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sábado, 23 de dezembro de 2017

Matt Damon: papel minúsculo, polêmica gigante sobre o assédio em Hollywood

Em seu último filme, Matt Damon fica minúsculo: uma máquina o reduz a um tamanho de 12 centímetros, tanto que passaria despercebido em qualquer lugar. Talvez seja exatamente isso que ele queira agora que anda no centro de todos os holofotes. Na promoção de Pequena Grande Vida, o ator gerou uma polêmica enorme. Nada a ver com seu trabalho no filme ou sua primeira colaboração com o diretor Alexander Payne. Em tempos de #MeToo e ataques frontais aos assédios sexuais e abusos em Hollywood, as declarações de Damon (Cambridge, 1970) geraram uma chuva de críticas. Mas também houve algum apoio.

A caixa de Pandora foi aberta na ABC News: “Acredito que haja um leque de comportamentos. Existe uma diferença entre passar a mão em alguém e um estupro ou abusar de uma criança, não? Sem dúvida, tudo isso deve ser enfrentado e erradicado, mas não se pode misturar as coisas”. O ator continuou dizendo que certos comportamentos merecem a prisão, enquanto outras são só “vergonhosas e grosseiras”: “Vivemos nesta cultura do escândalo, que precisamos corrigir para poder dizer: ‘Espere aí. Nenhum de nós é perfeito’”. Pouco depois, ao Business Insider, Damon acrescentou: “Estamos em um momento decisivo, e isso é ótimo. Mas acredito que uma coisa que não está sendo dita é que existe um grande número de homens – a maioria daqueles com quem trabalhei – que não fazem essas coisas e cujas não vão ser afetadas”.
O efeito borboleta da era Twitter desencadeou dezenas de reações imediatas, especialmente contra. Minnie Driver, que trabalhou com o ator em Gênio Indomável e teve um relacionamento com ele, respondeu: “Não dá para hierarquizar os abusos. Você não diz a uma mulher que sua dor, porque um cara só lhe mostrou o pênis, é menor do que a de uma mulher que foi violentada [em alusão ao comediante Louis C. K., que segundo Damon já pagou um preço suficiente]”. Alyssa Milano, uma das primeiras a ousar denunciar publicamente os abusos do todo-poderoso produtor Harvey Weinstein, lançou vários tuítes com referência ao ator. “Não estamos indignadas porque alguém apalpou nossa bunda em uma foto. Estamos escandalizadas porque nos fizeram sentir que isso é normal. Um câncer tem várias fases. Algumas são mais tratáveis que outras. Mas continua sendo câncer”, escreveu. Enquanto isso, a estreia de Pequena Grande Vida não importava mais. Vários usuários aproveitaram para brincar sobre como estariam desesperados os assessores de imprensa do ator e do filme. Outros pediram para Damon ficar quieto.

O FANTASMA DE NIRO

Matt Damon diz que é fácil levar uma vida normal e que não o param com frequência na rua. “Mas quem se sai melhor em passar despercebido é o De Niro”, acrescenta de repente. Como? “Quando filmávamos Os Infiltrados, Scorsese me contou que um diretor francês combinou de jantar com ele em Nova York e pediu para convidar De Niro também”. Organizaram uma noitada “esplêndida”, em um restaurante “maravilhoso”. “Depois de uma hora e meia, o cineasta perguntou a Marty: ‘Será que seu amigo De Niro vem?’. E ele: ‘Mas está sentado ao seu lado!’. E eu acredito: quando trabalhei com ele em O Bom Pastor, chegava à filmagem e podia ser um fantasma. Tem a maior capacidade de observação que já vi, por sua habilidade de desaparecer. Seria um espião incrível”.
O olho do furacão não é um lugar inédito para Damon. Em 2015, quando o debate sobre os Oscar girava em torno da falta de inclusão, ele declarou: “Quando se fala em diversidade, isso se faz no casting do filme, não na equipe do show”. E ele ainda se gaba de ser uma estrela atípica de Hollywood, anódina e nada luminosa, que prefere a sombra às manchetes. Garante que leva uma vida tão normal como sua aparência, pela qual frequentemente é escolhido pelos cineastas. “Os paparazis nem perdem tempo comigo”, contava a este jornal há um ano.
No último Festival de Veneza, inaugurado por Pequena Grande Vida, Payne declarou que Damon é o único ator famoso de sua geração “que cabe em qualquer papel”. Não por acaso é considerado o intérprete mais rentável de Hollywood. De fato, atualmente aparece nas telas ao mesmo tempo como o pai assassino de Suburdicon, de George Clooney, e como o normalíssimo Paul Safranek, protagonista de Pequena Grande Vida. O homem aceita ser diminuído junto com sua mulher para diminuir seu consumo diário, ter uma vida de mais privilégios e, de quebra, salvar o meio ambiente. Algo, claro, dá errado.
“Foi o maior papel pequeno que já tive. Eu adorava a ideia de que, quando fosse miniaturizado, meus problemas também seriam”, contava Damon em um encontro com jornalistas no Festival de Veneza, realizado em setembro, semanas antes de o escândalo dos abusos em Hollywood se tornar público. Payne e ele se conheceram 15 anos atrás, em um encontro de vários profissionais do cinema. Na ocasião, Damon aproveitou para deixar claro ao cineasta: “Adoraria trabalhar com você.”
O diretor de Sideways e Nebraska passou anos tentando levar adiante sua primeira incursão na ficção científica. Quando o ator Paul Giamatti saiu do projeto, lembrou-se daquela conversa. O problema era que Payne precisava de um cara comum. Mas, logo antes, Damon já tinha na agenda interpretar o oposto: o musculosíssimo espião Jason Bourne.
“Ele me mandava mensagens: ‘Espero que esteja comendo marshmallow’”, ri o ator. “O que eu gosto em você é que não parece uma estrela de cinema”, lembra que o diretor lhe disse. E ele mesmo se alegra disso. “Há astros do cinema tão belos que é difícil aceitá-los no papel de uma pessoa normal. Precisam trabalhar muito contra seu aspecto; mas se você é versátil pode ir para muitas direções”, diz Damon.
“É muito fácil trabalhar com o Alexander. O dia segue seu curso, ninguém entra em pânico, ninguém levanta a voz, e isso não é tão comum. Lembra que, em uma filmagem de Clint Eastwood, um assistente pessoal deu um grito. Ele aproximou e disse: ‘Não faça isso. Não precisa muito para deixar todo o mundo nervoso”, acrescenta o ator. A filmagem de Pequena Grande Vida estava tão encaminhada que quase não havia espaço para a improvisação: “Alexander é muito meticuloso sobre o que quer. Trabalha três anos em um roteiro, por isso é quase como fazer uma peça de teatro, você respeita cada vírgula”.

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