para reavaliarmos nossa relação”, afirma A.Depois da reconciliação, a senha do marido seguiu a mesma, e ela continua vasculhando. O vício, acredita, só piorou. “Agora tenho o perfil dele aberto o tempo todo no meu celular. Recebo as atua­lizações instantaneamente­.” O marido nunca exigiu contrapartida, mas A. acredita que ele aceite a situação por causa da culpa. Se um dia ele pedir a senha dela como condição para continua­rem juntos, ela diz que topa — não sem antes deletar algumas conversas que podem soar comprometedoras. “Sei que estou invadindo a privacidade dele, mas preciso disso”, diz.A psicóloga Dinah Stella Bertoni afirma que entregar as senhas como prova de amor e confiança pode até ser um fenômeno novo, mas é baseado em impulsos tão antigos quanto a humanidade, como o ciúme e a posse­. “As relações amorosas costumam começar já com a fantasia de que a pessoa amada é parte de nós. É muito comum vermos casais que compartilham tudo: amigos, projetos e opiniões. E o sentimento de posse provoca a sensação de ‘livre acesso’ ao outro.”Para a psicóloga Rosa Farah, não resistir à tentação de olhar pode ser o primeiro sinal de alerta de que algo não vai bem. “Mas é preciso lembrar que a culpa não é da internet, mas de quem já era possessivo e controlador”, afirma. A. não perdeu o hábito de olhar o perfil de Gustavo e se separou dele por causa da mania. “A minha surpresa foi quando ele começou a bater papo com uma amiga do colégio ao vivo, de outro computador. A janelinha do chat pulou na minha frente e eu só fiquei lá parada, lendo.” Os dois combinavam de se encontrar na próxima reunião dos ex-colegas e ele dizia que ela estava mais linda do que era antes. “Um xavequinho tão furado que eu fiquei até com vergonha!”, lembra. “Só que em certo momento da conversa, ele começou a reclamar de mim para ela. Disse que não aguentava mais a vida de casado, que eu era mimada, implicava com tudo e que estava pensando em se separar. Senti o sangue subir! Tudo acontecia ali, na minha frente.”

MEDO DO ABANDONO Segundo Dinah, “nossa cultura estimula concessões exageradas”. Essa vontade de investigar o amado nada mais é do que o medo de ser abandonada. “Pode ser uma imaturidade emocional, uma incapacidade de confiar em si mesmo e de respeitar o espaço do outro.” Ao incorporar o esquema “não temos nada a esconder”, os casais deixam de cultivar a individualidade e pioram a relação, diz a psicóloga. Editor do site de tecnologia­ Gizmodo, o crítico Sam Biddle comentou o assunto em sua coluna online. Assustado com o avanço do fenômeno, definiu o compartilhamento de senhas como “um eixo de intimidade do século 21”, e disse que considera o ato uma decisão errada. “Conheço muitos casais que compartilharam suas senhas. Não sei de nenhum que não tenha se arrependido.” Você encararia?
Ida Knudsen: “Tornei-me adulta em uma hora” | euronews, generation y


Ida Sandvik Knudsen é uma das sobreviventes do massacre de Utøya, na Noruega.
A militante do Partido Trabalhista diz que a tragédia tornou-a “adulta em uma hora”.
“Com a experiência em Utøya aprendi muito sobre tolerância. As pessoas têm diferentes culturas e religiões. Isso é muito importante porque não temos de ser todos iguais.”
A tragédia culminou com a morte de 77 pessoas. Anders Behring Breivik, o autor dos ataques, alegou tentar proteger a Noruega da “Invasão Muçulmana.”
Recordando os acontecimentos, Ida Sandvik Knudsen diz que não deveriam existir escolas para chineses ou muçulmanos, defendendo espaços mistos.
A jovem militante de 19 anos foi uma das participantes do seminário europeu sobre Tolerância Religiosa, apoiado pelo programa “Juventude em Ação”.
O evento reuniu, durante dez dias em Berlim, 35 jovens de sete países.
“Este programa pode fazer toda a diferença, ainda que sejamos apenas 35 partipantes, podemos aprender muito com as outras culturas”, refere Ida Sandvik Knudsen.
(Vídeo da entrevista em inglês)
Descoberto o mais antigo soutien do mundo | euronews, mundo




