A preferência por filhos, que havia sido suprimida, está voltando de forma preocupante
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As proporções de gêneros no Cáucaso são especialmente distorcidas nos casos em que uma segunda ou terceira criança nascem |
A prática de abortar fetos femininos acontece com mais frequência na China e em outros países asiáticos, embora também ocorra com frequência no Cáucaso, região que divide a Ásia e a Europa, próxima ao mar Negro. Dois novos estudos investigam o porquê – e sugerem que a prática pode vir a se disseminar.
Se a natureza seguir o seu curso, 105 garotos nascem para cada 100 meninas. Os garotos são mais vulneráveis a doenças infantis, então uma leve preponderância deles nas taxas de nascimento garante que os números estejam equilibrados na puberdade. Mas na Armênia e no Azerbaijão mais de 115 garotos nascem para cada 100 garotas, e na Geórgia a proporção é de 120 para 100. Estas distorções são maiores que a da Índia. Em todos os três países os números aumentaram acentuadamente desde 1991. Em 2010, afirma Marc Michael do campus de Abu Dhabi da Universidade de Nova York, o número de garotas nascidas foi 10% menor do que teria sido caso não houvesse interferência. Essa discrepância só é menor do que a da China.
As proporções de gêneros no Cáucaso são especialmente distorcidas nos casos em que uma segunda ou terceira criança nascem. Na Armênia, entre primogênitos, há 138 meninos para cada 100 meninas. Caso a primeira criança seja um garoto, a seguinte tem mais probabilidade de ser uma menina que um menino (isto é, seleção sexual reversa). Mas caso a primeira criança seja uma menina, a preferência por filhos dispara. Quando a primeira criança é uma menina, 61% das segundas crianças são garotos. Os pais armênios parecem planejar não apenas o tamanho da família, mas também a sua composição.
Como em outros lugares, máquinas de ultrassom baratas, as quais podem detectar o sexo de um feto, fizeram uma diferença. Antes do colapso da União Soviética, tais máquinas eram raras porque suas peças eram aproveitadas para uso militar e exportações ocidentais eram proibidas. No entanto tais máquinas também se tornaram mais comuns na Ucrânia e outros países vizinhos onde as proporções de gênero permaneceram estáveis.
O que explica a excepcionalidade caucasiana? A resposta, sugerem os autores, pode ser política: uma preferência por filhos poderia ser forte porque todos os três países têm “conflitos frios”, os quais “podem ter um efeito de reduzir o poder da barganha das mulheres, de tal modo que a preferência dos homens por filhos determina o planejamento familiar”. Caso seja verdade, isso seria um grande retrocesso. Na década de 70 a União Soviética se gabava do fato de que suas mulheres tinham mais direito que suas irmãs de outros lugares e que o estado soviético suprimia a discriminação religiosa contra mulheres. A preferência por filhos caucasiana sugere que valores tradicionais estão retornando.
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