Contribua com o SOS Ação Mulher e Família na prevenção e no enfrentamento da violência doméstica e intrafamiliar

Banco Santander (033)

Agência 0632 / Conta Corrente 13000863-4

CNPJ 54.153.846/0001-90

terça-feira, 17 de maio de 2011

COMO RESGATAR A MINHA AUTOESTIMA?

A melhor maneira de viver bem

Muito se fala sobre auto-estima, mas poucas pessoas entendem o seu verdadeiro significado. Cuidar de sua auto-estima vai muito além de visitar o cabeleireiro ou comprar aquela roupa nova. Aliás, estas nem são condições necessárias para o cultivo da auto-estima.

Todos conhecemos, em tese, a definição básica de auto-estima: é a estima que tenho por mim mesmo, ou seja, o quanto me valorizo. O quanto me quero bem e me aceito.

Vamos aperfeiçoar esta definição, dizendo que a auto-estima é um ato de amor e de confiança consigo mesmo. Precisamos entender bem que são as duas coisas juntas: o "amor próprio" e a "autoconfiança". Faltando um destes ingredientes, não teremos uma auto-estima verdadeira.

Amar a si mesmo sem confiança nos seus atos ou pensamentos não resolve. Neste grupo temos as vítimas, aquelas pessoas que desejam algum "bem" para si, mas se lamentam por não terem condições de consegui-lo.

Confiança em seus projetos ou na sua capacidade de conquista sem o amor próprio também não traz felicidade. Neste último grupo, vemos a maioria das pessoas mergulhadas no estresse social, preocupadas em ter e poder, mas esquecendo de ser.

Infelizmente, trazemos uma tremenda dificuldade em cultivar estes dois ingredientes da auto-estima (o amor próprio e a autoconfiança), por eventos que se manifestaram desde a nossa criação. Quantas vezes, por medo do egoísmo, deixamos de lado nossa própria vontade para f azer tudo o que o outro queria. Só que auto-estima não tem nada a ver com o egoísmo. O egoísta é um ser vazio e solitário que precisa cada vez mais de coisas e pessoas que o preencham. Gente com boa auto-estima, apenas reconhece que, c omo qualquer ser humano, tem o direito valorizar e satisfazer suas vontades.


Na verdade, a cultura, a mídia e até mesmo nossos familiares contribuíram fortemente para gerar este quadro: "Está na moda quem usa tal roupa"; "Sem estudo você não é nada"; "Você será aceito somente se fizer isto e não aquilo...". É claro que, muitas vezes, isto aconteceu por ignorância, e não por maldade. Se tivessem acesso a determinadas informações, certamente as atitudes de nossos pais seriam diferentes.

DESENVOLVENDO SUA AUTO-ESTIMA

O resgate da auto-estima acontece quando você decide que só precisa ser quem você é. Você pode confrontar as opiniões, e não ficar preso a um únic o ponto de vista. Mas descobre que, se no passado era importante ouvir e respeitar as ordens dos adultos, hoje você pode ser dono (ou dona) de seu próprio destino. Passa a respeitar mais suas próprias idéias, porque, automaticamente, está se ouvindo mais. É por esta razão que gente que tem uma boa auto-estima nunca se sente sozinha, pois solidão é a distância que se tem de si próprio.

Assumindo que você não é responsável pela felicidade alheia, também não responsabilizará ninguém pela sua própria felicidade. Os outros estão em sua vida para fazer companhia e não para se aprisionarem emocionalmente.

Cultivando sua auto-estima, será uma pessoa mais consciente, mais responsável por seus atos. Sentirá que está mais íntegro e que é alguém valioso para si mesmo. Perceberá que tem todo o direito de honrar suas necessidades e vontades que considerar importantes. Aprenderá que merece ter atitudes de carinho consigo mesmo, como, por exemplo, preparar a mesa do café, mesmo quando está sozinho, ou permitir-se ir ao cinema, ainda que ninguém queira lhe fazer companhia. Você é a sua grande companhia, e, se entender isto, poderá iniciar uma das melhores fases de sua vida.
Lucimaria Rangel
Psicóloga Clínica e Institucional, voluntária no atendimento do SOS/AMF.

SOS no evento do CIC no Centro Comunitário do Jardim Santa Lúcia

Sábado passado, dia 14 de maio, o CIC - Centro Integrado de Cidadania – promoveu juntamente com o Centro Comunitário do Jardim Santa Lúcia um evento que deixou à disposição da comunidade diversos serviços, dentre eles o SOS/AMF. Das 10:00h às 12:00h eu, Lúcia, estive à disposição para orientações e esclarecimentos de dúvidas relacionados à Direito de Família, e das 13:00h às 14:00h nossa psicóloga voluntária Lucimaria Rangel se reuniu com um grupo de adolescentes para conversarem sobre drogas, sexualidade e violência. Durante o evento, foram distribuídos mais de 100 folhetos informando sobre os atendimentos que o SOS se disponibiliza a realizar no CIC. É o SOS agindo junto à população de uma das regionais mais necessitadas da cidade de Campinas, a sudoeste.

AGORA O SOS AÇÃO MULHER E FAMÍLIA ATENDE TODAS AS 5AS FEIRAS NO CIC, DAS 14:00HS ÀS 17:00HS.
VAMOS FAZER NOSSA PARTE PARA UMA SOCIEDADE MAIS JUSTA, FORTALECENDO NOSSAS FAMÍLIAS.
MARQUE UM HORÁRIO E VENHA CONVERSAR COM A GENTE! HOMENS E MULHERES SÃO BENVINDOS PARA ESCLARECIMENTO DE DÚVIDAS E ORIENTAÇÃO.
CIC Campinas - "Doutor Fernando de Cássio Rodrigues"
Rua Odette Teresinha Santucci Octaviano, 92 Bairro Vida Nova
Fone: (19) 3226-6161

Lúcia Helena Octaviano
Coordenadora Técnica SOS/AMF

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Uma Cartilha em favor da harmonia

Passo a passo, o Instituto Avon e seus parceiros vão munindo a sociedade de ferramentas que ampliam o entendimento da violência doméstica. Acaba de sair “do forno” a Cartilha Não Violência, um resumo do rico conteúdo do seminário sobre o tema, promovido pelo Instituto, em parceria com a Palas Athena. A originalidade dos professores Lia Diskin e José Romão na abordagem da violência tem sido elogiada por todos os que assistiram às palestras de ambos, em várias capitais brasileiras. São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e Recife já sediaram o seminário, que acontecerá também em Porto Alegre (no dia 19 de maio).
Você, que sente vontade de entender melhor a violência doméstica, pode acessar a Cartilha (http://migre.me/4sPx0) e indicá-la a amigos e representantes de associações de mulheres de Ongs, entidades governamentais. O Instituto Avon espera que o material contribua para a conscientização e a reflexão de todos os interessados em encontrar vias pacíficas para o enfrentamento de conflitos familiares.

