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quinta-feira, 28 de setembro de 2017

As águas estão a mexer para as mulheres da Arábia Saudita

Atenção a este número: 27 anos – isso mesmo, 27 - depois do primeiro grande protesto levado a cabo pelas mulheres da Arábia Saudita por causa da interdição feminina ao ato de conduzir um automóvel, a lei vai mudar. A partir de junho de 2018, as mulheres vão poder finalmente conduzir livremente no seu país. Muitas mulheres foram presas pelo caminho, muitas perderam os seus empregos, muitas foram agredidas dentro e fora de casa por ousarem protestar. Sim, pelo direito a algo tão básico quanto ser livre para conduzir um automóvel.

Porque é que as mulheres não têm permissão para fazer algo tão simples? Bom, as razões são muitas, mas nenhuma tem outra lógica a não ser os parâmetros de um sistema patriarcal onde a extrapolação da mensagem religiosa dita boa parte das regras do jogo. À cabeça, a moral e os bons costumes, com isto da condução feminina a ser considerado uma ameaça aos valores da sociedade. Por outro lado, teme-se que caso haja um acidente as mulheres possam ter de interagir com um homem (algo que é proibido), ou então terem de destapar a cara para ver melhor durante a condução. Algo que, como parece claro à maioria masculina do país, é uma promiscuidade e que pode gerar o descontrolo masculino. Há ainda a ideia de que conduzir faz mal aos ovários, dado que embora não tenha qualquer rigor científico por trás, tem muito impacto se pensarmos que o objetivo de vida atribuído às mulheres sauditas é a procriação, dar continuidade à família. Enfim.

ELAS NÃO SE VÃO CALAR. E ELES SABEM DISSO

Quando em 2013 lhes foi dada a oportunidade de poderem conduzir bicicletas, achou-se que já era um enorme rebuçado e que as mulheres acalmariam os cavalos. Não acalmaram, pelo contrário: cada vez mais têm feito barulho, com os telemóveis e as redes sociais na linha da frente numa estratégia concertada de protestos que vão mostrando ao mundo a realidade que ainda ali se vive. O mundo viu e ouviu, e foi ficando cada vez mais atento, os media foram escrevendo sobre essa mesma realidade e as críticas aos país cresceram. Muito.
No fim de 2015, as mulheres puderam finalmente votar, e embora muitas tenham sido coagidas a não o fazer, aquele foi um dia histórico no país no que toca ao caminho desconstrução de opressão exercida sobre o sexo feminino. Mas não chega. E eles sabem que elas – apoiadas pelo dito quarto poder – não se vão calar, por mais que as tentem silenciar pela via da força, do medo e a da coação. Não é portanto de estranhar que esta alteração mediática surja agora, motivada pelo facto de os líderes sauditas, assumidamente, quererem travar os danos causados à reputação do país. Algo que, acima de tudo, põe em jogo interesses económicos e de estratégia política internacional.
Não podemos ser ingénuos e achar que a motivação primordial para tais alterações são a consciencialização para a importância da liberdade individual e a qualidade de vida das mulheres. Mas mesmo com um sistema patriarcal ultra conversador enraizado nas mentalidades, esta é mais uma enorme conquista feminina, num país que está no top 5 das nações com maior índice de desigualdade de género. Um país onde só depois da passagem do milénio é que as mulheres passaram a ter cartão de identificação que prova a sua existência enquanto cidadãs. Onde no que toca a parentalidade, legalmente os filhos são posse exclusiva do pai; onde uma mulher não tem autorização para andar sozinha na rua; onde a presença feminina no mercado laboral é quase nula, por mais que grandes parte dos finalistas universitários sejam mulheres. Mas também onde as águas estão a mexer e a mudança começa a ter expressão.
Depois desta nova alteração à lei saudita, esperemos que se siga o debate e a alteração da lei relacionada com o inenarrável sistema que obriga as mulheres a terem um guardião legal. Ou seja, elas ainda são uma posse de um elemento masculino do seu círculo familiar (pai, avô, marido, irmão, tio, primo), que decide por si quanto a coisas tão simples quanto o acesso à educação, abrir uma conta bancária, casamento e divórcio, fazer um viagem ou até mesmo realizar uma cirurgia. É impossível que tudo isto venha a mudar? Não. Pode demorar tempo, aliás, vai demorar um bom tempo, mas não é impossível. Embora sejam contextos diferentes, basta olharmos para o nosso próprio passado, quando também por cá as mulheres precisavam de autorizações do pai ou do marido para abrir conta bancária ou sair do país. Não foi assim há tanto tempo.

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