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domingo, 26 de janeiro de 2014

Dilemas familiares do século 19 ainda persistem

Na busca pela compreensão de como as pessoas entendem as relações familiares, a historiadora Alina Miranda recorreu ao passado e desenvolveu o estudo “União indissolúvel e perpétua?”: modernidade e expressões familiares à época da secularização dos casamentos (1890-1930). Elaborado na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, a pesquisa revela a existência de um grande atrito entre valores modernos e tradicionais na vida familiar da população, principalmente no que diz respeito ao matrimônio.
Igreja, Judiciário e sociedade entendem a instituição familiar de modos distintos
Os resultados da pesquisa indicam que o fato da Igreja, do Estado, do Judiciário e da sociedade civil compreenderem a instituição familiar de maneiras distintas, contribui para que as pessoas desenvolvam conflitos íntimos no momento de se posicionarem diante de questões relacionadas à família.
Apesar de ter analisado o universo do final do século 19 e começo do século 20, os resultados da pesquisa, segundo Alina, estão em estreita consonância com a contemporaneidade. “Penso ser uma discussão atual, pois vivemos hoje uma transformação na família novamente. Há um questionamento dos valores tradicionais e, ao mesmo tempo, uma resistência a esse questionamento. Mais uma vez, a Igreja está no centro desse conflito, e, tal como no final do século 19, as pessoas não sabem qual discurso acompanhar e qual a consequência de cada um dos pontos de vista que lhes são apresentados.”
Nos quatro anos e meio de pesquisa, os quais envolveram, principalmente, a consulta dos jornais da época, Alina percebeu que, quando havia a formação de estruturas familiares que fugiam ao que era considerado padrão, os integrantes dessas famílias tidas como incomuns viam suas experiências de vínculo serem tratadas com um caráter negativo. Porém, isso vale até hoje. No período analisado, por exemplo, a ideia de união indissolúvel e perpétua começou a ser questionada, mas a separação não era vista com facilidade. Entretanto, até hoje ideia do divórcio é encarada de maneira complexa, visto que muitas pessoas ainda cultivam a crença na constituição de um matrimônio que irá durar até o fim da vida.

Por que o passado?


A opção de Alina por analisar os vínculos afetivos a partir do passado se deu em função do fato de que, no período da implementação da República no Brasil,  houve uma mudança na legislação brasileira. No entanto, como explica a pesquisadora, a mudança legislativa não abrangeu por completo as experiências pessoais, em função da existência de inúmeros modelos de família e da complexidade de cada pessoa. “A mudança legislativa não deu conta da experiência das pessoas, e eu quis observar esses conflitos, explorá-los e refletir com eles sobre a necessidade de reescrita da história, e de como retornar ao passado e explorar as diferentes fontes é um exercício que nos ajuda a enfrentar o presente e a nos posicionarmos diante de questões importantes.”


Isso mostra um dos principais objetivos do trabalho elaborado pela pesquisadora: mais do que uma investigação sobre os conflitos íntimos que envolvem a temática familiar, Alina fez de seu trabalho um esforço para mostrar que o passado não pode ser ignorado. “Antes de qualquer temática, tenho uma preocupação enorme com divulgação da produção do conhecimento historiográfico e de como essa produção é próxima e afeta a nossa vida. Ao contrário do que se costuma afirmar, a história não é passado, não está morta e tem utilidade.”
Foto: Pedro Bolle / USP Imagens
Mais informações: email alinaslz@gmail.com

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