terça-feira, 3 de maio de 2011

As guerreiras da África

Como as mulheres de Burkina Fasso estão mudando a face do terceiro país menos desenvolvido do mundo, onde apenas 26,5% da população sabe ler e escrever


Hélio Gomes, enviado especial a Burkina Fasso
29.04.11

Assista à reportagem :



chamada.jpg
IDENTIDADE
As cicatrizes no rosto da burquinense são típicas de sua tribo e de sua família

Enquanto o norte do continente africano vive uma verdadeira epidemia de movimentos em prol da democracia, um tipo diferente de revolução ganha força na terceira nação menos desenvolvida do mundo. Burkina Fasso, pequeno país desprovido de litoral encravado no oeste da África, exatamente abaixo do deserto do Saara, é o cenário de um movimento que tenta reverter um quadro trágico. Ali, milhares de mulheres unem forças para conquistar sua dignidade e escapar da miséria, do analfabetismo e da violência secular de uma sociedade machista e ainda tribal por meio do cooperativismo.

Na cidade de Léo, localizada a 140 km da capital Uagadugu, quatro mil mulheres trabalham na colheita e no processamento do karitê. Depois de transformado em manteiga, o fruto típico da África é utilizado na fabricação de cosméticos de algumas das maiores marcas do planeta. O trabalho, realizado ao longo de quatro meses por ano, garante US$ 140 a cada cooperada. Parece pouco, mas é mais do que a renda média do país. Segundo o Banco Mundial, os mais de 16 milhões de burquinenses vivem com menos de um dólar por dia.

img1.jpg
TRABALHO
Membro da cooperativa de Léo separa o karitê para a fabricação de manteiga

“Consegui mandar meus filhos para a escola com o que ganhei com o karitê”, diz Pignan Bassia Mariam. Aos 58 anos, casada há quase quatro décadas com um professor, ela narra uma história que serve de exemplo para suas companheiras. Uma exceção à regra em um país onde apenas 26,5% da população sabe ler e escrever, Mariam é o motor de uma grande família. Além de criar seus oito filhos, ela ainda cuidou de dois sobrinhos depois da morte de sua irmã. “Comecei a trabalhar com o karitê nos anos 70. Antes, apenas colhíamos as frutas e as vendíamos no mercado. Agora, com a manteiga, temos mais trabalho e nos­sa renda melhorou muito”, afirma a senhora de sorriso fácil e largo.

O cérebro por trás da cooperativa UGPPK (União dos Grupos de Produtoras de Karitê), no entanto, é masculino. Tagnan Abou Dradin, 45 anos, é diretor-geral da organização desde 2007. “Lidar com as mulheres não é difícil, mas tudo depende da sua postura. Você está perdido se acha que é superior pelo simples fato de ser homem”, diz. Formado em história e arqueologia pela Universidade de Uagadugu, onde também cursou pós-graduação em comércio internacional, ele comanda uma operação que gerou US$ 550.000 de receita em 2010. Abou também coordena parcerias estratégicas com ONGs e fundações internacionais, que financiaram a construção de 11 centros de alfabetização para adultas em Léo e o ajudam a manter um programa de microcrédito que beneficia as cooperadas.

img2.jpg
ESTUDO
Mulheres aprendem a ler e escrever em escola de Uagadugu, capital de Burkina Fasso

“O futuro do continente está nas mãos das mulheres”, diz Saddo Ag Almouloud. Presidente da associação Fórum África, o professor de matemática da PUC-SP nasceu no Mali e está no Brasil há 18 anos. Segundo ele, o sexo feminino ganha cada vez mais importância política, social e econômica na região. Em Burkina Fasso, por exemplo, o governo do presidente Blaise Comparoé – que chegou ao poder depois de um sangrento golpe de Estado em 1987 – criou o Ministério para a Promoção das Mulheres. Não por acaso, o grau de alfabetização entre elas é de 33%, quase sete pontos porcentuais acima da média nacional. “A África está mudando muito rápido e os governos sabem que precisam atender às demandas da população”, afirma a socióloga britânica Amy Niang, especialista no continente africano.

A reportagem de ISTOÉ assistiu a uma das aulas ministradas nos centros de alfabetização da cooperativa de Léo. Ali, com os olhos grudados no quadro negro, mulheres de todas as idades aprendem a ler e escrever em francês e em alguns dos quase 60 dialetos falados no país. Além disso, elas recebem noções de economia doméstica e informações sobre saúde. Muitas frequentam as aulas com seus filhos no colo. Damase Zouré, coordenador nacional da ONG Aide et Action, é o responsável pelo programa. Formado em sociologia pela Universidade de Uagadugu, ele lida com as mulheres de Léo desde 2004 e já foi convidado a fazer um curso na sede da ONU, em Nova York, graças ao sucesso do seu trabalho. “Nosso método é baseado na filosofia criada pelo brasileiro Paulo Freire”, con­ta Zouré.

img3.jpg
CELEBRAÇÃO
O canto em uníssono das mulheres de Burkina Fasso é ouvido constantemente no país

Infelizmente, o analfabetismo está longe de ser o único problema para as mulheres de Burkina Fasso. Segundo a Organização Mundial da Saúde, mais de 70% delas tiveram seus órgãos genitais extirpados. Prática corriqueira em muitos países africanos e em parte do Sudeste Asiático, a mutilação sexual feminina consiste na retirada total ou parcial do clitóris e no fechamento de parte dos lábios vaginais. Considerado crime no país desde 1997, o ato ainda é realizado em comunidades rurais e grandes cidades. Geralmente, as meninas enfrentam o ritual de passagem a partir dos quatro anos de idade. “A lei que proíbe a mutilação sexual ajuda na conscientização das novas gerações, mas tenho certeza de que ela vai continuar a ser realizada por muitos anos”, afirma Muriel Cote, geógrafa e pesquisadora da Universidade de Edimburgo (Escócia) que passou dois anos trabalhando na África.

