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sábado, 22 de setembro de 2012


Aprendendo a ser razoável

A sábia reação dos adolescentes ao excesso de cobranças


Cristiane Segatto

A mãe de um adolescente de 15 anos anda terrivelmente frustrada. Ela se esforçou para conseguir uma vaga para o garoto num encontro que, segundo ela, é uma oportunidade de ouro. Uma cúpula internacional de estudantes que será realizada na Inglaterra durante as férias escolares do Brasil. Os participantes da tal câmara preparam discursos e se exibem para a plateia de bem nascidos que, segundo o relato da mãe, serão os líderes de amanhã.
Ela imagina a cena completa: o filho poderia tomar café da manhã com um futuro empreendedor de Cingapura, almoçar com uma menina americana que em poucos anos será a principal executiva de uma empresa de tecnologia, conversar com o sucessor de um grupo chinês interessado em investir no Brasil.
Para ela, é pegar ou largar. Para o filho, é largar ou largar.
Ele já tem um programa ideal para as férias. Ir para o sítio da avó no interior de São Paulo. Comer pão de queijo, bolo de fubá, fazer o que quiser, fazer nada.
A mãe não se conforma com a falta de ambição. Acha que o filho está “ficando para trás”, desprezando oportunidades que outros vão aceitar, sinalizando uma vocação para comandado.
Antes que vocês digam que essa mãe precisa de terapia, informo que ela já faz. Se não fizesse, talvez a encrenca fosse maior.
Quando ouvi essa história, fiquei com vontade de conhecer o menino. Sábio garoto.
Fazer afirmações sobre o comportamento desta ou de qualquer outra geração com base na observação de poucos casos é conversa mole. Não tenho a menor paciência para autores que enriquecem com teses capengas sobre a geração X, Y, alfa, beta, gama, delta...
Em qualquer tempo haverá gente de todo tipo. Características pessoais, tendências e preferências que escapam da regra geral. Bocejo quando um texto tenta me convencer de que agora as mulheres são assim; os homens são assado; os jovens são assim, assado.
Vamos ficar no caso específico, sem qualquer ambição de generalizar.
Na minha opinião, esse menino não é um perdedor, “um loser”, aquele tipo de gente abominável para boa parte da cultura americana. É um vencedor. Alguém que está aprendendo a ser razoável. 
A mãe dele parece ser uma daquelas tantas mulheres de meia-idade que armaram para si a pior das armadilhas: a ilusão de que é possível ser perfeita em tudo.Razoável, no sentido de quem demonstra juízo, bom senso.
Ser ótima profissional, ótima mãe, ótima mulher, ótima amante, ótima cozinheira, ter filhos ótimos, um corpo ótimo, uma saúde ótima, uma conta bancária ótima. Ser um sucesso em todos os campos da vida. Como é impossível ser ótima em tudo, o resultado certo é frustração, depressão e todos os males que vêm com ela.
Muitas moças de 30 anos seguem o mesmo caminho, reproduzem a receita do fracasso, na ilusão de estar construindo a estrada para o sucesso. A autocobrança das garotas parece ser avassaladora quando elas alcançam postos de comando nas empresas antes de ter maturidade e experiência para isso. As pobrezinhas saem aos frangalhos da máquina de moer carne e emoções.
Leva tempo perceber que é mais gostoso ser razoável. Ser uma profissional razoavelmente bem sucedida, razoavelmente boa mãe, razoavelmente boa amante, razoavelmente bem cuidada, razoavelmente saudável.
Para muita gente, isso é ser medíocre. Razoável, explica o dicionário, é mais que medíocre. É aceitável, suficiente.
Tenho a impressão de que esse adolescente e outros que conheço querem da vida o que é suficiente. É assim que eles reagem ao excesso de expectativa dos pais (que investem tanto neles) e do mundo (que cobra e espera tanto deles).
Enxergo uma moçada culta e informada que ignora as cobranças sem sequer se abalar emocionalmente. Quando ouvem uma bronca da mãe, respondem:
-- Calma. Relaxa. Respira.
E aí os danadinhos argumentam com a maior tranquilidade.
Os pais não querem perder a pose e a autoridade, mas, lá no fundo, se convencem que os garotos estão certos.
Eu, que sou otimista por natureza, enxergo uma geração (ou parte dela) que viverá – por escolha própria -- com menos dinheiro, menos ostentação, menos pressão, menos comida, menos espaço. Suspeito que serão adultos mais comedidos, razoáveis. E, talvez, mais felizes.
O que você acha? Conte pra gente. Queremos ouvir sua opinião. 

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