A arqueóloga Beatrix Nutz realçou a dificuldade de encontrar peças desta natureza completas, e que esta descoberta permite uma outra visão sobre a vida quotidiana na Idade Média. A descoberta feita num castelo de Innsbruck, na Áustria, em 2008, foi mantida em segredo até se alcançarem certezas sobre o achado histórico. Após datação por carbono, chegou-se à conclusão de que foi encontrado o primeiro soutien de que há registo, entre outras peças de roupa interior medieval. No caso, este antigo suporte mamário remonta ao século 15.
Ou seja, trata-se da refutação de que o soutien é um sucedâneo do corpete, versão que situa a sua origem no início do século 19. Aliás, a sua autoria é atribuída à nova-iorquina Mary Phelps Jacobs. Afinal, a estória parece ser outra.

Veja vídeo no link:
Espanha: manifestação contra proibição de aborto em casos de malformação do feto | euronews, mundo

“É um passo atrás” gritaram os manifestantes, sobretudo mulheres, numa concentração em Madrid contra o novo projeto de reforma do governo em matéria de aborto.
O executivo pretende restringir a lei aprovada pelos socialistas, em 2010, impedindo agora a interrupção voluntária da gravidez em caso de malformação. Recorde-se que o aborto tinha sido liberalizado em Espanha até às 14 semanas.
O ministro da Justiça, Alberto Ruíz-Gallardón, é a face visível desta iniciativa legislativa que vai de encontro aos objetivos dos movimentos pró-vida. A questão está a gerar um intenso debate, com as associações pró-aborto a acusarem Gallardón de cedência à pressão das organizações católicas.
Veja vídeo no link:
http://pt.euronews.com/2012/07/29/espanha-manifestacao-contra-proibicao-de-aborto-em-casos-de-malformacao-do-feto/
Começaram a ser julgadas artistas que desafiaram Vladimir Putin | euronews, mundo


Começou o julgamento das artistas da banda punk russa, Pussy Riot.
As três jovens acusadas de vandalismo motivado por ódio religioso incorrem numa pena que pode chegar aos sete anos de prisão.
O julgamento é visto como um teste à tolerância do chefe de Estado e ao poder que a igreja Ortodoxa exerce na Rússia.
Organizações de Defesa dos Direitos Humanos insistem que a decisão do tribunal não vai depender da lei, mas sim do Kremlin.
Esta manhã, dezenas de pessoas concentraram-se em frente ao tribunal para pedir justiça num processo que a defesa justifica com motivações políticas.
As jovens com idades entre os 22 e os 29 anos foram detidas depois de uma atuação na Catedral de Cristo Salvador onde pediam o afastamento de Vladimir Putin do poder.
Veja vídeo no link:

Tortura não é coisa do passado



Policiais torturam para forçar confissões, agentes penitenciários torturam para castigar os presos. Há centenas de denúncias de tortura todos os anos mas poucos agentes do Estado são punidos. Assista o vídeo da Agência Pública.


http://apublica.org/

Picture
Greenwich Olympic Park (28/7/12)
No espírito olímpico, essa semana vamos publicar alguns artigos inspirados nas Olimpíadas 2012.

Vamos começar pela fila acima, uma das milhares no primeiro dia de competição em Londres.

Óbvio que, mesmo sem ver as placas sobre sexo, você deduz que a porta da esquerda é a do banheiro feminino e a da direita é a do banheiro masculino.

Nós já usamos esse exemplo algumas vezes, mas vamos nos aprofundar um pouco mais hoje: justiça não é só tratar pessoas iguais da mesma forma, mas também pessoas diferentes de forma diferente. Quando se trata pessoas diferentes da mesma forma, ocorre uma injustiça. No caso da matéria acima, fornecer espaço físico idêntico para os dois sexos, independente de suas diferenças anatômicas, gera uma injustiça: as mulheres, no caso, esperavam vários minutos para entrarem no banheiro, enquanto os homens não esperavam nada.