SUSTENTO
A céu aberto e em condições precárias, as mulheres
da cooperativa de Léo fabricam a manteiga de karitê (abaixo)
img5.jpg

Mesmo sofrendo com todas as agruras de uma sociedade em que a dignidade é uma conquista diária, as mulheres de Burkina Fasso jamais abandonam sua alegria de viver. De certa forma, seu canto uníssono e constante, que dita o ritmo do trabalho e marca suas celebrações, é a prova concreta de que o prazer pode ser encontrado de diversas formas. O caminho para sua emancipação pode ser tortuoso, mas aponta uma direção clara para o desenvolvimento do país. “Sobrevivemos com o que ganho na cooperativa e a aposentadoria do meu marido. Eu tenho o meu dinheiro, ele o dele. E cada um paga sua parte das despesas”, diz Pignan Bassia Mariam. Nada mais justo.

img4.jpg
“Há muitas mulheres que lucram com a mutilação sexual das
meninas. Mas a situação está mudando em Burkina Fasso”
Tagnan Abou Dradin, diretor-geral da cooperativa UGPPK

Um verdadeiro choque de realidade
Até o mais experiente dos viajantes leva um baque com a falta de infraestrutura em Burkina Fasso. No único salão de desembarque do aeroporto da capital Uagadugu, uma reforma que parece durar anos transforma o espaço em uma arena de vale-tudo. Sem o auxílio de esteiras rolantes, a bagagem de centenas de passageiros é empilhada sobre caixotes de madeira. Lute para encontrar a sua.
Já no melhor hotel da cidade, ironicamente batizado de Palm Beach (não há praias em Burkina), a qualidade da água é o maior problema. Banhos com a boca cerrada e higiene bucal com água mineral são obrigatórios. Quem entra no país precisa mostrar o comprovante de vacinação contra a febre amarela. Mas a malária, combatida com doses excessivas de repelente, é o maior temor dos forasteiros. Comer também é um desafio – apesar dos sabores marcantes e do talento das cozinheiras. Como confiar na quali­da­de de peixes, legumes e verduras lavados em água da torneira?
Diferentemente de destinos como a Índia ou o Egito, nos quais a pobreza convive com um verniz de civilidade aplicado para seduzir os turistas, Bur­kina Fasso recebe seus visitantes sem disfarces. Prepare-se para mergulhar no quarto mundo. E sem escafandro.

img.jpg

O drama da violência doméstica

Operação em Niterói e São Gonçalo apreende 15 armas e prende um. Objetivo da ação foi retirar armas de autores de violência doméstica e cumprir 60 mandatos de busca e apreensão.

SÃO PAULO - Quinze armas, uma granada e munições foram apreendidas e um homem foi preso em flagrante por posse ilegal de arma, nesta segunda-feira, 2, durante a segunda fase da Operação Quatro Paredes, realizada em Niterói e São Gonçalo, no Rio.
A ação, executada por policiais das Delegacias Especiais de Atendimento à Mulher (DEAMs), teve como objetivo apreender armas de autores de violência doméstica e cumprir 60 mandados de busca e apreensão.
__________________________________________________

O drama da violência doméstica

A triste realidade retratada pelo filme 'Amor?', que aborda limites entre amor e agressão

02 de maio de 2011

Cristiana Vieira e Rosângela Rezende - O Estado de S.Paulo

Heloísa Passos/Divulgação
Heloísa Passos/Divulgação
A atriz Mariana Lima em cena do filme 'Amor?',
que coletou mais de 60 depoimentos

"Eu achava normal quando era um beliscão. Depois, quando começou a puxar meu cabelo, pensei: ‘Se eu casar com ele, me mata’." Aos 14 anos, Cláudia (o nome é fictício) começara a namorar um rapaz mais velho, extremamente ciumento. Um dia, quando a viu conversando com um surfista na praia, o namorado agarrou sua cabeça e a enfiou na água, num "caldo" de intermináveis segundos, enquanto ela esperneava, submersa, acreditando que ia morrer.

Vítima de violência do pai desde a infância, Cláudia ficava impotente diante das agressões e tendia a acreditar que "faziam parte do amor". "O fato é que o meu pai me batia, então, até que ponto eu poderia interpretar um tapa, um aperto forte no braço, um beliscão, um puxão de cabelo como um "não gostar"?", questiona.

O primeiro ato de libertação ocorreu aos 18 anos, quando já desenvolvida fisicamente, respondeu aos insultos do pai e o agrediu. O segundo, anos depois, quando, ao bater no filho de 3 anos, percebeu que estava repetindo o ciclo trágico de sua família também levado adiante por seu irmão - que espancava mulher e filhos. "Prometi neste dia que nunca mais bateria e que só o colocaria de castigo", lembra-se. No entanto, ainda hoje, uma pergunta a atormenta: "Qual a fronteira entre amar uma pessoa e querer matá-la?"

O caso acima é uma das oito histórias verídicas envolvendo amor e violência relatadas no filme Amor?, do cineasta João Jardim, em cartaz em São Paulo. O filme lança luz sobre o tema da violência doméstica, especialmente contra a mulher, uma realidade presente em milhões de lares brasileiros e considerada uma preocupação para 56% das mulheres brasileiras, segundo pesquisa do Ibope e do Instituto Avon, realizada em 2009.

Dependência - Calcula-se que, no País, metade das mulheres agredidas sofra sem pedir ajuda. Os agressores são maridos, companheiros ou ex-companheiros. Entre as que não denunciam, as razões são: dependência financeira (24%), medo de serem mortas caso rompam a relação (17%) ou vergonha de admitir a agressão (8%).

Com base na experiência de 20 anos à frente da 1ª Delegacia de Defesa da Mulher, em São Paulo, a delegada Celi Paulino Carlota identificou uma trajetória comum entre os casos que chegam à polícia. A primeira fase da violência é falar alto e perder o respeito. Depois vêm as ofensas morais e o empurrão. Daí, para o pior. Muitos agressores se arrependem, prometem mudar, dão presentes e, assim, convencem a mulher de que tudo ficará bem. Ledo engano. O ciclo se repete e a violência volta com mais intensidade. "O erro é dar mais uma oportunidade, mas a ameaça pode ser concretizada e isso pode levar à morte", avalia a delegada.

Legislação - Graças à Lei Maria da Penha (leia texto ao lado), a violência doméstica contra a mulher deixou de ser um crime de menor poder ofensivo. E, com a maior divulgação do tema, as denúncias estão crescendo. Houve aumento de 123% no número de queixas à Central de Atendimento a Mulher - Ligue 180, da Secretaria de Política para as Mulheres (SPM), na comparação entre 2009 e 2010.

Além de penas mais rigorosas, houve ganhos de agilidade. O processo, que antes passava por dois juízes, atualmente é resolvido por um só. "A delegacia tem 48 horas para enviar o processo para o juizado e, este, 48 horas para responder. O mesmo juiz que vai julgar a lesão também vai afastar o agressor do lar", explica a delegada Celi. A lei prevê a saída do agressor de casa, proteção dos filhos, distância mínima entre eles e, em casos extremos, abrigo para a mulher.

Não bastasse todo o trauma, a violência doméstica também tem um custo social. Segundo dados do Banco Mundial e do Banco Interamericano de Desenvolvimento, um em cada cinco dias de falta ao trabalho no mundo é causado pela violência sofrida pelas mulheres dentro de suas casas. A instituição estima que o custo total da violência doméstica varia de 1,6% a 2% do PIB de um país.

