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segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Nada a ver, mas eu te amo

É possível viver um romance com alguém que enxerga o mundo de forma diferente de nós?

IVAN MARTINS
16/12/2015

A vida às vezes nos lança tentadoras cascas de banana. Assim: o sujeito está numa festa, querendo apenas gastar a noite, quando surge do nada a criatura irresistível. Ela usa um vestido preto e se move entre as pessoas como se andasse em sua casa, com espantosa naturalidade. Bonita, evidentemente. Inteligente, se nota na terceira frase. Interessante, porque diz coisas que o deixam interessado. Em cinco minutos o sujeito está fisgado. Em 10, acha que ela foi com a cara dele. No 15º minuto, já com vontade de tocar nos cabelos da moça, enxerga a casca de banana: os dois não têm em comum sequer o branco universal dos olhos.

Ele faz uma lista, instantaneamente.

Na casa dele há um retrato do Einstein; ela acredita em astrologia. Ela diz que se trata com medicina indiana; ele desconfia até da homeopatia. Ele defende os direitos trabalhistas; ela, empresária, acha carteira de trabalho um anacronismo. Quase brigam. Ele é politizado desde os 15 anos; ela não tem paciência para o assunto. Está claro que os dois vivem em planetas distantes que acabam de se esbarrar por acidente. Ainda assim, a moça lhe parece fascinante.

O que se faz num caso desses?

Leitoras românticas dirão “se atira”. O raro leitor pragmático perguntará: “está esperando o quê”? Mas as coisas não são simples. Quando se esbarra em alguém apaixonável – quer dizer, alguém capaz de nos botar emocionalmente de quatro – uma luz amarela acende num canto da mente. Ela sugere que se avance com cuidado. Um passo em falso, e tudo se desfaz. Um passo além, e o coração está cativo. Tudo que nos encanta é capaz de nos destruir – e nossas moléculas, treinadas por milênios de prazer e sofrimento, sabem ler a promessa e a ameaça nos olhos do outro.

A gente se acha muito destemido, mas somos peixinhos que nadam no mesmo coral a vida inteira. Nossa vida se parece com a nossa página nas redes sociais: só tem gente que pensa o mesmo que nós. É uma maneira de afastar os conflitos e de nos fazer sentir “normais”, mas pagamos um preço elevado por isso. Excluímos a diferença e a discórdia. Vivemos cercados por falso consenso. Um belo dia, descobrimos, assustados, que o vizinho na garagem nos acha um idiota - e isso talvez seja bom. Ajuda a reforçar o senso de realidade. Mas seria péssimo perceber que a pessoa que você ama concorda com o vizinho. Disso nos protegemos dizendo a verdade a quem gostamos desde o primeiro minuto. Se a pessoa ficar,ficou. Hipocrisia e tolerância se exercem em sociedade. Na intimidade, tem de haver franqueza e sintonia.

Por isso as diferenças são importantes. Elas podem transformar aquilo que mal começou num beco sem saída. Como iniciar um relacionamento romântico com alguém tão desigual? Afinidades são essenciais. Olhe em volta: as pessoas se juntam por semelhança. Elas se ligam a gente do seu mundo, com quem partilham experiências e valores. É medíocre e limitado, mas não é gratuito. Somos divididos em tribos incompatíveis. Por renda, por crenças, por hábitos. Por cultura também. Partilhamos os espaços sociais e nos misturamos pela amizade, mas os amores são diferentes. Eles são viscerais. Não admitem a mera acomodação de sentimentos. Exigem cumplicidade profunda. Você não pode apenas tolerar as opiniões da mulher que dorme na sua cama, como se ela fosse um taxista reacionário.Para estarem juntas, intimamente, as pessoas precisam partilhar ideias e sentimentos. Sem isso não se forma o “nós contra eles” que constitui – para o bem e para o mal – a base psicológica de todo acasalamento.

Por isso, sou contra sublimar diferenças e forçar a aproximação com gente tão diferente. Não vai dar certo. No primeiro choque violento de visões a coisa desanda. Você está na internet – por exemplo – e recebe um vídeo de adultos da Zona Sul carioca ameaçando e agredindo uma criança que fora pega tentando roubar. Dão-lhe tabefes, tentam arrancá-lo das mãos da polícia, sugerem aos gritos dar um tiro na cabeça do menino apavorado. Um bando inominável de covardes, claro, agressores selvagens que deveriam ser conduzidos algemados à delegacia. Mas, ao seu lado, a nova parceira olha aquilo e pronuncia, convicta: “É isso mesmo. Com esses pivetes não tem outro jeito”. O encanto acaba instantaneamente.

O exemplo,na verdade, é inadequado. As pessoas se tornam incompatíveis por questões sutis, mas ainda assim perceptíveis. Ninguém precisa ser um idiota para tornar-se inelegível. É possível ser perfeitamente adorável e não nos servir. A gente sente na hora. Então se coloca a questão de avançar ou não, e para quê. Por sexo apenas? Sou contra. Não se dorme levianamente com uma pessoa apaixonante, sabendo que não vai dar em nada. Gente que nos impressiona demanda outro tipo de tratamento. O mínimo em que se pode apostar é num romance. Sexo casual é pouco num caso desses. Se o romance parecer impossível, talvez seja o caso de abortar os procedimentos dentro do táxi, antes que a coisa vá mais longe.

Amor é coisa difícil de dar certo. Há correntes misteriosas que nos arrastam na direção de alguém e depois nos arremessam longe. Ninguém controla esses movimentos. Não temos soberania em relação aos desfechos, mas somos capazes de agir nos preâmbulos. No comecinho, ainda podemos dizer não a nós mesmos. Podemos recusar a possibilidade escancarada pelo sorriso do outro e recuar. Não custa ser sábio uma vez na vida. Mesmo que a moça de preto continue passeando na sua memória por um tempo, como se andasse na sala da casa dela, linda, com espantosa naturalidade.

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