Mas existem dois problemas enormes e que são a pulga atrás da orelha em todas as sociedades democráticas.

Primeiro, pessoas diferentes precisam ser tratadas de formas diferentes, mas apenas na medida de suas diferenças. Justiça não é dar vantagens a quem está em desvantagem, mas dar mecanismos para quem está em desvantagem poder ter as mesmas oportunidades que quem não está.

Pense nessa matéria da Folha de hoje (30/7/12):

Projeto no Senado dobra cotas em federais
Proposta que reserva 50% das vagas para alunos do ensino público aumenta em 134% o número existente hoje (…) reserva passaria de 52.190 para 122.132

Não há dúvida que quem estuda em uma escola pública está em desvantagem em relação ao estudante das escolas particulares. E criar vagar reservadas para aqueles alunos pode ser a solução (ou não). Mas por que 50%? Por que não 45% ou 55%? Por que 50% é o valor que colocará pessoas diferentes em pé de igualdade?

Mesmo que a solução seja adequada (e muitas vezes não é), sua operacionalização é complicada. Não criando proteção suficiente, não resolvemos o problema, mas criando um excesso de proteção acabamos criando três problemas distintos ao mesmo tempo: criamos um novo tipo de desigualdade, criamos um incentivo para as pessoas tentarem entrar no grupo beneficiado (ainda que ilegalmente) e criamos um desincentivo para as outras pessoas.

Voltando à foto acima, se criamos excesso de banheiros femininos, haverá mais banheiros femininos do que necessário, homens terão que esperar por muito mais tempo que mulheres na fila ou passarão a tentar usar os banheiros femininos, e deixarão de frequentar os jogos.

Segundo, na prática, que igualdade de tratamento precisa ser estabelecida? Infelizmente não nascemos todos iguais. Na verdade, nenhum de nós nasce igual ao outro, e essas diferenças apenas se acentuam durante a vida. Somos diferentes em tudo: fisicamente, economicamente, socialmente, religiosamente, psicologicamente, etc. Obviamente, não dá para criar uma lei para cada pessoa, mas quais as diferenças precisam ser igualadas?

Pense nesse trecho da mesma matéria da Folha: “Paralelamente, esses estudantes devem ser negros, pardos ou índios. A divisão entre as raças irá considerar o tamanho de cada uma dessas populações (…) Caso as cotas não sejam preenchidas por alunos com esse perfil, serão ocupadas por estudantes brancos e amarelos que cursaram o ensino médio nas escolas públicas. A proposta ainda estabelece outra reserva de cadeiras, guardando 25% das vagas destinadas às cotas para os alunos carentes, que tenham renda familiar de até R$ 933 por pessoa”.

Não há dúvida que negros e índios ainda sofrem preconceitos no Brasil. E não há dúvida que estudantes brancos egressos de escolas públicas estão em desvantagem em relação a estudantes brancos egressos de escolas privadas. Mas que tratamento dar ao estudante de origem indiana, por exemplo? Ele não entra em nenhum dos grupos acima. E por que basear em raça ou escola de origem? Mulheres também ainda sofrem preconceitos. Mulçumanos e judeus também. Homossexuais e transexuais sofrem ainda mais. Por que levar em conta alguns fatores e não outros?

Mesmo entre os grupos beneficiados, qual o critério para estabelecer o critério de desempate. Por que, por exemplo, privilegiar estudantes brancos vindos de escolas públicas e não negros vindos de escolas particulares?

E como evitar que essa proteção prejudique quem se deseja proteger? Como tratar, por exemplo, o estudante negro e pobre que estudou sua vida inteira em uma escola pública e nos dois últimos anos recebeu uma bolsa para uma escola particular? É justo obrigá-lo (informalmente) a ficar em uma escola ruim por mais dois anos apenas para não ser prejudicado quando prestar vestibular? Afinal, ele ganhou a bolsa porque se esforçou mais que seus colegas e agora esse esforço pode colocá-lo em desvantagem em relação a esses mesmos colegas.