Passado um ano do seu segundo casamento, o músico carioca Walter (nome fictício), de 51 anos, foi parar na delegacia por agredir seriamente sua mulher. Como trabalham juntos, as pessoas mais próximas ficaram sabendo. Na delegacia, reparou num cartaz anunciando o Noos - uma ONG que trabalha para a prevenção e interrupção da violência intrafamiliar e de gênero, entre outras coisas -, e foi procurá-los. Hoje, diz que aprendeu a controlar a pressão. "Aprendi a me proteger das emoções externas, a não chegar mais àquele estado."

Para além das estatísticas, é difícil enxergar a presença de razão nos relatos de violência. "Impressionante como se chega ao ponto em que matar ou não matar depende de um segundo, literalmente de uma fagulha, um barulho qualquer que desvie a atenção, tire a concentração, afaste a pessoa da vertigem", afirma a jornalista Renée Castelo Branco, responsável pela coleta e análise de mais de 60 depoimentos para o filme Amor? em delegacias de polícia, juizados e organizações de proteção e apoio, tanto a mulheres vítimas de agressão quanto a homens agressores.

Após a experiência de ouvir tantos relatos, Renée não afirma categoricamente que amor e violência são indissociáveis, mas acredita que praticamente todas as relações de amor resvalam, em algum momento, para algum tipo de violência. "Basta olhar em volta e ver como as pessoas se comportam, com relação aos filhos, aos namorados e namoradas, aos pais."

Ninguém precisa esperar ser espancada para procurar a delegacia. A ajuda pode começar a partir daquela briga em que a agressão, mesmo no âmbito verbal, passa dos limites, podendo ser enquadrada como violência psicológica. É a partir desse ponto que se deve procurar ajuda psicológica e social numa ONG especializada ou no Juizado Especial de Violência Doméstica e Familiar Contra a Mulher.

Unidades de apoio - Há também serviços que funcionam em hospitais e universidades e que oferecem atendimento médico, assistência psicossocial e até orientação jurídica. Outro caminho são as Defensorias Públicas e Juizados Especiais, nos Conselhos Estaduais dos Direitos das Mulheres e em organizações de mulheres. E se achar que a própria vida ou a dos filhos e familiares está em risco, a vítima pode ter ajuda de casas-abrigo, que são moradias em local secreto em que fica afastada do agressor.

O exemplo de Maria da Penha

A farmacêutica cearense que deu nome à Lei Maria da Penha e voz a tantas mulheres sofreu uma série de violências. Um dia, acordou com um tiro nas costas que a condenou a viver numa cadeira de rodas. Maria da Penha lutou durante 19 anos e 5 meses, mas só quando faltavam seis meses para o crime prescrever é que o agressor foi julgado. Isso porque ela buscou ajuda em órgãos internacionais. Ele foi condenado, mas saiu do fórum em liberdade. Ela escreveu o livro Sobrevivi e Posso Contar, de 1994, em que relatou o processo e as histórias de agressões que ela e as filha sofreram.

O julgamento foi anulado. No segundo, em 1996, ele voltou a ser condenado e, mais uma vez, saiu em liberdade. Duas ONGs internacionais denunciaram o Brasil no Comitê Interamericano dos Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos. Condenado, o País foi obrigado a mudar as leis para que os autores de violência contra suas mulheres fossem punidos.

Fim do silêncio

Uma campanha para quebrar o silêncio, informando a sociedade sobre a dimensão e a gravidade do problema no Brasil. Com esse objetivo, o Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher (Unifem) criou a Campanha Bem Querer Mulher. A ideia é financiar projetos de prevenção e apoio à mulher vítima de violência física, sexual e moral. Em março, um leilão beneficente de obras de arte ajudou a arrecadar fundos para a causa.


O Estado de S.Paulo

JORNAL DA TARDE - Justiça quer ampliar varas para violência doméstica

10 de maio de 2010 - EVELSON DE FREITAS/AE
O Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) prepara a maior reforma dos últimos 30 anos no Judiciário.
O plano é criar cinco varas especializadas em violência doméstica, ampliar de cinco para oito as varas do Júri na capital e promover um mutirão para concluir os processos, com objetivo de aproximar a Justiça do cidadão, aperfeiçoar o trâmite processual e acelerar processos de homicídio, que hoje chegam a levar mais de quatro anos.
As mudanças fazem parte de um plano da Corregedoria Geral do TJ e incluem alguns pontos polêmicos, como a distribuição dos inquéritos policiais diretamente ao Ministério Público.
Já as varas seriam todas centralizadas no Fórum Criminal da Barra Funda, na zona oeste. E os processos de homicídio passariam a ser distribuídos aleatoriamente, não mais pelo critério territorial – hoje cada vara atende a uma região da cidade.
No caso das varas especializadas em violência doméstica, estuda-se a criação de duas unidades na zona leste, duas na zona sul e uma na norte. Atualmente, há uma, no Fórum da Barra Funda. E, segundo levantamento do TJ, 5.626 processos e inquéritos policiais sobre violência doméstica.
A proposta da Corregedoria prevê ainda a criação de cinco Juizados Especiais Criminais (Jecrim), destinados a analisar delitos de menor poder ofensivo, como lesão corporal. E há a possibilidade de se criar uma vara especializada em acidentes de trânsito.
O projeto vislumbra também a gravação em vídeo dos depoimentos judiciais, a construção de salas de teleaudiência e a mudança no trâmite dos inquéritos.
A Corregedoria do TJ já apresentou suas propostas a juízes do Fórum da Barra Funda. Até o dia 21, recolherá sugestões de alterações em seu projeto para, depois, apresentá-lo oficialmente à presidência e aos órgãos diretivos da corte.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Vídeo “Acompanhamento poesia” - Por Lucia Octaviano

O SOS Ação Mulher e Família possui 30 anos de trabalhos voltados à compreensão e erradicação do fenômeno da violência doméstica, sendo pioneiro no desenvolvimento de metodologias e instrumentalização para o atendimento às mulheres e suas famílias vítimas de violências físicas (com ou sem lesão), psicológicas e sexuais, tanto no contexto doméstico, de gênero ou intrafamiliar. No decorrer dos anos, percebemos que é fundamental respeitar o tempo e os recursos internos e externos da mulher vitimizada, para sua compreensão e rompimento do ciclo da violência. A partir desta percepção, as profissionais do SOS desenvolveram uma das metodologias de trabalho no formato de grupo operativo, que tem maior resolutividade no contexto da violência e que possibilita o fortalecimento do vínculo entre equipe interdisciplinar e a usuária, facilitando o acompanhamento, a orientação e a construção de estratégias para a efetiva libertação da mulher frente à violência sofrida. Destaque-se que no cultivo da capacidade da usuária é transversalmente alcançado o agressor, que pela modificação do comportamento da companheira revê seu próprio papel no relacionamento de ambos. O grande trunfo do Grupo de Acompanhamento é ser alimentado pela força da usuária, que cada vez mais toma para si a responsabilidade de gerenciar suas próprias decisões, positivando seus pensamentos no apoio recebido da equipe.

