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sábado, 25 de outubro de 2014

Todas as garotas numa só – Lena Dunham

Em seu novo livro, recém-lançado nos Estados Unidos, a atriz americana 
se afirma como representante de uma nova geração de mulheres

JÚLIA KORTE
24/10/2014
MODELO MODERNO Lena Dunham este ano, na França. Ela faz sucesso na TV,  com a série Girls,  e acaba de escrever um livro que mistura biografia e autoajuda (Foto: Patrick Fouque/Paris Match/Contour by Getty Images)

MODELO MODERNO
Lena Dunham este ano, na França. Ela faz sucesso na TV, com a série Girls,
e acaba de escrever um livro que mistura biografia e autoajuda
(Foto: Patrick Fouque/Paris Match/Contour by Getty Images)
A atriz americana Lena Dunham ficou famosa em 2012, quando estreou o seriado Girls no canal fechado HBO. Protagonista e roteirista, ela transpôs para a ficção os desafios de garotas inteligentes e descoladas de 20 e poucos anos que enfrentam o início da vida adulta em Nova York. Era uma espécie de Sex and the city para mulheres recém-saídas da faculdade. Como se sustentar em empregos que parecem becos sem saída em vez de portas para um futuro promissor? Como aturar namorados que só pensam neles mesmos ou aspirantes tão desqualificados que dá vontade de sair correndo? E outras questões que atormentam as mulheres antes dos 30 anos. E depois. A série, cuja quarta temporada será exibida no ano que vem, tornou-se um sucesso de crítica e público, por retratar, de maneira original, dilemas universais das mulheres jovens – estejam elas no Brooklyn, em Nova York, ou na Mooca, em São Paulo. Agora, Lena sai da ficção para narrar experiências reais num livro que chegou às livrarias americanas há três semanas.
Em Not that kind of girl, que será lançado no Brasil em novembro, pela Editora Intrínseca, com o título Não sou uma dessas: uma garota conta tudo o que “aprende”, Lena conta, do alto de seus 28 anos, o que aprendeu sobre amor, sexo e trabalho. É uma espécie de autoajuda disfarçada de biografia, fórmula que tem tudo para fazer sucesso. No livro, ela conta passagens constrangedoramente íntimas de sua vida, para apontar cobranças impostas às mulheres de sua geração: alcançar a carreira e o corpo perfeitos e lidar, em silêncio, com antigos preconceitos que teimam em se insinuar nos relacionamentos e no trabalho. “Alguém que critica os valores sociais ajuda a repensá-los”, afirma o psicólogo Aurélio Fabrício Torres de Melo, da Universidade Mackenzie, em São Paulo. “Vozes como essa aparecem em momentos em que modelos antigos começam a se esgotar.” 
AUTORAL Capa do livro  de Lena Dunham, lançado há três semanas nos EUA.  Os ensaios falam  de amor e sexo,  trabalho, amizade  e percepção  do corpo  (Foto: Reprodução)

AUTORAL
Capa do livro de Lena
Dunham, lançado há
três semanas nos EUA.
Os ensaios falam de
amor e sexo, trabalho,
amizade e percepção
do corpo
(Foto: Reprodução)
Lena quer ser a voz da geração de mulheres conhecida como geração Y, que nasceu entre 1978 e 1998. Elas não carregam bandeiras de transformação muito definidas, como os jovens da década de 1960, que pregavam o amor livre e o fim das repressões sociais e culturais. Ou dos anos 1970, que clamavam por mudanças políticas. As Lenas querem o direito de ser elas mesmas. Estão às voltas com padrões corporais opressivos, parceiros potencialmente agressivos e elevadas expectativas pessoais, quando se trata de sexo, amor e carreira. Ao mesmo tempo, têm um grau de liberdade e um potencial de realização pessoal inéditos na história das mulheres. Tudo isso, naturalmente, embalado pelo mundo hiperconectado, hiperopinativo e hiperdolorido da internet, que torna tudo hipercomplicado.
A ambição de representar esse grupo de vanguarda planetário foi revelada com essas mesmas palavras por Hannah, a personagem de Lena em Girls, já no primeiro episódio da série: “Talvez eu seja a voz da minha geração. Ou, pelo menos, a voz de uma geração”. Estava certa. A série recebeu dois Globos de Ouro, de Melhor Atriz e Série de Comédia. No ano passado, Lena alcançou o status de personalidade global na lista de pessoas influentes, publicada anualmente pela revista americana Time. Seu humor autoirônico ganhou simpatia instantânea das variadas tribos urbanas, que a transformaram numa espécie improvável de musa. Seu livro – inspirado na obra de autoajuda Having it all, escrita em 1982 pela jornalista americana Helen Gurley Brown – coroa sua globalização. Lena diz ter encontrado no livro antiquado e bem-comportado de Helen uma mensagem essencial à jovem rebelde de 20 anos que ela era quando o leu pela primeira vez: uma mulher pode se tornar poderosa e sexy, não precisa ter nascido assim. Era o que a adolescente gordinha, ansiosa e deslocada precisava ouvir.

