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terça-feira, 26 de abril de 2016

Clara Averbuck fala sobre mulher moderna, feminismo e literatura em "Toureando o diabo"

Em entrevista, a escritora gaúcha analisa os aspectos feministas de seu novo livro e alerta para o pouco espaço da mulher na literatura nacional

NINA FINCO
22/04/2016
A gaúcha Clara Averbuck é escritora e feminista. Uma das criadoras do site Lugar de mulher, ela é uma figura importante na internet brasileira, costurando textos que explicam para o público, principalmente o feminino, a problemática do machismo e outros preconceitos no dia a dia.
Toureando o diabo, livro escrito por Clara Averbuck e ilustrado por Eva Uviedo fala da mulher moderna, feminismo e literatura (Foto: Divulgação)
Toureando o diabo, livro escrito por Clara Averbuck e ilustrado por Eva Uviedo fala da mulher moderna, feminismo e literatura (Foto: Divulgação)

Na literatura, Clara cria textos que falam sobre a mulher moderna, que tenta se desconstruir de seus próprios preconceitos e encontrar seu lugar numa sociedade que nem sempre está pronta para ouvir o que ela tem a dizer. Seu mais novo projeto, Toureando o Diabo (146 páginas, R$50), recupera uma personagem (e alter ego) que já apareceu em outros livros, Camila. Com histórias que não seguem uma ordem cronológica, mas que se entrelaçam pelos temas, Clara narra como Camila amadureceu e descobre coisas sobre si mesma remexendo em seus cadernos do passado. Entre poemas e parágrafos soltos, ela discute sobre relacionamentos abusivos, o imperativo desnecessário de não ficar sozinha, sororidade (vocábulo usado pelas feministas para descrever a irmandade entre as mulheres) e o ato de escrever.
Unindo uma página a outra estão as ilustrações de Eva Uviedo, amiga de longa data de Clara. Os desenhos e rabiscos de Eva dão forma aos pensamentos embaralhados de Camila, ora com sutileza, ora com agressividade. Algumas das imagens entraram para a série Sobre amor & outros peixes, um apanhado de ilustrações em que Eva usa os seres do mar como analogia para diferentes sentimentos.
Este é o primeiro livro independente de Clara. Ele foi viabilizado por meio de uma campanha de financiamento coletivo que somou mais de 600 apoiadores. A obra pode ser comprada pela loja virtual das autoras.
Abaixo, confira as opiniões e análises de Clara sobre feminismo e literatura.
ÉPOCA -  O livro não segue uma lógica. A narrativa não é contínua, são várias histórias misturadas, mas você não avisa quando uma começa e outra termina. Quando teve a ideia de escrever esse livro, você já o imaginou assim, ou ele foi se transformando?
Clara - 
Eu e a Eva fomos montando a narrativa juntas. Então, eu não o imaginei assim, ele foi se formando. Mas eu gosto muito de escrever desta forma fragmentada. Meu primeiro romance, Máquina de pinball (Editora 7 letras, 90 páginas, R$37), tem a mesma personagem, a Camila, e também é assim: histórias entrelaçadas, mas que não necessariamente são lineares.
ÉPOCA - No começo do livro, você usa a metalinguagem para falar sobre a dificuldade de escrever um livro. Você acha que esse recurso é uma fonte infinita de inspiração para quem quer escrever, mas não sabe como fazer ou sobre o quê?
Clara - 
É uma ótima fonte de inspiração, porque quem quer começar normalmente não sabe bem por onde fazê-lo. Eu ministro oficinas de criação literária e sempre faço exercícios que usam a vida como matéria prima. Esse é o tipo de literatura de que eu mais gosto.
ÉPOCA - Essa história, que como você mesma descreve, não tem heroína nem vilã, mostra seu alter ego, a Camila, rememorando relacionamentos do passado. Nenhum deles a satisfaz completamente e ela segue de cara em cara. Isso mostra uma faceta das pessoas, que é a necessidade de estar sempre buscando alguém, de não ficar sozinho. Muitas vezes essa é uma característica atribuída a mulheres. Você acha que nós somos ensinadas a perpetuar esse comportamento? Isso acontece com os homens também?
Clara - 
Somos criadas para isso. A sociedade espera que nós mulheres tenhamos um homem para nos validar. Muitos dos argumentos que escutamos em discussões são baseados em “vai arrumar um homem”. Eu vejo várias amigas vivendo essa epifania de “perdi a vida inteira com homem”. Muitas das falas e histórias da Camila nesse livro são um apanhado do que eu escuto as mulheres a minha volta dizerem. Elas estão começando a questionar muito, aprendendo a descontruir a competição entre mulheres e a não basear a vida em relacionamentos... É um assunto que está crescendo na consciência coletiva. Para os homens não fica feio estar ou ser sozinho. Para o homem, o casamento é o final da vida, fala-se em sofrimento. Como se o casamento fosse o fim da vida do garanhão. A mulher é ensinada que tem que casar, que tem que “fisgar o homem”. O cara que fica solteiro para sempre se deu bem. A mulher fica para  titia.
ÉPOCA - Não é complicado fazer um livro sobre questões feministas contando tantas histórias de relacionamentos abusivos e corrosivos com homens? Ou falar sobre isso faz parte do aprendizado feminista?
Clara - 
Ficar remoendo faz parte. Para mim, que estou para completar 37 anos, fez parte. Mas não acho que as meninas precisam passar por isso mais. Uma geração se ferra para outra não precisar se ferrar. Tem que haver um aprendizado. E eu já vejo diferença nessa nova geração. Minha filha de 12 anos está anos-luz à frente da garota que eu era na idade dela. Ela sabe quem é, quais são seus direitos e é empoderada, não se deixa calar. A próxima geração, que agora tem cerca de 15 anos, já tem outra perspectiva. A construção do feminino sempre foi em torno do homem, a princesa que quer casar. Agora vemos meninas interessadas em outras possibilidades, principalmente porque elas sabem que podem.