Carta em Homenagem à Mirian Martins - por Lucia Octaviano

Esta carta é uma homenagem à menina Mirian Martins, de 14 anos de idade, moradora da região metropolitana de Campinas/SP, brutalmente assassinada, com requintes de maldade e horror. Como morreu há poucos dias -- seu corpo foi encontrado em 01 de novembro de 2010, no momento que escrevo ainda não foram concluídas as investigações para se saber se o crime foi passional ou não. De qualquer forma, Mirian é mais uma história medonha e revoltante que se junta a de tantas outras, como as de Eliza e Eloah, vítimas da violência de gênero, um massacre em massa que o Brasil vivencia diariamente por todo seu território.
Ironicamente, estávamos no dia de estréia do I Seminário de Gênero e Violências que o SOS/AMF organizou. Estávamos todas ocupadíssimas, correndo para os preparativos finais do evento.
A tia de Mirian, Vera, que sempre nos auxilia com a limpeza, com seu jeito meigo e quase conformado, foi quem nos relatou o acontecido. Mas tenho certeza que tantas e tantas outras famílias, infelizmente, teriam história igual a contar. Meu lamento a todas elas.
A divulgação desta é uma forma de se trazer a discussão sobre o tema à tona.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

O SOS/AMF NA UNISAL EM AMERICANA/SP

"Atendendo ao pedido da Professora Margareth Maria Pacchioni, Coordenadora do Curso de Serviço Social da UNISAL, na Unidade Universitária de Americana, o SOS participou do encontro de supervisores de estágio ocorrido no dia 15 de abril passado, no Campus Maria Auxiliadora, quando ministrei a palestra “Estratégias de ações profissionais no trabalho com mulheres vítimas de violência, uma abordagem interdisciplinar”.
No espaço se tratou a questão da mulher vitimizada na perspectiva das técnicas de abordagem da situação familiar, bem como das estratégias da prevenção do fenômeno da violência intrafamiliar, tendo em vista as diretrizes da Política Nacional da Assistência Social e o eixo da “matricialidade familiar”.
Estavam presentes no encontro assistentes sociais, psicólogos, pedagogos, outros profissionais de equipe técnica interdisciplinar e estagiários, que atuam com família nas organizações públicas, privadas e do terceiro setor, com o objetivo de todos juntos buscarmos formas de aprimorar nossos conhecimentos e implementar técnicas de abordagens inovadoras no campo social.
Também se contou com as importantes participações de Léa Amábile, presidente do Conselho da Mulher de Americana, e de Maria Cristina Ticianelli, Assessora Executiva da Secretaria de Saúde de Americana, coordenando o Projeto de Violência da Secretaria de Saúde do município.
A conversa foi muito enriquecedora e produtiva, e a UNISAL está de parabéns por investir na ideia da importância da participação do aluno como estagiário nos atendimentos especializados, visando à formação de profissionais muito mais completos e competentes no futuro.
Agradeço a atenção e o carinho de todos que ali me receberam em especial a Professora Margareth, pessoa de sensibilidade única, inteiramente voltada à seriedade e ao aprimoramento profissional.''

Lúcia Helena Octaviano
Advogada e Coordenadora Técnica SOS/AMF

terça-feira, 19 de abril de 2011

Correio Braziliense - 19/04 - Violência contra mulheres no interior do Brasil resiste ao tempo

A filha de Maria Eva morreu em de Planaltina de Goiás (GO) após receber 57 facadas: "Ela falava que ia ganhar na loteria para tirar a gente daqui"
A violência no interior do Brasil resiste ao tempo. Perpetua-se pela vulnerabilidade das vítimas e pelas falhas do Estado. Enquanto houve um aumento médio de 30% nos casos de femicídio —  assassinato de mulheres —, na última década, no Brasil, o recorte desse tipo de crime no interior do país é ainda mais preocupante. No Pará, o crescimento foi de 256%. Passou de 63 casos para 226. Na Paraíba, em 2000, 44 mulheres foram assassinadas, segundo dados do Ministério da Saúde. No ano passado, 112.
“O drama das mulheres no interior é que elas estão longe das delegacias e de outros serviços de assistência. Muitas vezes, elas começam a sofrer pequenas manifestações de violência e, como não têm a quem recorrer, vão crescendo numa escalada que pode chegar ao homicídio”, afirma a psicóloga Lenira Silveira, que trabalhou durante 18 anos na Casa Eliane de Gramont, instituição de São Paulo especializada em atendimento a mulheres vítimas de violência doméstica.
Na zona rural de Planaltina de Goiás, Andréia da Silva Oliveira foi assassinada aos 15 anos com uma peixeira. Acabava ali o sonho de ser mãe que a acompanhava desde pequena. Ela ainda brincava de bonecas quando descobriu estar grávida de um casal de gêmeos. Recebeu 57 facadas de Francisco das Chagas Cardoso, 54 anos.


Os dois trabalhavam na feira central da cidade. Um interesse não correspondido teria sido a motivação para o assassinato. Mesmo após um ano e três meses da morte de Andréia, o pai dela, Damião Caetano de Oliveir, 42, entra e sai da sala da casa onde mora e se mostra transtornado em recuperar na memória os detalhes do crime que destruiu os planos ainda imaturos da filha. “Ela falava que ia ganhar na loteria para tirar a gente daqui”, emociona-se Maria Eva Pereira, mãe da jovem assassinada.

Herança
“O que se percebe é que nessas regiões ainda predomina uma situação patriarcal e o domínio masculino. A mulher ainda é vista como objeto, como propriedade do homem, que não trata a companheira com respeito, mas à base da submissão. Assim, quando a mulher faz qualquer coisa errada ou tem algum vacilo, o homem recorre à violência e não ao diálogo”, afirma o delegado de Barbalha (CE), Marcos Antonio dos Santos. Na região, 173 mulheres foram mortas nos últimos 10 anos. Boa parte dos crimes na zona rural. Para conter os assassinatos, segundo o delegado, é preciso muito mais do que a criação de delegacias e juizados especializados. “Só mesmo um trabalho de conscientização para que os filhos desses agressores tenham mais respeito com as futuras mulheres.”