Ou como impedir que empregadores, mais tarde, discriminem todos os negros e indígenas formados em universidades públicas apenas por acharem que eles entraram não por seus próprios méritos?

Embarcando com uma tripulação feminina

domingo, 29 de julho de 2012


A revolução de salto alto


No meio do caminho havia uma História. Uma História com H maiúsculo: tanques de guerra cortavam as ruas de Praga, capital da então Tchecoslováquia, para interromper uma certa primavera que prometia combater os vestígios de autoritarismo espalhados pela Europa desde o fim da Segunda Guerra. A invasão, em setembro de 1968, adiaria por mais 20 anos o encerramento do período sombrio, mas não impediu Madeleine, personagem de Ludivine Sagnier em Bem Amadas, de atravessar a rua, enquadrar o marido infiel e avisar que outra mudança estava em curso: a de sua história.
Diferentemente do que ocorre em outros filmes de Christophe Honoré, quando os personagens voltam ao abrigo da casa dos pais após a separação, Madeleine, diante do terror da capital tcheca, coloca a filha ainda criança no colo, abandona o marido imprudente e decide recomeçar do zero a vida em Paris, sua cidade.
O salto-alto levou Madeleine para uma outra era
Nem por isso se viu livre da História, presente em cada passo desde que colocou, pela primeira vez, o sapato de salto alto e passou a viver como prostituta. Em Bem Amadas, o processo de liberalização dos costumes, culminado na revolução sexual dos estranhos anos 60, parece assimilado no objeto-suporte que faz de Madeleine a dona única do próprio destino – ela, mais que ninguém, saberia a dor e as delícias de ser o que é, como na música.
Muitos anos depois, já sob as vestes da mãe envelhecida vivida por Catherine Deneuve, ela explicaria que não era uma mulher de vida fácil. O seu período histórico é que era “fácil demais”.
O que viveu dali em diante daria um nó para quem vê na bagunça dos dias atuais (uns chamam de “decadência”) um rompimento de uma ordem assentada. Madeleine não deixou de ser uma mãe cuidadosa ao longo da vida; nem por isso viu no segundo casamento o encerramento da própria história. Pelo contrário: deu vida a formas de relacionamento, digamos, pouco ortodoxas para o padrão convencional. A confusão daqueles “dias fáceis” parece não importar a quem testemunhou ditaduras, imposições e autoritarismo – e gritou contra isso em Maio de 68, na Primavera de Praga ou em algum país subjugado da América Latina. Opressora, a História era em si absurda, e seria inútil buscar sentido nas histórias com h minúsculo. Em outras palavras: “se o mundo me impõe uma ordem, nada mais justo do que assimilar minhas próprias desordens, morais e afetivas”.
A jovem Madeleine
Dessa forma, Madeleine parecia conviver sem muitos traumas nem questionamento com as próprias incertezas (a monogamia, para ela, era um cerco tão beligerante quando as tropas russas). Até que chega a vez da filha Véra (Chiara Mastroianni em idade adulta) se deparar com as próprias escolhas. As escolhas de seu tempo e sua História.