A lição aprendida por Lena – e grande parte da razão de seu sucesso entre as jovens – é que ela não precisa ser nada especial para ser respeitada ou para se respeitar. Basta ser ela mesma, com suas dúvidas, certezas provisórias e incoerências. “Os jovens se sentem aliviados diante de um modelo que exige menos perfeição”, diz a psicóloga Paula Peron, da PUC-SP.  Essa sensação de alívio encontra eco até entre mulheres bemsucedidas de sua geração, como a atriz britânica Emma Watson, de 24 anos. “As mulheres jovens são bombardeadas com imagens de como ser a mulher perfeita”, disse Emma. “Aí, Lena aparece e mostra na TV quão imperfeita ela é, e também quão desajustados são seus personagens. Esse é o motivo do sucesso dela.” Emma se tornou embaixadora da Boa Vontade da ONU para Mulheres e está empenhada em conscientizar os homens de que eles também devem lutar pelo direito à igualdade das mulheres.

A própria Lena é defensora dos direitos femininos em sua vida pessoal. O assunto está presente em seus tuítes e nas fotos que publica no Instagram. Na série de TV e no livro, sua militância é mais sutil. Ela prefere usar as experiências para provocar reflexão. A exposição frequente de sua nudez no programa da televisão é uma maneira de desafiar padrões de beleza. Vários quilos além das modelos longilíneas e das atrizes esquálidas, ela causa estranheza ao exibir pneuzinhos e coxas gordas sem pudor. No livro, diz que o caminho até a aceitação de seu corpo não foi um passeio. “Não era obesa, mas um cara mais velho disse no colégio que eu parecia uma bola de boliche vestida com um chapéu”, escreve. Conta que o medo de se tornar viciada em contar calorias fez com que relaxasse demais com a alimentação e ganhasse peso. “As jovens não são maduras para entender que padrões de perfeição são só fantasia”, diz a psicóloga brasileira Andrea Calçada, da Universidade Nacional de Lomas de Zamora, na Argentina. “Quando elas se identificam com uma personagem que foge dos padrões, é mais fácil aceitar-se.”

Jaqueline Ferreira  (Foto: Rogério Cassimiro/ÉPOCA)
(Foto: Rogério Cassimiro/ÉPOCA)
Outro dilema retratado por Lena no livro – e vivido no dia a dia pelas garotas de sua geração – é o embate entre os limites impostos pela biologia e as novas demandas sociais. Como respeitar o relógio biológico, ter filhos no auge da fertilidade, antes dos 30 anos, e, ao mesmo tempo, estudar, trabalhar e alcançar o esperado sucesso profissional? Lena diz ter se sentido pressionada ao ser diagnosticada com endometriose, faz alguns anos. Se não for tratada, essa doença uterina pode levar à infertilidade. “Desde que me entendo por gente, sempre quis ser mãe”, escreve Lena. Tendo contado isso, ela narra um sonho em que não dá conta de cuidar dos próprios animais de estimação. Talvez ainda não seja a hora para ela... A radialista paulistana Jaqueline Ferreira, de 29 anos, passou por uma situação parecida ao receber o diagnóstico de endometriose há dois anos. “A médica disse que eu deveria engravidar o mais cedo possível”, diz Jaqueline. “Estava acabando a faculdade, trabalhando exaustivamente, não tinha uma relação estável nem estrutura alguma para conceber uma criança.” Diz que resolveu seguir com seus planos e lidar com a possível infertilidade quando (e se) quiser ter filhos. No futuro.