No Vale do Jequitinhonha (MG), Luciene Pereira de Sousa foi assassinada com golpes de foice, em 11 de fevereiro deste ano, pelo ex-namorado, o lavrador Antônio Rodrigues dos Santos, 21 anos. O irmão da jovem, Gleuson Pereira de Sousa, ao tentar defendê-la, teve o antebraço esquerdo decepado, mas resistiu aos ferimentos. Antônio foi preso no dia seguinte em Araçuaí, cidade vizinha a Novo Cruzeiro, onde o crime ocorreu. Ele confessou ter premeditado a morte da ex. Integrante de uma família de quatro irmãos, Luciene era muito tímida e quase nunca ia à área urbana.

Amedrontada e querendo esquecer a tragédia, a família da adolescente deixou a comunidade do Córrego do Rabelo. Mora hoje em Grupiara, localidade de difícil acesso na zona rural de Novo Cruzeiro, a 44 quilômetros da sede do município. No lugar, só se chega de moto, a cavalo ou a pé devido à precariedade das estradas da região.


Correio Braziliense – 17/4/11 - Fácil de matar. Série traça o novo cenário das mortes femininas no país

Elas são assassinadas por pais, irmãos, companheiros, traficantes e aliciadores - homens que acreditam ter o poder de decidir sobre a vida. Série de reportagens do Correio iniciada neste domingo (17/4) mostra a escalada dos homicídios de mulheres no país.

 
Gilmara de Oliveira, 28 anos, celebra a primeira gravidez. Fernanda Martins, 32, escolhe vestidos para levar as três filhas à igreja. Maria do Socorro da Silva, 27, está na fila do embarque para voltar ao Brasil, depois de trabalhar por 24 meses na Espanha. Geysa Maciel dos Santos Cruz, 23, procura uma casa para morar com o filho Carlos Ralf, de 8. Tudo não passa de desejo de familiares e amigos que ficaram na saudade. As histórias das quatro mulheres foram interrompidas um pouco antes do fim da gestação, da seleção das roupas, do início do voo, da formatura de Ralf. Gilmara, Fernanda, Socorro e Geysa estão mortas. Foram assassinadas de forma covarde em 1998, 2002, 2009 e 2011, respectivamente. Deixaram de viver por serem mulheres.


Maria Maciel mostra a foto de Geysa, a filha morta pelo companheiro há 10 dias.

Não são as únicas. Facadas, tiros, pedradas, golpes de foices e de machados foram os modos de assassinar 4,5 mil mulheres no ano passado em todo o Brasil. É fácil matá-las. Estupros coletivos, torturas psicológicas e físicas, negligência e discriminação — ora mascarada, ora pública — sufocam diariamente brasileiras. De todas as idades — desde a menina de dois anos estuprada e morta a golpes de enxada no interior do Ceará à senhora de 76 anos estrangulada pelo companheiro no Rio de Janeiro. E de todas as classes sociais.

A elevada proporção de mortes de homens — cerca de 90% das vítimas de homicídios — esconde o fenômeno do femicídio, ainda pouco estudado no país. O Brasil não produz estatísticas oficiais de homicídios por sexo, na contramão de países vizinhos que, além de monitorarem as mortes de mulheres, tipificam o crime em leis. Costa Rica, Guatemala, Chile, Colômbia e El Salvador incorporaram no ordenamento jurídico a definição do femicídio. México, Argentina e República Dominicana também estão discutindo alterações na legislação. Em toda a América Latina, o ritmo acelerado com que esses homicídios crescem indica o massacre por questões de gênero.

A série de reportagens “Fácil de matar”, que o Correio publica a partir de hoje, traça o novo cenário das mortes femininas no país. Estimativas obtidas pela reportagem apontam o aumento médio de 30% nesses crimes na última década. No Pará, chegou a 256%. Em Alagoas, 104%. A violência doméstica, sem resposta eficiente do Estado, apesar da aprovação da Lei Maria da Penha, persiste. Mas são cada vez mais comuns as mortes encomendadas por organizações criminosas, ligadas ao narcotráfico, às redes de exploração sexual e às máfias das fronteiras.

Durante os últimos dois meses, a reportagem buscou os crimes, as vítimas e identificou os algozes, todos homens. A covardia segue uma mesma lógica, fundamentada em repetidas violações de direitos. Ao longo da produção da reportagem, pelo menos 286 mulheres foram mortas no país. As tragédias — que serão contadas ao longo da semana — se perpetuam nas capitais, no interior e ultrapassam fronteiras, fazendo vítimas do outro lado do Oceano Atlântico. Em meio às histórias, uma mulher foi escolhida para dar voz às sobreviventes, reféns agora do medo. Tereza teve mais de 40% do corpo queimado depois de o marido derramar gasolina nela e atear fogo. Preso, ele não desistiu de matá-la.
Invisíveis

A dificuldade em mapear as informações é a primeira comprovação da invisibilidade do problema para o Poder Público. O levantamento feito pela reportagem considerou dados das secretarias de segurança pública, das polícias e dos movimentos feministas. Em média, 4,6 mulheres são assassinadas por 100 mil habitantes do sexo feminino, podendo mais que dobrar em algumas cidades. Os índices se igualam ou mesmo superam, sozinhos, a taxa total de homicídios, incluindo mulheres e homens, de países europeus ocidentais (3 a 4 por 100 mil), da América do Norte (2 a 6) e na Austrália (2 a 3). Em relação à América Latina, o Brasil perde apenas para lugares como El Salvador, Guiana e Guatemala, onde grupos de direitos humanos já atuam para reverter o caos provocado pelas mortes. Os dados são da Organização Mundial da Saúde (OMS).

As únicas informações oficiais disponíveis no Brasil são do Ministério da Saúde, com base no Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM). Divergem, no entanto, dos números da segurança pública e são prejudicadas por subnotificações. A série histórica das certidões de óbito comprova o aumento dos homicídios no país. Passa de 3,6 mil em 1996 para 4 mil em 2006. O próprio governo critica os dados. A Secretaria Especial de Políticas para Mulheres, ligada à Presidência da República, ignora o fenômeno. Em nenhum dos pontos destacados pelo Plano Nacional de Políticas para Mulheres, a redução dos assassinatos aparece. Segundo a ministra Iriny Lopes, a prioridade é a prevenção da violência. As expectativas de reverter a matança recaem agora sobre a primeira mulher eleita para ocupar o Palácio do Planalto. Dilma Rousseff prometeu, no discurso de posse, “glorificar a vida de cada uma das brasileiras”.