No meio dos anos 90, já sem necessidade de subir em salto alto para ser notável, Véra viverá um drama que, nas décadas de seus pais, soaria como um drama pueril. Num intervalo entre as ditaduras da Guerra Fria e da Guerra ao Terror, rompe uma paz aparente com questionamentos interiores: um relacionamento naufragou por falta de amor. E ponto. E outro não tem vazão por não fazer sentido. Véra está apaixonada por Henderson (Paul Schneider), um amigo gay.
O drama levado às últimas consequências parece simbólico para uma geração que assumiu o lugar dos pais com uma missão cruel: colocar ordem em um mundo gerado na desordem (a desordem das guerras, das revoluções de comportamento, da fragmentação familiar, entre tantas). São os filhos de pais separados iludidos com a tarefa de não repetir os mesmos (des) caminhos. É como se um pecado tivesse de ser purgado pela geração seguinte. Na Europa dos anos 1960, as pessoas morriam asfixiadas pelo cerceamento de direitos civis, sociais e políticos (e não só os habitantes do leste comunista). Na mesma Europa dos anos 1990, estavam cercadas pela culpa, pelos ciúmes e sentimentos de posse – o que, no filme, parece encarnado no personagem de Louis Garrel.
E Madeleine dos anos 90 com a filha, Véra
Num dos muitos diálogos arrebatadores do filme, Véra ouve do amigo gay que algo muito ruim deveria acontecer com eles após anos de imprudência. E a punição à ousadia de se usar salto alto vermelho está em todos os cantos: do vazio à depressão, passando pelos fantasmas das doenças sexualmente transmissíveis que dizimavam multidões como tanques de guerra.
Em outro diálogo, Véra fala a Henderson como seria seu amante ideal. Para ela, ele deveria ser responsável, bem-sucedido, atlético, saudável, não-fumante, sem vícios enfim. É quando o amigo responde com uma pergunta: “o que você quer é um bundão?”
É como uma confissão: se antes a felicidade estava associada à liberdade, e a imprudência fosse decorrência desse (des) caminho, na geração seguinte estava ligada à ordem, à busca de sentidos, à catalogação de grupos, à definição de papéis. Esse novo ideal de vida talvez explique as ondas moralistas observadas nos dias atuais: o retorno do fanatismo religioso, a ética da austeridade, a sobriedade, o fetiche pela segurança, o asco ao que é estranho. Nessa busca pela ordem, se os amores não fazem sentido, é melhor expurgá-los: antes uma história não-vivida que uma história sem razão. A postura é oposta àquela assumida por quem esteve no epicentro das revoluções anteriores, quando tudo o que estava ao alcance precisava ser agarrado.
Por isso o diálogo latente entre mãe e filha (Deneuve e Mastroianni são também mãe e filha na vida real) parece invertido: o desespero dos filhos jamais fará sentido aos pais que deram forma a amores possíveis
Em Não Minha Filha, Você Não Irá Dançar, filme anterior de Honoré, a mesma Chiara Mastroianni interpretava uma mulher livre que arcava com escolhas erradas. A culpa provinha de sua incapacidade de ser uma boa mãe, ainda que tivesse cumprido todo o script que se esperava dela. A reprovação era dada pelos próprios filhos, ávidos por cobrar dos adultos uma postura minimamente…confiável. Em Bem Amadas, a mesma atriz vive uma mulher livre dos filhos, mas não das convenções: na era do terror, também não poderia dançar; a ordem agora era o luto e a retidão. Véra, com seu olhar cansado e seus cálculos insuportáveis sobre os próprios passos, é a expressão mais fiel de um tempo de aflições.

