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quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Humanizando dados e narrativas sobre identidades cis e transgênero

Quinto debate do primeiro Diálogos Gênero e Número iluminou a discussão com uma definição precisa da cisnormatividade e a necessidade de nomeá-la para combatê-la

Por Vitória Régia da Silva
10/12/2017

“A lógica da cisnormatividade é a de poder nomear o que quiser, enquanto pessoas trans não têm direito ao próprio nome.” Com essa fala, a pesquisadora Jaqueline Gomes de Jesus deu o tom do quinto debate do Diálogos Gênero e Número, realizado na última terça-feira (5/12) no Parque das Ruínas, no Rio de Janeiro.

A mesa teve como tema “Dados e identidade de gênero” e contou com a participação de Gomes de Jesus, professora do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ), Jacira Melo, diretora-executiva do Instituto Patrícia Galvão e Fernanda Alves, cientista de dados, mediadas por Carolina de Assis, editora da Gênero e Número.



Assis abriu o debate questionando Gomes de Jesus sobre o conceito de cisnormatividade, visto que uma das propostas da conversa era combatê-la por meio dos dados. “Não fomos nós que nos nomeamos como trans; fomos nomeadas pelas pessoas cis. Só que as pessoas cis esqueceram de se nomear também”, disse a pesquisadora, explicando que cisgênero é o indivíduo que se identifica com o gênero que lhe foi designado ao nascer, diferentemente do indivíduo transgênero.

Segundo a autora e organizadora de livros como Transfeminismo: Teorias e Práticas,  “todos os indivíduos, cis ou trans, têm sua identidade de gênero. Mas quando falamos do tema, geralmente nos referimos ao grupo mais discriminado nessa dimensão, que são as pessoas trans.” Por isso, segundo Gomes de Jesus, a identidade de gênero ainda não é considerada um fator relevante para toda a sociedade e órgãos oficiais não costumam produzir dados que levem em conta essa dimensão no perfil de cada cidadão. “É fundamental dar nome à cisnormatividade, para que possamos enfrentá-la”, disse a pesquisadora.

Um dos poucos dados oficiais que apontam para um avanço da população trans brasileira foi compilado pelo Instituto de Educação Superior (INEP) e trata das inscrições no Enem de pessoas transexuais e travestis em 2015 e 2016, medidas a partir da solicitação para usar o nome social na prova. Entre os dois anos, houve um aumento de 9% no número total de inscritos na avaliação, enquanto a requisição do nome social praticamente dobrou. “Isso indica o fortalecimento da reivindicação das pessoas trans ao acesso à universidade”, pontuou a mediadora.

A adoção dessa medida pelo Enem foi muito importante, disse Gomes de Jesus, e “fez uma grande diferença na reivindicação desse espaço ao mostrar que ele poderia ser ocupado por pessoas trans como estudantes, professoras e pesquisadoras, num contexto em que a educação é frequentemente negada para as pessoas trans”.

Gênero e protagonismo
Jacira Melo, diretora-executiva da Agência Patrícia Galvão, destacou como o debate público tem mudado em relação às questões que envolvem a transgeneridade. Ela citou a abordagem apresentada na telenovela “A Força do Querer”, apresentada entre abril e outubro de 2017 pela Rede Globo, da transição de gênero de um personagem interpretado pela atriz Carol Duarte.

Para Melo, o fato de a telenovela mais assistida no Brasil trazer de forma dramática a vivência de uma pessoa trans significa que algo está mudando nas estruturas transfóbicas da sociedade brasileira. “Pelo que tenho acompanhado, a cada dia se abrem mais portas para o diálogo sobre pessoas trans”, disse ela.

Feminista com quase 40 anos de ativismo, Melo tem uma visão positiva sobre os desdobramentos e o futuro do debate sobre gênero no país. “Estamos avançando cada vez mais e não há retrocesso que vá nos barrar. Não tem volta, é por isso que o conservadorismo está tão forte”, afirmou.

A cientista de dados e pesquisadora Fernanda Alves, que pesquisa como dispositivos móveis podem ajudar no combate à violência de gênero e LGBTfobias, pontuou que o protagonismo dos grupos historicamente discriminados deve se dar em todos os espaços.

“As exatas entraram na minha vida como uma provocação para o empoderamento. Não ensinamos a mulheres e meninas a fazerem uso dessas tecnologias. Precisamos dessas ferramentas para ouvir essas pessoas e para que elas trilhem seus caminhos”, disse Alves. “Minha provocação enquanto pesquisadora é que os dados nos dizem algo muito claro, mas precisamos humanizá-los, e uma maneira de fazer isso é ter minorias manipulando a tecnologia.”

Estereotipado é o outro
As participantes finalizaram a mesa tratando da heteronormatividade e sua tentativa de invisibilizar orientações sexuais diversas, principalmente a bissexualidade. “Orientação sexual, assim como identidade de gênero, é uma característica que todo mundo tem, e não é uma coisa visível, mas recai sobre estereótipos”, disse Gomes de Jesus. O estereotipado é sempre o outro, comentou a pesquisadora. “Os homens e mulheres heterossexuais têm um estereótipo, mas somos ensinadas a vê-los como ‘normais’.”

A violência LGBTfóbica também se aferra ao que é possível ser visto, comentaram as participantes da mesa a partir de uma pergunta da plateia. “Como você performar gênero vai ditar a violência que você vai sofrer. Como bissexual, nem na agressão posso nomear o que eu sou”, disse Alves.

O “Diálogos Gênero e Número – Dados, Jornalismo e Arte para falar sobre Direitos” foi produzido pela Gênero e Número, com apoio da Artigo 19, Fundação Ford, Fundo Elas, Instituto Patrícia Galvão e ONU Mulheres. Foram seis mesas de diálogos ao longo do dia, e os textos de cobertura de cada mesa serão publicados pela Gênero e Número nos próximos dias. Clique aqui para saber como foram os outros debates.

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