Lei diz que mulheres ameaçadas devem ter a proteção do Estado

Goiânia (GO) — 48 horas. Foi o tempo que Luciana Silva Cardoso, 28 anos, levou para esvaziar o guarda-roupas, avisar amigos e familiares da mudança repentina e deixar Samambaia com destino à capital de Goiás. Buscava abrigo na casa dos pais. O motivo: medo. 48 horas. Era o tempo que o Estado tinha para garantir a proteção de Luciana. As ameaças do marido foram registradas no Boletim de Ocorrência nº 6378/2007-0, na 32ª Delegacia de Polícia. Carlos Roberto Santos Lima tentou agredi-la com uma faca. Foi preso em flagrante e solto em seguida, pagando R$ 150 de fiança, no mesmo dia em que Luciana saiu de casa. As medidas protetivas foram negadas porque as autoridades entenderam que a solicitação estava “desprovida de qualquer indício mínimo que possa corroborá-la nesta oportunidade.”

[FOTO2]48 horas. Tempo suficiente para Carlos descobrir o paradeiro de Luciana, ameaçar a cunhada, Lucimar, que também registrou a perseguição no BO nº 6.666/2007, e viajar até Goiânia. Durante uma semana, Carlos rondou a casa dos sogros e torturou a família com telefonemas.

Era domingo de festa. Luciana tinha preparado o bolo de aniversário de seis anos para a filha do meio. Depois do parabéns, todos assistiam televisão. Por volta das 20h, ouviram um barulho. Não deu nem tempo de levantar do sofá para conferir. Carlos arrombou a porta da cozinha e esfaqueou Luciana, que logo caiu no chão. Não parou. As crianças gritavam, e o pai, Benedito Cardoso, tentou jogar uma cadeira no genro. Mas não tinha forças para impedir uma filha de ser morta dentro de casa de novo.

Cinco anos antes, em outro domingo de festa na família, Fernanda, que também tinha feito o bolo — desta vez para o tio — foi esfaqueada pelo marido no banheiro de casa. O casal estava brigado e ela buscava refúgio na casa dos pais. O corpo foi encontrado pela única filha, que levava doces para a mãe. Poucas horas antes de matar Fernanda, Vilmar Cândido pediu dinheiro emprestado para Benedito. Com isso, bancou sua fuga para o Pará. “A gente segura na mão de Deus para suportar toda essa dor de novo. Não deu tempo nem de cicatrizar”, diz Onofra Silva, mãe das meninas. “Na primeira hora você não acredita que vai viver tudo outra vez . Tem mesmo que ter muita fé”, completa o pai.

O casal ainda enfrentou a ira do genro Carlos Roberto, que mandava recados dizendo que iria matar toda a família, inclusive suas três filhas. Passaram a dormir na casa do advogado da família, de parentes. Mudaram-se de cidade. O tormento só acabou com a prisão dele, às vésperas do Natal daquele ano. Vilmar também foi preso pouco tempo depois. “Não sabemos como vai ser quando eles saírem. Temos a Justiça divina, mas a dos homens também precisa funcionar”, afirma Onofra, recordando que uma das filhas pediu ajuda às autoridades. “Ela não ficou calada. Só não foi ouvida.”

A Lei nº 11.340/2006, conhecida como Lei Maria da Penha, transformou-se num marco na luta contra a violência doméstica no país. A legislação, no entanto, não trata dos homicídios. Tem como objetivo garantir a proteção das mulheres e evitar, ainda que de uma forma indireta, as mortes. As medidas protetivas fazem parte desse pacote, mas ao redor do Brasil casos como o de Luciana se repetem. A cabeleireira Maria Islaine de Morais, 31 anos, foi assassinada pelo ex-marido, no início do ano passado, em Belo Horizonte. As imagens das câmaras de segurança flagraram a ação. Fábio Willian apontou a arma para ela e atirou sete vezes. Ela já tinha feito pelo menos oito boletins de ocorrência contra ele.

A professora do Departamento de Antropologia da Universidade de Brasília Lia Zanotta Machado diz que o Brasil se diferencia de outros países nos assassinatos femininos porque os algozes são muitas vezes da própria família. “As relações violentas masculinas contra mulheres se dão em torno do controle, do poder e dos ciúmes. Os atos tendem a ser de violência cotidiana e crônica física, psíquica. Podem e desencadeiam em morte”, explica Lia, em seu livro Feminismo em Movimento. Desde ontem, o Correio mostra na série de reportagens “Fácil de Matar” o fenômeno do femicídio: assassinatos em que as vítimas são escolhidas pelo gênero.

Na última década, o aumento médio de homicídios de mulheres foi de aproximadamente 30%. No entanto, esses crimes não têm uma política específica, como as agressões. Não são nem registrados em delegacias especializadas. Depois da morte consumada, o caso é tratado como qualquer outra morte. E nas varas e juizados de violência doméstica, menos de um terço dos 331.796 procedimentos envolvendo a matéria já tiveram sentença. Os dados são do último balanço do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Palestra do SOS/AMF no Centro Comunitário do Jardim Santa Lúcia

No dia 24 de março, eu (Lúcia) e Grace estivemos no Centro Comunitário do Jardim Santa Lúcia, regional sudoeste da cidade de Campinas, participando de um encontro em grupo promovido quinzenalmente, voltado à discussão de temas de interesse da própria comunidade, que tem o charmoso nome de chá, conversa e simpatia.
O convite nos foi feito pela Fabiana, assistente social, e pela Sueli, psicóloga da entidade, profissionais exemplares que dedicam verdadeiro carinho ao trabalho que desenvolvem. O encontro foi muito produtivo, o grupo era participativo e questionador, e tratamos do tema da equidade de gêneros, os papéis sociais impostos a homens e mulheres, a cultura de que cada um tem sua função predefinida e imutável; também falamos um pouco sobre de onde vêm esses conceitos, que não nos são explicitamente ensinados, mas estão enraizados em cada um de nós.
E é uma experiência muito gratificante ver que as pessoas, mesmo as de idade mais avançada, estão cada vez mais se dispondo a entender conceitos e valores que visem à melhora de nossa sociedade como um todo, buscando uma forma de fortalecer o vínculo da família com base no respeito e no amor ao próximo.
Nosso trabalho é moroso e de formiguinha. Contudo, é por meio dessas discussões que sementes são lançadas e modificam as pessoas, que passam a enxergar a vida sob outro prisma, a ótica da sociedade justa e pacífica, firmada em valores de direitos humanos e cidadania, na igualdade entre os gêneros.
Agradecemos demais a oportunidade de conhecer pessoas tão maravilhosas e engajadas, que frequentam o grupo com prazer, que utilizam o espaço para exposição de ideias e crescimento humano. Saber que padrões arcaicos estão sendo aos poucos desconstruídos alivia nossa alma, e nos lembra que sempre vale à pena se investir na família, célula primeira e principal da sociedade que vivemos.
Dra. Lúcia Helena Octaviano
Advogada e Coordenadora do SOS Ação Mulher e Família

sexta-feira, 25 de março de 2011

STF decide que condenações da Lei Maria da Penha não podem ser suspensas em caso de agressões leves

24/03/2011
Débora Zampier
Em Brasília

O Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu hoje (24), por unanimidade, que a Lei Maria da Penha não pode ser submetida à Lei dos Juizados Especiais. Isso significa que as condenações por agressão às mulheres, mesmo no caso de menor potencial ofensivo, não podem ser substituídas por medidas alternativas. Também significa que as condenações com pena inferior a um ano não podem deixar de ser aplicadas, mesmo que o réu não responda a outro processo.