Sarah Menezes: algo está dando certo no esporte brasileiro


medalha de ouro conquistada por Sarah Menezes  em Londres 2012 é importante por vários motivos. É a primeira do judô feminino, a terceira do judô em geral, e a segunda de mulheres brasileiras em esportes individuais. Mais do que isso, a medalha de Sarah é reflexo de um Brasil que dá certo.
Como mostraram posts desta semana aqui no Esporte Fino, a medalha de Sarah não foi uma surpresa. Ela chegou como uma das favoritas, se superou quando mais precisava e conquistou o ouro. Parecia, não uma brasileira, mas uma atleta dos Estados Unidos. No pódio, estava claramente feliz, mas não tinha aquela alegria quase desesperada de quem luta “contra tudo e contra todos”, como estamos acostumados. Sarah, aos 22 anos, faz faculdade, tem boa estrutura para treinar, tem três patrocínios privados e recebe o Bolsa Atleta, do governo federal. Tudo o que sempre exigimos.
Isso não é para dizer que está tudo bem no esporte brasileiro. Não está. Como mostrou reportagem do colega Fernando Vives na edição atual da revista Carta Capital, há muito por fazer. O foco hoje está no alto nível, enquanto o esporte escolar, de onde sairão os futuros campeões, é precário. Isso é reflexo do vergonhoso estado da educação como um todo no Brasil, um problema ao qual os governos deveriam dedicar muito mais atenção.
É preciso reconhecer, no entanto, que há esportes “dando certo”, como é o caso do judô. O trabalho vem melhorando a cada ano, os bons resultados se acumulam e a prova disso é o fato de o Brasil chegar a Londres com uma seleção completa, num esporte que rende até 14 medalhas, e com chances de conquistar muitas delas.
Se os judocas brasileiros vão conseguir isso daqui pra frente é, como deveria ser sempre, uma questão esportiva, e não política ou sociológica. A vitória de Sarah não deixa espaço para pautas como “o drama do nordestino”, o “drama da mulher” ou o “drama do esportista sem apoio que ganha apesar de tudo”. Aos poucos (mais devagar do que eu gostaria, é preciso dizer), vamos rompendo a lógica dramática do nosso esporte. Sarah é mulher, é nordestina, e é uma esportista brasileira. Ela foi campeã olímpica assim, e não apesar de tudo isso.
Foto: Marcio Rodrigues / Fotocom.net

VÍTIMAS DO CRIME - A CICATRIZ DA ALMA


Autor(es): Laura Diniz
Veja

O medo de bandidos está transformando o comportamento dos brasileiros. Mas, pela primeira vez, as estatísticas indicam que as curvas do crime podem mudar de direção. E finalmente começar a cair

 O Brasil vive uma situação inédita em relação ao crime. Observada de perto, ela é calamitosa. O número de assassinatos explodiu desde os anos 1980 e em muitas regiões do país continua a aumentar – a média nacional está, desde 2005, no inaceitável patamar de 26 brasileiros mortos por ano entre cada 100000 habitantes. Os roubos não param de crescer. Em um ano, ao menos 2 milhões de brasileiros foram vítimas do delito, e isso contabilizadas apenas as capitais. O reflexo dessa situação está captado em pesquisa do Ministério da Justiça, publicada com exclusividade por VEJA. Ela mostra que o temor de ser vítima de bandidos mudou os hábitos dos brasileiros de todas as capitais do país. Em Brasília, 63% dos moradores já evitam sair de casa à noite. Em São Paulo, 60% da população só usa os caixas eletrônicos e vai ao banco em último caso. No Rio, 80% dos cariocas deixaram de ir às mas levando muito dinheiro ou objetos de valor. Em Curitiba, 17% dos habitantes instalaram alarmes eletrônicos em casa, e 10% dos moradores de Fortaleza pagam vigias armados para proteger suas ruas ou prédios (veja os gráficos ao longo da reportagem). O crime está ditando o comportamento dos brasileiros – e, como nas guerras, isso equivale a uma rendição. Mas, quando o quadro atual é observado com mais distanciamento e à luz das estatísticas, chega-se a uma conclusão surpreendente. E positiva. Impulsionado pelo crescimento econômico da última década, o país já vislumbra uma mudança radical no perfil da criminalidade. E ela aponta para uma diminuição acentuada dos assassinatos. Isso vem ocorrendo em alguns centros urbanos, em especial em São Paulo e no Rio, onde a taxa de homicídios despencou 70% e 50% nos últimos dez anos.

A perspectiva de uma queda – generalizada – dos assassinatos no Brasil leva em conta fatores de natureza diversa: há os consolidados, e positivos, como o aumento da renda da população, os não tão consolidados, mas desejáveis, como o aprimoramento dos mecanismos de segurança, e os inevitáveis, embora não tão positivos assim, como a redução da proporção de jovens no total da população. Isso porque é nessa faixa etária, que vai até os 25 anos, que ocorre a maior parte dos homicídios.