Quando se trata de tabus sexuais, Lena mostra que até garotas como ela, que têm uma consciência profunda da necessidade de ser respeitadas, podem ter dificuldade em fazer valer suas vontades. Ela afirma que um parceiro a enganou e não usou preservativo numa transa. Ela só descobriu depois, quando viu a camisinha pendurada num vaso. Alguns capítulos à frente, diz ter demorado muito tempo para admitir para si mesma que aquilo que acontecera naquela noite fora mais que um desrespeito profundo. Tratara-se, segundo ela, de violência sexual. O rapaz se aproveitara dela, que havia misturado álcool e drogas, para fazer sexo sem consentimento. Ela afirma que foi vítima de um estupro e tinha dificuldade em aceitar isso. É algo próximo da experiência de muitas garotas, que, frequentemente, descobrem que pode ser enorme a distância entre a expectativa de sexo idealizada por elas e o que acontece na prática com alguns parceiros.

Nesse mesmo tópico, o sexo imperfeito, seu livro contém relatos engraçados. A história de Lena sobre a perda de sua virgindade oscila entre o trágico e o cômico. “Ele estava nervoso. E, num consentimento pela igualdade entre os sexos, nenhum de nós gozou.”

Érica Paschoal (Foto: Rogério Cassimiro/ÉPOCA)
(Foto: Rogério Cassimiro/ÉPOCA)
Para Lena, a idealização das relações afetivas e sexuais pode ser ainda maior para a nova geração, graças à internet. Ela chegou a essa conclusão depois de terminar um de seus primeiros relacionamentos, que se desenrolara inteiramente no mundo virtual. A dor do rompimento foi real e, provavelmente, desproporcional, diz ela. A facilidade da comunicação virtual aumentara tanto a convivência que a relação se tornara intensa demais. E implodiu antes mesmo de ter começado. A publicitária Érica Pascoal, de 23 anos, chegou a uma conclusão parecida, também sofrendo. Ela quase se mudou de Rondônia, onde morava, para Porto Alegre, para viver com uma garota que conhecera num congresso. O relacionamento à distância durou um ano e terminou antes que ela fizesse as malas. “A gente podia se falar o tempo todo. Há um desgaste”, diz ela.

Os temas abordados por Lena vão além dos desafios do coração e de manter padrões estéticos. Ela também trata da maneira como a geração Y encara o mundo do trabalho. Eles têm muito ímpeto para fazer e transformar. Também têm uma reserva em se doar à carreira e abrir mão de outras ambições pessoais. Lena diz que sua ânsia por realizar seu sonho de ser escritora a deixava prostrada. Na série Girls, esse conflito aparece de maneira clara. Seu personagem patina até encontrar um trabalho que considera adequado a suas aspirações. Quando encontra, torna-se obsessiva, o tipo de pessoa que não queria ser. Percebeu que precisava repensar sua definição de sucesso e encontrar novas formas de trabalhar.


Flávia Costa (Foto: Rogério Cassimiro/ÉPOCA)
(Foto: Rogério Cassimiro/ÉPOCA)
Foi o que aconteceu com Flávia Costa, de 32 anos. Ela pediu demissão de um trabalho em que as cobranças passavam do limite que ela considerava saudável. Tornou-se freelancer e, hoje, diz estar  feliz. “Sou eu que escolho meus projetos. Se preciso trabalhar no final de semana ou até mais tarde, não sofro, porque a escolha é minha”, diz. Para a geração de Lena e Flávia, o poder de decisão tem de estar na mão delas. “Esses jovens são mais apegados à liberdade de escolha que à formalidade das organizações”, diz Anderson Sant’Anna, da Fundação Dom Cabral, em Minas Gerais.

Ao discutir as características e as angústias vividas por garotas como as brasileiras Flávia, Érica e Jaqueline, Lena deixa de ser um tipo específico de garota, como sugere no título de seu livro, para se tornar todas elas: divertida, ansiosa, amorosa, complexa, questionadora. A cara de toda uma geração.

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