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Eva Uviedo criou as ilustrações do livro "Toureando o diabo", escrito por Clara Averbuck.Foto: Divulgação
ÉPOCA - Quando entramos em contato com o feminismo, nós começamos a problematizar muitas questões que nos foram impostas a vida toda e isso abre caminho para questionamentos pesados sobre coisas comuns. Quem toma essa atitude costuma ser tachado de “politicamente correto”, de uma forma pejorativa. Como você enxerga essa questão?
Clara - 
Dizer que o politicamente correto vai acabar com o mundo é mais um jeito das pessoas não quererem debater algo. Falam que antigamente aquilo não era problema, que a TV Pirata podia fazer piada, hoje em dia não pode mais. Claro que tinha problema, mas ninguém falava, ninguém compreendia. É a mesma coisa com racismo e homofobia. Qualquer minoria que ganha voz é alvo de reclamações. Mas é algo que vai se acertando. Quando tiramos o véu e começamos a enxergar algo que não enxergávamos, passamos a equilibrar as nossas ideias. Eu não deixei de ler os autores que eu gostava depois de perceber que eles eram machistas, por exemplo. Desde que a gente consiga enxergar o problema e questioná-lo, tudo bem. Não dá para descartar tudo que tem machismo, senão não sobra nada.
ÉPOCA - Você toca no ponto da sororidade e como isso é um divisor de águas para a Camila. Mas também mostra que a Camila se prejudica ao confiar muito em uma mulher. Isso foi para mostrar que, apesar de precisarmos desconstruir a mania de competição entre as mulheres, não dá para esquecer que mulheres são pessoas e, portanto, têm defeitos e não são indefensáveis?
Clara - 
A sororidade é enxergar a outra mulher como uma igual e não julgá-la por preceitos machistas como roupa, comportamento pessoal... Mas claro que sororidade não é desculpa para a pessoa agir de forma errada. Já aconteceu muitas vezes de eu criticar algo que alguém falou e outra pessoa perguntar: "Mas e a sororidade?". Calma lá. Sororidade não é escudo. É você enxergar as outras mulheres de uma maneira diferente da que fomos criadas para enxergar, que é a competição. No entanto, encontramos todo tipo de pessoas ruins em nosso caminho.
ÉPOCA - Em uma das passagens do livro, você fala sobre as cantadas na rua – e como isso é enervante. Campanhas como Chega de Fiu Fiu e Não mereço ser estuprada estão completando 3 e 2 anos já, mas ainda temos que lidar com o problema nas ruas. Acha que tivemos algum progresso nesse sentido? O que ainda podemos fazer para impedir o assédio?
Clara - 
Teve um pequeno progresso. A cantada na rua é uma característica cultural muito forte nossa e, portanto, é muito difícil mudar. No ano em que saiu a campanha do Fiu Fiu, todos os homens estavam contra. Até mesmo os caras que não tomavam essa atitude. Acho que o privilégio masculino é tão grande, que eles querem poder fazer algo que eles jamais fariam. As pessoas confundiam muito a cantada na rua com o “flerte”. Abordar uma mulher na rua desta forma não é um interesse de aproximação real e sim uma demonstração de poder. Já ouviu falar de um casal que se conheceu porque o cara assoviou para a mulher na rua? Se tem, é um caso em um milhão. Mas isso mudou. Muitos caras conseguiram entender melhor que flerte tem que ser recíproco. As mulheres estão tolerando menos também. E tem ainda outra dificuldade: como fomos criadas para buscar a aprovação masculina, não dá para dizer que uma garota que gosta disso está errada. É uma construção difícil de combater.
ÉPOCA - Você problematiza, rapidamente, sobre a dificuldade de uma mulher escritora ser levada a sério. Ainda é difícil, para uma mulher, conseguir um lugar na literatura nacional? O que as mulheres têm a dizer não considerado tão relevante para os leitores?
Clara - 
A gente tem que ser dez vezes melhor do que os caras para conseguir publicar algo. Sempre há poucas mulheres nos eventos literários – e em grande parte das vezes elas são brancas, outro recorte importante. Durante toda a minha carreira, eu fui diminuída por usar a vida como matéria prima. Isso é algo que não acontece com o homem. Quando ele faz isso ele é gênio, a mulher faz isso por não conseguir fazer outra coisa. Mas isso foi uma escolha estilística minha. E escrever sobre sexo então, causa um frenesi louco. Na época em que escrevi Máquina de Pinball, em 2001, eu recebi avalanches de emails me xingando porque eu estava ousando invadir um espaço que não era meu.
ÉPOCA - Você é escritora. Como é a relação da sua profissão com o feminismo? Você se sente obrigada a escrever sobre o assunto e fazer uma literatura feminista? É possível levantar uma bandeira na literatura e não transformá-la numa literatura panfletária simplesmente?
Clara - 
Não me sinto obrigada. Antes de ser feminista eu sou escritora. Mas antes de ser escritora eu sou mulher. Então essas coisas acabam se entrelaçando. As minhas personagens sempre foram mulheres fortes. Claro que tem algumas questões e trechos de livros com os quais eu implico e vejo que nunca escreveria aquilo hoje em dia. Mas faz parte da minha construção como mulher. Não dá para engessar a arte por causa dessa questão. Tive muito cuidado para não fazer do livro algo panfletário. Mas acho que se o autor quiser, ele pode fazer isso sim. Levantar uma questão não necessariamente é obrigar as pessoas a aceitarem aquilo como certo. Mas a ficção tem essas linhas tênues em que podemos transitar.

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