Juntando-se todos esses elementos, e desde que o país não seja abalado por nenhum cataclismo econômico, não é mais impensável que o Brasil possa vir a ter um perfil criminal de nação desenvolvida. É o que enxergam analistas como Cláudio Beato, coordenador do Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança Pública da Universidade Federal de Minas Gerais, Tulio Kahn, doutor em ciência política pela USP, e Julio Jacobo, organizador dos Mapas da Violência.

A equação em que se baseiam os especialistas para apostar nessa tese é simples. O assassinato é um delito relacionado à pobreza não porque a miséria leve ao crime, mas porque, nos locais onde a pobreza impera – e o poder público está ausente ou desorganizado –, costuma-se instalar uma cultura que os especialistas chamam de "resolução violenta dos conflitos". Ela reúne famílias desestruturadas, jovens menos educados, com menos opções de lazer e mais acesso a armas e álcool, numa combinação explosiva que tende a aumentar o número de mortes violentas. A diminuição da pobreza, com a gradual reversão dessa cultura, levaria, portanto, a uma diminuição dos assassinatos.
O Brasil, ainda que de forma muito desigual, deixou de ser pobre, embora esteja longe de ser desenvolvido. Aqui, por enquanto, o crescimento econômico provocou uma queda localizada nos homicídios e um aumento generalizado dos crimes contra o patrimônio. A explicação clássica para esse segundo fenômeno é que as pessoas estão ganhando mais dinheiro, comprando mais bens, como carros e relógios, e que assim, de posse de uma maior "oferta" de produtos, ficam mais sujeitas a ser assaltadas.

De novo, os cenários diferem dependendo da região. O Norte e o Nordeste – onde a presença do poder público é fraca e a polícia, pouco eficiente – convivem com assassinatos e roubos em alta. Em relação ao crime, ainda estão mais próximos da Colômbia e da África do Sul do que do Brasil do futuro. Já São Paulo e o Rio se encontram em uma posição bem mais avançada nessa escala – vivem, hoje, o que os Estados Unidos atravessaram na década de 90: os assassinatos começaram a declinar, mas os roubos ainda estavam em alta. A questão, agora, é descobrir quando, e se o Brasil atingirá a próxima etapa, aquela em que todas as curvas de criminalidade apontam para baixo. Isso, evidentemente, não ocorrerá por inércia – as projeções não triunfam onde os homens fracassam. Mas o Brasil já coleciona resultados promissores na área (veja o quadro na pág. 88). Em São Paulo, o uso da inteligência policial e a aplicação de uma "regra de ouro" segundo a qual policiais e peritos devem analisar a cena do crime em até 48 horas provocaram a redução drástica de assassinatos. Em meados dos anos 2000, o Rio trilhou alguns dos passos paulistas e obteve uma queda de cerca de 50% em sua taxa de homicídios.

Esse modelo de investigação funciona bem, como mostrou um projeto-piloto dos governos estadual e federal em Alagoas, iniciado há um mês. Para reduzir a taxa de homicídios do estado, que é a pior do país, a polícia estudou o perfil dos crimes, montou um plano estratégico de rondas de policiais militares, comprou equipamentos para os peritos e mandou que os policiais civis concentrassem a investigação nas primeiras horas depois do crime. Nos dez dias iniciais de julho, o número de mortes em Maceió caiu pela metade em relação ao ano passado. Dos treze assassinatos ocorridos no período, onze foram esclarecidos. No âmbito federal, em novembro deve entrar em funcionamento o Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública, Prisionais e sobre Drogas (Sinesp), por meio do qual o governo reunirá estatísticas de todos os estados e conhecerá as nuances regionais da criminalidade. Mapear o crime é considerado por especialistas um ponto elementar para melhor combatê-lo. "Só repassaremos dinheiro para quem mandar os dados e de acordo com as necessidades apontadas pelos números. Nossos investimentos prioritários serão em inteligência e, a partir daí, tecnologia e perícia", diz Regina Miki, secretária nacional de Segurança Pública. Leia mais


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