O caso analisado hoje era o habeas corpus de um agressor que queria reverter decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ), favorável à Lei Maria da Penha. Por não ter condições financeiras, o réu foi defendido por um defensor da União, que chegou a se justificar ao plenário por defender a causa. “Se eu fosse um advogado particular, talvez não estivesse nessa tribuna, mas é meu dever”, disse.

O relator do caso, ministro Marco Aurélio Mello, foi o primeiro a votar e, citando Rui Barbosa, lembrou que “a verdadeira igualdade consiste em tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais”. Ele também disse esperar que a decisão de hoje comprove que ele não é solidário ao juiz Edilson Rodrigues, que chamou a Lei Maria da Penha de “regras diabólicas”. Recentemente, Marco Aurélio determinou que o juiz mineiro, afastado do cargo pelo teor de suas decisões, voltasse ao cargo.

O ministro Joaquim Barbosa também entendeu que não há inconstitucionalidade na lei. “As previsões da lei buscam proteger e fomentar o desenvolvimento do núcleo familiar sem violência, impedindo que, sob o manto da família, seja imposta submissão física, psicológica e econômica da mulher”.

Para o ministro Carlos Ayres Britto, “proteger as mulheres é mais que proteger as mulheres, é proteger as crianças, com quem elas têm muito mais intensidade de afeto”. Já a ministra Ellen Gracie afirmou que é preciso que se diminua a cultura de violência doméstica. “Um empurrão contra uma mulher não é um delito de menor gravidade, se reflete em toda a família, [um delito] que se reproduz no futuro”.

terça-feira, 22 de março de 2011

Auto-responsabilidade e liberdade

Responsabilidade é uma palavra que a princípio pode trazer a sensação de tédio. Pelo menos era isso que eu sentia quando ouvia estes sons: res-pon-sa-bi-li-da-de. “Socorrooooo” - pensava eu. Responsabilidade significava controle, rigidez, limitação, engaiolamento e coisas do tipo. Não tinha esta palavra nada a ver com aquela outra que sempre sonhei “li-ber-da-de”.

Depois de ter crescido em minha maioria (há partes em mim que tem um ritmo mais lento) e aprendido com a experiência e com estudos sobre o ser humano, passei a compreender mais a beleza da palavra auto- responsabilidade e o tamanho da liberdade e poder interno que ela traz.  Auto-responsabilidade = responsabilidade para comigo, minhas escolhas e experiências de vida.

Quando nós não estamos vivendo dentro da auto – responsabilidade, geralmente estamos fazendo o oposto; culpando outros por algo que estamos experienciando.

Muitas vezes, culpamos o governo pelos males do país dizendo que o governo não é competente, é corrupto, não administra bem, etc ...”
Ok! É verdade que o governo tem a sua parte, sua parcela real de incompetência. Mas e nós, como é que NÓS mantemos esta situação? O que fazemos regularmente, cotidianamente ou mesmo eventualmente pelo nosso país? O que fazemos pelos outros, pelo coletivo? E a pergunta que pode ser feita em todas as situações que atraímos para a nossa vida: "como estamos efetivamente contribuindo para manter esta situação?" Não vamos olhar para os vizinhos e parentes, vamos nos perguntar “como EU contribuo para manter esta situação”?

Quando eu não sabia nada sobre auto-responsabilidade e brigava com meu marido, achava que ele era culpado pela minha dor, pelo o que eu sentia, por todo o meu desamor. Nossos conflitos eram lutas de arena onde os dois saiam machucados e culpando o outro por ser cruel, fraco, egoísta e uma série de outros “belos atributos”. Hoje eu busco assumir e compreender a minha parte: as minhas motivações, os meus sentimentos, medos, crenças, metas etc. O resto é com ele. 
Sempre há uma repercussão benigna e saudável na outra parte, mas não se tem garantias de que iremos sempre perceber isso.

O grande ensinamento, que está aí no mundo, nos livros, para ser comido e digerido na velocidade particular cabível a cada um, é: “assuma 100% de responsabilidade pela sua parte que equivale a 50%”. Em outras palavras: Eu tenho a minha parte. O outro tem a dele. Se eu realmente quero mudanças, tenho que começar examinando a minha parte e tenho que me perguntar, "como estou contribuindo para que a situação X, seja ela qual for, permaneça? Como posso mudar esta situação? E outra pergunta importante: Eu quero mudar esta situação? Ou tem uma parte minha que não quer? Uma parte que tem ganhos secundários? Sim , pode ser este o caso. Ter consciência disso é um grande passo para a mudança.

Autoconhecimento é o caminho para a liberdade. O poder de mudança é nosso, não somos escravos de ninguém.

Considero que nós estamos nos preparando, senão já preparados para ensinar também este conceito de auto-responsabilidade aos adolescentes e jovens adultos. Imaginem aprender isso desde a escola!

Por isso acredito no investimento de trabalho, tempo e empenho para estar com jovens adolescentes e homens e mulheres, trocando e discutindo, nesta fase intensa de transformação e afirmação de identidade, os conceitos e os benefícios da auto-responsabilidade. Este trabalho envolve uma série de outros conhecimentos como o de nossas camadas de consciência e seus mecanismos de atuação, sendo elas:

·         nossa criança interna: nossa imaturidade, exigência, crenças errôneas cristalizadas e que hoje são ativadas diante de algumas situações;
·         nossa negatividade: aquilo que nos parece “escuro”, “indigno” está cheio de medo, de ódio, de sentimentos os quais não queremos enxergar;
·         o nosso eu superior: nossa luz, essência, maturidade, amor, alegria;
·         nossas defesas: nossa máscara, imagem auto idealizada, nossa maneira de reagir a situações “ameaçadoras”

Assim, conhecendo nosso mundo interno, aprendemos a colocar no mundo aquilo que temos de belo, de útil, criativo e que transforma o mundo.  Ao mesmo tempo, vamos conhecendo o que temos que transformar,  redimensionar, diminuir.


Graziela Bergamini, psicóloga e facilitadora de grupos
Vice Presidente da ONG SOS AÇÃO MULHER E FAMILIA