Nenhum.
Sim. Nada. Zero.
Que estamos vivendo períodos insanos, sabemos e não é de hoje. Mas as pessoas sempre dão um jeito de redefinir o verbete insanidade semana após semana, graças às redes sociais. Qual não foi minha surpresa ao perceber que o escândalo da vez não eram os uniformes das escolas da rede pública municipal de São Paulo liberados para propaganda, que vão transformar nossos filhos em outdoors ambulantes, nem as crianças invisíveis que passam o dia vagando pelas ruas usando drogas. Não, nada disso. A polêmica da semana estava centrada na distribuição desses bonecos, que na minha época de criança eram chamados de “bebezinhos”, para as crianças pobres de algumas cidades do interior de Goiás.

Além de questionar o fato de os bonecos terem vagina e pênis, onde é que já se viu uma coisa dessas?, alguns pais também se revoltaram com o fato de muitos bonecos “meninos”, ou seja, aqueles com pipi, estarem vestidos com roupas cor-de-rosa. Na verdade, todos bonecos doados vestiam macacões parecidos, com o símbolo da ONG que fez a distribuição no peito. Dá para perceber que foram confeccionados com retalhos e o resultado final foram peças parecidas, feitas de um mix de tecidos brancos, amarelos, rosas e azuis. Mas, verdade seja dita, a roupa de alguns bonecos meninos era realmente cor-de-rosa. Um absurdo!, gritaram muitos, inclusive alguns vereadores da cidade de Jataí, que solicitaram que os mais de 1.600 bonecos distribuídos na cidade fossem recolhidos. As crianças pobres ficaram sem presente, mas pelo menos agora elas sabem que azul é cor de menino e rosa é cor de menina, e isso é mais importante do que ganhar um presente do Papai Noel! Prioridades, senhores. Melhor achar que o “Bom Velhinho” de bom não tem nada do que ganhar um boneco transexual. Sim. Chegaram a dizer que os bonecos eram “trans” e que usavam batom. Até as pedras sabem que esses brinquedos saem de fábrica com os lábios rosados, afinal representam bebês saudáveis, felizes e corados.

O que fica desse imbróglio todo?
A certeza de que muitos acreditam que a masculinidade é algo frágil, frágil, algo ameaçável por uma cor. A ideia de que crianças podem decidir sua orientação sexual baseadas pela roupa usada por um boneco ganho na infância. Alerta de spoiler: somos mais complexos que isso.
O que passa batido?
A oportunidade de usar os bonecos com pênis e vagina e mostrar para as crianças as diferenças anatômicas entre meninos e meninas. Os pais que não quiseram saber dos bonecos também perderam uma ótima chance de ensinar sobre a autonomia sobre o próprio corpo, consentimento e abuso sexual. “Vamos brincar com seu boneco novo, filho? Deixa eu aproveitar para te dizer que ninguém, só a mamãe (o papai, a madrinha, a avó, troque pela pessoa de confiança do seu círculo) pode mexer no seu pipi/pepeca (use o nome que lhe aprouver). E se alguém insistir você tem que contar para a mamãe/papai!”
O que ficou claro, claríssimo como água?
A certeza de que andamos de marcha à ré e em alta velocidade rumo ao obscurantismo e que não somos o país que mais mata LGBT´s no mundo à toa. Ensinamos o preconceito desde cedo para as nossas crianças. Afinal, qual seria o problema se os bonecos realmente fossem trans?